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quarta-feira, 22 de abril de 2015

EUA respondem com escalada no conflito no Iêmen

Nikolai Bobkin, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Consequências do bombardeio saudita em áreas civis em Sanaa, Iêmen
Os EUA estão expandindo sua participação nos eventos no Iêmen. Há notícias de que um porta-aviões norte-americano foi despachado para a costa do Iêmen dia 20/4/2015, para se juntar a outros navios americanos preparados para bloquear quaisquer carregamentos de armas que o Irã envie aos rebeldes xiitas “houthis” que lutam no país. O USS Theodore Roosevelt e seu navio-escolta, o USS Normandy, que transporta mísseis Cruisers teleguiados, deixaram o Golfo Pérsico dia 19/4/2015, em rota para o Mar da Arábia, para ajudar a impor o bloqueio. Os navios vão-se juntar à força naval de sete navios de guerra e três embarcações auxiliares implantados no Mar da Arábia, Golfo de Aden e estreito de Bab-el-Mandeb.

Formalmente, a missão visa a garantir que as rotas marítimas vitais da região permaneçam abertas e seguras. A declaração emitida pelo Centro de Relações Públicas do Comando das Forças Navais dos EUA enfatiza que os Estados Unidos continuam comprometidos com seus parceiros regionais e trabalham para manter a segurança no ambiente marítimo.

Mas o verdadeiro propósito do bloqueio naval é impedir o acesso de navios iranianos aos portos iemenitas e privar o movimento Ansarullah [“houthis”, para os sauditas] de qualquer ajuda que o Irã lhe envie.

A Arábia Saudita não está à altura da tarefa. E mais uma vez, lá estão os EUA postados como reforço, ao lado dos inimigos do Irã. Riad sente-se muito confortável sob a proteção dos EUA.

Essa é evolução perigosa, que pode agravar a situação. A Casa Branca deu mais um passo irrefletido, apressado e temerário, na direção de aprofundar o apoio que dá à Arábia Saudita em seu confronto com o Irã. Por alguma razão, o governo dos EUA parece ter certeza de que as tensões regionais exacerbadas, como resultado do conflito no Iêmen, jamais ameaçarão o acordo nuclear com o Irã. Teerã pensa diferente.

MRE do Irã, Mohammad Javad Zarif
NYTimes - 20/4/2015
É tempo de os EUA e seus aliados escolherem entre cooperação e confrontação – como escreveu o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, em referência às negociações nucleares em curso, em coluna assinada no New York Times“Mensagem do Irã”, de ontem, 20/4/2015:

Chegamos a um acordo sobre os parâmetros para eliminar qualquer dúvida sobre a natureza exclusivamente pacífica do programa nuclear do Irã” – escreveu Zarif; o povo iraniano fez sua parte para facilitar um acordo; agora, a responsabilidade recai sobre os EUA e seus aliados, para levar o processo à conclusão que interessa a todos.

É hora de os EUA e seus aliados ocidentais escolherem entre cooperação e confrontação, entre negociações e arrogância, entre acordo e coerção – escreveu o ministro iraniano.

Depois de lançada a campanha aérea contra o Iêmen, diminuiu consideravelmente a intensidade dos ataques aéreos contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Com a unidade de combate USS Theodore Roosevelt deixando a posição original, o Pentágono realmente parou de lutar contra os militantes islâmicos do Estado, e passa agora a participar da operação contra os xiitas do movimento Ansarullah [“houthis”, para os sauditas]. Aquela unidade de combate naval era a principal força de ataque na operação contra o Estado Islâmico. A Casa Branca prevê que as tensões entre a Arábia Saudita e Irã entrem em escalada.

No Iraque, Riad adotou a política de incitar à violência grupos políticos, tribos e clãs, atiçando uns contra os outros, para assim empurrar o país para um atoleiro de caos e tumultos, depois que as forças norte-americanas partiram.

O presidente Obama diz que os Estados Unidos teriam “renovado nossas alianças da Europa para a Ásia”. Não há motivo algum para considerar que isso seja relevante no caso do Oriente Médio. Como antes, os Estados Unidos baseiam-se em alianças militares com Israel e Arábia Saudita. Nada faz crer que os progressos alcançados nas negociações nucleares com o Irã levarão a reduzirem-se as tensões, no que tenha a ver com outros problemas regionais. Nada há, à vista, que sugira normalização das relações EUA-Irã.

Iêmen: resultado do bombardeio Saudita em Saada
16/4/2015
No Iêmen, o governo dos EUA apoiam a operação militar contra os xiitas que controlam a maior parte do país e dão combate aos terroristas da Al Qaeda. É verdade que os Estados Unidos não põe coturnos em solo, como fazia no início do século. Mas a estratégia não mudou. Apenas que, agora, Washington terceirizou o trabalho sujo.

A perspectiva de algum excelente acordo nuclear com o Irã continua puramente hipotética. Dever-se-iam criar novas formas de cooperação regional, para que o acordo fosse ponto de virada no processo de produzir paz para o Oriente Médio. Os americanos acreditam que conseguiriam levar Teerã a esquecer os seus próprios interesses nacionais. O “ocidente” reluta em está relutante em levantar as sanções, porque sem elas perderia influência sobre Teerã. Todas as propostas e iniciativas do Irã para melhorar a segurança regional são recusadas sem sequer receberem qualquer consideração séria.

Dia 14/4/2015, o Conselho de Segurança da ONU impôs um embargo de armas contra os rebeldes do movimento Ansrarullah (“houthis”, para os sauditas e para a empresa-mídia em todo o mundo) e incluiu em sua lista negra, o nome do filho de um ex-presidente do Iêmen e atual líder dos “houthis”. A resolução insiste que os “houthis”, que têm base no noroeste do Iêmen, para que entreguem as áreas que tomaram, bem como suas armas, inclusive “sistemas de mísseis” (sic). Governos árabes declararam que a resolução teria sido “vitória diplomática”.

A resolução permite aumentar a pressão sobre o movimento Ansarullah. Mas a Rússia não está satisfeita com a tal resolução. De acordo com o Vice-Chanceler russo, Gennady Gatilov, é resolução tendenciosa, que condena muito enfaticamente os “houthis”. Para Moscou, a resolução não facilita nem promove as medidas necessárias para superar a crise no Iêmen. O texto não considerou as propostas da Rússia, não exige um cessar-fogo, não considera devidamente as consequências nem a urgência de declarar-se uma pausa para ajuda humanitária. E não fez adequada referência às sanções.

Ban Ki-Moon e Javad Zarif (E) 19/1/2014
De modo geral, o Irã fez eco à posição dos russos. O governo iraniano enviou carta ao Secretário-Geral da ONU, com propostas sobre a gestão da crise no Iêmen. O Ministro das Relações Exteriores do Irã, dia 17/4/2015, entregou carta ao Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, na qual os iranianos oferecem plano de paz de quatro pontos, para o Iêmen. O plano, que o chanceler Mohammad Javad Zarif anunciou no início deste mês, prega cessar-fogo imediato e fim de todos os ataques militares estrangeiros; assistência humanitária; retomada do amplo diálogo nacional e “estabelecimento de um governo inclusivo, de unidade nacional”.

É imperativo que a comunidade internacional envolva-se mais efetivamente no trabalho de pôr fim aos absurdos ataques aéreos e de estabelecer-se um cessar-fogo, que permita que o povo do Iêmen receba assistência humanitária e médica, e que se restaurem a paz e a estabilidade no país mediante diálogo e reconciliação nacionais sem pré-condições – escreveu Zarif naquela carta.

De modo algum o Iêmen pode tornar-se trampolim para que a Arábia Saudita ataque o Irã. Se os americanos prestassem, pelo menos, alguma atenção ao plano do Irã para uma solução pacífica no Iêmen, não estariam hoje obrigados a dar conta de uma situação criada pelos seus “parceiros” árabes excessivamente agressivos.

  Barack Obama e Salman Al Saud, rei da Arábia Saudita
Os EUA devem olhar para o futuro, não para o passado. Os EUA têm feito mais mal que bem ao Oriente Médio. O presidente Obama gosta de repetir que, quando chegou ao poder, havia mais de 180 mil soldados dos EUA no Iraque e no Afeganistão, e que agora o número de soldados é inferior a 15 mil. Muito mais importante seria reconhecer que nenhum desses países conseguiu, até hoje, pôr fim a guerras civis.

Os EUA gastaram mais de 800 bilhões na “Operação Liberdade Duradoura”. A situação do Iraque não melhorou. Não há, à vista, qualquer possibilidade de normalização. No Iraque, os jihadistas do Estado Islâmico controlam um terço do território do país, além de grandes áreas também em território sírio. É bem real a ameaça de que se alastrem por toda a região os ataques daquele grupo terrorista.

Depois de terem desencadeado mais uma guerra agora no Iêmen, os EUA e seus aliados só fazem acrescentar gasolina ao fogaréu.

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[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic CultureTroubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

domingo, 19 de abril de 2015

Um Iêmen Revolucionário


Quatro anos depois da Revolução Iemenita, quais
as chances de outro movimento democrático?


16/4/2015, [*] Bilal Zenab AhmedJacobin Magazine
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dezembro de 2011, Marcha no Iêmen
(shehabart1 / Flickr)
Semana passada, recebi mensagem perturbadora de um amigo no Iêmen:

A situação é desesperada – disse ele. – Os bombardeios continuarão por, no mínimo, outros seis meses. Vão faltar itens básicos. Meus filhos estão assustados e eu ainda não sei o que fazer.

Mensagens como essa têm sido frequentes, assim como a correspondente ira. Como é possível que, em apenas cinco anos, tenhamos ido de um impressionante movimento revolucionário com base ampla na sociedade iemenita, para os jatos sauditas a bombardearem grandes áreas do país, enquanto os houthis (“houthis” é o modo como os sauditas chamam o movimento Ansarullah” [1]) consolidam-se no poder?

Por causa da posição marginal do Iêmen – é o país mais pobre de todo o mundo árabe –, há agora poucos especialistas confiáveis, que falem inglês, no país. Depois do declínio dos governos revolucionários durante a Guerra Fria, já praticamente não havia qualquer interesse geoestratégico que justificasse a tensão ocidental.

Resultado disso, há hoje poucos especialistas não militares com suficiente conhecimento sobre o Iêmen para que se possa levar a sério o que dizem.

A maioria deles mal têm tempo para escrever, poucas linhas que sejam, sobre o que está acontecendo. Contatos com editores e jornalistas no Iêmen acontecem, quase sempre, nos seguintes termos:

PERGUNTA: O que você pode nos dizer sobre os houthis/ Ansarullah?

RESPOSTA: Os houthis/Ansarullah são uma aliança de militantes tribais com base em Sa’ada, um governorado no norte do Iêmen. Os analistas nos veículos dominantes só fazem repetir que não passam de agentes do Irã. Mas a história é mais complicada.

Muita gente acredita que o deposto presidente Ali Abdullah Saleh sentiu-se ameaçado pelo vasto apoio religioso e tribal dado a Hussein Badreddin al-Houthi, o líder da organização “Juventude Crente” (JC), que havia antes dos houthis/Ansarullah e da qual o movimento dos houthis/Ansarullah brotou, a JC começou a operar no início dos anos 1990s, preocupada, sobretudo, com projetos educacionais e culturais para fazer reviver o xiismo zaidista.

Mas Saleh temia que os houthis/Ansarullah viessem a declarar al-Houthi um novo Imã xiita zaidista e que ele passasse a comandar uma revolução tribal que começaria no norte do Iêmen. Dia 18/6/2004, a organização “Jovens na Grande Mesquita de Sana’a” organizaram manifestações, em repúdio à invasão do Iraque pelos EUA e à repressão, por Israel, contra a Intifada de Al-Aqsa. Aquelas manifestações foram parte de uma onda muito maior de protesto dos iemenitas.

Em resposta, as forças de Saleh atacaram. Mataram grande número de seguidores de al-Houthi, ofereceram um prêmio a quem o capturasse e deflagraram amplas operações de combate no norte do Iêmen.

Mas a estratégia saiu-lhes pela culatra. Al-Houthi foi assassinado em setembro de 2004, e seus seguidores organizaram-se em torno dos irmãos dele. O movimento rapidamente se tornou uma insurgência armada, ativa num prolongado conflito, que o Departamento de Estado dos EUA, em 2010, chamou de A Guerra de Sa’ada. Adiante, participaria no que se tornou conhecido como a Revolução Iemenita de 2011 – que aconteceu e cresceu no bojo do que se chama “Primavera Árabe”.

Abdrabbuh Mansour Hadi
“Os houthis” tomaram o poder como um dos resultados do fracasso do governo pós-insurreição que EUA e Arábia Saudita organizaram em torno do ex-vice-presidente, Abdrabbuh Mansour Hadi. O governo de Hadi arrastava com ele vários problemas: não tinha qualquer legitimidade democrática e não dava sinal de qualquer interesse em atender as demandas do levante. Foi convocada uma Conferência para Diálogo Nacional [orig. National Dialogue Conference   (NDC)],  para construir um adequado contexto de democracia. Os houthis / Ansarullah afirmam que o que fazem hoje visa a pôr em prática o que ficou decidido naquela NDC, com o objetivo de constituir um novo governo.

PERGUNTA: Mas o Irã apoia os houthis/ Ansarullah?

RESPOSTA: Não é assim tão simples. Parece que os houthis/ Ansarullah expandiram seus laços com o Irã. Mas tudo sugere que isso só tenha acontecido muito recentemente. Esses laços absolutamente nada têm a ver com o sucesso dos houthis/ Ansarullah no processo de conquistar o controle sobre grande parte do país, que é resultado de uma bizarra aliança com Saleh, que deu aos houthis/ Ansarullah acesso aos recursos militares e de aliados do antigo presidente. Circula também [do New York Times para o Haaretz] o mito de que os houthis/ Ansarullah seriam um “Hezbollah iemenita”. É “notícia” inventada; é simplesmente mentira.

O que se sabe é que há muito tempo Saleh dizia aos EUA que o Irã estaria ajudando os houthis/ Ansarullah, mas os diplomatas jamais acreditaram nele. Telegramas diplomáticos distribuídos por WikiLeaks provam isso. Um dos telegramas, da Embaixada de EUA-Canadá em Sana’a, com data de 9/12/2009, diz:

Ao contrário do que diz o Governo da República do Iêmen (GRI), que o Irã estaria armando os houthis, a maioria dos analistas informam que os houthis obtêm suas armas no mercado negro iemenita e, até, dos militares do próprio Governo da República do Iêmen.

Até hoje os houthis/Ansarullah obtêm muitas de suas armas dessas fontes, independente de qualquer possível apoio que recebam do Irã. A mais brutal ironia é que praticamente todas as armas que estão hoje em mãos dos houthis/Ansarullah foram fabricadas na Europa e nos EUA.

Nada impede que o Irã esteja realmente apoiando os houthis/Ansarullah. Talvez esteja. Mas os fatores que realmente permitiram que se constituísse o impressionante arsenal com que eles hoje contam foi a proliferação de armas, veículos, munição e equipamentos militares de todo tipo, de fabricação euro-norte-americana, em todos os mercados negros de todo o Oriente Médio; além, também, claro, de vendas oficiais dos mesmos equipamentos, feitas ao exército iemenita. De fato, ainda que o Irã esteja ajudando o grupo, o que não é fato confirmado, o mais provável é que, para fazê-lo, os “ajudadores” explorem as mesmas vias e redes de contrabando pré-existentes.

PERGUNTA: E quais os interesses dos EUA no país?

RESPOSTA: Os EUA têm algum interesse “de grupo” em mostrar que combatem a al-Qaeda na Península Árabe [orig. al-Qaida in the Arabian Peninsula (AQAP), principalmente porque o grupo opera em áreas próximas à Arábia Saudita. A AQAP foi formada no Iêmen em janeiro de 2009, depois que a al-Qaeda na Arábia Saudita [orig. al-Qaida in the Saudi Arabia (AQAS)] foi efetivamente expulsa para o outro lado da fronteira depois de vários ataques.

AQAS fundiu-se com a al-Qaeda no Iêmen. Desde o nascimento da AQAP, e especialmente depois da prisão de um de seus principais especialistas em explosivos Ibrahim Hassan Tali al-Asiri, agentes norte-americanos e britânicos de contraterrorismo focaram-se em destruir o grupo, servindo-se de vários recursos, inclusive drones armados. Para isso, deixaram de lado qualquer atenção a outros terríveis problemas relacionados à segurança humana no Iêmen, como a desesperadora falta de água.

O Iêmen enfrenta catastrófica falta d'água
A única verdade indiscutível é que o Iêmen está sob ataque. Sem qualquer visão por trás desses ataques, parece óbvio que o país continuará a deteriorar-se. Quanto às potências estrangeiras, ou mudam sua abordagem ou acabarão expulsas de lá por algum movimento de libertação nacional. A expulsão seria muito prejudicial aos interesses dos EUA, no longo prazo. Diz-se que se emprega hoje a mais terrível violência, porque se trataria de impedir um arranjo revolucionário que se pode espalhar para todas as monarquias do Golfo e destruir toda a ordem regional.

Os especialistas não saem da mídia, e nos intervalos só trocam de terno, para a próxima entrevista. As perguntas, também sempre repetidas, só dizem respeito, infalivelmente, a supostas “rixas” entre sunitas e xiitas. Ninguém fala de disputa mais ampla entre Arábia Saudita e Irã. Os especialistas mal conseguem disfarçar o mal-estar e lá ficam, sempre repetindo variações sobre o seguinte:

Temos de lembrar que o Iêmen é país onde, historicamente, nenhum dos grupos religiosos jamais mostrou antagonismo declarado contra o outro. Verdade é que a Arábia Saudita apoiou um Imanato xiita zaidista durante a Guerra Civil no Norte do Iêmen. Saleh ajudou a disseminar o wahabismo sunita.

O sectarismo é fenômeno recente, resultado de três fatores:

1) é uma das consequências regionais das ações dos EUA no Iraque;

2) é um dos efeitos das doutrinas, disseminadas pelos sauditas, de uma suposta supremacia do sunismo; e

3) é efeito da tendência, que se constata no neoliberalismo, de aprofundar as identificações sectárias e todas as linhas de divisão. O sectarismo é uma combinação de intervenção militar com intensos processos de interferências culturais mútuas, não só no Iêmen, mas em toda a região mais amplamente.

Não significa que o Iêmen fosse, antes, um paraíso sem sectarismos. Significa, só, que a tensão sectária no país, como se a vê hoje, é efeito de fatores bem tangíveis.

O Iêmen nunca foi um paraíso sem sectarismos
A identificação sectária acabou por implicar acesso garantido à segurança, a bens e serviços, nos períodos de instabilidade doméstica e escassez de recursos. As tensões também sofreram a influência da violência em curso em outras regiões (na Síria, por exemplo).

Nada disso foi alguma espécie de fatalidade ou seria inevitável. O que se vê hoje no Iêmen é o resultado de decisões políticas tomadas pelos muitos atores presentes no Oriente Médio.

E vai e vem, entrevista após entrevista, especialista após especialista, o nonsense continua, e ninguém jamais expõe o nonsense de todo aquele palavreado. A maior dificuldade de ser especialista em Iêmen é que se vive sob pressão constante, obrigado(a) a reprimir o desejo de berrar palavrões e mais palavrões, pela TV e na universidade, ao vivo.

Aí está a razão pela qual a empresa-mídia ocidental só trata, quase exclusivamente, de sectarismos e guerras à distância, como se bastassem para explicar todo o conflito. O sectarismo, bem claramente, é apresentado como resultado “natural” da “natural” selvageria que reina em todo o Oriente Médio. Falar sempre sobre o sectarismo permite que nenhum especialista jamais precise falar diretamente sobre os resultados das políticas de EUA–Arábia Saudita. Esse é movimento–truque intencional: os fracassos dessas políticas, se fossem adequadamente expostos e discutidos, serviriam como útil ferramenta a favor do movimento antiguerra nos EUA.

A ideia de fazer “guerra à distância”, ou “guerra por procuração”, também contribui para esvaziar ainda mais qualquer potencial oposição interna, nos EUA: afinal, a Arábia Saudita está(ria) respondendo à agressão iraniana. A ninguém, portanto, ocorrerá a ideia de que os EUA estão fazendo guerra não provocada contra país soberano, para alcançar objetivos essencial e profundamente reacionários. O mesmo discurso também apaga o fato de que, em todos os sentidos e para as mais sórdidas finalidades, trata-se de uma invasão saudita–norte-americana: a Arábia Saudita defende os próprios interesses, ao mesmo tempo em que oferece o próprio exército e os próprios aviões e armas como projeção do poder dos EUA.

Abdel Fattah al-Sisi, ditador do Egito e Rei Salman da Arabia Saudita em guerra de agressão contra o Iêmen
Já é óbvio que autocratas regionais relativamente novos, como o rei Salman da Arábia Saudita e o general Abdel Fattah al-Sisi do Egito estão usando a guerra no Iêmen para legitimar os respectivos governos. Defender o “governo legítimo do Iêmen” faz esses ditadores parecerem heróis da Primavera Árabe, não os responsáveis pelo massacre de movimentos democráticos. Sisi e Salman viraram “líderes” de vários outros governantes em situação como a deles. Assim surgiu uma coalizão regional de sete monarquias e duas ditaduras militares, todas empenhadas em defender Hadi, cuja principal credencial é ter sido eleito em 2012 numa eleição em que foi o único candidato.

O silêncio histórico da esquerda ocidental sobre a situação claramente de opressão em que vive o povo do Iêmen é, para começar, inadmissível. Afinal, o absurdo total da “ordem” no Oriente Médio aparece perfeitamente à vista no Iêmen, e já faz tempo. Faltam olhares críticos já há anos, que tentem dar conta da total irracionalidade do que se passa naquele país.

Além de questões que surgiram depois de iniciados os ataques, há também questões que já vêm de antes. Por que os países que compõem o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) foram autorizados a assumir papel tão importante na mediação de uma situação revolucionária que claramente os ameaçava diretamente? Por que o mundo sabe tão pouco sobre a República Popular Democrática do Iêmen, que pode ter sido apenas superficialmente marxista, mas com certeza nunca foi mais que a Coreia do Norte? E por aí vai.

O silêncio e a falta de conhecimento especializado confiável tornam-se mais fáceis de compreender, se reconhecemos um dos traços da questão: bem pouca gente sabe sobre o Iêmen ou, que fosse, procura aprender sobre o país. Interessa a países como a Arábia Saudita que assim seja e assim permaneça, o que é um dos motivos pelos quais houve muito menos noticiário sobre a Revolução Iemenita, que sobre os levantes no Egito ou na Tunísia.

E isso apesar de a coalizão revolucionária ser mais forte no Iêmen, como se viu na organização notável da Conferência para Diálogo Nacional, onde se reuniram Saleh, Hadi, os houthis/Ansarullah, a coalizão dos separatistas do sul conhecida como al-Hirak, o grupo islamista de oposição al-Islah, vários líderes da sociedade civil e outras pessoas. Historicamente, o país sempre foi vítima de um isolamento “midiático” e discursivo forçado, o que explica em parte a relativa marginalização do Iêmen nos estudos do Oriente Médio.

John Earnest
John Earnest, secretário de imprensa da Casa Branca defendeu recentemente a política dos EUA no Iêmen, no programa Morning Joe da rede MSNBC, nos seguintes termos:

Não de deve aferir a política dos EUA pelo sucesso ou estabilidade do governo do Iêmen; essa é empreitada à parte. O objetivo da política dos EUA para o Iêmen nunca foi construir lá uma democracia jeffersoniana. O objetivo da política dos EUA para o Iêmen é assegurar que o Iêmen não venha a ser paraíso seguro que extremistas possam usar para atacar o ocidente e atacar os EUA.

Como se responde a tal declaração? Pode-se denunciar a irracionalidade dos juízos, mas é impossível não reconhecer que Earnest não mente, ao descrever nesses termos a política dos EUA. Washington só presta atenção ao Iêmen por causa da Al-Qaeda na Península Arábica,AQAP. Pouco importa aos EUA o que aconteça por lá, desde que os EUA e seus aliados tenham carta branca para matar “terroristas” e impedir que uma instabilidade revolucionária espalhe-se até a Arábia Saudita e o resto das monarquias do Golfo.

A deprimente realidade é que Earnest e Obama enfrentam tão pouca oposição doméstica pelo fato de absolutamente não darem nenhuma importância ao destino dos iemenitas, que podem dizer coisas como “nunca pensamos em construir lá uma democracia jeffersoniana” e o Iêmen nunca foi “uma ilha de estabilidade”.

Aí está o resultado direto do fato de que os norte-americanos não se sentem no dever de pensar no povo do Iêmen. Por isso é tão fácil para os militares expandir pelo mundo a violência nua do poderio militar. Resta esperar que o movimento antiguerra nos EUA consiga enfrentar e derrotar essa narrativa, e obter apoio para o direito de os iemenitas decidirem sobre o próprio destino, seja nas instituições do Estado seja na vida pública.

Parece que, com a intervenção estrangeira cada dia mais violenta, e a situação política doméstica cada dia mais deteriorada, os iemenitas talvez sejam forçados a formar uma nova coalizão revolucionária com a missão, em primeiro lugar, de expulsar os exércitos invasores e ocupantes. Isso feito, o Iêmen precisará de um governo de reconciliação nacional, que implemente os protocolos da Conferência para Diálogo Nacional, com o objetivo de atender as demandas éticas e materiais do levante de 2011.

Khaled Bahah, Presidente do Iêmen
É difícil predizer o que acontece a seguir e como os houthis/Ansarullah agirão como força revolucionária no Iêmen ao longo da próxima década.

Desde que deixou o país, Saleh buscou refúgio no CCG, o que pode não passar de mais um artifício noutra luta pelo poder. É possível que, no final das contas, Khaled Bahah, ex-embaixador e recentemente indicado Primeiro-Ministro, consiga romper o impasse. A melhor coisa sobre o Iêmen é que o país parece ter capacidade infinita para surpreender observadores. Em outras palavras, temos de fazer o que pudermos pela paz, nos agarrar à esperança de paz e esperar para ver o que acontece.

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Nota dos tradutores
[1] Ver sobre isso, 10/4/2015, Sua Eminência Sayyed Hassan Nasrallah, Secretário-Geral do Hezbollah (Líbano) – Discurso de 27/3/2015, vídeo legendado em francês e transcrição traduzida.
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[*] Bilal Zenab Ahmed é estudante de graduação na SOAS (School of Oriental and African Studies), University of London. É editor associado da Revista Souciant e articulista frequente da revista eletrônica Jacobin.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sauditas enfrentam derrota no Iêmen e instabilidade em casa


Os iemenitas determinam o próprio futuro


14/4/2015, [*] Mike WhitneyCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


As intervenções do imperialismo norte-americano, com a colaboração direta da monarquia saudita, lançaram todo o Oriente Médio no caos e num só banho de sangue – desde a destruição do Iraque, até a conversão da Líbia num “estado fracassado” desgraçado por milícias e a carnificina em curso que levaram para a Síria (...). Essas agressões do imperialismo predatório ameaçam incendiar uma conflagração generalizada em toda a região, no momento em que Washington deliberadamente agrava as tensões militares com Rússia e China.
O perigo de que todos esses conflitos separados estejam convergindo para uma IIIª Guerra Mundial cresce dia a dia.
Bill Van AukenObama’s criminal war against YemenWorld Socialist Web Site


Os governantes reacionários da Arábia Saudita conseguirão quebrar as legítimas esperanças e sonhos entusiasmados que ardem no coração de milhares de jovens em toda a Península Árabe? NUNCA!
Gamal Abd al-Nasser, Presidente do Egito, de 1956 a 1970



"Tirem as mãos do Iêmen"
No seu esforço para impedir o crescimento de “qualquer governo da região que conte com apoio da população”, os EUA uniram-se à guerra selvagem, de aniquilação, que a Arábia Saudita faz contra tribos rebeldes no norte do Iêmen, os houthis [também conhecidos pelo nome do movimento político ao qual os houthis se integram, Ansar Allah (Apoiadores de Deus)]. O Pentágono já autorizou a entrega de bombas, munição, sistemas de orientação, para ajudar na guerra saudita contra o Iêmen, e está fornecendo apoio logístico para maximizar o efeito dos ataques pelos bombardeiros sauditas. Os EUA também já organizaram um “centro conjunto de fusão”, forneceram plataformas para reabastecimento aéreo e “armamento avançado made in USA”, com a explícita intenção de varrer do mundo um grupo militante que derrubou do poder o governo fantoche que os EUA haviam plantado na capital Sanaa, no outono de 2014. O nível de coordenação entre uma improvisada coalizão árabe (o Conselho de Cooperação do Golfo, CCG) e os EUA sugerem que Washington não apenas sabe que os alvos dos sauditas são depósitos de alimentos, instalações de tratamento de água, campos de refugiados e instalações civis críticas, mas, também, que a Casa Branca deu luz verde para essas ações que, inevitavelmente levarão a fome generalizada e colapso social. Aqui, alguns parágrafos de um artigo de The National:

A Corporação Econômica do Iêmen [orig. Yemen Economic Corporation], um dos maiores armazéns para depósito e distribuição de comida, foi destruída por três ataques dos mísseis da coalizão EUA-sauditas na 3ª-feira (7/4/2015) , segundo o ministério da Defesa controlado pelos houthis. Aqueles armazéns guardavam alimento suficiente para todo o país. O centro militar de armazenamento de alimentos em Hodeidah também foi atacado e destruído na 3ª-feira (7/4/2015), segundo o Ministério da Defesa.

Também em Hodeidah, a segunda maior usina do país, para beneficiamento, armazenagem e distribuição de leite e derivados do leite foi atingida por cinco mísseis sauditas na 4ª-feira (8/4/2015), com pelo menos 29 mortos, a maioria dos quais empregados da usina, e dúzias de feridos. (Yemeni civilians struggle to get by amid conflict [Civis iemenitas colhidos no meio do conflito], The National)

Aqui, do Channel News Asia:

DUBAI – Navios de guerra da coalizão saudita bloquearam a passagem de navio que transportava mais de 47 mil toneladas de trigo, impedindo-o de entrar num porto do Iêmen, exigindo garantias da ONU de que o trigo não seria enviado ao pessoal militar – informaram autoridades portuárias, na 5ª-feira (9/4/2015). (Saudi-led coalition bars wheat ship from entering Yemen port – sources, Channel News Asia)

E também de WSWS:

Ataques aéreos e os combates em solo destruíram a infraestrutura de eletricidade, deixando às escuras muitas áreas urbanas e interrompendo o funcionamento de bombas indispensáveis para manter o abastecimento de água potável para cidades iemenitas. “Estamos preocupados, porque o sistema pode cair completamente em breve, e as pessoas, sem água, estarão em situação realmente difícil” – disse Harneis, representante da UNICEF, aos repórteres (...)

A zona aérea de exclusão e bloqueamento implantada pela Arábia Saudita e seus parceiros de coalizão efetivamente interrompeu o fornecimento de medicamentos e material médico de primeiros socorros já há duas semanas, o que agravou a atual crise. (World Socialist Web Site)

Relatos ao vivo da região confirmam que depósitos de alimento estão sendo bombardeados por todo o país; Asr (no oeste) foi atacado, assim como o complexo de Urdhi (centro do país) e Noqum (no leste).

Criminosos e genocidas reinam na Arábia Saudita com o beneplácito dos EUA
Eis como os EUA guerreiam suas guerras, criando e aprofundando massivas crises humanitárias, que ajudam os norte-americanos a alcançar seus objetivos políticos, mas... Se não é precisamente o modo com operam os terroristas, o que é isso?!

E mais ainda, do Washington Post:

Com toneladas de medicamentos desesperadamente necessários ainda à espera de liberação para serem enviados ao Iêmen, pessoas que trabalham na ajuda humanitária aos feridos alertaram 3ª-feira (7/4/2015) sobre o agravamento da crise humanitária naquele país: pelo menos 560, inclusive dúzias de crianças, foram assassinadas, principalmente pelos ataques aéreos da campanha liderada pelos sauditas e em batalhas entre xiitas rebeldes e forças leais ao presidente. Mais de 1.700 pessoas foram feridas e outras 100 mil tiveram de abandonar casas e propriedades, com a intensificação da luta nas últimas três semanas, disse a Organização Mundial da Saúde. (560 dead amid fears of humanitarian collapse in Yemen,  Washington Post)

Os sauditas iniciaram mais essa agressão invocando o mais frágil dos pretextos, a saber, que queriam “restaurar o governo legítimo” e “proteger a constituição e as eleições no Iêmen”. Como comentou Ali Alahmed, da CNN, com ironia:

Bem estranha essa repentina necessidade de proteger constituições e eleições, vinda de representante de monarquia absoluta (...). Os verdadeiros motivos do reino são absolutamente claros, se se examina a história da monarquia saudita, que jamais permitiu concorrência regional de qualquer tipo, e sempre combateu contra quaisquer esforços para construir governos democráticos que dão poder ao povo (...)

O objetivo dos sauditas é simples: impedir que cresça qualquer governo que tenha apoio popular na região, e que aspire à autodeterminação. E o pretexto de que ao mesmo tempo estariam “resistindo contra a influência do Irã” não passa de mais perversão sectária entre os sauditas. (What Saudi Arabia wants in Yemen, CNN)

EUA e Arábia Saudita, sócios no ataque ao Iêmen
Ainda que concordemos com a tese básica de Alahmed, nossa avaliação é que a “explicação” aplica-se muito mais aos EUA que à Arábia Saudita. Afinal, é o que os EUA têm feito, pulando de país para país, derrubando governos que têm apoio popular e implantando fantoches de Washington, e disseminando desgraça e anarquia por onde andem. Seja qual for o papel que os sauditas tenham representando no grande plano de Washington para redesenhar o mapa do Oriente Médio e projetar os tentáculos dos EUA para a Eurásia, é papel sempre menor e menos determinante que o papel dos EUA. São os EUA que se recusam a permitir que surja qualquer governo independente numa região que os EUA estão dedicados a tentar controlar. E são os EUA que estão facilitando os ataques contra iemenitas inocentes, fornecendo as bombas, as armas, o suporte logístico, sem os quais os reacionários governantes sauditas pouco poderiam fazer. Vejam o que escreveu Gregory Johnson, em Buzzfeed:

Um consenso parece estar sendo construído em Riad, Cairo e Islamabad na direção de enviarem tropas de solo para combater no Iêmen. Um oficial militar egípcio disse a BuzzFeed News que a decisão já foi tomada. “Soldados de solo serão incorporados à guerra” – disse o oficial que pediu para não ser identificado.

O timing desse movimento, que implicaria escalada significativa da campanha aérea comandada pelos sauditas, ainda está sendo discutido. Mas nossa fonte militar egípcia disse que pode acontecer imediatamente, nos próximos “dois ou três dias”. (Ground Forces Seen Joining Bloody War In YemenBuzzfeed)

Quer dizer então que, depois de duas semanas de bombardeios ininterruptos, a coalizão agora planeja intensificar o conflito metendo coturnos em solo. Mas isso só aprofundará a crise também na Arábia Saudita. Aumentará o risco de que os houthis decidam retaliar – o que, parece, já aconteceu. Segundo a rede Al-Arabiya em inglês, começaram as lutas na cidade saudita de Narian, no sul do país, dia 11/4/2015. (#BREAKING Asiri: Houthi militias are amassing close to the Saudi-Yemeni border… #BREAKING: Asiri: clashes reported near the Saudi city of Najran).

Embora ninguém espere que os houthis venham a invadir território do vizinho do norte, alguns analistas entendem que a monarquia abocanhou mais do que conseguirá engolir e, provavelmente, enfrentará revide contra o ataque aos houthis. Um desses analistas e críticos é Sayed Hassan Nasrallah, secretário-geral da organização libanesa Hezbollah. Em entrevista recente, Nasrallah sugeriu que os houthis têm meios para cortar suprimentos vitais de energia, golpear a Arábia Saudita e ainda pôr aos tropeços os mercados financeiros globais, ao mesmo tempo. Aqui, um excerto da entrevista de Nasrallah (entrevista completa no vídeo de 10 minutos com legendas em francês, a seguir):


Os líderes iemenitas já começam a ouvir demandas (...) embora ainda não tenham tomado a decisão, para que fechem o [estreito estratégico] Bab al-Mandeb, o que podem fazer a qualquer momento (São só 20 km de largura; os iemenitas têm meios para fechá-lo). E também podem atingir alvos dentro da Arábia Saudita, com seus mísseis, ou mesmo entrar em território saudita. Mas nada disso está decidido, até agora (...). Atualmente, o povo do Iêmen já começa a reivindicar “Vamos para a Arábia Saudita!” Os líderes ainda não decidiram fazer isso. Mas quis registrar que, sim, já há a demanda popular.

E Nasrallah novamente:

Tenho certeza absoluta de que a Arábia Saudita sofrerá derrota terrível. E essa derrota terá impacto sobre a situação interna, sobre a família real... e sobre toda a região. (Hassan Nasrallah: The war in Yemen announces the end of the House of SaudThe Vineyard of the Saker)

Assim sendo, os houthis podem fechar o estreito de Bab Al Mandeb e impedir que milhões de barris de petróleo cheguem ao mercado? É informação que muda completamente todos os cálculos.

E como isso afeta o plano de Washington, para esmagar a economia russa, fazendo desabar os preços do petróleo? Que impacto tem isso sobre os mercados globais de ações, já nervosos por causa dos aumentos que o Fed está projetando? Que efeito terá isso sobre a Frente al-Nusra, o ISIS e outros grupos ligados à Al-Qaeda, que passariam a planejar ataques semelhantes contra pontos críticos da infraestrutura de energia, como melhor meio para alcançar seus objetivos?

Há coisas que os houthis podem fazer para desencorajar a agressão saudita. Podem tomar as coisas nas próprias mãos e começar a atacar onde mais dói.

Washington está tão convicta da própria invencibilidade, que ninguém nem pensa em tal coisa. Sem nenhuma hesitação, a turma de Obama já meteu um aliado chave dos EUA numa guerra sangrenta que pode gerar efeitos graves contra os próprios interesses dos EUA na região. A Arábia Saudita é a pedra basilar do poder dos EUA no Oriente Médio, mas, simultaneamente, é o calcanhar de Aquiles dos EUA.

Os EUA apoiam os ataques da al-Qaeda contra o Iêmen
Ao apoiar o ataque dos sauditas contra os houthis, em vez de procurar solução política, Washington fortaleceu muito a posição da Al-Qaeda na Península Arábica [orig. Al-Qaeda on the Arabian Peninsula (AQAP)], a qual, como grupo, é a principal e mais forte ameaça à monarquia saudita. Como observa Nasrallah:

Eles [os EUA e a Arábia Saudita] protegem a Al Qaeda e o ISIS/ISIL/Daesh no Iêmen e, mais que isso, estão entregando armas a eles, que aos terroristas chegam por avião. Que grande vitória é essa?! Isso é trabalhar contra os interesses da Arábia Saudita.

E é, sim, realmente. A Al-Qaeda tem capacidades muito mais efetivas para infiltrar-se em território da Arábia Saudita, para fomentar a revolta popular ou organizar ataques terroristas. Os houthis nada tem a ver com isso e não são esse tipo de ameaça à segurança. O único objetivo dos houthis é manter a soberania do Iêmen, as fronteiras e sua política externa independente. Artigo de 2003 publicado em Atlantic e assinado pelo diretor da CIA, Robert Baer, sob o título de A Queda da Casa de Saud dá excelente pista das vulnerabilidades de Riad e chega à terrível conclusão de que os dias do reino estão contados. Aqui, um excerto daquele artigo:

O petróleo saudita é, cada vez mais, controlado por uma família real disfuncional, falida, criminosa e intocável, odiada pelo povo sobre o qual reina e por todas as nações em torno do reino (...)

Há sinais de desastre iminente por todos os lados, mas a Casa de Saud escolheu rezar para que o momento de acertar as contas nunca chegue – e os EUA escolheram fingir que nada veem e nada sabem. E assim nada muda: a família real continua a exaurir o tesouro saudita, comprando mais e mais armas e desviando mais e mais dinheiro “de caridade” para os terroristas jihadistas, sempre no mesmo esforço desesperado e autodestrutivo, para se autoproteger.

O ponto mais vulnerável e o alvo mais espetacular do sistema saudita de petróleo é o complexo de Abqaiq – a maior instalação para processamento de petróleo do planeta, localizada a 24 milhas da costa, a partir do extremo norte do Golfo do Bahrain. Todo o petróleo que se origina no sul é enviado a Abqaiq para ser processado. Para os dois primeiros meses de ataque de moderado a severo contra Abqaiq, calcula-se que a produção cairia, de uma média de 6,8 milhões de barris/dia, para um milhão de barris, perda equivalente a um terço do consumo diário de petróleo cru nos EUA. Sete meses depois do ataque, a produção permaneceria 4 milhões de barris abaixo da normal – redução praticamente igual à que todos os parceiros da OPEP conseguiram alcançar no embargo que impuseram em 1973.

Trabalhei durante 21 anos com o Diretorado da CIA para Operações no Oriente Médio e, durante todos aqueles anos aceitem como verdade o que dizia o meu governo, que o dinheiro que a Casa de Saud enterrava em armas e segurança nacional significaria que as forças armadas e guarda-costas da família real conseguiam manter a salvo a família governante e o petróleo deles (...) Hoje, já não acredito nisso (...) Mais cedo ou mais tarde, e provavelmente mais cedo, de um modo ou de outro, veremos a queda da Casa de Saud. (The Fall of the House of Saud, Robert Baer, The Atlantic).

"Pare a guerra saudita contra o Iêmen"
Nem os EUA nem a Arábia Saudita tem qualquer direito de interferir em assuntos internos do Iêmen ou de instalar fantoches seus para governar os iemenitas. Esse direito é direito exclusivo do povo do Iêmen. E, apesar de o atual processo para mudar o regime ser confuso e violento, os houthis e seu movimento Ansar Allah representam melhor os interesses da população indígena que qualquer um em Riad ou em Washington. A guerra Sauditas-EUA visa meramente a controlar o resultado do processo de troca de governo, para assegurar que o novo governo permaneça sob o tacão imperial. Como diz Nasrallah:

O verdadeiro objetivo da guerra é manter o controle e a dominação sobre o Iêmen. Mas o povo iemenita não deixará passar a agressão e a humilhação. O povo do Iêmen vai lutar para defender a própria dignidade, a própria existência, as famílias deles e seu território. E vencerá.
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[*] Mike Whitney é um escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, uma massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
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