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quarta-feira, 24 de junho de 2015

Rússia, Arábia Saudita: novidades


24/6/2015, [*] Boris DOLGOV, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mohammed bin Salman e Vladimir Putin (18/6/2015)

Salman bin Abdulaziz Al Saud (80 anos), rei da Arábia Saudita, aceitou o convite do presidente Vladimir Putin para visitar a Rússia, disse o vice-príncipe-coroado e Ministro da Defesa saudita Mohammad bin Salman, na 5ª-feira, 18/6/2015, em Moscou. O evento pode vir a ser o ponto de virada nesse relacionamento. O príncipe disse que seu país considera a Rússia como parceira importante e relembrou que a União Soviética foi o primeiro país a reconhecer o reino, em 1926.
Karim Khakimov, diplomata soviético conhecido, orientalista e especialista em Oriente Médio, foi o primeiro embaixador na Arábia Saudita, e muito contribuiu para o desenvolvimento de relações, alcançando útil compreensão mútua, com os dois países aprendendo sobre história e tradições um do outro.
Hoje a Arábia Saudita é importante potência regional. O reino ocupa a posição de liderança espiritual do mundo muçulmano e abriga em seu território os dois principais locais sagrados para esses fiéis, Meca e Medina, cidades chaves na vida do Profeta Maomé. O Hajj é uma peregrinação islâmica anual e dever dos crentes (todos os muçulmanos adultos fisicamente e financeiramente aptos, que possam simultaneamente manter a família durante a sua ausência), que têm de cumpri-lo pelo menos uma vez na vida. A peregrinação é um dos pilares do Islã. A reunião, durante o Hajj é considerada a maior congregação anual de pessoas em todo o mundo.
O reino é o maior dos sete estados árabes à volta do Golfo Persa, a saber Arábia Saudita, Kuwait, Bahrain, Iraque, Omã, Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Todas essas nações (com exceção do Iraque) são parte do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) dos Estados Árabes do Golfo. Esses países coordenam suas ações em vários campos. O Escudo de Força da Península (ou “Escudo da Península”) é o braço militar do CCG, que visa a deter e a revidar agressão militar contra qualquer estado membro do CCG.
O reino saudita, rico em petróleo é membro protagonista da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Os lucros acumulados das exportações de petróleo permitem à Arábia Saudita melhorar a infraestrutura econômica, social e educacional do país, e investir em todo o mundo, inclusive nos países desenvolvidos do ocidente.
Salman foi coroado novo rei da Arábia Saudita dia 23/1/2015, depois da morte de seu meio-irmão, rei Abdullah. Em abril de 2015, o rei Salman indicou um sobrinho como seu herdeiro presuntivo, e fez do próprio filho o segundo na linha de sucessão.
Ao fazer do Ministro do Interior, Mohammad bin Nayef, 55, príncipe coroado, e do Ministro da Defesa, Mohammad bin Salman, 30, vice-príncipe-coroado, o rei Salman decidiu, de fato, a linha de sucessão no maior exportador de petróleo do mundo por várias décadas. Esse arranjo significa que a coroa passará para uma nova geração pela primeira vez, desde 1953, quando o trono passou do fundador da dinastia, rei Abdulaziz Ibn Saud, para o primeiro de seis dos seus filhos que lá se sucederam até hoje. Praticamente todos os poderes do rei estão agora concentrados nessas novas quatro mãos.  
Mohammed bin Nayef (D) e Mohammed bin Salman

A reforma já vem em boa hora. O velho sistema originou uma coorte de problemas e inquietação social. Como outros estados árabes, o reino também teve problemas (talvez não tão agudos como em outros países árabes, mas ainda assim graves) que poderiam levar a levantes como os da Primavera Árabe que sacudiram o Oriente Médio em 2011-2012. Do modo como as coisas foram feitas, o rei deu aos herdeiros jovens uma chance, ao mesmo tempo em que preserva a sucessão. Só o tempo dirá se o sistema funciona. Há competição entre grupos dentro da família real, embora nunca tenha havido golpe na sucessão.
O rei Salman também fez mudanças na estrutura do governo. Muqrin bin Abdulaziz (70 anos), 35º e mais jovem filho vivo do rei Abdulaziz, fundador da dinastia, foi substituído como príncipe coroado. O novo príncipe coroado, Mohammed bin Nayef, é o primeiro de sua geração a ser introduzido nos altos escalões do governo, e continuará como Ministro do Interior, mas também terá o papel, como príncipe coroado, de Vice-Primeiro-Ministro. A idade desse príncipe sugere que terá papel importante nas próximas várias décadas na Arábia Saudita, e faz dele o mais provável próximo rei.
O príncipe Mohammed bin Salman, responsável pelos ataques aéreos sauditas no Iêmen, permanecerá como Ministro da Defesa, acumulando a função com o título de vice-príncipe-coroado. Também comanda um grande conselho que supervisiona todas as questões econômicas e de desenvolvimento.
Em outra importante mudança, Salman substituiu o veterano Ministro de Relações Exteriores, príncipe Saud al-Faisal, no cargo desde outubro de 1975, pelo embaixador do reino em Washington, embaixador Adel al-Jubeir, o primeiro não membro da família real a ocupar a chefia daquele ministério. A substituição do veterano Ministro de Relações Exteriores pelo embaixador saudita nos EUA e insider há muito tempo em Washington, plebeu e mais jovem, acentua a sensação de mudança generacional.
A mulher que há mais tempo tinha lugar no governo saudita, Nora al-Fayez, foi demitida do cargo de Vice-Ministra para a educação feminina, como diz o decreto. Jamais aceita pelos ultraconservadores, ela trabalhava aplicadamente para conseguir incluir educação física no currículo para moças nas escolas públicas sauditas.
A reforma da sucessão e as mudanças no governo não devem ser interpretadas como alguma drástica mudança de política. Dar chance às novas gerações é tema de candentes discussões no reino já há muito tempo. As novas nomeações, especialmente a nomeação do novo Ministro de Relações Exteriores, prova que as linhas políticas gerais permanecem inalteradas.
Mas a decisão da nova liderança saudita de desenvolver relações com a Rússia pode incluir mais coisas que relações bilaterais que se modificam no Oriente Médio e Próximo, e podem mesmo influenciar tendências globais. As relações desenvolveram-se lentamente desde a crise síria, em relação à qual Rússia e Reino Saudita têm posições divergentes. As relações foram negativamente afetadas pela intervenção do Reino no Bahrain em 2011 para sufocar levante da população xiita, e pelos ataques aéreos contra os houthis no Iêmen.
Protestos no Bahrain (março/2011)

Sem considerar diferenças que haja nos conflitos regionais, a Arábia Saudita fez tentativas para melhorar as relações. Recentemente, delegações sauditas visitaram a Rússia. Os visitantes da Arábia Saudita disseram à agência russa de notícias RIA Novosti que, independente das diferentes posições sobre a Síria, os dois lados podem cuidar de promover cooperação benéfica para ambos, seguindo o modelo das relações entre Rússia e Turquia.
Há motivos importantes por trás do desejo dos sauditas de promover o desenvolvimento de cooperação bilateral. Primeiro, que a Rússia retomou seu lugar entre as potências mundiais. Tem significativa influência global – fator a considerar quando se trata de encaminhar soluções de problemas regionais. Segundo, a Arábia Saudita seguiu a política imposta pelos EUA, de apoio aos radicais armados, como os que lutam contra o regime de Bashar al-Assad na Síria. E aquela política resultou no surgimento de um “Estado Islâmico” extremista, que hoje ameaça também a segurança da Arábia Saudita.
O mesmo aconteceu no Iêmen. A coalizão de estados árabes liderada pela Arábia Saudita lançou campanha aérea contra os houthis, sob o pretexto de defender o governo do já deposto presidente do Iêmen, Abd-Rabbu Mansour Hadi. Os houthis têm o apoio da maioria da população, além do apoio do Irã. Condenados internacionalmente, os bombardeios aéreos levaram a grande número de mortes de civis e não trouxeram qualquer dos resultados previstos pelos EUA. A Arábia Saudita fracassou e não conseguiu conter o levante dos houthis. A al-Qaeda na Península Árabe iemenita (AQAP) também ameaça a Arábia Saudita.
Todas as políticas lideradas pelos EUA fracassaram e absolutamente não produziram qualquer resultado positivo contra as ameaças à segurança do reino. O bom-senso levou a Arábia Saudita a oferecer cinco dias de cessar-fogo aos houthis em maio, de modo que fosse possível atender aos problemas humanitários, enquanto os houthis e representantes do presidente deposto iniciaram conversações em Genebra com a intermediação da ONU. Essas conversas não trouxeram qualquer resultado.
O que se vê é que a Arábia Saudita parece estar revisando suas políticas pró-EUA, mudando todo o curso político multidimensional daquelas políticas; e passando a incluir a cooperação com a Rússia.
Especialmente importante, nisso, é que a Rússia pode servir como intermediária no processo de melhorar as relações entre Arábia Saudita e Irã. O Irã já inúmeras vezes declarou-se pronto a reunir-se com a Arábia Saudita em “território neutro”.
A decisão do Reino, de melhorar as relações, foi confirmada durante a recente visita à Rússia, em junho de 2015, de uma delegação saudita chefiada pelo Ministro de Defesa do Reino Saudita, príncipe Mohammad bin Salman. O ministro foi recebido pelo Presidente Vladimir Putin à margem do Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo de 2015. A delegação saudita incluiu o Vice-Comandante da Marinha Saudita, almirante Ibrahim Nasir. Em visita ao “Supermercado Militar” Exército-2015, o almirante disse que seu país se interessa por comprar navios russos, especialmente a nova corveta classe-Steregushchy.
Sim, estamos interessados. Por isso estamos aqui, e não falamos exclusivamente da Marinha. Estamos interessados em fragatas, corvetas e navios de guarda [orig. guard ships]. É muito cedo para comparar preços, avaliar a logística. Só depois tomaremos nossas decisões, disse o almirante.
Cooperação econômica bilateral, a situação no Oriente Médio, inclusive o conflito na Síria e a ameaça que é o “Estado Islâmico”, todos esses foram itens discutidos na agenda da conversa entre o presidente Putin e o príncipe Mohammad bin Salman. A visita desse alto funcionário saudita pode ser vista, sim, como demarche contra os EUA – o país que ignorou o Fórum de São Petersburgo e insiste que as sanções contra a Rússia devem permanecer.
Rússia e Arábia Saudita assinaram protocolo de cooperação nuclear em 18/6/2014

A Rússia também está interessada em desenvolver relações com a Arábia Saudita.
●– Primeiro, a Arábia Saudita é um dos estados árabes líderes, como Egito e Argélia. Essa aproximação aumentará a presença russa no mundo árabe e muçulmano, o que ampliará sua influência internacional.
●– Segundo, a Arábia Saudita tem vastos recursos financeiros. O relacionamento pode trazer significativos investimentos para a economia russa.
●– Terceiro, unir-se é o passo mais lógico, dos dois lados, contra o “Estado Islâmico”.
A Arábia Saudita pode vir a revisar a própria posição em algumas das questões do Oriente Médio. Com a Rússia como intermediária, pode melhorar suas relações com Síria e Irã – países também ameaçados pelo “Estado Islâmico”. Como recentes eventos já mostraram, os grupos apoiados pela Arábia Saudita, como, por exemplo, a Frente al-Nusra, que luta contra o governo do presidente Bashar al-Assad na Síria, é aliada do “Estado Islâmico”. Nenhum desses grupos pode ser considerado, em sã consciência, amigo da Arábia Saudita.
Por fim, ao reforçar a cooperação econômica e militar com estados árabes, a Rússia pode fortalecer sua posição, para resistir melhor à pressão e às sanções impostas pelo “ocidente”. Não se vê à vista qualquer indício de melhora nas relações entre Rússia e o “ocidente”.
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[*] Boris Dolgov é membro da Academia Russa de Ciências e do Instituto de Estudos Orientais em Moscou. Investigador de geopolítica focado em temas do Oriente Médio. Professor Dolgov confirma que, longe de um cenário artificial da “Primavera Árabe” a Síria está, inegavelmente, envolvida com tentativa de ocupação estrangeira. É o principal analista russo da crise na Síria e compreende que a ocupação do país por forças estrangeiras se seguirá uma guerra contra o Irã e futura ocupação da Ásia Central. É também crítico feroz da catástrofe provocada pelas operações “humanitárias” dos EUA-OTAN na Iugoslávia e na Líbia.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Os anglo-americanos estão loucos

14/6/2015, [*] Finian CunninghamStrategic Culture
Tradução: mberublue

Philip Hammond, Secretário de Relações Exteriores

Se vivêssemos em um mundo são, o Secretário de Relações Exteriores da Inglaterra deveria ser obrigado a deixar seu posto de principal diplomata do país, coberto de desgraça e desaprovação, na sequencia de suas desastrosas declarações de que a Inglaterra deveria estar pronta para receber mais armas nucleares dos Estados Unidos, supostamente para conter a “ameaça russa”. Assim sendo, nós teríamos uma escalada alarmante das tensões internacionais e militarismo causados por ambos os países – Estados Unidos e Inglaterra – e tudo por causa de palavras imprudentes baseadas em fatos não provados. Claramente, os aliados anglo-americanos estão trabalhando em conjunto.
A regressão sem pejo de Hammond para o ambiente da Guerra Fria vem na mesma medida de Washington, que também tornou pública sua intenção de estar considerando colocar em vários países europeus, mísseis nucleares de “ataque preventivo”. Declaram os norte-americanos que esse movimento viria “em resposta” às supostas violações pelos russos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Médio (INF). Moscou está sendo acusada de testar mísseis de cruzeiros baseados em terra que estariam proibidos sob o tratado. A Rússia tem negado sistematicamente as alegações acusatórias de Washington, que – como parece estar se tornando uma espécie de norma em outros assuntos contenciosos – não tem sustentação em nenhum tipo de evidência ou prova da parte de Washington.
Tal atitude difamatória contra a Rússia é duplamente desprezível, porque não se trata apenas de uma calúnia. A mentira também serve como cobertura moral que permite aos anglo-americanos perpetrar outras etapas ultrajantes que resultam em perigo flagrante para a paz mundial, com a alocação sem precedentes de armas nucleares.
No que se refere à questão da colocação na Inglaterra de armas nucleares dos Estados Unidos, Hammond afirmou ao jornal de direita Daily Telegraph:
(...) penso que é correto de nossa parte estarmos preocupados se a direção tomada pela Rússia é o que chamam de “doutrina de guerra assimétrica”. Nós precisamos enviar um sinal muito claro para a Rússia, de que não permitiremos qualquer transgressão às nossas linhas vermelhas. Poderemos considerar a proposta [de permitir a instalação de armas nucleares norte-americanas em solo Britânico]. Trabalhamos lado a lado com os norte-americanos. Caso essa decisão seja mesmo colocada sobre a mesa, deve ser tomada em conjunto. Quanto a nós, devemos pesar os prós e os contras e chegar a uma conclusão.
Para justificar a si mesmo, o Ministro britânico de Relações Exteriores buscou relacionar a questão nuclear à alegada agressão russa no leste ucraniano, aduzindo:
Há sinais bem preocupantes de que aumentam as atividades tanto pelas forças russas quanto pelas forças separatistas controladas pelos russos.
Hammond tentou parecer ambíguo sobre a instalação de armas nucleares dos Estados Unidos em território Britânico – as quais se somariam ao próprio arsenal nuclear da Inglaterra – mas o simples fato de que seu governo está considerando a possibilidade, já é um movimento flagrantemente imprudente. Se tal acontecesse, reverteria a proibição relativa a essas armas que ocorreu na sequência do fim da Guerra Fria há mais de 20 anos.
Guerra fria 2.0 - Manobras da OTAN

Ironicamente, enquanto Hammond estava nesta semana se esforçando para que o Parlamento permitisse um referendo sobre a permanência da Inglaterra como membro da União Europeia, sequer uma palavra foi dita ao público inglês, para saber se a população inglesa quer mais uma vez tornar-se parte da força de ataque nuclear dos Estados Unidos.
Mas talvez a infração merecedora de cartão vermelho cometida por Hammond seja o fato de que ele está militarizando perigosamente a política externa da Inglaterra sem estar lastreado em nenhuma evidência razoável; na realidade, baseia-se em desinformação total. Exatamente como seus aliados em Washington, o Ministro do Partido Conservador está fazendo toda sorte de acusações mentirosas e histéricas contra a Rússia, que vão desde constituir uma ameaça para a Europa, até usar “doutrina de guerra assimétrica”, passando pela suposta invasão do leste ucraniano e chegando à sabotagem do acordo de cessar fogo de Minsk (aliás, uma tentativa de paz que Moscou trabalhou duramente para implementar, juntamente com a Alemanha e França em fevereiro, com a significativa ausência de Washington e Londres).
Sem qualquer informação confiável, os norte-americanos e britânicos parecem estar se movendo deliberadamente no sentido de incrementar a capacidade de um ataque nuclear preventivo contra a Rússia. Como relatou a Associated Press na última semana, embora usando uma linguagem eufemística:
(...) as opções chegaram apenas ao nível de insinuações – mas não de declarações enfáticas – de que certamente melhorariam a capacidade das armas nucleares dos EUA para atingir alvos em território russo.
A verdade é que os norte-americanos, os britânicos ou a OTAN não produziram sequer um fiapo de evidência verificável de que a Rússia tenha violado o Tratado INF, ou esteja subjugando a Ucrânia ou ameaçando qualquer outro país europeu.
No leste ucraniano os relatos mais confiáveis sobre a situação emanam tanto do grupo de monitoração do cumprimento do acordo de Minsk feita pela Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) quanto de fontes da mídia local e de oficiais separatistas de que o recente incremento da violência vem do regime de Kiev, apoiado pelo ocidente. A violência inclui o bombardeio de centros residenciais na cidade de Donetsk e nos arredores de pequenas cidades e vilas, que resultaram na morte de dúzias de civis durante a última semana.
Exército da Junta de Kiev bombardeia áreas civis em Donetsk

A maneira pela qual os britânicos e norte-americanos distorcem os fatos para fazer da Rússia o agressor e destruidor do cessar fogo de Minsk é apenas uma assertiva prejudicial que se baseia em qualquer coisa, menos nos fatos. Desta forma, essa visão é uma distorção dos fatos que chega às raias da mentira descarada.
Que o Secretário para a Política Externa possa fazer comentários tão enganosos e aparentemente desorientados sobre o conflito na Ucrânia e sobre a Rússia em geral, e pensar em mudar a política militar da Inglaterra para instalar no território inglês armas nucleares dos Estados Unidos é digno de expulsão do ministério por extrema e grosseira incompetência.
A adoção por Hammond de um militarismo nuclear em meio a um tenso impasse político entre Oriente/Ocidente não passou em brancas nuvens na Inglaterra. Suas teses e afirmações belicosas causaram controvérsia, com várias campanhas antiguerra em repúdio à imprudente reversão para a mentalidade de Guerra Fria. Contudo, o fato de que a incompetência de Hammond não tenha causado ainda mais celeuma é um preocupante sinal da dormência moral do povo inglês, que não fez com que Hammond incorresse numa condenação pública ainda maior.
Nas entrelinhas, a política externa dos governos dos Estados Unidos e da Inglaterra trata-se apenas disso: uma ideologia de Guerra Fria, que os faz ver o mundo inteiro como inimigos ou “ameaças externas”. Mais uma vez, Rússia e China são vistos e retratados como inimigos.
Na última semana, em uma entrevista para o jornal italiano Corriere dela Sera, o Presidente russo, Vladimir Putin observou:
Já que muitos países têm preocupações sobre possíveis agressões pela Rússia, eu penso que apenas uma pessoa insana, louca, e apenas em sonhos maus poderiam imaginar que a Rússia poderia subitamente atacar a OTAN.
Assista a seguir entrevista completa com legendas em italiano:
Ora, por dedução, esse raciocínio lista pessoas com a visão dos fatos de Hammond como “insanas”. O mesmo vale para o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama e sua administração. Discursando na recente reunião de cúpula do G7 na Alemanha, Obama pontificou: “precisamos encarar a agressão russa”.
A pergunta lógica é: por que tanto Washington como Londres em particular, interpretam o mundo em termos de inimigos, ameaças e agressões?
Parte da resposta pode ser a de que essas mesmas potências são as maiores praticantes de agressões ilegais na perseguição de seus objetivos na política externa. O Imperialismo – uso de força militar na sustentação de metas políticas e econômicas – é parte indissociável da forma pela qual Estados Unidos e Inglaterra operam no mundo. Agressão e militarismo são instrumentos fundamentais do imperialismo anglo-americano, assim como acordos para atividades bancárias, de investimento e comércio (TPP e TTIP).

TPP, TTIP, TISA, CETA - Assalto à DEMOCRACIA


Não se pode negar que existe uma espécie de “consciência do mal” que rola nas relações internacionais tanto de Inglaterra como dos Estados Unidos. Ambos temem (com razão) retribuição e vingança causadas por seus comportamentos agressivos e criminosos em relação ao resto do mundo. Numa palavra, a visão de mundo dos anglo-americanos se resume em: paranoia.
A militarização das relações exteriores também é uma eficiente via indireta para controlar eventuais aliados nominais. Se ameaças externas são retratadas de maneira suficientemente forte, cria-se então uma espécie de senso restrito de “defesa” entre “aliados”, que passam a ver a potência dominante como líderes para “proteção”. Esses jogos mentais são típicos da forma pela qual Washington e Londres promoveram a OTAN  ao status de protetor de seus “aliados europeus” frente “agressão russa”.
O mesmo jogo mental está rolando na região da Ásia/Pacífico, onde os norte-americanos estão tentando marcar a China como um “agressor do mal” para pequenas nações, que então se voltam para Washington em busca de “proteção” – e montes de dinheiro para comprar armas dos Estados Unidos, cortesia das máquinas impressoras de dólares do FED.
Sobre a questão das alegadas agressões russas, Putin, na entrevista acima, comentou de maneira muito apropriada:
(...) penso que alguns países estão simplesmente se aproveitando do medo das populações ocidentais no que diz respeito à Rússia... Suponhamos que os Estados Unidos gostariam de manter sua liderança na comunidade atlântica (União Europeia). Precisaria então de uma ameaça externa, um inimigo comum para garantir sua liderança. Claramente, o Irã não é suficiente – a ameaça que representa não é tão assustadora ou grande. Quem poderia ser assustador o bastante? Então, subitamente, a crise se desdobra na Ucrânia. A Rússia se viu forçada a responder. Talvez toda essa situação tenha sido criada de propósito... não sei. Mas sei que não fomos nós, russos, que a criamos.
Putin acrescentou, falando ao editor do Corriere dela Sera:
Deixe-me dizer uma coisa: não é preciso temer a Rússia. O mundo mudou de forma tão drástica que atualmente qualquer pessoa com um mínimo de bom senso não pode sequer imaginar um conflito militar em larga escala. Eu garanto que temos outras coisas com as quais nos preocuparmos.
É por isso que políticos como o Ministro de Relações Exteriores da Inglaterra, Philip Hammond, são compelidos a demonizar a Rússia e conjurar pesadelos de invasões, conflitos militares em larga escala e armas nucleares. Sem alarmismo, não pode haver belicismo; e sem belicismo o capitalismo anglo-americano não pode exercer a hegemonia da qual sempre desfrutou e que necessita para funcionar.
Essa forma de ver o mundo adotada pelos anglo-americanos continua atrelada a uma era que já deveria estar esquecida, na qual a gestão da relações internacionais se dava através de violência e agressões ou até da instigação de uma guerra total, se necessário.
A origem do APOCALIPSE
 Hammond, Obama, Kerry e Cameron

Se vivêssemos em um mundo são, pessoas como Philip Hammond, o Primeiro Ministro Cameron e do outro lado do Atlântico, Obama e seu Secretário de Estado Kerry, não seriam merecedores de estar em uma posição de poder e governo. Se vivêssemos em um mundo são.
Ocorre que em nosso mundo capitalista e louco, são pessoas desse tipo que são selecionadas, porque dão ao sistema tudo o que é essencial para a sua sobrevivência, ainda que através de uma mentalidade draconiana de agressão, violência e guerra. A inominável e diabólica vergonha é que essas pessoas insanas são perfeitamente capazes de trazer o apocalipse para milhões e milhões de pessoas inocentes.
Botando para fora esses políticos estaríamos praticando uma forma inteligente de evitar a guerra. Talvez fosse ainda melhor se pudéssemos chutar para a estratosfera todo esse sistema, no qual alguns enriquecem obscenamente à custa do sofrimento da maioria.
Esse “custo” inclui suportar o risco perene de guerra e, ouso dizer, aniquilação.
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[*] Finian Cunningham nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent. Atualmente está baseado na África Oriental, onde escreve um livro sobre o Bahrain e a Primavera Árabe.