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sexta-feira, 22 de março de 2019

Alexei Kudrin é o miJair Bolsonaro de Putin

Kudrin quer dar aos EUA metade da Crimeia, metade do Donbass, metade das Ilhas Kuril, metade da Síria e metade da Venezuela.

O general Gerasimov está pronto para resistir contra os EUA em todas essas frentes




18/3/2019, John Helmer, Dances with Bears, Moscou

Alexei Kudrin (ilustração de abertura) é o candidato do ‘regime change’ ao Kremlin que sobrevive há mais tempo, e que não mora nem na cadeia nem no exterior. “Precisamos de ambiente global fraterno” – 
disse ele a uma conferência de empresários em Moscou, semana passada. Atualmente presidente da Câmara de Cobrança e Prestação de Contas, de auditoria do Estado, Kudrin explicou que “atualmente não se consegue ambiente global totalmente fraterno devido, em parte, a desentendimentos geopolíticos e sanções globais. A Rússia deve tentar reduzir esse fator e mitigar os desentendimentos e as sanções mediante conversações e outros meios.”
O remédio, para Kudrin, ele explicou, é fazer Rússia e EUA encontrarem-se “no meio do caminho”. Pediram que Kudrin explicasse melhor a parte “meio do caminho”.

Kudrin serve-se de porta-vozes na Câmara de Contas do Estado e numa organização política que mantém, chamada “Comitê de Iniciativas Civis”. Essa última Kudrin fundou-a em 2012, depois de ser 
demitido do cargo de ministro das Finanças, e se autoapresenta como “união em torno da ideia de modernizar o país e fortalecer instituições democráticas.” Ano após ano, o Comitê faz pesquisas sobre condições regionais, monitora a imprensa e organiza conferências de organizações políticas que apoiam Kudrin. Para recrutar ativistas locais, o Comitê também distribui prêmios em dinheiro e uma estatueta, “O Broto de Ouro”. É a organização perpétua de campanha eleitoral de Kudrin. Ninguém sabe de onde vem o dinheiro, mas regularmente Kudrin divulga sua “especial gratidão” a Norilsk Nickel, controlada por Vladimir Potanin e Oleg Deripaska.


Pediram que Kudrin explicasse o que queria dizer com a referência a desentendimentos geopolíticos. Qual sua proposta a ser apresentada nas conversações com os EUA? O que quer dizer com “outros meios”? O que significa “meio do caminho” – entregar metade da Crimeia à Ucrânia? Metade da Síria, a Israel e Turquia? Metade das ilhas Kuril, entregues no Japão?

Os escritórios de Kudrin na Câmara e no Comitê informaram que ele não responde a telefonemas. Pediram que se enviassem perguntas por e-mail. As perguntas foram. Por telefone, os dois escritórios confirmaram que receberam os e-mails. Kudrin jamais respondeu.

Há um ano, quando Kudrin pressionava publicamente o presidente Putin para que lhe desse um posto no novo governo, com poderes especiais para negociar com os EUA, ele delineou um plano de ataque contra o Ministério de Defesa da Rússia e Forças Armadas – que cortava o orçamento militar da Rússia, a capacidade de defesa e toda a assistência à Crimeia e ao Donbass. O plano apareceu numa entrevista a um jornal de Londres, porque Kudrin negou-se a comentar o assunto pessoalmente, na Rússia. Detalhes, aqui.

Em maio, depois que sua campanha de autopromoção política fracassara, Kudrin desdisse, em discurso ao Parlamento estadual, tudo que dissera em Londres. Tentava tentar obter os votos necessários para ser confirmado no velho emprego na Câmara de Contas. Se quiser ler clique aqui. Kudrin obteve a votação mais alta jamais vista contra qualquer nome indicado pelo presidente para presidir a Câmara de Contas. Hoje, Kudrin aparece em primeiro lugar nas pesquisas que definem os dez políticos nos quais a população menos confia, em todo o país.

O principal alvo das campanhas de desconstrução de Kudrin ainda é, como sempre foi, a liderança militar russa. O general Valery Gerasimov, Comandante do Estado-maior das Forças Armadas da Federação Russa, respondeu com um quadro detalhado da estratégia russa contra os EUA. 

O discurso de Gerasimov, intitulado “Vetores do Desenvolvimento de Estratégia Militar”, foi apresentado à Academia de Ciências Militares. O texto pode ser lido na íntegra, aqui  em russo, e aqui em inglês.




Gerasimov identificou “os EUA e seus aliados” como engajados em guerras permanentes de todos os tipos, inclusive “preparação para ‘ataque global’, ‘batalha em multidomínios’ [e o] uso de tecnologias de ‘revoluções coloridas’ e ‘poder brando’ [ing. soft power].” 

“O objetivo dos EUA e aliados é eliminar o Estado de países indesejáveis, minar a soberania desses estados, trocar autoridades públicas legitimamente eleitas. Foi feito no Iraque, na Líbia e na Ucrânia. Atualmente ações similares podem ser observadas na Venezuela (…). O resultado que os EUA obtiveram na Síria permitiu-nos [aos russos] identificar e definir a direção atual das pesquisas para emprego da Forças Armadas no cumprimento de missões de proteção e promoção de interesses nacionais russos fora do território nacional.”

É a primeira vez que o Estado-maior da Rússia identifica a Venezuela, ao lado de Ucrânia e Síria, como alvo de guerra dos EUA contra a qual é do interesse estratégico da Rússia opor-se. Gerasimov reservou também uma palavrinha para Kudrin. 

Em sua fala, Kudrin ignorara os militares, em seu ‘projeto’ de governo russo coordenado: “Se os sistemas policiais trabalham com plano próprio, enquanto instituições internacionais e o Ministério de Relações Exteriores trabalham por outro plano, e o Ministério de Desenvolvimento Econômico tenta aumentar a taxa de crescimento da economia até os padrões globais médios, nesse caso acontece exatamente coisa alguma. É preciso haver equipe coesa, todos trabalhando para um mesmo objetivo. [Todas as agências do Estado devem] sincronizar as ações, inclusive no formato de diálogo e de conciliação de tarefas, para melhorar o clima de investimento.”

A resposta do general Gerasimov: “O Pentágono começou a desenvolver estratégia de guerra fundamentalmente nova, que foi apelidada “Cavalo de Troia”. A essência dessa estratégia depende do uso ativo do ‘potencial protesto da 5ª coluna’ com vistas a desestabilizar a situação com simultâneos ataques com armas teleguiadas de precisão contra os alvos mais importantes.”

A coordenação dos recursos de defesa da Rússia, como a entende o Estado-maior, exige que as medidas para defesa contra sanções econômicas e operações de mídia e ciberataques dos EUA contra a Rússia e seus aliados, inclusive a subversão doméstica, devem ser dirigidas pelo Comando do Estado-maior.

“Gostaria de registrar” – disse Gerasimov – “que a Federação Russa está pronta para fazer frente a todas e a cada uma dessas estratégias. Em anos recentes, cientistas militares, trabalhando com o Estado-maior, desenvolveram abordagens conceituais para neutralizar as ações agressivas de adversários potenciais. O campo de pesquisa da estratégia militar é a luta armada em seu nível estratégico. Com a emergência de novas áreas de confronto nos conflitos modernos, os métodos de luta cada vez mais se encaminham diretamente para a aplicação integrada de medidas políticas, econômicas, de informação e outras medidas não militares, implementadas com o apoio da força militar.”

Tradução original no blog O Empastelador




quarta-feira, 20 de março de 2019

A Arte da Guerra - "Partido EUA" ativo nas instituições da União Europeia




18/3/2019, Manlio Dinucci, Il Manifesto 
Original: blog O Empastelador

“A Rússia já não pode ser considerada parceira estratégica, e a União Europeia deve estar pronta para lhe impor novas sanções, se o país continuar a violar o Direito Internacional”: esta é a resolução aprovada pelo Parlamento Europeu, em 12 de Março, por 402 votos a favor, 163 contra e 89 abstenções.

A resolução, apresentada pela deputada letã, Sandra Kalniete, nega principalmente a legitimidade das eleições presidenciais na Rússia, definindo-as como “não democráticas”, apresentando assim o Presidente Putin como um usurpador.
·        Acusa a Rússia não só de “violar a integridade territorial da Ucrânia e da Geórgia”, mas de “intervir na Síria e interferir em países como a Líbia” e, na Europa, de “interferir com o objectivo de influenciar as eleições e aumentar as tensões”.
·        Acusa a Rússia de “violar acordos de controle de armas”, atribuindo-lhe a responsabilidade de ter prejudicado o Tratado INF.
·        Acusa a Rússia, também, de “extensas violações dos Direitos Humanos dentro do país, incluindo tortura e execuções extrajudiciais”, e de “assassinatos cometidos pelos seus agentes, com armas químicas, em solo europeu”.

No final destas e de outras acusações, o Parlamento Europeu declara que o Nord Stream 2, gasoduto destinado a duplicar o fornecimento de gás russo à Alemanha pelo Mar Báltico, “deve ser interrompido, porque aumenta a dependência da UE do fornecimento de gás russo, ameaçando o seu mercado interno e os seus interesses estratégicos”.

A resolução do Parlamento Europeu repete fielmente, não apenas no conteúdo, mas usando as mesmas palavras, as acusações que EUA e OTAN fazem à Rússia. E, o mais importante, repete fielmente o pedido para bloquear o Nord Stream 2: objetivo da estratégia de Washington visando a reduzir o fornecimento de energia da Rússia à União Europeia e substituí-lo por energia proveniente dos Estados Unidos ou mesmo, de empresas americanas.

No mesmo âmbito, enquadra-se a comunicação da Comissão Europeia aos países membros, dentre os quais, a Itália, sobre a intenção de aderir à iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda:
·        A Comissão adverte que a China é parceira, mas também concorrente econômico e, mais importante, “rival metódico que promove modelos alternativos de governança” – em outras palavras, que promove modelos alternativos à governança dominada até agora pelas potências ocidentais.
·        A Comissão adverte que é necessário antes de tudo “salvaguardar as infraestruturas digitais críticas, de ameaças potencialmente perigosas para a segurança”, derivadas das redes 5G fornecidas por empresas chinesas como a Huawei, banida nos EUA.
·        A Comissão Europeia repete fielmente o aviso de EUA aos Aliados.

O Comandante Supremo Aliado na Europa, o General americano Scaparrotti, alertou que as redes móveis ultra rápidas da quinta geração desempenharão um papel cada vez mais importante nas capacidades bélicas da OTAN, de modo que não se admitem “descuidos” da parte dos aliados. Tudo isto confirma qual é a influência que o “partido americano” exerce – forçar um poderoso alinhamento transversal que orienta as políticas da União, em simultâneo, pelas mesmas linhas estratégicas EUA/OTAN.

Ao construir a imagem falsa de Rússia e China ameaçadoras, as instituições da UE preparam a opinião pública para aceitar o que os EUA estejam em preparativos para “defender” a Europa:

"Os EUA" – declarou à CNN um porta-voz do Pentágono – "preparam-se para testar mísseis balísticos com base em terra" (proibidos pelo Tratado INF destruído por Washington), isto é, novos mísseis europeus que novamente converterão a Europa em base e ao mesmo tempo em alvo de uma guerra nuclear.

Sanções ocidentais afetam a economia libanesa - EUA empurram o Líbano para os braços de Irã e Rússia




O Líbano espera essa semana a visita do secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo, num momento em que o mapa político econômico do Líbano está sendo redesenhado, e o Líbano sofre o mais grave revés econômico de sua história recente.

Entre as razões da deterioração da economia local, está não só a corrupção da liderança política e do 'baixo clero' do governo libanês, mas também as recentes sanções, as mais duras jamais impostas. E afetarão dramaticamente o Líbano enquanto o presidente Donald Trump permanecer no poder, se o Líbano não seguir a política e as ordens dos EUA.

Se como foi previsto, Washington declara guerra econômica ao país, as sanções deixarão poucas alternativas ao Líbano. Podem forçar o Líbano a voltar-se para a indústria civil iraniana, para sobreviver à pressão econômica dos EUA, e a depender da indústria militar russa para equipar as forças de segurança do Líbano. Acontecerá precisamente isso, se Pompeo insistir nas ameaças a funcionários libaneses, como assessores dele têm feito em visitas anteriores ao país. A insistente mensagem de funcionários dos EUA tem sido: ou você está conosco, ou contra nós.

Politicamente, o Líbano está dividido entre duas correntes, uma pró-EUA (e Arábia Saudita) e outra fora da órbita dos EUA. A situação econômica pode bem aprofundar a divisão interna, a ponto de a população reagir com fúria, para que se excluam do Líbano os EUA e aliados.


ImagemSaid Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, reunido 
com seu mais próximo aliado, presidente libanês Michel Aoun

Esse cenário pode também ser evitado, se Arábia Saudita injetar suficiente investimento que consiga religar a agonizante economia local. Mas a Arábia Saudita teme que todos os não alinhados às suas políticas e às políticas dos EUA possam extrair benefícios do apoio dos sauditas. Até aqui, Riad ainda não compreendeu completamente a dinâmica interna libanesa e o que é possível ou impossível alcançar no Líbano. O sequestro do primeiro-ministro Saad Hariri foi a mais flagrante indicação da ignorância saudita quanto à política libanesa. O mais provável é que a nenhuma visão estratégica dos sauditas para o Líbano venha a impedir qualquer apoio à periclitante situação econômica libanesa e pode levar o país a instabilidade grave.

Antes de 1982, 1 EUA-dólar equivalia a 3 libras libanesas. Aconteceu em parte porque a Organização de Libertação da Palestina (OLP) estava gastando dezenas de milhões de dólares no país, em benefício preferencial das famílias palestinas que viviam no Líbano. Além disso, organizações da ONU (UNRWA) e outras ONGs também distribuíam apoio financeiro a refugiados palestinos cujos lares foram tomadas por Israel, o que forçou muitas famílias a deixar o próprio país.

Depois da invasão israelense ao Líbano em 1982, a OLP foi forçada a deixar o país. Não muito depois, o EUA-dólar alcançou taxa de câmbio de 3.000 liras libanesas, depois desvalorizada, para estabilizar na taxa atual de 1 EUA-dólar por 1.500 liras libanesas. O Irã entrou em cena para apoiar os combatentes libaneses (a Resistência Islâmica no Líbano, i.e. o Hezbollah) a recuperar o próprio território então ocupado por Israel. No ano 2000, o Irã começou a investir pesadamente no Hezbollah, e o grupo conseguiu expulsar os israelenses de praticamente todo o território libanês. O investimento financeiro iraniano alcançou nível muito alto na época da guerra de 2006, quando Israel tentou e não conseguiu desarmar o Hezbollah, que manteve seus foguetes e mísseis fora do alcance de Israel.


Imagem: Said Nasrallah, líder do Hezbollah, com seu mais 


Em 2013, o governo sírio convocou o Hezbollah para apoiar o Exército Sírio que combatia para impedir a desintegração do país e impedir que os militantes takfiri ganhassem o controle do país. O Irã bombeou bilhões de dólares para derrotar ISIS e al-Qaeda e impedir que esses grupos se impusessem na Síria e Iraque, sabendo sempre que o alvo seguinte seria o Irã. O orçamento para as tropas do Hezbollah subiu à estratosfera. Apoio à movimentação de tropas, logística e pagamentos diários aos próprios combatentes, contribuíram para 'animar' a economia libanesa. O orçamento do Hezbollah subiu bem acima de $100 milhões por mês.

Mas depois da chegada de Donald Trump ao poder, e de os EUA terem desertado do acordo nuclear com o Irã, o governo dos EUA impôs àquele país as sanções mais severas de todos os tempos, e cortou as doações às organizações da ONU que apoiam os refugiados palestinos (UNRWA). As sanções contra o Irã forçaram o Hezbollah a viver sob novo orçamento: um plano de austeridade de cinco anos. As forças foram reduzidas a um mínimo na Síria, o movimento das tropas foram reduzidos conforme a verba mais curta, e todos os pagamentos adicionais foram suspensos. O Hezbollah reduziu o próprio orçamento a ¼ do que havia sido, sem suspender salários mensais e assistência médica a militantes e fornecedores, por ordem pessoal de Said Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah.

Essa nova situação financeira, de fluxo de dinheiro reduzido e sem moeda estrangeira, afetará a economia do Líbano. Prevê-se que as consequências sejam mais visíveis nos próximos meses, o que pode levar a possível reação doméstica, quando a população sentir o peso da dificuldade econômica.

EUA e Europa estão impondo controle estrito sobre ativos que entrem e saiam do Líbano. O país está numa lista negra financeira e todas as transações são fiscalizadas em detalhe. Doações religiosas de outros países estão proibidas, na prática, posto que expõem os doadores a acusações graves, por países ocidentais, de apoio ao terrorismo.

Enquanto Trump permanecer no poder, Hezbollah e Irã avaliam que a situação permanecerá crítica; estimam que, muito provavelmente, o presidente dos EUA será reeleito para um segundo mandato. Os próximos cinco anos serão muito provavelmente difíceis para a economia libanesa, especialmente se a visita de Pompeo trouxer mensagens e ordens às quais o Líbano não pode atender.





Pompeo quer que o Líbano desista da demanda de redefinir suas disputadas fronteiras líquidas com Israel, cedendo à entidade sionista os blocos 8, 9 e 10. A demanda não será atendida, e funcionários libaneses disseram em várias ocasiões que contam com os mísseis de precisão do Hezbollah para impedir que Israel continue a roubar água do Líbano.

Pompeo também quer que o Líbano exclua o Hezbollah do governo. Outra vez, o establishment norte-americano ignora que o Hezbollah é quase 1/3 da população do Líbano, apoiado por mais da metade dos xiitas, cristãos, sunitas e drusos libaneses, com cargos noExecutivo e no Legislativo do país.

Qual, então, a alternativa? Se Arábia Saudita entrar no jogo, o Líbano não precisa de um ou dois ou cinco bilhões, mas de dezenas de bilhões de dólares para ressuscitar a economia. E também precisa que de uma política de 'tirem as mãos daqui' para o establishment dos EUA, para que o país consiga se autogovernar.





Os sauditas já estão sofrendo com os abusos de Trump, e o dinheiro saudita está desaparecendo. E se os sauditas decidirem investir no Líbano, tentarão impor termos não muito diferentes do que os EUA exigem. A Arábia Saudita delira, se conta com bloquear, no Líbano, a influência do Irã e a ação dos apoiadores do Hezbollah: é objetivo completamente inatingível.

Quanto ao Líbano restam-lhe poucas escolhas. O Líbano pode aproximar-se ainda mais do Irã pensando em reduzir gastos e o preço de bens de consumo; e pode pedir à Rússia que apoie o exército libanês, se o ocidente não o fizer. A China prepara-se para entrar no país e, sim, pode ser alternativa positiva para o Líbano, usando o país como plataforma para chegar à Síria e, dali, ao Iraque e à Jordânia. Sem isso, o Líbano terá de preparar-se para juntar-se à lista dos países mais pobres da região e do mundo.

Um sombra paira sobre a terra dos cedros, que já teve de lutar pela própria sobrevivência no século 21. O Hezbollah, agora sujeito às sanções de EUA e Reino Unido, é a mesma força que já protegeu o país contra combatentes takfiri do ISIS e outros, que ameaçavam expulsar do país os cristãos. Esse foi o conselho que o presidente Sarkozy da França deu ao patriarca libanês, que os cristãos libaneses deixassem as suas casas. Os jihadistas takfiri e a OTAN têm precisamente os mesmos planos para o Líbano. 

O fracasso do plano do establishment dos EUA, de dividir o Iraque e criar um estado falhado na Síria, como parte de um "novo Oriente Médio" despertou o urso russo de sua longa hibernação. Hoje, a Rússia compete com os EUA pela hegemonia no Oriente Médio, obrigando Trump a tentar absolutamente tudo, sem limite, para quebrar a frente anti-EUA.

É batalha sem regras, vale-tudo no qual se permitem todos os golpes. Os EUA estão empurrando o Líbano para um beco, onde não lhe restará alternativa que não seja firmar uma íntima parceria com Irã e Rússia.


Postado há 17 hours ago por  O Empastelador

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Grécia: Como o Império revidará



6/7/2015, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
The Saker

OK, agora que todos já celebramos o belo “NÃO!” grego aos plutocratas da União Europeia, temos de voltar à real e examinar as opções do Império. Ou, na verdade, a opção do Império, no singular.
O Império é extremamente previsível. O exemplo da Grécia é caso exemplar, de manual, de como o Império usa bancos para estrangular um país com dívidas; criar uma classe governante comprador; fazer da imprensa-empresa nacional instrumento para a propaganda imperial; e tentar deter completamente qualquer processo democrático, negociando exclusivamente com a classe governante. Por alguma espécie de quase-milagre, no caso grego essa última fase fracassou.
Posso estar errado, mas meu instinto diz que o Império jamais levou muito a sério o SYRIZA ou, se levou, só passou a fazê-lo muito tarde demais. Quanto a Tsipras e Varoufakis, foram provavelmente tão surpreendidos como todos nós, quando repentinamente se viram “promovidos”, da liderança de um partido com 5% dos votos, à liderança legítima de toda a nação grega. Também tenho a impressão de que nem Tsipras nem Varoufakis esperavam pelo tsunami que desencadearam com esse referendum. Mas, seja qual for o caso, o que está feito está feito. Para absoluto horror dos euroburocratas, o povo grego falou e, no momento, o Império só tem uma opção: ou cooptar ou derrubar o governo grego, o que sempre funciona melhor.
Pessoalmente, sinto que é tarde demais para cooptar o governo. Além do que, Tsipras e Varoufakis tornaram-se figuras tão odiadas entre os euroburocratas, que a solução a ser provavelmente escolhida será derrubá-los.
Aparentemente, esse processo já está em andamento. Varoufakis que antes dissera que “vocês vão ter de me aguentar”, já renunciou. Quanto a Tsipras, parece estar suplicando por negociações. Espero estar errado, mas não estou muito entusiasmado com o que vi até aqui.
Então, mais uma revolução colorida?
O exemplo de Gaddafi da Líbia mostra claramente que um líder nacional pode render-se completamente e submeter-se aos anglo-sionistas e *mesmo assim* ser derrubado. Meu palpite é que não importa quantas concessões Tsipras faça, nada será suficiente para mantê-lo no poder. Tsipras humilhou os euroburocratas, e eles não o perdoarão. Agora só resta ao Império fazer da Grécia, exemplo. É a única solução lógica.
Estará Soros preparando...
Revolução Colorida para a Grécia?

Aconteça o que acontecer, a Grécia enfrentará tempos extremamente difíceis, politicamente e economicamente. Vimos recentemente como um país – nesse caso, a Armênia – pode ser facilmente “castigada” por atrever-se a desobedecer aos diktats imperiais.
Acho que a Grécia é, hoje, país muito mais fraco e frágil que a Armênia.
 
  • Para começar, porque os alemães e norte-americanos mais ou menos mandam no país; pode-se dizer até que são donos de tudo.
  • Em segundo lugar, um denso sólido 1/3 do país estava querendo aceitar os termos do ultimato da plutocracia transnacional.
  • Em terceiro, a Grécia é cercada pela OTAN e por instabilidade por todos os lados.
  • Quarto toda a imprensa-empresa do país, toda ela, é de propriedade dos anglo-sionistas.
  • Quinto, a Grécia não tem recursos naturais ou algum bom mercado fora da União Europeia.
Diferente de outros, não tenho muito medo dos militares gregos. Sim, militares quase sempre se posicionam ao lado das elites comprador, mas a última coisa que a União Europeia quer é outra junta militar fascista no governo de país no continente. E a reação do povo grego a um golpe aberto parece ser altamente imprevisível.
Acho que o cenário mais provável é que o próximo “evento” seja uma Maidan grega, seguida de acusações de brutalidade policial e todo o cenário típico de “revolução colorida”. Ao final do dia, o que acontecer dependerá muito da posição que tomem Tsipras e o seu partido:
 
  • se buscarem apaziguar os euroburocratas, se fizerem infinitas concessões, se agirem como “europatriotas” leais, nesse caso serão esmagados:
mas
  • se apelarem diretamente ao povo grego, e explicarem com clareza que aquela é a luta de libertação nacional dos gregos, e que a liderança precisa do apoio e da proteção do povo, nesse caso é altamente provável que vençam, sobretudo se optarem por romper com a Eurozona e coligar-se à União Econômica Eurasiana e à China, como suas apoiadoras.
PARE O ARROCHO - APOIE A GRÉCIA - MUDE A EUROPA

Espero estar errado, mas não vejo Tsipras ousando essa virada tão dramática. Eis por que prevejo, na sequência, uma “revolução colorida”.
Aconteça o que acontecer, não vai demorar. Logo saberemos.
The Saker