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sexta-feira, 22 de março de 2019

Fracassou a política dos EUA: Reabertas as fronteiras entre Iraque e Síria e a estrada Irã-Beirute




Imagem: Combatentes suspeitos de pertencer ao ‘Estado Islâmico’ (EI) esperam para serem revistados por membros das Forças Democráticas Sírias (curdos), depois de deixarem a última área ainda controlada pelo EI em Baghouz, na província de Deir Ezzor, norte da Síria, dia 22/2/2019 (BULENT KILIC/AFP/Getty Images)

21/3/2019, Original, em inglês em: Elijah J Magnier Blog

“Dinossauro com cabeça de periquito”. Assim o ex-presidente do Irã Hashemi Rafsanjani descreveu os EUA, evocando a grande força militar mas a completa falta de inteligência estratégica na política externa norte-americano. De fato, o encontro não frequente dos comandantes de estado-maior de Síria, Iraque e Irã em Damasco essa semana jamais seria possível sem a recente ação dos EUA na Síria.

establishment norte-americano fez grande favor aos três países alinhados com o “Eixo da Resistência”, ao eliminar o grupo do ‘Estado Islâmico” (EI) no último reduto a leste do Eufrates. O ataque dos norte-americanos a Baghuz (leste da Síria), realizado em conjunto com seus agentes locais curdos, levou os três comandantes militares a decidir reabrir a estrada entre Síria e Iraque, pavimentando assim uma via terrestre segura para Iraque e Síria. Significa que a estrada Teerã-Bagdá-Damasco-Beirute está reaberta. Não é a primeira vez que o establishment norte-americano, com seu planejamento sempre precário, presta ajuda estratégica realmente importante ao Irã.

Quando o presidente Donald Trump dos EUA decidiu retirar-se da Síria, falando do país como “terra de areia e morte”, até que falava sério sobre o tal plano. Mas os EUA não podia sair sem, antes, eliminar o bolsão do ISIS na área controlada pelos EUA no leste da Síria, porque significaria deixar lá o único pretexto que os norte-americanos encontraram para ocupar aquela área. Por isso, Trump foi aconselhado a eliminar o ISIS (afinal!) antes de retirar seus soldados. Assim, depois de longos meses de paralisia, Trump afinal ordenou que seus soldados fizessem o que haviam dito que fariam, depois de os EUA, por meses, só terem protegido o grupo terrorista e permitido que dezenas de milhares de terroristas do ISIS se movimentassem com toda a liberdade para atacar o Exército Árabe Sírio e aliados ao longo do eixo Deir-ezzour al-Bukamal.

Difícil superestimar a importância da decisão de Trump de, finalmente, agir contra os terroristas do ISIS. Desde 2014 os EUA fingem que combatem contra os terroristas do ISIS, quando, na verdade, só fizeram facilitar o processo pelo qual o grupo expandiu-se e assassinou soldados do Exército Árabe Sírio os quais, esses sim, combatiam contra – não a favor – dos terroristas. Durante todo esse tempo, os EUA usaram o ISIS como pretexto para a presença militar dos EUA na Síria.
 
Os EUA agora, finalmente, realmente bombardearam e destruíram Raqqah, ocupada pelo ISIS; na sequência, conseguiram um acordo para deportar muitos milhares de combatentes do ISIS. Mas a Batalha de Baghuz, ainda em curso, é a primeira vez que os EUA realmente lutaram contra o ‘Estado Islâmico’. Diga-se a favor do presidente Trump que seu governo está, afinal, fazendo, mesmo, o que os EUA até agora só fingiram que faziam, ao longo de cinco anos: Trump afinal está realmente combatendo contra os terroristas do ISIS

Essa campanha espetacular e real, não ficcional, garante ao governo Trump os méritos por ter derrotado o ‘Estado Islâmico’ – embora todos saibam que, por meia década, quem realmente combateu contra os terroristas foram o Exército Árabe Sírio, a Rússia, os iraquianos do grupo Hashed al-Shaabi, o Exército do Iraque, o Hezbollah libanês e o Irã.

Em Baghuz, forças dos EUA (e aliados europeus) bombardearam o ISIS até confinar o grupo numa cidade bem pequena. Conseguiram abrir uma via segura para retirada de mulheres, crianças, idosos, terroristas feridos e os muitos que preferiram render-se. Mais de 35 mil terroristas do ‘Estado Islâmico’ e famílias saíram daquele lugar exíguo. 9.000 militantes foras feridos ou mortos. As forças dos EUA e seus agentes locais curdos conseguiram encurralar o que resta do grupo terrorista numa área de menos de 1kme nos próximos dias lançarão o assalto final. É questão de tempo, e o ISIS entregará seu último bastião a leste do Eufrates.

O fim próximo da ameaça que foi o ‘Estado Islâmico’ criou a oportunidade para um encontro raro. O comandante do Estado-maior do Irã, major-general Mohammad Baqeri; o ministro da Defesa da Síria, Ali Abdullah Ayyoub; e o comandante do Estado-maior do Iraque tenente-general Othman al-Ghanmi reuniram-se em Damasco, capital da Síria e decidiram reabrir as fronteiras entre Iraque e Síria.

Ao, finalmente, remover os terroristas do ‘Estado Islâmico daquela área, o governo dos EUA, sob a presidência de Trump afinal reconheceu o erro que os norte-americanos cometeram na Síria. Enquanto o ISIS foi mantido ali, tornou-se impossível o trânsito seguro de mercadorias necessárias para a sobrevivência dos cidadãos iranianos e iraquianos. Agora afinal, depois de reconhecer isso, os EUA tomaram a decisão correta de sair de lá, deixando apenas algumas centenas de soldados norte-americanos, para efetivamente proteger, não atacar, os locais.

Graças ao movimento dos EUA, o Irã pode agora enviar todos os suprimentos necessários e retomar o comércio regular com a Síria, num momento em que Israel já começa a bombardear o aeroporto de Damasco e tenta impedir ou, no mínimo, retardar, o fornecimento, ao Exército Árabe Sírio, de mísseis de precisão e outros equipamentos militares necessários para reconstruir as forças de defesa sírias. Com a abertura de uma nova passagem de fronteira entre Iraque e Síria, perde importância a ocupação, pelos norte-americanos, da passagem de al-Tanf. Se os EUA tentarem pressionar o Iraque para que suspenda o comércio com Irã ou Síria, Bagdá exigirá que Trump retire suas forças de toda a Mesopotâmia.

A decisão de Trump também implica que a economia síria volta a poder acumular alguma energia, tão logo a estrada por terra, até o Iraque, volte a operar normalmente. Os três comandantes acabaram dando boas risadas da política e dos movimentos dos EUA na Síria. Todos colheram importantes benefícios dos repetidos erros de estratégia que Washington comete, desde que ocupou o Iraque em 2003 e ‘mudou o regime’ de Saddam Hussein – eterno e feroz inimigo do Irã.
O ‘Estado Islâmico’, EI ou ISIS ainda é risco de segurança, mas deixou de ser ameaça militar. Remanescentes do grupo ainda podem atacar comboios ou alvos leves, mesmo depois do acordo conjunto dos três países para patrulhar as fronteiras e contribuir, com tecnologia, inteligência e soldados para proteger a passagem de fronteira de al-Bu e somar esforços reais na luta contra o terrorismo naquela área. 

EUA quase sempre consideram o grande cenário, quando seus estrategistas e planejadores tentam redesenhar fronteiras, mudar regimes e produzir estados falhados. Mas muitas vezes deixam passar sem ver detalhes que podem virar a guerra a favor dos supostos inimigos que os EUA produzem, nesse caso, a favor do Irã. Como Rafsanjani comentou certa vez, EUA são “um dinossauro com cabeça de periquito”.

Rafsanjani não foi o único a fazer comentários cáusticos. Em evento recente em homenagem aos sucessos no Iraque e na Síria, do comandante e da brigada Qods do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã, major-general Qassem Soleimani, o líder da Revolução Islâmica Said Ali Khamenei disse, falando de EUA (e Arábia Saudita): “agradecemos a Alá, que nos deu inimigos imbecis”.


Tradução original no blog O Empastelador

quarta-feira, 20 de março de 2019

Sanções ocidentais afetam a economia libanesa - EUA empurram o Líbano para os braços de Irã e Rússia




O Líbano espera essa semana a visita do secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo, num momento em que o mapa político econômico do Líbano está sendo redesenhado, e o Líbano sofre o mais grave revés econômico de sua história recente.

Entre as razões da deterioração da economia local, está não só a corrupção da liderança política e do 'baixo clero' do governo libanês, mas também as recentes sanções, as mais duras jamais impostas. E afetarão dramaticamente o Líbano enquanto o presidente Donald Trump permanecer no poder, se o Líbano não seguir a política e as ordens dos EUA.

Se como foi previsto, Washington declara guerra econômica ao país, as sanções deixarão poucas alternativas ao Líbano. Podem forçar o Líbano a voltar-se para a indústria civil iraniana, para sobreviver à pressão econômica dos EUA, e a depender da indústria militar russa para equipar as forças de segurança do Líbano. Acontecerá precisamente isso, se Pompeo insistir nas ameaças a funcionários libaneses, como assessores dele têm feito em visitas anteriores ao país. A insistente mensagem de funcionários dos EUA tem sido: ou você está conosco, ou contra nós.

Politicamente, o Líbano está dividido entre duas correntes, uma pró-EUA (e Arábia Saudita) e outra fora da órbita dos EUA. A situação econômica pode bem aprofundar a divisão interna, a ponto de a população reagir com fúria, para que se excluam do Líbano os EUA e aliados.


ImagemSaid Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, reunido 
com seu mais próximo aliado, presidente libanês Michel Aoun

Esse cenário pode também ser evitado, se Arábia Saudita injetar suficiente investimento que consiga religar a agonizante economia local. Mas a Arábia Saudita teme que todos os não alinhados às suas políticas e às políticas dos EUA possam extrair benefícios do apoio dos sauditas. Até aqui, Riad ainda não compreendeu completamente a dinâmica interna libanesa e o que é possível ou impossível alcançar no Líbano. O sequestro do primeiro-ministro Saad Hariri foi a mais flagrante indicação da ignorância saudita quanto à política libanesa. O mais provável é que a nenhuma visão estratégica dos sauditas para o Líbano venha a impedir qualquer apoio à periclitante situação econômica libanesa e pode levar o país a instabilidade grave.

Antes de 1982, 1 EUA-dólar equivalia a 3 libras libanesas. Aconteceu em parte porque a Organização de Libertação da Palestina (OLP) estava gastando dezenas de milhões de dólares no país, em benefício preferencial das famílias palestinas que viviam no Líbano. Além disso, organizações da ONU (UNRWA) e outras ONGs também distribuíam apoio financeiro a refugiados palestinos cujos lares foram tomadas por Israel, o que forçou muitas famílias a deixar o próprio país.

Depois da invasão israelense ao Líbano em 1982, a OLP foi forçada a deixar o país. Não muito depois, o EUA-dólar alcançou taxa de câmbio de 3.000 liras libanesas, depois desvalorizada, para estabilizar na taxa atual de 1 EUA-dólar por 1.500 liras libanesas. O Irã entrou em cena para apoiar os combatentes libaneses (a Resistência Islâmica no Líbano, i.e. o Hezbollah) a recuperar o próprio território então ocupado por Israel. No ano 2000, o Irã começou a investir pesadamente no Hezbollah, e o grupo conseguiu expulsar os israelenses de praticamente todo o território libanês. O investimento financeiro iraniano alcançou nível muito alto na época da guerra de 2006, quando Israel tentou e não conseguiu desarmar o Hezbollah, que manteve seus foguetes e mísseis fora do alcance de Israel.


Imagem: Said Nasrallah, líder do Hezbollah, com seu mais 


Em 2013, o governo sírio convocou o Hezbollah para apoiar o Exército Sírio que combatia para impedir a desintegração do país e impedir que os militantes takfiri ganhassem o controle do país. O Irã bombeou bilhões de dólares para derrotar ISIS e al-Qaeda e impedir que esses grupos se impusessem na Síria e Iraque, sabendo sempre que o alvo seguinte seria o Irã. O orçamento para as tropas do Hezbollah subiu à estratosfera. Apoio à movimentação de tropas, logística e pagamentos diários aos próprios combatentes, contribuíram para 'animar' a economia libanesa. O orçamento do Hezbollah subiu bem acima de $100 milhões por mês.

Mas depois da chegada de Donald Trump ao poder, e de os EUA terem desertado do acordo nuclear com o Irã, o governo dos EUA impôs àquele país as sanções mais severas de todos os tempos, e cortou as doações às organizações da ONU que apoiam os refugiados palestinos (UNRWA). As sanções contra o Irã forçaram o Hezbollah a viver sob novo orçamento: um plano de austeridade de cinco anos. As forças foram reduzidas a um mínimo na Síria, o movimento das tropas foram reduzidos conforme a verba mais curta, e todos os pagamentos adicionais foram suspensos. O Hezbollah reduziu o próprio orçamento a ¼ do que havia sido, sem suspender salários mensais e assistência médica a militantes e fornecedores, por ordem pessoal de Said Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah.

Essa nova situação financeira, de fluxo de dinheiro reduzido e sem moeda estrangeira, afetará a economia do Líbano. Prevê-se que as consequências sejam mais visíveis nos próximos meses, o que pode levar a possível reação doméstica, quando a população sentir o peso da dificuldade econômica.

EUA e Europa estão impondo controle estrito sobre ativos que entrem e saiam do Líbano. O país está numa lista negra financeira e todas as transações são fiscalizadas em detalhe. Doações religiosas de outros países estão proibidas, na prática, posto que expõem os doadores a acusações graves, por países ocidentais, de apoio ao terrorismo.

Enquanto Trump permanecer no poder, Hezbollah e Irã avaliam que a situação permanecerá crítica; estimam que, muito provavelmente, o presidente dos EUA será reeleito para um segundo mandato. Os próximos cinco anos serão muito provavelmente difíceis para a economia libanesa, especialmente se a visita de Pompeo trouxer mensagens e ordens às quais o Líbano não pode atender.





Pompeo quer que o Líbano desista da demanda de redefinir suas disputadas fronteiras líquidas com Israel, cedendo à entidade sionista os blocos 8, 9 e 10. A demanda não será atendida, e funcionários libaneses disseram em várias ocasiões que contam com os mísseis de precisão do Hezbollah para impedir que Israel continue a roubar água do Líbano.

Pompeo também quer que o Líbano exclua o Hezbollah do governo. Outra vez, o establishment norte-americano ignora que o Hezbollah é quase 1/3 da população do Líbano, apoiado por mais da metade dos xiitas, cristãos, sunitas e drusos libaneses, com cargos noExecutivo e no Legislativo do país.

Qual, então, a alternativa? Se Arábia Saudita entrar no jogo, o Líbano não precisa de um ou dois ou cinco bilhões, mas de dezenas de bilhões de dólares para ressuscitar a economia. E também precisa que de uma política de 'tirem as mãos daqui' para o establishment dos EUA, para que o país consiga se autogovernar.





Os sauditas já estão sofrendo com os abusos de Trump, e o dinheiro saudita está desaparecendo. E se os sauditas decidirem investir no Líbano, tentarão impor termos não muito diferentes do que os EUA exigem. A Arábia Saudita delira, se conta com bloquear, no Líbano, a influência do Irã e a ação dos apoiadores do Hezbollah: é objetivo completamente inatingível.

Quanto ao Líbano restam-lhe poucas escolhas. O Líbano pode aproximar-se ainda mais do Irã pensando em reduzir gastos e o preço de bens de consumo; e pode pedir à Rússia que apoie o exército libanês, se o ocidente não o fizer. A China prepara-se para entrar no país e, sim, pode ser alternativa positiva para o Líbano, usando o país como plataforma para chegar à Síria e, dali, ao Iraque e à Jordânia. Sem isso, o Líbano terá de preparar-se para juntar-se à lista dos países mais pobres da região e do mundo.

Um sombra paira sobre a terra dos cedros, que já teve de lutar pela própria sobrevivência no século 21. O Hezbollah, agora sujeito às sanções de EUA e Reino Unido, é a mesma força que já protegeu o país contra combatentes takfiri do ISIS e outros, que ameaçavam expulsar do país os cristãos. Esse foi o conselho que o presidente Sarkozy da França deu ao patriarca libanês, que os cristãos libaneses deixassem as suas casas. Os jihadistas takfiri e a OTAN têm precisamente os mesmos planos para o Líbano. 

O fracasso do plano do establishment dos EUA, de dividir o Iraque e criar um estado falhado na Síria, como parte de um "novo Oriente Médio" despertou o urso russo de sua longa hibernação. Hoje, a Rússia compete com os EUA pela hegemonia no Oriente Médio, obrigando Trump a tentar absolutamente tudo, sem limite, para quebrar a frente anti-EUA.

É batalha sem regras, vale-tudo no qual se permitem todos os golpes. Os EUA estão empurrando o Líbano para um beco, onde não lhe restará alternativa que não seja firmar uma íntima parceria com Irã e Rússia.


Postado há 17 hours ago por  O Empastelador

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Elijah J. Magnier entrevista um comandante do ISIS, Abu Baqr-al-Janabi

22/6/2014, [*] Elijah J. Magnier (Bagdá) – Blog de Elijah J. M.
Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu

Observação importante: 
Caros amigos, decidimos correr o risco de publicar esta “entrevista” apesar de existirem 4 (quatro) razões contrárias:
(I) a natureza do jornal Alrai, intimamente ligado à família real do Kuwait,
(II) o perfil do autor da entrevista, que parece ser de um típico agente da CIA.
(III) a impossibilidade de se saber quem é “Abu Bakr-al-Janabi” e se realmente existe.
(IV) O tradutor árabe-inglês da Tlaxcala notou grandes diferenças entre o texto árabe e o texto em inglês.


“Essa é uma das principais razões pelas quais declaramos guerra aos xiitas e ao xiismo: porque apoiaram as forças dos EUA contra os iraquianos. Antes de 2003, não havia essa divisão entre sunitas e xiitas no Iraque. Os norte-americanos conseguiram nos dividir. Agora é tarde demais”


Posto fortificado do governo tomado pelo ISIS a 90 km de Bagdá (13/6/2014)
O Estado Islâmico no Iraque e Levante, ISIS ou ISIL, refere-se ao Levante. Os apoiadores do Dawla – do “Estado” – usam mais a sigla ISIS, que se converteu em terminologia mais usada. Mas o objetivo do ISIS não é Iraque e Síria: é o Levante e além do Levante, incluindo Jordânia, Líbano, Palestina, Israel. “Não há limites” – é o que ouço.

Abu Baqr-al-Janabi, um “soldado do Dawla”, conversa sobre o recente desenvolvimento no Iraque. É iraquiano, mas não de Bagdá. Passou grande parte da infância em Bagdá. Combinamos que diríamos apenas que, hoje, ele está em Bagdá.

Eis nossa conversa:

PERGUNTA: O certo é ISIS ou ISIL?

Abu Baqr-al-Janabi: As duas formas estão certas. Nosso alvo inicial é Bilad-al-Sham (Levante). Podem-se usar as duas siglas.

PERGUNTA: O ISIS está conseguindo impor-se entre outros grupos insurgentes iraquianos? Muitas matérias dizem que o ISIS só representa uma pequena parte do levante contra o governo iraquiano. E que o ex-vice-presidente do Iraque, Izzat Duri está liderando o “Exército Naqshabandi” e quem manda é ele. Você confirma?

Abu Baqr-al-Janabi: “Os Naqshabandis podem sem bem esquivos, mas não podem fazer o que bem entenderem no Iraque. Por exemplo: o ISIS absorveu lentamente o IAI. Alguns dias atrás, em Diyala, o IAI (Ansar Al-Islam) uniu-se ao ISIS, o que nos tornou o maior grupo. Izzat Duri não pode fazer nada quanto à expansão do ISIS. Um movimento errado, e a coisa fica feia. Até aqui, nenhum dos que eles reúnem atacou o ISIS ou nos apunhalou pelas costas. Principalmente, é importante ter em mente que Mosul é a cidade natal do Partido Baath do Iraque. Ninguém pode negar que muitos grupos estão envolvidos e lutam ao lado do ISIS, mas é o ISIS que dá as ordens. Por exemplo, é a bandeira do ISIS (do monoteísmo) que está hasteada aqui; também em Baiji, Tikrit e outras cidades. Mas, sim: o ISIS não está lutando sozinho, como o governo tem dito.

PERGUNTA: E como surgiu essa tolerância? Sabe-se bem o que os Baathistas pensam do Islã.

Abu Baqr-al-Janabi: O governo iraquiano tentou suprimir os sunitas, dizendo que essa seria guerra contra o ISIS; e eles pintam todos os sunitas religiosos como se fossem o ISIS, o que não é correto. Há enorme diferença entre um Baath iraquiano e um Baath sírio. De fato, eles discutem entre eles. O Baath sírio é ultra secular, anti-religião; e o Baath iraquiano tende mais para um pan-arabismo com o heroísmo islâmico. Em geral, os iraquianos são mais conservadores que os sírios.

PERGUNTA: Lembro que, em 2006, fui entrevistar o presidente do Partido Comunista em Bagdá, e não o encontrei, porque ele estava cumprindo o preceito religioso da peregrinação a Meca.

Abu Baqr-al-Janabi: Muitos Baathistas estão-se tornando mais pró-ISIS e abandonando as ideias Baathistas. Como já lhe disse antes, os membros do exército Naqshabandi rezam e jejuam como qualquer muçulmano; não são seculares como a imprensa-empresa os apresenta. Até agora, de fato, nunca atacaram o ISIS, e interessa ao ISIS cooperar temporariamente com eles, pelo menos por enquanto.

PERGUNTA: O que você pensa dos EUA dizerem que apoiarão o primeiro-ministro Nouri al Maliki contra o ISIS?

Abu Baqr-al-Janabi: É interessante para o ISIS, porque tudo pode ser visto como guerra contra os sunitas no Iraque. O governo dos EUA sabe que Maliki é sectário até os ossos. O Iraque precisa de mudança de fundo. A partilha de poder é baseada nas seitas e no sectarismo. Até a ex-secretária de Relações Exteriores dos EUA, Condoleezza Rice, falou disso no livro dela (maior honra não há).

Exército Naqshabandi, aliado presumível do ISIS
PERGUNTA: É possível que Naqshabandi aceite acordo, por exemplo, com os EUA?

Abu Baqr-al-Janabi: A resposta é não. Esses grupos não podem fazer acordo algum com os norte-americanos, enquanto o ISIS estiver por aí. Outros grupos partilham as mesmas ideias do ISIS, como IAI. Ansar Al-Islam já partilha muitas das ideias do ISIS. Muitos desses grupos uniram-se ao ISIS depois de 2007.

PERGUNTA: Há quem diga que o ISIS ficará sobrecarregado com dois fronts, Iraque e Síria; que poderia enfraquecer um (a Síria) para manter o outro (Iraque). É ideia que você aprova?

Abu Baqr-al-Janabi: Não. O ISIS na Síria é autossuficiente e não depende do ISIS no Iraque. Os restos da guerra são bônus. Muitos analistas disseram que o ISIS perderia a guerra contra outra facção rebelde em janeiro passado. E veja como a situação se modificou a nosso favor. O ISIS é cheio de surpresas, e até eu me surpreendi com a rapidez da ofensiva em Mosul. Eu sabia que alguma coisa estava preparada em Salahudin e Mosul já há algum tempo, mas não percebi que o ataque surpresa com outros grupos seria tão bem-sucedido, tão rapidamente. A ofensiva começou pelo leste e visou a atrair as forças de segurança. O ataque principal veio de células do ISIS dentro de Mosul, com cooperação de outros grupos que iniciaram o levante.

PERGUNTA: Também há quem diga que a morte de Assad-Allah Bilawi acelerou o processo. É verdade?

Abu Baqr-al-Janabi: Sim, de certo modo. Mas não teve efeito realmente determinante, porque o ISIS já estava dentro de Mosul durante a ofensiva e surpreenderam, numa emboscada, as forças de segurança.

PERGUNTA: Por que Bagdá está demorando tanto a cair em mãos do ISIS?

Abu Baqr-al-Janabi: Bagdá é cidade muito grande. Em Mosul há dois milhões de habitantes; em Bagdá são mais de seis milhões. O norte de Bagdá é fortaleza xiita, como Kazimiyeh, cidade de Al Sadr, Sha’la. Mas o ISIS está no coração da capital, no sul de Bagdá, norte de Babilônia e outros pontos, à espera. Estamos avançando nas províncias de Diyala e Kirkuk. Mas a base militar Taji e o aeroporto de Bagdá estão no nosso caminho. A refinaria Baiji também é um obstáculo, porque não podemos deixar uma posição do governo iraquiano às nossas costas, quando avançarmos para a capital, por todos os lados.

Famílias iraquianas fogem das regiões dominadas pelo ISIS para o Curdistão
PERGUNTA: Sim, mas como o ISIS entrará em Bagdá?

Abu Baqr-al-Janabi: Muitos dos comandantes do ISIS foram oficiais do exército, com ligações com muitos oficiais da ativa e também aposentados com muitas conexões. O principal é que muitos já desistiram da ideia de morrer por al-Maliki. Nossa mídia, o “Clanking of the Swords” também contribuiu, mostrando como matamos nossos inimigos. Assim, muitos oficiais e colaboradores sunitas desistiram da ideia de opor-se ao ISIS, particularmente os que têm família nas regiões onde nós operamos. Nós sabemos o que acontece em todo o Iraque.

PERGUNTA: Como foi decidido e planejado o timing do ataque contra Mosul?

Abu Baqr-al-Janabi: Já sabíamos que uma grande operação estava sendo preparada em Salahoddine e Mosul. Estávamos preparados e já havia Mujahidin do ISIS dentro de Mosul antes do dia do ataque.

PERGUNTA: E quanto ao avanço da Pershmerga (guerrilha curda) em Kirkuk e Qhaniqin?

Abu Baqr-al-Janabi: Há embates entre o ISIS e a Peshmerga nessas áreas disputadas. Registramos alguns avanços significativos e capturamos muitos espiões que foram imediatamente executados. Os curdos não estão em posição ideal. Aproveitam-se da situação, para morder mais extensões de terra. O premiê iraquiano atacou os curdos e o líder de Asaeb Ahl al-Haq, Qais al-Ghaz’ali ameaçou expulsar de Bagdá todos os curdos.

PERGUNTA: Você acha que o ISIS cederá Kirkuk aos curdos? P. Masood Barazani conclamou a uma mobilização geral para proteger, não só o Curdistão, mas também Kirkuk.

Abu Baqr-al-Janabi: Muitos no ISIS têm velhas diferenças com os curdos, e muitas amarguras, porque os curdos apoiaram as forças dos EUA. Concordo que a situação é um pouco caótica, com sunitas contra xiitas e curdos contra sunitas e xiitas contra curdos, por causa da expansão deles e vice-versa. Mas o ISIS não desistirá de Kirkuk.

Presença presumível do ISIS no Iraque e na Síria
(clique na imagem para aumentar)
PERGUNTA: ISIS é muito cruel na Síria, mas no Iraque vê-se mais tolerância em relação a alguns grupos. Por quê?

Abu Baqr-al-Janabi: É verdade. Começamos com muita força em 2006 no Iraque. Mas aprendemos nossa lição. E, também, o povo no Iraque é diferente do povo na Síria. Fossem o mesmo povo, teríamos agido de modo similar.

PERGUNTA: Pode explicar melhor?

Abu Baqr-al-Janabi: Dawla (o Estado, no ISIS) não é um grupo de pessoas, mas uma ideia e uma ideologia. Um Manhaj [“caminho”, “programa”]. Mujaidins e emires podem ser mortos no campo de batalha, mas a ideia não morre. Com nossas ideias, atraímos gente de todo o mundo. Você acha que Sahwa [“O Despertar”, programa dos EUA] está combatendo contra nós? Por democracia? Não! Sahwa luta para seu próprio benefício político, enquanto nós lutamos e morremos por Khilafa [“califato”, palavra derivada de “sucessão”] e Manhaj [“o caminho”, a “justa via”]. É o mesmo que dizer que lutamos para implantar a Lei Islâmica – e isso é que desperta o fogo dentro de nós. Não reconhecemos fronteiras e todos somos irmãos. Essa atitude une todos, dentro do ISIS.

PERGUNTA: Há planos para o Líbano?

Abu Baqr-al-Janabi:  em comentários. Mas logo se verá algum desenvolvimento importante.

[Abu Baqr comentou a Fatwa Kifa’yi do Grande Aiatolá Ali Sistani:] “Por que o Grande Aiatolá Sistani não lançou uma Fatwa em 2003 quando os norte-americanos ocuparam o país? Essa é uma das principais razões pelas quais declaramos guerra aos xiitas e ao xiismo: porque apoiaram as forças dos EUA contra os iraquianos. Antes de 2003, não havia essa divisão entre sunitas e xiitas no Iraque. Os norte-americanos conseguiram nos dividir. Agora é tarde demais” – disse ele

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[*] Elijah J. Magnier é Analista de Risco Político com 32 anos de experiência na cobertura de países da Europa e Oriente Médio. Nesse período adquiriu extensa prática e robustos contatos alem de conhecimento político no Irã, Iraque, Líbano, Líbia, Sudão e Síria. Especializado em assessoramento político e planejamento estratégico através da percepção de situações políticas. Criou e coordenou grupos de trabalho e decisão para assuntos do Oriente Médio. Experimentado em comercio especialmente difícil num amplo espectro de situações típicas da região abordada (OM) interagindo com líderes de movimentos fundamentalistas em zonas de guerra e áreas de instabilidade política. Atualmente é Correspondente Internacional-Chefe para assuntos do Oriente Médio e Europa do jornal AlRai (Kuwait).
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Nota dos tradutores
[1] Sugestão de Moon of Alabama, em: 23/6/2014, Where Will ISIS Go Next?