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quinta-feira, 23 de abril de 2015

Por que diabos o mundo inteiro está em guerra contra o povo do Iêmen?!

16/4/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Mapa estimado da situação da guerra no Iêmen
(mapa de 16/4/2015 a ser visto com reservas pois eleborado pela BBC)
Praticamente o mundo inteiro, ao que parece comprado com dinheiro saudita, está em guerra contra o Iêmen.

Se não é isso, como explicar o silêncio que protege a campanha saudita de furioso bombardeio que levará a fome devastadora no Iêmen e fará do país outra, uma segunda Gaza, ainda maior?

O sicofanta Secretário-Geral da ONU, Ban Ki Moon despediu o enviado da ONU ao Iêmen, Jamal Benomar, porque Benomar não aprovou a campanha saudita de bombardeio. Será substituído por Ismail Ould Cheikh Ahmad, da Mauritânia, escolhido dos sauditas:

Antes, no Iêmen, Ismail Ould Cheikh Ahmad foi “um problema”, como várias fontes disseram a Inner City Press. Mas... seja como os sauditas ordenam.

Uma resolução do Conselho de Segurança da ONU contra o povo do Iêmen, praticamente avalizou o bloqueio imposto pelos sauditas, o bombardeio e a campanha de fome, por 14 votos a zero. A Rússia foi criticada por ter-se abstido, não votado contra, a Resolução.

Vejo duas razões para o voto russo. Uma, a Rússia pode estar prevendo que a campanha saudita acabará por ter impacto gravíssimo sobre a Arábia Saudita, com vantagem para a Rússia. E também é possível que a Rússia não tenha vetado porque a China, sabe-se lá por quê, votou a favor da Resolução. China e Rússia preferem votar juntas a correr o risco de ficar cada uma de um lado, ou fora, e sozinhas, responsabilizadas pelo que aconteça.

Os sauditas bombardearam não só campos de refugiados e depósitos de alimentos no Iêmen, mas também redes de comunicação, estações de notícias e redes de eletricidade. Sanaa está sem eletricidade já há 60 horas, no momento em que escrevo. Na 2ª-feira (13/4/2015), os estádios de futebol em Ibb, Aden e Sanaa foram bombardeados. Ontem, 16 postos de gasolina, onde havia longas filas de carros esperando para serem abastecidos, ação que deixou no mínimo 17 mortos e 50 feridos.

Os sauditas bombardearam até estádios de futebol
Entre 26 de março e 11 de abril de 2015, os sauditas bombardearam 1.200 vezes o Iêmen. Segundo relatório anterior do porta-voz do exército iemenita, 2.571 foram mortos, dos quais 381 crianças e 455 mulheres. 1.200 instituições oficiais e 72 escolas foram destruídas. Nas últimas 24 horas, outros 56 civis foram mortos.

O preço do combustível aumentou 600%, o pão, no mínimo 300%. Gás de cozinha já não há, e sem combustível ou eletricidade as bombas d’água não funcionam. As pessoas estão morrendo de fome, mas, por falta de competências “jornalísticas” no país, ninguém perceberá.

Enquanto os sauditas dizem que estariam bombardeando o grupo Ansarullah [“houthis”, para os sauditas], mas só destroem infraestrutura do Iêmen, a al-Qaeda já tem controle total sobre a cidade portuária de al-Mukalla e massacrou 15 soldados iemenitas na província de Shabwa no sul do Iêmen. A 2ª brigada iemenita, comandada por homem dos sauditas, entregou todas as suas armas à al-Qaeda. Os paquistaneses foram espertos o bastante para rejeitar o pedido dos sauditas de que fornecessem soldados paquistaneses de infantaria para morrer no Iêmen. O plano B dos sauditas agora é contratar “forças locais” para fazer o serviço mais sujo, o que significa que os sauditas, como na Síria, financiarão e apoiarão a tomada do Iêmen pela al-Qaeda.

Massacre de civis em Sanaa (14/4/2015)
O Paquistão pode mandar para lá os Talibã, para mostrar aos sauditas as mais modernas técnicas de combate de hiper lunáticos religiosos.

Os EUA estão ajudando os sauditas, não só com armas e munição. Pelo menos 20 oficiais norte-americanos foram mandados para um quartel-general conjunto em Riad, e lá estão, ajudando a construir as listas de matar dos sauditas.

Ninguém, nem em Washington nem em lugar algum acredita que a campanha saudita resolverá alguma coisa no Iêmen. Mas... por que então tanta gente apoia e avaliza e endossa os ataques sauditas e todo o sofrimento que produzem?!


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Barou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A briga da Arábia Saudita na ONU é contra Obama (2/2)


30/10/2013, [*] MK  BhadrakumarStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ler antes:
23/10/2013, redecastorphoto[*] MK BhadrakumarStrategic Culture, em: A briga da Arábia Saudita na ONU é contra Obama (1/2).

A Arábia Saudita e a ONU
A lista de questões nas quais Arábia Saudita e EUA estão em campos opostos na política do Oriente Médio não para de aumentar – Irã,  Egito,  Síria, Bahrain,  Iraque.

Algumas questões, como Irã ou Síria, vão-se convertendo em grandes pontos de discordância, enquanto em outros já há marcadas diferenças, como, por exemplo, nos tumultos no Bahrain ou na questão da democratização do Egito. Os sauditas sentem-se abandonados em mar alto e anteveem tempestades que se formam no horizonte...

Riad enfrenta hoje uma experiência absolutamente nova nas estratégias regionais dos EUA para o Oriente Médio. Há setenta anos, aquelas estratégias usaram como eixo os laços com a Arábia Saudita, sem parar, desde quando o então presidente dos EUA Franklin Roosevelt deixou a reunião histórica de Yalta, com Joseph Stalin e Winston Churchill, e partiu para um rendez-vous secreto, no cruzador USS Quincy, no Grande Lago Salgado do Canal de Suez em fevereiro de 1945, com o rei Abdul Aziz (lbn Saud). Ali, os dois firmaram acordo não escrito, pelo qual Washington daria segurança militar à Arábia Saudita e concordava com fixar uma base militar em Dhahran, em troca de acesso ao suprimento de petróleo.

O governo Obama está assumindo visão mais estratégica dos interesses dos EUA no Oriente Médio, que qualquer governo antes dele. Em termos amplos, pode-se dizer que os interesses dos EUA na segurança e estabilidade da região não mudaram, essas preocupações gêmeas ainda tem tudo a ver com o fluxo sustentado de petróleo e gás para o mercado mundial, e com a segurança de Israel. Mas os meios para alcançar o mesmo fim estão mudando. As forças que foram libertadas pela guerra do Iraque de 2003 transformaram a região; e a Primavera Árabe trouxe para a cena a realidade de que não se inclui entre os interesses de longo prazo dos EUA serem vistos como protetores de regimes autoritários decadentes.

O não superado poder militar dos EUA revelou-se sem efeito, na modelagem das tendências regionais. Assim sendo, a ênfase na presença militar direta, ou a propensão a intervir militarmente, está mudando. Ao mesmo tempo, vai-se fixando a percepção de que excessiva interferência, e a ênfase na presença militar, tornaram-se contraproducentes e implicam insustentáveis custos humanos e econômicos.

Barack Obama na AG da ONU em setembro de 2013
Essa linha de pensamento é ainda nascente e incoerente; a primeira tentativa de dar-lhe forma coerente pode ter sido a fala do presidente Barack Obama na Assembleia Geral da ONU, mês passado. Na verdade, talvez ainda seja prematuro prever como se desenvolverá, especialmente sob o próximo presidente dos EUA. Nem a situação está sequer próxima de os EUA abandonarem seus aliados regionais ou seus relacionamentos especiais no Oriente Médio ou de darem as costas a muito duradouros compromissos regionais, como o seu “colar” de bases militares. Mas a tendência já é discernível – e pode-se conceber que assim permanecerá nesses tempos finais do governo de Obama e que, talvez, ganhe força.

Seja como for, os sauditas foram gravemente abalados quando viram a tendência começar a surgir, há dois anos, no Egito, quando o governo Obama retirou-se da linha de frente, apesar dos clamores dos aliados regionais e recusou-se a garantir uma linha de salvação a Hosni Mubarak. Ainda mais enfurecedor para os sauditas, foi ver o governo dos EUA a estabelecer laços de comunicação com a Fraternidade Muçulmana. Isso, sim, causou terrível incômodo em Riad. Como o conhecido autor e professor Vali Nasr escreveu essa semana no New York Times Riad vê a Fraternidade como representando

Vali Nasr
(...) o mesmo grau de ameaça à inamovível monarquia saudita que foi o populismo secular de Nasser (...) [E] o islamismo populista da Fraternidade, que promete justiça e igualdade, e empoderamento do indivíduo na religião e na política, ressoa profundamente entre os muitos jovens sauditas desempregados e inquietos.

Nasr concluiu que:

(...) nos anos vindouros, o maior desafio estratégico para a Arábia Saudita pode não ser o Irã, como foi, mas a Fraternidade.

O nó egípcio

Por outro lado, os EUA não podem deixar de considerar que a Fraternidade tornou-se uma força regional já no Maghreb e por todo o Oriente Médio cujo momento pode ter chegado. Isso interessou Washington, e negociar com a Fraternidade como entidade legítima na paisagem política do Oriente Médio é provavelmente a melhor garantia contra o movimento tornar-se mais extremado e vir a ameaçar a “legitimidade islâmica de todas as monarquias árabes”. Isso posto, os sauditas, por sua parte, estão furiosos, porque Washington até agora continua a recusar-se a aceitar o golpe militar no Egito, que eles apoiaram, nem apóia a repressão militar à Fraternidade.

Vai-se tornando difícil desfazer esse “nó egípcio” nas relações EUA-sauditas. Os sauditas desafiaram os EUA e estão bancando o governo provisório no Cairo, mas não impressionaram o governo Obama, o qual, ao contrário, suspendeu a ajuda militar que dava ao Egito e insiste na exigência de que o Egito volte a uma democracia “inclusiva” que admita a participação da Fraternidade. Os sauditas supuseram que o medo de levar os militares egípcios a diversificar suas fontes de armamentos forçaria Washington a voltar atrás, mas o governo Obama não parece intimidado – pelo menos até agora – e parece avaliar que, no longo prazo, estabelecer progresso econômico e estabilidade política na região será o melhor modo de assegurar segurança e estabilidade regionais, e que isso será bom também para os interesses estratégicos dos EUA.

Além de tudo mais, o atrito que surgiu nas relações da Arábia Saudita com o governo Obama tem tudo a ver com a situação interna no reino saudita. Em resumo, a paranoia em Riad está relacionada ao fantasma de o torvelinho regional chegar, em algum momento, a respingar na própria Arábia Saudita. É aflição que tem caráter existencial. Christopher Davidson, autor, professor e arabista britânico, escreveu recentemente que o “contrato social [da monarquia saudita] com seu povo está agora se rompendo publicamente, em escala significativa”. Seus dois argumentos chaves são que, em primeiro lugar, o tempo está acabando para a estratégia de subornar os manifestantes com petrodólares; e, em segundo lugar, que o nível atual de subsídios sociais – impressionante recorde de $500 bilhões – é insustentável, porque já é alto demais até para as economias do Golfo do petróleo árabe, inclusive a da Arábia Saudita.

Christopher Davidson
Davidson lembra que o break-even price [1] do petróleo é agora de mais de $115 no Bahrain, enquanto está chegando a $102 em Omã. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou o Kuwait para que contenha os gastos em bem-estar e nos salários do setor público. Assim, Davidson concluiu, as medidas longamente testadas de dividir para governar, como estimular tensões sectárias e culpar a interferência externa, já não estão funcionando; e estão tendo “impacto demonstrável” na legitimidade do regime saudita, que “pode ruir antes do que muitos creem”.

De fato, documento recente do Carnegie Endowment for International Peace destaca que o governo dos EUA bem fará se previr tumulto social e político na Arábia Saudita. Os sauditas sentem-se amargurados ao constatar que a disposição do governo Obama para manter-se “do lado certo da história” no novo Oriente Médio que emerge só tem feito estimular populações inquietas em todo o mundo árabe, o que, por sua vez, incitará à agitação na vizinhança.

Porém, o corte mais doloroso de todos é a crescente evidência de que, com o governo Obama sem comprar a tese saudita na Síria e no Bahrain, Riad está lutando contra aliados de um Irã expansionista. Assim como na jogada com o Irã é importante para Israel manter o processo de paz no Oriente Médio em fogo lento, também é importante para o regime saudita insistir no ataque contra os xiitas no Bahrain e leste da Arábia Saudita – os quais são as reais vítimas de uma estratégia sectária viciosa fundamentada no wahhabismo.

A liderança saudita lastimou que o governo Obama não tenha lançado ataque militar contra a Síria mês passado; que tenha dado as costas à promessa de armar os rebeldes sírios com armamento pesado para derrubar o governo de Assad; e que, em vez disso, esteja trabalhando com a Rússia, para abrir a trilha diplomática via Genebra-2. Os sauditas estão fazendo horas extras para garantir que Genebra-2 não decole, e estão empenhados em nova tentativa para arregimentar os aliados árabes regionais, como se viu no mais recente movimento para organizar uma nova reunião em nível de ministros de Relações Exteriores da Liga Árabe, no Cairo, na próxima 2ª-feira (4/12/2013).

E tudo isso, enquanto melhora no ocidente a percepção sobre o regime sírio, graças à excelente cooperação que tem dado à ONU para a destruição das armas químicas e graças também à evidência, mais clara a cada dia, de que as forças do governo sírio são o único obstáculo importante que há contra o crescimento da al-Qaeda naquela parte da região.

Águas desconhecidas

Tudo isso considerado, as relações EUA-sauditas estão entrando em águas desconhecidas. Houve relatos de que a liderança saudita considera uma “ampla mudança” que a afastará da cooperação de décadas com os EUA. E de que a decisão de “desistir” do assento no Conselho de Segurança da ONU marcaria o tom de uma política externa saudita radicalmente diferente. Esses relatos dizem que Riad tem intenção de afastar-se dos EUA, explorando, dentre outras coisas, relações militares que dariam mais alta prioridade à defesa e a outros interesses sauditas. A mudança de que se fala aconteceria na direção de uma política externa mais proativa.

Pode-se dizer que tal política proativa já está em andamento há algum tempo, como se viu na intervenção saudita no Iêmen e no Bahrain e nos movimentos unilaterais para manter em andamento o projeto de mudança de regime na Síria, apesar dos crescentes sinais de desagrado ocidental. Se se considera o sucesso relativo dos planos sauditas no Bahrain e Iêmen, é perfeitamente concebível que os sauditas deixem de lado a proposta de Genebra-2 e trabalhem a favor de uma iniciativa regional contra a Síria, dando cobertura econômica, política e militar e arregimentando seus aliados do Conselho de Cooperação do Golfo e a Jordânia e o Egito, no quadro de alguma espécie de acordo de segurança coletiva.

Poderia ser uma iniciativa na direção de intervencionismo local, mediante uma aliança árabe revitalizada, o que significará afastamento da dependência histórica da presença militar dos EUA. A raison d’êtrenesse caso, seria que só mediante tal aliança regional o regime saudita e os regimes do Golfo poderão priorizar a própria sobrevivência – tornando-se assertivos, menos dependentes do apoio ocidental e isolando-se dos efeitos da reaproximação EUA-Irã.

Mas, na essência, não passará de um gambito, de cercar a caravana em vez de entrar em desafio estratégico contra os EUA. Os sauditas certamente sabem que um quadro de segurança árabe coletiva não é realista e sempre será artificial, e que o continuado apoio dos EUA sempre será fator criticamente decisivo.

Enquanto isso, as perguntas não param de brotar.

Por um lado, ainda não se viu até que ponto a intervenção do CCG no Iêmen ou Bahrain será sucesso duradouro. No Bahrain, a repressão é ordem do dia; e no Iêmen os sauditas apenas trocaram um governante impopular pelo respectivo vice. Todos esses são paliativos, temporários, que os sauditas impuseram sem ouvir o povo desses países. Mais uma vez, a abordagem saudita implicará militarizar os conflitos (como no Bahrain ou na Síria); essa abordagem com certeza atrairá o opróbrio internacional e talvez se comprove inadequada para empurrar a maré mudancista.

A única real vantagem do regime saudita é que possui inigualável capacidade financeira, mas, por outro lado, não se vê a Arábia Saudita aceita em papel de liderança na região. Há ressentimentos entre os estados do CCG sobre o intervencionismo saudita no Bahrain. Na verdade, o regime saudita nem é modelo que inspire nações árabes – os sauditas tem péssima imagem na região – nem anda ao ritmo do espírito do tempo. O regime faz papel ridículo, sempre que grupos de mulheres educadas zombam dele e insistem no direito de dirigir seus próprios carros.

Em última análise, o grande trunfo da Arábia Saudita é sua capacidade para patrocinar uma “jihad” em outros países. Tem capacidade comprovada para produzir quadros militantes para suas intervenções clandestinas em outros países. Até agora, os sauditas têm-se dado bem na estratégia de empurrar o islamismo militante para além das próprias fronteiras. A estratégia tem funcionado, mas, a cada dia mais, a comunidade internacional vai-se fartando disso. É onde a Síria torna-se caso-teste.

Seja como for, o que finalmente fez entornar a taça foi, provavelmente, a visão do contato direto entre EUA e Irã, especialmente a conversa telefônica entre Obama e o presidente Hassan Rouhani do Irã. Um ministro saudita de Relações Exteriores em estado de choque, o príncipe Saud Al Faisal, saiu às pressas de New York, sem sequer fazer o discurso programado e rotineiro à Assembleia Geral da ONU. Desde então, o secretário de Estado dos EUA John Kerry não parou de telefonar-lhe, para sua Villa privada em Paris, tentando amolecê-lo e pedindo que Riad reconsidere a atitude da ONU. Kerry, na sequência armou cara de valente, sobre a briga EUA-sauditas, e disse que tem “grande confiança” de que os dois países “continuarão a ser os amigos e aliados próximos e importantes que nós sempre fomos”.

Conselho de Segurança da ONU
De fato, até aqui, a vantagem de Kerry está em que há posições conflitantes entre os próprios sauditas, que refletem profundas divisões internas no interior do regime. E absolutamente não se entende que, até agora, Riad ainda não tenha notificado formalmente a ONU sobre sua decisão de recusar o assento ao qual foi eleito, para o Conselho de Segurança. Mas há tempo. Só em janeiro, afinal de contas, será necessário aparecer fisicamente, para tomar posse (ou não) da cadeira na famosa mesa em formato de ferradura do Conselho de Segurança. Ainda não se ouviu a palavra final desse surto temperamental dos sauditas.

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Nota dos tradutores
[1] Break-Even Price“A quantidade de dinheiro pela qual um produto ou serviço tem de ser vendido, para cobrir os custos de produzi-lo ou provê-lo”.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

A briga da Arábia Saudita na ONU é contra os EUA (1/2)


21/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu (revisado por João Aroldo)

Saudi Arabia e a ONU
A Arábia Saudita está divulgando que a rejeição ao posto de membro não permanente do Conselho de Segurança da ONU é questão de altos princípios. Mas a grande pergunta é: quem, de fato, Riad está querendo desqualificar? Pode talvez ser o sistema das Nações Unidas, mas as aparências podem enganar.

Fato é que Riad muito trabalhou para obter o privilégio de ver-se representada no Conselho de Segurança pela primeira vez, nos 60 anos de existência da organização mundial. Aplicou-se dedicadamente por mais de um ano, na luta para conquistar apoio de outros membros para sua candidatura, depois de ser indicada como escolha unânime do bloco árabe. Claro que houve muito de realpolitik nesse cálculo e, se algum alto princípio pesou na mente dos sauditas, só pode ter sido fenômeno muito recente.

Os sauditas decidiram introduzir uma “correção de rota”. É isso. Ponto. Parágrafo. É movimento teatral e caminha contra a reputação dos sauditas, cujo establishment é notório pela lentidão com que toma decisões. Acima de tudo, é decisão surpreendente; de certo modo, é movimento “pouco saudita”, dado o longo currículo de excesso de cautela.

Na declaração do Ministério de Relações Exteriores saudita, lê-se que:

(...) o modo, os mecanismos das ações, os duplos critérios que se vêem no Conselho de Segurança o impedem de cumprir os próprios deveres e de assumir suas responsabilidades na preservação da paz e da segurança internacional, como deve fazer, o que tem levado a continuado rompimento da paz e da segurança, à expansão da injustiça, à violação de direitos e à disseminação de conflitos e guerra por todo o mundo.

Em resumo, Riad depôs toda a culpa à porta de entrada da ONU. Não há dúvidas de que foi declaração dura, que se soma às acusações de que o Conselho de Segurança não tem manifestado qualquer inclinação para qualquer reforma, apesar dos esforços internacionais “dos quais a Arábia Saudita tem participado muito efetivamente”.

Na sequência, os sauditas listam três áreas específicas nas quais o Conselho de Segurança falhou: em primeiríssimo lugar, foi incapaz de assegurar ao povo palestino os seus direitos legítimos; daí decorre, mas sem nada explicitar, o problema dos arsenais nucleares israelenses (“o Oriente Médio como área livre de armas de destruição em massa”); e o programa nuclear do Irã (“conter os programas nucleares de todos os países”). A Síria aparece na terceira explicação: o fracasso “na aplicação de qualquer sanção paralisante contra o regime de Damasco”.

Mas... Riad sempre soube que os EUA jamais permitiriam que o Conselho de Segurança forçasse Israel a retirar-se da Cisjordânia. Além do mais, a Arábia Saudita diz apoiar a “causa palestina”, mas jamais teve qualquer militância ativa nessa direção; em vez disso, chegou até a manter contatos secretos com Israel, os quais, hoje, já acontecem, pode-se dizer, às claras.

Reunião do Conselho de Segurança da ONU
A dura verdade é que a operação saudita para obter um assento no Conselho de Segurança da ONU começou há vários meses, quando os prospectos de engajamento EUA-Irã eram praticamente zero, e estava em plena implantação uma agenda de “mudança de regime” na Síria. Aconteceu então que as placas tectônicas começaram a mover-se nas últimas semanas, movimento que ninguém havia previsto, com a extraordinária iniciativa do presidente russo Vladimir Putin sobre os arsenais químicos da Síria.

A implementação do acordo russo-EUA sobre a destruição das armas químicas da Síria efetivamente torna o governo do presidente Bashar Al-Assad o interlocutor chave da “comunidade internacional”, cuja cooperação o governo Obama busca. Por outro lado, a oposição síria comandada pelos sauditas implodiu, está literalmente se autopulverizando e radicalizando-se cada vez mais, além do fato de que está perdendo terreno para as forças do exército sírio.

A sabedoria convencional sugeria também que o poder formidável que o lobby pró-Israel exerce sobre o establishment norte-americano forçaria o presidente Obama a desistir do projeto de engajar o Irã. Os sauditas trabalharam em íntima colaboração com o lobby israelense nos corredores do poder em Washington, mas hoje sentem-se abandonados, depois que Obama decidiu explorar as possibilidades de um engajamento com Teerã.

Os sauditas podem também estar deixando transparecer que seu jogo enfrenta dificuldades graves na Síria, e que a incansável, robusta diplomacia russa, na direção de fazer avançar o processo de Genebra-2 já não poderá ser minada. Nessas circunstâncias, restou aos sauditas uma opção de desafiar estrategicamente os EUA e montar uma campanha militar na Síria; e, sim, há notícias de que Riad está mobilizando os grupos islamistas extremistas sob seu controle, como nova força combatente na Síria. Mas desafiar assim a comunidade internacional é ação que pode sair muito cara, e pode revelar-se difícil de sustentar, porque os sauditas não estão conseguindo arrastar os países árabes sunitas para a sua nova guerra contra o Irã.

Iraque e Argélia opõem-se declaradamente ao projeto de “mudança de regime” na Síria. Hoje, o Qatar mantém-se distante, ruminando, depois de briga feia com os sauditas pelo Egito (e a Síria). A Turquia está no auge de um processo de reavaliar, e dá sinais de preocupação ante a presença de grupos afiliados da al-Qaeda nas áreas da fronteira com a Síria. O Egito já saltou fora do projeto de “mudança de regime” na Síria e, bem ao contrário, está expulsando os grupos de rebeldes sírios refugiados no Cairo. Os demais estados do Conselho de Cooperação do Golfo também começam a mostrar-se ambivalentes, ante a pressão exercida pelos EUA. Recentemente, o International Crisis Group previu que, em pouco tempo, os sauditas começarão a enfrentar um problema logístico para contrabandear armas para a Síria, com dois países, Turquia e Jordânia, já se mostrando relutantes.


Fato é que a Arábia Saudita também sabe que, se o acordo Rússia-EUA sobre as armas químicas sírias for bem-sucedido, será imperativo que se inicie um diálogo intra-Síria, e o Conselho de Segurança da ONU com certeza favorecerá uma solução política e diplomática para o conflito sírio. Significa que, como membro do Conselho de Segurança, a Arábia ter-se-ia posto na posição ridícula de ter de elogiar a cooperação dada, pelo governo sírio, à Comissão para Proibição de Armas Químicas. O que já se sabe é que na última 5ª-feira (17/10/2013), a declaração da CPAQ dizia que já haviam sido destruídas as armas de seis dos 20 depósitos a serem destruídos, e que o prazo previsto anteriormente para a destruição de todo o arsenal sírio (até meados de 2014) é realista e poderá ser cumprido. A Comissão manifestou explicitamente sua satisfação com a cooperação que recebeu das autoridades sírias.

Contudo, o conflito sírio é, na essência, uma guerra por procuração, e a causa basilar, que explica a fúria dos sauditas hoje, é os EUA estarem engajando o Irã. A Síria torna-se uma espécie de subtrama da rivalidade sauditas-iranianos. A derrubada do regime sírio é importante para os sauditas, como meio para reduzir o alcance regional do Irã, especialmente sua capacidade para influenciar, como big player, o jogo no Líbano, que Riad considera seu vassalo no Levante (como o Bahrain no Golfo Persa). E o Líbano (o Hezbollah) explica em boa parte, também, a convergência de sauditas e israelenses.

Tudo considerado, os sauditas estão “pirando”. A decisão de não ocupar o assento ao qual foram eleitos do Conselho de Segurança da ONU só pode ser definida como “piração”. De fato, os sauditas foram colhidos de surpresa pelos dois fluxos de eventos: pelos eventos relacionados à Síria e pelo início das conversações diretas entre EUA e Irã. A “piração” dos sauditas impressionará alguém? Em última análise, os sauditas só têm eles mesmos, para culparem. É mais que hora de repensarem seriamente, para se arrancarem do fundo do poço – que os próprios sauditas cavaram para eles mesmos, movidos pela obsessão contra o crescimento da importância do Irã na região. Os sauditas são movidos por uma fé obcecada, segundo a qual basta jogar muito dinheiro sobre qualquer problema, e o problema se autorresolverá.

Agora, pela primeira vez, estão obrigados a constatar que o dinheiro, sim, pode levar qualquer um até muito longe, mas nem em todos os casos, nem para sempre, em política.


Assim sendo, mesmo com a pródiga ajuda ao governo de transição no Cairo, não se vê nem sinal de qualquer renascimento na economia egípcia, nem de apaziguamento no descontentamento e na revolta do povo egípcio, nem de que o país se movimente na direção de voltar à estabilidade. Igualmente, depois de consumir bilhões de dólares no projeto de “mudança de regime” na Síria, os sauditas não veem nem sinal de luz no fim do túnel. E ainda mais: depois de muito tentar “influenciar” os atores no circuito político de Washington, para que impedissem a qualquer custo qualquer ação dos EUA para engajar o Irã... a Arábia Saudita percebe que nada conseguiu e que o engajamento está em andamento.

Mas há ainda mais alguma coisa envolvida nisso tudo – talvez muito mais do que apenas “alguma coisa”. Posto em termos sucintos, Riad quer que sua decisão de “boicotar” o Conselho de Segurança da ONU seja vista como duro golpe para conter e subjugar o governo Obama. As relações EUA-sauditas estão sendo esbofeteadas por subcorrentes muito fortes.

[Continua]
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Na pressa para atacar a Síria, EUA tenta impedir que a ONU investigue

27/8/2013, [*] Gareth Porter, InterPress Service

In Rush to Strike Syria, U.S. Tried to Derail U.N. Probe

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Secretário de Estado John Kerry (foto quando era senador em 2009) chamou o uso de armas químicas na Síria uma “obscenidade moral”. Crédito: Ralph Alswang, Center for a American Progress Action Fund / CC de 2,0
Depois de ter insistido, de início, que a Síria desse pleno acesso aos investigadores da ONU, até os locais onde teria havido um atentado com gás venenoso, o governo do presidente Barack Obama mudou de conversa no domingo; e passou a tentar, sem sucesso, que a ONU abortasse sua própria investigação.

Essa virada repentina, que aconteceu horas depois de Síria e ONU terem acertado os detalhes da ação dos investigadores, foi noticiada pelo Wall Street Journal na 2ª-feira e confirmada no mesmo dia, mais tarde, por um porta-voz do Departamento de Estado.

No encontro com a imprensa na 2ª-feira, o Secretário de Estado John Kerry, que chegou a falar por telefone com o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon, para que suspendesse a investigação – a qual, segundo Kerry, teria chegado tarde demais para obter provas válidas do ataque que, para fontes da oposição síria, teria feito 1.300 vítimas.

A mudança repentina e a repentina aberta hostilidade contra a investigação da ONU, que coincidem com indicações de que o governo Obama planeja um grande ataque militar contra a Síria para os próximos dias, sugere que o governo Obama entende que a ONU esteja atuando como obstáculo para seus planos de atacar militarmente.

Na 2ª-feira, Kerry disse que, na 5ª-feira, havia alertado o ministro Moallem, de Relações Exteriores da Síria, para que desse acesso imediato à equipe da ONU e suspendesse os bombardeios naquela área, os quais, disse Kerry, estariam “sistematicamente destruindo provas”. Disse que o acerto entre Síria e ONU, que afinal deu pleno acesso aos investigadores, estaria acontecendo “tarde demais para ter credibilidade”.

Mas logo depois de o acordo ter sido anunciado no domingo, Kerry já havia telefonado a Ban, tentando cancelar completamente qualquer investigação.

O Wall Street Journal noticiou a pressão sobre Ban, mas sem mencionar Kerry. Publicou que “funcionários não identificados do governo disseram ao Secretário-Geral que já não é seguro que os inspetores continuem na Síria e que a missão deles já não faz sentido”.

Mas Ban, que sempre foi visto como instrumento dócil das políticas dos EUA, recusou-se a retirar da Síria a equipe de investigadores e, em vez de obedecer, “manteve-se firme na defesa dos princípios” – como escreveu o WST. O que se sabe é que Ban ordenou que a equipe de investigadores da ONU “continue seu trabalho”.

O WST noticia que “funcionários dos EUA” disseram também ao secretário-geral que os EUA “não acham que os inspetores conseguirão obter provas aproveitáveis, dado que já transcorreu muito tempo e bombardeios subsequentes destruíram as provas que houvesse”.

Marie Harf 
A porta-voz do Departamento de Estado, Marie Harf, confirmou para jornalistas que Kerry, sim, falou com Ban durante o fim-de-semana. Também confirmou a mudança de posição dos EUA sobre as investigações. “Acreditamos que passou tempo demais e houve tal destruição na mesma área que a investigação não terá credibilidade” – disse ela.

Essa mesma ideia apareceu também em declaração de “alto funcionário”, anônimo, no domingo, para o Washington Post, segundo a qual as provas teriam sido “significativamente corrompidas” por bombardeios subsequente, pelo regime, na mesma área.

Agora já não cremos que a ONU possa fazer investigação confiável sobre o que aconteceu – disse Harf. – Estamos preocupados, porque o regime sírio está usando a tática de atrasar as investigações, para continuar a bombardear e destruir provas na área.

Mas Harf não explicou como o cessar-fogo que o governo sírio impôs na área a ser investigada e a decisão de dar pleno acesso aos investigadores da ONU poderiam ser interpretados como “continuar a bombardear e destruir provas na área”.

Apesar dos esforços dos EUA para fazer-crer que a política síria seria política de “atrasar”, a verdade é que o pedido formal da ONU para que a equipe chegasse ao local não havia sido encaminhado ao governo sírio, até que Angela Kane, Alta Representante da ONU para Temas de Desarmamento, chegou a Damasco no sábado; foi o que informou Farhan Haq, como porta-voz de Ban, em briefing à imprensa, em New York, na 3ª-feira.

Na 3ª-feira, o Ministro sírio de Relações Exteriores, Walid al-Muallem disse, em conferência de imprensa, que ninguém havia pedido à Síria qualquer autorização para que a ONU tivesse acesso à área de East Ghouta, até que o pedido afinal apareceu, encaminhado por Angela Kane, no sábado. No dia seguinte, a Síria informou que o pedido fora a aceito, bem como o cessar-fogo na mesma área.

Haq discordou frontalmente do que Kerry dissera sobre ser tarde demais para recolher provas sobre o incidente do dia 21/8.

O gás Sarin deixa rastros que podem ser detectados meses depois de o gás ser usado, disse ele, como o New York Times noticia.

Especialistas em armas químicas também sugeriram, em entrevistas para nosso InterPress Service, que a equipe de investigadores da ONU – coordenada pelo renomado especialista sueco Ake Sellström e reunindo vários especialistas requisitados da Organização para Prevenção de Armas Químicas – teria meio para confirmar ou descartar, em apenas alguns poucos dias, a acusação de ataque com gás de efeito neurológico ou por outra arma química na área investigada.

Ralph Trapp
Ralph Trapp, consultor para temas relacionados à proliferação de armas químicas e biológicas, disse que se sentia “razoavelmente confiante” de que a equipe da ONU conseguirá esclarecer o que houve. “Eles podem oferecer resposta altamente confiável à questão de saber se houve ataque químico; e eles podem também dizer qual o produto químico usado como arma” – disse ele – a partir de exame de amostras de sangue, urina e cabelo dos mortos e feridos. Há até “alguma chance” de recolher resíduos químicos, de pedaços de munição ou de cartuchos, nos locais investigados. E uma análise completa, disse Trapp, exige “vários dias”.

Steve Johnson, que dirige um programa de investigação forense de armas químicas, biológicas e radiológicas na Cranfield University na Grã-Bretanha, disse que até o final da semana a ONU já saberá se “houve mortes provocadas por agente químico de efeito neurológico”. Johnson disse também que, sendo absolutamente urgente, a equipe conseguiria produzir “alguma espécie de primeira estimativa tendencial” sobre a questão, no prazo de 24 a 48 horas.

Dan Kastesza, veterano que serviu durante 20 anos no Corpo de Armas Químicas do Exército dos EUA [orig. U.S. Army Chemical Corps] e foi conselheiro da Casa Branca sobre proliferação de armas químicas e biológicas, disse à Inter Press Service que, de fato, não se procura traços de gás sarin em amostras de sangue, mas das substâncias químicas que são produzidas quando o gás sarin se decompõe. Kastesza disse também que, depois de recebidas as amostras, os especialistas podem saber, “no período de um ou dois dias”, se houve contato com gás sarin ou outro produto químico dos que se usam como arma.

A verdadeira razão da hostilidade do governo Obama contra a investigação pela ONU parece ser o medo de que a decisão do governo sírio, de dar livre acesso aos especialistas, indique que o governo sírio já sabe que os investigadores não encontrarão qualquer evidência de uso de gás de efeito neurológico.

Os esforços do governo dos EUA em 2013 para desacreditar a investigação dos especialistas fazem lembrar o que fez o governo de George W. Bush contra os inspetores da ONU, em 2002 e 2003, depois que não encontraram qualquer prova de que haveria armas de destruição em massa no Iraque; o governo Bush, daquela vez, recusou-se a dar mais tempo aos inspetores, de modo que não conseguissem demonstrar cabalmente, por prova irrefutável, que não havia no Iraque nenhum programa ativo de produção armas de destruição em massa.

Nos dois casos, o governo dos EUA já decidiu ir à guerra. E não permitirá que se produza informação que se contraponha à sua decisão.





[*] Gareth Porter (nascido em 18 junho de 1942) é um historiador americano, jornalista investigativo, autor e analista político especializado na política de segurança nacional dos EUA. Especialista em Vietnã e ativista anti-guerra durante a Guerra do Vietnã, servindo em Saigon como chefe do departamento de expedição do News Service International nos anos 1970-1971 e, mais tarde, como co-diretor do Centro de Recursos da Indochina. Foi muito criticado por seu entusiasmo pelo Khmer Rouge, partido do governo do Camboja, na época. Escreveu vários livros sobre os conflitos no Sudeste Asiático e no Oriente Médio, o mais recente dos quais é Perils of Dominance: Imbalance of Power and the Road to War in Vietnam; uma análise de como e por quê os Estados Unidos foram à guerra no Vietnã. Porter também tem escrito para Al Jazeera –em inglês, The Nation, Inter Press Service, The Huffington Post e Truthout. Foi vencedor em 2012 do Prêmio Martha Gellhorn de jornalismo, que é atribuído anualmente pelo Club Frontline em Londres. Porter é formado na Universidade de Illinois. Recebeu seu mestrado em Política Internacional na Universidade de Chicago e seu Ph.D. em Estudos sobre o Sudeste Asiático na Universidade de Cornell. Ministrou cursos sobre Estudos sobre Política Internacional no City College of New York e na American University. Atualmente atua como jornalista free-lancer para inúmeras publicações internacionais.