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terça-feira, 9 de junho de 2015

Eleitores turcos chicoteiam Erdogan


8/6/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Recep Erdogan
Erdogan perdeu, nas eleições parlamentares turcas. Com cerca de 95% dos votos já apurados, as cadeiras com direito a voto estão assim distribuídas:
  • Partido Justiça e Desenvolvimento (de Erdogan), AKP 41,5% (261 votos)
  • Partido Republicano Popular, CHP 25,3% (130 votos)
  • Partido do Movimento Popular, MHP 16,7% (84 votos)
  • Partido Democrático Popular (dos curdos), HDP 12,0% (75 votos)
O Partido Justiça e Desenvolvimento (de Erdogan) perdeu quase 9% das cadeiras com direito a voto, em relação à última eleição.
O Partido Democrático Popular (dos curdos) saltou bem acima dos 10% mínimos exigidos para participar do governo: significa que o Partido Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan, já não poderá governar como partido único. Erdogan terá de buscar uma coalizão com os nacionalistas linha dura do Partido do Movimento Popular, e terá de formar novo governo.
Razões para a derrota de Erdogan não faltam: dentre outros, o fim do boom econômico movido a crédito abundante que o AKP de Erdogan urdiu desde 2000.
Há também furiosa luta interna dentro do AKP: a política de Erdogan de incendiar cada vez mais a guerra na Síria é fortemente impopular.
Qualquer governo de coalizão que Erdogan venha a conseguir montar, será provavelmente menos agressivo que o atual. É muito pouco provável que o atual primeiro-ministro Davutoglu – promotor muito agressivo de um novo Império Otomano – mantenha o posto.
Como político, Erdogan sofreu ferimento profundo, e seu partido sai das eleições muito enfraquecido. A situação só favorece o aprofundamento das divisões dentro do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP); não se exclui a possibilidade de que o partido rache em várias facções. No cômputo geral, o resultado reduz a capacidade da Turquia para aventuras geopolíticas de grande alcance.

[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em
alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Você pode ser aniquilado pela política externa desenvolvida por Alice e sua Gangue dos Chapeleiros Loucos


3 /6/2015, [*] Joe Clifford – ICH – Information Clearing House
Traduzido por mberublue


Política externa dos EUA
A menos que os norte americanos comecem a prestar atenção à própria política externa e às decisões insanas que estão sendo tomadas, serão todos aniquilados. Em primeiro lugar, um pequeno estudo da situação totalmente irracional à qual as decisões dos chefões acabaram por nos levar e depois uma visão de como nossa vida está sendo colocada em risco por idiotas e dementes.

Uma pequena síntese das atuais posições dos Estados Unidos no Oriente Médio é muito simples de entender e seguir, facilmente compreensível. Tente. Estamos aliados com nosso inimigo declarado, o Irã, contra o Estado Islâmico, o qual cresceu através do caos que nós mesmos criamos com a invasão anterior do Iraque, que, todos sabem, foi baseada em mentiras. Estamos também tentando derrubar o Presidente Assad na Síria, onde lutamos ombro a ombro com grupos de jihadistas financiados pela Arábia Saudita, à qual apoiamos contra os Houtis no Iêmen. A comunidade Houti é a mais ferrenha inimiga da Al Qaeda – que preparou e executou o incidente de 9/11 – enquanto isso, nosso melhor amigo, Israel, está aos beijos e abraços com a Al Qaeda na Síria, e nosso outro melhor amigo, a Turquia, está ajudando o Estado Islâmico. Está seguindo? Não parece o “samba do crioulo doido”?

Nos dias atuais podemos ver que o Iraque se tornou um desastre perfeito, por causa de vinte e cinco anos da política brutal de sanções absurdas impostas pelos Estados Unidos. A guerra seguiu as sanções através de uma invasão do território do Iraque e bombardeio contínuo até hoje. O país desceu até os portões do inferno só porque os Estados Unidos decidiram que o que o Iraque necessitava era de mais armas. Estamos, portanto, mandando mais armas para o Iraque, as quais serão usadas contra as armas que já tínhamos enviado para lá. Bem inteligente, é ou não é?

Pensa que está ruim? Então comece a pensar nos nossos “inimigos nº 1” adicionais e nos povos que colocamos hodiernamente em nossas listas de extermínio. Para complementar a luta que travamos contra a Al Qaeda e o Estado Islâmico enquanto tentamos derrubar Assad na Síria, ao mesmo tempo estamos de olho no Hamas e no Hezbollah, ambos inimigos de Israel, mas que representam mais um parzinho de guerras para nós. Ah! Não podemos esquecer dos 13 (treze!) anos da Guerra ainda em andamento no Afeganistão que começou supostamente para capturar os apoiadores de Bin Laden, e se tornou uma espécie de cruzada para derrotar o Talibã, grande grupo que por sua vez tenta destronar o governo fantoche instalado pelos Estados Unidos no Afeganistão.

Política dos EUA para o Iraque
Nesse meio tempo, enquanto continuamos a bombardear o Iraque, o Estado Islâmico está presente em virtualmente todo o Oriente Médio, Assad ainda está governando a Síria e o Talibã está resistindo muito bem no Afeganistão. Mas os idiotas que decidem dizem que temos que lutar também contra o Boko Haram na Nigéria e contra os Houtis no Iêmen, sob ataque de mais um de nossos melhores amigos, a Arábia Saudita, mesmo sabendo que os Houtis são inimigos figadais da Al Qaeda. Assim, ao ajudar a Arábia Saudita contra os Houtis, estamos na verdade ajudando a Al Qaeda no Iêmen. Está entendendo até aqui??

Para acompanhar tudo isso, fizemos um acordo na última semana, através do qual daremos a Israel dois bilhões de dólares adicionais em armas, que serão usadas, penso eu, ou contra palestinos em uma guerra qualquer no futuro ou contra o Irã. Aliás, Israel não faz outra coisa a não ser pedir aos EUA que ataquem o Irã.

Atualmente, estamos apoiando o mais novo ditador sangrento do Egito com 1,3 bilhões (ou mais) de dólares em armamento. Ora, antes, apoiamos o ditador Mubarak por 30 anos... Ele finalmente caiu, na sequência de uma eleição democrática na qual o Sr. Morsi foi eleito. Mas não ficou assim. Em seguida, Morsi foi também derrubado por outro ditador, ao qual agora estamos apoiando. O atual ditador acaba de sentenciar o antigo líder democraticamente eleito, Sr. Morsi, à morte. Mas esse ditador é gente nossa, então fornecemos a ele armas e suprimentos militares para que se mantenha no poder, e olhamos para o lado quando um líder democraticamente eleito é sentenciado à morte. Entendeu?

Toda essa morte e destruição foi desencadeada após o incidente de 9/11. Os noecons nos MENTIRAM friamente e o público foi fisgado pelas MENTIRAS e pelo apoio que a IMPRENSA deu à malversação dos fatos como um peixe pelo anzol. A IMPRENSA, como sempre, nada mais fez que papaguear as MENTIRAS inventadas por Washington sobre armas de destruição em massa que nunca existiram no Iraque. O Iraque também foi falsamente acusado em relação aos fatos de 9/11. Essas MENTIRAS causaram a morte de milhões de pessoas. Sim, MILHÕES DE PESSOAS, mortas pelos ataques dos Estados Unidos desde 9/11.

Política dos EUA para a Síria
Muito bem, as coisas estão meio confusas até agora, então vou fornecer uma informação crucial que ajudará a esclarecer a situação. Quantas nações os Estados Unidos bombardearam desde 9/11? Vou dar uma pista, já que é muito fácil perder a conta... Catorze (14)!

Bem. Todas essas podem ser consideradas guerras menores, relativamente falando, mas no atual estágio, Alice e sua gangue dos chapeleiros loucos estão arquitetando duas guerras gigantescas.

As decisões dos loucos estão colocando tanto China quanto Rússia em uma camisa de onze varas da qual não existe escapatória. Tanto Rússia quanto China estão sendo provocadas pelos Estados Unidos dentro de seu próprio quintal.

A OTAN acaba de completar recentemente seus “jogos de guerra” ao lado da fronteira russa. Que tal isso como provocação? Ou estupidez? Pois a provocação contra a Rússia segue, porque nós a estamos acusando de “interferência” em relação a seu vizinho do lado, a Ucrânia; mas fomos nós, através da membro da Gangue, Victoria Nuland, que orquestramos a derrubada de um líder democraticamente eleito na Ucrânia só porque era pró Rússia. Foi quando a “senhora” Nuland disse com todas as letras: “foda-se a União Europeia”, quando esta não agiu tão rápido quanto ela queria no apoio rasteiro ao golpe de estado.

Enquanto isso, estamos mandando tropas para todos os Estados Balcânicos, mesmo ao lado da Rússia, e estamos também forçando para colocar bases de mísseis no entorno da Rússia, mas são os russos, temos dito, que estão insanamente provocando e totalmente em pecado por sua “interferência” no seu vizinho do lado. Você consegue entender?

Temos tropas a 8000 quilômetros de casa, no quintal da Rússia e a estamos cercando de mísseis. Você deve lembrar ou pelo menos deve ter lido sobre a Crise dos Mísseis de Cuba, um evento que quase levou a uma guerra nuclear total, quando a Rússia tentou instalar mísseis a 160 quilômetros da Florida. Sei...

MANUAL DO USUÁRIO
Passo 1: Tirar o pé direito da guerra falhada #1
Passo2: Transferir o pé para a guerra falhada #2
Passo 3: Pular com ambos os pés no Paquistão...
Agora, Alice e sua Gangue dos Chapeleiros Loucos dizem que a China está “interferindo” e incomodando a gente, assim estamos provocando a China. Você pode perguntar: e como eles estão “interferindo”? No “Mar do Sul da China”! Veja só, no “Mar do Sul DA CHINA”! Pois então, na última semana mandamos aviões de espionagem para um lugar que a China considera como seu território, ilhas no Mar do Sul da China. Ali, tais aviões foram repetidamente instados pela China a sair, ou então... Quase se foi às vias de fato.

A China classificou a invasão dos Estados Unidos como “provocativa” e chamou Washington às falas para que se torne um pouco mais “racional”. Infelizmente, os tomadores de decisões nos Estados Unidos não são racionais. São doidos, e enquanto promovem guerras ao redor do mundo inteiro, estão agora colocando a Rússia e a China em um beco sem saída. Todos sabemos o que acontece quando se encurrala alguém.

Milhões podem perecer a menos que você se interesse pelo que estão fazendo esses imbecis, esses dementes safados. Trata-se da sua própria vida. Preste atenção. A coisa está saindo totalmente do controle.

Não é por menos que uma pesquisa levada a efeito em 65 países apontou os Estados Unidos como a maior ameaça atual à paz mundial.

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[*] Joe Clifford, vive na histórica Jamestown, Rhode Island, e contribui durante anos com artigos relacionados com a política externa dos EUA em jornais na área de Rhode Island. Atualmente é articulista do sítio Salem-News. Seus artigos colocam em xeque, e de forma provocativa, o senso de realidade dos leitores.
Formou-se no Providence College, onde obteve uma licenciatura e pós-graduação. Depois de longa carreira como professor de História em escola secundária por 32 anos, voltou-se para o estudo de Política Externa dos EUA e, em seguida à escrita, como meio de expressar uma perspectiva alternativa do mundo. Suas leituras e pesquisas sobre Política Externa são amplas e extensas, especialmente no que diz respeito às políticas para o Oriente Médio. Esse interesse foi inspirado pela desventura americana no Vietnã.
Recebe e-mails em: jc21131@gmail.com

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Putin faz uma oferta a Obama, sobre a Síria


26/5/2015, [*]  M.K. Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na roça do Cherosim na Vila Vudu: Aparentemente, o embaixador Bhadrakumar, nessa sua fé i-na-ba-lá-vel de que Obama é grande estadista” , ainda não sabe que “os EUA já decidiram que haverá guerra” (ver/ler em 25/5/2015, Rostislav Ishchenko, redecastorphoto: “Ucrânia: unida ou não, estado miseravelmente fracassado).
Por isso, não por qualquer outra razão, Putin sentiu que tem de tentar todas as possibilidades que haja, para salvar a paz, inclusive procurar e pôr-se na dependência do que Cameron faça ou deixe de fazer.
Hoje, todos dependemos de Putin, até Cameron e a BCC (Besta Conservadora Coroada) [pano rápido].

Vladimir Putin

O telefonema do Presidente Vladimir Putin para o Primeiro-Ministro britânico, David Cameron na 2ª-feira (25/5/2015) tem de ser tomado como mais um sinal do gradual descongelamento das relações da Rússia com o ocidente, depois da visita que lhe fez o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, em Sochi recentemente (Vide Obama’s overture to Putin has paid off).
Putin usou a reeleição de Cameron como ocasião para reengajar a Grã-Bretanha, politicamente e diplomaticamente. Prima facie, o gesto de Putin é lisonjeiro. Vem num momento em que se ouvem muitas críticas dentro da Grã-Bretanha e nos EUA por a Grã-Bretanha ter-se convertido em ator menor nos assuntos globais.
Como escreveu Fareed Zakaria recentemente, com acerto [embora com aquele ar de idiota arrogante que é sua marca registrada (NTs)], Cameron passa a impressão de que não percebe que é sucessor de Pitt, Gladstone, Disraeli, Lloyd George, Churchill e Thatcher e nada faz além de manifestamente só “olhar para dentro”; e porque não fez grande discurso depois da reeleição sobre “um mundo de desafios” – a provável saída da Grécia da zona do euro, as ondas de migrantes que vêm das costas da África, a crise na Ucrânia, o Estado Islâmico e por aí vai. E por, no solene momento da posse, ter-se dedicado a expor um rascunho de plano para “garantir que melhores equipes de atendimento permaneçam nos hospitais do Reino Unido ao longo dos fins-de-semana”.
Moscou reserva-se o direito de discordar. Moscou sempre entendeu (mesmo no auge da Guerra Fria ou da perestroika de Mikhail Gorbachev) que há um único papel que cabe à Grã-Bretanha na política internacional, papel que, talvez, pode-se dizer, só a GB pode desempenhar – não a Alemanha, a França ou a Itália – a saber: servir de intermediária quando as coisas ficam realmente feias nas elações Rússia-EUA.
O documento distribuído pelo Kremlin sobre o telefonema de Putin para Cameron não foi tão lacônico como é usual, e até registra que Putin deixou uma via aberta para “cooperação construtiva” entre Rússia e Grã-Bretanha para promover a agenda bilateral e sobre questões internacionais. O comunicado sugere que Síria e Ucrânia figuraram entre os principais tópicos.
Bem obviamente, a Rússia vê a luta contra o Estado [Nada] Islâmico [EI] como ponto focal da crise na Síria; e quanto à Ucrânia, a ênfase está em encontrar “acordo duradouro”, o que demanda diálogo entre os representantes da região do Donbass e de Kiev.
nº 10 da Rua Downing, Londres

Em comparação, o press-release distribuído do n. 10 da Rua Downing é bastante mais informativo sobre os 30 minutos de conversa telefônica de Cameron com Putin. Informa, nas entrelinhas, que há ampla confluência de opiniões sobre a Síria entre Moscou e Londres, no que tenha a ver com pôr fim à guerra civil e deter a maré montante do Estado [Nada] Islâmico (E [Nada] I).
Quer dizer que os dois governantes acertaram que seus conselheiros de segurança nacional “reiniciarão conversas” sobre a Síria. Claramente, significa que os serviços de inteligência russo e britânico retomarão os contatos. Putin e Cameron parecem ter cuidadosamente desviado do ponto nevrálgico desse tema, que é o futuro do governo de Assad num acordo político.
Mas a versão britânica insistiu incomodamente nas “profundas diferenças” entre Moscou e Londres sobre a crise na Ucrânia, destacando que a prioridade no momento é a plena implementação do Acordo de Minsk e o trabalho do grupo trilateral de contato (Ucrânia, Rússia e a OSCE) para resolver as “questões de destaque”.
Resumo, Putin atou os fios do diálogo de Rússia com Grã-Bretanha e os dois governantes sublinharam que os negócios estão recomeçando, demarcando a trilha luminosa da cooperação produtiva entre os dois países, no quadro do grupo P5+1 que negocia com o Irã.
Isso posto, o objetivo principal de Putin foi engajar Cameron, mesmo, na questão da Síria (sobre a Ucrânia, a Rússia tem motivos para dar-se por satisfeita com o “formato” Normandia existente, que reúne Alemanha, França e Ucrânia).
A última vez que Putin e Cameron falaram sobre a Síria foi em maio de 2013, quando Cameron esteve em Sochi para reunir-se com o russo. E, sim, o mundo já nem parece o mesmo que então havia.
O foco naquele momento foram os esforços para “ajudar a modelar” um governo de transição na Síria, e Putin concordou com a necessidade de pôr fim à violência, para impedir que o extremismo crescesse e deter a “fragmentação” da Síria.
Pode bem ser que as respectivas posições não tenham mudado desde maio de 2013 – GB a bradar que o presidente Bashar al-Assad tem de sair e garantindo apoio à “oposição” síria; e a Rússia, por seu lado, preocupada com um vácuo de poder que se criará no caso de o governo sírio colapsar, e com o crescimento dos grupos terroristas.
Mas, por assim dizer, a posição de Moscou naqueles dias mostra-se hoje perfeitamente correta. Depois das conversas em Sochi há dois anos, Putin disse que Rússia e Grã-Bretanha tinham “interesse comum em pôr fim à violência e em lançar um acordo de paz que preserve a Síria como estado integral e soberano”.
Hoje, e isso não é pouco, esse “interesse comum” só pode ter-se aprofundado. Moscou estará à espera de que Londres atravesse até o âmago do governo Obama, para lá implantar a imperativa, urgente necessidade de reabrir a trilha para moldar uma transição política na Síria.
O dramático avanço do Estado [Nada] Islâmico na Síria, que se consumou com a tomada de Palmira há três dias, fez aumentar a pressão sobre a estratégia dos EUA para a Síria. Os aliados regionais dos EUA já pressionam por uma mudança na estratégia dos EUA, com intervenção maior na Síria. A Turquia já beira literalmente a chantagem, e disse que os EUA estariam inclinados a garantir apoio aéreo aos terroristas rebeldes que lutam na Síria [chamados pelos EUA, pela Reuters e pela Leilane Neubarth de “milícias rebeldes sírias” (NTs)]. Mas funcionários do governo dos EUA têm repetido que nenhuma decisão foi tomada até agora.
Estado (NADA) Islâmico - criação de Israel e EUA

Claramente a Turquia interessa-se mais pela “mudança de regime” na Síria do que por alguma luta contra o Estado [Nada] Islâmico; e a prioridade de Obama é que a estratégia que ele tinha para combater o Estado [Nada] Islâmico está em frangalhos [e agora se trata de salvar a própria cara (da estratégia e de Obama) (NTs)].
A avaliação de Putin deve ser que Obama não está inclinado a favor de solução militar na Síria, dada a extrema fragilidade da unidade do país, e o perigo real de que só o Estado [Nada] Islâmico ganhará se a Síria fragmentar-se. (DebkaFile, que tem contato com a inteligência de Israel noticiou que uma coluna do Estado [Nada] Islâmico está a caminho da fronteira da Síria com a Jordânia, onde estão 7 mil soldados das forças especiais dos EUA).
Tudo considerado, portanto, o telefonema de ontem para Cameron significa que Putin está levando indiretamente ao conhecimento de Obama que a Rússia está interessada em cooperar com EUA e Grã-Bretanha em termos práticos, na busca por uma solução política e, em termos imediatos, para pôr fim ao levante do Estado [Nada] Islâmico mediante cooperação em tempo real entre as agências de inteligência (as sanções ocidentais contra a Rússia também congelaram a cooperação entre os espiões). 

Evidentemente a questão síria está ganhando nova criticalidade, e Putin não tem nenhum problema de ego com Obama. Putin espera que Cameron fale com Obama nos próximos um, dois dias, como desenvolvimento do telefonema de ontem.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

terça-feira, 26 de maio de 2015

EUA - Washington bombardeia o próprio pé

24/5/2015, [*] F. William Engdhal, New Eastern Outlook
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
John Kerry e Sergey Lavrov
São tempos bem tristes em Washington e Wall Street. Aquela única superpotência sem desafiantes, quando do colapso da União Soviética, apenas um quarto de século depois, está perdendo a própria influência global, como se vê hoje; e muito depressa, como a maioria jamais teria previsto há seis meses. O ator chave que catalisou um desafio global contra a pressuposta UP (“única superpotência”) em Washington é Vladimir Putin, Presidente da Rússia.
Esse é o real cenário da surpreendente visita que fez o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, a Sochi, para encontrar-se com o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. Depois de revistado por Lavrov, Kerry foi levado à sala de Satã em pessoa, Putin.
Longe de alguma tentativa de “reset”, os infelizes estrategistas geopolíticos de Washington tentam desesperadamente encontrar algum meio de pôr de joelhos o Urso Russo.
Rápido flash back até dezembro de 2014 é instrutivo para compreender por que o Secretário de Estado parece estar levando um ramo de oliveira à Rússia de Putin, e bem no atual momento. Em dezembro do ano passado, Washington parecia a ponto de jogar a Rússia à lona, com aquela brilhante tática de sanções financeiras dirigidas a alvos atentamente selecionados, e com o acordo, com a Arábia Saudita, para derrubar os preços do petróleo. Em meados de dezembro, o rublo estava em queda livre na relação com o dólar. Os preços do petróleo também haviam desabado, de US $107, apenas seis meses antes, para os então US$ 45 o barril. Sendo a Rússia fortemente dependente da renda das exportações de petróleo e gás para o custeio do estado, e com as empresas russas carregadas de dívidas em dólares no exterior, a situação, vista do lado de dentro do Kremlin era difícil.
Naquele ponto, o destino, como tantas vezes acontece, interveio de modo inesperado (inesperado, pelo menos, para os arquitetos norte-americanos da estratégia da guerra financeira + colapso do petróleo). O acordo que John Kerry firmara em setembro de 2014 com o já muito gravemente doente rei Abdullah da Arábia Saudita não estava provocando apenas grave sofrimento nas finanças russas. Estava também ameaçando fazer explodir estimados US$ 500 bilhões em “papéis podres” de alto-risco-alto-rendimento, dívidas que a indústria de petróleo de xisto dos EUA havia tomado em bancos de Wall Street ao longo dos últimos cinco anos, para financiar a muito incensada revolução do petróleo de xisto norte-americano, que por alguns dias pusera os EUA à frente da Arábia Saudita como maior produtor de petróleo do mundo.
A estratégia dos EUA sai-lhes pela culatra
O que Kerry não percebeu no seu negócio de vender cavalo manco aos espertos sauditas foi que os monarcas sauditas tinham agenda própria. Desde antes haviam deixado bem claro que não queriam ter seu lugar de primeiro produtor e rei do mercado mundial de petróleo roubado por uma iniciante indústria de petróleo de xisto norte-americana. Até que gostaram de fazer sangrar Rússia e Irã. Mas o objetivo deles era matar e tirar de cena os norte-americanos, rivais deles, sauditas, na guerra do petróleo.
John Kerry e o Rei Abdullah em setembro/2014
Os projetos norte-americanos de xisto foram calculados quando o petróleo custava US$ 100/barril, há menos de um ano. O preço mínimo para que muitas das empresas norte-americanas de xisto escapassem da falência estava entre US$ 65 e US$ 80/barril.
A extração do petróleo de xisto é não convencional e mais cara. Douglas-Westwood, empresa de assessoria no campo de energia, estima que cerca de metade dos projetos de petróleo em desenvolvimento nos EUA só sobrevivem se o petróleo estiver acima de US $120/barril, mínimo indispensável para gerar fluxo positivo de caixa.
Ao final de dezembro, uma série de falências, em cadeia, de empresas do petróleo de xisto esteve perto de detonar novo tsunami financeiro, em momento em que estava longe de resolvida a carnificina da crise dos derivativos em 2007-8. O estouro, mesmo que de apenas uns poucos papéis podres, de empresas de xisto e alta cotação, bastaria para disparar um pânico com efeito dominó no mercado da dívida de US$ 1,9 trilhões em papéis igualmente podres, o que com certeza dispararia novo derretimento financeiro que os super estressados governo dos EUA e a Federal Reserve dificilmente conseguiriam deter. Poderia até levar ao fim do dólar como moeda global de reserva.
Repentinamente, nos primeiros dias de janeiro, lá estava Lagarde, Presidenta do FMI, a elogiar o Banco Central da Rússia pelo modo “bem-sucedido” de enfrentar a crise do rublo. O Gabinete de Terrorismo Financeiro do Tesouro dos EUA suavizou os discursos contra a Rússia. Só o governo Obama mantinha que se tratava da IIIª Guerra Mundial “de sempre” contra Putin. A estratégia dos EUA para o petróleo provocara muito mais danos aos EUA, que à Rússia.
Fracasso da política dos EUA contra a Rússia
E não só isso. A brilhante estratégia de Washington de guerra total contra a Rússia, que começara em novembro de 2013 com o golpe de estado da Praça Maidan em Kiev, em 2015 já era fracasso evidente, manifesto, um super fracasso que está criando para Washington o pior pesadelo geopolítico imaginável.
Longe de reagir como vítima e acovardar-se diante das manobras dos EUA para isolar a Rússia, Putin pôs em andamento uma série de brilhantes iniciativas de economia externa, militares e políticas, que, em abril se acrescentaram ao projeto de uma nova ordem monetária global e a um novo colosso econômico eurasiano, em condições de ofuscar a hegemonia da UP (“única potência”).
Putin atacou as fundações do sistema-dólar dominado pelos EUA e a correspondente ordem mundial global em vários pontos, da Índia ao Brasil, Cuba, Grécia, Turquia. Rússia e China assinaram novos tratados mamutes de energia, graças aos quais a Rússia pôde redirecionar sua estratégia de energia para longe do ocidente. Porque, no ocidente União Europeia (UE) e Ucrânia, ambas sob violenta pressão de Washington, sabotaram os fornecimentos de gás russo para a UE, que tinham de atravessar a Ucrânia. A UE, outra vez sob pressão intensa de Washington, atacou o mais que pôde o projeto da Gazprom para o gasoduto Ramo Sul de gás natural que chegaria ao sul da Europa.
Vladimir Putin fecha acordo com a Turquia
Em vez de se encolher na defensiva, Putin chocou a UE quando, em visita à Turquia e reunido com o Presidente Erdogan, anunciou, dia 1º de dezembro, que havia cancelado todo o projeto da Gazprom para o Ramo Sul. Anunciou que buscaria um acordo com a Turquia, para entregar gás russo na fronteira da Grécia. E que se a UE quisesse gás, ficasse à vontade para financiar ela mesma a construção dos seus próprios gasodutos. Estava desmascarado o blefe da UE. O gás entregue à porta dos europeus ia-se tornando, fantasia dia a dia mais distante.
As sanções da União Europeia contra a Rússia também saíram pela culatra, quando a Rússia retaliou com proibição de alimentos importados, o que empurrou a Rússia de volta à busca da autossuficiência alimentar. E bilhões de contratos ou exportações de empresas alemãs como a Siemens, ou francesas como a Total caíram repentinamente no limbo. A empresa Boeing viu sumirem grandes negócios, quando a Rússia cancelou encomendas importantes. E a Rússia anunciou que passava a recorrer a fornecedores nacionais produtores de componentes críticos para a Defesa.
Na sequência, a Rússia tornou-se membro “asiático” chave do excepcionalmente bem-sucedido novo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII). Esse BAII é iniciativa dos chineses, concebida para financiar seu ambicioso Cinturão Econômico da Nova Rota da Seda, a gigantesca rede de trens de alta velocidade que atravessará a Eurásia até a União Europeia.
Em vez de isolar a Rússia, a política de Washington saiu-lhe espantosamente errada quando, apesar da mais furiosa pressão dos EUA, importantes aliados (Grã-Bretanha, Alemanha, França e Coreia do Sul) correram, todos, a unir-se ao novo BAII.
Além disso, em reunião que tiveram em maio/2015, em Moscou, o Presidente da China, Xi Jinping e Vladimir Putin anunciaram que a infraestrutura da Rota da Seda chinesa será completamente integrada com a União Econômica Eurasiana, da Rússia – o que acrescenta notável impulso ao avanço russo na Eurásia e daí até a China, na região onde vive a maior parte da população mundial.
Em resumo, no momento em que John Kerry recebeu ordens para engolir em seco e voar até Sochi, chapéu na mão, para oferecer algum tipo de cachimbo da paz a Putin, a elite governante dos EUA, os oligarcas norte-americanos, começavam a cair na real.
Falcões hiper agressivos como a neoliberal, Victoria “F*da-se a União Europeia” Nuland do Departamento de Estado, e o Secretário da Defesa, Ash Carter, estavam querendo inventar uma estrutura mundial alternativa, brotada da cabeça deles e dos interesses que se escondem por trás das cabeças deles, que estava pondo sob ameaça existencial todo o sistema-dólar pós-Bretton Woods dominado por Washington. Epa!
Como se não bastasse, ao forçar seus “aliados” europeus a entrar na linha anti-Putin dos EUA – com grave prejuízo para os interesses políticos e econômicos da União Europeia, além do prejuízo a que se exporiam os países europeus que não se integrassem ao boom dos investimentos chineses – os neoliberais de Washington haviam conseguido acelerar também um provável “racha” entre Washington e Alemanha, França e outras potências da Europa Continental.
Por fim, todo o mundo, inclusive anti-Atlanticistas ocidentais, passaram a ver Putin como símbolo da resistência à dominação pelos EUA. Essa percepção já emergira quando da acolhida que a Rússia deu a Snowden, mas firmou-se depois das sanções e bloqueios. Vale lembrar que esse tipo de percepção tem importante papel psicológico na luta geopolítica – a presença de um símbolo (Snowden) dessa natureza – abre novas vias até aqui nunca imaginadas na luta contra a hegemonia.
Por tudo isso, Kerry foi claramente mandado a Sochi para farejar pontos fracos para um renovado futuro ataque. Disse aos bandidos lunáticos que os EUA apoiam em Kiev que se acalmassem e respeitassem os acordos de cessar-fogo de Minsk.
John Kerry e a junta-de-Kiev
A ordem foi um choque para os doidos de Kiev. “Yats”, Arseniy Yatsenyuk, o Primeiro-Ministro que La Nuland pôs no cargo em Kiev, disse à TV francesa que “Sochi definitivamente não é o melhor resort nem o melhor local para bater um papo com Presidente russo e Ministro russo de Relações Exteriores”.
Nesse quadro, a única coisa clara é que Washington parece ter afinal percebido a estupidez que foram suas provocações contra a Rússia, na Ucrânia e globalmente. O que virá na sequência, ainda ninguém sabe. O que se sabe é que o governo Obama recebeu ordens das mais altas instituições dos EUA para mudar completa e absolutamente sua atuação. Nenhuma outra coisa explica a mudança. Se a sanidade conseguirá substituir a insanidade neoliberal fascista na política externa dos EUA, ainda não se sabe.
O que já está claro é que Rússia e China estão absolutamente decididas a não se porem à mercê de uma UP (“única potência”) alucinada e imprevisível. A patética tentativa de Kerry, buscando um segundo “reset” na política dos EUA para a Rússia em Sochi, nesse ponto dos acontecimentos, pouco ajudará Washington. A oligarquia dos EUA, como Shakespeare diz pela boca do seu Hamlet, está sendo “explodida com a própria bomba”, é o bombardeador que se deixa autoexplodir com a própria bomba (HAMLET, Ato 3, cena 4 p. 9.).
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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pelaPrinceton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online  New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.

Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.