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terça-feira, 9 de junho de 2015

Eleitores turcos chicoteiam Erdogan


8/6/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Recep Erdogan
Erdogan perdeu, nas eleições parlamentares turcas. Com cerca de 95% dos votos já apurados, as cadeiras com direito a voto estão assim distribuídas:
  • Partido Justiça e Desenvolvimento (de Erdogan), AKP 41,5% (261 votos)
  • Partido Republicano Popular, CHP 25,3% (130 votos)
  • Partido do Movimento Popular, MHP 16,7% (84 votos)
  • Partido Democrático Popular (dos curdos), HDP 12,0% (75 votos)
O Partido Justiça e Desenvolvimento (de Erdogan) perdeu quase 9% das cadeiras com direito a voto, em relação à última eleição.
O Partido Democrático Popular (dos curdos) saltou bem acima dos 10% mínimos exigidos para participar do governo: significa que o Partido Justiça e Desenvolvimento, de Erdogan, já não poderá governar como partido único. Erdogan terá de buscar uma coalizão com os nacionalistas linha dura do Partido do Movimento Popular, e terá de formar novo governo.
Razões para a derrota de Erdogan não faltam: dentre outros, o fim do boom econômico movido a crédito abundante que o AKP de Erdogan urdiu desde 2000.
Há também furiosa luta interna dentro do AKP: a política de Erdogan de incendiar cada vez mais a guerra na Síria é fortemente impopular.
Qualquer governo de coalizão que Erdogan venha a conseguir montar, será provavelmente menos agressivo que o atual. É muito pouco provável que o atual primeiro-ministro Davutoglu – promotor muito agressivo de um novo Império Otomano – mantenha o posto.
Como político, Erdogan sofreu ferimento profundo, e seu partido sai das eleições muito enfraquecido. A situação só favorece o aprofundamento das divisões dentro do Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP); não se exclui a possibilidade de que o partido rache em várias facções. No cômputo geral, o resultado reduz a capacidade da Turquia para aventuras geopolíticas de grande alcance.

[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em
alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Iêmen ou Irã: Quem está na mira dos EUA?

1/4/2015, [*] Nikolai BOBKINStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os EUA bombardeiam Bagdá (ao vivo)
A situação no Oriente Médio só deteriorou desde a invasão dos EUA ao Iraque em 2003. Tudo o que aconteceu na região depois dali foi resultado da intervenção dos norte-americanos nos assuntos internos de países do Oriente Médio, seja Tunísia, Líbia, Egito, Síria ou Iêmen. Em entrevista à VICE News, o presidente Obama disse que:

(...) o crescimento do Estado Islâmico (EI, também chamado ISIS/ISIL) pode ser conectado diretamente à excursão dos EUA ao Iraque no governo Bush.

Duas coisas: uma, que o ISIL é desdobramento direto da Al-Qaeda no Iraque, que cresceu a partir de nossa invasão – disse Obama. Aí está exemplo de consequência não desejada. E é por isso que é preciso fazer mira, antes de atirar (????). Assista vídeo a seguir, em inglês:


Ao apoiar a operação contra o movimento dos houthis, os EUA correm, novamente, grave risco de novas “consequências não desejadas”. Não há dúvidas de que o movimento dos houthis é a única força no Iêmen capaz de fazer frente à Al-Qaeda na Península Arábica [orig. Al-Qaeda in the Arabian Peninsula (AQAP)] e ao Estado Islâmico. O presidente Hadi do Iêmen acaba de ser derrubado porque era acusado de manter laços muito estreitos com radicais sunitas conectados à AQAP e ao EI. No instante em que os houthis chegaram ao poder, militantes da AQAP juraram solidariedade ao Estado Islâmico e começaram a combater os houthis. Mais uma vez, Obama atira contra terroristas errados.

Os EUA têm apresentado o Irã como o maior mal que há no Oriente Médio, ainda que não haja nenhuma prova de qualquer ameaça terroristas partida do Irã. Mais que isso, Washington tem hoje de procurar meios para cooperar com Teerã na luta contra os jihadistasdo Estado Islâmico no Iraque e na Síria. Mas no Iêmen os EUA já se aliaram aqueles mesmos terroristas, para tentar neutralizar a influência do Irã. Converter sua política exterior em lamentável teatro do absurdo já é rotina, nos EUA.

A Arábia Saudita afirma que a campanha aérea no Iêmen atende a pedido do governo sunita derrubado. Washington repete a mesma coisa.

Moscou exigiu fim imediato do massacre no Iêmen e protestou contra Washington, que não consegue ver a diferença entre os dois conflitos, no Iêmen e na Ucrânia. Os EUA apoiam o presidente fugitivo do Iêmen, mas não apoiaram o ex-presidente da Ucrânia, Yanukovich, que teve de deixar o país. Os EUA outra vez afundam-se na mesma velha política de dois padrões – em duas situações que poderiam ser negociadas, sem guerra.

Tenho de usar o mesmo velho clichê – os dois padrões aí estão, bem evidentes – e nos nunca desejamos nenhum dos desenvolvimentos, nem na Ucrânia nem o que se vê hoje no Iêmen, disse o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, em conferência de imprensa durante sua recente visita à Guatemala, dia 27/3/2015.

Rodrigo Vielmann (D), Vice-MRE da Guatemala e o MRE da Rússia, Sergey Lavrov (27-3-2015)
A reação atrasada dos EUA à mudança no poder no Iêmen mostra que a decisão de Washington, de apoiar o ataque contra o Iêmen foi motivada por sua política de oposição sistemática ao Irã.

Barack Obama foi eleito para o segundo mandato para fortalecer a posição internacional dos EUA, especialmente no mundo islâmico, quando ainda buscava um lugar na história. A principal missão a completar no Oriente Médio é pôr fim ao “dossiê nuclear iraniano” e normalizar as relações com o Irã, se possível. Há 35 anos, desde Jimmy Carter, nenhum presidente dos EUA conseguiu tal façanha. Dificilmente será Obama o homem que conseguirá. Os obstáculos que há contra um acordo nuclear com o Irã não estão só na obstinação com que o Irã defende seu programa nuclear, nem na posição que o Congresso assumiu.

A decisão de imiscuir-se também na guerra contra o Iêmen foi tomada sob influência do establishment norte-americano que entende que é imprescindível impedir que o Irã converta-se em algum tipo de liderança regional. Na visão de Washington, a guerra contra os xiitas iemenitas que seriam apoiados por Teerã é guerra para mostrar à República Islâmica que lhe falta força militar para dominar o Oriente Médio. Não foi difícil para os EUA encontrar alguém a quem repassar a tarefa.

A Arábia Saudita considera o Irã como rival que ameaça suas posições. O Egito jamais tolerou a Revolução Islâmica e sempre foi hostil ao Irã. Os vizinhos Estados do Golfo sempre tiveram medo de o estado persa vir a ser protegido pelos EUA. Marrocos e Jordânia entraram na guerra “para fazer companhia” e agradar a Washington.

Dia 28/3/2015 terminou uma reunião de árabes, que juraram derrotar os rebeldes xiitas apoiados pelo Irã no Iêmen e revelaram que já se organiza uma força conjunta árabe de intervenção, o que oferece cenário para um confronto potencialmente perigoso entre estados árabes aliados dos EUA, e Teerã, em disputa pela influência na região.

Reunião da Liga Árabe em 28/3/2015
Resolução daquela reunião diz que a nova força árabe conjunta de defesa será acionada a pedido de qualquer nação árabe que enfrente ameaça à sua segurança nacional; também será usada para combater grupos terroristas. O responsável pelos preparativos é o Secretário-Geral da Liga Árabe, Nabil Elaraby. Os representantes da Liga Árabe vão-se reunir novamente dentro de um mês e terão mais três meses de trabalho até definirem todos os detalhes, a serem aprovados pelo Conselho de Defesa Conjunta da Liga Árabe. Desde a guerra contra Israel, os árabes não conseguiam coordenar-se tão firmemente entre eles mesmos.

A Turquia uniu-se à coalizão de árabes contra o Irã. O presidente Tayyip Erdogan disse que Teerã tem de revisar sua posição nos conflitos que castigam Síria, Iraque e Iêmen. Segundo o presidente da Turquia, “o Irã tenta dominar toda a região” e “deve retirar seus exércitos do Iêmen, Síria e Iraque”.

Em recente conferência de imprensa, o presidente da Turquia disse que:

(...) o Irã tenta dominar toda a região. Pode-se admitir tal coisa? Já começa a nos incomodar, a Arábia Saudita e os países do Golfo. Não é absolutamente tolerável, e o Irã tem de rever isso.

Disse também que:

(...) o conflito no Iêmen evoluiu para uma luta sectária. E que o Irã tem de retirar-se de lá. O Irã tem de mudar suas posições. Tem de retirar quaisquer forças militares que tenha no Iêmen, na Síria e no Iraque, e respeitar a integridade territorial desses países – Erdogan prosseguiu.

As palavras do presidente turco desencadearam uma onda de indignação no Irã.

Recep Erdogan na reunião da Liga Árabe em 28/3/2015

Os eventos no Iêmen podem desencadear crise séria nas relações entre o Irã e seus vizinhos árabes. O Paquistão já se uniu à coalizão árabe e promete total apoio à guerra liderada pela Arábia Saudita (e EUA) contra os xiitas iemenitas.

A operação militar leva o nome de “Operação Tempestade Decisiva”. De fato, toda a região parece atingida por vasta tempestade. O momento de lançar a operação não foi escolhido por acaso. O Irã está a um passo de obter um acordo sobre seu programa nuclear, o que encerrará o dossiê. Há boas chances de as conversações com o grupo P5+1 chegarem a bom termo.

Os inimigos do Irã na região compreenderam que o confronto entre Teerã e o ocidente pode estar chegando ao fim. Poucos realmente acreditam que o Irã tenha intenção de se tornar potência nuclear. A ameaça jamais se mediu pelo número de centrífugas, mas, isso sim, pelo número de países nos quais o Irã tem forte influência. A solução diplomática da questão nuclear iraniana mudará toda a situação no Oriente Médio. O Iêmen não é periférico, no sistema de segurança regional.

O país está localizado na principal rota marítima da Europa para a Ásia, entre todas as rotas que atravessam o Mar Vermelho. Quantidades gigantescas de petróleo são transportadas diariamente pelo Canal de Suez para o Mediterrâneo, da Arábia Saudita para a Ásia. Bab-el-Mandeb é um estreito localizado entre o Iêmen na Península Arábica, e Djibouti e Eritrea no Chifre da África.

A agência norte-americana de informação sobre energia [orig. US Energy Information Administration (EIA)] definou sete gargalos considerados críticos como itens de segurança energética, por causa do alto volume de petróleo e outros fluidos transportados através de pequenos estreitos. O estreito de Bab-el-Mandeb é um deles.

E o Irã também controla outro gargalo crucialmente importante – o estreito de Ormuz. O ocidente analisa as probabilidades de um governo xiita chegar ao poder no Iêmen, a partir do ponto de vista de sua segurança no campo da energia. Quem controle o Iêmen pode bloquear o Golfo Persa e impedir os navios petroleiros de alcançar o Canal de Suez – o que deixaria a Europa sem petróleo.

A força naval saudita informou que já assumiu o controle sobre todos os portos do Iêmen, os quais já estão bloqueados, enquanto prosseguem os ataques aéreos sauditas contra o Iêmen. Parece que Riad planeja ficar.

A guerra no Iêmen é desafio lançado a Teerã, esforço para forçar o país a tomar medidas retaliatórias. É verdade que o Irã não está esperando o fim do conflito no Iêmen e já se movimentou para estabelecer contatos governo a governo com a liderança dos houthis. Foi como um reconhecimento de facto, pela República Islâmica, de que os houthis são o verdadeiro governo no Iêmen.
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[*] Nikolai Bobkin é Ph.D. em Ciências Militares, professor associado e pesquisador sênior no Center for Military-Political Studies, Institute of the U.S.A. & Canada. Colaborador especialista na revista online New Eastern Outlook. Escreve habitualmente para diversos sites e blogs tais como: Strategic Culture,Troubled Kashmir, Make Pakistan Better e muitos outros.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Pepe Escobar: Petróleo/bomba atômica: a charada do Oriente Médio

17/3/2015, [*] Pepe EscobarRussia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Arábia Saudita extrai petróleo à noite...
O Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, parece estar começando a gostar do frisson de viver perigosamente na sua “diplomacia”, quando diz que “não se sabe ainda” se EUA e Irã chegarão a algum tipo de acordo nuclear antes do final do mês.

Ouviram-se aplausos retumbantes pelos corredores, de Telavive a Riad.

Com as negociações sendo reiniciadas em Lausanne, fato é que um possível acordo nuclear entre Irã e o P5+1 (EUA, Reino Unido, França, Rússia e China (dos BRICS) e Alemanha) pode abrir a possibilidade de o petróleo iraniano chegar ao mercado em maiores quantidades – o que fará desabar ainda mais rapidamente o preço do petróleo. No início da semana em curso, o Brent cru estava sendo vendido a US$ 54,26 o barril.

Assumindo-se que as nações da UE que participam do P5+1 realmente concordem até o verão com suspender as sanções da ONU (Rússia e China já concordaram), não apenas o Irã exportará mais energia – pode demorar alguns meses – mas também a OPEP, como um todo, estará aumentando ainda mais a super oferta.

A UE precisa muitíssimo comprar grandes quantidades da energia iraniana – e investir na infraestrutura iraniana. Pequim, membro chave, embora ainda discreto, do P5+1, também observa cuidadosamente esses desenvolvimentos.



Aconteça o que acontecer, ainda é situação de ganha-ganha para a China, com Pequim construindo ativamente suas reservas estratégicas de petróleo, aproveitando-se dos baixos preços. E mesmo que os preços do petróleo permaneçam pressionados pelo forte EUA-dólar – o que torna o petróleo muito mais caro, se você paga com outra moeda – não há aí, com certeza, problema grave para a China, que tem reservas tamanho mamute de EUA-dólares.

A guerra do preço do petróleo desencadeada essencialmente pela Arábia Saudita atingiu muito duramente o Irã. O país está caído, mas nem por isso está fora de jogo. Não há boas opções para Teerã, além de tentar manter sua fatia de mercado, oferecendo os mesmos descontos – especialmente para a Ásia – que os sauditas oferecem.

Teerã está afogada numa tsunami de terríveis sanções ocidentais, que limitam sua possibilidade de exportar petróleo e aumentar a produção. É extremamente difícil para os governos iranianos reduzir o buraco gerado pela diferença entre a renda com que o país podia contar, baseado nos velhos altos preços do petróleo, e a renda com que conta hoje.

Hoje, o nome do jogo entre todos os grandes produtores de petróleo é defender a qualquer custo a própria fatia de mercado. O Irã não pode fugir disso – porque precisa manter controlado, eternamente, o medo de excesso de oferta e o próprio desejo de aumentar a produção. Alguns países produtores de petróleo estão mantendo fora do mercado qualquer aumento que haja no petróleo produzido. O resultado é que o Irã terá sérios problemas para produzir mais e exportar mais, ao mesmo tempo em que tentar recupera a fatia de mercado que tinha antes do início das sanções.

Quer comprar um apê no Oriente Médio?

Ao mesmo tempo em que um tipo de “guerra do petróleo” não declarada continua ainda longe de qualquer solução, o front nuclear promete eventos de embasbacar.

Arábia Saudita extrai petróleo também de dia...
Facções poderosas – mesmo que conflitantes – do “Império do Caos” em Washington alimentam ativamente o sonho de transferir ativos militares dos EUA, do Oriente Médio para a Europa, para manter sempre crescente a pressão sobre a Rússia, sob o pretexto de uma “agressão” contra a Ucrânia.

Pode até acontecer, mas só depois de o “controle” sobre o Oriente Médio estar partilhado entre Turquia, Irã e, em menor extensão, também com a Casa de Saud. Para a notoriamente atrapalhadíssima política exterior de “Não faça merda coisa estúpida” do governo Obama, esse desenvolvimento talvez seja o argumento de fundo por trás do movimento para conseguir, esse verão, um acordo nuclear bem-sucedido entre o P5+1 e o Irã.

O Irã já cultivou – e já viu florir – sua própria esfera de influência. Muito mais complicado é caso Turquia-sauditas.
Bashar al-Assad

Ancara, que vê bem claramente o terrível arranca-rabo em curso pelo poder regional entre Teerã e Riad, cuida de manter boas relações com esses dois lados.

Crucialmente importante, Ancara e Riad estão quase na mesma página do script de “Assad tem de sair”. “Quase” – porque de fato o que se tem é uma aliança Turquia-Qatar pró-Fraternidade Muçulmana, que há quatro anos está em luta direta contra uma Casa de Saud pró-salafistas.

Pelo sim, pelo não, quando o presidente turco, também conhecido como “Sultão” Erdogan, visitou o rei Salman da Arábia Saudita no início de março, a dupla chegou a um entendimento: os dois vão garantir “apoio” super turbinado – armas e todo o resto – para a oposição síria. O único problema é que não há “oposição síria” a quem entregar o “apoio”. Virtualmente todos os personagens capazes de operar uma arma já migraram para o falso Califato do ISIS/ISIL/Daesh.

O que isso significa, em resumo, é cenário de sunitas contra xiitas. Gambito clássico de Divide e Impera que é perene prioridade para a Casa de Saud.

O “Império do Caos”, em teoria, deveria estar gostando. Mas não está. O objetivo – declarado – do governo Obama – é “[dar prioridade] ao Estado Islâmico, não a Assad”.

Mas também isso pode mudar de um momento para outro. O novo Supremo do Pentágono, Ashton Carter, acaba de admitir que:

(...) as forças que treinamos na Síria (...), teremos alguma obrigação de garantir apoio a elas, depois de serem treinadas. Mas aí também se inclui a possibilidade de que, ainda que tenham sido treinadas e equipadas para combater o ISIL, as mesmas tropas entrem em contato com forças do regime Assad.

Erdogan visitou Salman no início de março de 2015
Não surpreende que Damasco esteja desconfiada, e decidida a esperar pelas “ações” dos EUA, antes de qualquer possível negociação com Washington. Um dia, Kerry diz que é necessário conversar com Damasco para pôr fim à guerra na Síria. Dia seguinte, repete que “Assad tem de sair”.

Os rapazes de Osama fazem-se de loucos

Quanto à zona aérea de exclusão sobre o norte da Síria – que Erdogan muito deseja e é o sonho molhado de neoconservadores em Washington – não decolará. Mais uma razão para que Ancara fique à distância dessa nova intentona anti-Irã dos sauditas.

Para complicar ainda mais as coisas, o poder dentro da Casa de Saud permanece difuso. Ambas, a CIA e a BND – inteligência alemã – concordam, e ouvem-se constantes rumores em Washington, segundo os quais a Casa de Saud pode estar por um fio.

A Casa de Saud ainda não compreendeu que a Síria não é a principal “ameaça” contra os sauditas. Os sauditas estão tão pirados por causa da fronteira com o Iraque – como por causa das fronteiras com Iêmen e Bahrain. Como se não bastassem, já compraram briga também contra a Rússia, por causa da guerra dos preços de petróleo. Os sauditas dizem que estão bombeando só 9,5 milhões de barris/dia, dos 12,5 milhões que poderiam bombear; Moscou diz é que, de fato, estão bombeando a capacidade total dos poços.

Se, por um lado, a guerra dos preços do petróleo faz a delícia dos “Masters of the Universe” que só pensam em demonizar a Rússia, aquela guerra ao mesmo tempo os enfurece, porque está detonando a “revolução” do petróleo de xisto dos EUA. O que resta para as massas de trabalhadores norte-americanos desempregados? Procurar emprego na Arábia Saudita ( vídeo abaixo). Mais uma razão para os “Masters of the Universe” jogarem a Casa de Saud para fora do barco, no momento que lhes der na telha.


Como se poderia prever, a paranoia continua a reinar na Casa de Saud. O príncipe Turki, ex-capo di tutti i capi da inteligência saudita (e ex-amigão de Osama bin Laden) está fazendo horas extras culpando o Irã por ser “ator agitador em vários cenários do mundo árabe, como Iêmen, Síria, Iraque, Palestina ou Bahrain”, insistindo que “o inimigo” são Assad e o ISIS/ISIL/Daesh; e por último, mas não menos importante, atacando com fúria qualquer possível acordo nuclear com o Irã.

Ainda mais preocupante é que o rei Salman trouxe a Riad o Primeiro-Ministro do Paquistão Nawaz Sharif – até correu a recebê-lo no aeroporto – para confirmar um acordo estratégico nuclear secreto, chave, antes que aconteça qualquer acordo Irã/P5+1. Resumo: a Casa de Saud já não confia no guarda-chuva nuclear norte-americano. Estão tratando de fazer seu próprio jogo nuclear, com a ajuda do Paquistão nuclear. A conexão existe, mas permanece cercada de mistério extremo.

Nem é necessário elaborar sobre o pântano de consequências terríveis: alguém estaria apostando em wahhabistas doidos e nucleares?
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Adquira seu novo livro, Empire of Chaos, Nimble Books, 2014.