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sábado, 18 de janeiro de 2014

Hollande está nu

16/1/2013, [*] Jean-Luc Mélenchon, Le Blog de Mélenchon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

François Hollande
Não se deve subestimar a amplidão da virada que François Hollande operou em sua conferência de imprensa. [1] Continua a ser, sim, o mesmo homem que descrevi em meu livro En quête de gauche, [2] o percurso ideológico desde 1983. Desconhecido àquela época, seus primeiros tribunos na imprensa o davam como alinhado dessa corrente “democrata”, nascida nos EUA, que, na sequência, escalou a escadaria liberal.

De Tony Blair a Gerhard Schröder, o que se viu foi um descaminho, em toda a social-democracia europeia, do qual Hollande foi instrumento na França. Esse descaminho avançou até a total decadência, com a capitulação de Papandréou na Grécia ante o assalto da finança, mas também com os governos de grande coalizão de repetição na Alemanha e em vários países europeus. Sim: na conferência de imprensa anterior, em novembro de 2012, já se podia ver a paisagem mental da conversão pública de Hollande à “política da oferta”, característica do pensamento econômico da direita. Mas os jornalistas têm razão, quando dizem que, agora, Hollande escancarou tudo.

Foi a virada à direita mais violenta de um governo suposto de esquerda, desde Guy Molet, eleito para fazer a paz na Argélia, e que mandou para lá um contingente de guerra. Hollande foi eleito para virar a página de Sarkozy e fazer guerra à grande finança. Disso, já não se vê nem traços. Ao contrário. Um jornalista forçou-o a confessar. “Que diferença há entre sua política e a política de Sarkozy?” Da própria boca de Hollande, a diferença seria que Hollande faria o que Sarkozy fora incapaz de fazer em matéria de política econômica de direita! Dito de outro modo, visto cá de nossas galerias, Hollande se orgulha de ser pior que Nicolas Sarkozy.

Nos números, também é pura verdade. Fillon cortou 15 bilhões de gastos públicos. Hollande cortou três vezes mais. Quanto à “guerra à finança”... é a caricatura do dito de Charles Pasqua, segundo o qual “promessas só conquistam quem acredite nelas”. Não é surpresa para nós, militantes políticos, cidadãos esclarecidos. No fundo, sempre soubemos no que acreditar.

Mas às vezes, esses nossos saberes nos enganam: supomos que todos sabem o que nós sabemos e subestimamos os efeitos da desmoralização coletiva dos que descobrem a realidade, sobretudo quando não há nenhum desejo de conhecer a realidade. E subestimamos o quanto de autoridade podem tem personagens como François Hollande, simples efeito do cargo, sobre o espírito público. Quando Hollande recita, repetindo, o catecismo liberal sem nada demonstrar, usando, como se fossem provas, o que não passa de refrãos ideológicos aprendidos de nossos adversários, ele conforta a ideologia dominante e todos os preconceitos de nossos tempos de obscurantismo. Por isso, em seguida, nós é que temos de pagar, e pagar muito caro. Esse movimento provoca simultaneamente doses iguais de resignação e de conformismo.


A pressão midiática e as circunstâncias forçaram que o motoqueiro mascarado aparecesse sem disfarces. Acredito que tanto no Partido Socialista como na nossa esquerda, há muitos que teriam preferido que a ambiguidade continuasse, para facilitar os pequenos “negócios”. Mas a pressão de circunstâncias privadas impôs que Hollande adotasse postura clara, para assim tentar desmentir sua reputação de duplicidade doentia, permanente e universal. Os jornalistas o apanharam assado “ao ponto”.

Assim, conseguiram total clareza, pela qual, tenho certeza, teriam de esperar muito, sem nada obter desse falastrão, interessado em continuar a enganar todo mundo. Ah, sim, é verdade: no fundo, nada mudou. Mas nem por isso tudo continua exatamente como antes.

Houve um salto qualitativo: o novo pacto econômico-blá-blá-blá dá mais 15 bilhões ao MEDEF [Mouvement des Entreprises de France / Movimento das Empresas Francesas, a maior união patronal francesa]. No total, os dois últimos planos blá-blá-blá injetaram 35 bilhões de dinheiro novo no MEDEF, arrancados integralmente do consumo da população! Isso, quanto aos fatos & números.

Ao assumir publicamente sua virada neoliberal, François Hollande atravessa também um limite simbólico. Na vida pública, sobretudo quando fala o monarca republicano, as palavras são fronteiras, tanto quanto são passarelas sobre o real. A conferência de imprensa de Hollande pôs ponto final à “especificidade” do Partido Socialista dentro da social-democracia mundial e europeia. E não foi só isso.

O golpe de força ideológico vai virar golpe de força político. Ao votar um voto de confiança [3] no “pacto de solidariedade” que Hollande propôs aos empresários franceses, a “esquerda do Partido Socialista” o os Verdes validarão a brutal fórmula produtivista e antissocial que resume tudo, no plano da filosofia política: “a oferta cria a demanda”. [4] Hollande vai fazer o Parlamento engolir mais e mais presentes para o patronato, mais e mais Acordos Nacionais Interprofissionais [Accord National Interprofessionnel, ANI], mais e mais 66 anos para aposentadoria, mais e mais... mais e mais... Conheço bem essa goela de jiboia e a arte deles para tudo engolir, ao mesmo tempo em que falam mal do cardápio, mas... comem, assim mesmo!

Toda a esquerda representada no Parlamento está encurralada contra o muro. Assim se verá a sinceridade desses flautistas! A doutrina é essa. Mas é preciso considerar um detalhe.

Hollande aceita o rótulo de “social-democrata”.

É uma usurpação a mais. Há, é claro, razões de fundo que têm a ver com a paisagem e a história da esquerda francesa. A social-democracia é um modo de organização da esquerda, na qual o partido e o sindicato aparecem intimamente ligados. São ligados não só na ação, mas pelas estruturas e pela história. E tanto faz se o partido criou o sindicato, ou o sindicato criou o partido. É exatamente assim em todos os países do norte da Europa e na Inglaterra. Mas nada disso jamais existiu na França. Em minha opinião, melhor que assim seja. Mas... assim sendo, o que seria, afinal, essa social-democracia à moda Hollande na qual o sindicato e o partido dão-se as costas? A resposta é simples: a social-democracia de Hollande não existe.

Por pior que seja, a social-democracia é um modo pelo qual os avanços incorporam as relações de força entre as forças sociais, e incorporam a negociação, para chegar a acordos e compromissos. Mas no “sistema” Hollande não se vê nem traço de incorporação de relações de força, de negociação, nem de qualquer acordo e compromisso típicos da social-democracia que se conhecia. Hollande dá presentes “secos” aos acionistas. Nenhuma contrapartida, de tão calculados e fechados e firmes que são os presentes; nada se exige do grande patronato, em troca.

Onde está o espaço de “negociação”? Trata-se de concessão já previamente decidida, unilateral e sem condições, como se viu no caso dos Acordos Nacionais Interprofissionais, da aposentadoria aos 66 anos e hoje? Onde está a relação de forças, se o governo define as concessões, antes de começar a discussão? Não há.

A ideia social-democrata é “partilhar os frutos do crescimento”. Não passa de lamentável ilusão produtivista, sim, que supõe um mundo em crescimento permanente, sem limite, num mundo limitado. Mas, pelo menos, aspira-se a partilhar alguma riqueza. Na França de Hollande, não, não se partilha coisa alguma. São 15 milhões dados de um lado, e, do outro lado, no melhor dos casos, promessas de “criação de empregos”.

Ainda que essas promessas se convertessem em fatos, e disso não se vê nem o menor sinal, que tipo de troca é essa? Entrega-se a riqueza a alguns, em troca de os outros terem o “direito” de produzir cada vez mais riquezas que serão repartidas sempre com a mesma desigualdade! E qual o conteúdo desses empregos “garantidos como contrapartida”? São empregos socialmente degradados, de baixo salário, para possibilitar que o governo pague os 15 bilhões “de presente”. Empregos com menor poder de compra, porque a “economia” de gasto público é feita à custa de mais despesas para as famílias.

E eis aí Hollande, fingindo indignar-se contra os que veem em suas políticas, o prosseguimento dos presentes à grande finança! Só ele não vê que praticamente toda essa catarata de dinheiro dado ao grande patronato não se converte em investimento: praticamente todo esse dinheiro é repartido lá mesmo, como dividendos. Tudo isso está comprovado nos números.

O que Hollande faz é social-liberalismo.

A palavra não é boa, mas descreve, pelo menos aproximadamente, a nova matriz onde se somam, dia a dia, a prioridade dada ao mercado, a livre concorrência (só falsamente europeia) e “os valores” societários, mas associais, das classes médias superiores urbanas. Essa é a linha “democrática” em curso, depois dos anos 1980s, na Internacional socialista.

Depois do início da ofensiva “democrática” na França, o perigo é que já não há esquerda política em nosso país, como há na Itália, laboratório de ponta da nova orientação do movimento social-democrata.

A criação de nossa Frente de Esquerda [Front de Gauche] fechou, precisamente, o avanço dessa via. Daí o empenho com que os solfériniens [membros do Partido Socialista, assim chamados porque têm sede na Rue de Solférino 10, Paris (NTs) [5]] se dedicam a combater por todos os meios (e basta isso; meus leitores estão bem avisados para sempre interpretar essa afirmação, conforme as circunstâncias da hora).

O que interessa é que, não, não se trata de “gueguerra” [orig. gue-guerre, “bate-boca”, “guerra de gagos”] nem de discussão fútil [fr. “bisbille”], como dizem “críticos” e comentaristas tolos ou rendidos. Na Frente de Esquerda não temos qualquer problema pessoal com ninguém. Pessoalmente, não sinto nem ciúmes nem frustração.

Sobre se a Frente de Esquerda votará ou não com o Partido Socialista (na votação do voto de confiança no pacto de responsabilidade que Hollande pediu ao empresariado francês, no discurso de final de ano. [6] E Mélenchon não quer saber de pacto com Hollande)

Mas há um pesado problema de orientação nessa discussão. Esse é um debate estratégico de fundo. A independência política da Frente de Esquerda em relação ao Partido Socialista é para nós questão fundacional, que ultrapassa em muito as tolices sobre “unificar a esquerda” e outras bobagens semelhantes que os socialistas franceses usam como boia salva-vidas.

Que alguns setores do Partido Comunista Francês (PCF) assumam sua orientação, e que aprovem o pacto, se acharem útil, com os socialistas, e desde o primeiro turno. É direito deles. Tem de ser respeitado como tal.

Mas que não tentem envolver outras forças que se integram no nosso movimento, em suas escolhas. Também temos direitos, que também têm de ser respeitados. Não queremos ser envolvidos em nenhuma aliança com o Partido Socialista. Não seremos envolvidos.

Ao contrário: é preciso trabalhar, como sigla sem compromisso com o PS, para formar uma oposição de esquerda; e votar contra, na votação do pacto de responsabilidade (que Hollande quer firmar com os empresários [6]) pode ser o ponto de partida. Essa oposição de esquerda não se pode resumir à Frente de Esquerda. Tampouco pode ser efeito de encontros e de “convergências” com setores mais bem nutridos do PS, cuja audácia política só vai até a guerra “midiática” inócua, sem consequências práticas.

Todos os que se diziam “mais úteis fora, que dentro” do PS, acreditassem ou não no que diziam, estão agora ante uma escolha: ou as palavras, ou os atos. Os que votaram conosco e quiseram dar uma chance governamental à nossa ecologia política saibam que chegaram à fronteira entre comprometer-se e renegar.
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Notas de rodapé

[1] 14/1/2013, François Hollande, conferência de imprensa. Vídeo a seguir:


[2] MELENCHON, Jean-Luc, En quête de gauche, Paris: Balland, 2007.


[4] Sobre isso, ver: Lei de Say


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[*] Jean-Luc Mélenchon (Tânger-Marrocos, 19 de agosto de 1951) é um político francês, atual líder da Frente de Esquerda da França (Front de Gauche). Foi educado no Lycée Pierre-Corneille em Rouen (Normandia). Seu pai trabalhava nos serviços postais, e sua mãe, de origem espanhola, era professora de escola primária. Cresceu no Marrocos, até que sua família se mudou para a França em 1962. Obteve licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franche-Comté, e tendo ganho as CAPES (qualificação de ensino profissional), tornou-professor antes de entrar para a política. Foi senador da França em 2 períodos (2004–2010) e (1986–1995) pelo Partido Socialista Francês e candidato pela Frente de Esquerda, derrotado nas eleições presidenciais de 2012.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

França: a batalha pelo significado dos resultados das eleições presidenciais/2012


11/5/2012, “Le Blog de Jean-Luc Mélenchon”
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jean-Luc Mélenchon
Apesar do esforço da mídia-empresa para fazer sumir do mundo o resultado da campanha da Frente de Esquerda, a análise dos resultados do 1º turno das eleições mostra que a Frente de Esquerda foi, dentre todos os concorrentes, o que obteve maior avanço nas presidenciais francesas de 2012. E que a estratégia de enfrentar diretamente Le Pen fez recuar fortemente os votos que a direita recebeu em muitas cidades e áreas populares.

As urnas desmentiram a “análise” da mídia-imprensa, segundo a qual a campanha pela presidência não teria mobilizado os franceses. A participação alcançou 80%, nível alto e relativamente homogêneo em todo o país. 

O que aconteceu foi que os eleitores rejeitaram a cobertura das eleições oferecida pela mídia-empresa e o tratamento ‘midiático’ das questões e das discussões.

Sarkozy e Hollande monopolizaram, durante meses, pelo menos 75% do tempo de transmissão por rádio e TV. Mesmo assim, somados, os votos para esses dois candidatos não chegaram, no 1º turno, a 43% do total. Maioria significativa dos eleitores, portanto, não escolheu os candidatos midiatizados que chegaram ao 2º turno.

Cerca de 80% dos eleitores não votaram, no 1º turno, no candidato que, eleito, terá todos os poderes da presidência. E esse, sim, é sintoma grave de o quanto a monarquia presidencial midiática da 5ª República pouco tem a ver com democracia.

VERDADE: Sarkozy perdeu eleitores 

Nicolas Sarkozy perdeu 1,8 milhão de eleitores, em relação a 2007. A análise dos resultados por região mostra que só a grande burguesia manteve-se fiel a Sarkozy. Nesse grupo, os votos mantiveram-se praticamente idênticos: 46,5% em Versailles hoje, e 47% em 2007; no VIIème. arrondissement  [1] de Paris, Sarkozy até seduziu novos eleitores: passou de 56 a 58%; e também em Neuilly, onde teve 72,64%. As grandes fortunas, pois, cerraram fileiras em torno do presidente dos ricos.

Nos bairros populares, foi onde a direita mais encolheu. Em Pas de Calais, Sarkozy perdeu 50 mil eleitores. Em Saint-Quentin dans l’Aisne, Sarkozy caiu, de 31 a 25% dos votos. E em Perpignan, região popular, ou em Meaux, caiu de 34% a 27%.

VERDADE: A Frente Nacional moveu-se mais para a direita

Marine Le Pen acrescentou 2,6 milhões de votos ao resultado que seu pai obteve em 2007. Com cerca de 18%, ela superou o recorde histórico da Frente Nacional em 2002, mas não ultrapassou a soma dos votos dados a seu pai e a Mégret (19%). 70% desse aumento é resultado do fracasso de Sarkozy. Os votos que Sarkozy perdeu na direita migraram diretamente para Marine Le Pen.

O que se viu portanto foi uma aceleração da direita rumo à extrema-direita, não algum avanço de Marine Le Pen sobre novos eleitores ou sobre o voto popular. Por exemplo, em Florange, comunidade em torno dos altos fornos da indústria Arcelor Mittal, Sarkozy perdeu 606 votos e Marine Le Pen ganhou 636. Mas, aí, a Frente de Esquerda ganhou também 654, votos que, bem claramente, foram conquistados contra a abstenção.

Os vasos comunicantes que ligam Le Pen e Sarkozy à direita são especialmente visíveis no norte e no leste da França, onde a Frente Nacional alcançou seus melhores resultados. Marine Le Pen obteve praticamente o mesmo número de votos que Nicolas em várias áreas: Picardie, Lorraine, Nord-Pas-de-Calais, mas também em Languedoc-Roussillon. Sem o trabalho da Frente de Esquerda, para conter o avanço da Frente Nacional, o cenário em que Sarkozy seria derrotado pela Frente Nacional não estaria muito distante. Le Pen de fato ultrapassou os 20% de votos em 11 regiões (uma, de cada duas) e em 43 departamentos.

VERDADE: A esquerda avançou graças à Frente de Esquerda

O total de votos de esquerda aumentou muito em relação à eleição presidencial anterior: passou, de 13,3 milhões (36,4%) para 15,7 milhões (43,7%). É o melhor resultado eleitoral da esquerda em eleições presidenciais na França, desde 1988. François Hollande é responsável por apenas uma pequena parte dessa dinâmica: teve apenas 770 mil votos a mais que Ségolène Royal. Em Evry, o número de votos dos socialistas estagnou; e em Lille o Partido Socialista perdeu eleitores entre as duas presidenciais.

A parte essencial da dinâmica de avanço da esquerda veio, visivelmente, da Frente de Esquerda, que trouxe 2/3 dos novos votos que a esquerda conquistou.

VERDADE: A Frente de Esquerda sai constituída e fortalecida das eleições


Com cerca de 4 milhões de votos (11,11%), a Frente de Esquerda ganhou 3 milhões de votos, a partir do lançamento de Jean-Luc Mélenchon como candidato às eleições europeias de 2009 (6,5%). A força assim constituída deve ser considerada sólida, sobretudo porque está distribuída por todo o país: em nenhum dos departamentos a Frente de Esquerda teve menos de 7% dos votos; teve 10% e mais em 70 departamentos; e mais de 13% dos votos em 20 departamentos.

Assim se define uma nova força política, que se afirmou em todo o território, em todos os casos com mais votos do que os registrados na implantação histórica das organizações que formam a Frente de Esquerda. Grandes cidades sem qualquer tradição comunista deram mais de 15% de votos ao candidato Jean-Luc Mélenchon da Frente de Esquerda: por exemplo, Grénoble, Toulouse, Lille ou Montpellier. E houve avanços espetaculares, em cidades nas quais Jean-Luc Mélenchon provocou fortes clivagens políticas. Foi o que aconteceu em Alsace, onde a Frente de Esquerda trabalhou a favor da abolição do Concordat, e aumentou o número de seus eleitores em mais de 300%.

Também em Marseille, o discurso claro e sem meias palavras de Jean-Luc Mélenchon sobre os benefícios da mestiçagem encontrou eco popular de massa e empurrou a Frente de Esquerda para cerca de 14% na cidade e para mais de 20% em vários bairros populares da periferia no norte da cidade. Lá também, foi a estratégia de combater diretamente a Frente Nacional que polarizou a discussão e levou a Frente de Esquerda a derrotar a Frente Nacional.

Fato é que, diferente do que disse a mídia-empresa, os muitos votos dados a Marine Le Pen não são votos que teriam sido dados a Jean-Luc Mélenchon. O processo é completamente diferente: nos pontos onde houve avanço da FN, também houve avanço da Frente de Esquerda. Foi o que se viu sobretudo em áreas operárias, que de modo algum foram ‘seduzidas’ por Marine Le Pen.

Por exemplo, em Petit-Couronne na Seine Maritime, onde o fechamento da refinaria Petroplus ameaça com o desemprego 900 trabalhadores – e cidade que foi visitada por todos os candidatos em campanha -, o resultado foi claro: Sarkozy perdeu 249 votos; Hollande ganhou 114; Le Pen, 436; e Mélenchon, 693 e um claro maior avanço dentre todos os candidatos.

Sinal também dos bons resultados da estratégia da Frente de Esquerda, que se dedicou a fazer recuar a direita, os dois departamentos nos quais Sarkozy teve seus piores resultados – Seine-Saint-Denis e Ariège – são os mesmos nos quais a Frente de Esquerda obteve os melhores resultados, com cerca de 17% e picos de 25% em numerosas cidades populares.

TAREFA: Desmentir o discurso da mídia-empresa sobre os resultados

Uma semana depois do 1º turno, os principais veículos apresentaram quadro extremamente deformado da realidade dos resultados. Aqui, um primeiro desmonte das principais mentiras publicadas (e repetidas). 

MENTIRA: Marine Le Pen fez 20% e alcançou seus objetivos

Marine Le Pen
A desinformação sobre os resultados da Frente Nacional começou logo às 20h da noite das eleições, quando vários veículos anunciaram, erradamente, que Marine alcançara e ultrapassara os 20% dos votos. De fato, chegou só aos 17,9%. Além de oferecer números errados (erro de mais de 11%), essa notícia mentirosa deforma completamente o significado do resultado da FN. Porque faz crer que Marine Le Pen teria sido bem-sucedida e teria conseguido o que se propôs conseguir. Não foi bem-sucedida e não conseguiu. A mesma mentira levou a uma comparação errada com o resultado da extrema direita em 2002. De fato, se tivesse recebido 20% dos votos, Marine Le Pen teria ultrapassado o resultado histórico da extrema direita em 2002.

Na verdade, com seus 17,9%, Marine Le Pen recebeu menos votos que seu pai e Bruno Mégreta em 2002. Quanto aos jornalistas que tomaram como prova de alta inteligência esquecer esse argumento, e puseram-se a repetir que ela teria tido 1 milhão de votos a mais, esqueceram também que, em comparação com 2002, havia agora novos 4,8 milhões de eleitores inscritos.

Estranhamente, todos os veículos da mídia-empresa repetiram incansavelmente que a Frente de Esquerda não conseguira ultrapassar Marine Le Pen, mas nenhum se lembrou de dizer que Marine Le Pen fracassou no esforço para alcançar as metas que ela mesma fixara. Não chegou aos 20%. Nem, como também dizia que aconteceria, chegou ao 2º turno. Tampouco os jornais e televisões noticiaram que Marine Le Pen também fracassou no projeto de impedir que Jean-Luc Mélenchon chegasse à metade dos votos que ela receberia. Tivemos mais que isso: foram 62%.

NÃO DEU NA TELEVISÃO: a Frente de Esquerda fez recuar a Frente Le Pen

Embora ainda não tenha tido sucesso no plano nacional, a Frente de Esquerda já começou por alcançar a meta a que se propôs, de aparecer à frente de Le Pen em várias grandes cidades e muitos bairros operários. Em Lille, a Frente Nacional caiu, do 3º lugar em 2002, para o 4º lugar em 2012. A Frente de Esquerda subiu muito: para 15% dos votos. Mesmo cenário em Montpellier: do 2º lugar em 2002, a Frente Nacional caiu para o 4º lugar em 2012. E também aí a Frente de Esquerda teve mais votos e apareceu à frente de Le Pen, tendo subido para o 3º lugar.
A degringolada da Frente Nacional foi ainda mais acentuada nas áreas populares das grandes cidades, como Vaulx-en-Velin, Aubervilliers, Stains ou Mantes la Jolie. Várias vezes vista no 1º lugar nessas regiões em 2002, em 2012 a Frente Nacional apareceu em 4º lugar, amplamente derrotada pela Frente de Esquerda. Em Vaulx-en-Velin, a Frente Nacional passou, da posição de mais votada em 2002, para o 4º lugar em 2012 (21/7% dos votos para o pai, em 2002, e 13,83% para a filha em 2012). E a Frente de Esquerda derrotou a Frente Nacional e chegou ao 2º lugar, com 18,42% dos votos. Em Grigny, na cidade da Grande Borne [aprox. “grande favela”] em Essonne, a Frente Nacional caiu de 17 para 11%; e a Frente de Esquerda apareceu com mais de 21% dos votos.

MENTIRA: Os trabalhadores votam Le Pen

Mais uma ficção criada e divulgada pela mídia-empresa: que os trabalhadores teriam votado Le Pen. Para criar essa ficção, os veículos acreditaram mais em pesquisas que nos números saídos das urnas. Foram “pesquisas de boca de urna”, feitas em amostras não significativas, com apenas algumas centenas de trabalhadores. Estimaram que os votos operários para Le Pen ficariam entre 29 e 35%, variando conforme a pesquisa. E os votos operários para Jean-Luc Mélenchon não ultrapassariam 11% (IPSOS) e 18% (IFOP)! Já a simples diferença entre as estimativas obrigaria a não confiar demais nas “pesquisas”. Mas, mesmo quando são mais confiáveis, as mesmas pesquisas significavam que 65-70% dos operários não votam com a Frente Nacional. E sem considerar a abstenção entre os operários, que os pesquisadores situam em torno de 30%.

Se se correlacionam os votos para a Frente Nacional e o universo dos operários inscritos para votar, 80% dos operários não votam com a Frente Nacional. Pois, nesse contexto, a mídia-empresa falava, já há um ano, de “verdadeiro plebiscito operário, para Marine Le Pen” (Journal du Dimanche, 24/4/2011) ou a apresentavam, generosos, como “candidata preferida dos trabalhadores” (Le Monde, mesma data [2]). Os jornais e televisões da mídia-empresa não reconheceram o erro e, pior, insistiram na mesma via de deformar a realidade, como em matéria de i-télé, no dia seguinte às eleições de 2012, que requentava a metáfora “Marine Le Pen vence o plebiscito operário”. [3] Outro resultado, que se lia evidentemente nas mesmas sondagens, jamais apareceu em manchetes e “análises” jornalísticas: a tendência de voto de comerciantes e chefes de empresas, afinal, votos quase tão importantes quanto o voto operário. Nenhum jornal, revista ou televisão da grande mídia-empresa jamais escreveu, sobre Marine Le Pen, que é “a candidata preferida dos patrões”.

Especialistas em repetir avaliações dos institutos de pesquisa e jamais interessados em analisar detalhadamente os resultados das urnas, os jornalistas da grande mídia-empresa fizeram silêncio absoluto sobre os avanços da Frente de Esquerda entre os operários. Isso, apesar do que se viu em Florange (Arcelor-Mittal), em Montbéliard (PSA Sochaux), em Saint-Nazaire (instalações da transnacional Alstom) ou em Douai; e em Lens, no Nord-Pas-de-Calais, a Frente de Esquerda conquistou mais votos que a Frente Nacional, entre 2007 e 2012.

Os resultados eleitorais em Montbéliard mostram bem a dinâmica operária da Frente de Esquerda.


Essa cidade, que é há muito tempo feudo eleitoral do coordenador geral da campanha de François Hollande, Pierre Moscovici, foi visitada por Jean-Luc Mélenchon dia 24 de janeiro, em apoio à luta dos trabalhadores da empresa PSA - Peugeot Citroën, no principal polo industrial da França.

MENTIRA: Não se viu avanço da esquerda

François Hollande

A falsa impressão de que não teria havido avanço na esquerda francesa resulta de todos os jornais e redes de televisão terem dado atenção exclusiva aos resultados da Frente Nacional. É resultado também de vários veículos da mídia da direita francesa terem apresentado os resultados de Nicolas Sarkozy como se fossem muito maiores do que o previsto. O próprio Sarkozy trabalhou também na direção desse tipo de propaganda de manipulação. Sarkozy disse no jornal republicano Est, dia 25/4: “Não houve qualquer arrancada da esquerda. O total da esquerda foi inferior aos números de outras eleições”. [4]

Nicolas Sarkozy
Os votos dizem exatamente o contrário. A direita perdeu 3,2 milhões de votos (Sarkozy perdeu, só ele, 1,7 milhão) e a esquerda ganhou 2,3 milhões, um dos melhores resultados de toda a 5ª República.

Ao subestimar o avanço da esquerda, a mídia-empresa fez calar também completamente a origem do avanço que houve. 2/3 dos votos que a esquerda conquistou foram votos para a Frente de Esquerda. Foi a primeira vez, em 30 anos, que dois candidatos do campo da esquerda alcançaram porcentagem de votos de dois dígitos. Os votos dados a Jean-Luc Mélenchon permitiram também deslocar o centro de gravidade de toda a esquerda, afinal, para aesquerda. A esquerda autônoma que havia no Partido Socialista sempre representou menos de 20% dos votos. Hoje, representa 30%. E afirma-se, com a Frente de Esquerda, como o único voto útil para fazer recuar a Frente Nacional e forçar adiante o avanço de toda a esquerda francesa.



Notas dos tradutores
[1] Uma das 20 áreas administrativas em que se divide a cidade de Paris. Sobre o VIIème. Arrondissement lê-se na Wikipedia: “É a região da cidade onde vivem os mais ricos, desde o século 17, quando se tornou novo endereço da mais rica nobreza da França”.
[3] Também, um ano depois, dentre outros, em: 23/4/2012, i>TÉLÉ, em: Marine Le Pen plébiscitée par les ouvriers?
[4] 25/4/2012, Est Républican, em: NICOLAS SARKOZY: JE SUIS TRÈS DÉTERMINÉ

sábado, 28 de abril de 2012

“Front de Gauche”, França: Reinventar a esquerda


Fim da hegemonia da social-democracia

24/4/2012, Yasmine Ryan, Al-Jazeera, Qatar – Entrevista de Raquel Garrido, Front de Gauche
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Raquel Garrido é uma antiga aliada de coalizão do líder Jean-Luc Mélenchon, Frente de Esquerda  [Foto Yasmine Ryan / Al Jazeera]
Paris, França – A candidatura de Jean-Luc Mélenchon à presidência na França, embora não tenha sido vitoriosa, deu à Front de Gauche [Frente de Esquerda], aliança de partidos de extrema esquerda, massiva visibilidade na França.

O candidato da Front de Gauche recebeu menos votos que os esperados, depois de pesquisas que indicavam que poderia ter 16-17% dos votos.

Apesar de a coalizão de esquerda tem obtido 11,1%, o que a pôs em 4º lugar entre dez candidatos, a extrema-esquerda reafirmou-se e voltou a ter espaço na discussão política no país.

Yasmine Ryan (YR), da rede Al Jazeera, entrevistou Raquel Garrido (RG), da Frente de Esquerda francesa, aliada há muito tempo de Mélenchon. Como Mélenchon, Garrido também deixou o Partido Socialista no final de 2008, para engajar-se no novo movimento.

Yasmine Ryan: Você deixou o Partido Socialista bem no início da crise financeira. A crise ajudou a disparar a decisão de separar-se dos Socialistas?

Raquel Garrido: Ajudou, é verdade, porque nós sabíamos que as coisas ficariam cada vez mais difíceis e que teríamos de enfrentar os ataques especulativos e a crise financeira com posição e argumentos mais duros do que os do Partido Socialista e dos social-democratas em geral na Europa.

Mas, de fato, já pensávamos há muito mais tempo em deixar o Partido Socialista. Começamos a questionar nossa estratégia, quando começamos a ver que, na América Latina, já havia governos de esquerda que estavam chegando ao poder e sem os partidos tradicionais da social-democracia.

Ao contrário: muitas daquelas experiências – na Argentina, Brasil, Venezuela, Equador, Bolívia – estavam sendo feitas por novos partidos. Novos instrumentos políticos organizaram-se fora da social-democracia e dos partidos da esquerda tradicional.

E empregavam métodos radicais, fosse na luta contra o FMI ou nos meios que usavam para remobilizar a sociedade, mediante assembleias constituintes.

A assembleia constituinte é invenção francesa, nascida da Revolução Francesa. Implica afirmar que a soberania não está no monarca, mas no próprio povo.

E de repente, no final dos anos 1990s, o método apareceu usado na América Latina e com considerável sucesso. Vimos aí um sinal de que o movimento social-democrata na Europa estava falhando e não daria o que se esperava que desse, depois do fracasso do estado comunista.

Aprendemos da América Latina a ideia de que estávamos ante dois fracassos: o fracasso do estado comunista e o fracasso da social-democracia europeia. E que a esquerda teria de reorganizar-se, criando novos instrumentos.

Em 2005, na França, tivemos um referendo sobre a Constituição Europeia e o correspondente tratado [pelo qual a França se integraria à União Europeia]. O Partido Socialista decidiu apoiar aquele tratado, mas com a oposição interna de nosso grupo, reunido em torno de Jean-Luc Mélenchon. Fizemos campanha contra o tratado com todos os grupos da esquerda do Partido Socialista, que tinha análise muito clara dos riscos que aquele tratado criava – dentre os quais a evidência de que se baseava em princípios ultra liberais de livre comércio, pró livre mercado, com redução dos serviços públicos.

Fizemos campanha a favor do “não”, naquele referendo, e vencemos. Aquela votação nos deu poder e legitimidade, e vimos que, se ousássemos expor o que realmente pensávamos, se deixássemos para trás as discussões infindáveis e a competição interna dentro do Partido Socialista, se levássemos nossa discussão para a sociedade, teríamos boa chance de conquistar mais votos.

Imediatamente depois fomos convidados a visitar a Alemanha, onde o ex-ministro da Economia, Oskar Lafontaine, deixara o Partido Social-Democrata alemão e criara um novo partido, Die Linke [A Esquerda], em aliança com o ex-Partido Comunista.

Fomos convidados ao congresso de fundação do novo partido, Jean-Luc Mélenchon, Pierre-François Grond e eu. E foi o que acabou de nos convencer que aquela seria a via para avançar, que não havia futuro em permanecer limitados naquelas briguinhas dentro do Partido Socialista.

Demoramos bom tempo para preparar corretamente nossa saída do Partido Socialista e, em 2007, o partido apresentou Ségolène Royal como candidata e ela não conseguiu derrotar Nicolas Sarkozy [naquela eleição à presidência]. Embora o Partido Socialista fosse forte, não se viu nenhuma outra força de esquerda que se opusesse à direita.

Afinal, em 2008, nos separamos dos Socialistas e imediatamente firmamos uma coalizão com o Partido Comunista Francês e outros, uma coalizão de esquerda. Nossa estratégia foi reunir imediatamente os demais partidos de esquerda. Não nos parecia admissível que a esquerda continuasse dividida em pequenos grupos: tinha de ser reunificada.

E é o que temos feito desde então. Conseguimos que todos os grupos apoiassem a candidatura de Jean-Luc Mélenchon à presidência.

YR: Em que medida os movimentos do mundo árabe serviram de inspiração para vocês? Vocês se veem retomando o socialismo?

RG: Sim. Mais do que retomando o socialismo, estamos retomando um veio cultural que há na França, uma identidade cultural básica subjacente e que se resume em “Liberdade, igualdade, fraternidade”.

Para nós, o mais interessante na Primavera Árabe é o fato que, se se considera a Tunísia, mesmo o Egito, o método para mudar o regime é devolver o poder à assembleia constituinte. O poder está voltando ao povo, deixando de ser simples rearranjo interno de grupos. A solução está no povo.

É preciso mudar os governos. Na Tunísia, o regime era uma cleptocracia. Para mudar isso, é preciso engajar o povo. Esse movimento foi nossa verdadeira fonte de inspiração. A América Latina também nos inspirou, mas está muito longe. Túnis está aqui, bem próxima.

A história do socialismo francês sempre foi fundir aquele passado cultural francês revolucionário, com a defesa dos direitos dos trabalhadores e dos sindicatos de trabalhadores.

Colhemos essa bandeira e lhe acrescentamos outros elementos. O principal deles foi a preocupação com questões ambientais.

Decidimos organizar uma verdadeira frente de oposição ao partido do Front Nacional [Frente Nacional, partido da extrema direita liderado hoje por Marine Le Pen, que alcançou a porcentagem recorde de 17,9% dos votos no primeiro turno da eleição presidencial]. Acho que todos concordam em que só nós abraçamos diretamente essa luta. Os resultados mostram que nossa análise sempre esteve correta: a Frente Nacional é o principal adversário a enfrentar na França. E não bastaria fazer oposição moral e repetir que o racismo é ruim. Teríamos de ter crítica mais precisa contra o programa deles.

E foi o que fizemos. Mostramos que, por mais que a Frente Nacional tente apresentar-se como partido que defende direitos dos trabalhadores, todo o programa deles desmente essa ideia. Se se examina o programa, tudo ali é contra a redistribuição de riqueza, do capital para o trabalho.

A Frente Nacional, no discurso, sempre se apresenta como aliada dos pobres e trabalhadores. Esse movimento é típico do fascismo e da extrema direita e sempre foi.  Mas fomos os únicos a analisar o programa deles.

O mesmo vale para o movimento de defesa dos direitos das mulheres. Marine Le Pen apresentou-se, no início da campanha, como mulher moderna. Jean-Luc Mélenchon foi o único que demonstrou que, se se examina o programa dela em relação ao aborto e outras questões que dizem respeito diretamente às mulheres, ela absolutamente não defendia direito algum.

Acho que aí está algo difícil de esquecer: que fomos os únicos a iniciar um processo para desmontar diretamente a Frente Nacional fascista.

YR: Muitos analistas, até a confirmação final dos resultados, sugeriam que a Frente de Esquerda e a Frente Nacional disputavam o voto dos trabalhadores. E as urnas mostram que os dois lados alcançaram número recorde de votos – a Frente de Esquerda saiu das urnas legitimada como novo partido; e a Frente Nacional cresceu muito, em relação a 2007.

RG: Você tem razão, em parte. De fato, não disputamos os mesmos votos. A Frente Nacional disputa votos com a direita, com a UMP [União do Movimento Popular, de Nicolas Sarkozy].

Se se somam os votos da direita e da extrema direita, são cerca de 60 milhões de votos. Esse total não se alterou em relação a eleições anteriores. Os votos apenas mudaram, de um para outro candidato do mesmo grupo. Em 2007, Sarkozy "roubou" votos da extrema direita; agora, a extrema direita está recuperando os mesmos votos.

E quanto mais a UMP de Sarkozy insiste nos mesmos temas também apresentados pela Frente Nacional de Le Pen – imigração, insegurança, o discurso antimuçulmanos, antiárabes e a comida halal [1]–, ele, de fato, favorece a campanha da Frente Nacional.

Quanto a nós, nossos três milhões de votos são, de fato, novos votos para a esquerda. De fato, a esquerda teve crescimento espetacular.

Trabalhamos o mais possível, trabalhamos bem, e os trabalhadores que em geral abstêm-se de votar, votaram conosco – ou, seja como for, não votaram na Frente Nacional. Na minha opinião, fizemos muito bem esse trabalho de contenção da direita e da extrema direita. O Partido Socialista não faz isso. Mesmo agora, praticamente não estão enfrentando a questão dos muitos votos da direita e extrema direita.

Depois do massacre de Toulouse, quando a direita passou a atacar diretamente os árabes e muçulmanos, só Jean-Luc Mélenchon protestou contra o discurso do preconceito e do racismo. Sarkozy imitou a Frente Nacional e o Partido Socialista manteve-se à margem da discussão.

YR: A estratégia de Sarkozy, pelo menos no último ano, parece ter sido tentar conquistar votos da extrema direita. Essa atitude tem criado muita discussão interna dentro da UMP, onde muitos que preferem manter-se mais ao centro do espectro político, sem se aproximar tanto da direita. Por que, na sua opinião, a votação da Frente Nacional aumentou tanto, apesar da estratégia de Sarkozy?

RG: É resultado direto de Sarkozy e da UMP sarkozista estarem convencidos de que seria preciso focar esses temas, para obter votos. O resultado mostrou que estavam errados.

O único resultado da estratégia de Sarkozy foi ajudar a Frente Nacional. E, se insistirem nessa estratégia na campanha para o segundo turno, o resultado será o mesmo.

Por outro lado, a estratégia da Frente Nacional é levar a UMP ao colapso, para reorganizarem a direita sob o comando, não de Sarkozy, mas de Le Pen. Querem, de fato, rachar a UMP.

Embora tenham uma retórica contra o sistema, a real estratégia deles está sempre dentro dos parâmetros da direita [como um todo] e de como a direita pode reorganizar-se depois de Sarkozy, caso Sarkozy seja derrotado dia 6 de maio.

YR: Você acha então que Le Pen não apoiará Sarkozy?

RG: Acho que não apoiará Sarkozy. Ela virá com um discurso em que, aparentemente, estaria negociando o apoio em torno de pontos – imigração e segurança – para forçar a UMP nessa direção e vencer essa batalha cultural do programa cultural da direita francesa.

Então, assistirá à derrota de Sarkozy e dirá: “OK, você tentou ao seu modo. Agora, é nossa vez de tentar ao meu modo.”

YR: Em termos da estratégia da Frente de Esquerda – que obteve o melhor resultado eleitoral da extrema esquerda desde 1981 –, vocês vão tentar negociar com Hollande?

RG: Não, não vamos negociar. Nossa estratégia é governar pelo nosso programa. Para isso, o ponto de partida, o primeiro passo, é derrotar Sarkozy. Por isso vamos apoiar o voto em Hollande contra Sarkozy sem negociar coisa alguma.

Depois de derrotar Sarkozy, a vida recomeçará. O debate já está nas ruas, sobre a legitimidade e a eficácia dos planos de austeridade; é discussão que já está posta e em andamento. Já nas próximas semanas, de fato, porque temos eleições parlamentares em junho, e apresentaremos candidatos em todas as regiões da França.

Com absoluta certeza, não temos qualquer interesse em participar de governo cujo objetivo será implementar planos de austeridade, como François Hollande planeja fazer.

YR: Não querem cargos no gabinete?

RG: Não. Milhões de pessoas depositaram sua confiança em nós, lá estiveram, nas ruas, nas praças. Algo realmente poderoso aconteceu na nossa campanha e seria muito frustrante se aquilo tudo acabasse numa negociação barata por cargos, com os social-democratas.

Nosso projeto é deslocar os social-democratas e assumir a liderança que tiveram até agora, em toda a Europa. É projeto demorado, mas é o que trabalharemos para fazer.


Nota dos tradutores
[1] Referência às práticas religiosas de muçulmanos (e judeus), de preparação de alimentos para consumo humano. Em março, durante a campanha, Sarkozy levantou a suspeita de que a população francesa estaria comendo alimentos preparados pelos rituais muçulmanos, sem os quais a os alimentos são considerados halal [proibido para o consumo]. Há matéria sobre isso em Guardian, 7/3/2012, em: “Nicolas Sarkozy: there are too many foreigners in France” (em inglês).