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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Grécia: Tsipras joga bem e bonito


9/6/2015, [*] Jean-Luc Mélenchon, Blog de Jean-Luc Mélenchon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
“Surpreende é que não estejais morto – com tantos medicamentos que vos fizeram tomar!”
(MOLIÈRE, O Doente Imaginário, ato III, cena III). [1]
 
Alexis Tsipras, atual PM da Grécia
Magnífica semana europeia. Tsipras joga bem e bonito. Os mata-mouros da União Europeia e os caras-de-pau da Troika acabaram presos na própria armadilha. Lá estão eles outra vez, à vista de todos, a triturar a patadas os absurdos tratados europeus e reunidos, alguns deles, com o Banco Central Europeu! Mas não há quem não saiba que essa concertação é formalmente proibida pelos tratados. Caíram na rede. A crise que eles mesmos provocaram com sua intransigência já ameaça explodir na cara deles!
De um lado recusam-se a afrouxar suas exigências bárbaras. Porque é isso o que são. Aumentar em 23% o imposto sobre valor agregado num país onde o consumo está em queda vertiginosa, de pobreza em massa, é exigência bárbara. Aumentar a idade mínima para a aposentadoria e o acesso às pensões complementares, num país onde praticamente todos os aposentados são arrimos de família, é exigência bárbara. E por aí vai.
São essas as violências bárbaras que a “Europa protetora” quer infligir aos gregos, além de todos os sofrimentos pelos quais estão passando! Mas Tsipras recusa-se a ceder. E então? De que lado está a dissuasão nuclear? Ah! Pois é! Está do lado de Tsipras, é claro.
Porque a União Europeia não tem os meios necessários para ejetar a Grécia para fora da Eurozona!
A bancarrota que resultaria dessa expulsão, obrigaria a acionar imediatamente os instrumentos do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE).
O truque foi votado durante a presidencial de 2012 pelo PS e pela UMP no auge do debate social sobre a carne hallal (agradecimentos ao canal France 2, que realmente conseguiu operar o apagamento magistral de tudo que mais urgentemente interessava discutir!).
De qualquer modo, seria ruinoso para quem, façam-me o favor? Sim, seria ruinoso para quem? É de morrer de rir. E, de quebra, a moeda europeia seria totalmente abalada, a ponto de ameaçar o equilíbrio de toda a Eurozona. E a isso se acrescentaria uma gigantesca onda de choque sobre o mercado mundial. Quem ficaria arruinado? Claro que não seria a Grécia: a Grécia já está arruinada!
Aqui se comprova a hipótese que não me canso de relembrar a todos: na relação de força entre credor e devedor, a fraqueza do credor aumenta conforme aumente o montante do que lhe seja devido. Obama está começando a dar-se conta disso.
Barack Obama e Christine Lagarde
Obama pede aos europeus que não ajam levianamente, que não aumentem a volatilidade do mercado financeiro. É urgente, caro Barack, passar suas ordens ao FMI e a Mme. Lagarde. Voltarei a esse assunto.
Por enquanto, como já disse aqui, ao final, o povo grego continua mobilizado, porque seu governo não o traiu. Ao contrário, o campo adversário fragmenta-se e cada grupo tem ideias próprias sobre o que fazer. É preciso incorporar a evidência de que os durões nunca formaram frente homogênea, nem podem formá-la, porque os interesses particulares são diversos e divergentes, e ali não há avaliações, sem controvérsias entre eles mesmos. Se eles mesmos cedessem, um pouco cada um, a linha dura poderia facilmente se impor. Quando tudo funcionava, todos estavam de acordo. Mas depois, quando a coisa deixou de funcionar... passou a ser cada um por si, e abriu-se a discussão lá entre eles mesmos.
O problema hoje é inteiramente político. Exclusivamente político. No plano técnico não há qualquer dificuldade para cancelar a dívida grega por meios contábeis legais. Por exemplo: distribuir a dívida grega por 100 anos! A 1% de inflação por ano, é pagável. Em relação às datas de pagamento, a coisa pode ser ainda mais facilitada. Durante esse tempo, os títulos permanecem inscritos no orçamento com o valor de face, e tudo permanece em ordem, porque ninguém perde coisa alguma. Sobretudo, porque 80% da dívida grega estaria em mãos de organismos públicos. É apenas um exemplo, só isso.
Mas ajuda a mostrar que a questão não é, de modo algum, técnica. A questão é política. Se se faz o que se faz com a Grécia, por que não se faria com outros? Dito de outro modo: todo o sistema do ordoliberalismo está afundando. Os tratados orçamentários viraram letra morta, o bla-bla-blá austeritário cai de podre. E por aí vai.
A meu ver, o mais impressionante é a crescente incoerência no campo dos credores. O FMI conduz o baile dos abutres. Não esqueçamos que foi Mme. Merkel quem pediu e obteve que o FMI fosse integrado à Troika onde, normalmente, nada tem a fazer. Como parte da confusão crescente, o FMI está em processo de superdistensão. Os últimos dias confirmaram o que escrevi na nota anterior, sobre o papel do FMI no caso grego. Com a Alemanha de Mme Merkel, o FMI de Christine Lagarde é o principal obstáculo a um honesto acordo entre o governo grego e seus credores. Agora que os credores terminaram por entrar num acordo entre eles mesmos, na 3ª-feira passada (9/6/2015), o FMI ameaçou unilateralmente não assumir sua parte de responsabilidade no caso de acordo com o governo grego. Ameaçou não depositar sua parte da ajuda! Mais um endurecimento na intransigência geral.
Primeira intransigência: recusarem-se a renegociar a dívida grega. Leitores desse blog chamaram-me a atenção para o fato de que o FMI se disse, há alguns meses, favorável a uma reestruturação da dívida grega. É verdade. Mas isso não deve enganar ninguém. Primeiro, porque o FMI como os outros credores, recusa-se categoricamente a abrir a discussão sobre a restruturação, ante o fracasso do programa atual. É promessa só para quem acredite em FMI. Nesse domínio, a experiência é muito instrutiva. Os credores já fizeram promessas desse tipo, que não cumpriram. Juraram, por exemplo que se a Grécia equilibrasse seu orçamento a ponto de extrair excedente antes do pagamento anual da dívida (chama-se “excedente primário”), eles aceitariam renegociá-la. O Ministro de direita, Sâmaras, fez o que o mandaram fazer. Nem por isso houve qualquer renegociação de dívida alguma.
Antonis Samaras, ex-Primeiro Ministro da Grécia
Em segundo lugar, o FMI evocou muito vagamente a possibilidade de uma extensão na duração da dívida. Mas nunca, é claro, falou de anulação, é claro. Mas tampouco falou, sobretudo, da única medida reformista razoável: uma indexação dos desembolsos sobre o crescimento, como exige o governo grego.
A provocação, nessa história, é que o FMI considera reestruturar a dívida do Banco Central Europeu e dos estados europeus! Mas não a dívida que de que o próprio FMI é proprietário! Cada um por si! Faça o que eu digo, não faça o que eu faço! Ora, desde a eleição, em janeiro passado, a esmagadora maioria dos pagamentos que o governo Tsipras fez foram pagamentos ao FMI. Quase 3 bilhões de euros. E esse mês de junho a Grécia tem a pagar mais 1,6 bilhões de euros. Ora, a Grécia não pode pagar essa quantia imensa de dinheiro. Não bastará renegociar o próximos pagamentos ao Banco Central Europeu: é preciso que o FMI aceite a reestruturação imediata da dívida grega. Pois o mais recente episódio indica o contrário. O FMI acabou por aceitar que a Grécia reagrupasse seus quatro pagamentos devidos em junho em um só pagamento, no final do mês. Seja como for, já é uma micro-reestruturação. Mas Mme. Lagarde fingiu que não era com ela: foi posta diante de um fato consumado, pela criatividade do governo grego.
A verdade é que Tsipras e seus ministros encontraram e exploraram uma frase do regulamento do FMI que prevê precisamente essa ação. Mas li que Mme. Lagarde só soube do que os gregos haviam solicitado, e que a concessão, naqueles termos era automática, uns poucos minutos antes de os dirigentes do FMI serem obrigados a agir. A página boursorama.fr noticiou:
Na manhã da 5ª-feira (4/6/2015), a diretora geral do FMI Christine Lagarde afirmava não ser “informada desse tipo de coisa” (...) apenas alguns minutos depois de o Fundo já ter recebido o pedido dos gregos. O FMI foi obrigado a informar que aquele tipo de requerimento não precisa ser aprovado. A verdade é que o estatuto do FMI diz bem claramente que o país requerente só é obrigado a “informar” ao FMI.
A segunda intransigência do FMI tem a ver com exigir mais uma redução nas aposentadorias e pensões. Mme. Lagarde só faz repetir que seria “indispensável” uma nova reforma nas aposentadorias, incluindo reduções nas pensões e mais um aumento na idade mínima para aposentadoria. (...)
Pelo canal France 2, o jornalista François Beaudonnet chegou a dizer no noticiário das 20h do dia 3/6/2015, que:
(...) o FMI é intratável. E continuou: Há relatos de que a cada abertura de nova reunião com a Grécia, o FMI diz: “Então, sobre aquela reforma das aposentadoria...” – como provocação.
Diz-se mesmo que o presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Junker estaria disposto a desistir da redução nas aposentadorias. Mas o FMI impõe a linha mais dura, impedindo qualquer discussão construtiva. Le Monde do dia 4/6/2015, escreveu que:
(...) a instituição internacional contribuiu para bloquear as negociações de uma lista de reformas, sempre contra empréstimos suplementares a Atenas. Ainda no fim-de-semana passado, exigia uma reforma das aposentadorias, com novas reduções no nível das pensões.
O quê?! As negociações foram bloqueadas pelo FMI?! Nesse caso... por que acusar incessantemente o governo grego?!
Angela Merkel, Chanceler da Alemanha
Tsipras e os gregos não podem aceitar qualquer nova redução nas aposentadorias. O jornalista de Latribune.fr, Romaric Godin, demonstrou muito bem por quê, num de seus artigos recentes. Há razões econômicas e sociais evidentemente, e razões políticas. Os aposentados gregos já foram sacrificados em sucessivas reduções. Agora, com o desemprego massivo, sobretudo entre os jovens, os aposentados tornaram-se apoio financeiro indispensável à vida diária de grande parte das famílias gregas. Cortar nas aposentadorias seria agredir novamente toda a sociedade grega!
Politicamente, Tsipras sempre combateu as medidas de arrocho em geral e, especificamente, as reduções nas aposentadorias. Até o governo anterior, de direita, recusou cortar aposentadorias. O que o FMI exige hoje é o que não conseguiu obter do governo da direita! Aceitar esses cortes seria suicídio econômico para a Grécia e retrocesso suicidário, para Tsipras.
O FMI sabe disso tudo. Mas insiste. Por sadismo? Por dogmatismo ideológico? Ou por pânico? De fato, o FMI tem todos os motivos para se manter discreto e de cabeça baixa. A Grécia seria mais um novo fiasco para esses doutores Diafoirus do FMI [1].
E por acaso o remédio do FMI, a “austeridade” (mas de fato é ARROCHO), pôs em pé o doente? Era a fórmula de Strauss-Kahn! E só fez agravar a crise, explodir o desemprego, a miséria e também a dívida! Fracasso total! Os próprios economistas do FMI tiveram de reconhecer, desconsolados, o fracasso. Tiveram de confessar que subestimaram o impacto negativo das medidas de “austeridade” (é ARROCHO) sobre a economia.
Vale dizer que ninguém precisaria de olhos de lince para ver. A história dos anos 1930 na Europa, e mais recentemente na América Latina, demonstram contundentemente a nulidades dessas teorias econômicas. Principalmente a América Latina. O efeito dessas imbecilidades “austeras” já estava escrito desde o começo.
Mas o FMI não recua. Assume seu papel de guardião das exigências da finança e dos defensores do ordoliberalismo. Esse papel foi confiado ao FMI por Angela Merkel, no início da crise grega. Em 2010, foi Merkel que impôs que outros países europeus recorressem ao FMI. Consta que Nicolas Sarkozy, então Presidente da França, e Jean-Claude Junker, então Presidente do Eurogrupo, eram contra. Mas acabaram por ceder à Merkel.
Por que Merkel tanto precisava da presença do FMI? Para começar, com certeza para integrar os EUA à discussão. Porque dentro do FMI, os EUA – e só os EUA – têm poder de veto. E ninguém precisa de novas evidências para saber que o alinhamento de Merkel aos EUA é total. Os escândalos de espionagem da França, por serviços secretos alemães, a serviço dos serviços de inteligência dos EUA talvez tenham desviado a atenção de alguns poucos olhos.
O bloqueio em curso é, de certo modo, a aplicação estendida para um pouco além, do ordoliberalismo alemão: povos e políticas não se metem em questões de economia. O FMI, pelo próprio estatuto, escapa a qualquer influência do voto popular democrático. O FMI, pois, é o aliado perfeito. Foi o que Le Monde escreveu claramente:
O FMI é regularmente criticado em Bruxelas por sua abordagem julgada insuficientemente política e pouco adaptada à realidade da Grécia. A Comissão Europeia também não engoliu, mais recentemente, o fato de que o FMI, ao final de 2014, já contribuíra para emperrar as negociações em curso entre [o então primeiro-ministro, de direita] Samaras e os credores do país, com vistas ao segundo plano de ajuda à Grécia. De fato, se algum acordo tivesse sido construído naquele momento, o psicodrama que vivemos ao longo de toda primavera não teria acontecido.
Em 2010, o arrogante Ministro alemão das Finanças Wolfgang Schäuble era contra, parece, a intrusão do FMI. Preferia que o governo alemão, só ele, tivesse a última palavra. Mas a experiência o fez mudar de ideia. Recentemente, elogiou o golpe de mestre de sua patroa, Merkel. Aconteceu em sua recente e espantosa entrevista a Echos. Disse ele:
Minha opinião era que os europeus podiam acertar-se entre eles. A Chanceler tinha outra opinião. No final, os fatos deram razão a ela.
Wolfgang Schäuble, Ministro das Finanças da Alemanha
O FMI atendeu as esperanças até desse ultradireitista! Dado que não há acordo sobre o fim do programa, não se discute a reestruturação da dívida grega. Nessa etapa, o FMI foi o melhor aliado de Schäuble. Não resta dúvida de que, se se tratasse de discutir uma reestruturação da dívida grega como é indispensável que aconteça, Schäuble voltaria à sua posição anterior. Então, ele preparou o terreno, sabendo que Christine Lagarde, quando foi Ministra da França, também era contra a intervenção do FMI. Caso o FMI abandone a linha dura de Berlim... a Alemanha de Merkel e Schäuble retomam a direção dos acontecimentos.
NOTÍCIA DE ATUALIZAÇÃO: 11/6/2015, “FMI deixa a mesa de discussão da dívida grega”, Latribune.fr, Romaric Godin
Alguém pode entender que dou demasiada importância a fatos simples. Pois ouçam essa.
Depois de muitos meses, por iniciativa da Argentina, foi constituída uma comissão técnica da ONU para preparar propostas com vistas a uma lei internacional sobre “falências legítimas” de estados. Finalmente! Mas... Quem se opõe? Onze países da União Europeia, entre os quais França e Alemanha! Ah, como são valentes, bravos homens e mulheres! E não é só isso.
A comissão em questão já começou a discutir oficialmente a atitude de desprezo da UE, que se mantém à distância de toda e qualquer discussão ou concertação sobre a questão das dívidas soberanas na Europa! Adiante, a mesma UE gargarejará sobre a globalização infelizmente “inescapável” e bla-bla-blá para enganar os ingênuos!
A globalização nada tem de novidade na história humana! A novidade é a globalização financeira e seus cães de guarda, que impedem que eleitores e política aproximem-se deles, para pôr ordem naquele galinheiro!
Concluo com um ponto de memória ativa e política. Mme. Lagarde mostrou-se bem menos exigente com os bancos, que com a Grécia. Em 2010, quando era Ministra das Finanças da França, ela não hesitou ao desbloquear dezenas de bilhões de euros de fundos públicos para reinflar bancos atingidos pela crise das hipotecas podres. Mme. Lagarde também se mostrou muito fácil e conciliadora com os bancos quando, em 2010 e 2011, os estados europeus, o FMI e o Banco Central Europeu recompraram títulos de dívidas públicas gregas.
Toda a crise de hoje advém daí. Se a Grécia parar de pagar o que deve, aqueles estados, o FMI e o Banco Central Europeu perdem seus créditos. Mas não acontecerá por culpa de Tsipras. Acontecerá por culpa de Lagarde, Merkel, Sarkozy e os demais que decidiram socializar as dívidas privadas dos bancos, em vez de deixar que os acionistas privados arcassem com o custo de “riscos” que eles mesmos assumiram.
Se a Grécia fosse um BANCO... Ela já estaria SALVA
Essa é a lógica sobre a qual o Partido de Esquerda [orig. Parti de Gauche] construiu a nova campanha de cartazes que está na rua, com o slogan “Se a Grécia fosse um banco, já estaria salva!”. Mme. Lagarde teria dado à Grécia toda a sua atenção, desde o primeiro instante. Porque ela nada fez, a conta é descomunal.
O que nós, os “sonhadores”, os “irresponsáveis” sempre anunciamos que aconteceria aconteceu aí, diante dos olhos de todos. Até do ponto de vista capitalistas, as soluções daquela gente são absurdas e temerárias. Isso tudo acabará como já é evidente: ninguém pagará a dívida!
Como acertar essa situação inescapável: pela crise aberta, ou por soluções que propomos desde o começo? Nesse ponto da situação, poderíamos ganhar em todos os quadrantes. Quem chorará a morte da União Europeia que há hoje, se ela for para o inferno? Não há quem faça beber o burro, se o burro não está com sede.
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Nota dos tradutores
[1] Epígrafe acrescentada pelos tradutores, por inspiração de Mélenchon, que adiante fala do “novo fiasco para os doutores Diafoirus (um dos médicos dessa peça de Molière) do FMI”. Doutor Diafoirus é um dos tresloucados médicos de O doente imaginário de Molière.
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[*] Jean-Luc Mélenchon − nasceu em 19 de agosto de 1951 (63 anos) − é um político francês, atual líder da Frente de Esquerda da França, Front de Gauche, e co-presidente do Partido de Esquerda. Foi senador na França com mandatos nos períodos de 1986–1995 e 2004–2010.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Jean-Luc Mélenchon: Liberalismo e petróleo terrorista

15/1/2015, [*] Jean-Luc MélenchonBlog
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jean-Luc Mélenchon
Dia 30 de setembro do ano passado (2014), questionei a Comissão Europeia sobre o petróleo hoje utilizado na Europa – fornecido pelo Estado Islâmico no Iraque e Levante, EIIL (ing.ISIL). Pedi à CE que se manifestasse sobre essas denúncias, se seriam verdadeiras, que falasse com clareza para pôr fim aos boatos.

Agora, afinal, quatro meses depois da pergunta, chegou a resposta embaraçada da CE, pela voz da vice-presidenta, Mme. Mogherini.

Para começar, ela lembra que é ilegal financiar organizações terroristas:

A União Europeia mantém em efeito as sanções adotadas pela ONU contra a:

(...) Al-Qaeda, quando se tomou posição unificada no Conselho de Segurança (2002/402/PESC e regulamentação n. 881/2002). Nos termos do que determinam esses instrumentos, acolhidas as modificações, é ilegal que qualquer pessoa ou entidade da União Europeia ponha fundos ou recursos econômicos à disposição do ISIL.

Federica Mogherini
Na sequência, ela confessa que:

(...) o tráfico de petróleo pelo ISIL e, na sequência, a compra não intencional por estados membros da União Europeia é devida ao fato de que o petróleo bruto fornecido às refinarias é proveniente de diferentes zonas, algumas das quais podem ser controladas pelo ISIL. Há uma vasta rede de intermediários e empresas privadas por todo o Iraque que compram e revendem petróleo bruto contrabandeado (ou não). Não há como determinar a precisa proveniência do petróleo que é comprado, que é vendido misturado.

Assim, então, a Comissão Europeia reconhece que, graças a golpes e mais golpes de liberalismo e de tanto que se recusa a implantar leis que protejam o estado, nem a Comissão Europeia sabe exatamente de onde vem o petróleo utilizado na Europa.

[*] Jean-Luc Mélenchon − nasceu em 19 de agosto de 1951 (63 anos) − é um político francês, atual líder da Frente de Esquerda da França, Front de Gauche, e co-presidente do Partido de Esquerda. Foi senador na França com mandatos nos períodos de 1986–1995 e 2004–2010.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Hollande está nu

16/1/2013, [*] Jean-Luc Mélenchon, Le Blog de Mélenchon
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

François Hollande
Não se deve subestimar a amplidão da virada que François Hollande operou em sua conferência de imprensa. [1] Continua a ser, sim, o mesmo homem que descrevi em meu livro En quête de gauche, [2] o percurso ideológico desde 1983. Desconhecido àquela época, seus primeiros tribunos na imprensa o davam como alinhado dessa corrente “democrata”, nascida nos EUA, que, na sequência, escalou a escadaria liberal.

De Tony Blair a Gerhard Schröder, o que se viu foi um descaminho, em toda a social-democracia europeia, do qual Hollande foi instrumento na França. Esse descaminho avançou até a total decadência, com a capitulação de Papandréou na Grécia ante o assalto da finança, mas também com os governos de grande coalizão de repetição na Alemanha e em vários países europeus. Sim: na conferência de imprensa anterior, em novembro de 2012, já se podia ver a paisagem mental da conversão pública de Hollande à “política da oferta”, característica do pensamento econômico da direita. Mas os jornalistas têm razão, quando dizem que, agora, Hollande escancarou tudo.

Foi a virada à direita mais violenta de um governo suposto de esquerda, desde Guy Molet, eleito para fazer a paz na Argélia, e que mandou para lá um contingente de guerra. Hollande foi eleito para virar a página de Sarkozy e fazer guerra à grande finança. Disso, já não se vê nem traços. Ao contrário. Um jornalista forçou-o a confessar. “Que diferença há entre sua política e a política de Sarkozy?” Da própria boca de Hollande, a diferença seria que Hollande faria o que Sarkozy fora incapaz de fazer em matéria de política econômica de direita! Dito de outro modo, visto cá de nossas galerias, Hollande se orgulha de ser pior que Nicolas Sarkozy.

Nos números, também é pura verdade. Fillon cortou 15 bilhões de gastos públicos. Hollande cortou três vezes mais. Quanto à “guerra à finança”... é a caricatura do dito de Charles Pasqua, segundo o qual “promessas só conquistam quem acredite nelas”. Não é surpresa para nós, militantes políticos, cidadãos esclarecidos. No fundo, sempre soubemos no que acreditar.

Mas às vezes, esses nossos saberes nos enganam: supomos que todos sabem o que nós sabemos e subestimamos os efeitos da desmoralização coletiva dos que descobrem a realidade, sobretudo quando não há nenhum desejo de conhecer a realidade. E subestimamos o quanto de autoridade podem tem personagens como François Hollande, simples efeito do cargo, sobre o espírito público. Quando Hollande recita, repetindo, o catecismo liberal sem nada demonstrar, usando, como se fossem provas, o que não passa de refrãos ideológicos aprendidos de nossos adversários, ele conforta a ideologia dominante e todos os preconceitos de nossos tempos de obscurantismo. Por isso, em seguida, nós é que temos de pagar, e pagar muito caro. Esse movimento provoca simultaneamente doses iguais de resignação e de conformismo.


A pressão midiática e as circunstâncias forçaram que o motoqueiro mascarado aparecesse sem disfarces. Acredito que tanto no Partido Socialista como na nossa esquerda, há muitos que teriam preferido que a ambiguidade continuasse, para facilitar os pequenos “negócios”. Mas a pressão de circunstâncias privadas impôs que Hollande adotasse postura clara, para assim tentar desmentir sua reputação de duplicidade doentia, permanente e universal. Os jornalistas o apanharam assado “ao ponto”.

Assim, conseguiram total clareza, pela qual, tenho certeza, teriam de esperar muito, sem nada obter desse falastrão, interessado em continuar a enganar todo mundo. Ah, sim, é verdade: no fundo, nada mudou. Mas nem por isso tudo continua exatamente como antes.

Houve um salto qualitativo: o novo pacto econômico-blá-blá-blá dá mais 15 bilhões ao MEDEF [Mouvement des Entreprises de France / Movimento das Empresas Francesas, a maior união patronal francesa]. No total, os dois últimos planos blá-blá-blá injetaram 35 bilhões de dinheiro novo no MEDEF, arrancados integralmente do consumo da população! Isso, quanto aos fatos & números.

Ao assumir publicamente sua virada neoliberal, François Hollande atravessa também um limite simbólico. Na vida pública, sobretudo quando fala o monarca republicano, as palavras são fronteiras, tanto quanto são passarelas sobre o real. A conferência de imprensa de Hollande pôs ponto final à “especificidade” do Partido Socialista dentro da social-democracia mundial e europeia. E não foi só isso.

O golpe de força ideológico vai virar golpe de força político. Ao votar um voto de confiança [3] no “pacto de solidariedade” que Hollande propôs aos empresários franceses, a “esquerda do Partido Socialista” o os Verdes validarão a brutal fórmula produtivista e antissocial que resume tudo, no plano da filosofia política: “a oferta cria a demanda”. [4] Hollande vai fazer o Parlamento engolir mais e mais presentes para o patronato, mais e mais Acordos Nacionais Interprofissionais [Accord National Interprofessionnel, ANI], mais e mais 66 anos para aposentadoria, mais e mais... mais e mais... Conheço bem essa goela de jiboia e a arte deles para tudo engolir, ao mesmo tempo em que falam mal do cardápio, mas... comem, assim mesmo!

Toda a esquerda representada no Parlamento está encurralada contra o muro. Assim se verá a sinceridade desses flautistas! A doutrina é essa. Mas é preciso considerar um detalhe.

Hollande aceita o rótulo de “social-democrata”.

É uma usurpação a mais. Há, é claro, razões de fundo que têm a ver com a paisagem e a história da esquerda francesa. A social-democracia é um modo de organização da esquerda, na qual o partido e o sindicato aparecem intimamente ligados. São ligados não só na ação, mas pelas estruturas e pela história. E tanto faz se o partido criou o sindicato, ou o sindicato criou o partido. É exatamente assim em todos os países do norte da Europa e na Inglaterra. Mas nada disso jamais existiu na França. Em minha opinião, melhor que assim seja. Mas... assim sendo, o que seria, afinal, essa social-democracia à moda Hollande na qual o sindicato e o partido dão-se as costas? A resposta é simples: a social-democracia de Hollande não existe.

Por pior que seja, a social-democracia é um modo pelo qual os avanços incorporam as relações de força entre as forças sociais, e incorporam a negociação, para chegar a acordos e compromissos. Mas no “sistema” Hollande não se vê nem traço de incorporação de relações de força, de negociação, nem de qualquer acordo e compromisso típicos da social-democracia que se conhecia. Hollande dá presentes “secos” aos acionistas. Nenhuma contrapartida, de tão calculados e fechados e firmes que são os presentes; nada se exige do grande patronato, em troca.

Onde está o espaço de “negociação”? Trata-se de concessão já previamente decidida, unilateral e sem condições, como se viu no caso dos Acordos Nacionais Interprofissionais, da aposentadoria aos 66 anos e hoje? Onde está a relação de forças, se o governo define as concessões, antes de começar a discussão? Não há.

A ideia social-democrata é “partilhar os frutos do crescimento”. Não passa de lamentável ilusão produtivista, sim, que supõe um mundo em crescimento permanente, sem limite, num mundo limitado. Mas, pelo menos, aspira-se a partilhar alguma riqueza. Na França de Hollande, não, não se partilha coisa alguma. São 15 milhões dados de um lado, e, do outro lado, no melhor dos casos, promessas de “criação de empregos”.

Ainda que essas promessas se convertessem em fatos, e disso não se vê nem o menor sinal, que tipo de troca é essa? Entrega-se a riqueza a alguns, em troca de os outros terem o “direito” de produzir cada vez mais riquezas que serão repartidas sempre com a mesma desigualdade! E qual o conteúdo desses empregos “garantidos como contrapartida”? São empregos socialmente degradados, de baixo salário, para possibilitar que o governo pague os 15 bilhões “de presente”. Empregos com menor poder de compra, porque a “economia” de gasto público é feita à custa de mais despesas para as famílias.

E eis aí Hollande, fingindo indignar-se contra os que veem em suas políticas, o prosseguimento dos presentes à grande finança! Só ele não vê que praticamente toda essa catarata de dinheiro dado ao grande patronato não se converte em investimento: praticamente todo esse dinheiro é repartido lá mesmo, como dividendos. Tudo isso está comprovado nos números.

O que Hollande faz é social-liberalismo.

A palavra não é boa, mas descreve, pelo menos aproximadamente, a nova matriz onde se somam, dia a dia, a prioridade dada ao mercado, a livre concorrência (só falsamente europeia) e “os valores” societários, mas associais, das classes médias superiores urbanas. Essa é a linha “democrática” em curso, depois dos anos 1980s, na Internacional socialista.

Depois do início da ofensiva “democrática” na França, o perigo é que já não há esquerda política em nosso país, como há na Itália, laboratório de ponta da nova orientação do movimento social-democrata.

A criação de nossa Frente de Esquerda [Front de Gauche] fechou, precisamente, o avanço dessa via. Daí o empenho com que os solfériniens [membros do Partido Socialista, assim chamados porque têm sede na Rue de Solférino 10, Paris (NTs) [5]] se dedicam a combater por todos os meios (e basta isso; meus leitores estão bem avisados para sempre interpretar essa afirmação, conforme as circunstâncias da hora).

O que interessa é que, não, não se trata de “gueguerra” [orig. gue-guerre, “bate-boca”, “guerra de gagos”] nem de discussão fútil [fr. “bisbille”], como dizem “críticos” e comentaristas tolos ou rendidos. Na Frente de Esquerda não temos qualquer problema pessoal com ninguém. Pessoalmente, não sinto nem ciúmes nem frustração.

Sobre se a Frente de Esquerda votará ou não com o Partido Socialista (na votação do voto de confiança no pacto de responsabilidade que Hollande pediu ao empresariado francês, no discurso de final de ano. [6] E Mélenchon não quer saber de pacto com Hollande)

Mas há um pesado problema de orientação nessa discussão. Esse é um debate estratégico de fundo. A independência política da Frente de Esquerda em relação ao Partido Socialista é para nós questão fundacional, que ultrapassa em muito as tolices sobre “unificar a esquerda” e outras bobagens semelhantes que os socialistas franceses usam como boia salva-vidas.

Que alguns setores do Partido Comunista Francês (PCF) assumam sua orientação, e que aprovem o pacto, se acharem útil, com os socialistas, e desde o primeiro turno. É direito deles. Tem de ser respeitado como tal.

Mas que não tentem envolver outras forças que se integram no nosso movimento, em suas escolhas. Também temos direitos, que também têm de ser respeitados. Não queremos ser envolvidos em nenhuma aliança com o Partido Socialista. Não seremos envolvidos.

Ao contrário: é preciso trabalhar, como sigla sem compromisso com o PS, para formar uma oposição de esquerda; e votar contra, na votação do pacto de responsabilidade (que Hollande quer firmar com os empresários [6]) pode ser o ponto de partida. Essa oposição de esquerda não se pode resumir à Frente de Esquerda. Tampouco pode ser efeito de encontros e de “convergências” com setores mais bem nutridos do PS, cuja audácia política só vai até a guerra “midiática” inócua, sem consequências práticas.

Todos os que se diziam “mais úteis fora, que dentro” do PS, acreditassem ou não no que diziam, estão agora ante uma escolha: ou as palavras, ou os atos. Os que votaram conosco e quiseram dar uma chance governamental à nossa ecologia política saibam que chegaram à fronteira entre comprometer-se e renegar.
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Notas de rodapé

[1] 14/1/2013, François Hollande, conferência de imprensa. Vídeo a seguir:


[2] MELENCHON, Jean-Luc, En quête de gauche, Paris: Balland, 2007.


[4] Sobre isso, ver: Lei de Say


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[*] Jean-Luc Mélenchon (Tânger-Marrocos, 19 de agosto de 1951) é um político francês, atual líder da Frente de Esquerda da França (Front de Gauche). Foi educado no Lycée Pierre-Corneille em Rouen (Normandia). Seu pai trabalhava nos serviços postais, e sua mãe, de origem espanhola, era professora de escola primária. Cresceu no Marrocos, até que sua família se mudou para a França em 1962. Obteve licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franche-Comté, e tendo ganho as CAPES (qualificação de ensino profissional), tornou-professor antes de entrar para a política. Foi senador da França em 2 períodos (2004–2010) e (1986–1995) pelo Partido Socialista Francês e candidato pela Frente de Esquerda, derrotado nas eleições presidenciais de 2012.