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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

De Caracas às ruas de Paris: “Muito internacionalismo nos leva de volta às ruas de Paris”


28/9/2012, Alexis Corbière, Blog de Jean-Luc Mélenchon, Parti de Gauche [Partido de Esquerda]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Alexis Corbière
Escrevo de Caracas, Venezuela, de olho no relógio, porque tenho outros encontros marcados. Tenho de escrever depressa. (...) Já falei do deslocamento militante e insisto nisso. Estamos aqui para, modestamente (mas muito ambiciosamente), ajudar nossos camaradas que, há meses, estão plenamente engajados na campanha para as eleições presidenciais do dia 7/10, em apoio ao candidato Hugo Chávez.

Ter vindo para cá é útil para poder conhecer (ou, pelo menos, começar a conhecer) o processo político profundo que se desenrola aqui, já há vários anos, e que, em breve, ultrapassará mais uma etapa, daqui a só uma semana. Como três franceses como nós podemos ajudar os companheiros que trabalham aqui?

O que temos feito é falar, com a máxima clareza possível, do que a Europa vive hoje, a Europa e a França. Falamos da crise econômica e social que atinge em cheio o que, na Venezuela, é chamado “o velho continente”, e apresentamos as respostas e análises que a Frente de Esquerda vem construindo sobre essa crise, que é ameaça real a todo o mundo. 


Para fazer isso, aceitamos todos os convites para falar pelo rádio e pela televisão.

Ao programa “midiático”, somou-se ontem nossa participação, durante toda a tarde, num seminário organizado sob o título “O neoliberalismo do velho mundo versus o socialismo do novo mundo”

François e Corinne honraram o Partido de Esquerda francês, com a qualidade de suas contribuições. François falou do golpe-de-estado financeiro que atinge hoje a Europa. Corinne falou das consequências ecológicas dessa crise. Depois falei eu, para lembrar o perigo que é o crescimento da extrema direita na Europa, crescimento que se alimenta da crise provocada pelo neoliberalismo. A imprensa local comentou o seminário.

Logo depois de chegarmos aqui, fui convidado para um debate transmitido pela Rede TeleSur. Podem ver e ouvir o programa, de grande audiência, a seguir:


A curiosidade intelectual dos que nos recebem, militantes, jornalistas ou simples cidadãos é, para mim, impressionante. Constato que, aqui, o debate político é permanente.

Ninguém pode negar que nessa parte do mundo há um povo mobilizado, envolvido, implicado, que toma partido, escolhe campos. Vê-se e ouve-se pelas ruas. Reina aqui uma paixão política que aquece a minha alma militante.

Propaganda em Mural
Nas paredes, nos muros, nas varandas e janelas das casas, nas camisetas que vestem, todos exibem suas cores políticas. Sem dúvida os partidários de Chávez são maioria. É visível. Mas descubro, com certa surpresa, presença significativa de apoiadores de Henrique Capriles, candidato da direita, nas ruas de Caracas.

De fato, é o desmentido completo às bobagens que se publicam na França, dos de sempre, que só fazem repetir que as liberdades públicas estariam ameaçadas na Venezuela. Que grande mentira! E que vergonha para os que repetem sem saber esse tipo de mentira. Mas não subestimemos o problema. “Mentira repetida mil vezes vira verdade” – como ensinava o infame Goebbels, o nazista que conhecia muito bem os artifícios da manipulação da opinião pública.

Às vezes me pergunto se já não fomos apanhados, nós também. Conheço gente de boa fé, que tem sincera e real convicção de esquerda, muitos são meus amigos pessoais, e que me disseram várias vezes que eu tivesse cuidado, na Venezuela, que a situação aqui seria de semiditadura, ou que, no mínimo, o país vivia sob regime autoritário. Aqui, vendo as coisas como de fato são, me pergunto como é possível que essas asneiras tenham atravessado o oceano.

Jornais circulam livremente
A verdade é que a oposição a Chávez conta com consideráveis meios de propaganda, o que se constata por todos os lados, na rua. E, em casa, basta ligar a televisão. Mas aqui, diferente da França, vê-se que há divisão na opinião pública. Há canais de televisão diferentes! Conforme o canal a que você assista, a informação muda. Conforme o quarteirão da cidade por onde você ande, muda a proporção de cartazes para um e outro candidato. Se você anda pelos bairros populares, só se veem cartazes de Hugo Chávez, praticamente em todos os muros. Mas, se você anda pelos bairros ricos, praticamente só há cartazes de Henrique Capriles. Há um impressionante (para mim) recorte geográfico. Pode-se saber em que parte da cidade se anda, só de ler os muros das ruas.

Mas isso muda se se consideram as bancas de jornais. Ali, praticamente todos os jornais impressos só falam a favor do candidato da direita, desqualificando sempre a candidatura de Chávez. Não há dúvida de que, se se examinam os jornais expostos à venda nas bancas, há grande desequilíbrio a favor do candidato da direita.

A campanha do candidato da direita tem claro apoio dos jornais e televisões comerciais – o grupo Cadena Capriles, da família do candidato, é proprietário de vários jornais, entre os quais o influente Ultimas noticias. Pelo que dizem alguns estudos, 82% por cento das matérias publicadas na imprensa comercial sobre Capriles são favoráveis; e a proporção de artigos favoráveis cai para 26%, quando os jornalistas falam de Hugo Chávez. Na Europa, quem acreditaria? Visto aqui, salta aos olhos. Se a liberdade de imprensa está sob ameaça na Venezuela, o responsável por isso não é Chávez, como dizem tantos na França.

Portanto, quando Chávez diz, nos seus comícios, sempre muito maiores que os do adversário, que Capriles “é o candidato da burguesia”, além da correta caracterização política, está falando de uma realidade palpável: Henrique Capriles é, antes de qualquer outra coisa, o candidato da burguesia venezuelana, ultracatólica, proprietária dos principais jornais e redes de televisão, a mesma burguesia que habita bairros ricos e que tenta manter seus privilégios.

Se a clivagem é visível nos quarteirões mais afastados do centro, nas ruas do centro de Caracas os grupos de militantes dos principais candidatos também se distribuem em esquinas diferentes. Nas grandes avenidas, veem-se militantes de um, num dos lados da rua; e militantes do outro, na calçada oposta. Convivem, separados por alguns metros, com gritos, sim, uns contra os outros, mas, afinal, respeitando-se democraticamente. Gritam muito. Os alto falantes de um lado, tentam encobrir os do outro lado, com músicas e slogans. Mas não vi violência física nem policiais nas ruas.

O que se vê – e chamou-nos a atenção – é gente que ri. Os partidários de Chávez parecem-me sempre mais animados. Às vezes, num sinal de trânsito vermelho, levas de jovens militantes chavistas aparecem, não se sabe de onde, como uma onda festiva e colorida e compõem, com seus cartazes escritos à mão, feitos em casa, um painel de slogans favoráveis à revolução bolivariana. Quando o semáforo fica verde, eles novamente somem.

Não há dúvidas de que os partidários de Henrique Capriles são menos numerosos, menos animados e muito menos envolvidos na militância de rua. Também são menos convictos do que dizem, quando se fala com eles, mesmo que informalmente, nas ruas, que os que apoiam Hugo Chávez.

O que alguns jornais franceses publicam, sobre Capriles, mais confunde que informa. Nós conhecemos mais sobre Chávez, que sobre Capriles. Falo então, um pouco, sobre o candidato da direita.

É muito jovem, cerca de 40 anos. É herdeiro de uma das famílias mais ricas da Venezuela e esteve na linha de frente do golpe de 11/4/2002 contra Chávez, com um grupo de putschistas. Participou do ataque à embaixada de Cuba em Caracas. Também participou pessoalmente, pela força, na “neutralização” do então Ministro do Interior. Mas apresenta-se hoje como “humanista”, quase como se fosse de centro-esquerda. É devoto há muito tempo da organização internacional ultraconservadora “Tradição, Família e Propriedade” (TFP) próxima da “Opus Dei”, organização cujo ramo venezuelano foi fundado por Capriles.

Apesar da roupagem “quase-social” com que está sendo apresentado, seu programa real é liberal: quer privatizar setores estratégicos da economia que foram estatizados; quer a autonomia do Banco Central da Venezuela; quer por fim ao que chama de “capitalismo de Estado”, etc. Apesar do programa muito claramente privatista neoliberal e do pesado pedigree político, ainda há jornais franceses que o pintam como “homem de centro-esquerda”. É verdade que, na coalizão que o apoia, MUD, conta com o apoio da Ação Democrática (AD), ligada à Internacional Socialista. Mas é apoiado, sobretudo, isso sim, pela extrema direita. É isso. Na Venezuela, os amigos de François Hollande apoiam o candidato único da extrema direita.

É uma vergonha que a 2ª Internacional, que acaba de realizar um Congresso, apoie esse candidato reacionário. E não apareceu uma voz socialista francesa para denunciar esse escândalo.

Vale lembrar que Hugo Chávez conta com o apoio anunciado publicamente do ex-presidente Lula do Brasil, pelo qual os socialistas franceses fingem grande simpatia.


Nos comícios, para mascarar sua verdadeira filiação, Capriles sempre tenta conquistar votos da esquerda. Henrique Capriles apresenta-se como candidatura “leve” e tenta pegar todos os incautos. De fato, sua rede não pega ninguém. Ontem, por exemplo, numa reunião pública, lá estava Capriles, atacando o governo Chávez: “Nunca mais a escuridão entrará na vida dos venezuelanos” – disse ele. A frase diz muito sobre o desprezo que lhe inspira a obra social do atual governo, que já fez diminuir o analfabetismo e aumentou muito significativamente o acesso da população à saúde pública e o nível de vida das populações mais pobres. Que ninguém tome Henrique Capriles por candidato moderado.

Capriles é homem da direita dura, que, no momento, mascara seu projeto. Toda sua vida passada, contudo, mostra que é homem capaz de participar de golpe armado contra presidente eleito.

Quem não acreditar no que estou dizendo sobre quem é o verdadeiro Capriles, ou quem pense que Chávez teria o monopólio da palavra “agressiva”, pode ler (ou reler) no Libération da 2ª-feira passada. Ali, numa entrevista de página inteira (?!) em que só Capriles fala e Chávez nem foi ouvido, Capriles diz: “Aqui, vivemos um governo da esquerda mais retrógrada, que, por alguns de seus atos, assemelha-se ao fascismo”. UAU! Pois é. Nada mais, nada menos.

Aqui, nesse país apaixonado pelo beisebol, faz-se política como se se manobrasse um porrete. “Esquerda retrógrada”, “obscurantismo”, “fascismo”, a lista é longa, das calúnias, das loucuras que a direita publica livremente contra Chávez, em todo o mundo, ou, pelo menos, durante essa campanha.

Pois pasmem: para o jornalista do Libération e seu correspondente, isso seria apenas “a face amena d’O Anti-Chávez” que, segundo o simpático jornal da esquerda francesa, “faz Chávez tremer”. Quanta bobagem! Aqui na Venezuela, nenhuma das pessoas que encontro, em reuniões ou pelas ruas, está tremendo de medo, nem de Capriles nem da campanha do candidato da direita. Os números mostram: até as pesquisas mais favoráveis a Capriles mostram diferença mínima, a favor de Chávez, de 14%. E várias pesquisas mostram diferença de 20%, sempre a favor de Chávez.

Hugo Chávez vencerá. Mas está buscando vitória por grande diferença, para tentar neutralizar a infindável contestação que sempre vem, da direita. A direita absolutamente não aceita as repetidas derrotas que tem sofrido desde 1998 e insiste em apresentar-se como “injustiçada”.

Além do mais, o campo chavista não faz campanha apenas para ultrapassar os 50% dos votos. Trabalha também para convencer o maior número possível de eleitores, para conquistar base popular suficientemente ampla para poder avançar mais rapidamente nas reformas.

Por isso, os comícios de Chávez sempre são grandes momentos de pedagogia política, para convencer, convencer, convencer sempre mais. E funciona, porque a campanha de Capriles patina – diferente de tudo que a imprensa francesa insiste em noticiar.

Nossa presença aqui, para participar dessa campanha tão importante, é mais um episódio de uma luta que se trava no plano mundial.

Lutar na França contra as mentiras que se publicam contra a Revolução Bolivariana e o presidente Chávez está em perfeita coerência com explicar aqui, em Caracas, os motivos pelos quais, há apenas dois dias, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas, em Madrid, em luta contra a “austeridade”. Ontem, também havia centenas de milhares de pessoas nas ruas de Atenas. E o mesmo em Lisboa. E dia 30/9 será o dia de Paris manifestar-se.

Os franceses que queiram engajar-se na luta a favor dos companheiros da Venezuela, façam da manifestação do domingo, em Paris, um grande sucesso!

Escrevendo isso, lembrei-me de uma frase de Jean Jaurès:

“Um pouco de internacionalismo nos distancia de casa; muito internacionalismo nos reaproxima de casa”

De Caracas, desse apaixonante banho de internacionalismo, que já está para acabar, tudo me mantém cada vez mais próximo da necessidade de continuar a construir nossa Frente de Esquerda, empenhada cada dia mais em derrotar, também na França, as políticas de “rigor” e de “austeridade”.

Apesar de todas as diferenças que há entre França e Venezuela, nosso combate é fundamentalmente o mesmo.

Não se trata de copiar nem de cultuar “heróis”. Trata-se de nos inspirar a nunca desistir de uma experiência complexa e muito viva.

Na política, como no amor, é preciso às vezes afastar-se um pouco da rotina da vida cotidiana. Ganham-se perspectivas novas. Muito internacionalismo nos devolve, renovados, às ruas de Paris. 


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O “affaire” Assange, Venezuela, a mídia golpista na América Latina


4/9/2012, Jean-Luc Mélenchon, Front de Gauche, França (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jean-Luc Mélenchon
Em vez de repetir “elementos de linguagem” copiados de releases das embaixadas dos EUA e despachos “orientados”, bastaria que algum jornalista viajasse ao Equador. Ali, ele ou ela logo constataria, muito jornalisticamente, que no Equador reina a mais ampla e total liberdade para caluniar e insultar o governo eleito: toda a imprensa-empresa equatoriana, de propriedade de seis famílias, é absolutamente livre para publicar despachos do Departamento de Estado dos EUA ou todas as mentiras que qualquer jornalista invente ou queira repetir, ouvida de alguma ‘fonte’ também mentirosa ou viciada.

De fato, nada mais difícil de encontrar no Equador que algum jornal, programa de televisão ou de rádio, ou livro nas livrarias, que seja favorável ao governo eleito pela maioria dos eleitores! A oligarquia, no Equador, é completamente livre para fazer campanha eleitoral durante todo o ano e, sempre, sempre, contra o voto da maioria que, afinal, elegeu o presidente Correa.

Julian Assange
O affaire Assange é questão de Estado para os EUA. A partir do momento em que se interpôs, o governo progressista de Rafael Correa atraiu contra si o assalto das agências de influência norte-americanas, pústulas fétidas. Os grandes jornais do “bloco” puseram-se em movimento. E com eles vieram, de modo surpreendente, também jornais da periferia, como Charlie Hebdo, ao qual Maxime Vivas e Le Grand Soir responderam de modo argumentado, considerando a importância desse jornal nos meios da outra esquerda. Mas o essencial da dita “grande imprensa” rapidamente pôs-se em posição de atirar para matar. Primeiro, insidiosos; em seguida, abertamente acusatórios. O assalto aconteceu em dois planos.

Primeiro, contra a pessoa de Assange. Descrito como personagem isolado, cujos apoiadores lhe teriam retirado apoios e se desdito; sujeito psicologicamente instável e, além do mais, acusado de “violações e agressões sexuais”, no plural, claro!

O outro plano de ataque visa o presidente do Equador. Todo o governo do Equador foi apresentado como inimigo da liberdade de imprensa, que professaria concepção de geometria variável do que seja o direito de asilo. Nesses registros apareceram todos os modelos menos recomendáveis, no domínio da repetição de elementos importados de linguagem, abundantes em algumas colunas do Figaro. É um exemplo, e nem todos os artigos seguem a mesma linha, variando conforme os autores. Assim, variando, eles afinam a mira e alcançam diferentes pessoas.

Rafael Correa - Presidente Eleito do Equador
A técnica é sempre a mesma: soma de opiniões apresentadas como se fossem “fatos bem conhecidos”, e que não passam de mentiras, apresentadas de tal modo que o leitor não pode saber que são só opiniões e mentiras. Na mesma linha, meia página no Monde  sobre o direito de asilo que teria sido negado a um bielorrusso no Equador, e exemplo de jornal que se rende à influência de certos “amigos”. Em todos os casos, dizem o que lhes dê na cabeça; depois, publicam notas quase invisíveis, em que as mentiras mais flagrantes são “corrigidas” e desditas.

O que se vê, de fato, é que os “argumentos” das seis famílias que são proprietárias de praticamente toda a imprensa equatoriana são repetidos em toda a imprensa-empresa internacional. Como é possível que a repetição seja tão “unânime”? Será assim, perfeita repetição, porque os jornalistas das editorias internacionais dos grandes jornais da grande imprensa-empresa em todo o mundo leem diariamente todos os jornais do Equador? É claro que não. Então, quem distribui as “notícias”?

Seja quem for, o resultado aí está. Rafael Correa é apresentado, em todos os veículos, sempre com as mesmas palavras e os mesmos registros em que aparece pintado na imprensa-empresa de direita e de extrema direita no Equador, como “desinteressado em defender as liberdades de expressão”. E o Equador – sem qualquer nem vestígio de fato que justifique a ‘'versão'’ ‘'jornalística'’ – é apresentado como “estado conhecido por repetidas violações da liberdade de imprensa” (Le Figaro), como “gestor incompetente da liberdade de expressão” (Le Monde), quando não é abertamente chamado de “ditador” (nos jornalões da América Latina). Ah! Todos conhecemos bens os “veículos independentes”! O problema é que muitos dos maiores jornais são super nada-independentes!

No Equador, por exemplo, os “jornais e televisões independentes” são propriedade de seis famílias completamente empenhadas em fazer oposição de direita e extrema direita ao governo eleito de Rafael Correa. Conhecem bem o affaire Assange, é claro, desde que proibiram seus veículos de publicar os telegramas diplomáticos do Departamento de Estado dos EUA, publicados por Wikileaks.

Mas até Le Monde, El Pais, Der Spiegel, The Guardian e o The New York Times publicaram aqueles telegramas. Naquela ocasião, com grande alarido e muitas manifestações de autoelogio e bla-bla-blá de autocelebração da “imprensa livre”.

Todos deveríamos olhar com extrema desconfiança o que aqueles jornalões publicaram – e, sobretudo, o que não publicaram. Ocorre-me que, muito provavelmente, publicaram o que lhes pareceu que ajudava os interesses deles. E muito provavelmente não publicaram o que mais interessaria ao grande público. O que se sabe é que todos esses grandes jornais triaram o material bruto, o que não deixa de ser surpreendente. Triar por quê?

A verdade é que os telegramas de WikiLeaks publicados pela imprensa francesa só mostraram aos franceses algumas cenas estranhíssimas: um desfile infindável de socialistas em reuniões com os EUA, sempre a garantir que apoiavam a Guerra do Golfo – o que a França acabara de recusar-se a fazer, por iniciativa do presidente Jacques Chirac.

Mas, pouco tempo depois, o micromundo “midiático” virou casaca. Abandonaram Assange e, com ele, abandonaram toda a doxa tradicional sobre a preservação e proteção das fontes; e Assange foi convertido em alvo do vingancismo mais furioso das agências de segurança dos EUA!

De modo muito significativo, quer dizer, como manifestação coordenada, os golpes concentram-se em atacar e por sob suspeita o Equador e seu governo progressista. É mais do que razoável supor que não haja e jamais tenha havido algum “affaire Assange”; que o que houve foi o affaire das agências norte-americanas de segurança numa parte do mundo onde as práticas imperiais estão sob discussão e crítica, e os braços armados do “império” enfrentam derrota sobre derrota!

Em vez de repetir “elementos de linguagem” das embaixadas e despachos “orientados”, bastaria que algum jornalista viajasse ao Equador. Ali constataria, muito jornalisticamente, que no Equador reina a mais ampla e total liberdade para caluniar e insultar o governo eleito: toda a imprensa-empresa equatoriana, de propriedade de seis famílias, é absolutamente livre para publicar todas as mentiras e despachos do Departamento de Estado dos EUA que queira. De fato, nada mais difícil de encontrar no Equador que algum jornal, programa de televisão ou de rádio, ou livro nas livrarias, que seja favorável ao governo eleito! A oligarquia, no Equador, é completamente livre para fazer campanha eleitoral durante todo o ano e, sempre, contra a maioria que elegeu o presidente Correa.

Não há quem não saiba de onde vêm as subvenções que sustentam os “Repórteres Sem Fronteira” franceses – verdadeiro ninho de cobras peçonhentas onde habita o neo-LePenista Robert Ménard, mas citado como autoridade com competência para classificar o Equador em 104º lugar, de 179 países, como local de fracasso quase total da liberdade de expressão!

E quem conhece os critérios da tal “classificação”?! Evidentemente, não são nem “repórteres” ou “jornalistas” que trabalhem para noticiar o assalto que aquelas meia dúzia de famílias “midiáticas” promovem contra a opinião pública.

Baltazar Garzon
Só assim se compreende que o Le Fígaro dê a palavra a um ex-ministro de Aznar, que se põe a falar sobre “fraude ao Estado de direito” no caso de Assange, porque o advogado de Assange é agora o juiz Baltasar Garzon, contra o qual o governo de Aznar moveu céus e terra – mas esse detalhe, o tal “grande jornal independente” jamais noticia!

Em seguida, o grande jornal da direita francesa apresenta-se como autoridade para declarar o caráter ditatorial do governo de Correa... o que o jornal “prova”! A “prova” é que Correa recebe o apoio da Aliança Bolivariana das Américas (ALBA)... quer dizer, o governo do Equador é apoiado pela Venezuela e por Cuba! Claro! Está(ria) provado!

E houve também a investigação judicial feita pelo Monde, que, sem esperar pela sentença da Justiça equatoriana, denuncia “a hospitalidade equatoriana de geometria variável”, no caso do bielorrusso Alexandre Barankov. Dever mínimo de respeito aos leitores, do Monde, seria mencionar que o presidente Correa vive sob leis de separação dos poderes entre Executivo e Judiciário e não poderia ter-se pronunciado sobre a extradição de Aliaksandr Barankov na Suprema Corte do Equador.

É o tal jornalismo de mentiras, de insinuações, de desavergonhada calúnia. A função desse “jornalismo” é condicionar a opinião internacional para que não reaja no caso de golpe de Estado. Porque, evidentemente, o império jamais se desarma e nunca para de tentar golpes de Estado: tentou golpes contra Correa, Chávez, Evo Morales. Conseguiu recentemente derrubar Fernando Lugo no Paraguai e Manuel Zelaya em Honduras. Nesses dois casos, a “notícia” calou. Calou-se até o corporativismo ordinário dos jornalistas, porque nesses dois países houve jornalistas presos e assassinados. Nem por isso se viu movimento de indignação dos jornalistas de consciência de economia variável.

O encarniçamento contra o presidente Correa tem também uma âncora local, se se pode dizer assim. Por toda a América do Sul em processo de libertação, está posta a questão do papel dos meios de informação! Em cada país, nossos amigos definiram diferentes estratégias de ação. Mas hoje estamos por cima. Os trabalhos de emancipação e de libertação estão postos também na esfera midiática. Discutem-se e votam-se novas leis de liberdade de imprensa democráticas e republicanas. Sem exceção, visam a quebrar os monopólios da imprensa e a garantir a pluralidade de expressão. Também o Equador abraçou essa luta.

O governo do presidente Correa está firmemente decidido a aplicar a Constituição do país, aprovada em referendo pela população por maioria de 63,9% dos votos. A nova Constituição prevê, sobretudo pelo artigo 17 a proibição de oligopólios ou monopólios nas empresas de imprensa e o apoio aos veículos públicos, comunitários e privados. Para adaptar-se ao que ordena a Constituição, o governo Correa está propondo uma lei orgânica das comunicações. A oposição, claro, em primeiro lugar as próprias empresas midiáticas, já se puseram a denunciar o projeto de lei, que chamam “ley mordaza”, “lei da mordaça”.

Mas a nova lei é, de fato, o fim da mordaça: a lei proíbe qualquer tipo de censura prévia à publicação ou difusão; e cria um conselho de regulação da informação, com a missão de combater a censura. E também sempre a posteriori, a nova Constituição oferece meios para punir qualquer apologia da violência, as discriminações (do racismo, da toxicomania, do sexismo e da intolerância religiosa ou política), nos termos da Constituição do Equador. O texto obriga os veículos à transparência sobre o modo como operam. Obriga o governo a por em ação todos os meios necessários para garantir o acesso de todos os cidadãos a uma informação plural. Legendagem e tradução em língua dos sinas [no Brasil, Libras, Língua Brasileira de Sinais, NTs] também serão obrigatórias.

Quanto à pluralidade, será assegurada por uma divisão em três, do espectro de frequências de rádio e televisão: 1/3 serão privadas, 1/3 serão associativas (sem objetivos de lucro) e 1/3 serão frequências para uso público (de propriedade do Estado, mas também de coletividades territoriais). Eis aí a “lei terrível” que ameaça a oligarquia equatoriana e que os veículos da imprensa-empresa internacional denunciaram em coro, sem qualquer atenção à necessidade da pluralidade das informações ou respeito ao voto dos equatorianos.

(...) Todos conhecemos os pontos negros da imprensa-empresa que conhecemos. (...) Para começar, o horrendo corporativismo que vicia, sem exceção, até à completa traição à verdade dos fatos e que, apesar disso, nunca se cansa de propagandear a infalibilidade dos novos “grandes sacerdotes”. Além disso, a grosseria dos insultos que esses ridículos budas empresários “da mídia” nunca se cansam de vomitar contra quem bem entendam, porque os desagrade, falhando sempre na tão alardeada luta da imprensa contra a violência e a intolerância que os mesmos empresários “jornalistas” nunca se cansam da alardear, hipócritas. Em vários campos, a lei da omertá, de criminosos que protegem criminosos, reina absoluta na imprensa-empresa. (...). De fato, já praticamente nem mais nos surpreendemos: uns dão dinheiro aos partidos políticos; outros, diretamente a jornais e jornalistas. Grande diferença!

Em todos nossos países em vias de libertação, nossos amigos governam sem a mídia e contra a mídia. A França, quando a hora chegar, terá de aprender a fazer o mesmo.

Mas o que nossos amigos do sul têm a nos ensinar é que, por mais encarniçada campanha de difamação e mentiras que sofram da empresa-imprensa, nada perdem em termos de popularidade.

Há décadas, as seis famílias dos empresários da imprensa-empresa sempre fizeram chover e fazer sol em matéria de política no Equador. Continuam a ser o que sempre foram e a fazer o que sempre fizeram. Mas o presidente Correa mantém seus 80% de intenções de votos, às vésperas de novas eleições. Pior para os inimigos! A chuva deles chove, o vento deles venta, e as provas dos progressos obtidos pelo governo do presidente Correa são tão tangíveis para os equatorianos e as equatorianas, que as mentiras da imprensa-empresa já não surtem efeito.

O mesmo se vê na Argentina, da qual a França em breve ouvirá falar, e da qual falarei em breve, nessa página. Antes disso, falarei sobre o posto que vou assumir na Venezuela, onde a campanha eleitoral caminha bem.

Nesse mês de setembro, efeito de vários artigos e “dossiês” armados pela empresa-imprensa venezuelana, correrão rios de lama sobre nossos amigos. A palavra de ordem das agências já é preparar a opinião pública com vistas a mais um golpe de Estado que está, como já é hábito, em preparação. Se ganharmos por larga margem nas urnas também na Venezuela, os reacionários nada poderão fazer. Mas se ganharmos vitória mais apertada, criarão espaço para vastíssima campanha de desestabilização e, sem dúvida, para operações violentas.

Voltarei em breve ao assunto... (...)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A luta continua: agora, atacam a Venezuela!


6/6/2012, Jean-Luc Mélenchon, Blog da Front de Gauche (excerto)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jean-Luc Mélenchon
La semaine passée, la droite imposait à l’ordre du jour...

Semana passada, a direita impôs na ordem do dia do Parlamento Europeu, a votação de uma resolução condenando a Venezuela. Momento escolhido a dedo, com a Venezuela em plena campanha eleitoral.

Comissão Interamericana de DD HH
Qual o pretexto? A decisão, do governo venezuelano, de retirar-se da Comissão Interamericana dos Direitos do Homem [orig. Commission Inter-américaine des Droits de l'Homme (CIDH) e da Corte Interamericana dos Direitos do Homem [orig. Cour Inter-américaine des Droits de l'Homme]. São, ambos, organismos de proteção dos direitos humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A direita, que nunca condenou o golpe de Estado em Honduras, é lépida ao condenar a decisão da Venezuela. Bastaria dizer isso, para que todos soubessem quem é quem.

Mas, não. Estou empenhado em praticar toda a pedagogia necessária, para que todos entendam essas condenações e indignações “de vitrine”, nas quais os direitos humanos sempre entram como pretexto que os reacionários usam contra os governos democráticos.

Preparem-se. Porque, depois dessa e depois da condenação da nacionalização do petróleo na Argentina, não demorará, e vocês verão ondas da mais ardente indignação contra violações dos direitos humanos na Grécia. E nem uma palavra a favor de se por fim ao real martírio dos gregos. Assim será, enquanto os martirizados sejamos nós, não os banqueiros.

Só até aqui, em mais esse ataque contra a Venezuela, vê-se já um certo excesso de zelo com os tais direitos humanos, na OEA: porque a direita, mais uma vez, condenou antes de votar. A decisão legal ainda não foi tomada. O processo legislativo apenas começou: e a notícia já corre o mundo, como se já fosse caso decidido. Só a Assembleia Geral poderá decidir. E ainda nada decidiu.

Mais cette Cour des Droits de l’Homme, que vaut-elle?

Corte Interamericana de DDHH
E, afinal, o que vale essa Corte dos Direitos Humanos? Dos 34 países da OEA, só 24 estão lá representados. Nem os EUA nem o Canadá participam. Mas... ora! Nada disso faz qualquer diferença para a direita europeia!

A direita europeia jamais apresentou qualquer protesto contra os EUA, que repetidamente violam resoluções aprovadas por quase unanimidade na ONU contra o embargo a Cuba. Nem contra outros estados que também se retiraram dessa “Corte”.

Essa não é a primeira vez que um país decide desligar-se da OEA. Em 1998, Trinidad y Tobago também lhes deu as costas e partiu.

E quem, na Europa, protesta conta esse santo trono das virtudes humanistas e liberais que é o nobre parlamento da União Europeia? Ninguém, é claro.

Na Venezuela, os cidadãos têm boas razões para nada esperar, de útil, dessa “Corte” da OEA e de sua concepção do que sejam Direitos Humanos. Durante os 30 anos de repressão que os venezuelanos sofreram, entre 1969 e 1999, a Corte Internacional de Direitos Humanos da OEA só acolheu cinco denúncias contra o Estado venezuelano. E houve ali muitas violações de direitos humanos, repressão violenta, gente desaparecida, tortura, assassinatos denunciados de todos os lados.

Hugo Chávez
Contudo, desde a eleição do presidente Hugo Chávez, em 1999 – quer dizer, em 12 anos –, a CIDH já acolheu mais de 36 denúncias contra seu governo, ignorando todos os grandes avanços que a Venezuela conseguiu, também no campo dos direitos humanos. Mas o pior não é isso.

O pior aconteceu dia 11/4/2002, quando a Corte Internacional dos Direitos do Homem da OEA reconheceu e tentou legitimar o golpe de Estado tentado contra o presidente Chávez! E por acaso seria justo e belo que uma Corte de Direitos do Homem aprove e apoie um putsch? Nada mais coerente e lógico, pois, que, desde 2002, a Venezuela recuse-se a receber visitas da CIDH em seu território.

E a CIDH, por sua vez, admite toda e qualquer denúncia que por lá apareça contra a Venezuela, por mais imprecisa, vaga, sem qualquer prova, sem nomes, sem datas, sem local preciso onde a “violação” denunciada teria ocorrido. Muitas vezes aquela “corte” funcionou como caixa de ressonância do que dizem a imprensa e outras organizações políticas abertamente hostis ao governo do presidente Chávez.

A CIDH também tem acolhido e divulgado denúncias mentirosas contra hipotéticas consequências ditas “perigosíssimas” de leis aprovadas no Parlamento. Mas jamais alguém ouviu qualquer tipo de retratação, depois que não se veem os “efeitos” que as tais denúncias tanto temiam.

Em resumo, a Corte Interamericana dos Direitos do Homem da OEA é instrumento hostil e sem qualquer influência. O mundo está cheio de outras referências em matéria de Direitos Humanos e muitas dizem coisa muito diferente do que diz a CIDH da OEA.

Ainsi ces prises de position contrastent singulièrement...

Conselho de DD HH da ONU
As posições da corte interamericana contrastam espantosamente com as do Conselho de Direitos do Homem da ONU – que reconhece que a Venezuela adotou a maioria das recomendações do Conselho. Dentre as quais, vale lembrar, também recomendações de nosso amada União Europeia. O Conselho de Direitos Humanos da ONU também reconheceu que a Venezuela continua a aprofundar esforços para fazer avançar o respeito aos direitos humanos na Venezuela.

Na declaração dos sociais-democratas, dos Verdes e da GUE/NGL (meu bloco no Parlamento Europeu), apresentada ao Parlamento Europeu, registra-se, precisamente, o reconhecimento, pela ONU, dos avanços da Venezuela no campo dos direitos humanos. Mas o que diz a direita, agora, é mensagem dirigida exclusivamente a influenciar o processo eleitoral na Venezuela.

O próprio texto da “resolução” está construído, na prática, para pautar os jornais “éticos” e “independentes”: “Europa denuncia a Venezuela de Chávez”.

CIA vista por WikiLeaks
Agências que operam sob influência da CIA-EUA, que montam esse tipo de encenação, podem, na sequência, justificar a própria existência e pedir mais dinheiro para manter-se. Isso, sim, é golpe que dá resultado, porque a moção da direita foi lida e acolhida. Agora, os cretinos de sempre passarão a declarar-se “preocupados com os direitos humanos”, e o resto é a novela de sempre. Boa jogada, Tio Sam!

Aviso que eu não estava presente àquela sessão do Parlamento Europeu. Estava em Pas-de-Calais, em campanha para eleger deputados da Front de Gauche. Em Pas-de-Calais, as mesmas agências e agentes só fazem repetir a cantoria de sempre, a favor dos candidatos de madame Le Pen.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Alexis Tsipras, da Coalisão Syriza, Grécia, na França!


21/5/2012, Parti du Front de Gauche, Assembleia Nacional, Paris
Vídeo e entrevista transcrita e traduzida pelo pessoal da Vila Vudu


Alexis Tsipras, da Coalizão Syriza, da esquerda radical grega, foi recebido na Assembleia Nacional Francesa pela Frente de Esquerda e saudado por Martine Billard, Jean-Luc Mélenchon e Pierre Laurent.

Em seguida, Tsipras falou à imprensa europeia:


“Não sei se estamos causando medo na Europa, mas acho que, sim, surpreendemos um pouco. Pelo menos, se se avaliar pelo número de jornalistas aqui [riso].

Esse é, mesmo, um dos nossos objetivos: forçar a inteligência europeia a considerar os fatos, a olhar de frente a realidade. É preciso que todos compreendam que a crise não é grega, não concerne exclusivamente à Grécia, concerne a todos os povos europeus. Trata-se portanto de encontrar solução europeia comum, para um problema que é comum.

Queremos que todos tomem consciência do fato de que povo algum, seja onde for, no planeta, na Europa, jamais se deixou levar, sem resistência, a uma espécie de suicídio induzido. O que se passa na Grécia há dois anos é uma espécie de indução ao suicídio do povo grego.

Ouve-se muito falar de programa de ‘austeridade’, mas o que está sendo implantado na Grécia não é simples programa de ‘austeridade’: trata-se de uma experiência, de uma experimentação europeia, do que possa vir a ser uma “solução neoliberal ‘de choque’”.

A Grécia vive hoje uma crise absolutamente sem precedentes, com características de crise humanitária. Estamos por isso hoje em Paris, e amanhã na Alemanha, para dizer aos povos europeus que absolutamente nada temos contra nenhum deles.

Na Grécia, estamos em pleno combate, uma luta que combatemos em nome do povo grego, do povo francês, do povo alemão e de todos os povos da Europa.

Porque, se prosseguir aquela experimentação, aquela experiência de aplicar na Grécia aquela “solução neoliberal ‘de choque’”, a experiência, imediatamente depois, será exportada para outros países europeus.

Mas a guerra que vivemos hoje na Europa não é guerra entre nós, os povos europeus: é guerra em que se enfrentam, de um lado, as forças do trabalho e, de outro lado, as forças invisíveis da finança e dos bancos. Para nós, é difícil afrontar para vencer esses nossos inimigos.

Nossos adversários políticos, como todos vimos durante a campanha eleitoral, não têm qualquer projeto, não têm programa, não estão representados por nenhum partido ou coalizão clara de projetos ou ideias. Apesar disso, são eles que governam.

“Eles”, os que governam, são o capital financeiro, os bancos, os que detêm os capitais, e que se aliaram, no seio de uma Europa que faz guerra à Europa, guerra aos europeus, guerra ao povo grego, para arregimentar os meios necessários para, amanhã, poder generalizar a sua ‘solução’ de choque neoliberal, contra outros povos europeus.

Mas, afinal, depois das eleições de 6 de maio, estamos às vésperas de um novo pacto, que o povo grego espera conseguir construir, para firmar sua vitória. Queremos mudar as coisas na Grécia, para, assim, emitir, bem clara, uma mensagem de esperança para toda a Europa. Para fazer lembrar, aos que esquecem a história, que o Memorando nos levou ao desastre.

E para buscar, com todos os povos europeus, uma refundação da Europa – outra Europa que, dessa vez, será criada sob princípios de solidariedade e coesão social.

Muito nos alegra constatar que, mesmo que ainda não tenhamos chegado aos cargos e responsabilidades de governo, já sopram ventos de mudança em todo o continente.
Prova disso é que haja aqui tantos jornalistas.

Prova disso, também, é que questões e ideias que, há bem pouco tempo, pareciam absolutamente extemporâneas, são hoje fatos que se veem e discutem-se por toda parte. Até nossos adversários são obrigados a discutir. E temos, sim, de obrigá-los a discutir, porque estamos sob chantagem, mas a verdadeira chantagem que se arma contra nós é outra, muito mais séria que a que vemos hoje à superfície.

A verdadeira chantagem não está em nos ameaçarem com o fim da Grécia, se não nos acomodarmos sob o imperativo do choque neoliberal.

A verdadeira chantagem, hoje, é ameaçarem toda a Europa com o fim do euro e da União Europeia enquanto tal.

Por tudo isso, acreditamos que, dia 17/6, na Grécia, as forças da esperança vencerão o medo. A esquerda grega alcançará vitória decisiva, histórica, contra o Sr. [ininteligível], que nada é além de simulacro, cópia, do que foi, na França, o Sr. Sarkozy.

Entendemos que nossa vitória será o começo de grandes mudanças em toda a Europa.

Estou à disposição dos senhores, se houver perguntas [fim do vídeo].
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Assista também (em francês):
Alexis Tsipras e Mélenchon, em Paris: Front de Gauche Europeia
21/5/2012, 2ª feira, Paris – E o moço também é bom de palanque!

Segunda-feira, 21 de maio, 2012, a Europa estava na agenda dos líderes da Frente de Esquerda francesa e europeia. Sob a bandeira da PGE, Pierre Laurent, Alexis Tsipras e Jean-Luc Mélenchon falaram na Praça Herriot Edouard, a poucos passos da Assembleia Nacional