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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Interrompido Golpe de Estado na Venezuela



Enviado e publicado por Pedro Porfírio no Blog do Porfírio




Nesta terça-feira (16/4/2013) o governo venezuelano abortou um Golpe de Estado apoiado pela imprensa-empresa local e tramado pela CIA (EUA), com a direita derrotada nas eleições de domingo (14/4/2013) e elementos das Forças Armadas. Com a prisão de oficiais comprometidos e serenidade ante as provocações, o plano da CIA gorou por hora


Nicolás Maduro em pronunciamento oficial como presidente eleito
A Venezuela viveu nesta terça-feira, 16 de abril, o dia mais tenso de sua vida constitucional desde o frustrado golpe de abril de 2002. Até as quatro da tarde estava em marcha um plano golpista que foi temporariamente abortado pela maturidade política da militância chavista e pela firme demonstração de autoridade do presidente Nicolás Maduro, com o apoio dos vários escalões das Forças Armadas Nacionais Bolivarianos.

Desde segunda-feira, quando o chefe oposicionista de direita Henrique Capriles Radonski, derrotado nas eleições presidenciais de domingo, ordenou protestos violentos contra a proclamação de Maduro como vencedor das eleições, com o apoio de mercenários paramilitares em pelo menos 15 estados do país, sua expectativa era de criar uma situação semelhante a de 13 anos atrás, que redundou na deposição por dois dias do presidente Hugo Chávez.  


A agitação de rua levaria a uma sedição militar sob a liderança de dois generais e nove oficiais da Guarda Nacional, que operariam a partir do Comando de Apoio Aéreo de La Carlota. No entanto, uma rápida ação da Direção de Inteligência Militar deteve os potenciais sublevados ainda na noite de domingo, no mesmo momento em que Capriles Radonski declarava que não reconhecia o resultado anunciado pelo Conselho Nacional Eleitoral e ordenava as ações violentas de segunda-feira.

No plano internacional, o golpe teve o apoio ostensivo do governo norte-americano, que ainda não formalizou o reconhecimento da vitória de Maduro, e da Espanha, que lançou suspeitas sobre o pleito. Na manhã de terça-feira, enquanto a militância orgânica do Partido Socialista Unido da Venezuela se preparava para o contra-ataque sob o comando de Jorge Rodrigues, Maduro deu um ultimato ao governo espanhol e este reconsiderou sua postura.

Durante toda a segunda-feira, as agitações de rua ficaram por conta dos grupos ligados a Capriles, que apostava num confronto de grandes proporções com centenas de mortes. Com a ajuda de para-militares armados, esses grupos atacaram repartições públicas, tentaram tomar a estação estatal de TV e forçar uma paralisação das empresas por ordens dos patrões.

Blanca Eekhout
Maduro avisou que poderia radicalizar com a tomada das empresas por seus trabalhadores. “fábrica parada será fábrica ocupada” – advertiu a deputada chavista Blanca Eekhout, em emocionante pronunciamento na Assembléia Nacional. Mas as organizações sociais chavistas surpreenderam e não reagiram à violência espalhada, apesar das sete mortes registradas, 62 feridos e de mais de mil pessoas atendidas nos hospitais das cidades onde os grupos de direita incendiavam objetos nas ruas e atacavam inclusive sete Centros de Diagnóstico Integral, onde trabalham médicos e enfermeiros cubanos dentro de um convênio que já produziu grandes mudanças positivas nos índices de saúde dos venezuelanos.  

Esses ataques, que tiveram requintes de violência e destruição, foram registrados nos Estados de Táchira, Miranda, Anzoátegui, Carabobo e Zulia. O pretexto usado era de que havia propaganda de Maduro nesses centros médicos.

Os sete mortos foram atacados em pontos diferentes do país quando ainda celebravam a vitória de Maduro. Alguns foram atingidos por balas disparadas pelos para-militares contratados pelo “Comando Simon Bolívar”, o comitê eleitoral do candidato da direita. O relato documentado dos crimes, com os nomes das vítimas e as condições em que foram executadas, foi apresentado no final da tarde de terça-feira pelos ministros do Exterior, Elias Jaua, e Comunicação e Informação, Ernesto Villegas.

A resposta firme contra a tentativa de golpe

Na Assembléia Nacional, o seu presidente, deputado Diosdado Cabello, responsabilizou Capriles Radonski pela violência desencadeada. Coronel da reserva e parceiro de Hugo Chávez desde a insurreição militar de 1992, Cabello escreveu em sua conta no twitter:

“Capriles fascista, eu vou pessoalmente cuidar para que você pague por todos os danos que está causando ao nosso país e ao nosso povo”.

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Na sessão da tarde de terça-feira, a deputada Blanca Eekhout, segunda-vice presidente da Assembléia, depois de emocionado discurso, leu uma resolução aprovada pelos colegas apoiando as investigações do Ministério Público e acusando formalmente Capriles pela onda de violência de segunda-feira.

Com o passar do dia, o líder direitista foi se vendo isolado, apesar do apoio reiterado do governo norte-americano. Ele contava com uma grande marcha hoje à sede do Conselho Nacional Eleitoral, onde fica a memória de todo o processo eleitoral, numa movimentação que poderia degenerar na invasão de suas instalações e destruição dos seus documentos.

Depois de reunir-se com o comando das Forças Armadas, o presidente Nicolás Maduro anunciou, ao meio dia, a proibição dessa marcha que teria consequências incontroláveis.

O recuo dos golpistas isolados

Até as quatro da tarde, Capriles e seu staff se mostravam dispostos a desafiar a proibição. Mas a repercussão negativa das ações violentas de segunda-feira, as dúvidas sobre qual atitude tomaria a militância chavista organizada e a detenção dos 11 oficiais que puxariam o golpe militar o deixaram confuso.

Às cinco da tarde, convocou uma entrevista coletiva, com a presença de jornalistas estrangeiros, e anunciou seu recuo, alegando que fora informado por amigos da inteligência militar que os chavistas infiltrariam provocadores dentro da marcha. Não era bem isso: ele queria transformar o centro de Caracas numa praça de guerra, más já começava a ver-se ameaçado até de perder o cargo de governador do Estado de Miranda, diante de acusações documentadas de incitação à sublevações.


Ao final da coletiva, mudou totalmente seu discurso inicial, conclamando seus partidários com ênfase a não saírem de casa hoje: “quero dizer aos venezuelanos e ao governo que todos nós aqui estamos prontos para abrir um diálogo para que esta crise possa ser resolvida nas próximas horas”.

Informado que a recontagem prevista de 54% das urnas havia sido encerrada sem registrar um único erro, tentou se explicar: “Não se trata de reconhecer ou não os resultados eleitorais de domingo. Estou simplesmente pedindo a recontagem de todos os votos”.

Acusado pelo Ministério Público de não haver apresentado nenhum documento que justificasse a incitação à desordem, ele disse que hoje fará chegar ao CNE petição neste sentido.

A ameaça golpista ainda persiste

Apesar do anúncio do próprio presidente Nicolás Maduro de que todos os focos de violência haviam sido neutralizados, com a prisão de mais de 150 pessoas envolvidas diretamente nos ataques de rua, ainda acho cedo para dizer que a intentona golpista foi totalmente debelada.

Esta foi a maior operação já comandada pela CIA, através de algumas ONGs financiadas pelos Estados Unidos, e teve relativo êxito: primeiro, com a morte do líder Hugo Chávez, à semelhança do que aconteceu com o líder palestino Yasser Arafat. Depois com a votação do oposicionista, que derramou muito dinheiro na compra de votos em redutos chavistas, enquanto prometia manter todos os programas sociais do governo.  


Neste caso, houve um deslocamento de 1 milhão de votos dados em outubro a Chávez para Capriles, o personagem sob medida para o golpe: 41 anos, bilionário, audacioso, carismático, celibatário é um fanático da direita (foi da TFP da Venezuela) bem treinado: já no golpe de 2002, quando era deputado, teve atuação de destaque, inclusive na invasão à Embaixada de Cuba.

Na liderança dos países exportadores de petróleo, a Venezuela tem hoje a maior reserva do mundo e adota um programa de diversificação econômica que tem sido muito interessante para empresas brasileiras e argentinas. Ao contrário do que imaginava a direita e seus monitores da CIA, Maduro, um ex-motorista de ônibus, demonstrou nessas últimas 48 horas que vai ser um osso duro de roer, com a mesma têmpera do coronel Hugo Chávez e uma militância orgânica maior.

Já na sexta-feira próxima, 19/4/2013, estará prestando juramento como novo presidente da República Bolivariana da Venezuela. E isso ainda não foi engolido pelos que conceberam o sofisticado golpe “tecnológico” que tirou a vida do Comandante Chávez aos 58 anos e quase trouxe a direita golpista de volta ao poder em Caracas.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Dama de ferro não virou santa



Dama de ferro? Enferruge em paz

Publicado em 16/04/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

A morte de Margaret Thatcher de alguma forma provocou um fenômeno raro, não só na própria Grã -Bretanha como também em várias partes do mundo. Desta vez a morta não virou santa, muito pelo contrário. Foi hostilizada pelos que sofreram as agruras do modelo neoliberal implantado pela dama de ferro.

A torcida do Liverpool, pelo menos desde 1989 quando ocorreu um episódio repressivo sangrento com mais de 90 mortos, cantava com palavras comemorativas a morte da dama de ferro. Além disso, a política de Thatcher fez muito mal aos trabalhadores da região. Antes mesmo de se tornar primeira ministra, ao ocupar o Ministério da Educação, Margaret Thatcher cortou o leite das crianças nas escolas.

Quando Augusto Pinochet estava em prisão domiciliar em Londres aguardando pedido de extradição para a Espanha feito pelo juiz Baltazar Garzón, madame Thatcher visitava o ex-ditador e agradecia a ele por ter ajudado o Reino Unido durante a guerra das Malvinas. Thatcher chegou até a afirmar que Pinochet restabeleceu a democracia no Chile.

Como se não bastasse, antes mesmo do reconhecimento de Pinochet, Madame Thatcher dizia que Mandela era terrorista. E assim caminhava a dama de ferro.

Independente de tudo isso, por aqui os defensores da política criminosa executada pela dama de ferro chegaram a comentar como seria bom para o Brasil ter uma dama de ferro para levar adiante as reformas necessárias para, segundo eles, modernizar o país. Esta foi a opinião exposta pelo analista econômico das Organizações Globo, Carlos Alberto Sardenberg.

Mas, no Congresso, o Senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, discursou lembrando passagens nefastas protagonizadas pela dama de ferro, deixando perplexos alguns senadores acostumados com a cultura da santificação de personagens que morrem, sobretudo os propagadores da ideologia da falecida dama de ferro.
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Eleição venezuelana - Um mês após a morte do Presidente Hugo Chávez, a direita venezuelana e seus apoiadores pelo mundo afora comemoravam o acontecimento. Em alguns muros de Caracas, por exemplo, os apoiadores do candidato Henrique Capriles pichavam a seguinte frase: “viva o câncer”.

Nos primeiros dias que se seguiram a morte de Chávez, a mídia conservadora ainda procurou esconder o contentamento, mas aos poucos transferiu o ódio que nutria pelo Presidente ao seu herdeiro político, Nicolás Maduro.

E nos dez dias da campanha eleitoral venezuelana, a mesma mídia de mercado, apoiadora em gênero número e grau de madame Thatcher, encheu a bola de Capriles. Não tiveram a coragem de concluir que o candidato da direita pudesse ganhar de Maduro.

Mesmo com a eleição de Maduro, a direita de todos os quadrantes continuará tentando produzir fatos midiáticos com o objetivo de enfraquecer o presidente eleito e evitar a continuidade da Revolução bolivariana.

Maduro é o sucessor do comandante da Revolução Bolivariana, Hugo Chávez. E ninguém poderá dizer que não há democracia na Venezuela. Capriles com o apoio do governo estadunidense tenta contestar a eleição denunciando fraude, passando por cima das conclusões de observadores estrangeiros, entre os quais os integrantes da Fundação Carter.

Maduro ganhou por pouco mais de 200 mil votos de diferença, enquanto Capriles se elegeu governador de Miranda com 30 mil votos de diferença. Mas isso a mídia de mercado prefere não lembrar, porque enfraqueceria os argumentos do candidato apoiado pelo Departamento de Estado norte-americano.
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No vizinho Paraguai, as atenções se voltam para o próximo domingo (21), quando cerca de três milhões e 500 mil eleitores estarão escolhendo o próximo Presidente da República, renovando a Câmara dos Deputados, integrada por 80 parlamentares, e 45 senadores.

Na disputa presidencial, o candidato do Partido Colorado, Horacio Cartes despontava em primeiro lugar nas pesquisas, seguido de perto pelo indicado pelo Partido Liberal Autêntico, o ex-ministro do governo Fernando Lugo, um tal de Efrain Alegre, apoiado pelo atual presidente de fato Federico Franco, que assumiu a presidência depois de um golpe parlamentar. Mas novas pesquisas indicavam alterações do quadro, o que torna difícil uma previsão.

Mario Ferreiro, candidato de esquerda, aparecia em terceiro lugar, enquanto outro candidato de esquerda, Aníbal Carrillo Iramaín, da Frente Guazú, o partido de Lugo, encontrava-se mais abaixo. O presidente deposto por golpe parlamentar, Fernando Lugo, é candidato ao Senado.

Horacio Cartes é acusado de ter vínculos com o narcotráfico e domina a venda de cigarros falsificados na fronteira do Paraguai com o Brasil. Cartes nega a primeira acusação.

Para se ter uma ideia do perfil de Cartes, ao ser indagado sobre o que faria se tivesse um filho gay e defendesse a união afetiva, o candidato respondeu sem pestanejar: “daria um tiro nas minhas próprias bolas”.

Em tempo: Depois de observar 91 eleições em várias partes do mundo, Jimmy Carter concluiu que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”. O que terá a dizer Capriles e o Departamento de Estado norte-americano?
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Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de “América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE”.

Enviado por Direto da Redação

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A derrota de Washington contra Cuba e Venezuela


14/4/2013, Nikolas Kozloff, Al-Jazeera, Qatar
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nicolás Maduro, eleito presidente da Venezuela
Se as pesquisas estiverem corretas, Nicolás Maduro, sucessor de Hugo Chavez, provavelmente derrotará a oposição nas eleições deste domingo (14/4/2013), o que garantirá e firmará ainda mais os laços entre Cuba e Venezuela. É resultado que causará patético desapontamento em Washington, que há 40 anos só faz tentar impedir que essa aliança prospere.

Prova da paranoia dos EUA contra Cuba, encontra-se facilmente nos chamados “Arquivos Kissinger”, telegramas importantes do Departamento de Estado tornados acessíveis à opinião pública, mais uma vez, pela organização WikiLeaks [orig. Kissinger files, 1,7 milhão de telegramas, acessíveis para pesquisa em  (NTs)]. A correspondência, com datas de 1973 a 1976, mostra a obsessão de Henry Kissinger, ideia fixa, com pôr Cuba sob cerco fechado, em quarentena, mantida à maior distância possível dos EUA.

No final de 1973, diplomatas norte-americanos já manifestavam preocupação com os movimentos da Venezuela para pôr fim ao isolamento diplomático de Cuba; estavam especialmente preocupados com a possibilidade de que Caracas “organizasse a maioria, na Organização dos Estados Americanos, OEA, para aprovar resolução permitindo o restabelecimento de relações com Cuba”. Ainda em 1973, Washington também estava muito perturbada com relatórios de que navios venezuelanos haviam partido rumo a Cuba, para receber grandes carregamentos de açúcar. Diplomatas dos EUA consideravam a ideia de cortar qualquer ajuda a Caracas, como retaliação.  

Nikolas Kozloff
Esses desenvolvimentos não assustavam só o Departamento de Estado; exilados da direita anticastro também se agitaram. Segundo a Embaixada dos EUA em Caracas, os exilados estavam “apavorados” ante a possibilidade de o COPEI, partido então no poder na Venezuela, viesse a restabelecer relações com Cuba.

Em movimento claramente golpista, os exilados planejaram publicar anúncios de página inteira em vários jornais, contra o governo do COPEI. Na esperança de castigar o COPEI nas urnas, grupos de exilados anticastristas apoiaram o partido Ação Democrática (AD), na eleição presidencial de 1973. Como a embaixada observava,  aquele apoio revelara-se decisivo, quando “empresários cubanos-venezuelanos altamente influentes, apoiados em dinheiro cubano-em-Miami” ajudaram o candidato da AD, Carlos Andrés Perez (referido várias vezes, nos telegramas, como “CAP”), a chegar à vitória eleitoral.

A ascensão de “CAP”

Carlos Andrés Pérez
Mas se Kissinger ou os exilados cubanos esperavam que Perez seria facilmente manobrável para aceder aos planos deles, acabariam tristemente desapontados. A história não tem sido generosa com Carlos Andrés Perez, sobretudo por causa de seu segundo e desastroso mandato, de 1989 a 1993, período durante o qual o veterano político seguiu à risca os diktats do Fundo Monetário Internacional (FMI), a ponto de levar a Venezuela à beira o colapso social.

Mas, em sua primeira encarnação, nos anos 1970s, Carlos Andrés Perez foi visto como nacionalista e não raras vezes incluído entre os grandes personagens políticos do circuito do Terceiro Mundo. Entre 1974 e 1979, durante o primeiro mandato presidencial, Andrés Perez nacionalizou empresas de petróleo norte-americanas e construiu programa com investimentos massivos em projetos sociais. 

Em carta dirigida a Kissinger em Washington, o embaixador dos EUA em Caracas protestava que a Venezuela “tem hoje força econômica e a liderança política de CAP para fazer valer sua vontade bem além das próprias fronteiras”. E o diplomata acrescentava:

A crise de energia e a vitória eleitoral do presidente Carlos Andrés Perez em dezembro de 1973 coincidiram e, juntos, os dois fatores alteraram a percepção que a Venezuela tem dela mesma e de seu papel mundial.

Henry Kissinger
Exatamente como Chávez cerca de 20 anos depois, CAP estava “emergindo rapidamente como figura de proa no hemisfério”. Servindo-se dos altos preços do petróleo, CAP havia convertido a Venezuela em grande distribuidora internacional de ajuda para o desenvolvimento. Pessoalmente, o embaixador dos EUA temia que Andrés Perez já estivesse “grande demais” para ser contido localmente, dado que o jovem político “está-se convertendo, rapidamente, em porta-voz da América Latina para todo o mundo em desenvolvimento, ocupando o lugar de nações desenvolvidas, especialmente dos EUA”.

Lendo os Arquivos Kissinger, somos tomados por uma inacreditável sensação de déjà vu. Se se leem aqueles telegramas paranóicos, do discurso paranóico dos norte-americanos, tem-se a impressão de que aqueles diplomatas não falam de algum Andrés Perez, mas do carismático presidente Hugo Chávez. De fato, essa equivalência quase absoluta só faz demonstrar que Washington sempre fez feroz oposição a qualquer político nacionalista que emergisse na Venezuela, sobretudo se ameaçasse, fosse como fosse, as prioridades dos EUA no Caribe. O que mais temiam – os diplomatas norte-americanos e os exilados anti-Castro – era que Andrés Perez usasse seu recém descoberto peso diplomático, para aproximar-se de Fidel Castro.

Aumenta a pressão contra Cuba

Em maio de 1974, o embaixador dos EUA em Caracas chamou às falas o ministro de Relações Exteriores da Venezuela, exigindo explicações sobre matérias de jornal que noticiavam que a Venezuela desejava importar açúcar cubano. O embaixador dos EUA relata que disse ao ministro que “teria prazer em examinar novos meios e modos para conseguir açúcar para a Venezuela, importado de outros países, não de Cuba”. Desafiador, o presidente Andres Perez respondeu que “pretendemos prosseguir nessa linha de trocas comerciais, inclusive a troca de arroz venezuelano por açúcar cubano”. Claro que, no início de 1975, a embaixada dos EUA em Caracas já sabia que havia um navio carregado de arroz venezuelano num porto local, que logo partiria rumo a Cuba.

Muito mais grave que isso: a embaixada dos EUA em Caracas estava à beira do pânico, ante a possibilidade de que Andrés Perez começasse a embarcar petróleo para Cuba, caso fossem levantadas as sanções impostas OEA. Os soviéticos já davam sinais de querer reduzir a dependência cubana do petróleo transportado diretamente da URSS, e Perez, de fato, já dissera, em comentário privado, que Moscou o estava “pressionando” para que embarcasse petróleo para a ilha comunista. No final de 1976, Andres Perez deu um passo adiante, depois de viagem à URSS, ocasião em que fechou um negócio de exportação de petróleo para Cuba.
Venezuela reatou relações diplomáticas com Cuba em 1976. Carlos Andrés Pérez (E), Fidel Castro (C) e Felipe González - PM da Espanha na época (D)

No front diplomático, Andrés Perez assustou muito os EUA, quando reatou relações com Cuba. Em Caracas, os cubanos inauguraram sua nova embaixada, e sabia-se que o pessoal diplomática incluía cinco conhecidos especialistas em inteligência. A agência cubana de notícias, Prensa Latina, expandia simultaneamente suas atividades na Venezuela. Em Washington, Kissinger dava sinais cada vez mais claros de alarme, preocupado com a possibilidade de a Venezuela e outras nações solidárias a ela agirem para remover as sanções da OEA contra o regime cubano. O secretário de Estado imediatamente instruiu a equipe para que adiasse qualquer votação nesse sentido, na OEA. Andrés Perez não se deixou intimidar. Em novembro de 1974, organizou uma conferência da OEA em Quito. E, quando não obteve o número necessário de votos, dirigiu sua indignação diretamente à embaixada dos EUA: disse que Washington chantageara vários países, para que se abstivessem ou votassem contra a iniciativa da OEA. 

Andrés Perez reage ao ataque de Posada

Talvez ingenuamente, Andrés Perez disse a diplomatas dos EUA que tinha interesse em converter-se numa espécie de “ponte” entre Washington e governos latino-americanos pouco amistosos. Privadamente, funcionários norte-americanos relataram que a Venezuela, “grande fornecedora de petróleo para os EUA” era “importante demais para que se crie qualquer relacionamento adversário entre os dois países”. “Se escolhermos combater abertamente a maior unidade latino-americana” – escreveu o embaixador dos EUA – “os EUA expõem-se ao risco de arranhar seus mais altos interesses na Venezuela, agravando suas relações no hemisfério”.

Fossem quais fossem os sentimentos no Departamento de Estado, a CIA tinha outros projetos em mente. Ainda furiosos com a traição de Andrés Perez, cubanos anti-Castro organizaram um golpe contra a ilha. Uma das figuras centrais foi o cubano de nascimento, Luis Posada Carriles, há muito tempo colaborador da CIA. Nos anos 1970s, Posada mudou-se para a Venezuela, para supervisionar as operações de espionagem dos EUA. É considerado responsável pelo pior ataque terrorista no hemisfério até então, um ataque contra o avião que fazia o voo 455 da empresa Cubana, que partiu de Caracas em rota para Cuba em outubro de 1976. Pouco depois de partir de uma breve escala em Barbados, o avião explodiu em pleno ar, matando os 73 passageiros a bordo.


Oficialmente, Posada já não estaria a serviço da CIA no momento desse atentado; teria deixado a agência em julho. Jamais se encontrou qualquer prova de que a CIA é diretamente responsável pelo atentado, mas inúmeras circunstâncias sugerem fortemente que Posada teria avisado antecipadamente a agência, de que haveria uma explosão naquele voo. Mas, em Caracas, o governo de Andrés Perez começava a suspeitar de que os EUA tivessem participação ativa em tudo aquilo. Desqualificando como “propaganda” os protestos dos cubanos, contra as ações de desestabilização coordenadas pelos EUA, os diplomatas norte-americanos asseguraram aos venezuelanos, embora sem os convencer, que “não havia qualquer conspiração pra desestabilizar coisa alguma”.

Apesar das muitas denúncias de corrupção que circulavam contra seu governo, Andrés Perez ainda tinha credibilidade suficiente para concorrer a um segundo mandato como presidente, em 1988. Com plataforma nacionalista contra a Ação Democrática, Andrés Perez foi reeleito. Imediatamente, contudo, mudou de rumo e direção e passou a adotar políticas pró-EUA, impulsionadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Em 1992, Andrés Perez enfrentou tentativa de golpe militar, comandado por Hugo Chávez e outros. Chávez foi preso. Poucos anos depois, foi eleito presidente e democraticamente reeleito em 1998. Com Chávez, afinal, o sistema bipartidário corrompido de Ação Democrática e COPEI foi desmontado.

Hugo Chávez
Ironicamente, embora Chávez tenha construído toda sua carreira política criticando os excessos de Andrés Perez, o ex-militar construiu política externa muito semelhante à do primeiro governo de Perez, a favor de abrir relações com Cuba e muito desafio retórico contra os EUA. Nisso, com certeza, Washington só conseguiu piorar as coisas para ela mesma, sempre que trabalhou para derrubar Chávez. Só conseguiu empurrar a Venezuela para laços cada vez mais firmes e profundos, com Cuba. Essa, sem dúvida, é a principal impressão que fica, da leitura da vastíssima correspondência diplomática distribuída pela organização WikiLeaks, no evento conhecido como “Cablegate”.

De Andrés Perez a Chávez

Dando andamento à abertura que Andrés Perez iniciara nos anos 1970s, Chávez inaugurou linhas comerciais regulares, além de voos militares, entre Cuba e a Venezuela. Noutro movimento, mais profundo, ampliou a influência cubana também nos portos da Venezuela. Ainda mais importante, Chávez tornou-se tão ligado aos irmãos Castro que usava diretamente a informação que lhe chegava da inteligência cubana, em alguns casos vetando, inclusive, relatórios dos próprios serviços de inteligência da Venezuela. Com as relações diplomáticas melhorando entre Venezuela e Cuba, os contatos do governo com a Embaixada dos EUA em Caracas entraram em queda livre.

Os telegramas distribuídos pela organização WikiLeaks expõem também com muita clareza um esquema que levou a Venezuela a trocar petróleo venezuelano por assistência médica prestada por profissionais cubanos. Eco, provavelmente, de aberturas iniciadas também por Andrés Perez, Venezuela e Cuba também trabalham associadas hoje num canal de televisão, que distribui noticiário para todo o hemisfério, Telesur. E, como se ainda faltasse alguma coisa, os EUA desconfiam que Cuba ofereceu know how altamente especializado de comunicação, além de tecnologias, para expandir a base nacional de registro de eleitores.

Espantosa ironia é que, até hoje, o caso Posada ainda seja apresentado como “produtivo” pela inteligência dos EUA, dado que só serviu, se serviu para alguma coisa, para aproximar ainda mais Cuba e Venezuela. Na verdade, os dois países já tentaram obter a extradição de Posada, que atualmente reside abertamente em Miami. Na recente campanha presidencial, Maduro, candidato indicado por Chávez, denunciou que Posada estaria ligado a um grupo de mercenários que trabalhavam para assassiná-lo. 

Se se examinam os 40 anos passados, durante os quais Washington não fez outra coisa além de tentar impedir que prosperasse uma aliança que começou muito frágil, entre Cuba e Venezuela, a sensação que se tem é de amplo, profundo, vastíssimo desperdício de trabalho diplomático e político, para nem falar das muitas ações do Departamento de Estado que só podem ser definidas como moralmente pervertidas.

De Kissinger a WikiLeaks, o que se vê é que a campanha contraproducente que os EUA movem contra Cuba e a Venezuela só conseguiu inflar cada vez mais a opinião pública contra os EUA. Tornou a Venezuela muito mais firmemente nacionalista, já quando Chávez apareceu no cenário, nos anos 1990s.

Agora, com a muito provável eleição de Maduro nas eleições presidenciais, o que acontecerá é que os laços entre Cuba e Venezuela se aprofundarão cada vez mais. E mais uma vez se comprovará o absoluto, total fracasso, no mínimo a completa falência, da política externa dos EUA, já documentada, desde Kissinger.



domingo, 14 de abril de 2013

Venezuela sinaliza um futuro pós-neoliberal: Morreu Thatcher. Chávez vive!


12-14/4/2013, George Ciccariello-Maher, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu





“Mãe: Oh, meu filho, que morte perversa, danosa.
Rebelde: Oh, mãe, que morte fecunda, copiosa.
Mãe: Morte feita de tanto ódio.
Rebelde: Morte só de amor feita.”




George Ciccariello-
Maher

Duas mortes, e significados diametralmente opostos, evidentes nas respostas imediatas que provocaram. Uma foi recebida em luto, por milhões de homens e mulheres que encheram as ruas de Caracas, à espera de um minuto para a última despedida do comandante morto. A outra foi recebida em festa, nas ruas de Brixton e Glasgow, e por uma avalanche de postados cômicos nas redes sociais, sobre a iminente privatização do inferno. Mas enquanto as multidões reuniam-se espontaneamente para celebrar o fim físico da Dama de Ferro do neoliberalismo, Margaret Thatcher, os eleitores na Venezuela encaminham-se para as urnas para pregar mais pregos no caixão dela e enterrar o legado dela, elegendo um sucessor revolucionário para Hugo Chávez.

 

“Filhos de 1989”

 

A 4ª Guerra Mundial começou na Venezuela e foi guerra contra Thatcher e a gangue dela. Em fevereiro de 1989, Ronald Reagan acabava de passar o bastão para George H.W. Bush, e Thatcher manobrava para impor um seu “imposto comunitário” (orig. Poll Tax [2]), que seria recebido com tumultos épicos em Trafalgar Square no ano seguinte. Enquanto isso, na Venezuela, chegava ao poder um novo governo, com projeto aparentemente diferente. O socialdemocrata de centro Carlos Andrés Pérez fora eleito com plataforma antineoliberal, prometendo resistir ao pagamento da dívida externa, falando contra o FMI: “é uma bomba que só mata os mais pobres”.

 

Mas, chegado ao poder, mudou tudo. Pérez virou repentinamente a casaca, e instituiu o Consenso de Washington, neoliberal, ao pé da letra: pôs-se a privatizar e desregular; os pobres imediatamente perceberam que as coisas, dali em diante, pelo menos para eles, só poderiam piorar. Mas enquanto nos EUA e na Grã-Bretanha as populações iam dolorosamente engolindo a pílula amarga do neoliberalismo, sob a ilusão de que não haveria alternativa possível, os venezuelanos inesperadamente, puseram a saquear e pôr fogo no que encontrassem à mão, e começaram a tornar surpreendentemente possível o tal impossível.

 

Foi o chamado “Caracazo,” rebelião popular, de massa, nas ruas, que destruiu, em dias, o mito do excepcionalismo venezuelano e sua ilusória estabilidade. O Caracazo destruiu o sistema existente da democracia corrupta de dois partidos e abriu espaço para Hugo Chávez, ele próprio uma cristalização de demandas políticas jamais atendidas e aspirações nunca realizadas. Como se lia em graffiti nos muros, em Caracas: Somos os filhos de 1989, em revolução

 

Hoje, Chávez já se foi. E a guerra contra o neoliberalismo continua. Se, vivo, Chávez só muito raramente foi respeitado pela imprensa-empresa internacional – de fato, era personagem sobre o qual o “jornalismo” podia escrever, televisionar e dizer literalmente o que bem entendesse – por que esperar que fosse diferente, com Chávez morto? E lá estava: enquanto prosseguiam nas ruas as festas post-mortem contra Thatcher e o luto popular emocionado, por Chávez, o Guardian pressuposto muito progressista, fazia caminho inverso.

 

O obituário de Thatcher foi quase polido, não tivesse Rory Carroll, perfeito campeão “jornalístico” do absurdo, inventado um verniz de respeitabilidade para todos que gritassem um “já vai tarde” ao recém-falecido presidente Chávez. Carroll ainda sofre a vergonha de uma lição que Chávez lhe deu, pessoalmente. Por mais que volta e meia fale do assunto, nunca contou a história como realmente aconteceu. [3]

 

Esse bastião do liberalismo nos EUA, a revista The New Yorker não se saiu melhor. Um jornalista da empresa, Jon Lee Anderson, viu-se envolvido em um escândalo, quando, ao que se diz, estaria verificando fatos; mas a verdade é muito pior. A empresa The New Yorker chegou a corrigir dois dos principais erros de Anderson (Anderson publicou que a Venezuela seria campeã em número de assassinatos na América Latina; e, adiante, que Chávez teria chegado à presidência por golpe de Estado, não em eleições). Mas a empresa jamais corrigiu o principal vício de tudo que Anderson sempre escreveu: que os pobres, na Venezuela, seriam “vítimas de seu amor” por Chávez.

 

Afinal, no que tenha a ver com o comandante morto, tudo é permitido, no “jornalismo” atual.

 

Mas se Chávez sempre foi e continua a ser esquartejado pela imprensa-empresa, todos podemos nos consolar, porque a maioria dos venezuelanos simplesmente não toma conhecimento, nem acredita no que publicam os jornais e as televisões. Todas as pesquisas indicam que o candidato da direita, Henrique Capriles Radonski, será mais uma vez derrotado (hoje) pelo candidato indicado por Chávez, o ex-motorista de ônibus e líder sindicalista Nicolás Maduro. Os números das pesquisas refletem também as divisões internas, dentro da oposição a Chávez, que não se entendem, sequer, em termos de programa e estratégia.

 

As divisões dentro da oposição a Chávez

 

Na verdade, ante a derrota anunciada e praticamente certa, muito do que a oposição faz na Venezuela não passa de encenação para o público internacional. Por exemplo: recentemente, a coalizão de partidos que apoiam Capriles convocou recentemente uma conferência de imprensa para “denunciar” irregularidades no sistema eleitoral, que “um membro do PSUV [Partido Socialista Unido da Venezuela] teria a senha para inicializar e encerrar o sistema das urnas eletrônicas”. Mas, quando jornalistas o pressionaram para que desse detalhes da “denúncia”, Ramón Aveledo, secretário-executivo da coalizão de oposição reconheceu que a senha “não põe em risco o sistema eleitoral,  nada tem a ver com o software eleitoral, nem permite identificar os eleitores, nem a contagem de votos, nem a transmissão dos dados”.

 

O que se conclui do “evento”? Se o objetivo era desacreditar o sistema eleitoral, difícil imaginar fracasso mais patético. Mas a “denúncia” mostra que há divisões irreconciliáveis dentro da própria oposição. Não tem maioria, não vence eleições e, sem conseguir eleger-se pelos votos, a oposição na Venezuela vive tentando desacreditar as próprias eleições, em vez de buscar meios para eleger-se democraticamente.

 

Esse tipo de falta de perspectiva e possibilidades eleitorais levou à enlouquecida tentativa de golpe contra Chávez há exatos 11 anos, que não durou nem 47 horas, derrotada pelas mesmas massas que os golpistas, como sempre fizeram, subestimaram tão estupidamente. Com aquele golpe derrotado, a oposição só fez entregar ao governo Chávez a taça de plena legitimidade democrática. Muitos antichavistas se autocondenaram a passar anos tentando apagar o carimbo de “golpistas” que estamparam na própria testa. Até hoje, nada conseguiram. Depois que Chávez varreu a oposição da cena eleitoral, em 2006,  pela primeira vez, a maioria da oposição passou a aceitar os resultados eleitorais, rendidos à evidência de que a urna, não os golpistas, é a melhor garantia para a democracia na Venezuela.

 

Mas render-se à via eleitoral não resolve o problema de não ter votos, e enquanto tenta silenciar os absenteístas (a parte da oposição que prega a abstenção, para não votar em Capriles), os anti-Chavistas também trataram de caminhar alguns passos em direção ao centro, afastando-se da extrema direita, pelo menos em palavras, à procura de votos. Capriles e outros têm-se autoapresentado como socialdemocratas, sugerindo que não abolirão – apenas “aprimorarão” – os programas sociais, como as Missiones Bolivarianas. Não faz sentido e não convence ninguém, se se vê o que acontece no estado de Miranda, onde, quando governador, a primeira providência de Capriles foi assaltar as Missiones, a começar pelos centros de saúde e clínicas populares onde trabalham médicos cubanos, na Missión Barrio Adentro.

 

Capriles se autoboicota, também, quando apoiadores seus ocupam e vandalizam, como fizeram recentemente, um prédio de apartamentos em construção, parte do projeto de moradias para os mais pobres, do projeto Misión Vivenda [Missão Moradia]. Os que há tanto tempo atacam como “invasores”, os venezuelanos sem-teto que ocuparam um prédio abandonado, ou um pedaço de terra improdutiva, agora atacam um projeto chavista de dar casa aos pobres. E enquanto Capriles sempre evitou criticar diretamente Chávez, e pôs-se a atacar Maduro por não seguir o exemplo de Chávez, alguns de seus seguidores exibiam as velhas garras de sempre: pintaram graffitis de “viva o câncer”.

 

Quanto a Capriles, cujo sobrenome, só ele, já o expõe como porta-voz da elite mais decadente (e milionária), não há o que faça que consiga apagar o próprio passado. No segundo turno das eleições de outubro de 2012, circulou na Venezuela um documento vazado, no qual se lia um “Plano de Governo” de um hipotético governo Capriles. Embora tenha sido denunciado como falso por alguns, o tal plano correspondia exatamente ao que muitos sabiam de Capriles: com ele, voltaria à mesma selvageria neoliberal que levou ao Caracazo. Não é fácil apagar o próprio passado.

 

As tropas de choque de Thatcher

 

Mas o quanto da mensagem da oposição tem raízes na realidade? Talvez seja excesso de generosidade acreditar no que Capriles diga. Não há dúvidas de que até Capriles percebe a contradição: se critica o sistema eleitoral como injusto, desestimula os seus correligionários, que desistem de votar. Mas não faz outra coisa além de dizer que votem. Assim, ajuda a derrotar o próprio projeto eleitoral.

 

Embora haja uma espécie de vingança histórica no fato de que essa eleição se realize no dia do aniversário da volta triunfante de Chávez, não podemos deixar que o triunfalismo nos impeça de ver os abutres que voam sobre a democracia socialista da Venezuela. A imprensa-empresa internacional está mobilizada para desacreditar o sistema eleitoral venezuelano, e setores da oposição já começaram a manobrar, sugerindo que algo poderá acontecer.

 

Na 2ª-feira à noite, circularam notícias de que um acampamento de militantes da extrema direita, da JAVU (Juventude Ativa da Venezuela Unida), que estão em greve de fome, teriam sido atacados por grupos de “camisas vermelhas”, em motocicletas, rapidamente “identificados” como “Chavistas”. Para muitos, a “armação” é evidente, dado que os chavistas nada teriam a ganhar com esse tipo de ação, às vésperas das eleições. E a polícia de Chacao, controlada pela oposição, não interveio

 

Pelo que já se sabe, havia chavistas de Chacaoenvolvidos no tumulto, mas foram atacados por militantes da JAVU. O que explica, automaticamente, o motivo pelo qual a polícia local nada fez para interromper o ataque: por que intervir, se o seu próprio lado está atacando? Assista vídeo a seguir:

 

Esse tipo de ataque exibe todas as características típicas de ações da JAVU, organização que, ao mesmo tempo em que fala em nome da não violência estratégica, como a Albert Einstein Institution, tem longo passado de ações violentas (associada a um grupo de exilados, com base em Miami, o grupo Orvex). A JAVU sempre esteve associada a ataques violentos, de provocação, em toda a Venezuela, desde ataque a chavistas em Mérida, até uma tentativa de incendiar o Conselho Legislativo do estado de Miranda. Em Mérida, encontrou-se um smartphone no qual estava gravado o manual das ações da JAVU para os dias seguintes: não reconhecer os resultados eleitorais e tomar as ruas custe o que custar”.

 

Na 4ª-feira apareceram notícias ainda mais preocupantes. Primeiro, o próprio Capriles recusou-se publicamente a assinar documento no qual prometia respeitar os resultados das eleições, insistindo que se mudasse a redação, para categoria mais flexível: aceitaria assinar, se o documento falasse de respeitar “o desejo popular”. Dado que Capriles já assinara documento semelhante antes das eleições de 2012, é caso para pensar por que teria mudado, agora, a própria estratégia. A recusa preocupa, porque foi imediatamente associada ao texto divulgado de um telefonema, no qual um dos guarda-costas pessoais de Capriles diz que o candidato da oposição não reconhecerá a derrota – fato que, ironicamente, mostra que nem o guarda-costas de Capriles sonha com vitória eleitoral.

 

Não há dúvidas de que tudo sugere fortemente que um governo Maduro terá de enfrentar tentativa pós-eleitoral de golpe. Outro telefonema também vazado sugere que há esquadrões da morte, vindos de El Salvador, que planejam ataques durante a eleição, e que parecem ter laços diretos com o próprio Capriles. Foram presas 17 pessoas, acusadas de tentar sabotar redes elétricas, para provocar blecautes. Se se considera que até o governo Obama já disse que suspeita de que as eleições na Venezuela não sejam “limpas e transparentes”, todos esses são sinais preocupantes, para dizer o mínimo.

 

Uma aurora pós-neoliberal

 

Frantz Fanon disse certa vez, em frase que ficou famosa, que “Para o colonizado, a vida só pode brotar do cadáver apodrecido do colonizador”. Festejar a morte necessária do inimigo leva consigo, embora pela via negativa, um programa político positivo, e os britânicos que festejam nas ruas espontaneamente a morte de Thatcher festejavam, de fato, a morte do neoliberalismo.

 

Mas infelizmente para os que se reuniram em Brixton, o neoliberalismo e seu parceiro ideológico, a “austeridade”, estão hoje na ofensiva na Grã-Bretanha e em grande parte do núcleo do planeta global. A morte de Thatcher de modo algum indica a destruição, sequer o declínio, de seu legado ideológico. Nesse sentido, a celebração dos britânicos é tão catártica quanto prematura.

 

Só lá, do outro lado do globo, é que começam a ser dados os grandes passos para destruir o legado de Thatcher. Onde se constrói uma intransigência firme que é, de fato, uma alternativa ao neoliberalismo.

 

Como escrevi em “Nós criamos Chávez” [We Created Chávez], muito mais interessantes que Chávez, o homem, são as décadas de luta revolucionária que o precederam, cristalizada em torno de Chávez como símbolo de um mecanismo para empurrar adiante a luta contra o neoliberalismo. Vivo, Chávez sempre foi mais que a soma de seus atos, era como um barco no qual embarcaram os setores populares da Venezuela, depositando ali suas aspirações pós-neoliberais. Mas o formato do barco logo foi determinado pelo conteúdo, e Chávez converteu-se em vela socialista impulsionada por forças que já não controlava. Parafraseando o que C.L.R. James escreveu de Toussaint L’Ouverture, Chávez não fez a revolução: a revolução fez Chávez.

 

Do cadáver apodrecido de Thatcher, florescerá o mundo pós-liberal. A Revolução Bolivariana perdeu algo poderosamente importante, com a morte de Hugo Chávez, mas talvez seja melhor que tenha partido fisicamente, na grande onda do movimento histórico que incorporou, e ao qual continua a emprestar a força de sua imagem, para ajudar a luta a avançar. Com certeza, essa é morte que se deve preferir.

 


Notas dos tradutores

[1]  Aimé Césaire (1913-2008). “Talvez eu morra”, dedicado à mãe de Raj Kumar, indiano, dalit, morto e não socorrido pela polícia, em 2008, na Índia. Ver Lyric And Dramatic Poetry.

[2]  “O Poll Tax (imposto comunitário) foi imposto regressivo (a alíquota diminuía conforme aumentava a renda do cidadão), criado pelo governo de Margaret Thatcher em 1989 na Escócia, e em 1990 no restante do Reino Unido, para custear os governos locais (“councils”, semelhantes a prefeituras) por meio de uma taxa única a ser cobrada por habitante. Ele substituiria o sistema anterior, no qual o imposto era calculado de acordo com o valor dos imóveis, de forma semelhante ao IPTU brasileiro. A população britânica resistiu fortemente à implantação desse imposto, se recusando a fornecer os dados necessários ao governo, se recusando a pagar, e dificultando a punição dos inadimplentes. A impossibilidade de implantar este imposto, e a derrota do governo frente à população, foi a principal razão da queda de Margaret Thatcher como Primeira-Ministra”.

[3]  Assiste-se ao episódio, que foi ao ar no programa “Alô, Presidente” (n. 291, 26/8/2007, em 23’10), a seguir:


É em tudo semelhante a outro, em que Chávez espinafra um “jornalista” da Rede Globo, em 2010, e que se vê a seguir: