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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O dilema dos sionistas liberais

Uma posição insustentável

20/8/2014, [*] Lawrence DavidsonCounterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gaza - subúrbio de Shejaia bombardeado por Israel em 25/7/2014
O liberalismo, exposto como ideal sociopolítico, diz que os seres humanos são bons, e que o progresso social é alcançável. É uma visão de “copo meio cheio”. Dentro desse paradigma, todos os indivíduos, não só os membros de uma específica religião, raça ou nacionalidade deve ter direitos civis e políticos. Aqui tampouco o estado ou a lei são fins neles mesmos. São instrumentos para criar e manter um ambiente que promova a liberdade ao mesmo tempo em que reduz ao mínimo as desigualdades sociais. Perseguir esse ideal não impede ninguém de identificar-se com algum grupo religioso específico ou com algum grupo étnico. Mas impede, sim, qualquer aspiração a direitos exclusivos para o próprio grupo, em detrimento de todos os demais.

No ambiente ocidental, muitos judeus abraçam esse ideal liberal. Entendem que seja do seu próprio melhor interesse trabalhar na direção de construir ambiente no qual os direitos civis e humanos apliquem-se igualmente a todos, ao mesmo tempo em que trabalham para reduzir as desigualdades. Por exemplo, em meados do século XX, nos EUA, muitas organizações de judeus eram aliadas a organizações de negros, na luta dos negros norte-americanos por seus direitos civis e igualdade. Mas, como adiante se viu, era aliança complexa, que acabou por romper-se. O fim daquela aliança marcou o fim do movimento ativista dos judeus liberais nos EUA. O que teria acontecido?

Parte da resposta logo ficou evidente, depois da guerra israelenses-árabes de 1967. Naquele momento, muitos líderes da luta por direitos civis nos EUA deram-se conta de que Israel absolutamente não era, como dizia ser, sociedade muito liberal. Era sociedade que só acolhia um único grupo de seres humanos e discriminava contra todos os demais seres humanos que não se incluíssem naquele grupo. Quando essa questão começou a ser discutida dentro das comunidades e grupos das lutas por direitos civis, muitas organizações de judeus separaram-se do movimento e de suas lutas. E o que aconteceu aos liberais judeus? Viram-se forçados a escolher uma de três possibilidades:

(1) conservar o compromisso consciente com o ideal liberal e deixar de apoiar o estado sionista; ou
(2) renunciar ao ideal liberal e continuar a apoiar Israel, não liberal, de todo coração; ou
(3) calar-se em público enquanto, no privado, criticava a natureza cada vez mais racista de Israel. Muitos deles escolheram essa terceira via.

Um velho dilema

Considerada essa história, é simplesmente errado pensar sobre o atual dilema que os judeus liberais enfrentam, ante o comportamento dos israelenses, que traria alguma espécie de novidade. Os chamados sionistas liberais, como Peter Beinart, Amos Oz, Ari Shavit e Jonathan Freedland com certeza sabem, há décadas, que a noção de direitos civis e políticos iguais para judeus e não judeus nunca foi objetivo ou alvo do movimento sionista e que, portanto, tem baixa chance de vir a ser incorporada como noção e comportamento do estado israelense.


Pois agora, depois de três invasões massivas contra Gaza, depois do bloqueio desumano que continua, depois de repetidos massacres por israelenses, de civis palestinos, que se repetem incontáveis vezes desde, no mínimo, a “guerra de independência de Israel”, depois de incontáveis ações de roubo repetido de propriedades e de terra palestina, com implantação jamais contida de colônias ilegais em terra roubada, e depois de mais de 60 anos de estado israelense de inspiração policial e totalitária na Cisjordânia, reaparecem, dizendo-se afogados, repentinamente, num dilema liberal sionista digno de ocupar manchetes dos jornais.

Um dos argumentos que surgiram para explicar essa super adiada repentina angústia sionista liberal é que só recentemente esses indivíduos concluíram que a solução de Dois Estados está realmente sob grave ameaça. Por esse argumento, enquanto acreditaram que a solução de Dois Estados fosse possível, os sionistas liberais ainda podiam ter esperança de alcançar direitos civis e políticos iguais para judeus e palestinos, cada um no seu respectivo estado – e haveria dois. Essa explicação é enganosa.

Não é verdade que só recentemente a solução de Dois Estados tenha chegado às portas da morte. De fato, se essa “solução” algum dia esteve viva e foi possível (o que é questionável), já foi assassinada há tempos, no momento em que Menachem Begin mentiu ao presidente Jimmy Carter que garantiria “autonomia” progressiva aos palestinos. Foi em 1979. É difícil acreditar que liberais sionistas tão notáveis como os acima listados não tenham notícia desse evento.

Por tudo isso, por que, então, esse dilema liberal volta a ser assunto agora? Resposta mais acurada pode ser uma mudança na opinião pública. Só nos últimos dez anos, mais ou menos, é que a narrativa sionista sobre o conflito israelenses-palestinos perdeu o monopólio. Nesse mesmo período de tempo cresceu em todo o mundo o movimento de boicote contra Israel.

Menachem Begin mentindo para Jimmy Carter em 1979
Com os traços nada liberais do caráter de Israel cada dia mais publicamente criticados, ficou difícil manter a opinião de “terceira via”, acima. Como Jonathan Freedman nos diz no artigo que publicou na New York Review of Books, “The Liberal Zionists” ,[Os Sionistas Liberais], esse pessoal passou a ser atacado por todos os lados. O movimento sionista está-se fechando em posição de defesa, pode-se dizer, e já não está gostando de ouvir as críticas dos sionistas liberais, nem privadamente. Quer ver todo mundo batendo continência à bandeira de Israel.

Ari Shavit, autor e jornalista israelense mostra até onde essas pressões nacionalistas extremas podem levar os que ainda tentam manter-se liberais e sionistas. No seu livro mais recente, My Promised Land  ele escreve:

A escolha é clara, ou rejeitar o sionismo [o estado sionista de Israel] por causa de Lydda [um dos casos de civis massacrados por militares israelenses, usado como exemplo], ou aceitar o sionismo [o estado sionista] com Lydda e tudo. (...) Sendo preciso, ficarei ao lado dos condenados. Porque sei que sem eles o estado de Israel jamais teria nascido. (...) Fizeram o serviço sujo, imundo que permite que meu povo, eu, minha filha, meus filhos, vivamos.

Aí, se acabou totalmente o ideal liberal.

Encarar as contradições

Na verdade, a expressão “sionista liberal” jamais fez pleno sentido. O único modo de explicar que tenha sobrevivido é considerar a própria narrativa do sionismo como tal – a história de Israel como democracia que levaria o modelo ocidental para o coração do Oriente Médio. Se se acredita nisso, pode-se esquecer a brutalidade dos israelenses como escorregadelas eventuais, numa trilha de pensamento político predominantemente progressista e de respeito a princípios democráticos que supostamente dariam sustentação ao estado. Nesse contexto, poderia haver sionistas liberais que, vez ou outra, criticassem o mau comportamento dos israelenses.

Os Liberais Sionistas
Mas essa narrativa sionista é falsa. Jamais se deu o caso de uma ou outra ocasional escorregadela. O que há em Israel é a brutalidade inerente num estado que tem políticas e práticas racistas brutais que se repetem sempre e que visam a alcançar objetivos racistas (um país só para um grupo) – ao mesmo tempo em que repete uma história falsa, de encobrimento, excepcionalmente duradoura e resistente, segundo a qual Israel seria, afinal de contas, uma democracia liberal. Nunca foi. A direita israelense, tanto quanto os palestinos, sempre souberam que a história contada é falsa, que sempre foi engodo.

Agora, ante o mais recente massacre em Gaza, grande parte do mundo também já viu. Essa exposição pública, combinada às exigências dos sionistas que cobram lealdade cega, deixaram os liberais em situação absolutamente insustentável.

Ninguém consegue manter-se fiel ao princípio dos direitos civis e políticos iguais para todos, e, ao mesmo tempo, apoiar a existência de um estado sionista. Tentar tal coisa obriga o sujeito a amarrar-se dentro de uma contradição. Isso, exatamente é o que os liberais estão descobrindo a propósito do sionismo.

Agora, afinal, terão de fazer escolha verdadeira: ou deixam de ser sionistas ou deixam de ser liberais. Temo que, como Ari Shavit, muitos daqueles liberais optarão por alistar-se no “lado dos condenados”.
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[*] Lawrence Davidson, é professor aposentado de História da Universidade de West Chester, em West Chester, PA. Sua pesquisa acadêmica foi focada na história das relações exteriores americanas com o Oriente Médio. Ministrou cursos de História do Oriente Médio, História da Ciência e História Intelectual da Europa Moderna.
Lawrence Davidson nasceu em 1945 na Filadélfia, PA, em uma família judia secular. Em 1963, foi para a Universidade de Rutgers onde obteve seu bacharelato. Na Rutgers desenvolveu seu ativismo relativamente aos problemas que os EUA enfrentaram na década de 1960. Em 1967 se mudou para a Universidade de Georgetown onde concluiu o Mestrado.
Na Universidade de Georgetown, estudou História Intelectual Europeia Moderna com o Professor Hisham Sharabi de origem palestina. Sharabi e Davidson, posteriormente, se tornaram amigos íntimos e pode-se datar o seu interesse na Palestina, assim como as questões judaicas e sionistas, a partir daquele momento. Ainda em Georgetown (1968-1970) coincidiu com o auge da guerra do Vietnã e Davidson se tornou um dos membros fundadores dos Estudantes para uma Sociedade Democrática (SDS). Davidson conseguiu liderar grande mobilização contra a guerra do Vietnã e até teve que abandonar os EUA. Passou os seis anos seguintes no Canadá e obteve seu Ph.D. (1976), também em História Intelectual da Europa Moderna, na Universidade de Alberta, em Edmonton. Voltando aos EUA trabalhou muitos anos como professor adjunto em várias Universidades. Em 1989, Davidson ingressou na Faculdade de História na Universidade de West Chester (WCU), como professor adjunto. Permaneceu na instituição por 27 anos tendo mantido um registro de publicação cada vez mais produtivo. Aposentou-se da WCU em maio de 2013. Durante este período publicou inúmeros artigos em diferentes áreas, incluindo a História Médica, História da Educação e Política Externa dos EUA. Hoje escreve artigos para um sem número de publicações, entre as quais o Counterpunch.

terça-feira, 16 de abril de 2013

Dama de ferro não virou santa



Dama de ferro? Enferruge em paz

Publicado em 16/04/2013 por Mário Augusto Jakobskind*

A morte de Margaret Thatcher de alguma forma provocou um fenômeno raro, não só na própria Grã -Bretanha como também em várias partes do mundo. Desta vez a morta não virou santa, muito pelo contrário. Foi hostilizada pelos que sofreram as agruras do modelo neoliberal implantado pela dama de ferro.

A torcida do Liverpool, pelo menos desde 1989 quando ocorreu um episódio repressivo sangrento com mais de 90 mortos, cantava com palavras comemorativas a morte da dama de ferro. Além disso, a política de Thatcher fez muito mal aos trabalhadores da região. Antes mesmo de se tornar primeira ministra, ao ocupar o Ministério da Educação, Margaret Thatcher cortou o leite das crianças nas escolas.

Quando Augusto Pinochet estava em prisão domiciliar em Londres aguardando pedido de extradição para a Espanha feito pelo juiz Baltazar Garzón, madame Thatcher visitava o ex-ditador e agradecia a ele por ter ajudado o Reino Unido durante a guerra das Malvinas. Thatcher chegou até a afirmar que Pinochet restabeleceu a democracia no Chile.

Como se não bastasse, antes mesmo do reconhecimento de Pinochet, Madame Thatcher dizia que Mandela era terrorista. E assim caminhava a dama de ferro.

Independente de tudo isso, por aqui os defensores da política criminosa executada pela dama de ferro chegaram a comentar como seria bom para o Brasil ter uma dama de ferro para levar adiante as reformas necessárias para, segundo eles, modernizar o país. Esta foi a opinião exposta pelo analista econômico das Organizações Globo, Carlos Alberto Sardenberg.

Mas, no Congresso, o Senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, discursou lembrando passagens nefastas protagonizadas pela dama de ferro, deixando perplexos alguns senadores acostumados com a cultura da santificação de personagens que morrem, sobretudo os propagadores da ideologia da falecida dama de ferro.
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Eleição venezuelana - Um mês após a morte do Presidente Hugo Chávez, a direita venezuelana e seus apoiadores pelo mundo afora comemoravam o acontecimento. Em alguns muros de Caracas, por exemplo, os apoiadores do candidato Henrique Capriles pichavam a seguinte frase: “viva o câncer”.

Nos primeiros dias que se seguiram a morte de Chávez, a mídia conservadora ainda procurou esconder o contentamento, mas aos poucos transferiu o ódio que nutria pelo Presidente ao seu herdeiro político, Nicolás Maduro.

E nos dez dias da campanha eleitoral venezuelana, a mesma mídia de mercado, apoiadora em gênero número e grau de madame Thatcher, encheu a bola de Capriles. Não tiveram a coragem de concluir que o candidato da direita pudesse ganhar de Maduro.

Mesmo com a eleição de Maduro, a direita de todos os quadrantes continuará tentando produzir fatos midiáticos com o objetivo de enfraquecer o presidente eleito e evitar a continuidade da Revolução bolivariana.

Maduro é o sucessor do comandante da Revolução Bolivariana, Hugo Chávez. E ninguém poderá dizer que não há democracia na Venezuela. Capriles com o apoio do governo estadunidense tenta contestar a eleição denunciando fraude, passando por cima das conclusões de observadores estrangeiros, entre os quais os integrantes da Fundação Carter.

Maduro ganhou por pouco mais de 200 mil votos de diferença, enquanto Capriles se elegeu governador de Miranda com 30 mil votos de diferença. Mas isso a mídia de mercado prefere não lembrar, porque enfraqueceria os argumentos do candidato apoiado pelo Departamento de Estado norte-americano.
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No vizinho Paraguai, as atenções se voltam para o próximo domingo (21), quando cerca de três milhões e 500 mil eleitores estarão escolhendo o próximo Presidente da República, renovando a Câmara dos Deputados, integrada por 80 parlamentares, e 45 senadores.

Na disputa presidencial, o candidato do Partido Colorado, Horacio Cartes despontava em primeiro lugar nas pesquisas, seguido de perto pelo indicado pelo Partido Liberal Autêntico, o ex-ministro do governo Fernando Lugo, um tal de Efrain Alegre, apoiado pelo atual presidente de fato Federico Franco, que assumiu a presidência depois de um golpe parlamentar. Mas novas pesquisas indicavam alterações do quadro, o que torna difícil uma previsão.

Mario Ferreiro, candidato de esquerda, aparecia em terceiro lugar, enquanto outro candidato de esquerda, Aníbal Carrillo Iramaín, da Frente Guazú, o partido de Lugo, encontrava-se mais abaixo. O presidente deposto por golpe parlamentar, Fernando Lugo, é candidato ao Senado.

Horacio Cartes é acusado de ter vínculos com o narcotráfico e domina a venda de cigarros falsificados na fronteira do Paraguai com o Brasil. Cartes nega a primeira acusação.

Para se ter uma ideia do perfil de Cartes, ao ser indagado sobre o que faria se tivesse um filho gay e defendesse a união afetiva, o candidato respondeu sem pestanejar: “daria um tiro nas minhas próprias bolas”.

Em tempo: Depois de observar 91 eleições em várias partes do mundo, Jimmy Carter concluiu que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”. O que terá a dizer Capriles e o Departamento de Estado norte-americano?
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Mário Augusto Jakobskind* é correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de “América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE”.

Enviado por Direto da Redação

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Jimmy Carter: “Um recorde raro e cruel”


24/6/2012, Jimmy Carter, Prêmio Nobel, 39º presidente dos EUA - New York Times,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Jimmy Carter, ex presidente dos EUA
Revelações de que altos funcionários do governo dos EUA decidem quem será assassinado em países distantes, inclusive cidadãos norte-americanos, são a prova apenas mais recente, e muito perturbadora, de como se ampliou a lista das violações de direitos humanos cometidas pelos EUA. Esse desenvolvimento começou depois dos ataques terroristas de 11/9/2001; e tem sido autorizado, em escala crescente, por atos do executivo e do legislativo norte-americanos, dos dois partidos, sem que se ouça protesto popular. Resultado disso, os EUA já não podem falar, com autoridade moral, sobre esses temas cruciais.

Por mais que os EUA tenham cometido erros no passado, o crescente abuso contra direitos humanos na última década é dramaticamente diferente de tudo que algum dia se viu nos EUA. Sob liderança dos EUA, a Declaração Universal dos Direitos do Homem foi adotada em 1948, como “fundamento da liberdade, justiça e paz no mundo”. Foi compromisso claro e firme, com a ideia de que o poder não mais serviria para acobertar a opressão ou a agressão a seres humanos. Aquele compromisso fixava direitos iguais para todos, à vida, à liberdade, à segurança pessoal, igual proteção legal e liberdade para todos, com o fim da tortura, da detenção arbitrária e do exílio forçado.

Aquela Declaração tem sido invocada por ativistas dos direitos humanos e da comunidade internacional, para trocar, em todo o mundo, ditaduras por governos democráticos, e para promover o império da lei nos assuntos domésticos e globais. É gravemente preocupante que, em vez de fortalecer esses princípios, as políticas de contraterrorismo dos EUA vivam hoje de claramente violar, pelo menos, 10 dos 30 artigos daquela Declaração, inclusive a proibição de qualquer prática de “castigo cruel, desumano ou tratamento degradante.”


Legislação recente legalizou o direito do presidente dos EUA, para manter pessoas sob detenção sem fim, no caso de haver suspeita de ligação com organizações terroristas ou “forças associadas” fora do território dos EUA – um poder mal delimitado que pode facilmente ser usado para finalidades autoritárias, sem qualquer possibilidade de fiscalização pelas cortes de justiça ou pelo Congresso (a aplicação da lei está hoje bloqueada, suspensa por sentença de um(a) juiz(a) federal). Essa lei agride o direito à livre manifestação e o direito à presunção de inocência, sempre que não houver crime e criminoso determinados por sentença judicial – mais dois direitos protegidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, aí pisoteados pelos EUA.

Além de cidadãos dos EUA assassinados em terra estrangeira ou tornados alvos de detenção sem prazo e sem acusação clara, leis mais recentes suspenderam as restrições da Foreign Intelligence Surveillance Act, de 1978, para admitir violação sem precedentes de direitos de privacidade, legalizando a prática de gravações clandestinas e de invasão das comunicações eletrônicas dos cidadãos, sem mandato. Outras leis autorizam a prender indivíduos pela aparência, modo de trajar, locais de culto e grupos de convivência social.

Além da regra arbitrária e criminosa, segundo a qual qualquer pessoa assassinada por aviões-robôs comandados à distância (drones) por pilotos do exército dos EUA é automaticamente declarada inimigo terrorista, os EUA já consideram normais e inevitáveis também as mortes que ocorram ‘em torno’ do ‘alvo’, mulheres e crianças inocentes, em muitos casos. Depois de mais de 30 ataques aéreos contra residências de civis, esse ano, no Afeganistão, o presidente Hamid Karzai exigiu o fim desse tipo de ataque. Mas os ataques prosseguem em áreas do Paquistão, da Somália e do Iêmen, que sequer são zonas oficiais de guerra. Os EUA nem sabem dizer quantas centenas de civis inocentes foram assassinados nesses ataques – todos eles aprovados e autorizados pelas mais altas autoridades do governo federal em Washington. Todos esses crimes seriam impensáveis há apenas alguns anos.

Essas políticas têm efeito evidente e grave sobre a política exterior dos EUA. Altos funcionários da inteligência e oficiais militares, além de defensores dos direitos das vítimas nas áreas alvos, afirmam que a violenta escalada no uso dos drones como armas de guerra está empurrando famílias inteiras na direção das organizações terroristas; enfurece a população civil contra os EUA e os norte-americanos; e autoriza governos antidemocráticos, em todo o mundo, a usar os EUA como exemplo de nação violenta e agressora.

Guantánamo
Simultaneamente, vivem hoje 169 prisioneiros na prisão norte-americana de Guantánamo, em Cuba. Metade desses prisioneiros já foram considerados livres de qualquer suspeita e poderiam deixar a prisão. Mas nada autoriza a esperar que consigam sair vivos de lá. Autoridades do governo dos EUA revelaram que, para arrancar confissões de suspeitos, vários prisioneiros foram torturados por torturadores a serviço do governo dos EUA, submetidos a simulação de afogamento mais de 100 vezes; ou intimidados sob a mira de armas semiautomáticas, furadeiras elétricas e ameaças (quando não muito mais do que apenas ameaças) de violação sexual de esposas, mães e filhas. Espantosamente, nenhuma dessas violências podem ser usadas pela defesa dos acusados, porque o governo dos EUA alega que são práticas autorizadas por alguma espécie de ‘lei secreta’ indispensável para preservar alguma “segurança nacional”. Muitos desses prisioneiros – mantidos em Guantánamo como, noutros tempos, outros inocentes também foram mantidos em campos de concentração de prisioneiros na Europa – não têm qualquer esperança de algum dia receberem julgamento justo nem, sequer, de virem a saber de que crimes são acusados.

Em tempos nos quais o mundo é varrido por revoluções e levantes populares, os EUA deveriam estar lutando para fortalecer, não para enfraquecer cada dia mais, os direitos que a lei existe para garantir a homens e mulheres e todos os princípios da justiça listados na Declaração Universal dos Direitos do Homem. Em vez de garantir um mundo mais seguro, a repetida violação de direitos humanos, pelo governo dos EUA e seus agentes em todo o mundo, só faz afastar dos EUA seus aliados tradicionais; e une, contra os EUA, inimigos históricos.

Como cidadãos norte-americanos preocupados, temos de convencer Washington a mudar de curso, para recuperar a liderança moral que nos orgulhamos de ter, no campo dos direitos humanos. Os EUA não foram o que foram por terem ajudado a apagar as leis que preservam direitos humanos essenciais. Fomos o que fomos, porque, então, andávamos na direção exatamente oposta à que hoje trilhamos.