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terça-feira, 21 de abril de 2015

Noam Chomsky: “Os EUA são os maiores terroristas do mundo”

20/4/2015, EuroNews, Isabelle Kumar entrevista [*] Noam Chomsky
Traduzido por Mberublue


Nota da redecastorphoto: Noam Chomsky é uma das personalidades mais marcantes do mundo intelectual. Autor prolífico e personalidade cativante que, aos 86 anos, não dá sinais de querer diminuir o ritmo de trabalho. Presença denunciante dos vários crimes e injustiças cometidos com bastante frequência pelo Ocidente em geral e os EUA em particular.

Estas e outras questões foram tentativamente discutidas nesta entrevista com o reputado linguista, filósofo e ativista político norte-americano, professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino dos Estados Unidos.

Apesar da fraqueza e do evidente despreparo da “jornalista” entrevistadora conseguimos vislumbrar o brilhante intelecto de Chomsky.




Isabelle Kumar (IK): O mundo em 2015 parece ser um lugar muito inseguro, mas se você olhar para o todo, sentir-se-ia otimista ou pessimista sobre a situação atual?

Noam Chomsky (NC): Na cena global estamos caminhando para um precipício e determinados a cair nele, através de radicais reduções da capacidade para uma sobrevivência decente.

IK: Que precipício é esse?

NC: Há dois atualmente, um deles a catástrofe ambiental que é iminente e estamos sem tempo suficiente para lidar com o problema. Quando fazemos alguma coisa, fazemos a coisa errada, e o outro tem a ver com os últimos 70 anos, que seja a ameaça de uma guerra nuclear, que na realidade está crescendo. Se você prestar atenção aos dados, é um milagre que tenhamos sobrevivido até agora.

IK: Primeiro, o problema ambiental. Temos perguntas oriundas de frequentadores de nossa mídia social, que estão enviando seus questionamentos e são montes deles. Recebemos, por exemplo, uma pergunta de Enoa Agoli: quando você olha para o problema ambiental através da lente de um filósofo, o que você pensa sobre a mudança climática?

NC: A espécie humana está aqui há cerca de mais ou menos 100.000 anos e neste instante está face a face com um momento único em sua história. Esta espécie está agora em uma posição em que deve decidir muito rapidamente, em algumas gerações, se o experimento autointitulado “vida inteligente” continuará a existir ou está determinado à autodestruição? Quero dizer aqui que a esmagadora maioria dos cientistas reconhece que grande parte dos combustíveis fósseis deveriam ser deixados no solo, isso se quisermos realmente que nossos netos tenham um futuro decente. Mas a estrutura institucional de nossa sociedade pressiona cada vez mais agudamente para que se extraia cada gota. Os efeitos, as consequências para os seres humanos e os efeitos já preditos sobre a mudança climática estão às nossas portas e são catastróficos. Trata-se da corrida para o precipício que já mencionei.

IK: Já que falamos de guerra nuclear, podemos ver um panorama no qual se alcançou um acordo preliminar com o Irã. Isso lhe dá pelo menos um raio de esperança de que o mundo possa se tornar um lugar mais seguro?

NC: Sou favorável às negociações com o Irã, mas tais negociações estão profundamente equivocadas. Há dois Estados cuja voracidade no Oriente Médio está produzindo agressões, violência, atos terroristas e ações ilegais constantemente. Os dois são Estados nucleares e possuem blindagem contra ataques nucleares. E suas armas nucleares não estão sendo levadas em conta.

IK: A quem exatamente você está se referindo?

NC: Aos Estados Unidos e a Israel. Dois dos maiores estados nucleares no mundo. Entendo que é por essa razão que em pesquisas internacionais, levadas a efeito por agências de pesquisas dos próprios Estados Unidos, este aparece lembrado como a maior ameaça à paz mundial por grande margem. Nenhum outro país chega sequer perto. É interessante notar que a mídia dos Estados Unidos se recusa a publicar estes resultados, o que não os faz desaparecer.

IK: Você não tem muita consideração com o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Mas este acordo não faz com que você o veja em termos um pouco melhores? O fato de que ele está tentando reduzir o risco de uma guerra nuclear?

NC: Bem, na verdade ele não está. Ele acaba de dar início a um programa de um trilhão de dólares para modernizar o sistema de armas nucleares dos Estados Unidos, o que significa expandir o sistema de armamento nuclear. Esta é uma das razões pelas quais o relógio do juízo final, criado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos foi, apenas duas semanas atrás, colocado dois minutos mais perto da meia noite. A meia noite significa o fim. Assim, estamos agora a apenas três minutos da meia noite, o que é o mais perto nos últimos trinta anos, desde o início dos anos Reagan, quando estivemos assustadoramente perto da guerra nuclear.

IK: Você mencionou Israel e Estados Unidos relacionados ao Irã. Agora, o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Natenyahu obviamente não quer que o acordo nuclear com o Irã funcione, e ele disse...

NC: Interessante... deveríamos nos perguntar por que.

IK: Por que?

NC: Nós sabemos porque. O Irã gasta muito pouco com equipamentos militares, mesmo pelo padrão da região, muito menos que os Estados Unidos. A estratégia do Irã é defensiva, projetada para segurar um ataque o tempo suficiente para que a diplomacia possa agir, e os Estados Unidos e Israel, dois estados bandidos, não podem tolerar um estado dissuasivo. Nenhum analista estratégico que tenha um cérebro que funcione minimamente pensa que o Irã usará uma arma nuclear. Mesmo que seja capaz disso, o país seria simplesmente vaporizado e não há qualquer indicação de que os clérigos que dirigem o país, não importa o que se pense deles, querem ver tudo o que têm destruído.

IK: Apenas mais uma questão sobre este assunto e veio através da mídia social, de Morten A. Andersen. Ele pergunta: “você acredita que os Estados Unidos jamais assinariam um acordo que traria perigo, em primeiro lugar, para Israel?”

NC: Os Estados Unidos estão a todo instante promovendo ações que são muito perigosas para o Estado de Israel. A saber, o apoio incondicional às políticas israelenses. Pelos últimos 40 anos, a maior ameaça enfrentada por Israel veio de suas próprias políticas. Se você olhar 40 anos atrás, e falo de 1970, Israel era um dos países mais admirados e respeitados em todo o mundo. Havia muitas atitudes favoráveis para com o país. No início dos anos 70s Israel tomou uma decisão. Tinha que fazer uma escolha e preferiu trilhar o caminho da expansão em detrimento da segurança com todas as perigosas consequências que esta decisão provocou. Consequências estas que atualmente são óbvias. Além de mim, outras pessoas escreveram sobre isso. Se você prefere expansão à segurança isso vai levar você em direção à degeneração interna, ódio, oposição, isolamento e por último, a possível destruição. Apoiando essas políticas, os Estados Unidos estão contribuindo para as ameaças que Israel encara hodiernamente.

IK: O que me leva então ao tema do terrorismo. Porque é uma praga global e muita gente, e penso que posso incluir você mesmo, afirmarão que é um tiro pela culatra da política de guerra ao terror dos Estados Unidos ao redor do mundo. Até onde podem ser os Estados Unidos e seus aliados responsabilizados pelo que vimos atualmente em termos de terrorismo pelo mundo afora?

NC: Não se esqueça de que a pior campanha terrorista do mundo é, de longe, aquela levada a efeito por e orquestrada em Washington. É uma campanha global de assassinatos. Nunca antes houve uma campanha terrorista nesta escala.

IK: Quando você fala de campanha de assassinatos...?

NC: As ações com o uso de drones – é exatamente o que isso quer dizer. Sobre grande parte do globo os Estados Unidos estão sistemática, pública e abertamente – não há qualquer segredo no que estou dizendo, nós sabemos disso – está levando a efeito uma campanha regular para assassinar pessoas que o governo dos Estados Unidos suspeita que possa prejudicá-lo algum dia. E isso é, na realidade, como você mencionou, uma campanha que gera mais terror, pois quando você bombardeia uma vila no Iêmem e mata algumas pessoas – as quais talvez sejam as pessoas que você quer, talvez não – e mais algumas pessoas que moram ou que aconteça se encontrarem nas vizinhanças – como você acha que os sobreviventes reagirão? Eles querem vingança.

IK: Você descreve os Estados Unidos como o principal país terrorista. Onde se encaixa então a Europa neste quadro?

NC: Bem, esta é uma questão bem interessante. Assim, por exemplo, já existe um estudo feito recentemente. Penso que foi realizado pela Open Society Foundation... a pior forma de tortura é a “entrega extraordinária”. Entrega extraordinária significa que você prende uma pessoa da qual você tem uma suspeita qualquer, e a envia para o seu ditador favorito, talvez Assad ou Kadaffi ou Mubarak para ser torturada, esperando que surja disso alguma coisa. Isto define a maravilhosa entrega extraordinária. Obviamente, os ditadores do Oriente Médio participam, e estas pessoas foram enviadas para lá para serem torturadas. Também a Europa participa. A maioria da Europa participa. Inglaterra, Suécia e outros países. De fato, só existe uma região no mundo onde nenhum país participou: a América Latina. Esse fato é dramático. Não participou apenas porque hoje a América Latina está livre dos laços que a prendiam ao controle dos Estados Unidos. Quando a América Latina era dominada pelos EUA, há não muito tempo atrás, ela foi um dos centros mundiais de tortura. Agora, não participam da pior forma de tortura que existe, que é a entrega extraordinária. A Europa participa. Quando os mestres rugem, os servos obedecem.

IK: Então a Europa é serva dos Estados Unidos?

NC: Não tenha dúvidas. São muito covardes para ter qualquer posição de independência.

IK: Onde se enquadra Vladimir Putin nesta paisagem? Ele é pintado como se fosse uma enorme ameaça à segurança. Ele é?

NC: Como muitos líderes, ele é uma ameaça para a população de seu próprio país. Praticou ações ilegais, obviamente. Mas descrevê-lo como sendo um monstro enlouquecido, dizer que ele tem problemas mentais e que sofre de Alzheimer, que é uma criatura vil e maldosa, trata-se de fanatismo Orwelliano do tipo padrão. Quero dizer, o que quer que você pense sobre suas políticas, elas são compreensíveis. A ideia de que a Ucrânia pode se juntar a uma aliança militar ocidental seria inaceitável para qualquer líder russo. Isso remete para 1990, quando do colapso da União Soviética. Havia uma questão muito importante sobre o que aconteceria com a OTAN. Gorbachev concordou em permitir que a Alemanha fosse reunificada e se juntasse à OTAN. Foi uma concessão e tanto, mas havia uma contrapartida: que a OTAN nunca mais se expandiria sequer uma polegada para o leste. Esta foi exatamente a frase usada naquela ocasião.

IK: Então a Rússia tem sido provocada?

NC: Bem, o que aconteceu? A OTAN instantaneamente incorporou a Alemanha Oriental e então Clinton tratou de expandir a OTAN diretamente até as fronteiras da Rússia. Agora, o governo ucraniano, estabelecido depois de um golpe que derrubou o governo precedente, fez o parlamento votar a adesão à OTAN, com uma aprovação de 300 a 8 ou coisa semelhante.

IK: Mas você pode entender porque eles gostariam de se unir à OTAN, você pode ver por que o governo de Petro Poroshenko muito provavelmente vê a união com a OTAN como a proteção de seu país?

NC: Não, não, não, não. Não se trata de proteção. É certo que a Crimeia foi tomada apenas depois do golpe que derrubou o governo anterior. E a união com a OTAN não protege a Ucrânia e sim a ameaça com uma guerra em grande escala. Neste momento, não se trata de proteção. O ponto é: o que temos é uma ameaça estratégica muito séria contra a Rússia, contra a qual qualquer líder russo tem que reagir. É muito fácil de entender.

IK: Porém quando olhamos a situação da Europa, existe outro fenômeno interessante tomando lugar. Vemos a Grécia movendo-se em direção ao leste, potencialmente, assim como vemos o partido PODEMOS que ganha poder na Espanha. E há a Hungria. Você vê que existe um potencial para a Europa iniciar por si mesma um alinhamento maior com os interesses russos?

NC: Dê uma olhada no que está acontecendo. A Hungria não se encaixa, é uma situação inteiramente diferente. O partido Syriza assumiu o poder levado por uma onda popular que afirmava que a Grécia não mais deveria sujeitar-se às políticas de Bruxelas e aos bancos da Alemanha que estavam destruindo o país. O efeito das políticas de Bruxelas e dos bancos era na verdade fazer crescer imensuravelmente o débito grego em relação à sua capacidade de produzir riqueza; provavelmente metade dos jovens gregos está desempregada e provavelmente 40% da população vive abaixo da linha da pobreza. A Grécia está em ruínas.

IK: Então seu débito deve ser anulado?

NC: Sim, da mesma forma que foi feito em relação à Alemanha. Em 1953, quando a Europa perdoou a maioria dos débitos germânicos. Apenas por isso foi a Alemanha capaz de reconstruir o país devastado pela guerra.

IK: Mas então, e quanto aos demais países da Europa...?

NC: A mesma coisa.

IK: Posso concluir então que Portugal deve ter seu débito anulado, assim como a Espanha?

NC: Quem contraiu esse débito? A quem se deve tais quantias? Em grande parte, as dívidas foram contraídas por ditadores. Como na Grécia, onde uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos contraiu grande parte do débito grego. Penso que essa dívida é ainda mais brutal que a ditadura, e não deve ser paga, pois se trata daquilo que em direito internacional é chamado de “dívida odiosa”, introduzida na legislação internacional principalmente pelos Estados Unidos, quando isso era de seu interesse. Muito do restante dos débitos, chamados de contribuições para a Grécia não passaram de contribuições para os bancos franceses e alemães, que decidiram emprestar dinheiro com baixo interesse e risco extremo e agora se veem face ao risco de não serem pagos de volta.

IK: Agora, eu gostaria de fazer a seguinte questão, enviada por Gil Gribaudo que pergunta: Como pode a Europa se transformar contra os desafios existenciais que enfrenta atualmente? Porque, sim, temos uma crise econômica e também o crescimento do nacionalismo e você também descreveu algumas falhas culturais que foram criadas através da Europa. Como você vê a Europa a transformar-se em algo melhor?

NC: Os problemas enfrentados pela Europa são sérios. Alguns destes problemas são causados pelas políticas impostas pelos burocratas em Bruxelas, a Comissão Europeia, etc., enfrentando a pressão da OTAN e dos grandes bancos a maioria dos quais da Alemanha. Apenas do ponto de vista de seus elaboradores estas políticas fazem algum sentido. Por um lado, eles querem ser pagos pelos empréstimos de risco, e investimentos arriscados que fizeram e por outro lado, estas políticas estão destruindo sistema de bem estar social dos Estados, do qual aliás, eles nunca gostaram. Mas o sistema de bem estar social é uma das maiores contribuições europeias para a sociedade moderna, mesmo que os ricos e poderosos nunca tenham gostado dele e o fato de que estas políticas o estão erodindo é bom, pelo menos do seu ponto de vista. Há ainda outro problema na Europa. O continente é extremamente racista. Eu sempre considerei que, de fato, a Europa é ainda mais racista que os Estados Unidos. Tal situação não era tão notada na Europa porque as populações europeias no passado sempre tenderam a ser muito homogêneas. Assim, se todos tem cabelos louros e olhos azuis, então você não verá racistas, mas assim que a população começa a mudar, o racismo põe o focinho fora da toca. Muito rapidamente. Este é um dos sérios problemas culturais na Europa.

IK: Eu gostaria de terminar, porque o tempo se tornou curto, com uma questão de Robert Light em um tom mais positivo. Ele pergunta: O que lhe dá esperanças?

NC O que me dá esperanças são algumas das coisas das quais falei. Da América Latina, por exemplo. Há uma significância histórica no que acontece ali. Estamos prestes a ver isso se confirmar na Cúpula das Américas (a entrevista aconteceu antes da reunião de chefes de Estado – NT) que acontecerá no Panamá. Em encontros hemisféricos recentes, os Estados Unidos ficaram completamente isolados. É uma mudança radical em relação a 10 ou 20 anos atrás, quando os Estados Unidos impunham (os assuntos latino americanos). De fato, a razão pela qual Obama fez gestos de amizade em direção a Cuba, foi uma tentativa de romper o isolamento dos Estados Unidos nas Américas. Ocorre que quem estava isolado não era Cuba. Eram os Estados Unidos. Talvez a tentativa venha a falhar. Vamos ver. Os sinais de otimismo na Europa são os partidos Syriza e PODEMOS. Esperemos que haja, finalmente, uma revolta popular contra as políticas de destruição econômica e esmagamento de direitos sociais que resultam da burocracia e dos bancos, e isto é muito esperançoso. Tem que ser.

IK: Noam Chomsky, muito obrigado por ter estado conosco.

[FIM DA ENTREVISTA]

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[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky.
Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismoSeu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.

domingo, 10 de agosto de 2014

Paul Craig Roberts − Washington ameaça o mundo

9/8/2014 [*] Paul Craig Roberts − Institute for Political Economy
Traduzido por  mberublue


Israel-EUA-União Europeia: A Real Face do Terrorismo
Desencadear o mal no mundo. Esta é a conseqüência das intervenções irresponsáveis e imprudentes dos EUA em vários países, a saber: Iraque, Líbia e Síria, entre outros. Sob o governo Saddam, Gadaffi e Assad as várias seitas existentes no Oriente Médio viviam em paz. Hoje, massacram-se uns aos outros, enquanto um novo grupo, o DAASH, ou EIIL, ou ISIL ou ISIS, está em pleno processo de criação de um novo Estado, com pedaços do Iraque e da Síria.

Milhões de mortes já acontecidas e mortes incalculáveis no futuro são o que fizeram o regime de Bush e Obama pela turbulência causada no Oriente Médio. Neste exato momento em que escrevo, 40.000 iraquianos estão presos no topo de uma montanha, sem água, a esperar a morte nas mãos do ISIS, que vem a ser uma criação da intromissão dos EUA.

A realidade atual no Oriente Médio está em enorme contradição com o pronunciamento de George W. Bush no Porta Aviões Abraham Lincoln, dos EUA, quando declarou: “Missão Cumprida”, em maio de 2003. A verdadeira missão realizada por Washington foi destruir o Oriente Médio e a vida de milhões de pessoas, destruindo também, no processo, a reputação dos Estados Unidos. É graças ao regime demoníaco e neoconservador de Bush que os Estados Unidos são hoje considerados universalmente como a maior ameaça à paz mundial.  

O padrão foi fornecido pelo regime Clinton, com o ataque à Sérvia. Bush apenas incrementou a barbárie com a agressão nua de Washington contra o Afeganistão, travestindo-a, em linguagem orwelliana, de “Operação Liberdade Duradoura”.

A derrota no Afeganistão...
Para o Afeganistão, Washington não trouxe a liberdade, mas a ruína. Depois de treze anos explodindo o país, os EUA estão em retirada. O “superpoder” foi derrotado por alguns milhares de talibãs levemente armados, porém Washington larga para trás um deserto para o qual não quer assumir qualquer responsabilidade.

Outra interminável fonte de sofrimento no Oriente Médio é Israel, cujo roubo da Palestina foi permitido e apoiado pelos Estados Unidos. No transcorrer dos últimos ataques de Israel a civis em Gaza, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma resolução em apoio aos crimes de guerra de Israel e votaram pelo fornecimento de mais centenas de milhões de dólares para pagar as munições gastas por Israel. Estamos neste momento testemunhando a Moral Americana, que apóia 100% a indefensáveis e inegáveis crimes de guerra, cometidos essencialmente contra civis desarmados e impossibilitados de se defender.

Quando Israel assassina mulheres e crianças, os Estados Unidos denominam isso como “o direito que Israel tem de defender o próprio país”. O mesmo país ao qual Israel roubou dos palestinos. Mas se os palestinos retaliam, Washington os chama de “terroristas”. Apoiando Israel, os EUA declaram seu apoio a um Estado Terrorista. Porque ainda existem alguns governos morais, Israel foi acusado de crimes de guerra pelo Secretário Geral da ONU, e os Estados Unidos violam suas próprias leis ao apoiar esse Estado Terrorista.

Mas não há surpresa nisso, tendo em vista que os EUA são os líderes entre todos os Estados Terroristas e, portanto, sob a Lei dos EUA, Washington está exercendo ilegalmente o poder. Mas é sabido que os EUA não aceitam, nem leis nacionais, nem internacionais, nem qualquer restrição às suas ações. Washington é “excepcional, indispensável”. Ninguém mais será levado em conta. Nem lei, nem Constituição, nenhuma consideração humana tem autoridade para contrariar Washington em suas vontades. Washington chega a superar o Terceiro Reich com suas afirmações.

Iraque: Retirada Sem Glória
Por mais temerária e horrível que seja a imprudência dos EUA em relação ao Oriente Médio, a que ostenta atualmente em relação à Rússia está vários pontos acima. Os EUA acabaram por convencer a Rússia de que Washington está planejando um primeiro ataque nuclear. Em resposta, a Rússia está reforçando suas forças nucleares e ao mesmo tempo, testa as forças nucleares americanas, assim como as reações de seu sistema de defesa.

É muito difícil imaginar ato mais irresponsável que levar a Rússia a acreditar que os EUA pretendem lançar contra os russos um primeiro ataque nuclear preventivo. Um dos conselheiros de Putin explicou à mídia russa as intenções de Washington de um primeiro ataque preventivo e um membro da Duma (Parlamento) russa fez uma explanação documentada do que seria esse primeiro ataque preventivo dos EUA.

Pela acumulação de provas, eu tenho salientado em minha coluna que, para a Rússia, é impossível deixar de chegar a essa conclusão.

A China está consciente de que enfrenta a mesma ameaça da parte de Washington. A resposta da China aos planos de guerra de Washington foi a demonstração de como as forças nucleares chinesas seriam usadas no contra ataque, causando a destruição dos EUA. A China tornou tudo isso público, na esperança de criar uma oposição nos EUA aos planos de Washington contra a China.

Assim como a Rússia, a China é um país em ascensão e a última coisa de que precisa para ter sucesso é uma guerra.

O único país que necessita urgentemente de uma guerra são os EUA, e isso acontece porque o objetivo de Washington é o exercício de uma hegemonia neoconservadora estadunidense sobre o mundo.

Países que os EUA-Israel bombardearam (vermelho) ou tem bases militares (azul)
Antes dos regimes de Bush e Obama, todos os presidentes anteriores dos Estados Unidos envidaram seus melhores esforços em prevenir uma ameaça de guerra nuclear. A doutrina de guerra nuclear americana sempre se limitou a uma retaliação caso os Estados Unidos fossem alvo de um ataque nuclear. O objetivo das forças nucleares sempre foi evitar o uso dessas armas. O regime imprudente de George W. Bush destruiu essa política de contenção elevando as armas nucleares a um patamar de primeiro ataque preventivo. O objetivo primordial da administração Reagan foi o fim da guerra fria e por consequência, o fim da ameaça de guerra nuclear. Os regimes de George W. Bush, juntamente com o regime de Obama, promovendo a demonização da Rússia, já derrubaram o feito único e brilhante do presidente Reagan, e acabaram por tornar novamente possível a guerra nuclear.

Quando o governo incompetente de Obama decidiu derrubar o governante democraticamente eleito da Ucrânia, trocando-o por um governo fantoche escolhido por Washington, o Departamento de Estado de Obama, que por sua vez é fantoche de ideólogos neoconservadores, acabou por se esquecer que o leste e o sul da Ucrânia são compostos por antigas províncias russas que foram alocadas à República Soviética Socialista da Ucrânia por líderes do Partido Comunista quando a Ucrânia e a Rússia eram parte de um mesmo país, a União Soviética. A seguir, quando os idiotas russófobos que Washington instalou em Kiev demonstraram não apenas por palavras, mas também por atos sua hostilidade agressiva em relação à população russa, as antigas províncias russas declararam seu desejo de tornar a fazer parte da mãe Rússia. Não há surpresa nisso, nem pode ser atribuída qualquer culpa à Rússia por esse fato.

A Criméia teve sucesso em retornar à Rússia, da qual fazia parte desde 1700, mas Putin, talvez na esperança de desarmar a propaganda de guerra manipulada que os EUA disparava contra ele, não aceitou a solicitação das outras antigas províncias russas. Em consequência, os fantoches de Washington em Kiev se sentiram livres para atacar as pessoas que protestavam nas províncias, copiando a política de Israel de atacar a população, as residências e a infraestrutura civil.

A mídia prostituta do ocidente deixou os fatos de lado e prontamente acusou a Rússia de anexar partes da Ucrânia. Mentira absurda, só comparável com as mentiras ditas pelo Secretário de Estado, Colin Powell na ONU, quando falou sobre as supostas armas de destruição em massa do Iraque, tudo para favorecer o regime criminoso de Bush. Mais tarde, Powell pediu desculpas pela mentira, mas isso de nada adiantou ao Iraque e às centenas de milhares de vítimas, destruídas por suas mentiras.

Você se qualificou para o nosso "Compre 2 conflitos no Oriente Médio e ganhe um terceiro (praticamente) GRÁTIS"
Quando o avião da Malásia foi abatido, antes de se conhecer quaisquer fatos, a Rússia foi responsabilizada. A mídia britânica foi especialmente virulenta em culpar a Rússia quase no mesmo instante em que se soube que o avião fora derrubado. As deturpações grosseiras e mentiras deslavadas da BBC e da American National Public Radio só foram superadas como propaganda manipulada pelo Daily Mail. Tudo leva a crer que a “notícia” e sua propagação foi adrede orquestrada o que sugere, é claro, que os EUA estavam por trás de tudo.

As mortes provocadas pela queda do avião se tornaram armas propagandísticas importantes para Washington. Claro que se trata de uma infelicidade a morte de 290 vítimas, mas eles são apenas uma fração do número de palestinos mortos, no mesmo instante sem provocar qualquer rumor ou protesto nem de governos, nem dos povos ocidentais nas ruas, e os poucos que protestaram contra Israel foram convenientemente reprimidos pelas forças de segurança ocidentais.

A queda do avião, provavelmente provocada por Washington, foi usada como mais uma desculpa para nova rodada de “sanções e pressão” dos Estados Unidos, às quais se juntaram mais sanções de seus fantoches europeus.

Como os EUA dependem de acusações e insinuações, se recusa a liberar as provas a partir de fotos de satélite, porque tais fotos desmentiriam a versão dada pelos EUA. Fato. Não se permite qualquer tipo de interferência contra a demonização que Washington promove contra a Rússia, da mesma forma que não se permitiu que qualquer fato interferisse contra a demonização promovida por Washington contra o Iraque, a Líbia, a Síria, o Irã.

Vinte e dois senadores dos Estados Unidos, irresponsáveis e imprudentes, deram forma ao “Ato Preventivo 2014 sobre a Agressão Russa”. O projeto de Lei/2277 do Senado dos Estados Unidos patrocinado pelo Senador Bob Corker, representa bem a ignorância e estupidez que assola a maioria da população dos Estados Unidos ou da maioria dos eleitores do Estado do Tennessee. O Projeto de Lei de Corker é uma peça dementada de legislação destinada a promover uma guerra que muito provavelmente não deixará sobreviventes. Aparentemente os eleitores imbecis dos Estados Unidos elegerão qualquer idiota para o poder.

A convicção de que a Rússia é responsável pela queda do avião da Malásia tornou-se verdade incontestável nas capitais do ocidente, mesmo sem qualquer farrapo de evidência de que tal afirmação é verdade. Convenhamos, mesmo que a acusação fosse verdadeira, a queda de um avião é motivo para deflagrar uma Guerra Mundial?

Destroços do voo MH17 da Malasya Airlines
O Comitê de Defesa do Reino Unido concluiu que o reino quebrado e seu exército impotente devem “concentrar-se na defesa da Europa contra a Rússia”. Batendo os tambores das despesas militares, se não os da própria guerra, o Reino Unido quer levar todo o ocidente em sua companhia. Uma Grã-Bretanha impotente quer defender a Europa de uma ameaça que não existe, mesmo estridulamente proclamada, de ataque do urso russo.

Alertas são emitidos por dignitários militares da OTAN e dos Estados Unidos, assim como do chefe do Pentágono, tudo baseado na alegada, mas não existente presença de tropas russas na fronteira com a Ucrânia. De acordo com o Ministério de Propaganda Manipulada do ocidente, caso a Rússia defenda a população na Ucrânia dos ataques militares desfechados pelos fantoches de Washington em Kiev, isso se constitui em prova de que a Rússia é o vilão.

A campanha de propaganda mentirosa de Washington teve sucesso em transformar a Rússia em uma ameaça. Pesquisas demonstram que 69% dos estadunidenses hoje vêem a Rússia como uma ameaça, e que a confiança dos russos nos líderes americanos desapareceu. Os russos e seu governo percebem uma demonização idêntica contra o seu país e seu líder, como observaram em relação ao Iraque e Saddam Hussein, contra a Líbia e Muammar Gadaffi, contra a Síria e Assad, e contra o Afeganistão e o Talibã, imediatamente antes de serem seus países tomados de assalto pelo ocidente. Para um russo, a conclusão óbvia, a evidência gritante é que Washington pretende fazer a guerra contra a Rússia.

A irresponsabilidade e a imprudência do regime de Obama não tem precedentes, em minha opinião. Nunca antes houve nos Estados Unidos ou em qualquer outra potência nuclear, um governo que fosse tão longe em seus esforços para convencer outra potência nuclear de que seu poder estava sendo preparado para um ataque. Imaginar ato tão provocativo e mais perigoso para a vida no planeta Terra é muito difícil. Indubitavelmente, o louco da Casa Branca duplicou esse perigo, convencendo ao mesmo tempo a Rússia e a China de que os Estados Unidos preparam um primeiro ataque nuclear preventivo contra ambos.

Os republicanos querem processar ou impichar (conforme Dicionário Aulete - NT) Obama por assuntos relativamente desimportantes como o ObamaCare. Por que os republicanos nãoimpicham Obama por causa de um assunto tão crucial como submeter o mundo ao risco de um Armagedon?

A resposta está no fato de que os republicanos são tão insanos quanto os democratas. Seus líderes, como John McCain e Lindsay Graham, estão determinados a “levantar-se contra os russos!”. Para onde quer que se olhe para os políticos estadunidenses, só se vê gente louca, psicopatas e sociopatas que não deveriam estar ocupando um cargo político.

Washington mandou a diplomacia às favas há longo tempo. Os EUA baseiam-se na força e na intimidação. O governo dos Estados Unidos é totalmente desprovido de bom senso. Não é por outra causa que uma pesquisa efetuada no resto do mundo considera que o governo dos Estados Unidos é atualmente a maior ameaça à paz mundial. Hoje (8/8/2014) Handelsblatt, o Jornal de Wall Street da Alemanha escreveu, em um editorial assinado:

A tendência demonstrada pelos Estados Unidos de transformar uma escalada verbal em escalada militar – o isolamento, demonização e ataque aos inimigos – mostrou-se ineficaz. O último grande sucesso militar em ação dos Estados Unidos aconteceu na invasão da Normandia (em 1944). Todos os outros – Coréia, Vietnã, Iraque e Afeganistão – acabaram em claro fracasso. Mover unidades da OTAN através da fronteira Polonesa para perto da Rússia e pensar em armar a Ucrânia não passa da continuação da política de contar com os meios militares em detrimento da diplomacia.

Os Estados fantoches de Washington – toda a Europa, Japão, Canadá e Austrália – permitem um perigo inigualável ao mundo todo através de seu apoio à agenda dos EUA continuarem a exercer sua hegemonia sobre o mundo inteiro.

Expansão Global do envolvimento militar dos EUA
(clique na imagem para aumentar)
Acaba de acontecer o 100º aniversário da Iª Guerra Mundial. Hoje, repete-se a loucura que causou aquela guerra calamitosa. A Iª Guerra Mundial destruiu o mundo ocidental civilizado, e foi causado por um punhado de conspiradores. O resultado foi Lênin, a União Soviética, Hitler, o nascimento e crescimento do Império Americano, Coréia, Vietnã, intervenções militares que acabaram na criação do EIIL (ISIL, ISIS, DAASH) e agora está sendo recriado o conflito entre Rússia e Estados Unidos, que o presidente Reagan e Mikhail Gorbachev haviam sepultado.

Como já salientou Stephen Starr em meu site, se apenas 10% das armas nucleares do arsenal dos Estados Unidos e da Rússia forem usados, a vida na Terra acabará.

Caros leitores, perguntem a vocês mesmos, quando foi que Washington falou qualquer coisa que não fosse uma mentira? As mentiras dos EUA já causaram milhões de mortes. Você quer se tornar mais uma vítima dessas mentiras?

Você acha que vale a pena o risco de acabar com a vida na Terra por causa das mentiras dos EUA sobre a queda do avião da Malásia e sobre a Ucrânia? Existe alguém ingênuo o suficiente para acreditar que os EUA não mentem sobre a Ucrânia da mesma forma que mentiram sobre as armas de destruição em massa de Hussein, sobre as bombas iranianas e sobre o uso por Assad de armas químicas?

Você não acha que a influência noeconservadora que prevalece hoje em Washington, independentemente do partido político no poder, é muito perigosa para ser tolerada?


[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano e colunista doCreators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street Journal,Business WeekeScripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que destruíram a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Israel: prossegue o GENOCÍDIO, por etapas, no gueto de Gaza

13/7/2014, [*] Ilan Pappé, The Electronic Intifada
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gaza, a visão do NAZISSIONISMO GENOCIDA
Em artigo de setembro de 2006 para The Electronic Intifada, defini a política israelense para a Faixa de Gaza como genocídio por etapas.

O assalto contra Gaza que Israel comete hoje indica, desgraçadamente, que essa política não mudou. A expressão ajuda a ver que a ação bárbara dos israelenses – em 2006, como hoje – faz-se por passos, em contexto histórico mais amplo.

É preciso insistir sempre sobre esse contexto, porque a máquina de propaganda israelense só faz repetir e repetir uma mesma narrativa, como se as políticas israelenses acontecessem fora de qualquer contexto; e converte o pretexto que encontrem para cada nova onda de destruição, em alguma espécie de principal ‘justificativa’ para ondas de assassinato indiscriminado, nos campos de morte de palestinos pelos quais os israelenses passeiam.

O contexto

A estratégia sionista para apresentar suas políticas brutais como resposta ad hoc a uma ou outra ação dos palestinos é tão velha quanto a presença maléfica de israelenses na Palestina. Sempre foi usada, repetidamente, como justificativa para impor a visão sionista de uma Palestina futura, onde haveria bem poucos, se algum, palestinos nativos.

Os meios para alcançar esse objetivo mudaram ao longo dos anos, mas a fórmula permaneceu a mesma: seja qual for a visão sionista de um Estado Judeu, só se poderá materializar sem número significativo de palestinos sobre a face da Terra. E hoje, a visão sionista é uma Israel que cubra quase toda a Palestina histórica, onde ainda vivem milhões de palestinos.

A onda genocida em curso hoje tem, como todas as anteriores sempre tiveram, algum contexto imediato. Dessa vez, teve a ver com o projeto de fazer gorar a decisão dos palestinos de constituir um governo de unidade, contra o qual nem os EUA teriam objeções.

O colapso da desesperada iniciativa “de paz” do secretário de Estado dos EUA John Kerry legitimou o apelo palestino a organizações internacionais para que interviessem e pusessem fim à ocupação. Ao mesmo tempo, os palestinos ganharam amplo reconhecimento internacional e apoio para a cautelosa tentativa, pelo governo de unidade, de construir política coordenada entre os vários grupos políticos e respectivas agendas.

Desde junho de 1967, Israel procura um meio para manter os territórios que ocupou naquele ano, sem incorporar a população palestina indígena e dar aos palestinos os mesmos direitos de cidadania que têm os israelenses. E todo o tempo os israelenses mantêm a farsa de algum “processo de paz”, para encobrir o movimento pelo qual vão ganhando tempo para implantar suas políticas unilaterais de colonização.

Funeral de Salameh Abu Edwan; campo de refugiados de Rafah, Gaza, 29/8/2006.
Ao longo das décadas, Israel passou a diferençar entre áreas que queria controlar completa e diretamente, e áreas que controlaria indiretamente, com o objetivo de, no longo prazo, reduzir ao mínimo a população de palestinos, usando, dentre outros meios, campanhas de limpeza étnica e estrangulamento econômico e geográfico.

A localização geopolítica da Cisjordânia cria a impressão em Israel, pelo menos, de que é possível conseguir tal objetivo sem provocar uma terceira Intifada nem excessiva condenação internacional.

A Faixa de Gaza, dada sua especialíssima localização geográfica, não se presta muito facilmente a tal estratégica. Sempre desde 1994, ainda mais depois que Ariel Sharon chegou ao poder como primeiro-ministro nos primeiros anos 2000s, a estratégia é cercar Gaza num gueto, e pôr-se à espera de que todo o povo que ali vive – hoje, 1,8 milhão de pessoas – morra e caia no esquecimento eterno.

Mas o Gueto mostrou-se rebelde, sem nenhuma disposição para se deixar ficar em condições subumanas, de estrangulamento, isolamento, fome, colapso econômico. Então, para que Israel consiga enviá-los para o esquecimento eterno, voltou a ser indispensável retomar as políticas de genocídio.

O pretexto

Dia 15/5/2014, forças israelenses assassinaram dois jovens palestinos na cidade de Beitunia, na Cisjordânia. Foram assassinados a sangue frio, por matador profissional, como se viu em vídeo. Os nomes deles – Nadim Nuwara e Muhammad Abu al-Thahir – somaram-se à longa lista de assassinatos “oficiais” semelhantes, em meses e anos recentes.

Siam Nawara chora seu filho Nadim assassinado por um “sniper” de Israel em 15/5/2014
A morte de três adolescentes israelenses, dois dos quais menores de idade, sequestrados em junho na Cisjordânia ocupada, foi talvez revanche pela matança de crianças palestinas. Mas, com todas as depredações da ocupação opressiva, serviu como pretexto – primeiro e sobretudo – para quebrar a delicada unidade na Cisjordânia; mas, também, para implementar o velho sonho israelense de varrer de Gaza o Hamás, para que o gueto fosse, outra vez, calado.

Desde 1994, mesmo antes de o Hamás chegar ao poder pelas urnas na Faixa de Gaza, a conformação geopolítica especialíssima da Faixa já deixava claro que qualquer ação de castigo coletivo – como essa ao qual o mundo assiste hoje – seria sempre e fatalmente operação de destruição e matança massivas. Em outras palavras: seria ação de genocídio continuado.

Esse reconhecimento jamais inibiu os generais israelenses, que dão ordens para bombardear (por terra, mar e ar) populações de civis. Reduzir o número de palestinos vivos sobre a Palestina histórica ainda é o ideal sionista. Em Gaza, a implementação desse ideal assume sua forma mais desumana.

O timing especial dessa onda é determinado, como em outras ondas passadas, por considerações de oportunidade. A agitação social que se viu em 2011 em Israel ainda fermenta; já há algum tempo ouvem-se clamores, na sociedade de Israel, para que se façam cortes nos gastos militares e desloque-se o dinheiro consumido no super inflado orçamento da “defesa”, para serviços sociais. O exército declarou que a ideia equivaleria a suicídio.

E nada há, como uma operação militar, para calar qualquer voz que exija que o governo reduza despesas militares.

Outra vez, veem-se também agora vários traços sempre presentes nesse genocídio cumulativo. A maioria dos judeus israelenses apoiam o massacre de civis na Faixa de Gaza, sem que se ouça qualquer voz significativa de dissenso. Em Telavive, os poucos que se atreveram a manifestar-se contra a matança de civis na Palestina foram espancados por gangues armadas com porretes e correntes, enquanto a Polícia manteve-se à distância, assistindo.

A universidade, como sempre, também se incorpora à máquina de matar. Uma prestigiosa universidade privada, o Centro Interdisciplinar Herzliya montou um quarteirão civil no qual os alunos, voluntariamente, trabalham na campanha internacional a favor de Israel.

Campanha de Solidariedade à Palestina
A imprensa-empresa, sempre leal aos sionistas, já recrutada, esconde qualquer imagem real da catástrofe humana que Israel gera e amplia na Palestina Ocupada, e só faz ‘informar’ ao seu público cativo dentro de Israel que, dessa vez, “a opinião pública mundial nos compreende e nos apoia”.

É “informação” correta, só na medida em que as elites políticas ocidentais continuam a garantir ao “estado judeu” a velha imunidade. Mas a imprensa-empresa sempre fracassa no que tenha a ver a garantir a Israel o nível de legitimidade com que sonha, para encobrir completamente suas políticas criminosas.

As exceções infalíveis são a imprensa francesa, sobretudo o canal France 24, e a BBC, que jamais se cansam de papaguear desavergonhadamente a propaganda israelense.

Nem chega a surpreender, porque os grupos de lobby pró-Israel continuam a trabalhar incansavelmente para promover a causa sionista na França, no resto da Europa e, claro, também nos EUA.

O caminho adiante

Seja queimar vivo um jovem palestino de Jerusalém, ou assassinar a tiros dois outros por desfastio em Beitunia, ou matar famílias inteiras em Gaza, todos esses atos só são possíveis (e repetidamente possíveis!) se a vítima tiver sido previamente desumanizada.

Concedo que, por todo o Oriente Médio, veem-se hoje casos horrendos em que a desumanização das vítimas gera desgraças como as que Israel promove em Gaza. Mas há uma diferença crucial entre aqueles casos e a brutalidade israelense: os demais assassinatos bárbaros em todo o Oriente são condenados, por bárbaros e desumanos, em todo o mundo. Mas os assassinatos bárbaros e desumanos cometidos por israelenses ainda são elogiados, publicamente autorizados e aprovados até pelo presidente dos EUA, por líderes da União Europeia e por outros amigos de Israel em todo o mundo.

Palestinos carregam o corpo de Muhammad Abu Khudair, 16 anos, sequestrado e queimado até a morte por judeus nazissionistas em Jerusalém na manhã de 4/7/2014 
A única chance de sucesso, na luta contra o sionismo na Palestina advirá de compromisso com uma agenda de direitos civis e humanos que não invente diferenças entre ‘categorias’ de violações e de violadores; que não inverta os papeis, entre vítimas e criminosos.

Todos os que cometem atrocidades no mundo árabe contra minorias oprimidas e comunidades desamparadas – assim como os israelenses que hoje assassinam palestinos – têm de ser julgados pelos mesmos padrões morais e éticos. Todos são criminosos de guerra. A diferença é que, no caso da Palestina, os criminosos de guerra estão em ação, sem parar, há mais tempo que qualquer outro criminoso, em qualquer outra guerra.

Absolutamente não importa a identidade religiosa do povo que mata em nome da própria religião que diz respeitar. Chamem-se eles mesmos jihadistas, judeusistas ou sionistas, todos têm de ser julgados pelos mesmos padrões morais.

Um mundo que consiga parar de servir-se de duplos padrões nos negócios com Israel será mundo muito mais efetivo na resposta que dará a crimes de guerra em qualquer parte do mundo.

Pôr fim ao genocídio por etapas em Gaza; restituir direitos humanos e civis básicos aos palestinos, vivam onde viverem – inclusive restituir-lhes o direito de retorno – é a única via possível para abrir novas vias para uma intervenção internacional produtiva no Oriente Médio como um todo.


[*] Ilan Pappé (em hebraico: אילן פפה; nasceu em Haifa em 1954) é um historiador judeu israelense, professor de História na Universidade de Exeter, no Reino Unido. Foi docente em Ciências Políticas em sua cidade natal, na Universidade de Haifa (1984-2007). Pappé faz uma análise profunda sobre os acontecimentos de 1948 (criação do Estado de Israel) e seus antecedentes. Em particular, ele defende em seu livro mais importante, Ethnic Cleansing in Palestine [A limpeza étnica na Palestina], que houve uma limpeza étnica, ou seja, a expulsão deliberada da população civil árabe da Palestina - operada pela Haganah, pelo Irgun e outras milícias sionistas, que formariam a base do Tzahal - segundo um plano elaborado bem antes de 1948. Pappé considera a criação de Israel como a principal razão para a instabilidade e a impossibilidade de paz no Oriente Médio. Segundo ele, o sionismo tem sido historicamente mais perigoso do que o islamismo extremista. Ao longo dos anos 2000, Ilan Pappé notabilizou-se por várias polêmicas, notadamente a controvérsia do massacre de Tantura, e por seu apelo ao boicote internacional às universidades israelenses, o que o levou a entrar em conflito com seus colegas da Universidade de Haifa, particulamente com Yoav Gelber. Ilan Pappé e Benny Morris, um outro historiador, divergiram frontalmente quanto à análise dos eventos de 1948 e quanto à atribuição de responsabilidades no conflito israelo-palestino .