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terça-feira, 21 de abril de 2015

Noam Chomsky: “Os EUA são os maiores terroristas do mundo”

20/4/2015, EuroNews, Isabelle Kumar entrevista [*] Noam Chomsky
Traduzido por Mberublue


Nota da redecastorphoto: Noam Chomsky é uma das personalidades mais marcantes do mundo intelectual. Autor prolífico e personalidade cativante que, aos 86 anos, não dá sinais de querer diminuir o ritmo de trabalho. Presença denunciante dos vários crimes e injustiças cometidos com bastante frequência pelo Ocidente em geral e os EUA em particular.

Estas e outras questões foram tentativamente discutidas nesta entrevista com o reputado linguista, filósofo e ativista político norte-americano, professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino dos Estados Unidos.

Apesar da fraqueza e do evidente despreparo da “jornalista” entrevistadora conseguimos vislumbrar o brilhante intelecto de Chomsky.




Isabelle Kumar (IK): O mundo em 2015 parece ser um lugar muito inseguro, mas se você olhar para o todo, sentir-se-ia otimista ou pessimista sobre a situação atual?

Noam Chomsky (NC): Na cena global estamos caminhando para um precipício e determinados a cair nele, através de radicais reduções da capacidade para uma sobrevivência decente.

IK: Que precipício é esse?

NC: Há dois atualmente, um deles a catástrofe ambiental que é iminente e estamos sem tempo suficiente para lidar com o problema. Quando fazemos alguma coisa, fazemos a coisa errada, e o outro tem a ver com os últimos 70 anos, que seja a ameaça de uma guerra nuclear, que na realidade está crescendo. Se você prestar atenção aos dados, é um milagre que tenhamos sobrevivido até agora.

IK: Primeiro, o problema ambiental. Temos perguntas oriundas de frequentadores de nossa mídia social, que estão enviando seus questionamentos e são montes deles. Recebemos, por exemplo, uma pergunta de Enoa Agoli: quando você olha para o problema ambiental através da lente de um filósofo, o que você pensa sobre a mudança climática?

NC: A espécie humana está aqui há cerca de mais ou menos 100.000 anos e neste instante está face a face com um momento único em sua história. Esta espécie está agora em uma posição em que deve decidir muito rapidamente, em algumas gerações, se o experimento autointitulado “vida inteligente” continuará a existir ou está determinado à autodestruição? Quero dizer aqui que a esmagadora maioria dos cientistas reconhece que grande parte dos combustíveis fósseis deveriam ser deixados no solo, isso se quisermos realmente que nossos netos tenham um futuro decente. Mas a estrutura institucional de nossa sociedade pressiona cada vez mais agudamente para que se extraia cada gota. Os efeitos, as consequências para os seres humanos e os efeitos já preditos sobre a mudança climática estão às nossas portas e são catastróficos. Trata-se da corrida para o precipício que já mencionei.

IK: Já que falamos de guerra nuclear, podemos ver um panorama no qual se alcançou um acordo preliminar com o Irã. Isso lhe dá pelo menos um raio de esperança de que o mundo possa se tornar um lugar mais seguro?

NC: Sou favorável às negociações com o Irã, mas tais negociações estão profundamente equivocadas. Há dois Estados cuja voracidade no Oriente Médio está produzindo agressões, violência, atos terroristas e ações ilegais constantemente. Os dois são Estados nucleares e possuem blindagem contra ataques nucleares. E suas armas nucleares não estão sendo levadas em conta.

IK: A quem exatamente você está se referindo?

NC: Aos Estados Unidos e a Israel. Dois dos maiores estados nucleares no mundo. Entendo que é por essa razão que em pesquisas internacionais, levadas a efeito por agências de pesquisas dos próprios Estados Unidos, este aparece lembrado como a maior ameaça à paz mundial por grande margem. Nenhum outro país chega sequer perto. É interessante notar que a mídia dos Estados Unidos se recusa a publicar estes resultados, o que não os faz desaparecer.

IK: Você não tem muita consideração com o Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Mas este acordo não faz com que você o veja em termos um pouco melhores? O fato de que ele está tentando reduzir o risco de uma guerra nuclear?

NC: Bem, na verdade ele não está. Ele acaba de dar início a um programa de um trilhão de dólares para modernizar o sistema de armas nucleares dos Estados Unidos, o que significa expandir o sistema de armamento nuclear. Esta é uma das razões pelas quais o relógio do juízo final, criado pelo Boletim dos Cientistas Atômicos foi, apenas duas semanas atrás, colocado dois minutos mais perto da meia noite. A meia noite significa o fim. Assim, estamos agora a apenas três minutos da meia noite, o que é o mais perto nos últimos trinta anos, desde o início dos anos Reagan, quando estivemos assustadoramente perto da guerra nuclear.

IK: Você mencionou Israel e Estados Unidos relacionados ao Irã. Agora, o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Natenyahu obviamente não quer que o acordo nuclear com o Irã funcione, e ele disse...

NC: Interessante... deveríamos nos perguntar por que.

IK: Por que?

NC: Nós sabemos porque. O Irã gasta muito pouco com equipamentos militares, mesmo pelo padrão da região, muito menos que os Estados Unidos. A estratégia do Irã é defensiva, projetada para segurar um ataque o tempo suficiente para que a diplomacia possa agir, e os Estados Unidos e Israel, dois estados bandidos, não podem tolerar um estado dissuasivo. Nenhum analista estratégico que tenha um cérebro que funcione minimamente pensa que o Irã usará uma arma nuclear. Mesmo que seja capaz disso, o país seria simplesmente vaporizado e não há qualquer indicação de que os clérigos que dirigem o país, não importa o que se pense deles, querem ver tudo o que têm destruído.

IK: Apenas mais uma questão sobre este assunto e veio através da mídia social, de Morten A. Andersen. Ele pergunta: “você acredita que os Estados Unidos jamais assinariam um acordo que traria perigo, em primeiro lugar, para Israel?”

NC: Os Estados Unidos estão a todo instante promovendo ações que são muito perigosas para o Estado de Israel. A saber, o apoio incondicional às políticas israelenses. Pelos últimos 40 anos, a maior ameaça enfrentada por Israel veio de suas próprias políticas. Se você olhar 40 anos atrás, e falo de 1970, Israel era um dos países mais admirados e respeitados em todo o mundo. Havia muitas atitudes favoráveis para com o país. No início dos anos 70s Israel tomou uma decisão. Tinha que fazer uma escolha e preferiu trilhar o caminho da expansão em detrimento da segurança com todas as perigosas consequências que esta decisão provocou. Consequências estas que atualmente são óbvias. Além de mim, outras pessoas escreveram sobre isso. Se você prefere expansão à segurança isso vai levar você em direção à degeneração interna, ódio, oposição, isolamento e por último, a possível destruição. Apoiando essas políticas, os Estados Unidos estão contribuindo para as ameaças que Israel encara hodiernamente.

IK: O que me leva então ao tema do terrorismo. Porque é uma praga global e muita gente, e penso que posso incluir você mesmo, afirmarão que é um tiro pela culatra da política de guerra ao terror dos Estados Unidos ao redor do mundo. Até onde podem ser os Estados Unidos e seus aliados responsabilizados pelo que vimos atualmente em termos de terrorismo pelo mundo afora?

NC: Não se esqueça de que a pior campanha terrorista do mundo é, de longe, aquela levada a efeito por e orquestrada em Washington. É uma campanha global de assassinatos. Nunca antes houve uma campanha terrorista nesta escala.

IK: Quando você fala de campanha de assassinatos...?

NC: As ações com o uso de drones – é exatamente o que isso quer dizer. Sobre grande parte do globo os Estados Unidos estão sistemática, pública e abertamente – não há qualquer segredo no que estou dizendo, nós sabemos disso – está levando a efeito uma campanha regular para assassinar pessoas que o governo dos Estados Unidos suspeita que possa prejudicá-lo algum dia. E isso é, na realidade, como você mencionou, uma campanha que gera mais terror, pois quando você bombardeia uma vila no Iêmem e mata algumas pessoas – as quais talvez sejam as pessoas que você quer, talvez não – e mais algumas pessoas que moram ou que aconteça se encontrarem nas vizinhanças – como você acha que os sobreviventes reagirão? Eles querem vingança.

IK: Você descreve os Estados Unidos como o principal país terrorista. Onde se encaixa então a Europa neste quadro?

NC: Bem, esta é uma questão bem interessante. Assim, por exemplo, já existe um estudo feito recentemente. Penso que foi realizado pela Open Society Foundation... a pior forma de tortura é a “entrega extraordinária”. Entrega extraordinária significa que você prende uma pessoa da qual você tem uma suspeita qualquer, e a envia para o seu ditador favorito, talvez Assad ou Kadaffi ou Mubarak para ser torturada, esperando que surja disso alguma coisa. Isto define a maravilhosa entrega extraordinária. Obviamente, os ditadores do Oriente Médio participam, e estas pessoas foram enviadas para lá para serem torturadas. Também a Europa participa. A maioria da Europa participa. Inglaterra, Suécia e outros países. De fato, só existe uma região no mundo onde nenhum país participou: a América Latina. Esse fato é dramático. Não participou apenas porque hoje a América Latina está livre dos laços que a prendiam ao controle dos Estados Unidos. Quando a América Latina era dominada pelos EUA, há não muito tempo atrás, ela foi um dos centros mundiais de tortura. Agora, não participam da pior forma de tortura que existe, que é a entrega extraordinária. A Europa participa. Quando os mestres rugem, os servos obedecem.

IK: Então a Europa é serva dos Estados Unidos?

NC: Não tenha dúvidas. São muito covardes para ter qualquer posição de independência.

IK: Onde se enquadra Vladimir Putin nesta paisagem? Ele é pintado como se fosse uma enorme ameaça à segurança. Ele é?

NC: Como muitos líderes, ele é uma ameaça para a população de seu próprio país. Praticou ações ilegais, obviamente. Mas descrevê-lo como sendo um monstro enlouquecido, dizer que ele tem problemas mentais e que sofre de Alzheimer, que é uma criatura vil e maldosa, trata-se de fanatismo Orwelliano do tipo padrão. Quero dizer, o que quer que você pense sobre suas políticas, elas são compreensíveis. A ideia de que a Ucrânia pode se juntar a uma aliança militar ocidental seria inaceitável para qualquer líder russo. Isso remete para 1990, quando do colapso da União Soviética. Havia uma questão muito importante sobre o que aconteceria com a OTAN. Gorbachev concordou em permitir que a Alemanha fosse reunificada e se juntasse à OTAN. Foi uma concessão e tanto, mas havia uma contrapartida: que a OTAN nunca mais se expandiria sequer uma polegada para o leste. Esta foi exatamente a frase usada naquela ocasião.

IK: Então a Rússia tem sido provocada?

NC: Bem, o que aconteceu? A OTAN instantaneamente incorporou a Alemanha Oriental e então Clinton tratou de expandir a OTAN diretamente até as fronteiras da Rússia. Agora, o governo ucraniano, estabelecido depois de um golpe que derrubou o governo precedente, fez o parlamento votar a adesão à OTAN, com uma aprovação de 300 a 8 ou coisa semelhante.

IK: Mas você pode entender porque eles gostariam de se unir à OTAN, você pode ver por que o governo de Petro Poroshenko muito provavelmente vê a união com a OTAN como a proteção de seu país?

NC: Não, não, não, não. Não se trata de proteção. É certo que a Crimeia foi tomada apenas depois do golpe que derrubou o governo anterior. E a união com a OTAN não protege a Ucrânia e sim a ameaça com uma guerra em grande escala. Neste momento, não se trata de proteção. O ponto é: o que temos é uma ameaça estratégica muito séria contra a Rússia, contra a qual qualquer líder russo tem que reagir. É muito fácil de entender.

IK: Porém quando olhamos a situação da Europa, existe outro fenômeno interessante tomando lugar. Vemos a Grécia movendo-se em direção ao leste, potencialmente, assim como vemos o partido PODEMOS que ganha poder na Espanha. E há a Hungria. Você vê que existe um potencial para a Europa iniciar por si mesma um alinhamento maior com os interesses russos?

NC: Dê uma olhada no que está acontecendo. A Hungria não se encaixa, é uma situação inteiramente diferente. O partido Syriza assumiu o poder levado por uma onda popular que afirmava que a Grécia não mais deveria sujeitar-se às políticas de Bruxelas e aos bancos da Alemanha que estavam destruindo o país. O efeito das políticas de Bruxelas e dos bancos era na verdade fazer crescer imensuravelmente o débito grego em relação à sua capacidade de produzir riqueza; provavelmente metade dos jovens gregos está desempregada e provavelmente 40% da população vive abaixo da linha da pobreza. A Grécia está em ruínas.

IK: Então seu débito deve ser anulado?

NC: Sim, da mesma forma que foi feito em relação à Alemanha. Em 1953, quando a Europa perdoou a maioria dos débitos germânicos. Apenas por isso foi a Alemanha capaz de reconstruir o país devastado pela guerra.

IK: Mas então, e quanto aos demais países da Europa...?

NC: A mesma coisa.

IK: Posso concluir então que Portugal deve ter seu débito anulado, assim como a Espanha?

NC: Quem contraiu esse débito? A quem se deve tais quantias? Em grande parte, as dívidas foram contraídas por ditadores. Como na Grécia, onde uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos contraiu grande parte do débito grego. Penso que essa dívida é ainda mais brutal que a ditadura, e não deve ser paga, pois se trata daquilo que em direito internacional é chamado de “dívida odiosa”, introduzida na legislação internacional principalmente pelos Estados Unidos, quando isso era de seu interesse. Muito do restante dos débitos, chamados de contribuições para a Grécia não passaram de contribuições para os bancos franceses e alemães, que decidiram emprestar dinheiro com baixo interesse e risco extremo e agora se veem face ao risco de não serem pagos de volta.

IK: Agora, eu gostaria de fazer a seguinte questão, enviada por Gil Gribaudo que pergunta: Como pode a Europa se transformar contra os desafios existenciais que enfrenta atualmente? Porque, sim, temos uma crise econômica e também o crescimento do nacionalismo e você também descreveu algumas falhas culturais que foram criadas através da Europa. Como você vê a Europa a transformar-se em algo melhor?

NC: Os problemas enfrentados pela Europa são sérios. Alguns destes problemas são causados pelas políticas impostas pelos burocratas em Bruxelas, a Comissão Europeia, etc., enfrentando a pressão da OTAN e dos grandes bancos a maioria dos quais da Alemanha. Apenas do ponto de vista de seus elaboradores estas políticas fazem algum sentido. Por um lado, eles querem ser pagos pelos empréstimos de risco, e investimentos arriscados que fizeram e por outro lado, estas políticas estão destruindo sistema de bem estar social dos Estados, do qual aliás, eles nunca gostaram. Mas o sistema de bem estar social é uma das maiores contribuições europeias para a sociedade moderna, mesmo que os ricos e poderosos nunca tenham gostado dele e o fato de que estas políticas o estão erodindo é bom, pelo menos do seu ponto de vista. Há ainda outro problema na Europa. O continente é extremamente racista. Eu sempre considerei que, de fato, a Europa é ainda mais racista que os Estados Unidos. Tal situação não era tão notada na Europa porque as populações europeias no passado sempre tenderam a ser muito homogêneas. Assim, se todos tem cabelos louros e olhos azuis, então você não verá racistas, mas assim que a população começa a mudar, o racismo põe o focinho fora da toca. Muito rapidamente. Este é um dos sérios problemas culturais na Europa.

IK: Eu gostaria de terminar, porque o tempo se tornou curto, com uma questão de Robert Light em um tom mais positivo. Ele pergunta: O que lhe dá esperanças?

NC O que me dá esperanças são algumas das coisas das quais falei. Da América Latina, por exemplo. Há uma significância histórica no que acontece ali. Estamos prestes a ver isso se confirmar na Cúpula das Américas (a entrevista aconteceu antes da reunião de chefes de Estado – NT) que acontecerá no Panamá. Em encontros hemisféricos recentes, os Estados Unidos ficaram completamente isolados. É uma mudança radical em relação a 10 ou 20 anos atrás, quando os Estados Unidos impunham (os assuntos latino americanos). De fato, a razão pela qual Obama fez gestos de amizade em direção a Cuba, foi uma tentativa de romper o isolamento dos Estados Unidos nas Américas. Ocorre que quem estava isolado não era Cuba. Eram os Estados Unidos. Talvez a tentativa venha a falhar. Vamos ver. Os sinais de otimismo na Europa são os partidos Syriza e PODEMOS. Esperemos que haja, finalmente, uma revolta popular contra as políticas de destruição econômica e esmagamento de direitos sociais que resultam da burocracia e dos bancos, e isto é muito esperançoso. Tem que ser.

IK: Noam Chomsky, muito obrigado por ter estado conosco.

[FIM DA ENTREVISTA]

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[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky.
Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismoSeu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Noam Chomsky: Os EUA são o maior estado terrorista do planeta


Deu no New York Times! Agora é oficial!

20/10/2014, [*] Noam ChomskyTelesur, Venezuela
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Noam Chomsky
Imaginem que o Pravda publicasse na primeira página os resultados de um estudo feito pelaKGB que tivesse avaliado os resultados de todas as grandes operações terroristas que o Kremlin tivesse comandado ao redor do mundo, como parte do esforço para descobrir o que levou cada “ação” dessas ao sucesso ou ao fracasso, e estudo que, no final, concluísse que, desgraçadamente, atos terroristas raramente “dão certo” e de tal modo tendem a “dar errado” que, hoje, seria muito mais recomendável [o Kremlin recomendando!] repensar a política e as vias políticas, em vez de fazer terrorismo.

Imaginem também que o artigo citasse o presidente Putin, o qual dissesse que havia encomendado esse estudo à KGB para descobrir casos de “financiamento e apoio com armas e munição a insurgentes ativos dentro de país estrangeiro e que tivessem realmente dado certo. E a KGB [Putin falando] não conseguiu encontrar grande coisa. E que, por isso [Putin] relutava um pouco em repetir novos esforços terroristas.

Se – embora seja quase inimaginável – artigo desse tipo aparecesse publicado na imprensa, se ouviriam muitos gritos de ultraje e indignação que clamariam aos céus; e a Rússia seria amargamente criticada, condenada (e até coisa pior!) não só pelo terrível currículo como terrorista ativíssimo, afinal abertamente confessado, mas, também, por a classe política russa não mostrar nenhuma preocupação e nenhuma indignação, exceto pelo fato de o terrorismo de estado russo funcionar muito mal, e para ordenar que as práticas terroristas fossem aprimoradas.

Tudo isso é muito difícil de imaginar. Artigo desse tipo nunca seria publicado. O problema é que o tal artigo existe e foi publicado. De diferente, só um pequeno detalhe: apareceu publicado no New York Times – e é quase exatamente o tal artigo impossível.

Cabeçalho da reportagem do NYT
Dia 14/10/2014, a matéria de primeira página do New York Times tratava de um estudo feito pela CIA em que a Agência examina as principais ações terroristas comandadas pela Casa Branca em todo o mundo, num esforço para conhecer os fatores que levaram cada ação terrorista ao sucesso ou ao fracasso; e a CIA concluiu que, que, desgraçadamente, atos terroristas raramente “dão certo” e de tal modo tendem a “dar errado” que, hoje, seria indispensável repensar a política e as vias políticas, em vez de fazer terrorismo.

E o artigo cita o presidente Obama, o qual diz que havia encomendado esse estudo à CIA para descobrir casos de “financiamento e apoio com armas e munição a insurgentes ativos dentro de país estrangeiro e que tivessem realmente dado certo. E a CIA [é Obama falando] não conseguiu encontrar grande coisa”. E que, por isso [Obama] relutava um pouco em repetir novos esforços terroristas.

Não se ouviu nenhum grito de ultraje; indignação zero, nada.

A conclusão é clara. Na cultura política ocidental dá-se por natural e adequado que o Líder do Mundo Livre governa um estado-bandido terrorista e pode proclamar abertamente sua eminente liderança na prática de tais crimes. E dá-se por perfeitamente natural e adequado que o professor de Direito Constitucional e laureado com o Prêmio Nobel da Paz que tem as rédeas do poder só se deva preocupar com praticar com mais eficácia, o mesmo velho terrorismo de sempre.

Basta examinar mais de perto, para ter certeza que as conclusões a extrair são exatamente essas.

O artigo começa citando abertamente as operações [terroristas] dos EUA “de Angola a Nicarágua e a Cuba”. Acrescentemos um pouco do que o jornal omitiu.

Jonas Savimbi
Em Angola, os EUA uniram-se à África do Sul no apoio crucial ao UNITA, exército do terrorista Jonas Savimbi, e continuaram a apoiar aqueles terroristas mesmo depois de Savimbi já ter sido completamente derrotado numa eleição livre e cuidadosamente fiscalizada e até depois de a própria África do Sul já ter deixado de apoiar aquele “monstro cuja ânsia de poder trouxe terrível miséria para seu próprio povo” – nas palavras do embaixador britânico em Angola, Marrack Goulding, secundado pelo chefe da estação da CIA na vizinha Kinshasa, o qual já alertara que “não foi boa ideia” apoiar o citado monstro, “por causa da extensão dos crimes de Savimbi. Era homem terrivelmente brutal”.

Apesar das operações terroristas extensivas e violentíssimas apoiadas pelos EUA em Angola, forças cubanas conseguiram expulsar do país os agressores sul-africanos, os obrigaram a deixar também a Namíbia que ocupavam ilegalmente, e abriram caminho para a eleição em Angola na qual, depois de derrotado, Savimbi “desconsiderou completamente a avaliação feita por quase 800 observadores estrangeiros que acompanharam as eleições, para os quais as eleições haviam sido livres e justas” (New York Times), e continuou a sua guerra terrorista com o apoio dos EUA.

Os feitos heroicos dos cubanos na libertação da África e no fim do apartheid foram saudados por Nelson Mandela, quando afinal deixou a prisão. Dentre seus primeiros atos, Mandela declarou que:

(...) durante todos os meus anos de prisão, Cuba foi uma inspiração, e Fidel Castro, uma torre de fortaleza (...)[as vitórias cubanas] destruíram o mito da invencibilidade do opressor branco e inspiraram as lutas de massas da África do Sul (...) ponto de virada para a libertação de nosso continente – e do meu povo – do flagelo do apartheid. (...) Que outro país pode apresentar histórico de mais desapego e desprendimento que Cuba, em suas relações com a África?

Henry Kissinger
Bem diferente disso, o comandante terrorista Henry Kissinger ficou “apoplético” ante a insubordinação do “pipsqueak” [nulidade; zé-ninguém; meia-leca] Castro, que tinha de ser “esmagado”, como registram William Leogrande e Peter Kornbluh em seu livro Back Channel to Cuba, a partir de documentos recentementes liberados para conhecimento público.

Voltando à Nicarágua, é preciso não esquecer a guerra terrorista de Reagan, que prosseguiu ainda bem depois de a Corte Internacional de Justiça ter ordenado a Washington que cessasse seu “uso ilegal da força” – quer dizer: terrorismo internacional – e pagasse reparação substancial, e depois de já haver projeto de resolução do Conselho de Segurança da ONU conclamando todos os estados (de fato, só os EUA) a respeitar a lei internacional, que foi vetada por Washington.

Mas é preciso reconhecer que a guerra terrorista de Reagan contra a Nicarágua – à qual Bush-pai, “o Bush estadista” – não foi tão destrutiva quando o terrorismo de estado que o mesmo Reagan patrocinara entusiasticamente em El Salvador e na Guatemala. A Nicarágua teve a vantagem de contar com um exército para enfrentar as forças terroristas comandadas pelos EUA, enquanto nos países vizinhos os terroristas que assaltavam a população eram as forças de segurança armadas e treinadas por Washington.

Em algumas semanas estaremos comemorando o Grand Finale das guerras terroristas de Washington na América Latina: o assassinato de seis importantes intelectuais latino-americanos, sacerdotes jesuítas, por uma unidade terrorista de elite do exército salvadorenho, o Batalhão Atlacatl, armado e treinado por Washington, agindo sob ordens explícitas do Alto Comando, e com longo currículo de massacres das vítimas de sempre.

Atlacatl Battalionarmado e treinado pelos EUA
Esse crime chocante, cometido dia 16/11/1989, na Universidade Jesuíta em San Salvador foi o ápice da terrível praga terrorista que se espalhou pelo continente depois que John F. Kennedy mudou a missão dos militares latino-americanos, de “defesa hemisférica” – relíquia já ultrapassada da IIª Guerra Mundial – para “segurança interna”, o que significa: guerra contra a população doméstica, dentro de cada país.

Resultado disso aparece descrito sucintamente por Charles Maechling, que comandou o planejamento da contrainsurgência e defesa interna dos EUA, de 1961 a 1966. Ele fala da decisão de Kennedy, em 1962, como mudança de “tolerância com os roubos e a crueldade entre os militares latino-americanos”, para “cumplicidade direta” nos crimes dos mesmos militares, a ponto de os EUA garantirem apoio “aos métodos de Heinrich Himmler dos esquadrões-da-morte”.

Tudo isso está esquecido, exceto “o tipo certo de fatos”.

John Kennedy
Em Cuba, as operações terroristas de Washington foram lançadas a pleno furor pelo presidente Kennedy, para punir os cubanos por terem derrotado a invasão da Baía dos Porcos comandada pelos EUA. Como escreve o historiador Piero Gleijeses, JFK:

(...) ordenou a seu irmão, o advogado-geral Robert F. Kennedy (RFK), que comandasse o grupo de alto nível inter-agências que concebeu a Operação Mongoose [fuinha], um programa de operações paramilitares, guerra econômica e sabotagem, que ele lançou no final de 1961, para impor ‘os terrores da Terra’ a Fidel Castro, ou, dito mais prosaicamente, para derrubá-lo do governo.

A expressão “terrores da terra” é citada pelo historiador Arthur Schlesinger, sócio de RFK, na biografia semioficial que escreveu dele. RFK informou à CIA que o problema cubano passava a ser:  

(...) a principal prioridade do governo dos EUA – tudo o mais é secundário – e não se deve desviar nenhum minuto, nenhum esforço, nenhuma capacidade humana do esforço para derrubar o governo de Castro e levar “os terrores da Terra” a Cuba.

Robert Kennedy
A guerra terrorista lançada pelos irmãos Kennedy não foi coisa pequena. Envolveu 400 norte-americanos, 2 mil cubanos, uma esquadra privada de barcos rápidos e orçamento anual de US$ 50 milhões, controlado em parte por uma base da CIA que operava em Miami, em violação do Ato de Neutralidade e, presumivelmente, violando também a lei que proíbe operações da CIA dentro dos EUA. As operações incluíram bombardeamento de hotéis e instalações industriais, afundamento de barcos pesqueiros, envenenamento de rebanhos e de plantações, contaminação de estoques de açúcar exportados, etc.. Algumas dessas operações não foram especificamente autorizadas pela CIA, mas executadas pelas forças terroristas que a CIA fundara e financiava, diferença que nada significa no caso de ação contra inimigos oficiais.

As operações terroristas Mongoose foram comandadas pelo general Edward Lansdale, que tinha ampla experiência em operações terroristas comandadas pelos EUA nas Filipinas e no Vietnã. O trabalho da Operation Mongoose  era gerar “revolta aberta e derrubar o regime comunista” em outubro de 1962, o que, para “sucesso definitivo exigirá intervenção militar decisiva dos EUA”, depois que o terrorismo e a subversão tivessem preparado o terreno.

Outubro de 1962 é, claro, momento muito significativo na história moderna. Naquele mês, Nikita Khrushchev enviou mísseis para Cuba, desencadeando a crise dos mísseis que chegou ameaçadoramente perto de uma guerra nuclear terminal. Especialistas reconhecem hoje que Khrushchev foi motivado em parte pela imensa preponderância dos EUA em termos de força, depois que Kennedy respondeu aos seus pedidos para reduzirem as armas ofensivas, aumentando ainda mais a vantagem dos EUA, e em parte por preocupação de que os EUA pudessem invadir Cuba. Anos depois, o Secretário de Defesa de Kennedy, Robert McNamara, reconheceu que Cuba e Rússia tiveram razões para temer um ataque. “Se eu estivesse no lugar dos cubanos ou soviéticos, teria pensado como eles” – disse McNamara numa conferência internacional nos 40 anos da crise dos mísseis.

Raymond Garthoff
O muito respeitado analista político Raymond Garthoff, que teve muitos anos de experiência direta na inteligência dos EUA, relata que, nas semanas antes de a crise de outubro de 1962 eclodir, um grupo de cubanos terroristas que operavam da Flórida com autorização dos EUA executou

(...) um ousado ataque com barcos rápidos contra um hotel cubano próximo ao mar, nos arredores de Havana, onde se sabia que se reuniam técnicos militares soviéticos, matando grande número de russos e cubanos.

E pouco depois, continua Garthoff, as forças terroristas atacaram navios cargueiros britânicos e cubanos e outra vez invadiram Cuba, dentre outras ações cuja frequência aumentava no início de outubro. Num momento tenso da ainda não solucionada crise dos mísseis, dia 8 de novembro de 1962, uma equipe de terroristas enviada pelos EUA explodiu uma instalação industrial em Cuba, depois de as operações Mongoose já estarem oficialmente suspensas. Fidel Castro disse que 400 trabalhadores morreram nesse ataque, guiado por “fotografias feitas por aviões espiões”. Atentados para tentar assassinar Castro e outros ataques terroristas continuaram a acontecer imediatamente depois de a crise estar terminada, e escalaram novamente em anos posteriores.

Houve algumas poucas notícias de uma parte bem menor da guerra terrorista, muitos atentados para assassinar Castro, em geral deixadas rapidamente de lado como trapalhadas infantis da CIA. Além disso, nada do que aconteceu jamais atraiu muito interesse ou comentários nos EUA.

A primeira investigação séria, em idioma inglês, sobre o impacto daquelas ações sobre os cubanos foi publicada em 2010 pelo pesquisador canadense Keith Bolender, em seu Voices From The Other Side: An Oral History Of Terrorism Against Cuba, estudo valioso, largamente ignorado.

Os três exemplos considerados na matéria do New York Times sobre o terrorismo norte-americano são só a ponta do iceberg. Mesmo assim, é útil ver esse muito claro e significativo reconhecimento de o quanto Washington é dedicada a operações do terrorismo mais mortífero e destruidor, e do pouco, praticamente nada, que essa ação terrorista dos EUA significa para a classe política, que aceita como normal e adequado que os EUA se apresentem ante o mundo como superpotência terrorista, imune a leis e normas civilizadas.

Muito estranhamente, o mundo não pensa como a classe política norte-americana. Pesquisa internacional distribuída ano passado pelo Worldwide Independent Network/Gallup International Association (WIN/GIA) descobriu que os EUA ocupam o primeiro lugar, de longe, como “maior ameaça contra a paz mundial hoje”, muito à frente do Paquistão, segundo colocado (certamente inflado pelo voto dos indianos), e nenhum outro país sequer se aproxima desses dois.

Felizmente, os norte-americanos foram poupados, e não tiveram de tomar conhecimento dessa informação insignificante.


[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts  (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismoSeu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.

domingo, 5 de outubro de 2014

Noam Chomsky | Fatos em campo

2/10/2014, [*] Noam ChomskyTruthout
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Gaza, após Israel "aparar a grama" (foto de 17/8/2014)
Dia 26 de agosto de 2014, Israel e a Autoridade Palestina aceitaram um acordo de cessar-fogo, depois de 50 dias de ataque de Israel contra Gaza que deixaram 2.100 palestinos mortos e imensas paisagens de total destruição.

O acordo determina o fim da ação militar de Israel e do Hamás e um alívio no cerco que Israel impõe à Faixa de Gaza e a estrangula já há vários anos.

Mas é só o mais recente de uma série de acordos de cessar-fogo assinados sempre imediatamente depois de mais uma das escaladas israelenses periódicas, no seu sempre inalterado e infindável ataque-assalto contra Gaza.

Desde novembro de 2005 os termos desses acordos permanecem essencialmente os mesmos. O padrão regular é Israel infringir qualquer acordo vigente, e o Hamás respeitar o acordo – como até Israel reconhece – até que, de repente, Israel aumenta desmesuradamente a violência, o que gera reação do Hamás, depois da qual a fúria e a brutalidade de Israel não conhecem limites.

Essas escaladas são chamadas “aparar o gramado”, no jargão israelense. A mais recente foi mais acuradamente descrita como “remover a camada superior do solo”, por alto oficial militar dos EUA, citado em Al-Jazeera America.

O primeiro dessa série foi o Acordo sobre Movimentação e Acesso entre Israel e a Autoridade Palestina em novembro de 2005.

Nos termos desse acordo, haveria um ponto de passagem entre Gaza e o Egito em Rafah para exportação de bens e passagem de pessoas; outras passagens entre Israel e Gaza para bens e pessoas; redução dos impedimentos à movimentação dentro da Cisjordânia; comboios de caminhões e ônibus entre a Cisjordânia e Gaza; seria construído um porto de mar em Gaza; e seria reaberto o aeroporto em Gaza, destruído por bombas israelenses.

Passagem de Rafah, fronteira Gaza-Egito
Aquele acordo foi firmado pouco depois de Israel retirou de Gaza, colonos e soldados israelenses. O motivo do desengajamento foi explicado por Dov Weisglass, confidente do então primeiro-ministro Ariel Sharon, que estava encarregado de negociar e implementar o acordo.

O plano de desengajamento é significativo porque ele congela o processo de paz. E quando se congela aquele projeto, impede-se que se estabeleça qualquer estado palestindo, e também se impede qualquer discussão sobre refugiados, fronteiras e Jerusalém. Efetivamente, todo esse pacote chamado estado palestino, com tudo que implica, fica indefinidamente afastado de nossa agenda. E isso com autoridade e permissão. E com as bênçãos presidenciais [dos EUA] e a ratificação nas duas casas do Congresso – disse Weisglass ao jornal Haaretz.

O desengajamento na verdade é formol, Weisglass acrescentou, fornece todo o formol necessário para que não haja processo político com os palestinos.

Esse padrão mantém-se até o presente: da Operação Chumbo Derretido em 2008-2009 à Operação Pilar da Defesa em 2012 até a Operação Bainha Protetora, esse verão, o mais extremo exercício de “aparar o gramado” – até agora.

Há mais de 20 anos Israel está dedicada a separar Gaza da Cisjordânia, violando claramente os Acordos de Oslo assinados em 1993, que declaram que Gaza e a Cisjordânia são unidade territorial indivisível.

Um exame no mapa explica o que há por trás disso. Separados de Gaza, qualquer enclave na Cisjordânia deixado aos palestinos não terá saída para o mundo externo. Ali, ficam contidos por duas potências hostis, Israel e Jordânia, ambas aliadas e muito estreitamente conectadas aos EUA. E, ao contrário da ilusão de tantos, os EUA não são e estão longe de ser “intermediário honesto” ou neutro.

Além do mais, Israel continua a avançar sistematicamente pelo vale do Jordão, expulsando palestinos, implantando colônias, fechando poços e, por inúmeras vias, garantindo que a região – cerca de 1/3 da Cisjordânia, com grande parte de sua terra arável – acabe integrada a Israel, como outras regiões que vão sendo invadidas.

Os cantões palestinos remanescentes serão completamente cercados. A unificação com Gaza interferiria nesses planos, que já estão traçados desde os primeiros dias da ocupação e recebem apoio monolítico de todos os principais blocos políticos israelenses.

Israel talvez sinta que a tomada de território palestino na Cisjordânia já avançou tanto, que pouco há a temer de alguma forma limitada de autonomia que os enclaves que permanecem palestinos venham a ter.

Palestina - Gaza e Cisjordânia (WEST BANK)
Há também alguma verdade no que disse o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu:

Muitos elementos na região já entendem hoje, na luta na qual são ameaçados, que Israel não é inimiga, mas parceira.

Presumivelmente aludia à Arábia Saudita e aos Emirados do Golfo.

Mas o principal correspondente diplomático de Israel, Akiva Eldar, acrescenta que:

(...) todos esses “muitos elementos na região” também compreendem que não há nenhum movimento diplomático audaz e amplo, no horizonte, sem um acordo sobre o estabelecimento de um estado palestino baseado nas fronteiras de 1967 e solução justa, aceita pelos dois lados, para o problema dos refugiados.

Nada disso está na agenda de Israel, diz ele; e, de fato, permanece em conflito direto com o programa eleitoral sobre o qual foi eleita a coalizão Likud, hoje no poder, jamais cancelado, e que:

(...) rejeita completamente o estabelecimento de qualquer tipo de estado árabe palestino a oeste do rio Jordão.

Alguns analistas israelenses que se devem considerar, por exemplo o colunista Danny Rubinstein, acredita que Israel está decidida a reverter esse curso e relaxar o cerco com o qual estrangula Gaza.

Veremos.

Os registros dos últimos anos sugerem coisa bem diferente, e os primeiros sinais não são auspiciosos. Ao final da Operação Bainha Protetora, Israel anunciou e fez a maior apropriação ilegal de terra da Cisjordânia em 30 anos, de quase 1.000 acres.

Há quem diga, dos dois lados, que, se a solução dos dois estados está morta, como resultado do roubo de terras palestinas por Israel, nesse caso o resultado será um só estado, a oeste do rio Jordão.

Alguns palestinos aceitam essa solução, antecipando que possam engajar-se em luta por direitos iguais, semelhante à luta anti-apartheid na África do Sul. Muitos comentaristas israelenses alertam que o “problema demográfico” que se cria por nascerem mais árabes que israelenses, e por estar diminuindo a imigração de judeus, acabará por minar qualquer esperança que Israel tenha de vir a ser “estado judeu democrático”. São crenças muito divulgadas, que não merecem nenhuma confiança.

A alternativa realista a uma solução de dois estados é Israel prosseguir na implementação do plano que vem implementando há anos: roubar tudo de valor que haja na Cisjordânia, evitar concentrações de população palestina; e remover os palestinos de áreas que vão sendo roubadas por Israel. Assim se resolve também o temido “problema demográfico”.

As áreas de terra que vão sendo roubadas e ocupadas incluem uma muito expandida Grande Jerusalém, a área interna do muro ilegal de separação, corredores que cortam as regiões para o leste e, provavelmente, o vale do rio Jordão.

Como Israel vem ROUBANDO terras da Palestina desde 1946 até 2013 (ROUBOU ainda mais em 2014)
Gaza provavelmente continuará sob o sítio terrível em que vive hoje, separada da Cisjordânia. E as colinas sírias do Golan – anexadas, como Jerusalém, em ato que violou ordens do Conselho de Segurança da ONU – tornar-se-ão aos poucos parte também da Israel Expandida. Enquanto isso, os palestinos da Cisjordânia ficarão contidos em cantões inviáveis, com acomodações especiais para as elites em estilo neocolonial clássico.

A colonização da Palestina pelos sionistas há um século vem sendo feita a partir do princípio pragmático de criar e fixar fatos em campo, o que, com o tempo, o mundo acabou por aceitar. É política muitíssimo bem-sucedida. Há todas as razões para prever que essa colonização persistirá, exatamente como é feita hoje, enquanto os EUA continuarem a providenciar todo o apoio militar, econômico, diplomático e ideológico necessário.

Para todos que se preocupem com os direitos dos palestinos diariamente brutalizados, não pode haver prioridade mais urgente ou mais alta do que trabalhar para mudar as políticas dos EUA – o que absolutamente não é delírio ou sonho inalcançável.


[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismoSeu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.