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quarta-feira, 4 de março de 2015

Três diabos-velhos senis & o fascismo de Vestfália

1/3/2015, [*] Wayne MADSENStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Nunca houve, não há hoje nem jamais haverá posição neutra da OTAN ou da União Europeia, sobre nenhuma questão na qual forças antiunipolares – como Rússia, China, Irã, Venezuela, Brasil e outras – se oponham às elites militares-bancárias de inteligência da aliança ocidental.


John McCain... 
O falcão-de-guerra-em-chefe Republicano e presidente da Comissão das Forças Armadas no Senado dos EUA, senador John McCain do Arizona, deu, numa única semana, extensivo mau uso à sua posição, para arregimentar opiniões de duvidosa validade de três agentes decrépitos da política de poder dos EUA.

Em rápida sucessão, o ex-Secretário de Estado Henry Kissinger; o general (aposentado) Brent Scowcroft, Conselheiro de Segurança Nacional dos presidentes Gerald Ford e George H. W. Bush; e Zbiginiew Brzezinski, Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter, falaram à Comissão presidida por um radiante McCain, sobre a necessidade de manter-se o sistema do Tratado de Vestfália, numa era em que as redes sociais e a internet ameaçam diretamente o sistema do estado-nação westfaliano concebido em 1648, depois da Guerra dos Trinta Anos.

É claro que o que McCain, Kissinger, Scowcroft e Brzezinski querem ver mantida é uma União Europeia federalizada e sempre em expansão, que agora está absorvendo lentamente como seus mais novos estados-nação westfalianos a Ucrânia, a Geórgia e a Moldávia.

Tratado da Westfália - Europa em 1648
(clique na imagem para aumentar)
A União Europeia, que mistura federalismo secular westfaliano com dogma do neo-Sacro-Império Romano, é militarmente apoiada por uma Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que age como os centuriões dos corretores do poder atlanticista de Washington, Londres e Berlim. Esse status quo tem de ser mantido a qualquer custo, segundo Kissinger, Scowcroft e Brzezinski – precisamente os três responsáveis pela conversão da Guerra Fria bloco-soviético vs OTAN do passado, na neo-Guerra Fria que hoje pôs a Rússia à beira da guerra contra a OTAN.

Embora não se possa adivinhar o que os três diabos-velhos senis da política de poder ocidental teriam em mente no apoio que dão ao sistema westfaliano, pode-se presumir com razoável certeza que estão defendendo um sistema mundial no qual uns poucos regimes elitistas ditam a política internacional para o resto do mundo.

Kissinger disse à comissão do Senado que vê a Europa do início dos anos 1600s e a Europa de hoje como entidades semelhantes, porque, nesses dois casos vê-se “uma multiplicidade de unidades políticas, nenhuma suficientemente poderosa para derrotar as demais, muitas aderidas a filosofias contraditórias com suas práticas internas, em busca de regras de neutralidade para regular as condutas e mitigar o conflito”. É claro que Kissinger trabalha para fazer-crer que a União Europeia e a OTAN fornecem “regras neutras” para que países em competição mitiguem seus conflitos.

É bem possível que Kissinger, que sofre de demência senil em estado avançado, realmente creia na panaceia da “governança” internacional que se discute naqueles conclaves elitistas tipo Grupo de Bilderberg, Conselho de Relações Exteriores e Fórum Econômico Mundial de Davos. 

PROCURADO
por crimes
contra a humanidade
Henry A. Kissinger
Nunca houve, não há hoje nem jamais haverá posição neutra da OTAN ou da União Europeia, sobre nenhuma questão na qual forças antiunipolares – como Rússia, China, Irã, Venezuela, Brasil e outras – se oponham às elites militares-bancárias-de-inteligência da aliança ocidental.

Mr. Kissinger destacou principalmente a necessidade de “construir o bloco da ordem europeia”, coisa que, disse ele, foi tão necessária depois da Guerra dos Trinta Anos quanto é necessária hoje. Kissinger defendeu o sistema de Vestfália como “injustamente atacado como sistema de manipulação cínica do poder, indiferente a requisitos morais”. Até parece que a longa história de Mr. Kissinger sempre apoiando ditaduras fascistas teria feito dele autoridade qualificada para falar sobre “moralidade” nas relações internacionais.

Para não ficar para trás, atropelado por Kissinger e seu elogio da ordem westfaliana, o general Scowcroft declarou que duas ameaças gêmeas – a sociedade da informação (especialmente o uso das mídias sociais para organizar a massa contra o status quopolítico) e a mudança climática – trazem o máximo perigo para a manutenção do Tratado de Vestfália. Scowcroft defendeu aplicadamente o sistema do estado-nação westfaliano, para delícia de McCain que o ouvia sorridente.

É o mesmo McCain que trabalhou para que houvesse guerras na Líbia, no Iraque e na Ucrânia – as quais realmente levaram à destruição desses três legítimos e bem constituídos estados-nação. Mas coerência nunca foi qualidade que se encontre em neoconservadores do tipo de McCain e outros, os mesmos que apoiam a ala do intervencionismo norte-americano que McCain coordena (?!) em todo o planeta.

Para Brzezinski, a ideia de Vestfália é unir a Europa contra a “ameaça” russa. Brzezinski, nacionalista polonês nada mitigado, que partilha a mesma filosofia com outro polonês nacionalista de direita, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, nunca perdeu chance de culpar a Rússia, de acusá-la de crimes e ardis, e de ‘'exigir'’ a subjugação política, econômica e militar da Rússia à OTAN e à União Europeia.

Zbigniew Brzezinski
Na mente de Kissinger, Scowcroft e Brzezinski, a Europa hoje não é muito diferente da Europa do século XVII do Sacro Imperador Romano, Ferdinando III de Habsburgo; do cardeal Richelieu da França; do cardeal Mazarin, regente do rei infante Luiz XIV de França; e os diplomatas foram enviados pelos líderes de Espanha, Suécia, Países Baixos, Suíça e outros ducados e reinos menores, para Osnabruck e Munster, na Vestfália, com ordens de não sair de lá sem o Tratado de Vestfália firmado.

Em outras palavras – igualmente senis – diplomacia e destinos de nações sempre estarão em boas mãos, se entregues a elites não eleitas, como se fazia no século XVII. Os “três decrépitos” – Kissinger, Scowcroft e Brzezinski – não mudariam uma linha naquele século XVII. De fato, as políticas desses três foram, durante décadas, determinar o futuro do mundo em conclaves como os de Bilderberg, de Davos e outros desses encontros secretos.

O objetivo dos que montaram a marteladas o sistema westfaliano em 1648 era a continuação do feudalismo e do regime de servos-da-gleba na Europa. Depois que Vestfália reconheceu a independência da Holanda e da Suíça, com os direitos dos judeus holandeses perfeitamente preservados, Holanda e Suíça rapidamente se converteram em quartel-general do mercantilismo internacional mais livre-mercadista – que incluía o tráfico de escravos e os serviços internacionalizados de banking; na Holanda, o primeiro; na Suíça, os segundos.

Vestfália em 1648 e suas derivações de hoje são ardis montados para proteger os interesses das elites e da classe rica. Murmúrios de privilégio real ainda se ouvem hoje, na Europa, com o príncipe Henrik da Dinamarca, marido francês da rainha dinamarquesa, reclamando para si o direito de ser chamado de “Rei Consorte”, não “Príncipe Consorte”, título inferior.

Críticas contra o envolvimento da monarquia espanhola em negócios fraudulentos, e em torno de acusações de que a monarquia belga teria acobertado escândalos de pedofilia resultaram, de fato, em as “realezas’”se porem a atacar quem as criticasse, porque teriam incorrido no crime ancestral de lèse-majesté, que define como violação da lei qualquer crítica contra a realeza e a monarquia.

Os que advogam a favor de Vestfália tentam proteger uma plutocracia corrupta composta de monarquistas, militaristas, magnatas, inescrupulosos em geral na Europa, que trabalham em falange com fantoches neocolonialistas nos países em desenvolvimentos que devem para o FMI e o Banco Mundial. Como se viu com a manipulação das mídias sociais operada pela CIAe por George Soros para alcançar seus objetivos vestfalianos, a mídia social pode também ser usada contra as elites do poder que se agarram ao conceito de moderno estado-nação como seu único meio de sobrevivência.

Brent Scowcroft
Os defensores dos arranjos vestfalianos pretendem que o sistema deles advogaria sempre a favor de três princípios centrais:

(1) soberania do estado;
(2) igualdade dos estados; e
(3) não intervenção de um estado nos assuntos de outro.

Mas a subjugação da soberania de Grécia, Irlanda, Espanha, Itália e Portugal aos desígnios de eurobanqueiros e empresas financeiras globalistas obriga a descartar qualquer ideia de que respeitem alguma soberania de algum estado.

A aliança ocidental interveio nos assuntos internos da Sérvia, do Iraque, da Líbia, da Síria e, mais recentemente, também da Macedônia – o que mostra a falta de consideração à cláusula da não intervenção – que, para os vestfalianos, seria sua mais importante marca.

As potências da OTAN, sempre a ameaçarem a independência de Abkhazia, Ossetia do Sul, Transdnistria e Nagorno-Karabakh e a autodeterminação da Crimeia e do Donbass, mostram que o princípio vestfaliano da igualdade entre os estados não passa de amontoado de palavras vazias.

O mundo está mudando e deriva, em velocidade vertiginosa, para bem longe do grotesco pensamento de Vestfália.

Os únicos seres humanos que clamam ainda por governo vestfaliano são três diabos-velhos senis – Kissinger, Scowcroft e Brzezinsk – que deveriam estar cuidando, isso sim, de envelhecer com, afinal, alguma decência.

[*] Wayne Madsen é jornalista investigativo, autor e colunista. Tem cerca de vinte anos de experiência em questões de segurança. Como oficial da ativa projetou um dos primeiros programas de segurança de computadores para a Marinha dos EUA. Tem sido comentarista frequente da política de segurança nacional na Fox News e também nas redes ABC, NBC, CBS, PBS, CNN, BBC, Al JazeeraStrategic Culture e MS-NBC. Foi convidado a depor como testemunha perante a Câmara dos Deputados dos EUA, o Tribunal Penal da ONU para Ruanda, e num painel de investigação de terrorismo do governo francês. É membro da Sociedade de Jornalistas Profissionais (SPJ) e do National Press Club. Reside em Washington, DC.

sábado, 15 de novembro de 2014

Ucrânia: As altas esperanças de Kiev nos Republicanos darão em nada

14/11/2014, Dmitry MININStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O senador John McCain (no círculo) discursa entre o senador democrata do estado de Connecticut, Chris Murphy (E), e um dos golpistas, Oleh Tyahnybok (D), num comício pró EUA-União Europeia na Praça Maidan em Kiev - 15/12/2013.
A vitória dos Republicanos nas eleições de meio de mandato nos EUA – os quais controlam hoje as duas casas do Congresso – incendiou esperanças em Kiev.

A ideia geral foi que, então, afinal, começariam a chegar os gordos pacotes de ajuda que “a América” prometeu-lhes durante os protestos na Praça Maidan, mas que ainda não apareceram, o que ajudaria a tirar o regime de Kiev no buraco que cavou para ele mesmo.

O ex-ministro de Relações Exteriores da Ucrânia, Volodymyr Ohryzko, anunciou que a vitória dos Republicanos seria excelente sinal para a Ucrânia. Afinal, o senador Republicano John McCain, que deverá presidir a Comissão das Forças Armadas do Senado dos EUA, várias vezes manifestou entusiasmo pela ideia de embarcar armas por mar, diretamente dos EUA para a Ucrânia. E outros Republicanos afamados fizeram promessas assemelhadas.

Um grupo de senadores Republicanos garantiu também que, em breve, as duas casas do Congresso poderão debater o projeto da “Lei para Impedir Agressão Russa”, de 2014. Esse projeto de lei, que foi proposto ao Congresso na primavera passada, imporia novas sanções contra a Rússia e asseguraria assistência militar e técnica imediata ao governo de Kiev. Mas, até agora, o governo Obama sempre arranjou meios para adiar a votação do projeto de lei.

A verdade é que os “planos” de Kiev foram construídos sobre terreno instável, pantanoso.

Afinal de contas, quem decide sobre a política externa dos EUA é o presidente e, enquanto Obama tiver mandato, é altamente improvável que alguma coisa mude no curso que já está traçado. Como observou Daniel Wagner do Huffington Post, aqueles senadores sempre tão simpáticos ao governo de Kiev acabarão provavelmente frustrados, porque têm bem pouco poder para cumprir quaisquer de suas promessas sem “resposta mais significativa e coordenada com e da Europa, a qual claramente não está a caminho”.

Petro Poroshenko (E) e Joe Biden em 7/6/2014
Ainda mais importante, os Republicanos não são força unificada, e não há qualquer garantia de que o candidato Republicano à presidência seja representante da ala mais à direita do partido. Por exemplo, um dos mais fortes candidatos à indicação como candidato é o senador Republicano, Rand Paul – que faz oposição consistente ao intervencionismo norte-americano.

Os Republicanos não se sentem responsáveis pelo caos na Ucrânia, que os Democratas inflaram o mais que puderam, e não dão sinais de querer ajudar o atual governo Obama a arrancar-se daquele caos. Os Republicanos nada têm a ganhar por ajudar Obama a salvar a própria cara. O principal problema de Kiev não é como obter novos armamentos, que o exército ucraniano – que só sabe operar o velho equipamento herdado dos soviéticos – ainda teria de aprender a usar. O maior problema deles é como deter o rápido deslizamento da economia ucraniana rumo ao abismo. Quem controla a rédea na boca dos lacaios do ocidente que estão saqueando a Ucrânia? Além do mais, os Republicanos norte-americanos são sempre muito mais mão-fechada, que os Democratas, no que tenha a ver com distribuir ajuda financeira. E muito se orgulham disso. Se o dinheiro não apareceu durante o governo Obama, menos ainda aparecerá em governo dos Republicanos.

A vasta experiência de Henry Kissinger ajudou a localizar a exata causa da crise ucraniana: quando começou a encorajar os tumultos de rua na Ucrânia, Washington esqueceu-se de considerar a importância que a Ucrânia sempre teve para a Rússia. Ouvem-se ecos da teoria dos “desafios-e-respostas”, de Arnold Toynbee, nas palavras desse arcano da diplomacia dos EUA.

Henry Kissinger eating...
Quando se lança um desafio, na disputa por algo que não tem grande importância para o desafiante, mas é extremamente importante para o desafiado, o desafiante expõe-se ao risco de receber do desafiado uma resposta de tal modo forte e poderosa, que o desafiante logo se verá sem condições de manter o desafio, mesmo que continue em posição inerentemente mais forte.

Kissinger tem dito que a Casa Branca está agindo como se não compreendesse que a relação entre EUA e Rússia é muito mais criticamente importante para os EUA que a relação entre EUA e Ucrânia.

Richard Pipes, que foi principal conselheiro sobre questões russas no governo Reagan e que ajudou a criar a marca ideológica do “império do mal”, tem a oferecer, agora, argumento bastante mais sensível e inteligente, observando que já se impuseram sanções muito pesadas à Rússia – que praticamente não tiveram efeito algum. Para ele, o ocidente não tem meios ou poderes para manter essa política contra a Rússia, e que insistir em medidas ativas pode levar à guerra. Pipes prevê que Washington está preparada para deixar a Ucrânia onde está, dentro da esfera de influência russa. Mas, de um ponto de vista norte-americano, é absolutamente inaceitável que a Rússia use soldados para “capturar” parte da Ucrânia. Enquanto isso não acontecer, os EUA não se envolverão mais ativamente na Ucrânia. Disse também que não consegue sequer imaginar uma situação na qual o governo dos EUA comece a exportar armas para a Ucrânia.

Para Pipes, o problema mais profundo da Ucrânia é que o país jamais foi independente e não tem experiência alguma do processo de construir um estado. Explica que Kiev tem de encontrar um meio para controlar o próprio território, combater a corrupção e criar um exército poderoso. Pipes acredita que as autoridades ucranianas têm muito trabalho pela frente, mas podem alcançar seus objetivos. Alerta que, embora a Ucrânia possa vir a incorporar-se ao ocidente, o processo exigirá tempo; mais para 50 anos, que para 10 ou 20. Aqui, ou Pipes está sendo complacente ou seu “argumento” é que cabe(ria) ao afogado salvar-se do afogamento, porque não há quem não saiba que os que estão hoje no poder na Ucrânia não têm nem 10 meses de tempo, muito menos teriam nem 50 e nem 10 anos.

Mikhail Pogrebinsky
Mikhail Pogrebinsky, diretor do Centro Kiev para Estudos Políticos e de Conflitos, também entende que as mudanças no Congresso dos EUA não determinarão nenhuma mudança decisiva nas políticas dos EUA para a Ucrânia. Não, pelo menos, enquanto Barack Obama permanecer no governo. Mas, para ele, o curso de ação que Obama escolheu está sendo causa de crescente instabilidade na Ucrânia.

Não compreendo a lógica dos norte-americanos – diz Pogrebinsky. A Ucrânia já tem governo pró-EUA. Os EUA deveriam estar fazendo o possível para preservar o governo de Kiev. Mas, em vez disso, não param de sacudir o bote, o que não faz sentido algum. Nunca qualquer governo norte-americano manteve, por tanto tempo, política tão alucinada.

Quanto a essa “política alucinada” – faz lembrar as ações do embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, que está “exigindo” que Kiev imponha sanções contra o Donbass e rompa todos os laços econômicos com a Rússia. Mas ninguém, no ocidente, sequer pensou em, por exemplo, perdoar a dívida da Ucrânia. Ou em assegurar pedidos europeus ou norte-americanos, às fábricas ucranianas, que substituíssem os pedidos russos que o país perdeu.

Querem é sangrar até a morte a economia ucraniana. O que o embaixador dos EUA está propondo só pode gerar agitação social e tumultos por todo o país – concluiu um especialista ucraniano.

Geoffrey Pyatt
Depois que o experimento de “democratização” da Ucrânia terminar em total fracasso, o próximo governo dos EUA, como acontece sempre, se declarará “não culpado” e “não responsável” pelos resultados da débâcle dessa política externa.

Toda a culpa será do governo anterior e dos erros que cometeu; ou tudo terá sido, só, efeito de intrigas urdidas em Moscou; ou o que aconteceu só aconteceu, mesmo, porque a matéria prima era de má qualidade.

O único real problema é quanto tempo ainda falta para que se conheçam os frutos dessa política norte-americana intervencionista “alucinada”; se amadurecerão ainda durante os estágios finais do governo Obama – o que levará ao colapso total da Ucrânia. E que preço o povo ucraniano terá ainda de pagar, por todo esse alucinamento.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Noam Chomsky: Os EUA são o maior estado terrorista do planeta


Deu no New York Times! Agora é oficial!

20/10/2014, [*] Noam ChomskyTelesur, Venezuela
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Noam Chomsky
Imaginem que o Pravda publicasse na primeira página os resultados de um estudo feito pelaKGB que tivesse avaliado os resultados de todas as grandes operações terroristas que o Kremlin tivesse comandado ao redor do mundo, como parte do esforço para descobrir o que levou cada “ação” dessas ao sucesso ou ao fracasso, e estudo que, no final, concluísse que, desgraçadamente, atos terroristas raramente “dão certo” e de tal modo tendem a “dar errado” que, hoje, seria muito mais recomendável [o Kremlin recomendando!] repensar a política e as vias políticas, em vez de fazer terrorismo.

Imaginem também que o artigo citasse o presidente Putin, o qual dissesse que havia encomendado esse estudo à KGB para descobrir casos de “financiamento e apoio com armas e munição a insurgentes ativos dentro de país estrangeiro e que tivessem realmente dado certo. E a KGB [Putin falando] não conseguiu encontrar grande coisa. E que, por isso [Putin] relutava um pouco em repetir novos esforços terroristas.

Se – embora seja quase inimaginável – artigo desse tipo aparecesse publicado na imprensa, se ouviriam muitos gritos de ultraje e indignação que clamariam aos céus; e a Rússia seria amargamente criticada, condenada (e até coisa pior!) não só pelo terrível currículo como terrorista ativíssimo, afinal abertamente confessado, mas, também, por a classe política russa não mostrar nenhuma preocupação e nenhuma indignação, exceto pelo fato de o terrorismo de estado russo funcionar muito mal, e para ordenar que as práticas terroristas fossem aprimoradas.

Tudo isso é muito difícil de imaginar. Artigo desse tipo nunca seria publicado. O problema é que o tal artigo existe e foi publicado. De diferente, só um pequeno detalhe: apareceu publicado no New York Times – e é quase exatamente o tal artigo impossível.

Cabeçalho da reportagem do NYT
Dia 14/10/2014, a matéria de primeira página do New York Times tratava de um estudo feito pela CIA em que a Agência examina as principais ações terroristas comandadas pela Casa Branca em todo o mundo, num esforço para conhecer os fatores que levaram cada ação terrorista ao sucesso ou ao fracasso; e a CIA concluiu que, que, desgraçadamente, atos terroristas raramente “dão certo” e de tal modo tendem a “dar errado” que, hoje, seria indispensável repensar a política e as vias políticas, em vez de fazer terrorismo.

E o artigo cita o presidente Obama, o qual diz que havia encomendado esse estudo à CIA para descobrir casos de “financiamento e apoio com armas e munição a insurgentes ativos dentro de país estrangeiro e que tivessem realmente dado certo. E a CIA [é Obama falando] não conseguiu encontrar grande coisa”. E que, por isso [Obama] relutava um pouco em repetir novos esforços terroristas.

Não se ouviu nenhum grito de ultraje; indignação zero, nada.

A conclusão é clara. Na cultura política ocidental dá-se por natural e adequado que o Líder do Mundo Livre governa um estado-bandido terrorista e pode proclamar abertamente sua eminente liderança na prática de tais crimes. E dá-se por perfeitamente natural e adequado que o professor de Direito Constitucional e laureado com o Prêmio Nobel da Paz que tem as rédeas do poder só se deva preocupar com praticar com mais eficácia, o mesmo velho terrorismo de sempre.

Basta examinar mais de perto, para ter certeza que as conclusões a extrair são exatamente essas.

O artigo começa citando abertamente as operações [terroristas] dos EUA “de Angola a Nicarágua e a Cuba”. Acrescentemos um pouco do que o jornal omitiu.

Jonas Savimbi
Em Angola, os EUA uniram-se à África do Sul no apoio crucial ao UNITA, exército do terrorista Jonas Savimbi, e continuaram a apoiar aqueles terroristas mesmo depois de Savimbi já ter sido completamente derrotado numa eleição livre e cuidadosamente fiscalizada e até depois de a própria África do Sul já ter deixado de apoiar aquele “monstro cuja ânsia de poder trouxe terrível miséria para seu próprio povo” – nas palavras do embaixador britânico em Angola, Marrack Goulding, secundado pelo chefe da estação da CIA na vizinha Kinshasa, o qual já alertara que “não foi boa ideia” apoiar o citado monstro, “por causa da extensão dos crimes de Savimbi. Era homem terrivelmente brutal”.

Apesar das operações terroristas extensivas e violentíssimas apoiadas pelos EUA em Angola, forças cubanas conseguiram expulsar do país os agressores sul-africanos, os obrigaram a deixar também a Namíbia que ocupavam ilegalmente, e abriram caminho para a eleição em Angola na qual, depois de derrotado, Savimbi “desconsiderou completamente a avaliação feita por quase 800 observadores estrangeiros que acompanharam as eleições, para os quais as eleições haviam sido livres e justas” (New York Times), e continuou a sua guerra terrorista com o apoio dos EUA.

Os feitos heroicos dos cubanos na libertação da África e no fim do apartheid foram saudados por Nelson Mandela, quando afinal deixou a prisão. Dentre seus primeiros atos, Mandela declarou que:

(...) durante todos os meus anos de prisão, Cuba foi uma inspiração, e Fidel Castro, uma torre de fortaleza (...)[as vitórias cubanas] destruíram o mito da invencibilidade do opressor branco e inspiraram as lutas de massas da África do Sul (...) ponto de virada para a libertação de nosso continente – e do meu povo – do flagelo do apartheid. (...) Que outro país pode apresentar histórico de mais desapego e desprendimento que Cuba, em suas relações com a África?

Henry Kissinger
Bem diferente disso, o comandante terrorista Henry Kissinger ficou “apoplético” ante a insubordinação do “pipsqueak” [nulidade; zé-ninguém; meia-leca] Castro, que tinha de ser “esmagado”, como registram William Leogrande e Peter Kornbluh em seu livro Back Channel to Cuba, a partir de documentos recentementes liberados para conhecimento público.

Voltando à Nicarágua, é preciso não esquecer a guerra terrorista de Reagan, que prosseguiu ainda bem depois de a Corte Internacional de Justiça ter ordenado a Washington que cessasse seu “uso ilegal da força” – quer dizer: terrorismo internacional – e pagasse reparação substancial, e depois de já haver projeto de resolução do Conselho de Segurança da ONU conclamando todos os estados (de fato, só os EUA) a respeitar a lei internacional, que foi vetada por Washington.

Mas é preciso reconhecer que a guerra terrorista de Reagan contra a Nicarágua – à qual Bush-pai, “o Bush estadista” – não foi tão destrutiva quando o terrorismo de estado que o mesmo Reagan patrocinara entusiasticamente em El Salvador e na Guatemala. A Nicarágua teve a vantagem de contar com um exército para enfrentar as forças terroristas comandadas pelos EUA, enquanto nos países vizinhos os terroristas que assaltavam a população eram as forças de segurança armadas e treinadas por Washington.

Em algumas semanas estaremos comemorando o Grand Finale das guerras terroristas de Washington na América Latina: o assassinato de seis importantes intelectuais latino-americanos, sacerdotes jesuítas, por uma unidade terrorista de elite do exército salvadorenho, o Batalhão Atlacatl, armado e treinado por Washington, agindo sob ordens explícitas do Alto Comando, e com longo currículo de massacres das vítimas de sempre.

Atlacatl Battalionarmado e treinado pelos EUA
Esse crime chocante, cometido dia 16/11/1989, na Universidade Jesuíta em San Salvador foi o ápice da terrível praga terrorista que se espalhou pelo continente depois que John F. Kennedy mudou a missão dos militares latino-americanos, de “defesa hemisférica” – relíquia já ultrapassada da IIª Guerra Mundial – para “segurança interna”, o que significa: guerra contra a população doméstica, dentro de cada país.

Resultado disso aparece descrito sucintamente por Charles Maechling, que comandou o planejamento da contrainsurgência e defesa interna dos EUA, de 1961 a 1966. Ele fala da decisão de Kennedy, em 1962, como mudança de “tolerância com os roubos e a crueldade entre os militares latino-americanos”, para “cumplicidade direta” nos crimes dos mesmos militares, a ponto de os EUA garantirem apoio “aos métodos de Heinrich Himmler dos esquadrões-da-morte”.

Tudo isso está esquecido, exceto “o tipo certo de fatos”.

John Kennedy
Em Cuba, as operações terroristas de Washington foram lançadas a pleno furor pelo presidente Kennedy, para punir os cubanos por terem derrotado a invasão da Baía dos Porcos comandada pelos EUA. Como escreve o historiador Piero Gleijeses, JFK:

(...) ordenou a seu irmão, o advogado-geral Robert F. Kennedy (RFK), que comandasse o grupo de alto nível inter-agências que concebeu a Operação Mongoose [fuinha], um programa de operações paramilitares, guerra econômica e sabotagem, que ele lançou no final de 1961, para impor ‘os terrores da Terra’ a Fidel Castro, ou, dito mais prosaicamente, para derrubá-lo do governo.

A expressão “terrores da terra” é citada pelo historiador Arthur Schlesinger, sócio de RFK, na biografia semioficial que escreveu dele. RFK informou à CIA que o problema cubano passava a ser:  

(...) a principal prioridade do governo dos EUA – tudo o mais é secundário – e não se deve desviar nenhum minuto, nenhum esforço, nenhuma capacidade humana do esforço para derrubar o governo de Castro e levar “os terrores da Terra” a Cuba.

Robert Kennedy
A guerra terrorista lançada pelos irmãos Kennedy não foi coisa pequena. Envolveu 400 norte-americanos, 2 mil cubanos, uma esquadra privada de barcos rápidos e orçamento anual de US$ 50 milhões, controlado em parte por uma base da CIA que operava em Miami, em violação do Ato de Neutralidade e, presumivelmente, violando também a lei que proíbe operações da CIA dentro dos EUA. As operações incluíram bombardeamento de hotéis e instalações industriais, afundamento de barcos pesqueiros, envenenamento de rebanhos e de plantações, contaminação de estoques de açúcar exportados, etc.. Algumas dessas operações não foram especificamente autorizadas pela CIA, mas executadas pelas forças terroristas que a CIA fundara e financiava, diferença que nada significa no caso de ação contra inimigos oficiais.

As operações terroristas Mongoose foram comandadas pelo general Edward Lansdale, que tinha ampla experiência em operações terroristas comandadas pelos EUA nas Filipinas e no Vietnã. O trabalho da Operation Mongoose  era gerar “revolta aberta e derrubar o regime comunista” em outubro de 1962, o que, para “sucesso definitivo exigirá intervenção militar decisiva dos EUA”, depois que o terrorismo e a subversão tivessem preparado o terreno.

Outubro de 1962 é, claro, momento muito significativo na história moderna. Naquele mês, Nikita Khrushchev enviou mísseis para Cuba, desencadeando a crise dos mísseis que chegou ameaçadoramente perto de uma guerra nuclear terminal. Especialistas reconhecem hoje que Khrushchev foi motivado em parte pela imensa preponderância dos EUA em termos de força, depois que Kennedy respondeu aos seus pedidos para reduzirem as armas ofensivas, aumentando ainda mais a vantagem dos EUA, e em parte por preocupação de que os EUA pudessem invadir Cuba. Anos depois, o Secretário de Defesa de Kennedy, Robert McNamara, reconheceu que Cuba e Rússia tiveram razões para temer um ataque. “Se eu estivesse no lugar dos cubanos ou soviéticos, teria pensado como eles” – disse McNamara numa conferência internacional nos 40 anos da crise dos mísseis.

Raymond Garthoff
O muito respeitado analista político Raymond Garthoff, que teve muitos anos de experiência direta na inteligência dos EUA, relata que, nas semanas antes de a crise de outubro de 1962 eclodir, um grupo de cubanos terroristas que operavam da Flórida com autorização dos EUA executou

(...) um ousado ataque com barcos rápidos contra um hotel cubano próximo ao mar, nos arredores de Havana, onde se sabia que se reuniam técnicos militares soviéticos, matando grande número de russos e cubanos.

E pouco depois, continua Garthoff, as forças terroristas atacaram navios cargueiros britânicos e cubanos e outra vez invadiram Cuba, dentre outras ações cuja frequência aumentava no início de outubro. Num momento tenso da ainda não solucionada crise dos mísseis, dia 8 de novembro de 1962, uma equipe de terroristas enviada pelos EUA explodiu uma instalação industrial em Cuba, depois de as operações Mongoose já estarem oficialmente suspensas. Fidel Castro disse que 400 trabalhadores morreram nesse ataque, guiado por “fotografias feitas por aviões espiões”. Atentados para tentar assassinar Castro e outros ataques terroristas continuaram a acontecer imediatamente depois de a crise estar terminada, e escalaram novamente em anos posteriores.

Houve algumas poucas notícias de uma parte bem menor da guerra terrorista, muitos atentados para assassinar Castro, em geral deixadas rapidamente de lado como trapalhadas infantis da CIA. Além disso, nada do que aconteceu jamais atraiu muito interesse ou comentários nos EUA.

A primeira investigação séria, em idioma inglês, sobre o impacto daquelas ações sobre os cubanos foi publicada em 2010 pelo pesquisador canadense Keith Bolender, em seu Voices From The Other Side: An Oral History Of Terrorism Against Cuba, estudo valioso, largamente ignorado.

Os três exemplos considerados na matéria do New York Times sobre o terrorismo norte-americano são só a ponta do iceberg. Mesmo assim, é útil ver esse muito claro e significativo reconhecimento de o quanto Washington é dedicada a operações do terrorismo mais mortífero e destruidor, e do pouco, praticamente nada, que essa ação terrorista dos EUA significa para a classe política, que aceita como normal e adequado que os EUA se apresentem ante o mundo como superpotência terrorista, imune a leis e normas civilizadas.

Muito estranhamente, o mundo não pensa como a classe política norte-americana. Pesquisa internacional distribuída ano passado pelo Worldwide Independent Network/Gallup International Association (WIN/GIA) descobriu que os EUA ocupam o primeiro lugar, de longe, como “maior ameaça contra a paz mundial hoje”, muito à frente do Paquistão, segundo colocado (certamente inflado pelo voto dos indianos), e nenhum outro país sequer se aproxima desses dois.

Felizmente, os norte-americanos foram poupados, e não tiveram de tomar conhecimento dessa informação insignificante.


[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts  (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismoSeu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.