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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Império da hipocrisia (III)

8/2/2015, Dmitry MININStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Part IPart II [ing.] − não serão traduzidas


O dito “poder suave” [soft power] e suas graves consequências

A hipocrisia intrínseca à política dos EUA é especialmente visível no uso do chamado “poder suave”. O conceito foi criado por Joseph Nye, ex-Vice-Sub-Secretário de Estado para Assistência à Segurança, Ciência e Tecnologia, e Secretário-Assistente da Defesa para Assuntos de Segurança Internacional.

Nye acumulou experiência no processo de alcançar objetivos políticos sem usar a força a ponto de fazer disso uma sua política independente. Segundo ele: [1]

Poder suave [orig. Soft power] é a habilidade para obter o que se quer pela atração, não por coerção ou pagamentos. Surge da atratividade da cultura, dos ideais políticos e das políticas de um país. Quando nossas políticas são vistas como legítimas aos olhos dos outros, nosso poder suave é ampliado.

Na sequência, concluiu que só o poder suave não bastaria. Inventou então uma combinação de poder suave e poder nada-suave, ou poder ‘duro’, para criar estratégias otimizadas em contextos particulares.

Poder é a habilidade, capacidade ou competência para afetar outros para obter o que se deseja; e exige um conjunto de ferramentas. Algumas dessas são ferramentas de coerção ou pagamento, ou poder duro [orig. hard power]; e outras são ferramentas de atração, ou poder suave [orig. soft power]. Mas, com poder suave ou com poder duro, os políticos norte-americanos querem sempre a mesma coisa – estabelecer a superioridade deles mesmos, ao mais baixo preço possível. Para a Casa Branca, o poder suave sempre foi, em primeiro lugar, instrumento efetivo para manipular.

Na verdade, foi a manipulação que levou Obama ao poder. A duplicidade do personagem tornou-se evidente quando lhe foi dado o Prêmio Nobel. Ninguém sabe até hoje por quais realizações Obama recebeu aquela premiação. Rememorando aqueles dias, impossível não ver a total inconsistência do que Obama disse lá, e o objetivo da cerimônia: [2]

Não erradicaremos o conflito violento durante a nossa vida. Haverá momentos em que nações – agindo individualmente ou em conjunto – declararão o uso da força não só necessário, mas moralmente justificado.

É possível que a culpa nem seja de Joseph Nye; ele foi mal compreendido. Fato é que, quando citam pensadores, os políticos só citam os fragmentos de pensamentos que ajudam a confirmar o que queiram “demonstrar”.


Joseph Nye, por exemplo, considerou a possibilidade de uma potência minar a força de outra, sobretudo com ações militares. Acreditava que sanções raramente levam a alcançar os objetivos políticos para os quais são pensadas, porque ferem primeiro as pessoas comuns, não as elites governantes. Mesmo a ajuda financeira resulta mais frequentemente em mais corrupção, inclusive entre os escalões privilegiados. Ao agredir o equilíbrio entre grupos sociais, a ajuda financeira quase sempre exaspera os conflitos, mais do que desencadeia a reação desejada. Para Nye, muitos viram o “poder suave” no século XXI como uma forma de imperialismo cultural.

Criar mentiras e mitos converteu-se em moeda natural do poder suave, e os governos competem entre eles e com outros atores para ganhar mais “credibilidade”, ao mesmo tempo em que debilitam a credibilidade dos demais.

Propaganda nua & crua, numa guerra de propaganda, pode ser contraproducente e macular a reputação do país, minando sua credibilidade. Excesso de coerção pode ser danoso, se leva a excessiva autoconfiança. Nesse caso, o poder suave nada mais é que uma “cobertura” para o poder duro, para impedir que se alcancem determinados objetivos. Por exemplo, as cenas dos maus tratos a prisioneiros em Abu Ghraib não reduziram apenas a confiança nos valores norte-americanos, mas, mais que isso geraram convicção forte de que aqueles valores sempre estiveram carregados de hipocrisia.

Chris Patten
O governo Obama ignorou todos os avisos de Joseph Nye. O “duplo padrão” não tornou mais atraente a política dos EUA nem no Oriente Médio, nem na Ucrânia. O ex-Comissário Europeu para Relações Internacionais, Chris Patten, lembra que:

(...) quando funcionários norte-americanos, mesmo os de mais alto escalão reúnem-se com autoridades estrangeiras, não deveriam comportar-se como se fossem a única voz digna de atenção. Não importa o quanto os norte-americanos possam ser polidos e civilizados, quaisquer autoridades que apareçam diante deles devem ser “postas no seu lugar”, devem sentir-se dependentes; a missão de qualquer funcionário norte-americano é mostrar empenho nessa tarefa de humilhar todos os demais povos do mundo, na esperança de receber alguma bênção nas nomeações futuras. No exterior, os funcionários dos EUA fazem-se acompanhar de comitivas tão gigantescas, que fariam inveja a Dario, o Grande, rei da Pérsia. Ocupam hotéis inteiros, a cidade para, homens de pescoço de touro e fios metidos nos ouvidos empurram e espancam pedestres pelas ruas. Ninguém ganha corações e mentes agindo desse modo – diz Chris Patten.

Mas até aí é só um lado da moeda.

O outro lado é que há “consequências” contra todos que fiquem na posição de alvo dessas ações de poder, seja suave ou duro: sempre são consequências catastróficas. A nova estratégia “suave” da Casa Branca desestabiliza a situação mundial e mata muito mais gente, até, que o poder duro, porque é construída para provocar conflitos internos e disseminar o caos mais generalizado e incontrolável. Em momento algum, nem no mais alucinado surto de delírio, Joseph Nye poderia ter previsto que contribuiria para o parto desse tipo de Frankenstein.

Ao olhos de Washington, a necessidade de “democratizar” (verbo que significa mergulhar qualquer país num mar de sangue para mudar o regime que lá tenha sido eleito) varia conforme a lealdade que o “democratizador” preste aos EUA, caso a caso.

Fareed Zakaria
Fareed Zakaria, analista político norte-americano, escreve que:  

(...) os EUA jamais emitiram uma palavra de indignação quando democratas em Taiwan, Paquistão e na Arábia Saudita foram reduzidos violentamente ao silêncio.

Zakaria crê que:

(...) se Washington faz exceções à regra, outros copiam. Os EUA vivem a usar dois pesos e duas medidas. Mas pregar uma coisa e na sequência fazer coisa completamente diferente é hipocrisia. É atitude de que mina a confiança que outros poderiam ter, mas não têm, nos EUA.

Pierre Hassner escreve que: [3]

(...) os EUA perderam a habilidade para manter uma visão crítica sobre os próprios planos para estabelecer sua hegemonia no mundo unipolar que resultou da Guerra Fria. Se ninguém controla o poder, e nos EUA o poder está contaminado pela corrupção, como é possível que os EUA ainda se apresentem como “protetores”, num mundo em que a corrupção tornou-se global?

Esse é o impacto do traço específico intrínseco da mentalidade dos norte-americanos: qualquer norte-americano branco racista e proprietário de escravos negros crê que teria também, simultaneamente, todos os atributos para apresentar-se ao mundo como político “democrático”.

Yaakov Kedmi
Segundo Yaakov Kedmi, israelense especialista em assuntos políticos e militares e ex-Diretor do “Nativ”, dos serviços secretos de Israel,

(...) a duplicidade e a ausência de escrúpulos dos EUA tornaram-se evidentes antes da 2ª-Guerra Mundial, quando os EUA apoiaram os fascistas que chegavam ao poder, na esperança de que aqueles fascistas pudessem vir a atacar o bolchevismo soviético.

Depois da IIª Guerra Mundial os EUA deram abrigo a ex-nazistas, inclusive a vários que haviam servido na Gestapo e Abwehr, não importava que crimes tivessem cometido, porque os EUA acreditavam que pudessem vir a ser úteis na luta contra o principal inimigo – a União Soviética. Depois, os EUA decidiram que qualquer bandido que se dispusesse a lutar contra a expansão soviética e a intervenção dos soviéticos no Afeganistão mereceria receber integral apoio. Assim nasceu a Al-Qaeda. Assim também nasceu o grupo terrorista Estado Islâmico no Iraque e na Síria [Levante] (ISIS, ISIL).

Em nome da democracia, países europeus e os EUA fingem que não veem as atitudes antidemocráticas e discriminatórias em relação a minorias russas nos estados do Báltico. Fazem-se de cegos para o fato de que o fascismo está renascendo no leste da Europa, onde grupos que lutaram ao lado de nazistas são elogiados e convertidos em heróis nacionais! Por exemplo:

Herberts Cukurs, “o carniceiro de Riga”, eliminado (provavelmente pelo Mossad, serviço de inteligência israelense) por seus crimes, é hoje herói nacional na Letônia, como Shukhevych e Bandera na Ucrânia – diz Yaakov Kedmi.

Os eventos na Ucrânia são hoje exemplo clássico de consequências sangrentas do que, no início, chamou-se “poder suave” – protestos pacíficos, exigências de liberdade e governo honesto.

Barack Obama e o Estado da União 2015
No discurso “Estado da União”, Obama anunciou tolamente, arrogantemente, o que chamou de vitória do “novo pensamento” norte-americano: [4]

(...) hoje, somos os EUA que aparecemos, fortes e unidos com nossos aliados, e a Rússia está isolada, com a economia em ruínas. Eis como os EUA lideramos – não com turbulência, mas com firme, persistente determinação.

Dimitri Simes
Segundo Dimitri Simes, Presidente do Centro para o Interesse Nacional e editor do jornal National Interest de política internacional, o governo Obama contribuiu para agravar a crise na Ucrânia, ao tomar o lado dos manifestantes. Simes observa que: [5]

(...) essencialmente os EUA e a União Europeia decidiram apoiar os manifestantes. Deve-se considerar também que, se aqueles manifestantes estivessem nas ruas contra governo adversário dos EUA, nem seriam chamados de manifestantes: seriam chamados de rebeldes, ou mesmo, de terroristas. Quero dizer: os EUA tomaram o partido dos manifestantes/ rebeldes/ terroristas.  

Segundo Leonid Bershidsky, colaborador do jornal Bloomberg View de Berlim, o discurso do Estado da União de Obama prova que Obama ou não compreende o quanto é perigoso exacerbar as relações entre ocidente e Moscou, ou, então, puxa logo o canhão para fazer, de vitória ainda não alcançada, mais uma lantejoula de sua fantasia de general da banda. “Eis como os EUA lideramos”, disse Obama, vaidoso. É mais tranquilizador acreditar que ele finge esse “orgulho” vaidoso e fátuo, do que imaginar que o Presidente dos EUA realmente não compreende a extensão do fracasso dos EUA na Ucrânia. Melhor seria se Obama nada tivesse dito sobre Rússia e Ucrânia.  

NOTAS

[1] Nye J. Jr. The Paradox of American Power: Why The World's Superpower Can't Go It Alone. N. Y: Oxford University Press, 2003, p. 8


[3] Pierre Hassner, «Definitions, Doctrines, and Divergences», National Interest no. 69 (2002): 30-34.


sábado, 15 de novembro de 2014

Ucrânia: As altas esperanças de Kiev nos Republicanos darão em nada

14/11/2014, Dmitry MININStrategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O senador John McCain (no círculo) discursa entre o senador democrata do estado de Connecticut, Chris Murphy (E), e um dos golpistas, Oleh Tyahnybok (D), num comício pró EUA-União Europeia na Praça Maidan em Kiev - 15/12/2013.
A vitória dos Republicanos nas eleições de meio de mandato nos EUA – os quais controlam hoje as duas casas do Congresso – incendiou esperanças em Kiev.

A ideia geral foi que, então, afinal, começariam a chegar os gordos pacotes de ajuda que “a América” prometeu-lhes durante os protestos na Praça Maidan, mas que ainda não apareceram, o que ajudaria a tirar o regime de Kiev no buraco que cavou para ele mesmo.

O ex-ministro de Relações Exteriores da Ucrânia, Volodymyr Ohryzko, anunciou que a vitória dos Republicanos seria excelente sinal para a Ucrânia. Afinal, o senador Republicano John McCain, que deverá presidir a Comissão das Forças Armadas do Senado dos EUA, várias vezes manifestou entusiasmo pela ideia de embarcar armas por mar, diretamente dos EUA para a Ucrânia. E outros Republicanos afamados fizeram promessas assemelhadas.

Um grupo de senadores Republicanos garantiu também que, em breve, as duas casas do Congresso poderão debater o projeto da “Lei para Impedir Agressão Russa”, de 2014. Esse projeto de lei, que foi proposto ao Congresso na primavera passada, imporia novas sanções contra a Rússia e asseguraria assistência militar e técnica imediata ao governo de Kiev. Mas, até agora, o governo Obama sempre arranjou meios para adiar a votação do projeto de lei.

A verdade é que os “planos” de Kiev foram construídos sobre terreno instável, pantanoso.

Afinal de contas, quem decide sobre a política externa dos EUA é o presidente e, enquanto Obama tiver mandato, é altamente improvável que alguma coisa mude no curso que já está traçado. Como observou Daniel Wagner do Huffington Post, aqueles senadores sempre tão simpáticos ao governo de Kiev acabarão provavelmente frustrados, porque têm bem pouco poder para cumprir quaisquer de suas promessas sem “resposta mais significativa e coordenada com e da Europa, a qual claramente não está a caminho”.

Petro Poroshenko (E) e Joe Biden em 7/6/2014
Ainda mais importante, os Republicanos não são força unificada, e não há qualquer garantia de que o candidato Republicano à presidência seja representante da ala mais à direita do partido. Por exemplo, um dos mais fortes candidatos à indicação como candidato é o senador Republicano, Rand Paul – que faz oposição consistente ao intervencionismo norte-americano.

Os Republicanos não se sentem responsáveis pelo caos na Ucrânia, que os Democratas inflaram o mais que puderam, e não dão sinais de querer ajudar o atual governo Obama a arrancar-se daquele caos. Os Republicanos nada têm a ganhar por ajudar Obama a salvar a própria cara. O principal problema de Kiev não é como obter novos armamentos, que o exército ucraniano – que só sabe operar o velho equipamento herdado dos soviéticos – ainda teria de aprender a usar. O maior problema deles é como deter o rápido deslizamento da economia ucraniana rumo ao abismo. Quem controla a rédea na boca dos lacaios do ocidente que estão saqueando a Ucrânia? Além do mais, os Republicanos norte-americanos são sempre muito mais mão-fechada, que os Democratas, no que tenha a ver com distribuir ajuda financeira. E muito se orgulham disso. Se o dinheiro não apareceu durante o governo Obama, menos ainda aparecerá em governo dos Republicanos.

A vasta experiência de Henry Kissinger ajudou a localizar a exata causa da crise ucraniana: quando começou a encorajar os tumultos de rua na Ucrânia, Washington esqueceu-se de considerar a importância que a Ucrânia sempre teve para a Rússia. Ouvem-se ecos da teoria dos “desafios-e-respostas”, de Arnold Toynbee, nas palavras desse arcano da diplomacia dos EUA.

Henry Kissinger eating...
Quando se lança um desafio, na disputa por algo que não tem grande importância para o desafiante, mas é extremamente importante para o desafiado, o desafiante expõe-se ao risco de receber do desafiado uma resposta de tal modo forte e poderosa, que o desafiante logo se verá sem condições de manter o desafio, mesmo que continue em posição inerentemente mais forte.

Kissinger tem dito que a Casa Branca está agindo como se não compreendesse que a relação entre EUA e Rússia é muito mais criticamente importante para os EUA que a relação entre EUA e Ucrânia.

Richard Pipes, que foi principal conselheiro sobre questões russas no governo Reagan e que ajudou a criar a marca ideológica do “império do mal”, tem a oferecer, agora, argumento bastante mais sensível e inteligente, observando que já se impuseram sanções muito pesadas à Rússia – que praticamente não tiveram efeito algum. Para ele, o ocidente não tem meios ou poderes para manter essa política contra a Rússia, e que insistir em medidas ativas pode levar à guerra. Pipes prevê que Washington está preparada para deixar a Ucrânia onde está, dentro da esfera de influência russa. Mas, de um ponto de vista norte-americano, é absolutamente inaceitável que a Rússia use soldados para “capturar” parte da Ucrânia. Enquanto isso não acontecer, os EUA não se envolverão mais ativamente na Ucrânia. Disse também que não consegue sequer imaginar uma situação na qual o governo dos EUA comece a exportar armas para a Ucrânia.

Para Pipes, o problema mais profundo da Ucrânia é que o país jamais foi independente e não tem experiência alguma do processo de construir um estado. Explica que Kiev tem de encontrar um meio para controlar o próprio território, combater a corrupção e criar um exército poderoso. Pipes acredita que as autoridades ucranianas têm muito trabalho pela frente, mas podem alcançar seus objetivos. Alerta que, embora a Ucrânia possa vir a incorporar-se ao ocidente, o processo exigirá tempo; mais para 50 anos, que para 10 ou 20. Aqui, ou Pipes está sendo complacente ou seu “argumento” é que cabe(ria) ao afogado salvar-se do afogamento, porque não há quem não saiba que os que estão hoje no poder na Ucrânia não têm nem 10 meses de tempo, muito menos teriam nem 50 e nem 10 anos.

Mikhail Pogrebinsky
Mikhail Pogrebinsky, diretor do Centro Kiev para Estudos Políticos e de Conflitos, também entende que as mudanças no Congresso dos EUA não determinarão nenhuma mudança decisiva nas políticas dos EUA para a Ucrânia. Não, pelo menos, enquanto Barack Obama permanecer no governo. Mas, para ele, o curso de ação que Obama escolheu está sendo causa de crescente instabilidade na Ucrânia.

Não compreendo a lógica dos norte-americanos – diz Pogrebinsky. A Ucrânia já tem governo pró-EUA. Os EUA deveriam estar fazendo o possível para preservar o governo de Kiev. Mas, em vez disso, não param de sacudir o bote, o que não faz sentido algum. Nunca qualquer governo norte-americano manteve, por tanto tempo, política tão alucinada.

Quanto a essa “política alucinada” – faz lembrar as ações do embaixador dos EUA na Ucrânia, Geoffrey Pyatt, que está “exigindo” que Kiev imponha sanções contra o Donbass e rompa todos os laços econômicos com a Rússia. Mas ninguém, no ocidente, sequer pensou em, por exemplo, perdoar a dívida da Ucrânia. Ou em assegurar pedidos europeus ou norte-americanos, às fábricas ucranianas, que substituíssem os pedidos russos que o país perdeu.

Querem é sangrar até a morte a economia ucraniana. O que o embaixador dos EUA está propondo só pode gerar agitação social e tumultos por todo o país – concluiu um especialista ucraniano.

Geoffrey Pyatt
Depois que o experimento de “democratização” da Ucrânia terminar em total fracasso, o próximo governo dos EUA, como acontece sempre, se declarará “não culpado” e “não responsável” pelos resultados da débâcle dessa política externa.

Toda a culpa será do governo anterior e dos erros que cometeu; ou tudo terá sido, só, efeito de intrigas urdidas em Moscou; ou o que aconteceu só aconteceu, mesmo, porque a matéria prima era de má qualidade.

O único real problema é quanto tempo ainda falta para que se conheçam os frutos dessa política norte-americana intervencionista “alucinada”; se amadurecerão ainda durante os estágios finais do governo Obama – o que levará ao colapso total da Ucrânia. E que preço o povo ucraniano terá ainda de pagar, por todo esse alucinamento.

sábado, 31 de maio de 2014

Rússia e China: Aliança estratégica, eficaz, discreta, sem alarido...

29/5/2014, Dmitry MININ, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

— E isso significará que Moscou e Pequim juntam forças para lançar poderosa contraofensiva no Ocidente?
— Não, de modo algum. Nem Rússia nem China precisam disso. Esses países precisam, isso sim, de concorrência leal, sem manipulação, sem duplifalar e hipocrisia e sem atividades clandestinas de subversão e terrorismo.

Maio - 2014: China e Rússia selam acordo estratégico nas áreas de comércio, energia, infraestrutura, tecnologia e de segurança.
A visita do presidente Vladimir Putin da Rússia a Xangai nos dias 20-21 de maio/2014, atraiu a atenção do mundo inteiro, mas, por várias razões, a significação dessa visita ainda não foi plenamente declarada. É como se o ocidente não conseguisse abrir mão da ilusão de uma sua supremacia, e preferisse não ver a alternativa que se vai configurando e emergindo, no formato de uma aliança russo-chinesa. Além disso, diferente de práticas passadas, Moscou e Pequim não querem alertar o oponente com declarações grandiloqüentes, mas nem sempre claras ou específicas, e têm preferido trabalhar metodicamente e em silêncio, construindo suas relações bilaterais com conteúdo abrangente e exequível.

A maioria dos relatos jornalísticos sobre a visita de Putin − por isso, se centraram nos acordos de gás – e os componentes militares, políticos e estratégicos de seus encontros em Xangai estão passando praticamente sem um registro sequer pelos especialistas. Os críticos reduziram tudo ao fornecimento de matérias primas russas e à “penetração chinesa” no mercado russo... Mas o verdadeiro sentido dessa visita é muito mais profundo, e talvez só possa ser devidamente apreciado, em toda sua significação, por historiadores, no futuro.

Se se examina de perto a “Declaração Conjunta da Federação Russa e da República Popular da China sobre um novo estágio de parceria em ampla escala e relações estratégicas” (orig. ing. Joint Statement of the Russian Federation and the People’s Republic of China on a new stage in full-scale partnership and strategic relations [1]) assinado pelos chefes de estado, não é difícil ver que o documento contém vários elementos similares a acordo que crie uma aliança militar e política, mas sem implementação final por lei.

Afinal, se o procedimento de implementação que talvez venha a ser necessário algum dia pode ser feito em bem pouco tempo, o mais difícil e mais demorado é definir os princípios em torno dos quais os signatários estão de acordo. Mas sim há, pronto, uma espécie de acordo “de reserva”, a ser desenvolvido, se preciso.

Oleogasoduto Russia-China de US$ 400 bilhões (Acordo Santo Graal)
(clique na imagem para aumentar)
Rússia e China chamaram a coisa de “um novo tipo” de relações entre estados, enfatizando que

(...) o resultado de uma parceria ampla e igualitária, de confiança e cooperação estratégica em nível muito mais alto será fator chave para preservar e garantir os interesses vitais dos dois países no século XXI, e para criar uma ordem mundial justa, harmoniosa e segura.

Trata-se disso. Isso, precisamente, terá de ser levado em conta por todos, em todo o planeta.

A Declaração Conjunta delineia a filosofia geral da atitude dos dois países em relação aos problemas globais do nosso tempo, chamando sempre a atenção para a natureza fundamentalmente firme, profunda e orgânica – nunca oportunista – da nova parceria. A Declaração Conjunta declara, por exemplo, que

(...) os dois países continuarão a garantir um ao outro firme apoio em questões relacionadas a interesses-núcleo, como soberania, integridade territorial e segurança. Os dois países opor-se-ão a qualquer tentativa por quaisquer métodos de intervenção em assuntos internos, e apoiarão total adesão às provisões fundamentais da lei internacional consolidada na Carta das Nações Unidas; respeito incondicional aos direitos dos parceiros a escolher independentemente a própria via de desenvolvimento; e respeito incondicional ao direito de defender os próprios valores culturais, históricos, éticos e morais.

Nada além de um modelo liberal tristemente mediano. Mas muito distante do “modelo” que tem sido universalmente imposto pelo Ocidente. Os dois países destacam a necessidade de

(...) rejeitar a linguagem das sanções unilaterais, ou a organização, ajuda, apoio, financiamento ou encorajamento de atividades que visem a mudar o sistema constitucional de qualquer outro país, ou de arrastar ou empurrar qualquer outro país para qualquer tipo de bloco unilateral ou união.

Mapa dos países sancionados unilateralmente pelos EUA
Em outras palavras, é a rejeição categórica de incontáveis “revoluções coloridas” orquestradas por todo o planeta pelo Ocidente; e da expansão de tradicionais blocos de estilo militar e político, como a OTAN. As relações desse “novo tipo” escolhido por Moscou e Pequim são também convenientes, porque não deixam aos EUA nenhum espaço ou terreno para justificar qualquer tentativa para expandir o bloco.

Mas, no processo, China e Rússia admitem a expansão de sua própria “proto-união”, mediante a inclusão de mais uma das grandes potências da política mundial – a Índia. Consideram a interação dessas três potências como

(...) importante fator para garantir segurança e estabilidade tanto na região como no mundo. Rússia e China continuarão seus esforços para fortalecer o diálogo estratégico trilateral para aumentar a confiança mútua, desenvolver posições comuns sobre questões regionais e globais importantes, e promover cooperação prática mutuamente benéfica.

Narendra Modi
Deve-se lembrar que o recém empossado novo primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a julgar por suas declarações, está pronto para trabalhar desse modo.

Permanece a necessidade de reformar a arquitetura financeira e econômica internacional, de realinhá-la às necessidades da economia real, e de aumentar a representação e o direito de voto de mercados emergentes e países em desenvolvimento no sistema da governança econômica global, para restaurar a confiança no sistema.

Deve-se observar que Rússia e China consideram o G-20 como o principal fórum de cooperação econômica internacional, não o notório “G7”, e empenharão esforços ativos para fortalecer a união e aumentar a efetividade das atividades do G-20. Celebrações pelo “ocidente” depois de a Rússia ter sido expulsa do “G8” foram pois precipitadas.

Rússia e China visam a transformar também outro grupo, o dos países BRICS,

(...) num mecanismo para cooperação e coordenação com ação em ampla gama de questões financeiras, econômicas e políticas globais, incluindo o estabelecimento de parceria econômica mais próxima, a necessidade de criar-se brevemente um Banco de Desenvolvimento dos BRICS, e a constituição de uma cesta de moedas de reserva para os negócios internacionais.

Nova Rota da Seda (em pontilhado)
Foram firmados importantes acordos também para a criação de um corredor de transporte para a Rota da Seda, cuja criação o ocidente também muito desejava, por acreditar que seria uma alternativa à rota de trânsito eurasiana pela Rússia, e uma espécie de coluna de contenção nas relações russo-chinesas. Esse projeto, que preocupou a Rússia durante muito tempo, revela-se hoje como item importante e benéfico na cooperação russo-chinesa. Moscou já declarou que

(...) considera importante a iniciativa da China, para o desenvolvimento do “Cinturão Econômico Rota da Seda”; e aprecia a disposição da China para tomar em consideração os interesses da Rússia, no curso do desenvolvimento e da realização desse projeto. Os dois países continuarão a procurar meios possíveis para unir o projeto do “Cinturão Econômico Rota da Seda” e a União Econômica Eurasiana que está sendo criada.

Implica que a nova Rota da Seda não servirá aos interesses geopolíticos do ocidente. Em vez disso, responderá às demandas urgentes de China e Rússia, inclusive em termos da presença estratégica de ambos os países em regiões adjacentes à própria Rota da Seda. Mediante esforços conjuntos, Moscou e Pequim são perfeitamente competentes para tirar a área das mãos do ocidente – o que configura mais uma gigantesca derrota para Washington.

A participação de Putin ao lado do líder chinês Xi Jinping na abertura dos exercícios navais conjuntos na Base Naval Woosung acrescentou mais um tom simbólico à visita de Putin a Xangai. Vale recordar que reunião semelhante aconteceu no início do que viria a ser a Entente Franco-Russa, que foi marcada pela chegada do esquadrão francês a Kronstadt.

Vladimir Putin e Xi Jinping na Base Naval Woosung  29/5/2014
Os países também decidiram realizar exercícios conjuntos para comemorar o 70º aniversário da vitória contra o fascismo alemão e o militarismo japonês nos teatros europeus e asiáticos da IIª Guerra Mundial, além de continuar em sua “oposição decidida contra tentativas de falsear a história e minar a ordem do mundo do pós-guerra”. Essa é questão considerada de alto significado estratégico, além do alto significado histórico.

De fato, Moscou e Pequim, em 2014, estão reconhecendo reciprocamente o papel decisivo de ambas as nações na vitória contra a Alemanha, pelo lado russo; e na vitória contra o Japão, pelo lado chinês. Afinal o ocidente sempre se empenha em reduzir, ou até apagar o papel que Rússia e China desempenharam naquela guerra mundial. Os EUA impuseram à força, a todo o planeta, a ideia de a contribuição dos EUA na vitória na IIª Guerra Mundial teria sido decisiva, se não na Europa, pelo menos na Ásia.

Mas hoje se sabe que as forças terrestres do Japão foram dizimadas principalmente na China, e que a Wehrmacht foi dizimada no Front Oriental. O que os norte-americanos fizeram foi, quase exclusivamente, dizimar populações civis nas Ilhas do Japão, em violentas campanhas de bombardeios aéreos, quando usaram inclusive bombas atômicas. Não é mistério o motivo pelo qual o exército Kwantung japonês, de um milhão de soldados, não marchou na direção da Sibéria; não marchou contra a Sibéria porque não conseguiu sair da China, onde foi detido pelos chineses.

Naquela guerra, morreram meio milhão de norte-americanos. Mas morreram 35 milhões de chineses. Toda a glória a todos que morrem em luta por causa justa, mas esses números mostram com clareza qual o país que carregou nos ombros o verdadeiro peso da vitória na IIª Guerra Mundial. Assim afinal se corrige, não só o conteúdo de uma lembrança histórica, mas, também, a verdade histórica sobre o papel especial que duas potências – Rússia e China – desempenharam para determinar a ordem mundial do pós-guerra.

Nova série MC-21 de aviões de passageiros de médio alcance já para 2014
Dos acordos econômicos práticos firmados pelos dois países, além dos planos de energia, o acordo sobre desenvolvimento conjunto de aviões de grande porte é particularmente interessante. Prevê-se que, no verão de 2014, a Russian United Aircraft Corporation (UAC) e a Commercial Aircraft Corporation COMAC, da China, apresentarão um estudo de viabilidade do projeto aos respectivos governos. O investimento dos países na empresa conjunta ainda não foi especificado, mas a russa UAC informou que será comparável ao projeto do Boeing 787 (cerca de 32 bilhões de dólares norte-americanos) e ao projeto do Airbus 350. Dado que a Rússia já domina o processo de produção dos Sukhoi Superjet 100 de curto alcance e em breve iniciará a produção dos MC-21 de médio alcance, Rússia e China, e adiante talvez Rússia e Índia, poderão entrar na produção de itens para toda a linha de aviões de transporte civil, com motores especiais e alta proporção de itens de tecnologia avançada. Além disso, terão uma vantagem competitiva sobre as empresas Boeing e Airbus, porque estarão orientadas para o mercado doméstico – cerca de 2,5 bilhões de pessoas. Há planos também para o desenvolvimento de um helicóptero de grande porte, sucessor do ainda insubstituível Mi-26. E não é só o esperado sucesso comercial desses projetos que importa. A maior importância deles está em que, com eles, cria-se um novo centro global, independente do ocidente, para produção de tecnologias críticas.

Sukhoi Superjet 100 de curto alcance já em operação comercial
O analista norte-americano Robert Parry escreveu que a aproximação entre Rússia e China é “histórica”, entendendo que a crise ucraniana deu à China, país cujo poder econômico está em franco crescimento, e à Rússia, com sua abundância de recursos naturais, ímpeto novo e muito significativo.

China e Rússia uniram-se recentemente num bloco no Conselho de Segurança da ONU, para bloquear iniciativas do ocidente. Significa que, em vez de ter isolado a Rússia na ONU, a abordagem linha-duríssima do Departamento de Estado dos EUA na ONU no caso da Ucrânia teve efeito exatamente oposto: a Rússia tem hoje um novo e poderoso aliado.

E isso significará que Moscou e Pequim juntam forças para lançar poderosa contraofensiva no Ocidente? Não, de modo algum. Nem Rússia nem China precisam disso. Esses países precisam, isso sim, de concorrência leal, sem manipulação, sem duplifalar e hipocrisia e sem atividades clandestinas de subversão e terrorismo a serviço dos “negócios” dos EUA e da União Europeia.

Tudo isso considerado, em breve será possível comparar e aferir, para determinar qual o melhor modelo. A cada ano que passar, mais e mais difícil será, para o ocidente, continuar a ignorar as justas demandas propostas, cada dia mais claramente, pelos novos polos da política global.




Nota dos tradutores

[1] Não se encontra outra versão, de fonte oficial, pelo menos por enquanto. Há matéria oficial da China, sobre o encontro (em inglês).