Mostrando postagens com marcador Petróleo e Gás. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Petróleo e Gás. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Pepe Escobar – “Irã/P5+1: Confronto Final em Viena”


26/6/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Irã e P5+1

Será mesmo? Ninguém sabe. Com os Ministros de Relações Exteriores reunidos em Viena antes do prazo final de 30/6/2015, fonte no governo iraniano diz a Asia Times que é “negócio fechado”. Durante dias não houve vazamentos, certamente para impedir que linhas-duras de ambos os lados – do lado do Irã e especialmente do lado dos EUA – arruínem tudo cinco segundos antes da meia-noite.
Em termos realistas, nem todos as miríades de componentes complexos estão reunidos para acordo conclusivo entre Irã e o P5+1. Ainda não estão. O vice-negociador-chefe do Irã, Seyed Abbas Araqchi disse no início da semana passada que “não se espera qualquer progresso”. Os dois presidentes, Obama e Rouhani, querem muito o acordo, mas lobbies linha duríssima – em Washington e Teerã – só pensam em fazer descarrilhar qualquer acordo.
Prova disso é uma carta aberta, assinada pelos suspeitos de sempre, alguns dos quais ex-conselheiros de Obama, na qual se lê que “o acordo não impedirá o Irã de ter capacidade para armas nucleares” – o que é descarada mentira; e onde se prevê que “o acordo não alcançará nem o próprio padrão do governo de um bom acordo tipo padrão” – o que implicaria que todos esses lobbyistas conheceriam perfeitamente todas as nuances das negociações, e eles não conhecem coisa alguma.
Como se podia prever, a carta aberta foi publicada pelo think-tank WINEP, de neoconservadores obcecadamente anti-Irã; entre os signatários aparece até o nome do fracassado esquematizador do surge no Afeganistão e Iraque e depois caído em desgraça, general David Petraeus; além de Dennis Ross – que jamais “negociou” coisa alguma em que ele não pusesse os interesses de Israel acima dos interesses dos EUA.

David Petraeus por Peter Brooke

Pode-se apostar que o prazo de 30 /6/2015 será ultrapassado; a coisa pode prosseguir, no mínimo, até o fim da próxima semana. Como suspense tipo fim-que-não-é-fim, para fazer o público comer as unhas, nada há que supere a atual situação. Especialmente para o grande business global – e não só para a indústria do petróleo – que se vai preparando para mudança geopolítica tectônica: o Irã finalmente “reabilitado” no ocidente (sim, porque no oriente a coisa nunca deixou de ser business-e-só-business como sempre).
É gás, gás, gás e só gás
Não surpreende que o Supremo Líder, Aiatolá Khamenei, tenha tido de expor todas as linhas vermelhas do Irã antes de 30 de junho. Afinal de contas, o “pacote” de 2/4/2015, de Lausanne, que á a base para as atuais negociações que podem levar a um possível acordo final em Viena é deliberadamente vago – e sujeito a interpretações conflitantes, especialmente no que tenha a ver com o prazo para que as sanções sejam totalmente extintas.
Khamenei insiste que as sanções impostas pela ONU e pelos EUA sejam levantadas no instante em que o acordo seja firmado; Washington jamais concordará, e o Departamento de Estado insiste que se trata, principalmente de haver a “verificação” pela Agência Internacional de Energia Atômica, e só depois as sanções serão aliviadas.
O mesmo se aplica a Teerã não aceitar ser impedido por dez anos, de fazer qualquer pesquisa e desenvolvimento nucleares. Até Rússia e China concordam que o Irã deve aceitar a tal “verificação” – sempre, é claro, de seu programa nuclear para finalidades civis.
O ponto não é o Supremo Líder dobrar-se a um acordo natimorto. O ponto é que Khamenei, para complexos objetivos internos, tem de conservar ao lado dele também os potencialmente perigosos ultraconservadores e linhas-duras em geral. E, por causa da retórica deliberadamente cordata do pacote de Lausanne, ele pode jogar com as linhas vermelhas – sempre enfatizando os “heroicos” ou “bravos e fiéis” negociadores liderados pelo Ministro de Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif.
Permanece também o fato de que ninguém sabe qual será a linguagem no acordo final – até que um detalhado acordo escrito seja aprovado pelo Parlamento do Irã e pelo Congresso dos EUA. Até o momento estamos em território de Nietzsche: não há fatos, só interpretações.

Obama no Congresso dos EUA...
por Paresh

Mas o universo do business está salivando é por fatos. Toda e qualquer empresa de energia do planeta está com olhos postos em Teerã, discutindo negócios a sério para depois das sanções. A ENI italiana está conversando. A Shell, também e também a British Petroleum (embora nenhuma dessas reconheça coisa alguma). No caso da Shell há a questão dos US$ 2 bilhões que a empresa deve à National Iranian Oil Company (NIOC) – jamais pagos por causa das sanções.
O Irã tem em estoque no mínimo 30 bilhões de barris de petróleo. Haverá nas próximas semanas uma inundação de petróleo (com os chineses comprando tudo)? Depende de que sanções serão imediatamente levantadas. O que significa preços em queda – coisa em que Rússia e Arábia Saudita, considerado o recente encontro em S.Petersburgo entre Putin e a Casa de Saud, não estão exatamente muito interessadas no momento.
Será processo lento. Segundo o Ministro do Petróleo Iraniano, Bijan Zanganeh, o Irã está pronto para aumentar a produção em cerca de 1 milhão de barris/dia, depois que as sanções forem levantadas. Atualmente, o Irã produz cerca de 2,7 milhões de barris/dia e exporta 1 milhão. Realisticamente, o Irã pode acrescentar 600 mil barris/dia até o final de 2017. Para mais do que isso, precisa de muito investimento em infraestrutura.

O Irã poderá usar o oleogasoduto do Ramo Turco
na exportação de gás para a Europa

O mesmo, para a indústria do gás. Na Conferência Mundial do Gás, no início desse mês em Paris, Azizollah Ramezani da NIOC disse que o Irã aumentará a produção, de 800 milhões para 1, 2 bilhões de metros cúbicos/dia, até 2020. Mas que, para que isso aconteça, precisa de pelo menos US$ 100 bilhões em investimentos das grandes europeias de energia. Está bem ali, tentador, no horizonte, um negócio estilo “ganha-ganha” à moda chinesa para os dois lados, Irã e Europa. Mas, antes, tem de haver o confronto final em Viena.
_____________________________________________
[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books

terça-feira, 21 de abril de 2015

Irã e uma possível nova geopolítica da energia

12.04.2015, [*] F. William EngdahlNew Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O recente esboço de acordo entre Irã e EUA sobre o programa nuclear iraniano abre a possibilidade de chegar ao fim quase 36 anos de sanções econômicas que os EUA impuseram ao Irã.

O esboço de acordo já foi recebido com ameaças de ataques unilaterais de Israel contra o Irã, para “prevenir” que o Irã venha a desenvolver uma bomba nuclear. E está emergindo a mais improvável das alianças, entre a monarquia ultraconservadora saudita e o governo de Israel: contra o Irã e o esboço de acordo.

A verdadeira questão é qual a motivação mais profunda, em relação ao Irã, no governo Obama.

Aqui, a geopolítica da energia tem papel decisivo, como tão frequentemente acontece em tudo que tenha a ver com o Oriente Médio. E o alvo dos EUA é a Rússia!



F. William EngdahlConversei recentemente sobre esses desenvolvimentos com Shervin, jornalista iraniano especialista em energia que conheci há dois anos em Teerã. Aqui, gostaria de partilhar alguns destaques daquela entrevista. Shervin é especialista em energia da principal agência de notícias do Irã, Tasnim News Agency. Espero que nossa conversa interesse a todos que procuram instrumentos para entender melhor as sanções impostas pelos EUA ao Irã, o possível papel do Irã no mundo e uma possível nova geopolítica da energia.

Tasnim: Qual sua opinião sobre as sanções contra o Irã?

F. William EngdahlAs sanções dos EUA contra o Irã são ilegais nos termos da lei internacional e são atos de guerra, exatamente como as sanções contra a Síria e, agora, também contra a Rússia.

Tasnim: Com as negociações sobre o Irã chegando a algum acordo, o senhor acha que as sanções econômicas do ocidente contra o Irã serão levantadas?

F. William EngdahlTemos de ser bem específicos. As sanções saíram de Washington e da unidade de guerra financeira do Tesouro dos EUA, especialmente a mais recente rodada de sanções, contra usarem o sistema de telecomunicações para compensações interbancárias (SWIFT) para vender petróleo iraniano – passo sem precedentes, que Washington jamais dera, e que agora já ameaça dar também contra a Rússia. A União Europeia adoraria reabrir seu comércio com o Irã. Enquanto Washington for governada pelos bancos de Wall Street e o complexo militar-industrial, vocês devem esperar que apareça algum pretexto, mesmo depois de um acordo nuclear, para continuar as sanções, de algum modo. Vejam Cuba.

Tasnim: Como os atuais baixos preços do petróleo afetam a economia nos EUA?

F. William EngdahlEm setembro passado, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, reuniu-se com o rei na Arábia Saudita, e propôs que pusessem abaixo o preço do petróleo, para pressionar maximamente o Irã e, principalmente, a Rússia de Putin, que Washington está determinada a destruir, porque é a única grande potência militar que pode ameaçar a total hegemonia militar do Pentágono. Se a Rússia capitulasse – e tenho certeza de que não capitulará – o mundo como o conhecemos entraria em colapso, o Irã seria isolado e destruído, a China também, e todas as novas estruturas multipolares alternativas que se opõem ao totalitarismo cada dia mais descarado dos hegemonistas anglo-norte-americanos receberiam golpe devastador.

Ironicamente, o choque do petróleo de Kerry-sauditas está tendo impacto devastador sobre a enorme nova indústria de petróleo de xisto nos estados de North Dakota, Texas, Califórnia e outros. Estimo que se isso continuar por mais três, seis meses, começaremos a ver falências e calotes que crescerão como bola de neve, de empresas de petróleo e dívidas não pagas correspondentes a empréstimos de mais de US$ 1 trilhão a empresas de petróleo e outros “papeis podres”. Até aqui, as empresas de petróleo de xisto têm afogado o mercado com o petróleo que têm, para obter dinheiro para evitar o calote das próprias dívidas, na esperança de que a crise seja de curta duração. As empresas do Big Oil, como ExxonMobil, Chevron, BP, Shell podem surfar as ondas da tempestade, porque estão bem capitalizadas e são globais. Em termos da economia norte-americana mais ampla, o único ponto em que se viu aumento no número de empregados foi nas centenas de milhares de novos postos de trabalho na indústria doméstica do xisto. Esses empregos já começaram a desaparecer novamente, bem depressa. O governo Obama, mais uma vez, não soube prever as consequências de mais longo alcance dos seus atos. O governo Obama atirou nos próprios dois pés, nessa guerra do petróleo contra Putin.

Tasnim: Como as sanções econômicas contra o Irã impactam também a economia dos EUA?

F. William EngdahlAs sanções que o Tesouro dos EUA impôs ao Irã praticamente não têm impacto algum sobre a economia dos EUA. É o que as torna tão diabólicas.

Tasnim: As sanções econômicas contra o Irã beneficiam mais os EUA ou o Irã?

F. William EngdahlRealmente, e foi o que vi quando estive em Teerã há dois anos, beneficiam muito mais o Irã. Digo isso, porque as sanções forçam vocês a serem cada vez mais autossuficientes e a não deixar que sua economia, suas indústrias, sua agricultura sejam destruídas por produtos baratos importados do ocidente, como aconteceu com tantos países na Ásia, África, América do Sul. As sanções forçam o Irã a desenvolver internamente as suas próprias maravilhosas capacidades, a controlar o próprio crédito, a não se deixar prender como vassalo de um sistema-dólar que está falindo. Os iranianos são pessoas muito bem educadas e inteligentes, cheias de recursos. Tenho certeza de que se darão muito bem, sem importar iPhone6 e sementes de soja tóxica da Monsanto.

Tasnim: Washington arregimentou os sauditas para derrubarem o preço, para ferir a Rússia e talvez o Irã?

F. William EngdahlNão tenha dúvidas disso. Foi repetição do que George Schultz e o Vice-Presidente Bush Pai fizeram em 1986 para conseguir que os sauditas inundassem o mercado, naquele momento, e derrubassem os preços para menos de US$ 10 o barril, para quebrar a União Soviética durante a guerra afegã dos soviéticos contra os mujahideen de Osama bin Laden financiados pelos EUA.

Mas desta vez o pessoal do Departamento de Estado e da CIA em  Washington era muito mais estúpido do que antes. Não calcularam que os sauditas já têm agenda própria e metas próprias a alcançar com o petróleo barato, a saber, destruir a nascente indústria concorrente do petróleo de xisto dos EUA. Agora já é tarde demais para que Obama e Washington consigam facilmente reverter os preços do petróleo. A qualidade intelectual do pessoal que vive na burocracia de Washington, mesmo comparada à do pessoal que lá estava há 30 anos, é escandalosamente baixa. São perfeitos ignorantes de história, cultura, economia, estratégia. Observe que até algumas das pessoas mais torpes do establishment da política exterior dos EUA, como Brzezinski e Kissinger, não se cansam de alertar Obama para que não provoque guerra contra a Rússia. Esses, pelo menos, sabem um pouco de história. Neoconservadores como Victoria Nuland no Departamento de Estado, ou o Secretário da Defesa, Ashton Carter ou Hillary Clinton, que já pôs seu olhar de gelo sobre a Casa Branca, não têm um palmo de profundidade e não são pessoas de bom caráter. Implica dizer que são gente tão perigosa para o próprio país deles, como para o planeta.

Tasnim: Os sauditas terão visto no pedido de Washington uma oportunidade para quebrar a indústria norte-americana do fracking, preservando para os sauditas o mercado norte-americano?

F. William EngdahlNão se trata do mercado norte-americano para os sauditas. Os sauditas exportam muito mais para a Ásia e bem pouco, cerca de 800 mil barris/dia, para os EUA, para um consumo diário de petróleo nos EUA de cerca de 19 milhões de barris dia; cerca de 4%. Os sauditas estão preocupados é com o mercado global, que eles querem dominar, alavancando a OPEP árabe – Arábia Saudita, Kuwait, Emirados.

Sem o Irã para os sauditas, é claro, mas com o conflito sunitas-xiitas especialmente depois que Washington deliberadamente iniciou as “revoluções coloridas” da chamada “primavera árabe” no final de 2010, a meta sempre foi criar total desordem entre os membros antes cooperantes da OPEP no Oriente Médio. E estabelecer o controle militar direto dos EUA sobre toda a região. Os países da OPEP e seus Fundos Soberanos, usando suas imensas rendas do petróleo, estavam começando a estabelecer redes independentes de banking islâmico; independentes da usura e da escravidão do endividamento como é rotina no ocidente – Tunísia, Líbia, Egito... Se aquilo continuasse, o dólar, em alguns anos, se tornaria inútil como moeda de república-de-bananas, quase exatamente como a ameaça que Washington vê hoje nos países BRICS e no Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), liderado pela China.

É útil ter em mente que a hegemonia de Washington depende de dois pilares: controle da moeda por Wall Street, o dólar como moeda internacional de reserva; e o controle da força militar. O controle sobre o dinheiro começou a desmontar-se e entrar em colapso com a alucinada desregulação dos bancos na gestão de Alan Greenspan no Fed e a consequente orgia de especulação chamada “patrimônio sustentado por seguros” que levou à inevitável crise financeira de 2007-2008. Depois disso, a “solução” militar tornou-se mais claramente dominante, porque o pilar financeiro estava debilitado demais para servir como motor da dominação global ou da, como Bush e David Rockefeller a batizaram, Nova Ordem Mundialdeles.

Ajuda saber que hoje esses oligarcas norte-americanos, como os chamo, estão entrando em pânico que não acontecia há, no mínimo cem anos, temendo que possam perder tudo que têm. Estão desesperados. Washington hoje está cheia de gente confusa em luta uns contra os outros e contra o mundo. É mais ou menos como os últimos anos do Império Romano do século IV d.C. Faz-me lembrar do que diziam os antigos gregos:

Os deuses primeiro enlouquecem quem eles querem destruir.

Hoje Washington é lar do Hegemon Perdido e de gente muito doida, como se vê em Israel, governada por aquele gângster, Benjamin Netanyahu.

Tasnim: A redução do preço do petróleo é ameaça ou oportunidade, para o Irã?

F. William EngdahlÉ oportunidade, e oportunidade maravilhosa, para que o Irã assuma lugar de destaque num novo sistema de comércio internacional que seja justo, e no qual o preço do petróleo não seja feito em dólares. Enquanto o mundo negocia seu petróleo em dólares, todos apoiamos o Império do Dólar e nos autodestruímos. Nesse ponto, China, Rússia e outros países desempenham papel crucial, no trabalho de fazer o preço do petróleo em moedas locais e, assim, desdolarizando as respectivas economias. Hoje, os únicos itens que ainda se compram e vendem-se pelo viciado e endividado sistema do dólar norte-americano são petróleo, drogas e soldados norte-americanos, vendidos como se fossem policiais globais. É sistema bem frágil, em minha opinião.

Tasnim: Que sugestões o senhor tem, para as autoridades econômicas?

F. William EngdahlO Irã é terra maravilhosa, com povo caloroso e muitos recursos econômicos e de inteligência. Se eu fosse governante do Irã, dirigiria o meu governo para criar processos de planejamento por todo o Irã, em todas as regiões onde ainda não existam, e engajaria os cidadãos em diálogo com funcionários regionais da economia, para assim definir os objetivos econômicos de cada região do país para os próximos cinco anos (projetos de maior prazo quase sempre se tornam excessivamente rígidos). Mais ou menos como fez Charles de Gaulle, que com certeza jamais foi comunista, com a “Planification” dele e de Jacques Rueff.

Então os ministros do governo central reúnem-se e revisam os desejos e necessidades das pessoas em todo o Irã e define prioridades exequíveis. Pessoalmente, eu baniria para sempre todas as vacinas ocidentais, todas. Dieta saudável e família e comunidades afetivamente generosas é a única “receita” infalível para ter um sistema imunológico que funcione bem. Eu também proibiria todos os matadores químicos de sementes, como Monsanto Roundup, que seria proibida até de chegar indiretamente ao país pela soja dos EUA ou Argentina, ou por milho geneticamente modificado. A China já começa a perceber a extensão do erro que cometeu ao permitir a importação de 60% da soja que o país consome, e toda essa soja é material geneticamente modificado. Eu desenvolveria naturalmente a maravilhosa cultura alimentar iraniana, com métodos livres de produtos químicos, subsidiada por política positiva de impostos e imporia impostos punitivos contra o agronegócio à moda dos EUA.

Hoje, os oligarcas ocidentais têm agenda simples: genocídio contra todas as linhagens de sangue não anglo-saxão, que exibam peles morenas. Tenho cruzado com muitos deles ao longo dos anos, em conferências e reuniões em Davos, Frankfurt, em vários locais. São amaldiçoados racistas, eugenistas, gente como Gates com suas vacinas que matam bebês e esterilizam meninas e moças.

Bill Gates, George Soros, David Rockefeller, Warren Buffett, os DuPonts, a família Russell da Yale University e outros, cujos nomes não são tão conhecidos. Gente fundamentalmente estúpida e ridícula, incapaz de ver as consequências da vida normal que eles roubam de toda a espécie humana. 

Para matarem “comedores inúteis” como nós, eles fazem guerras, disseminam doenças, tornam nossas crianças cada dia mais doentes e aleijadas; com as vacinas venenosas que distribuem, destroem a medicina tradicional sem drogas industrializadas como ainda existe em partes da China, do Irã e da Rússia. Tudo isso, para criar “mercados” para as drogas e toxinas das empresas ocidentais de medicamentos industrializados as quais, por falar delas, controlam a Organização Mundial da Saúde. Eles criam organizações terroristas para disseminar suas guerras de destruição. Essa é a origem da Al Qaeda, que destruiu a Líbia, o Iraque, o Iêmen e continua ativa em todo o mundo árabe; do grupo Cemaat, de Fethullah Gülen na Turquia e também fora de lá; do ISIS que foi criado pela inteligência dos EUA e Israel para destruir Bashar al-Assad e os laços que ligam os sírios ao Irã e ao Iraque.

Washington agora quer seduzir o Irã e fazê-lo dar as costas ao antigo aliado, a Rússia, e quer cortar as exportações de gás russo para Turquia e União Europeia. Minha opinião é que o futuro do Irã não está em tornar-se novo aliado dos neoconservadores que governam os EUA hoje, para receber algumas migalhas econômicas do ocidente, caso o Irã abandone sua aliança natural com a Eurásia, especialmente com Rússia, China e os países da Organização de Cooperação de Xangai.

A reservas conhecidas e comprovadas de gás natural do Irã foram estimadas, pela empresa British Petroleum, em cerca de 34 trilhões de metros cúbicos; as da Rússia, em 33 trilhões de metros cúbicos. A cooperação agora entre essas duas superpotências do gás natural é essencial para construir a arquitetura da Eurásia de modo que beneficie todos, inclusive a Alemanha e o resto da União Europeia. É uma oportunidade de ouro para mudar o locus da geopolítica da energia global, levando-a para bem longe das potências do eixo Washington-Londres-Riad que a controlam desde o acordo inicial entre o presidente Roosevelt dos EUA e o rei saudita Ibn Saud em 1943, que deu às grandes empresas norte-americanas Rockefeller do petróleo o controle exclusivo sobre os ricos recursos de petróleo da Arábia Saudita.

______________________________________________


[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online  New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

China tem apostas altas no conflito no Iêmen

31/3/2015, [*] MK BhadrakumarAsia Times Online − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os caminhos do petróleo & gás e pontos estratégicos
(clique na imagem para aumentar)
Pelo que se pode ver, é muito alto o nível de interesse de Pequim nos desenvolvimentos no Iêmen. Era de esperar, pode-se dizer, considerando que a China depende dos países do Golfo para metade de todas as suas importações de petróleo, além de manter amplo relacionamento com os países da região, que nunca parou de se expandir e aprofundar-se. A iniciativa “Estrada e Cinturão” acrescentou ao quadro uma dimensão estratégica, uma vez que a Rota da Seda cruza o Mar Vermelho.

Na verdade, a China será muito fortemente pressionada para tomar partido numa disputa regional. Isso converte a China numa espécie de “fiel depositário” do destino de todos, especialmente quando o Iêmen chegar ao Conselho de Segurança da ONU, o que é questão só de tempo.

Xinhua noticiou hoje a visita em curso da delegação da Defesa do Paquistão à Arábia Saudita, citando o Ministro da Defesa, Khawaja Asif, que disse que o Paquistão “garantirá todos os recursos, no caso de qualquer ameaça” à Arábia Saudita, mas, ao mesmo tempo, o Paquistão também busca “um fim para os conflitos no mundo muçulmano”. A matéria diz que o Primeiro-Ministro Nawaz Sharif “faria contato com líderes dos países amigos” (o que, presumivelmente, inclui o Irã). A mesma matéria dá a impressão de que o Paquistão pisa em ovos sobre uma linha muito tênue entre a devoção aos seus benfeitores sauditas e o risco de assumir qualquer dos lados numa guerra sectária.

Petróleo importado pela China, por país
(clique na imagem para aumentar)
Interessante, a rede Xinhua publicou nada menos que quatro comentários, entre ontem e hoje, sobre o conflito no Iêmen. Se se lê nas entrelinhas, há ali vestígios de desaprovação contra a intervenção militar dos sauditas, além de visível ceticismo quanto à eficácia de uma ofensiva por terra da aliança liderada pelos sauditas.

Mais significativamente, o papel do Irã é visto com muito clara compreensão e analisado sob uma luz positiva, e a China até antevê como possível que cresça o papel do Irã no mundo; a China, especificamente, prevê que aumentará o envolvimento entre EUA e Irã. Na sequência, alguns excertos interessantes:

●– Analistas dizem que a ação dos sauditas em apoio ao governo do Iêmen é motivada pelo desejo de preservar o importante status dos sauditas na região. Ainda mais: como fonte importante de ajuda econômica para o Iêmen, Riad de modo algum poderia tolerar qualquer inclinação de Sanaa na direção de Teerã.

Estreito de Bab el Mandeb
●– Uma das razões pelas quais Arábia Saudita e países árabes não pouparam esforços contra os houthis foi a necessidade de deter o rápido avanço dos rebeldes na direção da Arábia Saudita, e para bloquear o estratégico estreito de Bab al-Mandeb no Mar Vermelho, pelo qual passam milhares de navios todos os anos, disseram os analistas.

●– Segundo observadores, incursões terrestres serão muito difíceis e gerariam graves desafios para a coalizão (...) Geograficamente o Iêmen é terreno extremo, com montanhas altíssimas, cavernas e armadilhas de todo o tipo, extremamente difícil para a penetração de soldados por terra.

●– O Irã espera sinceramente o fim dos ataques aéreos dos sauditas contra posições dos houthis, e que se chegue a uma solução política para a crise no Iêmen, apesar de o país estar sendo acusado por alguns vizinhos de intrometer-se no Iêmen, disseram alguns analistas.

●– O objetivo do Irã é ver um governo de coalizão constituído no Iêmen, com a população xiita iemenita devidamente representada.

●– Os analistas não veem o Irã buscando influência dominante sobre o Iêmen, país que depende muito fortemente de dinheiro externo, que não é item abundante em Teerã por causa das sanções. Além disso, há um mar a separar o Irã e o Iêmen, enquanto a Arábia Saudita, que tradicionalmente tem tido forte influência no Iêmen, está logo ali, do outro lado da fronteira norte.

Hassan Rouhani (E) e Mohammad Javad Zarif
●– Ainda além disso, o Irã não quer que a crise no Iêmen crie ainda mais problemas para os esforços iranianos para melhorar os laços com seus vizinhos. O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, prometeu melhorar os laços com países vizinhos, como uma das prioridades de seu governo. Zarif também visitou países do Golfo com os quais têm sido raros os contatos e trocas de alto nível, por causa das relações estremecidas.

●– Para o Irã, a crise iemenita é questão complicada. Mas, se bem conduzida, poderá gerar um efeito-demonstração para todo o mundo, e especialmente para os EUA, do papel essencial que o Irã pode ter na solução de questões regionais.

Os comentários (ing.) estão aquiaquiaqui e aqui.
____________________________________________

[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.