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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Irã, sanções e o “grande jogo” da política eurasiana de energia


9/6/2015, Conflicts Forum’s Weekly Comment, 10-17 Abril 2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Mesa de negociações entre Irã e P5+1  
A declaração “conjunta” de Lausanne (Irã e P5+1) sobre as linhas gerais de um acordo nuclear já trouxe – apesar de qualquer acordo final ainda estar a vários meses de distância – grandes mudanças à região: o “regente” muito jovem da Arábia Saudita está empenhado numa demonstração do poder e da independência dos sunitas liderados pelos sauditas no Iêmen e na Síria. A possibilidade de um acordo com o Irã também está acrescentando um novo impulso ao “grande jogo” da oferta eurasiana de energia e políticas de mercado.
Por um lado, há a questão das conexões de energia entre Europa e Rússia (que, idealmente, os EUA gostariam de ver desfeitas); e, por outro lado, é a questão de um Irã livre das sanções. Mais uma vez, os EUA tem interesse bem definido aqui: gostariam de ver a energia iraniana fluindo para a Europa, em lugar do gás russo (o que poria o Irã mais próximo do ocidente, e meteria uma cunha nas atuais boas relações entre Rússia e Irã). A resultante dessas várias (e conflitantes) manobras fará moverem-se as placas tectônicas numa direção, ou em outra.
Essa semana, a Rússia montou uma campanha na Europa para convencer os europeus de que o fornecimento de energia – sobretudo no que tenha a ver com a segurança da oferta – é questão a ser despolitizada e desengajada das atuais diferenças políticas que há hoje entre Rússia e UE. A politização das decisões de estado sobre energia (no início da crise na Ucrânia), dizem os russos, opera em direção completamente oposta ao declarado desejo da UE de alcançar segurança no campo da energia.
Não há dúvida de que os russos estão bem certos, ao dizer que as questões da politização de curto prazo e os interesses e requerimentos para investimentos de longo prazo não são itens que se deem muito bem na intimidade. Mas a segunda perna do argumento deles – que merece atenção muito mais profunda – é que, se insistir nessa via, em bem poucos anos a UE poderá estar mergulhada numa crise severa de abastecimento de gás, que líderes europeus não terão como remediar rapidamente.
Para expor seu ponto de vista, os russos trouxeram juntos para a Europa o Presidente da Gazprom, Alexey Miller; o Ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak; e mais vários representantes de empresas internacionais de energia, que explicaram que suas empresas ainda trabalham na Rússia (inclusive no Ártico), e que todos já decidiram lá permanecer (com sanções ou sem).
Total (França) e Novatek (Rússia) exploram petróleo no Ártico
O que primeiro chamou a atenção foi que essa exposição (na essência, dirigida à UE) não foi realizada em Bruxelas, mas em Berlim. Já diz muito, sobre a UE de hoje. Em segundo lugar, o Vice-Presidente da francesa Total descreveu a joint venture no Ártico com a Novatek como parcialmente financiada pelos russos (do fundo soberano), parcialmente financiada pela UE e parcialmente financiada pela China. Como se vê, nada de dólares.
Em termos bem simples: o financiamento não-dólar de um dos maiores projetos de Gás Natural Liquefeito (GNL) em todo o mundo tem amplas ramificações para o futuro. Sugere que encontrar financiamento não-dólar para grandes projetos de energia pode ser muito menos problemático do que supõem (e dizem) alguns.
O argumento dos russos é, essencialmente, que a política da UE persegue objetivos conflitantes entre si: quer diversificar a oferta (leia-se: depender menos da Rússia); quer concorrência em todos os níveis (leia-se: nenhuma integração da cadeia de oferta para cima até o consumidor, como tem sido a prática russa); quer preço uniforme (leia-se: sem os russos facilitarem para países favoritos). Mas também quer proteção ao meio ambiente (o que, efetivamente, significa mais gás no mix de energia).
A Rússia compreende muito bem que essa “estratégia de concorrência” da UE só tem a ver com diluir a influência russa na Europa (e privar a Rússia de uma importante fonte de rendas). Mas a Rússia também compreende que a UE está profundamente dividida. Para alguns, a Europa teria errado ao deliberadamente empurrar a Rússia para fora do espaço “europeu” econômico, político e de segurança, com estados membros ainda em estado de irritação contra a Rússia. A Rússia está patentemente apelando para o lado pragmático da Europa, o que é visível em vários estados europeus no momento.
Alexey Miller da Gazprom disse bem simplesmente que essas políticas da UE resumiram-se a uma distorção fundamental da curva de riscos: o imenso investimento fica do lado da produção e do trânsito até o mercado. A UE quis mercado consumidor à prova de risco (múltiplos fornecedores, um único preço de mercado, contratos curtos (permitindo rápida troca entre fornecedores) – mas também quer segurança de fornecimento).
Nessas bases, será que apareceria o massivo investimento indispensável na cadeia de produção? – perguntou ele.
Ao longo de toda a curva, todos os riscos foram empurrados para cair sobre os produtores. Mas a UE também queria segurança no campo energético: queria a segurança de um mercado consumidor de longo prazo – ou não apareceriam os investimentos na cadeia de produção.
Igor Sechin (Rosneft) e Alexey Miller (D) (Gazprom)
Miller fez uma oferta à UE: sugeriu reativar o diálogo de energia UE-Rússia (que atualmente está suspenso), e manifestou a disposição dos russos para trabalhar com o Terceiro Pacote de Energia [orig. Third Energy Package] com a UE. Mas avisou que alguns elementos exigem mais reflexão para se tornarem trabalháveis: visar a um preço comum do gás para toda a UE não resultaria em a UE obter para ela o mais baixo preço uniforme do gás, mas, isso sim, a levaria para um preço mais alto (por contra dos diferenciais de mercado e infraestrutura). Embora fosse verdade que os preços do gás na Europa tenderiam a cair, isso tampouco implicaria um (baixo) preço europeu uniforme: alguns preços no futuro serão determinados por preços Hub (em graus diferentes), mas contratos de longo prazo não são coisas do passado. Bem ao contrário, as partes ainda se interessam por eles (porque ambos, fornecedores e consumidores precisam de garantias de longo prazo).
Por fim, o mesmo Alexey Miller da Gazprom destacou que, no campo do Oeste da Sibéria, o investimento na infraestrutura já foi feito; a capacidade de produção (para fornecer à Europa) já lá está, com significativa capacidade ociosa. Não foi dito explicitamente, mas ficou implícito, que a UE está em risco de “cortar fora o próprio nariz” (ignorando o ativo de primeira qualidade já instalado) para “cuspir na cara” – quer dizer: só para “cuspir” – da Rússia por causa da Ucrânia.
Em resumo, a politização deliberada está arrastando a UE para uma crise. Sim, a UE continuará a ser abastecida com gás e petróleo russos, mas em 2019, termina o acordo de dutos de trânsito com a Ucrânia, para abastecer a UE. Dali em diante, a Rússia abastecerá a UE pelo Ramo Turco, e por um “entroncamento” na fronteira turca (com um duto que poderá avançar pela Grécia para os estados do Báltico, não membros da UE – o que será outro evento com relevante significado geoestratégico).
Mas, como Miller observou, se a UE quer extrair gás desse entroncamento (que deverá está construído em 2017), a UE teria de já ter começado a planejar sua própria estrutura de oleogasodutos. Mas ainda não se vê sinal algum de qualquer tipo de preparação ou planejamento.
Nesse ponto já se pode ver o quadro geral como realmente é: se a UE permanece decidida a reduzir sua dependência dos russos, onde, afinal de contas imagina que estaria sua fonte alternativa para fornecimento de gás?! O Norte da África está mergulhado em confusão e tumultos políticos, e o ISIS cresce por lá; a bacia do leste do Mediterrâneo padece das mais profundas divisões políticas. O Gás Natural Liquefeito dos EUA, ao que tudo indica, será significativamente mais caro que o gás atual, o que minaria a competitividade europeia; o gás do Cáspio, ou, no mínimo, do Turcomenistão, parece destinado à China. Restam o Irã e o Iraque como alternativas possíveis para que a Europa diversifique suas fontes de fornecimento. Mas só – exclusivamente só – se as sanções contra o Irã forem levantadas.
Nesse ponto, é extremamente relevante o comentário de Alexey Miller, sobre a UE querer total segurança como consumidor, à custa da segurança do produtor. Se o Irã, como a Rússia, não tiver nenhuma possibilidade de obter um contrato de longo prazo na UE como compradora, por efeito do Terceiro Pacote de Energia da UE, nesse caso o Irã pode muito bem considerar outras opções para obter essa segurança em outro lugar (uma segurança que será indispensável como garantia para o grande financiamento de que o Irã também precisará).
Pres. da China, Xi Jinping (C) e os PM Nawaz Sharif (D) e o Min. das Finanças do Paquistão, Ishaq Dar
Semana passada [o artigo é do início de abril/2015], o Wall Street Journal noticiou que se esperava que fosse assinado um grande negócio durante a visita do presidente Xi Jinping ao Paquistão [já aconteceu, no final de abril/2015], pelo qual “a China construirá um gasoduto para levar gás natural do Irã ao Paquistão, para minorar a aguda carência de energia que o Paquistão enfrenta”.
Como observou o ex-diplomata indiano convertido em analista, M K Bhadrakumar:
Pequim só pode estar considerando a possibilidade de, adiante, estender o gasoduto até a China. Idealmente, a China gostaria que acontecesse sob a forma de um gasoduto estendido que passasse pelo norte da Índia até a província Yunnan, no sudeste da China. (Xinjiang já é diretamente ligada aos países produtores de energia da Ásia Central.) Significa que a China conta com que, em algum momento, a Índia também se incorpore ao projeto IP.
Originalmente, deveria ter sido projeto de um gasoduto Irã-Paquistão-Índia [IPI] – isso, até meados da década passada, quando Delhi, apanhada numa chave de braço pelos EUA, fugiu do projeto (...) Mas a avaliação dos chineses parece considerar que a Índia reagirá com pragmatismo em relação a iniciativas com o projeto de gasoduto IP (...) Com toda a certeza, o Irã também se interessará por tal projeto envolvendo China e Índia, dado que garantirá ao gás iraniano acesso a três dos maiores mercados asiáticos (...) através de um só megassistema de dutos.” (Negritos de Conflicts Forum).
E há também subtramas. China e Irã teriam algum interesse em sufocar o gasoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia [TAPI] apoiado pelos EUA. A China investiu muito pesadamente na rede de gasodutos da Ásia Central para levar gás turcomeno até Xinjiang, e preferiria que as reservas turcomenas não fossem partilhadas com os mercados sul-asiáticos. O Irã tampouco apreciaria ver o projeto TAPI como rival de seu gasoduto IPI pipeline. Do ponto de vista do Irã, manter cativos três grandes beberrões de energia, bem ao pé da porta, é altamente desejável, porque é garantia de mercado cativo para o longo prazo. O Paquistão com certeza preferirá ter parceiro chinês, a ter patrocinador norte-americano.
Aqui precisamente está o risco a que a Europa expõe-se, quanto à energia de que precisa: se a UE curvar-se aos desejos dos EUA, e desdenhar a oferta dos russos, de fornecimento farto do Campo Sibéria Oeste, pode vir a descobrir que as reservas gigantes de Iraque-Irã já foram capturadas por Paquistão, Índia e China.
Claro que os EUA farão de tudo para impedir que aconteça assim. E o argumento de sempre é que o Irã simplesmente não pode fazer coisa alguma sem tecnologia ocidental (embora os iranianos nos digam que já não é bem assim – que China e Rússia tem tudo de que o Irã precisa).
Integração Irã-Rússia-China
Políticas concorrenciais liberais podem ser ótimas em teoria – é o que Alexey Miller parece estar dizendo, mas nem sempre funcionam conforme a receita – se forçam demasiadamente o risco na direção dos fornecedores. Os grandes produtores prefeririam qualquer comprador que lhes dê mais longas garantias de longo prazo de acesso a algum grande mercado. Será que Alemanha e União Europeia anotaram bem as palavras dos russos em Berlim?
Um ministro alemão e um alto representante da União Europeia foram convidados à conferência promovida e divulgada pelos russos, aceitaram o convite, estavam sendo esperados, mas, à última hora, pularam fora. O observador e tomador de notas que a UE enviou à conferência – e ninguém sabe como e por quê essas coisas acontecem – era polonês e dedicou-se a fulminar tudo que ouviu, como “nefanda politização, pelos russos”, da questão do fornecimento de energia.
Bem claramente, a dinâmica interna divergente dentro da UE, somada às pressões que os EUA estão fazendo sobre os europeus, estão tornando a UE incapaz de tomar qualquer decisão, dada também a relação muito mais longa que mantêm com os russos, mas, como um colega observou, em conversa conosco, as coisas estão mudando, lá no leste, em ritmo mais acelerado a cada dia. Até já se ouve o rangido das placas tectônicas em movimento.
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.
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[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution fornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Irã e uma possível nova geopolítica da energia

12.04.2015, [*] F. William EngdahlNew Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O recente esboço de acordo entre Irã e EUA sobre o programa nuclear iraniano abre a possibilidade de chegar ao fim quase 36 anos de sanções econômicas que os EUA impuseram ao Irã.

O esboço de acordo já foi recebido com ameaças de ataques unilaterais de Israel contra o Irã, para “prevenir” que o Irã venha a desenvolver uma bomba nuclear. E está emergindo a mais improvável das alianças, entre a monarquia ultraconservadora saudita e o governo de Israel: contra o Irã e o esboço de acordo.

A verdadeira questão é qual a motivação mais profunda, em relação ao Irã, no governo Obama.

Aqui, a geopolítica da energia tem papel decisivo, como tão frequentemente acontece em tudo que tenha a ver com o Oriente Médio. E o alvo dos EUA é a Rússia!



F. William EngdahlConversei recentemente sobre esses desenvolvimentos com Shervin, jornalista iraniano especialista em energia que conheci há dois anos em Teerã. Aqui, gostaria de partilhar alguns destaques daquela entrevista. Shervin é especialista em energia da principal agência de notícias do Irã, Tasnim News Agency. Espero que nossa conversa interesse a todos que procuram instrumentos para entender melhor as sanções impostas pelos EUA ao Irã, o possível papel do Irã no mundo e uma possível nova geopolítica da energia.

Tasnim: Qual sua opinião sobre as sanções contra o Irã?

F. William EngdahlAs sanções dos EUA contra o Irã são ilegais nos termos da lei internacional e são atos de guerra, exatamente como as sanções contra a Síria e, agora, também contra a Rússia.

Tasnim: Com as negociações sobre o Irã chegando a algum acordo, o senhor acha que as sanções econômicas do ocidente contra o Irã serão levantadas?

F. William EngdahlTemos de ser bem específicos. As sanções saíram de Washington e da unidade de guerra financeira do Tesouro dos EUA, especialmente a mais recente rodada de sanções, contra usarem o sistema de telecomunicações para compensações interbancárias (SWIFT) para vender petróleo iraniano – passo sem precedentes, que Washington jamais dera, e que agora já ameaça dar também contra a Rússia. A União Europeia adoraria reabrir seu comércio com o Irã. Enquanto Washington for governada pelos bancos de Wall Street e o complexo militar-industrial, vocês devem esperar que apareça algum pretexto, mesmo depois de um acordo nuclear, para continuar as sanções, de algum modo. Vejam Cuba.

Tasnim: Como os atuais baixos preços do petróleo afetam a economia nos EUA?

F. William EngdahlEm setembro passado, o Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, reuniu-se com o rei na Arábia Saudita, e propôs que pusessem abaixo o preço do petróleo, para pressionar maximamente o Irã e, principalmente, a Rússia de Putin, que Washington está determinada a destruir, porque é a única grande potência militar que pode ameaçar a total hegemonia militar do Pentágono. Se a Rússia capitulasse – e tenho certeza de que não capitulará – o mundo como o conhecemos entraria em colapso, o Irã seria isolado e destruído, a China também, e todas as novas estruturas multipolares alternativas que se opõem ao totalitarismo cada dia mais descarado dos hegemonistas anglo-norte-americanos receberiam golpe devastador.

Ironicamente, o choque do petróleo de Kerry-sauditas está tendo impacto devastador sobre a enorme nova indústria de petróleo de xisto nos estados de North Dakota, Texas, Califórnia e outros. Estimo que se isso continuar por mais três, seis meses, começaremos a ver falências e calotes que crescerão como bola de neve, de empresas de petróleo e dívidas não pagas correspondentes a empréstimos de mais de US$ 1 trilhão a empresas de petróleo e outros “papeis podres”. Até aqui, as empresas de petróleo de xisto têm afogado o mercado com o petróleo que têm, para obter dinheiro para evitar o calote das próprias dívidas, na esperança de que a crise seja de curta duração. As empresas do Big Oil, como ExxonMobil, Chevron, BP, Shell podem surfar as ondas da tempestade, porque estão bem capitalizadas e são globais. Em termos da economia norte-americana mais ampla, o único ponto em que se viu aumento no número de empregados foi nas centenas de milhares de novos postos de trabalho na indústria doméstica do xisto. Esses empregos já começaram a desaparecer novamente, bem depressa. O governo Obama, mais uma vez, não soube prever as consequências de mais longo alcance dos seus atos. O governo Obama atirou nos próprios dois pés, nessa guerra do petróleo contra Putin.

Tasnim: Como as sanções econômicas contra o Irã impactam também a economia dos EUA?

F. William EngdahlAs sanções que o Tesouro dos EUA impôs ao Irã praticamente não têm impacto algum sobre a economia dos EUA. É o que as torna tão diabólicas.

Tasnim: As sanções econômicas contra o Irã beneficiam mais os EUA ou o Irã?

F. William EngdahlRealmente, e foi o que vi quando estive em Teerã há dois anos, beneficiam muito mais o Irã. Digo isso, porque as sanções forçam vocês a serem cada vez mais autossuficientes e a não deixar que sua economia, suas indústrias, sua agricultura sejam destruídas por produtos baratos importados do ocidente, como aconteceu com tantos países na Ásia, África, América do Sul. As sanções forçam o Irã a desenvolver internamente as suas próprias maravilhosas capacidades, a controlar o próprio crédito, a não se deixar prender como vassalo de um sistema-dólar que está falindo. Os iranianos são pessoas muito bem educadas e inteligentes, cheias de recursos. Tenho certeza de que se darão muito bem, sem importar iPhone6 e sementes de soja tóxica da Monsanto.

Tasnim: Washington arregimentou os sauditas para derrubarem o preço, para ferir a Rússia e talvez o Irã?

F. William EngdahlNão tenha dúvidas disso. Foi repetição do que George Schultz e o Vice-Presidente Bush Pai fizeram em 1986 para conseguir que os sauditas inundassem o mercado, naquele momento, e derrubassem os preços para menos de US$ 10 o barril, para quebrar a União Soviética durante a guerra afegã dos soviéticos contra os mujahideen de Osama bin Laden financiados pelos EUA.

Mas desta vez o pessoal do Departamento de Estado e da CIA em  Washington era muito mais estúpido do que antes. Não calcularam que os sauditas já têm agenda própria e metas próprias a alcançar com o petróleo barato, a saber, destruir a nascente indústria concorrente do petróleo de xisto dos EUA. Agora já é tarde demais para que Obama e Washington consigam facilmente reverter os preços do petróleo. A qualidade intelectual do pessoal que vive na burocracia de Washington, mesmo comparada à do pessoal que lá estava há 30 anos, é escandalosamente baixa. São perfeitos ignorantes de história, cultura, economia, estratégia. Observe que até algumas das pessoas mais torpes do establishment da política exterior dos EUA, como Brzezinski e Kissinger, não se cansam de alertar Obama para que não provoque guerra contra a Rússia. Esses, pelo menos, sabem um pouco de história. Neoconservadores como Victoria Nuland no Departamento de Estado, ou o Secretário da Defesa, Ashton Carter ou Hillary Clinton, que já pôs seu olhar de gelo sobre a Casa Branca, não têm um palmo de profundidade e não são pessoas de bom caráter. Implica dizer que são gente tão perigosa para o próprio país deles, como para o planeta.

Tasnim: Os sauditas terão visto no pedido de Washington uma oportunidade para quebrar a indústria norte-americana do fracking, preservando para os sauditas o mercado norte-americano?

F. William EngdahlNão se trata do mercado norte-americano para os sauditas. Os sauditas exportam muito mais para a Ásia e bem pouco, cerca de 800 mil barris/dia, para os EUA, para um consumo diário de petróleo nos EUA de cerca de 19 milhões de barris dia; cerca de 4%. Os sauditas estão preocupados é com o mercado global, que eles querem dominar, alavancando a OPEP árabe – Arábia Saudita, Kuwait, Emirados.

Sem o Irã para os sauditas, é claro, mas com o conflito sunitas-xiitas especialmente depois que Washington deliberadamente iniciou as “revoluções coloridas” da chamada “primavera árabe” no final de 2010, a meta sempre foi criar total desordem entre os membros antes cooperantes da OPEP no Oriente Médio. E estabelecer o controle militar direto dos EUA sobre toda a região. Os países da OPEP e seus Fundos Soberanos, usando suas imensas rendas do petróleo, estavam começando a estabelecer redes independentes de banking islâmico; independentes da usura e da escravidão do endividamento como é rotina no ocidente – Tunísia, Líbia, Egito... Se aquilo continuasse, o dólar, em alguns anos, se tornaria inútil como moeda de república-de-bananas, quase exatamente como a ameaça que Washington vê hoje nos países BRICS e no Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), liderado pela China.

É útil ter em mente que a hegemonia de Washington depende de dois pilares: controle da moeda por Wall Street, o dólar como moeda internacional de reserva; e o controle da força militar. O controle sobre o dinheiro começou a desmontar-se e entrar em colapso com a alucinada desregulação dos bancos na gestão de Alan Greenspan no Fed e a consequente orgia de especulação chamada “patrimônio sustentado por seguros” que levou à inevitável crise financeira de 2007-2008. Depois disso, a “solução” militar tornou-se mais claramente dominante, porque o pilar financeiro estava debilitado demais para servir como motor da dominação global ou da, como Bush e David Rockefeller a batizaram, Nova Ordem Mundialdeles.

Ajuda saber que hoje esses oligarcas norte-americanos, como os chamo, estão entrando em pânico que não acontecia há, no mínimo cem anos, temendo que possam perder tudo que têm. Estão desesperados. Washington hoje está cheia de gente confusa em luta uns contra os outros e contra o mundo. É mais ou menos como os últimos anos do Império Romano do século IV d.C. Faz-me lembrar do que diziam os antigos gregos:

Os deuses primeiro enlouquecem quem eles querem destruir.

Hoje Washington é lar do Hegemon Perdido e de gente muito doida, como se vê em Israel, governada por aquele gângster, Benjamin Netanyahu.

Tasnim: A redução do preço do petróleo é ameaça ou oportunidade, para o Irã?

F. William EngdahlÉ oportunidade, e oportunidade maravilhosa, para que o Irã assuma lugar de destaque num novo sistema de comércio internacional que seja justo, e no qual o preço do petróleo não seja feito em dólares. Enquanto o mundo negocia seu petróleo em dólares, todos apoiamos o Império do Dólar e nos autodestruímos. Nesse ponto, China, Rússia e outros países desempenham papel crucial, no trabalho de fazer o preço do petróleo em moedas locais e, assim, desdolarizando as respectivas economias. Hoje, os únicos itens que ainda se compram e vendem-se pelo viciado e endividado sistema do dólar norte-americano são petróleo, drogas e soldados norte-americanos, vendidos como se fossem policiais globais. É sistema bem frágil, em minha opinião.

Tasnim: Que sugestões o senhor tem, para as autoridades econômicas?

F. William EngdahlO Irã é terra maravilhosa, com povo caloroso e muitos recursos econômicos e de inteligência. Se eu fosse governante do Irã, dirigiria o meu governo para criar processos de planejamento por todo o Irã, em todas as regiões onde ainda não existam, e engajaria os cidadãos em diálogo com funcionários regionais da economia, para assim definir os objetivos econômicos de cada região do país para os próximos cinco anos (projetos de maior prazo quase sempre se tornam excessivamente rígidos). Mais ou menos como fez Charles de Gaulle, que com certeza jamais foi comunista, com a “Planification” dele e de Jacques Rueff.

Então os ministros do governo central reúnem-se e revisam os desejos e necessidades das pessoas em todo o Irã e define prioridades exequíveis. Pessoalmente, eu baniria para sempre todas as vacinas ocidentais, todas. Dieta saudável e família e comunidades afetivamente generosas é a única “receita” infalível para ter um sistema imunológico que funcione bem. Eu também proibiria todos os matadores químicos de sementes, como Monsanto Roundup, que seria proibida até de chegar indiretamente ao país pela soja dos EUA ou Argentina, ou por milho geneticamente modificado. A China já começa a perceber a extensão do erro que cometeu ao permitir a importação de 60% da soja que o país consome, e toda essa soja é material geneticamente modificado. Eu desenvolveria naturalmente a maravilhosa cultura alimentar iraniana, com métodos livres de produtos químicos, subsidiada por política positiva de impostos e imporia impostos punitivos contra o agronegócio à moda dos EUA.

Hoje, os oligarcas ocidentais têm agenda simples: genocídio contra todas as linhagens de sangue não anglo-saxão, que exibam peles morenas. Tenho cruzado com muitos deles ao longo dos anos, em conferências e reuniões em Davos, Frankfurt, em vários locais. São amaldiçoados racistas, eugenistas, gente como Gates com suas vacinas que matam bebês e esterilizam meninas e moças.

Bill Gates, George Soros, David Rockefeller, Warren Buffett, os DuPonts, a família Russell da Yale University e outros, cujos nomes não são tão conhecidos. Gente fundamentalmente estúpida e ridícula, incapaz de ver as consequências da vida normal que eles roubam de toda a espécie humana. 

Para matarem “comedores inúteis” como nós, eles fazem guerras, disseminam doenças, tornam nossas crianças cada dia mais doentes e aleijadas; com as vacinas venenosas que distribuem, destroem a medicina tradicional sem drogas industrializadas como ainda existe em partes da China, do Irã e da Rússia. Tudo isso, para criar “mercados” para as drogas e toxinas das empresas ocidentais de medicamentos industrializados as quais, por falar delas, controlam a Organização Mundial da Saúde. Eles criam organizações terroristas para disseminar suas guerras de destruição. Essa é a origem da Al Qaeda, que destruiu a Líbia, o Iraque, o Iêmen e continua ativa em todo o mundo árabe; do grupo Cemaat, de Fethullah Gülen na Turquia e também fora de lá; do ISIS que foi criado pela inteligência dos EUA e Israel para destruir Bashar al-Assad e os laços que ligam os sírios ao Irã e ao Iraque.

Washington agora quer seduzir o Irã e fazê-lo dar as costas ao antigo aliado, a Rússia, e quer cortar as exportações de gás russo para Turquia e União Europeia. Minha opinião é que o futuro do Irã não está em tornar-se novo aliado dos neoconservadores que governam os EUA hoje, para receber algumas migalhas econômicas do ocidente, caso o Irã abandone sua aliança natural com a Eurásia, especialmente com Rússia, China e os países da Organização de Cooperação de Xangai.

A reservas conhecidas e comprovadas de gás natural do Irã foram estimadas, pela empresa British Petroleum, em cerca de 34 trilhões de metros cúbicos; as da Rússia, em 33 trilhões de metros cúbicos. A cooperação agora entre essas duas superpotências do gás natural é essencial para construir a arquitetura da Eurásia de modo que beneficie todos, inclusive a Alemanha e o resto da União Europeia. É uma oportunidade de ouro para mudar o locus da geopolítica da energia global, levando-a para bem longe das potências do eixo Washington-Londres-Riad que a controlam desde o acordo inicial entre o presidente Roosevelt dos EUA e o rei saudita Ibn Saud em 1943, que deu às grandes empresas norte-americanas Rockefeller do petróleo o controle exclusivo sobre os ricos recursos de petróleo da Arábia Saudita.

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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pela Princeton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online  New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.