Mostrando postagens com marcador Alastair Crooke. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alastair Crooke. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Irã, sanções e o “grande jogo” da política eurasiana de energia


9/6/2015, Conflicts Forum’s Weekly Comment, 10-17 Abril 2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Mesa de negociações entre Irã e P5+1  
A declaração “conjunta” de Lausanne (Irã e P5+1) sobre as linhas gerais de um acordo nuclear já trouxe – apesar de qualquer acordo final ainda estar a vários meses de distância – grandes mudanças à região: o “regente” muito jovem da Arábia Saudita está empenhado numa demonstração do poder e da independência dos sunitas liderados pelos sauditas no Iêmen e na Síria. A possibilidade de um acordo com o Irã também está acrescentando um novo impulso ao “grande jogo” da oferta eurasiana de energia e políticas de mercado.
Por um lado, há a questão das conexões de energia entre Europa e Rússia (que, idealmente, os EUA gostariam de ver desfeitas); e, por outro lado, é a questão de um Irã livre das sanções. Mais uma vez, os EUA tem interesse bem definido aqui: gostariam de ver a energia iraniana fluindo para a Europa, em lugar do gás russo (o que poria o Irã mais próximo do ocidente, e meteria uma cunha nas atuais boas relações entre Rússia e Irã). A resultante dessas várias (e conflitantes) manobras fará moverem-se as placas tectônicas numa direção, ou em outra.
Essa semana, a Rússia montou uma campanha na Europa para convencer os europeus de que o fornecimento de energia – sobretudo no que tenha a ver com a segurança da oferta – é questão a ser despolitizada e desengajada das atuais diferenças políticas que há hoje entre Rússia e UE. A politização das decisões de estado sobre energia (no início da crise na Ucrânia), dizem os russos, opera em direção completamente oposta ao declarado desejo da UE de alcançar segurança no campo da energia.
Não há dúvida de que os russos estão bem certos, ao dizer que as questões da politização de curto prazo e os interesses e requerimentos para investimentos de longo prazo não são itens que se deem muito bem na intimidade. Mas a segunda perna do argumento deles – que merece atenção muito mais profunda – é que, se insistir nessa via, em bem poucos anos a UE poderá estar mergulhada numa crise severa de abastecimento de gás, que líderes europeus não terão como remediar rapidamente.
Para expor seu ponto de vista, os russos trouxeram juntos para a Europa o Presidente da Gazprom, Alexey Miller; o Ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak; e mais vários representantes de empresas internacionais de energia, que explicaram que suas empresas ainda trabalham na Rússia (inclusive no Ártico), e que todos já decidiram lá permanecer (com sanções ou sem).
Total (França) e Novatek (Rússia) exploram petróleo no Ártico
O que primeiro chamou a atenção foi que essa exposição (na essência, dirigida à UE) não foi realizada em Bruxelas, mas em Berlim. Já diz muito, sobre a UE de hoje. Em segundo lugar, o Vice-Presidente da francesa Total descreveu a joint venture no Ártico com a Novatek como parcialmente financiada pelos russos (do fundo soberano), parcialmente financiada pela UE e parcialmente financiada pela China. Como se vê, nada de dólares.
Em termos bem simples: o financiamento não-dólar de um dos maiores projetos de Gás Natural Liquefeito (GNL) em todo o mundo tem amplas ramificações para o futuro. Sugere que encontrar financiamento não-dólar para grandes projetos de energia pode ser muito menos problemático do que supõem (e dizem) alguns.
O argumento dos russos é, essencialmente, que a política da UE persegue objetivos conflitantes entre si: quer diversificar a oferta (leia-se: depender menos da Rússia); quer concorrência em todos os níveis (leia-se: nenhuma integração da cadeia de oferta para cima até o consumidor, como tem sido a prática russa); quer preço uniforme (leia-se: sem os russos facilitarem para países favoritos). Mas também quer proteção ao meio ambiente (o que, efetivamente, significa mais gás no mix de energia).
A Rússia compreende muito bem que essa “estratégia de concorrência” da UE só tem a ver com diluir a influência russa na Europa (e privar a Rússia de uma importante fonte de rendas). Mas a Rússia também compreende que a UE está profundamente dividida. Para alguns, a Europa teria errado ao deliberadamente empurrar a Rússia para fora do espaço “europeu” econômico, político e de segurança, com estados membros ainda em estado de irritação contra a Rússia. A Rússia está patentemente apelando para o lado pragmático da Europa, o que é visível em vários estados europeus no momento.
Alexey Miller da Gazprom disse bem simplesmente que essas políticas da UE resumiram-se a uma distorção fundamental da curva de riscos: o imenso investimento fica do lado da produção e do trânsito até o mercado. A UE quis mercado consumidor à prova de risco (múltiplos fornecedores, um único preço de mercado, contratos curtos (permitindo rápida troca entre fornecedores) – mas também quer segurança de fornecimento).
Nessas bases, será que apareceria o massivo investimento indispensável na cadeia de produção? – perguntou ele.
Ao longo de toda a curva, todos os riscos foram empurrados para cair sobre os produtores. Mas a UE também queria segurança no campo energético: queria a segurança de um mercado consumidor de longo prazo – ou não apareceriam os investimentos na cadeia de produção.
Igor Sechin (Rosneft) e Alexey Miller (D) (Gazprom)
Miller fez uma oferta à UE: sugeriu reativar o diálogo de energia UE-Rússia (que atualmente está suspenso), e manifestou a disposição dos russos para trabalhar com o Terceiro Pacote de Energia [orig. Third Energy Package] com a UE. Mas avisou que alguns elementos exigem mais reflexão para se tornarem trabalháveis: visar a um preço comum do gás para toda a UE não resultaria em a UE obter para ela o mais baixo preço uniforme do gás, mas, isso sim, a levaria para um preço mais alto (por contra dos diferenciais de mercado e infraestrutura). Embora fosse verdade que os preços do gás na Europa tenderiam a cair, isso tampouco implicaria um (baixo) preço europeu uniforme: alguns preços no futuro serão determinados por preços Hub (em graus diferentes), mas contratos de longo prazo não são coisas do passado. Bem ao contrário, as partes ainda se interessam por eles (porque ambos, fornecedores e consumidores precisam de garantias de longo prazo).
Por fim, o mesmo Alexey Miller da Gazprom destacou que, no campo do Oeste da Sibéria, o investimento na infraestrutura já foi feito; a capacidade de produção (para fornecer à Europa) já lá está, com significativa capacidade ociosa. Não foi dito explicitamente, mas ficou implícito, que a UE está em risco de “cortar fora o próprio nariz” (ignorando o ativo de primeira qualidade já instalado) para “cuspir na cara” – quer dizer: só para “cuspir” – da Rússia por causa da Ucrânia.
Em resumo, a politização deliberada está arrastando a UE para uma crise. Sim, a UE continuará a ser abastecida com gás e petróleo russos, mas em 2019, termina o acordo de dutos de trânsito com a Ucrânia, para abastecer a UE. Dali em diante, a Rússia abastecerá a UE pelo Ramo Turco, e por um “entroncamento” na fronteira turca (com um duto que poderá avançar pela Grécia para os estados do Báltico, não membros da UE – o que será outro evento com relevante significado geoestratégico).
Mas, como Miller observou, se a UE quer extrair gás desse entroncamento (que deverá está construído em 2017), a UE teria de já ter começado a planejar sua própria estrutura de oleogasodutos. Mas ainda não se vê sinal algum de qualquer tipo de preparação ou planejamento.
Nesse ponto já se pode ver o quadro geral como realmente é: se a UE permanece decidida a reduzir sua dependência dos russos, onde, afinal de contas imagina que estaria sua fonte alternativa para fornecimento de gás?! O Norte da África está mergulhado em confusão e tumultos políticos, e o ISIS cresce por lá; a bacia do leste do Mediterrâneo padece das mais profundas divisões políticas. O Gás Natural Liquefeito dos EUA, ao que tudo indica, será significativamente mais caro que o gás atual, o que minaria a competitividade europeia; o gás do Cáspio, ou, no mínimo, do Turcomenistão, parece destinado à China. Restam o Irã e o Iraque como alternativas possíveis para que a Europa diversifique suas fontes de fornecimento. Mas só – exclusivamente só – se as sanções contra o Irã forem levantadas.
Nesse ponto, é extremamente relevante o comentário de Alexey Miller, sobre a UE querer total segurança como consumidor, à custa da segurança do produtor. Se o Irã, como a Rússia, não tiver nenhuma possibilidade de obter um contrato de longo prazo na UE como compradora, por efeito do Terceiro Pacote de Energia da UE, nesse caso o Irã pode muito bem considerar outras opções para obter essa segurança em outro lugar (uma segurança que será indispensável como garantia para o grande financiamento de que o Irã também precisará).
Pres. da China, Xi Jinping (C) e os PM Nawaz Sharif (D) e o Min. das Finanças do Paquistão, Ishaq Dar
Semana passada [o artigo é do início de abril/2015], o Wall Street Journal noticiou que se esperava que fosse assinado um grande negócio durante a visita do presidente Xi Jinping ao Paquistão [já aconteceu, no final de abril/2015], pelo qual “a China construirá um gasoduto para levar gás natural do Irã ao Paquistão, para minorar a aguda carência de energia que o Paquistão enfrenta”.
Como observou o ex-diplomata indiano convertido em analista, M K Bhadrakumar:
Pequim só pode estar considerando a possibilidade de, adiante, estender o gasoduto até a China. Idealmente, a China gostaria que acontecesse sob a forma de um gasoduto estendido que passasse pelo norte da Índia até a província Yunnan, no sudeste da China. (Xinjiang já é diretamente ligada aos países produtores de energia da Ásia Central.) Significa que a China conta com que, em algum momento, a Índia também se incorpore ao projeto IP.
Originalmente, deveria ter sido projeto de um gasoduto Irã-Paquistão-Índia [IPI] – isso, até meados da década passada, quando Delhi, apanhada numa chave de braço pelos EUA, fugiu do projeto (...) Mas a avaliação dos chineses parece considerar que a Índia reagirá com pragmatismo em relação a iniciativas com o projeto de gasoduto IP (...) Com toda a certeza, o Irã também se interessará por tal projeto envolvendo China e Índia, dado que garantirá ao gás iraniano acesso a três dos maiores mercados asiáticos (...) através de um só megassistema de dutos.” (Negritos de Conflicts Forum).
E há também subtramas. China e Irã teriam algum interesse em sufocar o gasoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia [TAPI] apoiado pelos EUA. A China investiu muito pesadamente na rede de gasodutos da Ásia Central para levar gás turcomeno até Xinjiang, e preferiria que as reservas turcomenas não fossem partilhadas com os mercados sul-asiáticos. O Irã tampouco apreciaria ver o projeto TAPI como rival de seu gasoduto IPI pipeline. Do ponto de vista do Irã, manter cativos três grandes beberrões de energia, bem ao pé da porta, é altamente desejável, porque é garantia de mercado cativo para o longo prazo. O Paquistão com certeza preferirá ter parceiro chinês, a ter patrocinador norte-americano.
Aqui precisamente está o risco a que a Europa expõe-se, quanto à energia de que precisa: se a UE curvar-se aos desejos dos EUA, e desdenhar a oferta dos russos, de fornecimento farto do Campo Sibéria Oeste, pode vir a descobrir que as reservas gigantes de Iraque-Irã já foram capturadas por Paquistão, Índia e China.
Claro que os EUA farão de tudo para impedir que aconteça assim. E o argumento de sempre é que o Irã simplesmente não pode fazer coisa alguma sem tecnologia ocidental (embora os iranianos nos digam que já não é bem assim – que China e Rússia tem tudo de que o Irã precisa).
Integração Irã-Rússia-China
Políticas concorrenciais liberais podem ser ótimas em teoria – é o que Alexey Miller parece estar dizendo, mas nem sempre funcionam conforme a receita – se forçam demasiadamente o risco na direção dos fornecedores. Os grandes produtores prefeririam qualquer comprador que lhes dê mais longas garantias de longo prazo de acesso a algum grande mercado. Será que Alemanha e União Europeia anotaram bem as palavras dos russos em Berlim?
Um ministro alemão e um alto representante da União Europeia foram convidados à conferência promovida e divulgada pelos russos, aceitaram o convite, estavam sendo esperados, mas, à última hora, pularam fora. O observador e tomador de notas que a UE enviou à conferência – e ninguém sabe como e por quê essas coisas acontecem – era polonês e dedicou-se a fulminar tudo que ouviu, como “nefanda politização, pelos russos”, da questão do fornecimento de energia.
Bem claramente, a dinâmica interna divergente dentro da UE, somada às pressões que os EUA estão fazendo sobre os europeus, estão tornando a UE incapaz de tomar qualquer decisão, dada também a relação muito mais longa que mantêm com os russos, mas, como um colega observou, em conversa conosco, as coisas estão mudando, lá no leste, em ritmo mais acelerado a cada dia. Até já se ouve o rangido das placas tectônicas em movimento.
_________________________________________________
[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.
_________________________________________________
[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution fornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Risco geofinanceiro depois das “guerras do Tesouro” e a direção dos fluxos de energia


16/4/2015, [*] Conflict’s Forum - Alastair Crooke, Valdai Discussion Club
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Risco ↔ Recompensa
Já é costume considerar os negócios de energia em termos de riscos políticos (governos falidos, agitação interna, etc.) e em termos de risco econômico convencional. E no passado considerava-se primordial avaliar o risco geopolítico. Entendia-se que a política determinava largamente as condições financeiras e de energia. Uma vinha depois da outra, e não mudava. Mas [esse modelo] será ainda apropriado hoje?
Talvez devamos começar a reavaliar – porque hoje, cada vez mais, é o risco geofinanceiro que está modelando o risco geopolítico.
Na circunstância especial do pós-guerra, a economia dos EUA efetivamente era a única economia desenvolvida que permanecia em pé (dominava 50% do comércio mundial); e os EUA podiam modelar as estruturas de Bretton Woods a favor da sua própria agenda – com o US$ na posição indiscutível de moeda global de reserva, e com influência dominante no FMI e no Banco Mundial. Assim os EUA conseguiram pegar para eles a governança econômica global.
Depois, passada a infeliz experiência dos EUA e suas intervenções militares decisivas por todo o mundo para manter seu controle sobre a ordem global, o Tesouro dos EUA passou a alavancar a posição privilegiada do dólar com o que se pode chamar de “guerras do Tesouro”. Usando com liberalidade, a favor de seus objetivos políticos a sua bomba (financeira) de nêutrons: a exclusão do comércio e do sistema financeiro baseados no dólar.
Hoje, temos guerra geofinanceira movida contra a Rússia (em menor extensão também contra a China) e o Irã, dentre outros. E a mesma ferramenta tem sido usada mais discretamente para deslocar chefes de governos europeus. Em resumo, as guerras do Tesouro tem usado guerra de informação, guerra psicológica, drones e “operações especiais” como ferramentas principais para manter o controle numa ordem global que se está desintegrando.
Guerra do Tesouro
A questão é que ao introduzir nova dimensão de risco, empurrando Rússia e China a desenvolver sistema de comércio e de trocas financeiras não baseado no dólar com o objetivo de reduzir a vulnerabilidade desses dois estados à ação dos EUA na jurisdição do dólar, os EUA embarcaram numa competição que afetará todos – mas muito particularmente o Oriente Médio. Já se veem Irã, Turquia e Egito (três pilares do Oriente Médio) – por diferentes razões – já se transferindo para o bloco eurasiano do não dólar.
Inevitavelmente os fluxos de energia para o futuro serão afetados pelo resultado dessa “guerra” geofinanceira. Nada faz supor que o modelo de diferentes alianças geofinanceiras que emerge dessa ‘guerra’ venha a corresponder ao mapa político hoje existente (pós Guerra Fria).
O mais provável é que os dois lados venham a se “interpenetrar”. Por exemplo, no Oriente Médio, haverá vencedores e perdedores entre os produtores de energia: alguns estados da OPEP podem acabar num lado da guerra financeira, outros, no lado oposto.
O que faz aumentar os riscos (e a imprevisibilidade) dessa nova modalidade de guerra, é que acontece num momento em que as políticas de juros zero [ZIPR, zero interest rate policy] e de Alívio Quantitativo [QE, quantitative easing] criaram uma imensa dívida (US$ 9 trilhões) denominada em dólar e muito vulnerável a oscilação da taxa de câmbio – mas isso é, precisamente, o que temos hoje.
A “guerra” dos preços do petróleo contribuiu para as guerras da moeda: temos “guerra” de sanções operando ao lado da “guerra” das taxas de câmbio, ao lado das “guerras” da moeda e das “guerras” dos preços da energia – e tudo isso acontecendo ao mesmo tempo em que foi inflada uma das maiores bolhas de ativos na história, e que foi inflada pelo nosso tsunami, sem precedentes, de emissão de moeda.
"Quantitative Easing"+Alívio Quantitativo
Ninguém sabe o que resultará dessa mistura incendiária (a economia tradicional pouco pode ajudar) – mas o que é certo é que produtores e consumidores de energia, ambos, têm de examinar os riscos, de um ponto de vista radicalmente diferente.
Esse ponto de vista mistura a realidade da vulnerabilidade financeira sistêmica, com a dinâmica da guerra geofinanceira que alguns países estão fazendo, ao mesmo tempo em que outros países e regiões buscam escapar da hegemonia dos EUA, construindo contexto de não-dólar.
Não há dúvidas de que o mapa dos oleodutos futuros e a direção do fluxo do óleo que eles transportarão serão largamente determinados por essa guerra complexa. Haverá perdedores gigantes e vencedores idem.
______________________________________________
[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution fornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Governo grego desafia o “sistema” da União Europeia e Rússia desafia o “sistema” global

23/3/2015, [*] Conflicts Forum, Comentário Semanal, 13-20/2/2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Sir John Sawyers
No início dessa semana (13-20/2/2015), o chefe recentemente aposentado do Serviço Secreto da Inteligência Britânica, Sir John Sawyers, disse:

(…) mas a crise na Ucrânia já não é crise só sobre a Ucrânia. Agora é crise muito maior, muito mais perigosa, entre Rússia e os países ocidentais, sobre valores e ordem na Europa.

Alertou que os países ocidentais têm de “encarar” Moscou, mas

(...) uma vez que Mr. Putin vê a questão em termos da própria segurança da Rússia, ele estará preparado para ir mais longe que nós.

Não se pode adivinhar o que, exatamente, o Sir subentende nesse confronto de valores: possivelmente, só quis destacar o meme já conhecido, segundo o qual a secessão voluntária da Crimeia, que votou a favor de separar-se da Ucrânia, equivaleria a pôr em risco toda a “ordem” europeia (muitos interpretam assim, embora, para isso, seja preciso fazer-se de cego e não ver o que aconteceu no que foi um dia a Iugoslávia).

Ou, possivelmente, SirJohn falava de algo mais profundo: que Moscou estaria realmente desafiando o Ocidente, ao reclamar prerrogativas para a Rússia contra a ordem financeira e comercial global e o respectivo modelo de governança democrática-consumerista liberal/neoliberal apresentado como imperativo universal; e a respectiva reengenharia da ordem internacional, distanciada das normas sobre as quais ela foi fundada, com coerção geofinanceira, isolamento e sanções. O sentimento de choque existencial prevalente entre quase todos os russos, sim, sugere fortemente que estejamos assistindo a algo bem profundo: um choque de valores civilizacionais à moda Fukayama (sic), que parece ser o que Sawyers está apontando.

Yves Smith
Em certo sentido, essa tensão russa de algum modo ecoa aquela outra crise da Europa, crise – que também é de “valores e ordem” – que se vê no desafio que a Grécia trouxe à elite da UE. Como Yves Smith observou:

Esse incidente [o rompimento das conversações do Eurogrupo com a Grécia]sugere que está em curso uma luta muito mais básica, que não aparece diretamente refletida nas conversações da Grécia com a Troika. O governo grego e seus credores parecem ter visões fundamentalmente diferentes sobre o que a Grécia realmente tem poder para fazer.

De fato, a posição dos vários credores da dívida grega é que a Grécia já entregara parte significativa da própria soberania, se não toda ela, em troca do dinheiro do “resgate”. E os credores teriam fixado um sistema de arrecadação pelo qual a Grécia jamais conseguiria livrar-se das dívidas e obrigações.

Dito de outro modo: a Grécia, na visão dos credores, teria sido reduzida, submetida em vasta medida a autoridades da Eurozona, sobre as quais não há controle algum; e teria perdido todos os direitos e benefícios de ser parte de uma federação real – o principal dos quais é poder receber transferências fiscais.

Por seu lado, a Grécia tem a visão de que ainda é Estado e ainda têm direitos que não lhe podem ser tirados.

Se é essa a natureza subjacente do desentendimento, da qual as dificuldades na negociação seria mero sintoma, não há motivo algum para manter alguma esperança de acordo futuro, exceto se o governo do SYRIZA capitular. A Grécia está efetivamente pedindo uma mudança na ordem constitucional oculta: quer dizer, dos vários termos impostos nos acordos de resgate que outros estados periféricos tratam como cláusulas cogentes e irrevogáveis. Mudanças nas ordens constitucionais são difíceis, para dizer o mínimo; e quase sempre só acontecem via golpes ou guerras.

De fato, o SYRIZA está contestando as prerrogativas do microcosmo, assim como a Rússia desafia o macrocosmo. A Grécia contesta a ordem financeira (como se vê na priorização absoluta dos credores sobre quaisquer outros interesses, inclusive a própria realidade ou o sofrimento humano); e também desafia o modelo de governança – o neoliberalismo institucionalizado – que determina que a Grécia seja sangrada até que pague as dívidas que, avaliadas com realismo, são absolutamente impagáveis, e cuja cobrança esvazia qualquer aspiração que a Grécia tenha à soberania. E a Grécia também está desafiando a prerrogativa que teria aquela ordem financeira de coagir financeiramente (ameaçando com levar os bancos gregos à falência), para obter o que quer.

Syriza comemora vitória eleitoral
Um analista sugere, com boa percepção da realidade, que a verdadeira luta da Grécia seria menos contra o Eurogrupo (o microcosmo), mas, de fato, mais, com o que há por trás dele: o “estado profundo” financeiro, desterritorializado, de Europa & EUA.

Para muitos, seria “irracional” desafiar esse “estado profundo” de Europa & EUA; e que a Grécia – para ser racional – teria de aceitar, no último momento, o que lhe ordena “Mr. Market”. Mas o que se tem visto no caso presente é que o partido SYRIZA não parece ser o velho partido social-democrático centrista, que sempre cede. E o argumento dele não é a velha dialética simplória do pró ou anti-mercado.

O argumento agora é mais complexo, sobre o quanto políticas monetaristas radicais, a manipulação pelo Banco Central Europeu e umas poucas formas de negociar operadas por uns poucos grandes atores de mercado distorceram o “mercado”, a ponto de o converterem numa autocracia global predatória e impermeável a qualquer mecanismo ou controle democrático.

Não surpreende portanto que essas duas crises (à primeira vista tão separadas e diferentes) – Ucrânia e Grécia – estejam se politizando muito rapidamente (cada dia mais gregos mostram-se mais abertos a Moscou que a Bruxelas, como mostram pesquisas recentes). Há sem dúvida uma correlação política entre todos os partidos políticos europeus que compreendem o sofrimento dos gregos e que se mostram mais ‘abertos’ para a Rússia.

Superpreocupados talvez com a questão da dívida e com o destino do euro, parece que perdemos de vista a questão política: o governo grego está desafiando o “sistema” União Europeia de modo muito fundamental (e a Rússia está desafiando o “sistema” global). Não surpreende que partidos políticos por todo o sul da Europa, também desencantados com a violência e a intolerância de Bruxelas, estejam prestando tanta atenção. Também eles, com certeza, já perceberam que o SYRIZA fez uma aliança com um partido da Direita, na construção de uma campanha comum anti-‘sistema’ (mesmo que, no longo prazo, esses caminhos tenham de se separar).

Esse quadro deve ter desencadeado arrepios de medo em muitos partidos europeus de centro, comprometidos com o arrocho [“austeridade”] e com a União Monetária Europeia.

Eurozona
Muito provavelmente, é o medo – mais de contágio político, que de contágio financeiro – que está provocando reações nas euro-elites, que as fazem reagir com tanta fúria no caso grego. Mas a própria fúria, a irascibilidade, da resposta daquelas elites e dos líderes europeus, ameaça converter uma disputa econômica em disputa nacionalista – incendiando as chamas do nacionalismo (e do sentimento anti-alemão) por todo o sul da Europa e pelos Bálcãs.

Vê-se que os partidos euro-céticos no Reino Unido, França e Itália, inter alia, estão de olhos postos, acompanhando o destino da rebelião dos gregos. Nos Bálcãs, essas crises gêmeas também já convergiram na percepção pública, e estão reabrindo as feridas do desmembramento da Iugoslávia.

Para os sérvios, especialmente, a crise ucraniana desperta emoções de déjà vu: a Ucrânia está sendo instrumentalizada, ferramenta do desejo ocidental de castigar a “impertinência” e a “ousadia” da Rússia, como Croácia e Eslovênia foram instrumentalizadas, ferramentas do desejo do mesmo ocidente, de também castigar uma Sérvia que se “atrevia” a tender, também, a favor dos russos.

Yves Smith (acima) ecoa o ponto de Sawyer, de que desafios a valores coletivos ou à ordem estabelecida nunca são facilmente bem-sucedidos, e praticamente sempre só se consumam mediante conflito, que é o que torna tão intratáveis essas duas crises. O elemento comum a ambas é um desejo de recobrar a soberania assaltada pela ordem financeira e política global ou financeira: em outras palavras, o desejo de “ressoberanizar” os dois estados “contestadores”.

É bastante claro que os EUA não querem Rússia “ressoberanizada”, nem a Alemanha quer alguma “ressoberanização” da Grécia (seja por medo de criar um precedente para Espanha, Portugal e Itália, seja pelo custo político, para a Alemanha, de ver desmoralizadas a sua autoridade e a sua liderança na Europa).

E é nessa profundidade que as crises gêmeas na Europa têm laços que as conectam também ao Oriente Médio. Perguntado recentemente se via solução política para a Síria, o embaixador russo em Beirute respondeu que a crise ucraniana tornava improvável qualquer movimento nessa direção; o Moscow Times também citou um conselheiro do Ministério da Defesa, especulando que, no caso de os EUA armarem Kiev, a Rússia armaria o Irã.

Mapa da aliança de segurança da Rússia
Mas, mais que esses links óbvios, a crise ucraniana – e a guerra geofinanceira desencadeada contra a Rússia – levou a Rússia a reagir no Oriente Médio, onde hoje trabalha conscientemente para reformatar a região como área mais multipolar e não denominada em dólares. Os três pilares atuais do Oriente Médio – Irã, Turquia e Egito – começam a interessar-se por construir laços mais firmes com China e Rússia e (em ritmos diferentes) afastam-se do comércio dolarizado, pelo menos nas transações entre eles mesmos.

Em outras palavras, qualquer escalada nessa dupla crise e em suas tensões inerentes incidirão diretamente sobre a capacidade de Europa e EUA mediarem conflitos no Oriente Médio, uma vez que Rússia, Irã, Egito e Turquia são, total ou parcialmente, atores chaves para ajudar a encaminhar solução nos atuais conflitos regionais.

Só para repetir bem claramente: a crítica que o presidente Putin faz contra a “ordem” global e contra os EUA estarem armando o sistema financeiro global encontra muitos ouvidos simpáticos por todo o mundo “não ocidental”.

E se a Grécia tiver de ser transformada em estado falido (para desencorajar os outros (pour décourager les autres [para desencorajar os demais, fr. no orig.]), se acelerará a tendência no Oriente Médio, de estados separarem-se do mundo unipolar, para caminhar na direção de multipolarismo mais bivalente.

A Grécia sempre foi membro do núcleo da União Europeia (é dos primeiros países que se uniram à UE – antes de Espanha ou Portugal); e a Grécia é membro da OTAN. Qualquer reorientação da Grécia na direção de Rússia e China (em busca de ajuda para enfrentar a saída do euro), ou a decisão dos gregos de se separarem da OTAN, dispararão ondas de choque por todos os Bálcãs.

Rota da Seda Sul (vermelho) e Rota da Seda Marítima (azul)
(clique na imagem para aumentar)
A China já especula sobre a possibilidade de estender sua Rota da Seda, seu corredor econômico, pela Turquia, pela Sérvia, até a Hungria (que desafiou “regras” da UE e recebeu o presidente Putin em Budapest). Há conversas também sobre um gasoduto que ligaria o novo “Ramo” Turco (que substitui o “Ramo Sul”) à Grécia, Sérvia e Hungria – e que correria talvez ao longo da projetada estrada de trens de alta velocidade e o corredor econômico chinês que ligará essa parte do sudeste da Europa.

Tudo isso acontecendo como o previsto, parte significativa do leste europeu estará já muito fisicamente orientada para, e conectada com, o Oriente Médio e, dali para a frente, também para/com Rússia e China.
___________________________________


[*] Alastair Crookeàs vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio
_____________________________________________

[*] Conflicts Forum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.