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sexta-feira, 12 de junho de 2015

Irã, sanções e o “grande jogo” da política eurasiana de energia


9/6/2015, Conflicts Forum’s Weekly Comment, 10-17 Abril 2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Mesa de negociações entre Irã e P5+1  
A declaração “conjunta” de Lausanne (Irã e P5+1) sobre as linhas gerais de um acordo nuclear já trouxe – apesar de qualquer acordo final ainda estar a vários meses de distância – grandes mudanças à região: o “regente” muito jovem da Arábia Saudita está empenhado numa demonstração do poder e da independência dos sunitas liderados pelos sauditas no Iêmen e na Síria. A possibilidade de um acordo com o Irã também está acrescentando um novo impulso ao “grande jogo” da oferta eurasiana de energia e políticas de mercado.
Por um lado, há a questão das conexões de energia entre Europa e Rússia (que, idealmente, os EUA gostariam de ver desfeitas); e, por outro lado, é a questão de um Irã livre das sanções. Mais uma vez, os EUA tem interesse bem definido aqui: gostariam de ver a energia iraniana fluindo para a Europa, em lugar do gás russo (o que poria o Irã mais próximo do ocidente, e meteria uma cunha nas atuais boas relações entre Rússia e Irã). A resultante dessas várias (e conflitantes) manobras fará moverem-se as placas tectônicas numa direção, ou em outra.
Essa semana, a Rússia montou uma campanha na Europa para convencer os europeus de que o fornecimento de energia – sobretudo no que tenha a ver com a segurança da oferta – é questão a ser despolitizada e desengajada das atuais diferenças políticas que há hoje entre Rússia e UE. A politização das decisões de estado sobre energia (no início da crise na Ucrânia), dizem os russos, opera em direção completamente oposta ao declarado desejo da UE de alcançar segurança no campo da energia.
Não há dúvida de que os russos estão bem certos, ao dizer que as questões da politização de curto prazo e os interesses e requerimentos para investimentos de longo prazo não são itens que se deem muito bem na intimidade. Mas a segunda perna do argumento deles – que merece atenção muito mais profunda – é que, se insistir nessa via, em bem poucos anos a UE poderá estar mergulhada numa crise severa de abastecimento de gás, que líderes europeus não terão como remediar rapidamente.
Para expor seu ponto de vista, os russos trouxeram juntos para a Europa o Presidente da Gazprom, Alexey Miller; o Ministro de Energia da Rússia, Alexander Novak; e mais vários representantes de empresas internacionais de energia, que explicaram que suas empresas ainda trabalham na Rússia (inclusive no Ártico), e que todos já decidiram lá permanecer (com sanções ou sem).
Total (França) e Novatek (Rússia) exploram petróleo no Ártico
O que primeiro chamou a atenção foi que essa exposição (na essência, dirigida à UE) não foi realizada em Bruxelas, mas em Berlim. Já diz muito, sobre a UE de hoje. Em segundo lugar, o Vice-Presidente da francesa Total descreveu a joint venture no Ártico com a Novatek como parcialmente financiada pelos russos (do fundo soberano), parcialmente financiada pela UE e parcialmente financiada pela China. Como se vê, nada de dólares.
Em termos bem simples: o financiamento não-dólar de um dos maiores projetos de Gás Natural Liquefeito (GNL) em todo o mundo tem amplas ramificações para o futuro. Sugere que encontrar financiamento não-dólar para grandes projetos de energia pode ser muito menos problemático do que supõem (e dizem) alguns.
O argumento dos russos é, essencialmente, que a política da UE persegue objetivos conflitantes entre si: quer diversificar a oferta (leia-se: depender menos da Rússia); quer concorrência em todos os níveis (leia-se: nenhuma integração da cadeia de oferta para cima até o consumidor, como tem sido a prática russa); quer preço uniforme (leia-se: sem os russos facilitarem para países favoritos). Mas também quer proteção ao meio ambiente (o que, efetivamente, significa mais gás no mix de energia).
A Rússia compreende muito bem que essa “estratégia de concorrência” da UE só tem a ver com diluir a influência russa na Europa (e privar a Rússia de uma importante fonte de rendas). Mas a Rússia também compreende que a UE está profundamente dividida. Para alguns, a Europa teria errado ao deliberadamente empurrar a Rússia para fora do espaço “europeu” econômico, político e de segurança, com estados membros ainda em estado de irritação contra a Rússia. A Rússia está patentemente apelando para o lado pragmático da Europa, o que é visível em vários estados europeus no momento.
Alexey Miller da Gazprom disse bem simplesmente que essas políticas da UE resumiram-se a uma distorção fundamental da curva de riscos: o imenso investimento fica do lado da produção e do trânsito até o mercado. A UE quis mercado consumidor à prova de risco (múltiplos fornecedores, um único preço de mercado, contratos curtos (permitindo rápida troca entre fornecedores) – mas também quer segurança de fornecimento).
Nessas bases, será que apareceria o massivo investimento indispensável na cadeia de produção? – perguntou ele.
Ao longo de toda a curva, todos os riscos foram empurrados para cair sobre os produtores. Mas a UE também queria segurança no campo energético: queria a segurança de um mercado consumidor de longo prazo – ou não apareceriam os investimentos na cadeia de produção.
Igor Sechin (Rosneft) e Alexey Miller (D) (Gazprom)
Miller fez uma oferta à UE: sugeriu reativar o diálogo de energia UE-Rússia (que atualmente está suspenso), e manifestou a disposição dos russos para trabalhar com o Terceiro Pacote de Energia [orig. Third Energy Package] com a UE. Mas avisou que alguns elementos exigem mais reflexão para se tornarem trabalháveis: visar a um preço comum do gás para toda a UE não resultaria em a UE obter para ela o mais baixo preço uniforme do gás, mas, isso sim, a levaria para um preço mais alto (por contra dos diferenciais de mercado e infraestrutura). Embora fosse verdade que os preços do gás na Europa tenderiam a cair, isso tampouco implicaria um (baixo) preço europeu uniforme: alguns preços no futuro serão determinados por preços Hub (em graus diferentes), mas contratos de longo prazo não são coisas do passado. Bem ao contrário, as partes ainda se interessam por eles (porque ambos, fornecedores e consumidores precisam de garantias de longo prazo).
Por fim, o mesmo Alexey Miller da Gazprom destacou que, no campo do Oeste da Sibéria, o investimento na infraestrutura já foi feito; a capacidade de produção (para fornecer à Europa) já lá está, com significativa capacidade ociosa. Não foi dito explicitamente, mas ficou implícito, que a UE está em risco de “cortar fora o próprio nariz” (ignorando o ativo de primeira qualidade já instalado) para “cuspir na cara” – quer dizer: só para “cuspir” – da Rússia por causa da Ucrânia.
Em resumo, a politização deliberada está arrastando a UE para uma crise. Sim, a UE continuará a ser abastecida com gás e petróleo russos, mas em 2019, termina o acordo de dutos de trânsito com a Ucrânia, para abastecer a UE. Dali em diante, a Rússia abastecerá a UE pelo Ramo Turco, e por um “entroncamento” na fronteira turca (com um duto que poderá avançar pela Grécia para os estados do Báltico, não membros da UE – o que será outro evento com relevante significado geoestratégico).
Mas, como Miller observou, se a UE quer extrair gás desse entroncamento (que deverá está construído em 2017), a UE teria de já ter começado a planejar sua própria estrutura de oleogasodutos. Mas ainda não se vê sinal algum de qualquer tipo de preparação ou planejamento.
Nesse ponto já se pode ver o quadro geral como realmente é: se a UE permanece decidida a reduzir sua dependência dos russos, onde, afinal de contas imagina que estaria sua fonte alternativa para fornecimento de gás?! O Norte da África está mergulhado em confusão e tumultos políticos, e o ISIS cresce por lá; a bacia do leste do Mediterrâneo padece das mais profundas divisões políticas. O Gás Natural Liquefeito dos EUA, ao que tudo indica, será significativamente mais caro que o gás atual, o que minaria a competitividade europeia; o gás do Cáspio, ou, no mínimo, do Turcomenistão, parece destinado à China. Restam o Irã e o Iraque como alternativas possíveis para que a Europa diversifique suas fontes de fornecimento. Mas só – exclusivamente só – se as sanções contra o Irã forem levantadas.
Nesse ponto, é extremamente relevante o comentário de Alexey Miller, sobre a UE querer total segurança como consumidor, à custa da segurança do produtor. Se o Irã, como a Rússia, não tiver nenhuma possibilidade de obter um contrato de longo prazo na UE como compradora, por efeito do Terceiro Pacote de Energia da UE, nesse caso o Irã pode muito bem considerar outras opções para obter essa segurança em outro lugar (uma segurança que será indispensável como garantia para o grande financiamento de que o Irã também precisará).
Pres. da China, Xi Jinping (C) e os PM Nawaz Sharif (D) e o Min. das Finanças do Paquistão, Ishaq Dar
Semana passada [o artigo é do início de abril/2015], o Wall Street Journal noticiou que se esperava que fosse assinado um grande negócio durante a visita do presidente Xi Jinping ao Paquistão [já aconteceu, no final de abril/2015], pelo qual “a China construirá um gasoduto para levar gás natural do Irã ao Paquistão, para minorar a aguda carência de energia que o Paquistão enfrenta”.
Como observou o ex-diplomata indiano convertido em analista, M K Bhadrakumar:
Pequim só pode estar considerando a possibilidade de, adiante, estender o gasoduto até a China. Idealmente, a China gostaria que acontecesse sob a forma de um gasoduto estendido que passasse pelo norte da Índia até a província Yunnan, no sudeste da China. (Xinjiang já é diretamente ligada aos países produtores de energia da Ásia Central.) Significa que a China conta com que, em algum momento, a Índia também se incorpore ao projeto IP.
Originalmente, deveria ter sido projeto de um gasoduto Irã-Paquistão-Índia [IPI] – isso, até meados da década passada, quando Delhi, apanhada numa chave de braço pelos EUA, fugiu do projeto (...) Mas a avaliação dos chineses parece considerar que a Índia reagirá com pragmatismo em relação a iniciativas com o projeto de gasoduto IP (...) Com toda a certeza, o Irã também se interessará por tal projeto envolvendo China e Índia, dado que garantirá ao gás iraniano acesso a três dos maiores mercados asiáticos (...) através de um só megassistema de dutos.” (Negritos de Conflicts Forum).
E há também subtramas. China e Irã teriam algum interesse em sufocar o gasoduto Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia [TAPI] apoiado pelos EUA. A China investiu muito pesadamente na rede de gasodutos da Ásia Central para levar gás turcomeno até Xinjiang, e preferiria que as reservas turcomenas não fossem partilhadas com os mercados sul-asiáticos. O Irã tampouco apreciaria ver o projeto TAPI como rival de seu gasoduto IPI pipeline. Do ponto de vista do Irã, manter cativos três grandes beberrões de energia, bem ao pé da porta, é altamente desejável, porque é garantia de mercado cativo para o longo prazo. O Paquistão com certeza preferirá ter parceiro chinês, a ter patrocinador norte-americano.
Aqui precisamente está o risco a que a Europa expõe-se, quanto à energia de que precisa: se a UE curvar-se aos desejos dos EUA, e desdenhar a oferta dos russos, de fornecimento farto do Campo Sibéria Oeste, pode vir a descobrir que as reservas gigantes de Iraque-Irã já foram capturadas por Paquistão, Índia e China.
Claro que os EUA farão de tudo para impedir que aconteça assim. E o argumento de sempre é que o Irã simplesmente não pode fazer coisa alguma sem tecnologia ocidental (embora os iranianos nos digam que já não é bem assim – que China e Rússia tem tudo de que o Irã precisa).
Integração Irã-Rússia-China
Políticas concorrenciais liberais podem ser ótimas em teoria – é o que Alexey Miller parece estar dizendo, mas nem sempre funcionam conforme a receita – se forçam demasiadamente o risco na direção dos fornecedores. Os grandes produtores prefeririam qualquer comprador que lhes dê mais longas garantias de longo prazo de acesso a algum grande mercado. Será que Alemanha e União Europeia anotaram bem as palavras dos russos em Berlim?
Um ministro alemão e um alto representante da União Europeia foram convidados à conferência promovida e divulgada pelos russos, aceitaram o convite, estavam sendo esperados, mas, à última hora, pularam fora. O observador e tomador de notas que a UE enviou à conferência – e ninguém sabe como e por quê essas coisas acontecem – era polonês e dedicou-se a fulminar tudo que ouviu, como “nefanda politização, pelos russos”, da questão do fornecimento de energia.
Bem claramente, a dinâmica interna divergente dentro da UE, somada às pressões que os EUA estão fazendo sobre os europeus, estão tornando a UE incapaz de tomar qualquer decisão, dada também a relação muito mais longa que mantêm com os russos, mas, como um colega observou, em conversa conosco, as coisas estão mudando, lá no leste, em ritmo mais acelerado a cada dia. Até já se ouve o rangido das placas tectônicas em movimento.
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.
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[*] Alastair Crooke, às vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution fornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Pepe Escobar − A guerra saudita do petróleo contra Rússia, Irã e EUA

15/10/2014, [*] Pepe Escobar, RT− Russia Today, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Pescador lança sua rede no porto de Dubai
A Arábia Saudita iniciou uma guerra econômica contra alguns produtores selecionados de petróleo. A estratégia mascara a verdadeira agenda da Casa de Saud. Mas funcionará?

Para o vice-presidente da russa Rosneft, Mikhail Leontyev,

(...) os preços podem ser manipulativos (...) a Arábia Saudita começou por oferecer grandes descontos no petróleo. É manipulação política, e a Arábia Saudita está sendo manipulada, o que pode acabar mal.

É indispensável uma correção: os sauditas não estão sendo manipulados. O que a Casa de Saud está fazendo é disparar “Tomahawks de boatos”, insistindo que estariam ótimos com o petróleo a US$ 90 o barris; até a US$ 80 pelos próximos dois anos; e até a US$ 50-US$ 60 para clientes da Ásia e norte-americanos.

A verdade é que o Brent cru já caiu a menos de US$ 90 por barril, porque a China – e a Ásia como um todo – já estão reduzindo o crescimento econômico, embora em grau menor, comparado ao ocidente. A produção porém permanece alta – especialmente na Arábia Saudita e Kuwait – mesmo com bem pouco petróleo líbio e sírio no mercado e com o Irã forçado a cortar milhões de barris/dia na produção por causa da guerra econômica dos EUA, também chamada sanções.

A Casa de Saud está aplicando estratégia altamente predatória, que se resume a reduzir a fatia de mercado de seus concorrentes, no médio para longo prazo. Pelo menos em teoria, pode tornar miserável a vida de vários atores – dos EUA (desenvolvimento de energia, fracking e perfuração em água profunda que se tornam não lucrativos), aos produtores de cru pesado, azedo [orig. sour] como o Irã e a Venezuela. Mas o alvo principal, que ninguém se engane, é a Rússia.

Nada mais fácil que uma estratégia que fira simultaneamente Irã, Iraque, Venezuela, Equador e Rússia ser vista como jogo de poder a favor do “Império do Caos”, com Washington acertando negócios com Riad. Negócios que implicariam que bombardear o Califa Ibrahim, líder do ISIS/ISIL/Daesh, seria só um prelúdio para bombardear as forças de Bashar al-Assad; em troca, os sauditas baixariam os preços para ferir os inimigos do “Império do Caos”.

Mas é muito mais complicado que isso.


Jogue a culpa em Washington

O orçamento russo para 2015 exige que o petróleo permaneça, no mínimo, a US$ 100 o barril. Mesmo assim, o Kremlin está obtendo empréstimos de nada menos que US$ 7 bilhões em 2015, dos “investidores externos” usuais, mais US$ 27,2 bilhões internamente. Não se vê nem sinal de terremoto econômico.

Além do mais, o rublo já caiu mais de 14% desde julho, frente ao dólar norte-americano. Por falar nisso, as moedas dos principais países BRICS também caíram: 7,8% o real do Brasil; 1,6% a rúpia indiana. E a Rússia, diferente do que se via na era Ieltsin, não está quebrada: ainda tem reservas de, pelo menos, US$ 455 bilhões.

O objetivo da Casa de Saud, de tentar atropelar a Rússia como principal fornecedor de petróleo para a União Europeia não passa de delírio-sonho: todas as refinarias da União Europeia teriam de ser praticamente refeitas de alto a baixo, para processar o cru saudita, que é leve; e isso custa uma fortuna.

Geopoliticamente, a coisa fica ainda mais saborosa, quando se vê que a estratégia central da Casa de Saud é jogar a culpa de tudo em Washington, por não ter cumprido a promessa de “Assad tem de sair”, nem realizado a obsessão dos neoconservadores de bombardear o Irã. É ainda pior (para os sauditas), porque Washington – pelo menos por hora – parece mais concentrada em derrubar o Califa Ibrahim do que em derrubar Bashar al-Assad e pode, talvez, estar a um passo de assinar um acordo nuclear com Teerã, como parte das conversas com o P5+1, dia 24 de novembro de 2014.

No front da energia, o pior dos pesadelos da Casa de Saud seria ambos, Irã e Iraque, tornarem-se rapidamente capazes de tomar o lugar dos sauditas como produtores swing chave de petróleo no mundo. Daí vem o ímpeto dos sauditas para privar os dois países da muito necessária renda do petróleo. Pode funcionar – com as sanções mordendo Teerã ainda mais fundo. Mas Teerã sempre pode compensar, vendendo mais gás para a Ásia.

Aqui, afinal, está o xis da questão. Uma depauperada Casa de Saud acredita que possa forçar Moscou a abandonar o apoio que dá a Damasco; e Washington a não assinar acordo algum com Teerã. Tudo isso, só vendendo petróleo abaixo do preço médio. É sinal de desespero. E, além disso, pode ser interpretado como a Casa de Saud sem saber o que faz – se não a estiver ostensivamente sabotando – da tal coalizão dos covardes/sem noção, em sua campanha contra os bandidos do Califa Ibrahim.

Para completar essa pintura sinistra, a Europa talvez seja esquecida, para arrastar-se como puder durante o inverno – mesmo sabendo-se dos problemas de suprimento de gás com a Rússia − por causa da Ucrânia. Ainda assim, os preços baixos do petróleo dos sauditas não impedirão uma quarta recessão em seis anos, que já está na esquina, à espera da União Europeia.

Foto: Hamad I. Mohammed

Para o leste, jovens russos!

A Rússia, entrementes, olha lenta, mas firmemente, para o leste. O vice-premiê da China, Wang Yang, resumiu com clareza:

A China quer exportar para a Rússia produtos competitivos como produtos agrícolas, equipamento de petróleo e gás; e está pronta para importar produtos de engenharia da Rússia.

Acrescentem-se aí os alimentos importados em quantidades maiores da América Latina, e nada sugere que Moscou esteja encurralada nas cordas.

Uma delegação chinesa de peso considerável, chefiada pelo premiê Li Keqiang acaba de assinar um pacote de negócios em Moscou, que vão da energia às finanças, e de navegação por satélite a cooperação nas ferrovias para trens de alta velocidade. Para a China, que já superou a Alemanha como principal parceira comercial da Rússia em 2011, esse é puro jogo de ganha-ganha.

Os bancos centrais de China e Rússia acabam de assinar acordo crucial, de três anos, para troca bilateral da moeda, de 150 bilhões de Yuan. E o negócio é prorrogável e expansível. A City de Londres reclamou muito, mas reclamar é o que mais fazem.

Esse novo acordo, deixa de lado o US dólar. Não surpreende que seja, hoje, item chave da guerra econômica por procuração, de salve-se quem puder, entre EUA e Ásia. Moscou saúda o acordo, é claro, porque consegue neutralizar muitos dos efeitos colaterais da estratégia saudita.

A parceria estratégica Rússia-China está em ascensão desce o “negócio de gás do século”, “epocal” (pela definição de Putin), de US$ 400 bilhões e para 30 anos, assinado em maio. E as reverberações econômicas não vão parar.

Haverá com certeza um alinhamento das Novas Rotas da Seda comandadas pelos chineses, com uma ferrovia Trans-Siberiana modernizada. Na reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)] em Dushanbe, o presidente Putin elogiou o “grande potencial” do desenvolvimento de um “sistema comum de transporte SCO” que ligue “a ferrovia Trans-Siberiana russa e a linha principal Baikal-Amur” com as Rotas da Seda chinesas, “beneficiando assim todos os países na Eurasia”.

Moscou está progressivamente levantando as restrições e agora está oferecendo a Pequim quantidade imensa de investimentos potenciais. Pequim está ganhando progressivamente acesso não só às matérias primas russas muito necessárias, mas também ganhando acesso a tecnologia de ponta e armamento avançado.

Pequim receberá sistemas de mísseis S-400 e jatos de combate Su-35, logo no primeiro trimestre de 2015. Depois, na sequência, virão o novíssimo submarino russo, Amur 1650, além de componentes para satélites alimentados por energia nuclear.

Foto: Hamad I. Mohammed

A estrada é pavimentada com Yuan

Os presidentes Putin e Xi, que já se encontraram nada menos que nove vezes desde a posse de Xi, ano passado, estão metendo muito medo ao “Império do Caos”. Não é de estranhar; a prioridade número 1, dos dois e compartilhada, é morder a hegemonia do dólar norte-americano – e especialmente do petrodólar – no sistema financeiro global.

O Yuan está sendo negociado na Bolsa de Valores de Moscou – a primeira Bolsa fora da China a oferecer negócios regulados com o Yuan. Ainda está em apenas US$ 1,1 bilhão (em setembro). Importadores russos pagam com Yuan, em vez de dólares, por 8% de todos os bens chineses, mas a coisa está crescendo depressa. E crescerá exponencialmente, quando Moscou finalmente decidir aceitar Yuan no “negócio de gás do século” com a Gazprom, de US$ 400 bilhões.

Assim caminha o mundo multipolar. A Casa de Saud usa a arma-petrodólar? O contragolpe é aumentar o comércio numa cesta de moedas. Adicionalmente, Moscou manda um recado à União Europeia, que está perdendo grande parte do comércio russo, por causa das tais sanções contraproducentes, o que acelera a próxima recessão na União Europeia. Guerra econômica também é via de duas mãos.


A Casa de Saud pensa que pode jogar um tsunami de petróleo no mercado, apoiado por um tsunami de “noticiário” e “opiniões de especialistas” – criando a ilusão de que os sauditas controlariam os preços do petróleo. Não controlam. Na exata medida em que essa estratégia saudita está condenada ao fracasso, Pequim vai apontando o caminho a seguir para fora do pântano: negociar em outras moedas estabiliza os preços. No frigir dos ovos, os únicos perdedores serão os que insistirem em comerciar em dólares norte-americanos.


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.

Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.