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sábado, 13 de junho de 2015

Desdolarização: Rússia está falando (muito) sério


6/6/2015, [*] F. William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Desdolarização da Rússia
A Rússia está prestes a dar outro grande passo na direção de libertar o rublo, extraindo-o do Sistema-dólar. O Ministro das Finanças russo acaba de informar que está considerando lançar papéis da dívida do Estado russo em Yuan chinês. Seria via muito elegante para afastar-se de vez da dependência, das chantagens e das ações de terrorismo financeiro de que o Tesouro dos EUA fez meio de vida. E simultaneamente se estreitam os laços entre China e Rússia – o pior pesadelo geopolítico para Washington.
O Vice-Ministro russo das Finanças, Sergey Storchak, anunciou que seu Ministério está dedicado a estudo aprofundado do que se exige para lançar papéis russos denominados em Yuan, a moeda chinesa. Esse noticiário recente é parte de uma estratégia de longo prazo, entre Rússia e China, que alcança diretamente o coração da hegemonia norte-americana – US$ – no lugar de principal moeda de reserva mundial.
O US$ é usado hoje como principal moeda de reserva em cerca de 60% dos bancos centrais pelo mundo. A segunda é o € (euro). Agora a China se move cuidadosamente, como principal potência comercial do planeta, para criar sua Renminbi (o Yuan chinês) como mais uma dessas grandes moedas de reserva. É evento que tem enormes implicações geopolíticas. Enquanto o US$ for a principal moeda de reserva, o mundo tem de comprar dólares e papéis do Tesouro dos EUA para suas reservas. Isso é que tem possibilitado que Washington continue a acumular déficits em orçamento desde 1971, quando o US$ abandonou o padrão-ouro.
Na realidade, China, Japão, Rússia, Alemanha – todos países com balança comercial superavitária – financiam os déficits de Washington, o que torna possível para os EUA fazer todas as guerras que faz pelo mundo. É paradoxo ao qual Rússia e China, pelo menos, estão decididas a pôr fim o mais rapidamente possível.
Desdolarização
Ano passado, Rússia e China assinaram enormes acordos de energia, para 30 anos de fornecimento de petróleo e gás russo à China. Os pagamentos serão feitos em moeda local, não em dólares. Já em 2014, os pagamentos em moedas nacionais entre China e Rússia no comércio bilateral, aumentaram nove vezes, comparados a 2013. Lin Zhi, Diretor do Departamento de Europa e Ásia Central do Ministério Chinês de Desenvolvimento Econômico anunciou em novembro passado que:
(...) cerca de 100 bancos comerciais russos já estão abrindo contas para pagamentos recebidos do exterior em Yuan. A lista dos bancos comerciais nos quais depositantes comuns podem abrir contas em Yuan também está aumentando.
Em novembro passado, o 18º maior banco da Rússia, o Sberbank, tornou-se o primeiro banco russo a financiar letras de câmbio em Yuan.
Estratégia de longo prazo
O que tudo isso indica é que Rússia e China estão planejando cuidadosamente uma estratégia de longo prazo para sair da relação de dependência que as mantém ligadas à moeda dos EUA, algo que, como mostraram as sanções impostas à Rússia pelos EUA ano passado, torna os dois países vulneráveis ao impacto devastador das guerras de moedas que os EUA espalham pelo mundo.
A China acaba de ser aceita “em princípio” pelo Grupo dos 7 ministros de finanças, para ter seu Yuan chinês incluído na cesta de moedas que gozam de Special Drawing Rights (Direitos Especiais de Saque), que o FMI distribui entre seus membros. Hoje, só há nessa cesta o US$ (dólar), o € (euro) e o ¥ (yen) japonês. Incluir aí o Yuan será passo gigantesco para fazer da moeda chinesa mais uma moeda internacional de reserva; simultaneamente, enfraquece parte que corresponde ao dólar.
Desdolarização
As reservas estrangeiras chinesas consistem predominantemente de papéis em dólar norte-americano, principalmente bônus do Tesouro dos EUA – o que é uma fragilidade estratégica, porque em caso de guerra essas reservas podem ser congeladas – como o Irã já sabe muito bem. Para a China, é imperativo aumentar o conteúdo de ouro em suas reservas e diversificar o restante delas para outras moedas.
A China também acertou com a Rússia e o projeto russo da União Econômica Eurasiana a unificação da rede de ferrovias de alta velocidade da Nova Rota da Seda. Simultaneamente, Pequim anunciou que está criando fundo gigantesco, de $16 bilhões, para desenvolveu minas de ouro ao longo da ferrovia que liga Rússia, China e Ásia Central. Isso sugere planos para elevar fortemente a quantidade de ouro na composição das reservas chinesas. O banco central da China aumentou muito a quantidade de ouro em seu poder nos anos recentes, embora ainda não tenha divulgado se já ultrapassou as alegadas 8.000 toneladas de ouro que haveria no Federal Reserve. Espera-se que a China divulgue as dimensões de sua real reserva de ouro quando for formalmente aceita na cesta de moedas SDR-FMI, talvez adiante, ainda esse ano.
Ano passado, 2014, Song Xin, presidente da Associação Ouro China disse que:
Temos de criar nosso banco de ouro o mais rapidamente possível. (...) Ele nos ajudará a comprar reservas e dará mais peso à voz e aos controles da China no mercado de ouro.
Um fundo do setor ouro, que envolve países ao longo da Rota da Seda já foi criado no noroeste da China, na cidade de Xi’an, no mês de maio/2015, controlado pelo Bolsa de Ouro de Xangai [orig. Shanghai Gold Exchange (SGE)], parte do Banco do Povo da China [orig. PBOC]. A China é o maior produtor mundial de ouro. Dentre os 65 países ao longo das rotas do Cinturão Econômico da Rota da Seda, há inúmeros que se identificam como importantes bases de reserva e consumidores de ouro. Xinhua noticia que 60 países investiram naquele fundo, que facilitará o processo pelo qual os bancos centrais dos estados-membros poderão ampliar suas reservas de ouro.
O dólar e o rublo
O Dr. Diedrick Goedhuys, ex-conselheiro econômico do Reserve Bank da África do Sul, disse-me pessoalmente, numa entrevista:
Quero enfatizar a qualidade que só o ouro tem como ativo financeiro, de não implicar risco para ninguém. Um bônus do Tesouro, por exemplo, é ativo na minha mão, mas é risco, é passivo a ser resgatado, na contabilidade do Tesouro. O ouro, não. É exclusivamente ativo. O plano de mineração de ouro que o governo da China está executando é importantíssimo. É plano de longo prazo. Talvez ainda se passem dez anos antes de ele apresentar efeito significativo.
Agora, com Washington e Wall Street cada dia mais frustradas por não conseguirem derrubar o rublo e o renminbi, Rússia e China estão dando passos gigantes para livrar-se das cadeias do US$, movimento que pode libertar toda a humanidade, se completado corretamente.
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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pelaPrinceton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

quarta-feira, 11 de março de 2015

China completa o novo sistema SWIFT Alternativo, “Eixo da des-dolarização” pode ser lançado em setembro

9/3/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ele está propondo um brinde (toast) ao dólar ou disse que o dólar está torrado (toast)?
Uma das ameaças recorrentemente repetidas pelas nações do ocidente em sua guerra (cada dia menos fria) contra a Rússia, é que o regime de Putin pode ser paralisado se for desligado de todas as transações monetárias internacionais e serviços prestados pelo serviço de distribuição de mensagens-moeda e câmbio que tem base na União Europeia conhecido como SWIFT [1] (desligamento que, vale relembrar, a SWIFT lamentou, como se revelou em outubro, quando foi noticiado que a organização “lamenta a pressão” para desconectar a Rússia).

Claro, depois que se soube, revelado em 2013, que ninguém menos que a Agência de Segurança Nacional dos EUA “monitora” secretamente os fluxos de pagamento feitos pela SWIFT, já ninguém pode ter certeza de que “ser desligado” da SWIFT seria castigo ou prêmio. Seja como for, a Rússia não precisou de muitos avisos, e, como noticiamos há menos de um mês, o país já lançou sua própria “SWIFT-alternativa”, conectando, para começar, 91 instituições de crédito.

Essa notícia, por sua vez, sugeriu que a des-dolarização está muito mais avançada do que muitos esperavam, o que, combinado com a venda recorde, pela Rússia de TSYs, mostra o quanto Putin está levando a sério a ameaça de ser isolado do sistema ocidental de pagamentos. Seria perfeitamente lógico e esperável que, sem tardar, Putin apareceria com seu próprio sistema.

Há duas implicações bem claras desse uso do dinheiro como meio para fazer guerra clandestina:

(I) a menos que outros países acompanhem a saída da Rússia da SWIFT, a ação de criar mecanismo alternativo será honrada e valente, mas dará em nada; afinal, se todo o resto do mundo continuar a usar o sistema SWIFT como padrão, nenhum sistema alternativo que a Rússia invente para processar pagamentos estrangeiros terá qualquer importância; e
(II) se o exemplo da Rússia, de sair de um sistema mediado pelo ocidente para pagamentos internacionais for bem-sucedido e copiado, o movimento russo acelerará o esvaziamento do status do dólar como moeda de reserva – que o dólar é, por definição, porque não há outra moeda de reserva. Se aparecerem alternativas, todo o sistema de reserva começa a ruir.

Hoje já há provas de que a implicação (II) muito provavelmente prevalecerá, depois de matéria distribuída pela Reuters, de Pequim que dá notícia de que o sistema de pagamentos internacional da China, conhecido bem simplesmente como China International Payment System (CIPS), que processa transações em Yuan transfronteiras, está pronto e pode entrar em plena operação já em setembro ou outubro.

O Yuan como moeda de reserva
Segundo a Reuters, o lançamento do CIPS removerá uma das maiores barreiras à internacionalização do Yuan e deve aumentar muito o uso global da moeda chinesa, fazendo baixar os custos de transação e os tempos de processamento.

O sistema porá o Yuan em pés de melhor igualdade com outras grandes moedas globais como o dólar norte-americano, uma vez que a CIPS usará o mesmo formato de messaging de outros sistemas internacionais de pagamentos, tornando mais fáceis e rápidas as transações.

O CIPS, que será uma supertrilha mundial para pagamentos para o Yuan, substituirá a colcha de retalhos de redes hoje existente, que torna muito pesado e difícil o processamento de pagamentos com renminbi.

Em outras palavras: enquanto o ocidente usa cada provocação que envolva a guerra civil na Ucrânia como oportunidade para pressionar a Rússia a criar seu próprio sistema de pagamento transfronteiras, ele já conseguiu não só que a Rússia faça precisamente isso, mas, mais que isso, o ocidente também empurrou a China para que acelerasse o serviço de criar e implantar seu próprio sistema para pagamentos internacionais. Nesse processo, Rússia e China aproveitam para “avisar” ao planeta que o dólar norte-americano é substituível como moeda de reserva. Assim, dão a outros países (aos BRICS, por exemplo), luz verde para pensarem na SWIFT apenas como alternativa, depois dos sistemas de pagamento (a) russo e (b) chinês, coisa que, com o estímulo político e financeiro adequado, aqueles países gostarão muito, muito, de fazer).


Mas o mais perturbador é o quão rapidamente está chegando a mudança de regime operada pelos chineses:

Tudo saindo conforme o previsto, [o lançamento] acontecerá em setembro ou outubro. Se for preciso tempo um pouco mais longo, mesmo assim ainda esperamos que tudo estará em operação antes do final do ano”, disse a fonte, que pediu para não ser identificada porque não tem autorização para falar com a imprensa-empresa.

Esperava-se que o sistema tivesse sido lançado em 2014, mas o lançamento foi adiado por problemas técnicos, com muitos participantes do mercado já prevendo que não entraria em operação antes de 2016.

Desnecessário dizer o quanto a China gostará de ter seu próprio sistema unificado de pagamentos, o sistema que internacionalizará ainda mais o renminbi, moeda a qual, em novembro de 2014, já se convertera em uma das cinco principais moedas de pagamento, deslocando os dólares canadense e australiano, segundo dados da SWIFT.

Até agora, o câmbio transfronteira de Yuan tinha de ser feito ou num dos bancos “offshore” de compensação de Yuan em Hong Kong, Cingapura e Londres, ou com a ajuda de um banco intermediário em território da China.

“Com muita frequência ocorrem erros sob o atual sistema de compensações, por causa de diferenças de linguagens e de codificação. O CIPS é uma abertura importante, porque oferecerá plataforma comum e aumentará a eficiência”, disse Raymond Yeung, analista da ANZ em Hong Kong.

O lançamento do CIPS permitirá que empresas fora da China façam negócios em Yuan diretamente com seus contrapartes chineses, reduzindo o número de etapas pelos quais tinha de passar cada pagamento.

Também tornará muito mais difícil para a Agência de Segurança Nacional dos EUA “rastrear” pagamentos que entram e saem da China, do que hoje, quando se usam intermediários cheios de furos, como a SWIFT.

QUE ORELHAS GRANDES VOCÊ TEM!
Eis como o Mercator Institute for China Studies antecipou esse grande desenvolvimento:

O governo chinês caminha a passos largos para uma internacionalização controlada da moeda chinesa, mediante uma expansão passo a passo do uso do RMB no comércio internacional e investimento chineses. Para tal finalidade, foi construída uma rede mundial de acordos relacionados a swaps de moeda do Banco Central, câmbio direto do RMB com outras moedas e câmaras de compensação em RMB.

O estabelecimento de um sistema independente de pagamentos (CIPS) para transações em RMB e sistema alternativo ao existente, SWIFT, com certeza ampliará a autonomia da China em relação a estruturas do mercado financeiro centradas nos EUA.


Tabela de "Serviços ocidentais"que serão substituídos por Rússia/China/BRICS
(clique na imagem para aumentar)
Por fim, a maior facilidade nas transações em termos não-US$ acelerará a adoção do Yuan chinês como moeda primária do comércio global, ou do pouco que reste dele, oposta à moeda da engenharia financeira.

Os pagamentos em Yuan globais aumentaram 20,3% em valor, em dezembro, na comparação com o mesmo período do ano passado; e o crescimento para pagamentos em todas as demais moedas foi de 14,9% no mesmo período – informou a SWIFT.

China acelerou o passo da internacionalização do Yuan em anos recentes. O banco central credenciou 10 bancos para compensação oficial do Yuan ano passado, elevando o número total para 14 bancos, globalmente, que podem realizar transações em Yuan com a China.

A última observação a registrar aqui é que, se o objetivo planejado na brilhante operação urdida pelo governo Obama para expulsar a Rússia – e, por filiação geopolítica, também a China – para bem longe de um mecanismo de transação monetária que os EUA controlavam e supervisionavam; e para obrigar os dois mais fortes concorrentes que se opõem aos EUA na disputa pela hegemonia global a construírem, eles mesmos, o seu (deles!) próprio sistema de pagamentos... nesse caso... PARABÉNS! O “operação” deu certo!
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Nota dos tradutores
[1] Fundada em Bruxelas em 1973, a Sociedade para Telecomunicações Mundiais Interbancárias e Financeiras (Society for the Worldwide Interbank Financial Telecommunication – SWIFT) é uma organização cooperativa dedicada a promover o desenvolvimento de interatividade global padronizada para transações financeiras. Originalmente, a SWIFT tinha a seu cargo estabelecer um link de comunicações globais para processamento de dados e uma linguagem computacional comum para transações financeiras internacionais. A sociedade opera um serviço de messaging para mensagens financeiras, como cartas de crédito, pagamentos, transações protegidas, entre bancos membros em todo o mundo. A função essencial da SWIFT é distribuir essas mensagens de forma rápida e segura, duas exigências básicas em transações de natureza financeira. Organizações membros criam mensagens formatadas que são passadas adiante para a SWIFT para serem entregues à organização membro destinatária. A SWIFT opera em escritórios instalados em Bruxelas, e processa dados de centros de dados instalados na Bélgica e nos EUA.

Serviços prestados e clientes SWIFT

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[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Putin prefere a paz, por piores que sejam as condições

4/2/2015, [*] Israel Shamir, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Para Putin, a Ucrânia é importante, mas não é item sine qua non, não é o único problema do universo. Nisso, Putin e Obama até se parecem. Mas com uma grande diferença: os russos querem a Ucrânia em paz; os EUA querem o país em guerra.

The Saker
Em fevereiro ainda falta muito tempo até a primavera, lamentou o poeta Joseph Brodsky. De fato, ainda neva pesadamente em Moscou e em Kiev, e nas intermináveis estepes das terras das fronteiras russo-ucranianas, mas ali a neve está tinta de sangue. Soldados detestam combater no inverno, quando a vida já é tão difícil, naquelas latitudes, mas ainda há combates no Donbass devastado pela guerra, e os EUA preparam-se para escalar, fornecendo armamentos sofisticados ao governo de Kiev.

Cansados do sítio e dos bombardeios intermitentes, milicianos da resistência anti-Kiev esqueceram a neve e retomaram o aeroporto de Donetsk. Retomar esse aeroporto, com seus túneis do tempo de Stálin, símbolo do sólido trabalho de defesa dos soviéticos, foi enorme desafio para uma milícia subequipada. As edificações de vários pisos subterrâneos foram erguidas para suportar ataque nuclear; pois mesmo assim, depois de meses de luta, os milicianos da resistência anti-Kiev expulsaram o inimigo e retomaram o aeroporto.

Numa ofensiva ainda maior, os milicianos da resistência anti-Kiev cercaram as tropas de Kiev no bolsão de Debaltsevo, e Kiev já tenta um cessar-fogo. A resistência anti-Kiev ainda espera conseguir expulsar completamente o inimigo, de terras do Donbass; no momento, controlam apenas um terço do Donbass; mas o presidente russo só pensa em breques: prefere a pior paz, à melhor guerra.

Para Putin, a Ucrânia é importante, mas não é item sine qua non, não é o único problema do universo. Nisso, Putin e Obama até se parecem. Mas com uma grande diferença: os russos querem a Ucrânia em paz; os EUA querem o país em guerra.

Vladimir Putin
A Rússia preferiria ver a Ucrânia unida, federalizada, em paz e próspera. A alternativa de dividir o Donbass não é muito tentadora: o Donbass é muito fortemente ligado ao resto da Ucrânia, e não é fácil romper aqueles laços. A guerra já mandou embora do Donbass e da Ucrânia, para a Rússia, milhões de refugiados, o que já sobrecarrega os sistemas sociais russos. Putin simplesmente não pode dar as costas ao Donbass – nem o povo russo permitiria, ainda que ele tentasse. Homem cauteloso, Putin não quer envolver-se em guerra sem fim à vista. Assim sendo, ele tem de navegar na direção de algum tipo de paz.

Tive um encontro com fonte russa muito bem informada, de alto escalão, que partilhou comigo – e partilho aqui com vocês – alguns dos pensamentos “internos”, sob a condição de que seu nome não fosse divulgado.

Por mais que o ocidente tenha absoluta certeza de que Putin sonha com recriar a União Soviética, verdade é que o presidente russo fez e faz tudo que encontra ao seu alcance para salvar a Ucrânia da desintegração, disse minha fonte. Eis o que a Rússia, realmente, já fez para devolver a paz à Ucrânia:

●– a Rússia apoiou o acordo negociado pelo ocidente dia 21/2/2014, mas apesar de já haver o acordo, os EUA, no dia seguinte (22/2/2014), ordenaram o golpe ou “negociaram um mecanismo para uma transição de poder”, nas palavras de Obama;

Barack Obama
●– depois do golpe, o sudeste da Ucrânia não se submeteu ao novo regime de Kiev e rebelou-se. Moscou ainda chegou a pedir à resistência anti-Kiev no Donbass que não levasse adiante o referendo de maio (o referendo foi mantido, contra o apelo de Putin);

●– Moscou reconheceu os resultados de eleições fraudadas, em maio, realizadas pelo regime golpista de Kiev depois do golpe; e reconheceu Poroshenko como presidente de toda a Ucrânia – embora não tivesse havido eleição no sudeste do país e os partidos de oposição a Kiev estivessem proscritos.

●– Moscou não reconheceu os resultados das eleições de novembro no Donbass, para indignação de muitos nacionalistas russos.

Todos esses passos foram muito impopulares na sociedade russa, mas Putin insistiu neles para promover uma solução pacífica para a Ucrânia. Alguns líderes guerrilheiros no Donbass foram convencidos a retirar-se. Em vão: todos os movimentos de Putin foram ignorados pelos EUA e pela União Europeia, que encorajaram cada vez mais o “partido da guerra” em Kiev.

Para os EUA, Kiev sempre agia corretamente, fizessem o que fizessem. Com a federalização é possível a paz na Ucrânia, disse minha fonte

Eis porque dois dos mais importantes parâmetros dos acordos de Minsk (entre Kiev e Donetsk) foram itens dos quais ninguém antes ouvira falar: reformas constitucionais e reformas socioeconômicas. A Rússia quer assegurar a integridade territorial da Ucrânia (sem a Crimeia), mas essa integridade só pode ser alcançada mediante a federalização do país, com as regiões beneficiadas por considerável grau de autonomia. O oeste e o leste do país falam línguas diferentes, cultuam diferentes heróis, têm diferentes aspirações. Só podem ser mantidas juntas, se a Ucrânia for estado federal, como os EUA, a Suíça ou a Índia.

Putin cumprimenta Poroshenko diante
de euroburocratas em Minsk
Em Minsk, os lados concordaram em estabelecer uma comissão para as reformas constitucionais, mas o governo de Kiev renegou tudo. Em vez do que fora acordado, criaram uma pequena comissão no Parlamento, praticamente secreta. Tão pequena e tão secreta que o movimento foi condenado pela “Comissão Veneza”, um corpo que dá aconselhamento ao Parlamento Europeu, sobre questões constitucionais. O povo de Donetsk também não aceitou aquele arranjo, em tudo diferente do que fora estabelecido em Minsk.

Sobre integração, ficara decidido em Minsk que o Donbass seria reintegrado à Ucrânia. Foi grave desapontamento para o Donbass (que preferiria ser integrado à Rússia), mas aceitaram –, e foi quando Kiev tentou sitiar o Donbass, fechou bancos, parou de comprar carvão do Donbass, deixou de pagar aposentadorias e pensões. As tropas de Kiev passaram a bombardear diariamente a cidade de Donetsk, de um milhão de habitantes (em tempos de paz). Em vez da anistia para os rebeldes da resistência anti-Kiev, como ficara decidido em Minsk, o que se viu foram mais e mais soldados de Kiev deslocados para o leste.

Os russos não desistiram dos acordos de Minsk. Aqueles acordos podem trazer paz, mas, para isso, têm de ser aplicados. É possível que o presidente Poroshenko de Kiev se interessasse por aplicá-los, mas o partido da guerra em Kiev, que é telecomandado pelo ocidente, derrubaria o governo de Poroshenko se visse nele qualquer sinal de interesse pela paz. Paradoxalmente, o único meio para obrigá-lo a fazer a paz, é a guerra. E a Rússia muito apreciaria ver o ocidente pressionando os governos-clientes em Kiev.

A resistência anti-Kiev e seus apoiadores russos usaram a guerra para forçar o ocidente a assinar os acordos de Minsk: a ofensiva dos rebeldes em Mariupol no Mar Negro foi muitíssimo bem-sucedida; e Poroshenko preferiu ir a Minsk, para manter Mariupol. Depois daquilo, Kiev e Donetsk tiveram uns poucos cessar-fogo, trocaram prisioneiros de guerra, mas Kiev recusa-se a implantar as demandas constitucionais e socioeconômicas do acordo de Minsk.

Não há sentido algum no cessar-fogo, se Kiev o usa para se reorganizar e atacar novamente. O cessar-fogo teria de levar a uma reforma constitucional, diz minha fonte; a uma reforma negociada em diálogo aberto e transparente entre as regiões e Kiev. Sem uma reforma, o Donbass (também chamado Novorrússia) irá à guerra. Assim sendo, a operação Debaltsevo pode ser considerada um meio para forçar Poroshenko a render-se à paz.

Forças da Junta de Kiev em azul
Forças da Novorrússia em vermelho

(clique na imagem para visualizar)
Segundo minha fonte, a Rússia não pretende envolver-se nem na guerra nem em negociações de paz. Os russos fazem absoluta questão de manterem-se à distância – enquanto os EUA fazem a mesma absoluta questão de apresentar a Rússia como “o outro lado” do conflito.

Simultaneamente, as relações russo-norte-americanas foram empurradas 40 anos para trás, de volta à emenda Jackson-Vanik de 1974, pela lei “Liberdade para a Ucrânia” [“Support Act” de 2014]. O Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, considerou essa lei um desenvolvimento infeliz, mas apenas temporário. Os russos não partilham desse otimismo: para ele, aquela lei deu legalidade às sanções anti-Rússia.

Os EUA tentam envolver outros estados na sua guerra contra a Rússia, com algum sucesso. Efeito de uma dessas ações de “sedução”, a chancelerina alemã Kanzlerin Angela Merkel eliminou todas as organizações, estruturas e laços construídos ao longo de vários anos, entre Alemanha e Rússia. Cada visita de Joe Biden provoca mais uma conflagração.

Os russos continuam muito gravemente incomodados com a história do ataque que derrubou o Boeing da Malaysia Airlines. Em todas as reuniões de alto nível com norte-americanos, os russos falam do surto histérico de acusações de que o avião teria sido derrubado pela resistência anti-Kiev usando mísseis russos. Já se passaram seis meses da tragédia, mas os EUA não apresentam uma única prova de qualquer envolvimento russo ou da resistência anti-Kiev. Não mostram fotos de seus satélites, nem gravações feitas nos seus sistemas de vigilância aérea que cobre toda a Europa Oriental. Minha fonte disse que os funcionários norte-americanos de mais alto escalão já não insistem na versão de “ataque russo”, mas arrogantemente se recusam a apresentar pedido formal de desculpas pelas acusações anteriores completamente sem qualquer fundamento. Pessoalmente, repetem “sorry”, “sorry”.

Cabine do MH17 da Malaysian Airlines metralhada pela Força Aérea da Junta de Kiev
Mesmo assim, os EUA não querem deixar a bola parar. Insistem que não se interessam por uma “rendição” russa, que qualquer confronto lhes parece inoportuno e caro demais, mas os EUA querem que a Rússia os apoie na negociação sobre o programa nuclear iraniano; sobre o destino final do arsenal químico sírio, no problema da Palestina. Os russos respondem que já ouviram essa conversa, idêntica, durante todo o ataque à Líbia (quando os EUA mentiram e os engambelaram). E que absolutamente não acreditam em nada que os norte-americanos digam.

Há diferenças importantes de opinião entre Rússia e EUA em praticamente todos os campos. Há um traço comum a todas as questões: da Síria ao Donbass, os russos do presidente Putin trabalham a favor da paz.

No momento, os russos convidaram figuras da oposição síria e representantes do governo sírio para conversações em Moscou. Vieram, conversaram, partiram, e voltarão a encontrar-se. Podem até encontrar uma via de acordo e paz... mas os norte-americanos dizem que não, de modo algum, que ninguém jamais se reconciliará com a presidência de Bashar al-Assad, e que lutarão até a última gota de sangue sírio para derrubá-lo do poder.

Não é que os norte-americanos sejam animais viciados em sangue humano; é que a guerra faz sentido para eles. Cada guerra no planeta dá suporte ao dólar norte-americano e revigora o índice Dow Jones, porque o capital procura paraíso seguro e o encontra [ainda] nos EUA.

Desdolarização
Os norte-americanos nem pensam no destino dos sírios que fugiram para a Jordânia – ou dos ucranianos que fogem para a Rússia em números sempre crescente. Que vergonha para os EUA!

A Síria era país pacífico e próspero, o diamante do Oriente Médio, até ser arruinado pelos islamistas sustentados pelos norte-americanos. A Ucrânia foi a parte mais rica da URSS, até ser arruinada pela extrema direita neonazista e pelos oligarcas apoiados pelos norte-americanos.

Joseph Brodsky anteviu amargamente, em 1994, quando a Ucrânia declarou-se independente da Rússia, que os ucranianos desentendidos ainda declamariam versos da poesia russa, até no leito de morte. A profecia está bem perto de se cumprir.

[*] Israel Shamir é um escritor, jornalista e antissionista. De origem russo-judaica, ele nasceu em Novosibirsk, na Sibéria, emigrou para Israel em 1969. Lá, trabalhou como jornalista e tradutor. Seus artigos sobre a ocupação da Terra Santa pelo sionismo estão reunidos em um sítio eletrônico e em três livros: Galilee Flowers, Cabbala of  Power e Masters of  Discourse, também disponíveis em francês, espanhol, italiano, alemão e russo. Em 2004, envergonhado pelo domínio do sionismo, abandonou o judaísmo e abraçou a fé cristã ortodoxa, sendo batizado na Igreja Ortodoxa de Jerusalém e Terra Santa pelo arcebispo Theodosius Attalla Hanna. Shamir vive atualmente em Jaffa e viaja frequentemente a Moscou e Estocolmo.