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domingo, 29 de março de 2015

Deputados dos EUA aprovam armar a Ucrânia por 348-48 votos , RÚSSIA avisa que “ajuda letal fará explodir tudo”

25/3/2015, [*] Tyler DurdenZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Câmara dos Representantes dos EUA
Ontem (24/3/2015), em votação que escapou por baixo do radar, a Câmara de Representantes dos EUA aprovou resolução em que exige que Obama envie ajuda letal à Ucrânia, fornecendo armamento ofensivo, não exclusivamente “defensivo” ao exército ucraniano – a mesma Ucrânia insolvente, em crise de hiperinflação e que, com nível de confiabilidade zero para crédito (padrão Caa3/CC), iniciou preparativos, na semana passada, para emitir bônus da dívida soberana com os EUA como seus avalistas – o que equivale a algo como os EUA terem comprado a Ucrânia. Os EUA também compraram o Egito, quando era governado por regime da Fraternidade Muçulmana, fantoche dos EUA, antes de o citado regime e fantoche ser deposto por golpe do exército local.

A resolução foi aprovada com apoio dos dois partidos, por 348 a 48 votos.

Segundo DW, a medida exige que Obama forneça “sistemas letais de armas defensivas” que capacitarão a Ucrânia a defender seu território contra “a agressão não provocada e continuada da Federação Russa”.

Políticas dessa ordem não devem ser de um só partido, disse o deputado Democrata Eliot Engel, principal propositor da resolução. Por isso todos nos erguemos hoje, Democratas e Republicanos, de fato, como americanos, para dizer que quando basta, basta, na Ucrânia.

Engel, Democrata de New York, resolveu que sabe mais que toda a Europa qual a melhor opção para o povo ucraniano. Que a Europa e, especialmente, que sabe mais que a Alemanha, que não se cansa de repetir que rejeita qualquer movimento para fornecer armas ocidentais ao exército ucraniano. Engel alertou que a Rússia, no governo do presidente Putin, converteu-se

(...) numa clara ameaça a meio século de envolvimento dos EUA num investimento numa Europa una, livre e em paz. Uma Europa na qual as fronteiras não sejam modificadas à força.

E prosseguiu:

A guerra na Ucrânia já fez milhares de mortos, dezenas de milhares de feridos, um milhão de desabrigados e já começou a ameaçar a estabilidade europeia de depois da Guerra Fria.

Muito estranho! Talvez o Departamento de Estado dos EUA devessem ter pensado melhor, então, há um ano, quando Victoria Nuland conspirava em busca do meio mais rápido e efetivo para pôr no poder em Kiev o seu amigo-fantoche “Yats” e derrubar o presidente eleito, num golpe integralmente patrocinado pelos EUA.

Vale a pena dar uma olhada nos “doadores patrocinadores da carreira política” do Republicano Engel, porque ali se encontra alguma explicação para a tenacidade com que se empenha em iniciar mais um conflito armado e em escalar o que o próprio Engel define como uma guerra fria dentro de uma guerra morna.

Eliot Engel - doadores de campanha
Assim sendo, o que fará Obama? Vale relembrar que o presidente tem dado sinais de preferir amplamente cair fora dessa, e deixar que a Europa assuma a dianteira no quesito se e quando escalar a guerra civil por procuração que os EUA combatem na Ucrânia. A verdade é que a resolução aprovada pelos Representantes põe ainda mais pressão sobre o governo Obama, que tem dito repetidas vezes que considerava a possibilidade de enviar ajuda letal (sic) à Ucrânia. Mas Obama até agora ainda não se atreveu a puxar o gatilho.

Há vários meses, o comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas dos EUA, general Martin Dempsey, disse que “consideramos, sim, absolutamente” fornecer “ajuda letal”, sentimentos que foram logo ecoados pelo Secretário de Defesa, Ashton Carter, que disse que ele também estava “inclinado” na mesma direção.

As opções de Obama podem ser ainda mais limitadas, depois que o principal comandante militar da OTAN, general Philip Breedlove, disse no domingo que o ocidente deve “considerar todas as nossas armas” para ajudar a Ucrânia, inclusive enviar armas defensivas para áreas ocupadas por rebeldes pró-Rússia.

Por enquanto o presidente está adiando qualquer decisão, porque, segundo o Departamento de Estado, a Casa Branca espera para ver se funcionará o cessar-fogo decidido no Acordo Minsk-2, antes de decidir se enviará ajuda letal.

Ironicamente, o maior obstáculo à imediata declaração de uma Guerra Mundial III pode ser a própria Hillary Clinton em pessoa. Revelou-se recentemente que a ex-Secretária de Estado – atualmente envolvida num escândalo de e-mails que ela ocultou aos próprios órgãos de controle do governo dos EUA – recebeu doações muito generosas para a Fundação dos Clintons: as mais generosas das quais lhe vieram precisamente... da Ucrânia!

Doadores estrangeiros para Fundação Clinton
Considerando as notícias da semana passada de uma perigosa guerra fria que ruge entre a mulher que é o braço direito de Obama, Valerie Jarrett, e os Clintons, é talvez muito provável que Obama, cuja política externa é perfeito e abismal fracasso, e cujas “realizações” no além-mar só podem ser descritas como completo desastre, não tenha vontade alguma de envolver-se na Ucrânia. Não tanto, provavelmente, para evitar que a guerra fria com a Rússia vire quente, mas, muito mais, para manter um elemento de pressão e chantagem contra Hillary, no momento que ela desafia a favorita de Obama, a populista Elizabeth Warren.

Assim se vê mais uma vez que, no que tenha a ver com política externa, o presidente dos EUA não passa de figurante, e quem realmente toma todas as decisões é o complexo militar-industrial. Assim sendo, embora Obama possa adiar um pouco o envio de armas, ele acabará por receber tapinhas nas costas, que lhe dará a doce e gentil tribo cujos nomes se leem na tabela abaixo, que com certeza logo exigirá ação em troca dos milhões com que enriquecem os lobbies e as campanhas eleitorais

Doadores do complexo industrial militar
Claro que o passo seguinte a ser “noticiado” já está redigido:

(...) mandar armas para o governo de Kiev não significará qualquer envolvimento dos EUA numa nova guerra – já disse o supracitado Eliot Engel, que apresentou o projeto de resolução já aprovado. O povo ucraniano não quer saber de soldados norte-americanos – disse Engel. – Só querem as armas.

Lindo. E se a Ucrânia só quer armas, o complexo industrial norte-americano só quer vendê-las!

Assim sendo, a única questão é como a Rússia responderá a essa escalada: segundo RT,

(...) a decisão de Washington de fornecer munição e armas fará “explodir tudo, no leste da Ucrânia” e a Rússia será forçada a responder “apropriadamente” – disse o Vice-Ministro de Relações Exteriores, Sergey Ryabkov, nos últimos dias de fevereiro.

Seria o maior golpe contra os acordos de Minsk e faria explodir tudo – segundo a agência TASS, citando Ryabkov.

Em outras palavras, esqueçam ações e bônus – pensem só nos pacotes monetários que o Banco Central lançará de paraquedas sobre algumas cabeças, só por causa dessa Guerra Mundial III.
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[*] Tyler Durden é o apelido de numerosos blogueiros que comentam no Zero Hedge. O nome foi copiado de personagem do romance de Chuck Palahniuk (depois filme) Fight Club (Clube de Luta).

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Hollande e Merkel rumo a Moscou, mas são ralas as possibilidades de paz

6/2/2015,  [*] Alexander MercourisRussia Insider  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Hollande (E) e Merkel indo para Moscou
Notícias de que Hollande e Merkel estão viajando para Moscou confirmam o que já sugerimos aqui – que está em curso uma vasta iniciativa diplomática para pôr fim ao conflito ucraniano.

A iniciativa, bem visivelmente, foi provocada pela evidência sempre crescente de que Kiev aproxima-se do ponto de derrota total, sem retorno.

A situação econômica da Ucrânia está em queda livre. O nível sempre decrescente das reservas em moeda estrangeira no Banco Central forçou a Ucrânia a deixar flutuar livremente a própria moda, a hryvnia, a qual, por consequência, perdeu quase um terço do valor em apenas um dia.

O colapso da hryvnia implica problemas muito maiores para a Ucrânia, que a desvalorização do rublo para a Rússia.

Diferente da Rússia, a Ucrânia já praticamente consumiu suas reservas em moeda estrangeira, que caíram tão baixo que o país só conseguirá cobrir os custos de importações durante apenas poucas semanas.

Diferente da Rússia, a Ucrânia está pesadamente endividada e sem dinheiro para cobrir as próprias dívidas ou garantir cobertura aos próprios bancos. O colapso da hryvnia tornará praticamente impossível pagar aquelas dívidas.

A hryvnia (moeda da Ucrânia) em queda total
Dado que o FMI já está ameaçando cortar financiamentos, e dado que fontes alternativas de financiamento, de estados ocidentais, não cumpriram o que prometeram, a possibilidade do calote e de total colapso da moeda e do sistema de bancos ucranianos vai-se tornando muito real.

A coisa já chegou a tal ponto, que o pouco que a economia ucraniana está ainda funcionando só o faz graças ao gás, ao carvão e à eletricidade que a Rússia fornece à Ucrânia.

Com a economia em desintegração, a situação militar é mais crítica a cada dia. Já se sabe que é completamente falso o discurso dos falastrões, ao longo das últimas semanas, sobre como os militares de Kiev ter-se-iam recuperado dos desastres do verão.

O aeroporto de Donetsk foi retomado pelas forças do Donbass, e Kiev sofreu ali duras perdas. E o caldeirão do Debaltsevo já foi completado, está selado e milhares de soldados estão sitiados.

Enquanto isso, a tentativa para reverter a situação militar cada dia mais catastrófica, mediante um surge de recrutamento, com convocação dos reservistas, só fez disparar uma onda de protestos e oposição, com fuga em massa de pessoas para Romênia, Polônia e, sobretudo, para a Rússia, para fugir do alistamento militar.

Que alguns dos políticos ocidentais que mais investiram o próprio capital político no golpe de estado de Kiev ponham-se agora a tentar obter algum refresco, nem chega a surpreender.

Depois que falhou a tentativa de fragilizar a Rússia com sanções, para que desistisse do apoio aos resistentes no Donbass, aqueles políticos ficaram sem qualquer alternativa realista, exceto tentar conversar com a Rússia. É a razão pela qual Merkel e Hollande estão voando para lá.

Merkel e Hollande tentam acordo com Putin (C)
Hollande já esteve antes em Moscou, na viagem de volta de uma reunião no Cazaquistão. Ao visitar a Rússia, Hollande quebrou o pacto informal firmado entre os líderes ocidentais, de que nenhum deles pisaria em solo russo enquanto durasse o conflito na Ucrânia; naquele momento, Hollande foi criticado pela “traição”. Que, agora, Merkel também já esteja correndo na mesma direção mostra o quanto a situação já é desesperadora para o “ocidente”.

Discute-se ainda sobre qual é a real posição dos EUA. Alguns veículos da empresa-imprensa nos EUA dizem que o governo Obama considera o envio de armas para a Ucrânia, o que, para alguns “analistas” indicaria movimento de oposição à paz, no governo dos EUA.

Esse noticiário espalhou o pânico na Europa. Todos os principais governos europeus (britânico, francês, alemão, húngaro, finlandês e da República Tcheca) já se manifestaram publicamente contra a ideia de enviar armas à Ucrânia, o que implicaria perigosa escalada, sem qualquer chance de modificar o curso da guerra.

Não há dúvidas de que há gente, dentro do governo dos EUA, que permanece fortemente comprometida na aventura ucraniana, e pressionando para que o país forneça armas à Ucrânia. E a mesma ideia vem ganhando adeptos no Congresso.

Contudo, como já discutimos (aqui e aqui), há cada vez mais evidências de que outros funcionários dos EUA estão cada dia mais preocupados com o perigo de os EUA estarem cavando, na Ucrânia, a própria cova. Por hora, essa “ala” dentro do governo ainda é dominante. 

Assim sendo, os relatos sobre discussões em torno do fornecimento de armas, embora sem dúvida reflita um debate em curso dentro do governo dos EUA, pode estar sendo inflado também para dar algum alavancagem diplomática aos EUA sobre Moscou – num contexto no qual parece mais evidente, a cada dia, que os EUA não têm ponto algum no qual apoiar sua alavanca contra a Rússia.

Poroshenko e Kerry em Kiev (4/2/2015)
O que sugere que essa pode ter ser a situação real é que o secretário Kerry, em sua visita a Kiev, nada disse sobre fornecimento de armas. Em vez disso, apareceu só com quantias irrisórias de ajuda financeira (e mesmo elas, pesadamente condicionadas), disse vagas palavras de apoio e fez questão de relembrar a Poroshenko o compromisso que Kiev assumiu, pelo Protocolo de Minsk, de garantir status especial às regiões rebeldes do Donbass.

Tudo isso sugere que Merkel e Hollande acertaram posições com os EUA, e que a “iniciativa de paz” tem, pelo menos até o momento, o apoio dos EUA, mesmo que, por motivos de política doméstica, o governo de Obama tenha de se contentar com a poltrona traseira.

Devo dizer que, apesar do noticiário francês, segundo o qual Washington não foi consultada sobre a decisão tomada por Merkel e Hollande de viajar a Moscou, eu, pessoalmente, duvido muito que Merkel e Hollande viajariam a Moscou, empenhados em iniciativa de paz, se soubessem que os EUA se opusessem à ideia.

Mas fato é que ainda se líderes ocidentais estiverem agora genuinamente em busca de paz, nada disso significa que alcancem qualquer paz. A paz depende de pelo menos dois fatores:

(1) dos termos em que a paz seja proposta; e
(2) se os negociadores se acertarem sobre os termos, a paz depende também do empenho que o ocidente esteja disposto a investir para obrigar Kiev a aceitar algum acordo.

Não se conhecem os termos que Merkel e Hollande estão levando a Moscou. E tudo que se sabe, até agora, é bem pouco estimulante.

Tudo faz crer que o objetivo da dupla não é tanto obter acordo duradouro que ponha fim ao conflito ucraniano; parecem mais interessados em apenas “congelar” o conflito, de modo que consigam salvar seu “protegido” ucraniano, do desastre certo que o aguarda por lá.


Putin e Poroshenko em Minsk (5/9/2014)
Aparentemente, tentarão fazê-lo mediante o ressuscitamento do engripado processo de Minsk, e retomando a ideia da federalização que os russos propuseram na primavera passada. Hollande também sugeriu que estariam dispostos a oferecer aos russos algum tipo de promessa de que a Ucrânia não será integrada à OTAN.

Falta verificar se as “propostas” chegam perto pelo menos, de satisfazer sejam os russos, seja o governo de Kiev.

Primeiro, há ponto de interrogação gigante sobre se a resistência armada ou a população do Donbass têm qualquer interesse em aceitar algum federalismo com Kiev, por mais frouxa que seja a estrutura confederal. Depois de tudo que aconteceu, o máximo de “confederação” que talvez interesse à resistência e ao povo do Donbass seria alguma coisa como um “prefácio” antes da total independência. Assim, é possível que a resistência e o povo do Donbass absolutamente não se interessem pela federalização que Merkel e Hollande têm em mente.

Essa questão pode talvez ser deixada de lado, até que comecem conversações e negociações constitucionais. Nenhum outro problema é mais urgente que algum acordo para um cessar-fogo eficaz e aplicável ao longo de alguma linha de fronteira a ser demarcada conjuntamente pelos dois lados. De fato, não faltam problemas gravíssimos.

Há notícias que sugerem que Merkel e Hollande querem voltar à linha de fronteira que a resistência e Kiev definiram em Minsk, dia 19/9/2014. Mas a resistência já mudou de posição quanto a isso: insistem que os territórios que conquistaram na ofensiva ainda em curso devem permanecer como territórios seus. Até agora, os russos continuam a dar-lhes total apoio nessa reivindicação.

Alexander Zakharshenko, comandante de Donetsk
Comandantes da resistência anti-Kiev vão ainda mais longe e dizem que, como limite mínimo aceitável, devem-se adotar as fronteiras administrativas das regiões de Donetsk e Lugansk. Implica que cidades como Slavyansk, Kramatorsk e Mariupol devem ser “devolvidas” à resistência. Outros milicianos anti-Kiev vão ainda mais longe. Circula já um mapa em que se demarcam novas fronteiras que acompanham as fronteiras da república [soviética] Donetsk-Krivoy Rog, de 1918, que se estendia para além de Kherson, bem mais para o oeste.

Se chegar a algum acordo preliminar para pôr fim aos combates já é empreitada dificílima, fazer valer qualquer acordo é ainda muito mais difícil.

Os russos mostraram já, antes, que estão preparados para pressionar a resistência no Donbass e fazê-los conceder, assumir compromissos e cumpri-los.

O principal, o maior obstáculo à paz na Ucrânia é, desde o primeiro dia da crise na Praça Maidan, em novembro de 2013, que as potências ocidentais falharam em todas as tentativas para “disciplinar” os seus próprios vassalos armados na Praça Maidan, mesmo quando os vassalos juraram obedecer.

Resultado disso é que todos os acordos sempre fracassaram, porque os cabeças do movimento Maidan sistematicamente ignoram acordos. Esse padrão fixou-se antes do golpe e não se alterou até hoje.

Se o ocidente não tem meios para forçar Kiev a obedecer ao que fixem quaisquer acordos, já se pode ter certeza, considerado o que sempre aconteceu, que todos e quaisquer acordos continuarão a fracassar.

Por que os EUA pagam pelo apoio de elementos NEONAZIS na Ucrânia?
O “movimento” Maidan continuará, como até aqui, a servir-se dos “acordos” para ganhar algum tempo para reorganizar-se e preparar o próximo ataque. Foi precisamente o que aconteceu em todos os “acordos” que Yanukovich fez com os líderes do “movimento” Maidan antes do golpe, inclusive no acordo chave de 21/2/2014, da véspera do golpe. Foi o que aconteceu no cessar-fogo firmado em maio passado (5/2014). Foi o que aconteceu também no cessar-fogo assinado dia 5/9/2014 em Minsk.

Considerados os repetidos e consistentes fracassos das potências ocidentais nos esforços para obrigar Kiev a respeitar os compromissos que assume, é difícil crer que os russos ainda acreditem em promessas ou em “garantias” que governos ocidentais lhes deem de que, no futuro, tudo será diferente.

E assim sendo, é difícil acreditar que algum acordo duradouro ainda seja possível. Queiram os líderes ocidentais aceitar os fatos, ou mesmo que não aceitem, o comportamento deles no passado implica que já praticamente não podem esperar da boa-vontade e da confiança dos russos – e a causa disso não está em Moscou.

O fato de que Merkel e Hollande estão voando rumo a Moscou é sinal de o quanto a situação da Ucrânia tornou-se crítica. Absolutamente não é sinal de que o fim do conflito esteja próximo.

Os obstáculos são imensos, no caminho até a paz. O mais provável é que o que quer que venha a acontecer seja resultado de guerra. Seja o que for, não será decidido por concessões que líderes ocidentais estejam preparados para fazer. No momento, simplesmente não há sinais promissores.


[*] Alexander Mercouris, ex político grego, especialista em Direito Internacional e Relações Internacionais. Articulista mundialmente reconhecido com especial interesse em leis, principalmente na legislação da Rússia e analista dos aspectos legais da espionagem da NSA − National Security Agency e sobre os eventos na Ucrânia, em termos de Direitos Humanos e a inconstitucionalidade do Golpe de Estado ucraniano. Trabalhou por 12 anos nas Royal Courts of Justice, em Londres, como advogado. Sua família tem se destacado na política grega por várias gerações. Atua frequentemente como comentarista de TV e conferencista em várias universidades pelo mundo. Reside em Londres.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Putin prefere a paz, por piores que sejam as condições

4/2/2015, [*] Israel Shamir, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Para Putin, a Ucrânia é importante, mas não é item sine qua non, não é o único problema do universo. Nisso, Putin e Obama até se parecem. Mas com uma grande diferença: os russos querem a Ucrânia em paz; os EUA querem o país em guerra.

The Saker
Em fevereiro ainda falta muito tempo até a primavera, lamentou o poeta Joseph Brodsky. De fato, ainda neva pesadamente em Moscou e em Kiev, e nas intermináveis estepes das terras das fronteiras russo-ucranianas, mas ali a neve está tinta de sangue. Soldados detestam combater no inverno, quando a vida já é tão difícil, naquelas latitudes, mas ainda há combates no Donbass devastado pela guerra, e os EUA preparam-se para escalar, fornecendo armamentos sofisticados ao governo de Kiev.

Cansados do sítio e dos bombardeios intermitentes, milicianos da resistência anti-Kiev esqueceram a neve e retomaram o aeroporto de Donetsk. Retomar esse aeroporto, com seus túneis do tempo de Stálin, símbolo do sólido trabalho de defesa dos soviéticos, foi enorme desafio para uma milícia subequipada. As edificações de vários pisos subterrâneos foram erguidas para suportar ataque nuclear; pois mesmo assim, depois de meses de luta, os milicianos da resistência anti-Kiev expulsaram o inimigo e retomaram o aeroporto.

Numa ofensiva ainda maior, os milicianos da resistência anti-Kiev cercaram as tropas de Kiev no bolsão de Debaltsevo, e Kiev já tenta um cessar-fogo. A resistência anti-Kiev ainda espera conseguir expulsar completamente o inimigo, de terras do Donbass; no momento, controlam apenas um terço do Donbass; mas o presidente russo só pensa em breques: prefere a pior paz, à melhor guerra.

Para Putin, a Ucrânia é importante, mas não é item sine qua non, não é o único problema do universo. Nisso, Putin e Obama até se parecem. Mas com uma grande diferença: os russos querem a Ucrânia em paz; os EUA querem o país em guerra.

Vladimir Putin
A Rússia preferiria ver a Ucrânia unida, federalizada, em paz e próspera. A alternativa de dividir o Donbass não é muito tentadora: o Donbass é muito fortemente ligado ao resto da Ucrânia, e não é fácil romper aqueles laços. A guerra já mandou embora do Donbass e da Ucrânia, para a Rússia, milhões de refugiados, o que já sobrecarrega os sistemas sociais russos. Putin simplesmente não pode dar as costas ao Donbass – nem o povo russo permitiria, ainda que ele tentasse. Homem cauteloso, Putin não quer envolver-se em guerra sem fim à vista. Assim sendo, ele tem de navegar na direção de algum tipo de paz.

Tive um encontro com fonte russa muito bem informada, de alto escalão, que partilhou comigo – e partilho aqui com vocês – alguns dos pensamentos “internos”, sob a condição de que seu nome não fosse divulgado.

Por mais que o ocidente tenha absoluta certeza de que Putin sonha com recriar a União Soviética, verdade é que o presidente russo fez e faz tudo que encontra ao seu alcance para salvar a Ucrânia da desintegração, disse minha fonte. Eis o que a Rússia, realmente, já fez para devolver a paz à Ucrânia:

●– a Rússia apoiou o acordo negociado pelo ocidente dia 21/2/2014, mas apesar de já haver o acordo, os EUA, no dia seguinte (22/2/2014), ordenaram o golpe ou “negociaram um mecanismo para uma transição de poder”, nas palavras de Obama;

Barack Obama
●– depois do golpe, o sudeste da Ucrânia não se submeteu ao novo regime de Kiev e rebelou-se. Moscou ainda chegou a pedir à resistência anti-Kiev no Donbass que não levasse adiante o referendo de maio (o referendo foi mantido, contra o apelo de Putin);

●– Moscou reconheceu os resultados de eleições fraudadas, em maio, realizadas pelo regime golpista de Kiev depois do golpe; e reconheceu Poroshenko como presidente de toda a Ucrânia – embora não tivesse havido eleição no sudeste do país e os partidos de oposição a Kiev estivessem proscritos.

●– Moscou não reconheceu os resultados das eleições de novembro no Donbass, para indignação de muitos nacionalistas russos.

Todos esses passos foram muito impopulares na sociedade russa, mas Putin insistiu neles para promover uma solução pacífica para a Ucrânia. Alguns líderes guerrilheiros no Donbass foram convencidos a retirar-se. Em vão: todos os movimentos de Putin foram ignorados pelos EUA e pela União Europeia, que encorajaram cada vez mais o “partido da guerra” em Kiev.

Para os EUA, Kiev sempre agia corretamente, fizessem o que fizessem. Com a federalização é possível a paz na Ucrânia, disse minha fonte

Eis porque dois dos mais importantes parâmetros dos acordos de Minsk (entre Kiev e Donetsk) foram itens dos quais ninguém antes ouvira falar: reformas constitucionais e reformas socioeconômicas. A Rússia quer assegurar a integridade territorial da Ucrânia (sem a Crimeia), mas essa integridade só pode ser alcançada mediante a federalização do país, com as regiões beneficiadas por considerável grau de autonomia. O oeste e o leste do país falam línguas diferentes, cultuam diferentes heróis, têm diferentes aspirações. Só podem ser mantidas juntas, se a Ucrânia for estado federal, como os EUA, a Suíça ou a Índia.

Putin cumprimenta Poroshenko diante
de euroburocratas em Minsk
Em Minsk, os lados concordaram em estabelecer uma comissão para as reformas constitucionais, mas o governo de Kiev renegou tudo. Em vez do que fora acordado, criaram uma pequena comissão no Parlamento, praticamente secreta. Tão pequena e tão secreta que o movimento foi condenado pela “Comissão Veneza”, um corpo que dá aconselhamento ao Parlamento Europeu, sobre questões constitucionais. O povo de Donetsk também não aceitou aquele arranjo, em tudo diferente do que fora estabelecido em Minsk.

Sobre integração, ficara decidido em Minsk que o Donbass seria reintegrado à Ucrânia. Foi grave desapontamento para o Donbass (que preferiria ser integrado à Rússia), mas aceitaram –, e foi quando Kiev tentou sitiar o Donbass, fechou bancos, parou de comprar carvão do Donbass, deixou de pagar aposentadorias e pensões. As tropas de Kiev passaram a bombardear diariamente a cidade de Donetsk, de um milhão de habitantes (em tempos de paz). Em vez da anistia para os rebeldes da resistência anti-Kiev, como ficara decidido em Minsk, o que se viu foram mais e mais soldados de Kiev deslocados para o leste.

Os russos não desistiram dos acordos de Minsk. Aqueles acordos podem trazer paz, mas, para isso, têm de ser aplicados. É possível que o presidente Poroshenko de Kiev se interessasse por aplicá-los, mas o partido da guerra em Kiev, que é telecomandado pelo ocidente, derrubaria o governo de Poroshenko se visse nele qualquer sinal de interesse pela paz. Paradoxalmente, o único meio para obrigá-lo a fazer a paz, é a guerra. E a Rússia muito apreciaria ver o ocidente pressionando os governos-clientes em Kiev.

A resistência anti-Kiev e seus apoiadores russos usaram a guerra para forçar o ocidente a assinar os acordos de Minsk: a ofensiva dos rebeldes em Mariupol no Mar Negro foi muitíssimo bem-sucedida; e Poroshenko preferiu ir a Minsk, para manter Mariupol. Depois daquilo, Kiev e Donetsk tiveram uns poucos cessar-fogo, trocaram prisioneiros de guerra, mas Kiev recusa-se a implantar as demandas constitucionais e socioeconômicas do acordo de Minsk.

Não há sentido algum no cessar-fogo, se Kiev o usa para se reorganizar e atacar novamente. O cessar-fogo teria de levar a uma reforma constitucional, diz minha fonte; a uma reforma negociada em diálogo aberto e transparente entre as regiões e Kiev. Sem uma reforma, o Donbass (também chamado Novorrússia) irá à guerra. Assim sendo, a operação Debaltsevo pode ser considerada um meio para forçar Poroshenko a render-se à paz.

Forças da Junta de Kiev em azul
Forças da Novorrússia em vermelho

(clique na imagem para visualizar)
Segundo minha fonte, a Rússia não pretende envolver-se nem na guerra nem em negociações de paz. Os russos fazem absoluta questão de manterem-se à distância – enquanto os EUA fazem a mesma absoluta questão de apresentar a Rússia como “o outro lado” do conflito.

Simultaneamente, as relações russo-norte-americanas foram empurradas 40 anos para trás, de volta à emenda Jackson-Vanik de 1974, pela lei “Liberdade para a Ucrânia” [“Support Act” de 2014]. O Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, considerou essa lei um desenvolvimento infeliz, mas apenas temporário. Os russos não partilham desse otimismo: para ele, aquela lei deu legalidade às sanções anti-Rússia.

Os EUA tentam envolver outros estados na sua guerra contra a Rússia, com algum sucesso. Efeito de uma dessas ações de “sedução”, a chancelerina alemã Kanzlerin Angela Merkel eliminou todas as organizações, estruturas e laços construídos ao longo de vários anos, entre Alemanha e Rússia. Cada visita de Joe Biden provoca mais uma conflagração.

Os russos continuam muito gravemente incomodados com a história do ataque que derrubou o Boeing da Malaysia Airlines. Em todas as reuniões de alto nível com norte-americanos, os russos falam do surto histérico de acusações de que o avião teria sido derrubado pela resistência anti-Kiev usando mísseis russos. Já se passaram seis meses da tragédia, mas os EUA não apresentam uma única prova de qualquer envolvimento russo ou da resistência anti-Kiev. Não mostram fotos de seus satélites, nem gravações feitas nos seus sistemas de vigilância aérea que cobre toda a Europa Oriental. Minha fonte disse que os funcionários norte-americanos de mais alto escalão já não insistem na versão de “ataque russo”, mas arrogantemente se recusam a apresentar pedido formal de desculpas pelas acusações anteriores completamente sem qualquer fundamento. Pessoalmente, repetem “sorry”, “sorry”.

Cabine do MH17 da Malaysian Airlines metralhada pela Força Aérea da Junta de Kiev
Mesmo assim, os EUA não querem deixar a bola parar. Insistem que não se interessam por uma “rendição” russa, que qualquer confronto lhes parece inoportuno e caro demais, mas os EUA querem que a Rússia os apoie na negociação sobre o programa nuclear iraniano; sobre o destino final do arsenal químico sírio, no problema da Palestina. Os russos respondem que já ouviram essa conversa, idêntica, durante todo o ataque à Líbia (quando os EUA mentiram e os engambelaram). E que absolutamente não acreditam em nada que os norte-americanos digam.

Há diferenças importantes de opinião entre Rússia e EUA em praticamente todos os campos. Há um traço comum a todas as questões: da Síria ao Donbass, os russos do presidente Putin trabalham a favor da paz.

No momento, os russos convidaram figuras da oposição síria e representantes do governo sírio para conversações em Moscou. Vieram, conversaram, partiram, e voltarão a encontrar-se. Podem até encontrar uma via de acordo e paz... mas os norte-americanos dizem que não, de modo algum, que ninguém jamais se reconciliará com a presidência de Bashar al-Assad, e que lutarão até a última gota de sangue sírio para derrubá-lo do poder.

Não é que os norte-americanos sejam animais viciados em sangue humano; é que a guerra faz sentido para eles. Cada guerra no planeta dá suporte ao dólar norte-americano e revigora o índice Dow Jones, porque o capital procura paraíso seguro e o encontra [ainda] nos EUA.

Desdolarização
Os norte-americanos nem pensam no destino dos sírios que fugiram para a Jordânia – ou dos ucranianos que fogem para a Rússia em números sempre crescente. Que vergonha para os EUA!

A Síria era país pacífico e próspero, o diamante do Oriente Médio, até ser arruinado pelos islamistas sustentados pelos norte-americanos. A Ucrânia foi a parte mais rica da URSS, até ser arruinada pela extrema direita neonazista e pelos oligarcas apoiados pelos norte-americanos.

Joseph Brodsky anteviu amargamente, em 1994, quando a Ucrânia declarou-se independente da Rússia, que os ucranianos desentendidos ainda declamariam versos da poesia russa, até no leito de morte. A profecia está bem perto de se cumprir.

[*] Israel Shamir é um escritor, jornalista e antissionista. De origem russo-judaica, ele nasceu em Novosibirsk, na Sibéria, emigrou para Israel em 1969. Lá, trabalhou como jornalista e tradutor. Seus artigos sobre a ocupação da Terra Santa pelo sionismo estão reunidos em um sítio eletrônico e em três livros: Galilee Flowers, Cabbala of  Power e Masters of  Discourse, também disponíveis em francês, espanhol, italiano, alemão e russo. Em 2004, envergonhado pelo domínio do sionismo, abandonou o judaísmo e abraçou a fé cristã ortodoxa, sendo batizado na Igreja Ortodoxa de Jerusalém e Terra Santa pelo arcebispo Theodosius Attalla Hanna. Shamir vive atualmente em Jaffa e viaja frequentemente a Moscou e Estocolmo.