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terça-feira, 30 de junho de 2015

Rússia: Olho por olho


29/6/2015, [*] Israel Shamir, Unz Review
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin (poker face)

Fogo e fumaça e enxofre, novas sanções ou os tanques dos EUA nas fronteiras, todas as pragas lançadas sobre a Rússia, uma por cima da outra.
O presidente Putin poderia adotar o lema de Guilherme de Orange: saevis tranquillus in undis, calmo, em plena tempestade. A tempestade está por toda a parte.
  • Já há tanques norte-americanos nos estados bálticos.
  • Navios norte-americanos a caminho do Mar Negro.
  • As sanções da União Europeia contra a Rússia foram prorrogadas por outros seis meses.
  • Há patrimônio russo confiscado na França e na Bélgica.
  • Na Síria, Damasco é ameaçada por rebeldes que os EUA armaram e continuam a armar.
  • A Grécia quer alistar-se ao lado da Rússia, mas provavelmente não ousará.
  • A Armênia, pequeno país escondido entre o Irã e a Turquia, acaba de integrar-se aos estados da União Eurasiana liderada pela Rússia, e já apareceram perturbações da ordem pública por lá, que obrigam a lembrar de Kiev 2013.
  • A Ucrânia está em escombros, enviando ondas e ondas de refugiados para a Rússia.
Qualquer nação mais fraca já estaria histérica. Putin e a Rússia permanecem inabaláveis.
E há aquela piada do Mississipi. Um criminoso negro e um criminoso branco estão sendo levados para a cadeia. O negro está calmo, o branco, em prantos. “Pare de se lamuriar”, diz o negro. “É fácil falar” – diz o branco. – “Vocês negros são acostumados a ser maltratados”. É feito a Rússia. Desde os dias dos sovietes, a Rússia está acostumada aos maus tratos, e desde antes, até, porque a rivalidade entre os herdeiros de Roma e os herdeiros de Constantinopla é, sim, muito antiga. Agora, acabou mais um curto período de calmaria. E estamos de volta à guerra fria. Surpresa, surpresa: a maioria dos russos preferiria a hostilidade do ocidente, como nos tempos de Brezhnev, ao cálido abraço ocidental nos dias de Gorbachev e Yeltsin. Verdade é que as coisas melhoraram muito, com a guerra fria e as sanções.
Boris Ieltsin e Mikhail Gorbachev (D)
  • Os russos ricos e ociosos, afastados dos prazeres de Miami e Côte d’Azur, prestam mais atenção aos compatriotas menos afortunados. Não que russos ricos e ociosos roubem hoje menos, mas eles gastam mais na Rússia mesmo, do que saqueiam.
  • Senhora muito conhecida, Valentina Matvienko, Presidente do Senado russo, foi proibida de viajar à Europa e aos EUA, e teve de passar uns feriados numa estação de veraneio na Rússia. Rapidamente percebeu o que faltava ali, apesar do charme considerável do lugar. E providenciou os necessários recursos para necessárias melhorias. Tomara que todos eles sejam impedidos de sair do país, era o clamor que se ouvia por todos os lados.
  • Os produtores russos de queijo jamais conseguiriam competir com queijos franceses e italianos que ano passado abundavam nos mercados liberais abertos e transfronteiras. Vieram as sanções e, em seis meses, as vendas já quase dobraram. Os queijos russos, mais baratos, encontram-se livremente à venda quando, antes, os supermercados preferiam estocar só os caros queijos estrangeiros.
  • O Exército precisa de tudo para defender a Pátria Mãe, e a indústria russa de alta tecnologia recebe mais e mais encomendas do Ministério da Defesa. Fábricas fechadas e trabalhadores demitidos ou semiaposentados ganham nova vida, compradores estrangeiros fazem fila à entrada, o rublo foi estabilizado. Os jovens acham o que fazer, melhor que assistir à televisão e reclamar do governo. Um sentimento de orgulho russo – depois das terríveis humilhações na Iugoslávia, na Ucrânia e noutros lugares – está de volta.
  • A infraestrutura está flamante. Moscou ganha novas centenas de quilômetros de ciclovias, os parques estão bonitos e bem cuidados. A capital do país brilha, limpíssima, apesar das dificuldades trazidas por chuvas pesadas.
  • Agora você começa a entender por que os russos são favoráveis às sanções. Estão com o governo e o presidente, cujos índices de aprovação, medidos por agências norte-americanas de avaliação de opinião pública, alcançam espetaculares 89%. Nunca houve coisa semelhante. Não que os russos queiram guerra, mas estão fartos de ver seu país empurrado de costas contra a parede, como veem as coisas. Os russos não querem qualquer império só deles, mas querem ser ouvidos e querem ter seus desejos considerados. E querem que seu governo faça os ex-parceiros, atuais adversários, pagarem por cada gesto ou ação anti-Rússia.
Dentre os passos retaliatórios mais populares tomados pelo governo russo, está a firme determinação de não mais colaborar para a retirada das tropas da OTAN que ainda ocupam o Afeganistão.
O presidente Putin, no primeiro mandato, em 2001, foi apoiador entusiasta dos EUA. E, depois da invasão norte-americana ao Afeganistão, ele ofereceu ajuda russa para transferir equipamento para dentro e para fora daquele país. Hoje, quase 15 anos depois, essa via curta e fácil até Cabul foi fechada. Os norte-americanos que arrastem seu armamento pesado para cima e para baixo das montanhas, e pelos vales do Paquistão, onde são emboscados por guerrilheiros com longa experiência em combater invasores, de Alexandre o Grande, até Brezhnev.
Os russos também gostaram da decisão olho-por-olho de banir dúzias de políticos ocidentais, proibidos de entrar em solo russo, como resposta ao banimento de políticos russos, proibidos de entrar em solo europeu. A Rússia talvez não seja o mais buscado destino turístico, mas, acredite se quiser, a proibição de entrar dói. A simples ideia de resposta russa ativa, já colheu de surpresa os europeus: pensavam que os russos não tinham meios, ou não tinham coragem. O berreiro dos figurões ocidentais impedidos de entrar na Rússia é música aos ouvidos dos russos.
Sobre a crise da Ucrânia, há muitos que sonham com tanques russos varrendo Kiev e restaurando a paz civil na Ucrânia atormentada, mas esse sonho permanecerá não realizado, enquanto o presidente Putin acreditar que há outros meios, pacíficos, para resolver o problema. Mesmo assim, o estilo obsessivamente pró-paz, dos soviéticos, e o medo da guerra dão lugar a atitude mais vigorosa, dado que a guerra, quando nos é imposta, é necessidade inevitável da vida. O velho mantra entorpecedor de “qualquer coisa é melhor que guerra” caiu ante a realidade.
Desfile de civis com retratos de perentes mortos
na IIª Grande Guerra em 9/5/2015. Putin à frente.

As celebrações, dia 9 de maio de 2015, dos 70 anos do Dia da Vitória, ficarão para sempre na memória do povo, e deram aos cidadãos boa chance de ver os mais novos brinquedos dos militares russos. Esse ano, os russos destacaram a própria vitória, mais que qualquer vitimização, sofrimentos e perdas. A vitória foi vista como vitória dos russos sobre a Europa, não só sobre a Alemanha; porque praticamente todas as nações europeias, de França, Espanha e Itália, a Hungria e Bulgária, combateram ao lado de Hitler e contra a Rússia. É a mais absoluta verdade, mas foi verdade raramente mencionada, até esse ano. Fanadas as esperanças russas de que a Europa apoiasse as políticas russas de independência em benefício também da Europa, veio afinal a consciência de que os líderes europeus são servis hoje a Washington, como seus predecessores foram servis a Berlim.
Lentamente, ah, tão lentamente, o gigante russo recordou seus dias de juventude, as batalhas do Rio Volga e a tomada de Berlim. Essas memórias o fizeram rir de Frau Merkel e de Mr. Obama. Imediatamente depois do desfile militar do dia 9 de maio, milhões de civis marcharam pelas ruas carregando fotos dos pais e avôs, soldados na Grande Guerra. Foi movimento absolutamente inesperado: nem eu nem outros observadores e jornalistas, estrangeiros ou locais, previram evento de tais dimensões. A cidade planejara marcha de dez mil participantes; 50 vezes mais que isso, mais de meio milhão de pessoas marcharam pelas ruas só em Moscou. Em toda a Rússia foram 12 milhões.
Esse ato sem precedentes de solidariedade à Rússia disparou tremores sísmicos por toda a sociedade. Muitos dos caminhantes levavam imagens do comandante vitorioso daqueles dias, Joseph Stálin. Não é nome amado por todos, longe disso. Mas nome que, apenas mencionado, já faz tremer de fúria os gatos mais gordos e seus aliados, não pode ser de todo mau. Há quem queira devolver o nome de Stalingrado ao local da grande batalha, que foi alterado por Khrushchev. Mas Putin não gosta da ideia. Por enquanto.
A presença do Presidente Xi Jiping da China às celebrações de maio significou um realinhamento histórico com a China: é mudança de proporções oceânicas nas políticas russas. A conexão com a China só se fortalece, dia a dia. Essa é atitude nova: antes, russos e chineses sempre desconfiaram uns dos outros, mesmo depois de superada a hostilidade dos últimos dias do período soviético. Liberais moscovitas pró-ocidente descartaram os chineses e planejaram uma guerra contra a China, liderada pelos EUA. Hoje, esse pesadelo já é passado. Não estamos de volta exatamente aos anos 1950s, quando Mao e Stálin estabeleceram seus laços, mas estamos perto.
Xi Jinping e Putin nos 70 anos do Dia da Vitória

Há coisa de 800 anos, a Rússia esteve em situação semelhante, furiosamente pressionada pelo ocidente. O Papa abençoou uma Cruzada contra os russos, exigindo que aceitassem a hegemonia do ocidente, e desistissem de sua cristandade bizantina. Foi quando o príncipe Alexandre preferiu aceitar o patrocínio dos mongóis sucessores de Genghis Khan, a submeter-se ao diktat ocidental. A troca funcionou: a Rússia continuou a existir e o príncipe valente foi canonizado pela Igreja, como Santo Alexandre Nevsky. Os russos até hoje entendem que usar apoios orientais é menos perigoso para a alma russa do que se curvar a demandas ocidentais.
Será que Putin, nascido em São Petersburgo, que muito preza seus contatos europeus e fala quatro línguas fluentemente (mas não fala chinês), repetirá o feito de Santo Alexandre e realinhará a Rússia com o oriente? Seria perda gigante para a Europa, como Velho Continente convertido em colônia dos EUA.
São Petersburgo, cidade onde está enterrado o corpo de Santo Alexandre é, definitivamente, cidade europeia, virada para o oeste, diferente de Moscou, que olha para o leste. É especialmente deliciosa em junho, o mês das Noites Brancas, quando a cidade é banhada em luz fria e clara durante o dia, e em luz leitosa, quase opaca, à noite, com os lilases em plena floração, debruçados sobre o espelho d’água dos canais e rios que cortam a capital russa do norte, onde nunca se está longe de um curso d’água. A velha glória imperial ainda descansa às margens do rio Neva.
Ali foi o coração do Império Russo, até que Lênin levou o governo de volta para a antiga capital, Moscou. Por isso, durante os anos soviéticos, Petersburgo (então batizada Leningrado) não sofreu com os massivos programas de moradias populares que desfiguraram Moscou. O historiador britânico Arnold Toynbee (hoje caído em desgraça, por sua inclinação antissionista) disse que a mudança para Moscou “corporificou a reação da alma russa contra a civilização ocidental”. A presidência de Putin, ele talvez dissesse, corporificou uma guinada pró-Europa na alma russa. Algo como uma traição da Europa contra a Rússia (como alguns russos veem as coisas) teria levado Putin a afastar-se, agora, da Europa?
Putin discursa na abertura do SPIEF-2015

Vi o presidente Putin no recente Fórum Econômico Internacional em São Petersburgo. No Fórum, Putin saiu-se muito bem: calmo, impenetrável poker face, respondeu com sinceridade todas as perguntas. Em momento algum pareceu irritado ou incomodado. Lidou com calma com a crise da propriedade russa confiscada. Muita gente preferia vê-lo esmurrar a mesa, confiscar bens de franceses e belgas. Nada disso. Prometeu usar os meios legais facultados pelas cortes europeias de justiça.
Putin chegou a São Petersburgo depois de viagem muito bem-sucedida a Baku, capital do Azerbaijão rico em petróleo, onde os Jogos Europeus ofereceram oportunidade para longos encontros com os presidentes da Turquia e do Azerbaijão. Nenhum líder ocidental deu as caras, mas os governantes do nosso lado do mundo apreciaram devidamente a companhia uns dos outros.
Em resumo, o presidente Putin é homem de fala suave. Se tem algum grande porrete, não o exibe por aí. Não se mostra desconsolado, ante a grosseria e as más intenções ocidentais. Parece que está trabalhando muito em busca de arranjos alternativos, mas quer adiar pelo máximo tempo possível quaisquer decisões mais dolorosas. Eventualmente, talvez seja forçado a uma aliança estratégica com a China, que minará ainda mais o que resta da independência europeia.
Mas as coisas não são ou brancas ou pretas. A Rússia está conectada ao ocidente por várias inesperadas vias. O mais implacável inimigo da Rússia é o ex-Ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt. A esposa dele está proibida de entrar em território russo. Ao mesmo tempo, Bildt indicou um conselheiro para uma empresa russa de petróleo cujo proprietário e o segundo mais rico dos oligarcas russos, Michael Friedman. Friedman, um dos sete oligarcas originais dos tempos de Yeltsin, começou como cambista revendedor de ingressos para shows. Gasta prodigamente em escolas hebraicas de educação religiosa. O seu Alfa Bank tentou interromper a produção de novo tanque russo Armata, levando à falência a fábrica que produzia as proteções blindadas do tanque. Friedman e Putin são amigos. É o que deveria bastar contra a propaganda de que o cruel ditador russo seria inimigo jurado dos oligarcas judeus.
Os jornais russos são livres para atacar Putin...

Verdade é que a Rússia continua liberal, e os liberais russos copiam os liberais norte-americanos, mutatis mutandis. Tratam Putin como seus contrapartes nos EUA tratavam Bush II, embora, a julgar pelo vocabulário, Putin mais pareça um Kim Jong Il. Os jornais são livres para atacar Putin, e usam furiosamente essa liberdade. Diretores de teatro insertam “cacos” anti-Putin nas falas de peças clássicas, sempre como se Putin vivesse de falar contra a Igreja. No cinema, o mundo de Putin é reino de misérias e abusos, feito filme de Jim Jarmusch.
Mas o povo comum gosta de Putin, como Bush II era popular nos estados Republicanos. E gostariam ainda mais, se ele arrancasse dois olhos de norte-americanos, por olho russo. Por enquanto, Putin prefere prosseguir na retaliação simbólica.
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[*] Israel Shamir escreve extensivamente sobre assuntos públicos, principalmente com relação ao conflito Israel/Palestina e política russa, incluindo três livros, Galilee Flowers, Cabbala of Power e Masters of Discourse, disponíveis em inglês, francês, alemão, espanhol, russo, árabe, norueguês, sueco, italiano e húngaro.
Ele se descreve como um nativo de Novosibirsk, na Sibéria; mudou-se para Israel em 1969, serviu como pára-quedista no Exército e lutou na guerra de 1973; depois virou-se para o jornalismo escrito. No final dos anos 1970s ele se juntou à BBC em Londres depois de viver algum tempo no Japão. Regressou a Israel em 1980. Passou a escrever para o jornal israelense Haaretz; foi o porta-voz no Knesset pelo Partido Socialista de Israel (Mapam). Também traduziu e anotou para o russo, a partir do original, as obras enigmáticas de SY Agnon, o único escritor em hebraico a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sua perspectiva sobre o conflito Israel/Palestina foi resumida em The Pine and the Olive,, publicado em 1988 e reeditado em 2004. Nesse mesmo ano foi recebido na Igreja Ortodoxa de Jerusalém ea Terra Santa, sendo batizado pelo Arcebispo Adam Teodósio Attalla Hanna. Atualmente vive em Jaffa, mas passa muito tempo em Moscou e Estocolmo; é pai de três filhos.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Putin prefere a paz, por piores que sejam as condições

4/2/2015, [*] Israel Shamir, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Para Putin, a Ucrânia é importante, mas não é item sine qua non, não é o único problema do universo. Nisso, Putin e Obama até se parecem. Mas com uma grande diferença: os russos querem a Ucrânia em paz; os EUA querem o país em guerra.

The Saker
Em fevereiro ainda falta muito tempo até a primavera, lamentou o poeta Joseph Brodsky. De fato, ainda neva pesadamente em Moscou e em Kiev, e nas intermináveis estepes das terras das fronteiras russo-ucranianas, mas ali a neve está tinta de sangue. Soldados detestam combater no inverno, quando a vida já é tão difícil, naquelas latitudes, mas ainda há combates no Donbass devastado pela guerra, e os EUA preparam-se para escalar, fornecendo armamentos sofisticados ao governo de Kiev.

Cansados do sítio e dos bombardeios intermitentes, milicianos da resistência anti-Kiev esqueceram a neve e retomaram o aeroporto de Donetsk. Retomar esse aeroporto, com seus túneis do tempo de Stálin, símbolo do sólido trabalho de defesa dos soviéticos, foi enorme desafio para uma milícia subequipada. As edificações de vários pisos subterrâneos foram erguidas para suportar ataque nuclear; pois mesmo assim, depois de meses de luta, os milicianos da resistência anti-Kiev expulsaram o inimigo e retomaram o aeroporto.

Numa ofensiva ainda maior, os milicianos da resistência anti-Kiev cercaram as tropas de Kiev no bolsão de Debaltsevo, e Kiev já tenta um cessar-fogo. A resistência anti-Kiev ainda espera conseguir expulsar completamente o inimigo, de terras do Donbass; no momento, controlam apenas um terço do Donbass; mas o presidente russo só pensa em breques: prefere a pior paz, à melhor guerra.

Para Putin, a Ucrânia é importante, mas não é item sine qua non, não é o único problema do universo. Nisso, Putin e Obama até se parecem. Mas com uma grande diferença: os russos querem a Ucrânia em paz; os EUA querem o país em guerra.

Vladimir Putin
A Rússia preferiria ver a Ucrânia unida, federalizada, em paz e próspera. A alternativa de dividir o Donbass não é muito tentadora: o Donbass é muito fortemente ligado ao resto da Ucrânia, e não é fácil romper aqueles laços. A guerra já mandou embora do Donbass e da Ucrânia, para a Rússia, milhões de refugiados, o que já sobrecarrega os sistemas sociais russos. Putin simplesmente não pode dar as costas ao Donbass – nem o povo russo permitiria, ainda que ele tentasse. Homem cauteloso, Putin não quer envolver-se em guerra sem fim à vista. Assim sendo, ele tem de navegar na direção de algum tipo de paz.

Tive um encontro com fonte russa muito bem informada, de alto escalão, que partilhou comigo – e partilho aqui com vocês – alguns dos pensamentos “internos”, sob a condição de que seu nome não fosse divulgado.

Por mais que o ocidente tenha absoluta certeza de que Putin sonha com recriar a União Soviética, verdade é que o presidente russo fez e faz tudo que encontra ao seu alcance para salvar a Ucrânia da desintegração, disse minha fonte. Eis o que a Rússia, realmente, já fez para devolver a paz à Ucrânia:

●– a Rússia apoiou o acordo negociado pelo ocidente dia 21/2/2014, mas apesar de já haver o acordo, os EUA, no dia seguinte (22/2/2014), ordenaram o golpe ou “negociaram um mecanismo para uma transição de poder”, nas palavras de Obama;

Barack Obama
●– depois do golpe, o sudeste da Ucrânia não se submeteu ao novo regime de Kiev e rebelou-se. Moscou ainda chegou a pedir à resistência anti-Kiev no Donbass que não levasse adiante o referendo de maio (o referendo foi mantido, contra o apelo de Putin);

●– Moscou reconheceu os resultados de eleições fraudadas, em maio, realizadas pelo regime golpista de Kiev depois do golpe; e reconheceu Poroshenko como presidente de toda a Ucrânia – embora não tivesse havido eleição no sudeste do país e os partidos de oposição a Kiev estivessem proscritos.

●– Moscou não reconheceu os resultados das eleições de novembro no Donbass, para indignação de muitos nacionalistas russos.

Todos esses passos foram muito impopulares na sociedade russa, mas Putin insistiu neles para promover uma solução pacífica para a Ucrânia. Alguns líderes guerrilheiros no Donbass foram convencidos a retirar-se. Em vão: todos os movimentos de Putin foram ignorados pelos EUA e pela União Europeia, que encorajaram cada vez mais o “partido da guerra” em Kiev.

Para os EUA, Kiev sempre agia corretamente, fizessem o que fizessem. Com a federalização é possível a paz na Ucrânia, disse minha fonte

Eis porque dois dos mais importantes parâmetros dos acordos de Minsk (entre Kiev e Donetsk) foram itens dos quais ninguém antes ouvira falar: reformas constitucionais e reformas socioeconômicas. A Rússia quer assegurar a integridade territorial da Ucrânia (sem a Crimeia), mas essa integridade só pode ser alcançada mediante a federalização do país, com as regiões beneficiadas por considerável grau de autonomia. O oeste e o leste do país falam línguas diferentes, cultuam diferentes heróis, têm diferentes aspirações. Só podem ser mantidas juntas, se a Ucrânia for estado federal, como os EUA, a Suíça ou a Índia.

Putin cumprimenta Poroshenko diante
de euroburocratas em Minsk
Em Minsk, os lados concordaram em estabelecer uma comissão para as reformas constitucionais, mas o governo de Kiev renegou tudo. Em vez do que fora acordado, criaram uma pequena comissão no Parlamento, praticamente secreta. Tão pequena e tão secreta que o movimento foi condenado pela “Comissão Veneza”, um corpo que dá aconselhamento ao Parlamento Europeu, sobre questões constitucionais. O povo de Donetsk também não aceitou aquele arranjo, em tudo diferente do que fora estabelecido em Minsk.

Sobre integração, ficara decidido em Minsk que o Donbass seria reintegrado à Ucrânia. Foi grave desapontamento para o Donbass (que preferiria ser integrado à Rússia), mas aceitaram –, e foi quando Kiev tentou sitiar o Donbass, fechou bancos, parou de comprar carvão do Donbass, deixou de pagar aposentadorias e pensões. As tropas de Kiev passaram a bombardear diariamente a cidade de Donetsk, de um milhão de habitantes (em tempos de paz). Em vez da anistia para os rebeldes da resistência anti-Kiev, como ficara decidido em Minsk, o que se viu foram mais e mais soldados de Kiev deslocados para o leste.

Os russos não desistiram dos acordos de Minsk. Aqueles acordos podem trazer paz, mas, para isso, têm de ser aplicados. É possível que o presidente Poroshenko de Kiev se interessasse por aplicá-los, mas o partido da guerra em Kiev, que é telecomandado pelo ocidente, derrubaria o governo de Poroshenko se visse nele qualquer sinal de interesse pela paz. Paradoxalmente, o único meio para obrigá-lo a fazer a paz, é a guerra. E a Rússia muito apreciaria ver o ocidente pressionando os governos-clientes em Kiev.

A resistência anti-Kiev e seus apoiadores russos usaram a guerra para forçar o ocidente a assinar os acordos de Minsk: a ofensiva dos rebeldes em Mariupol no Mar Negro foi muitíssimo bem-sucedida; e Poroshenko preferiu ir a Minsk, para manter Mariupol. Depois daquilo, Kiev e Donetsk tiveram uns poucos cessar-fogo, trocaram prisioneiros de guerra, mas Kiev recusa-se a implantar as demandas constitucionais e socioeconômicas do acordo de Minsk.

Não há sentido algum no cessar-fogo, se Kiev o usa para se reorganizar e atacar novamente. O cessar-fogo teria de levar a uma reforma constitucional, diz minha fonte; a uma reforma negociada em diálogo aberto e transparente entre as regiões e Kiev. Sem uma reforma, o Donbass (também chamado Novorrússia) irá à guerra. Assim sendo, a operação Debaltsevo pode ser considerada um meio para forçar Poroshenko a render-se à paz.

Forças da Junta de Kiev em azul
Forças da Novorrússia em vermelho

(clique na imagem para visualizar)
Segundo minha fonte, a Rússia não pretende envolver-se nem na guerra nem em negociações de paz. Os russos fazem absoluta questão de manterem-se à distância – enquanto os EUA fazem a mesma absoluta questão de apresentar a Rússia como “o outro lado” do conflito.

Simultaneamente, as relações russo-norte-americanas foram empurradas 40 anos para trás, de volta à emenda Jackson-Vanik de 1974, pela lei “Liberdade para a Ucrânia” [“Support Act” de 2014]. O Secretário de Estado dos EUA, John Kerry, considerou essa lei um desenvolvimento infeliz, mas apenas temporário. Os russos não partilham desse otimismo: para ele, aquela lei deu legalidade às sanções anti-Rússia.

Os EUA tentam envolver outros estados na sua guerra contra a Rússia, com algum sucesso. Efeito de uma dessas ações de “sedução”, a chancelerina alemã Kanzlerin Angela Merkel eliminou todas as organizações, estruturas e laços construídos ao longo de vários anos, entre Alemanha e Rússia. Cada visita de Joe Biden provoca mais uma conflagração.

Os russos continuam muito gravemente incomodados com a história do ataque que derrubou o Boeing da Malaysia Airlines. Em todas as reuniões de alto nível com norte-americanos, os russos falam do surto histérico de acusações de que o avião teria sido derrubado pela resistência anti-Kiev usando mísseis russos. Já se passaram seis meses da tragédia, mas os EUA não apresentam uma única prova de qualquer envolvimento russo ou da resistência anti-Kiev. Não mostram fotos de seus satélites, nem gravações feitas nos seus sistemas de vigilância aérea que cobre toda a Europa Oriental. Minha fonte disse que os funcionários norte-americanos de mais alto escalão já não insistem na versão de “ataque russo”, mas arrogantemente se recusam a apresentar pedido formal de desculpas pelas acusações anteriores completamente sem qualquer fundamento. Pessoalmente, repetem “sorry”, “sorry”.

Cabine do MH17 da Malaysian Airlines metralhada pela Força Aérea da Junta de Kiev
Mesmo assim, os EUA não querem deixar a bola parar. Insistem que não se interessam por uma “rendição” russa, que qualquer confronto lhes parece inoportuno e caro demais, mas os EUA querem que a Rússia os apoie na negociação sobre o programa nuclear iraniano; sobre o destino final do arsenal químico sírio, no problema da Palestina. Os russos respondem que já ouviram essa conversa, idêntica, durante todo o ataque à Líbia (quando os EUA mentiram e os engambelaram). E que absolutamente não acreditam em nada que os norte-americanos digam.

Há diferenças importantes de opinião entre Rússia e EUA em praticamente todos os campos. Há um traço comum a todas as questões: da Síria ao Donbass, os russos do presidente Putin trabalham a favor da paz.

No momento, os russos convidaram figuras da oposição síria e representantes do governo sírio para conversações em Moscou. Vieram, conversaram, partiram, e voltarão a encontrar-se. Podem até encontrar uma via de acordo e paz... mas os norte-americanos dizem que não, de modo algum, que ninguém jamais se reconciliará com a presidência de Bashar al-Assad, e que lutarão até a última gota de sangue sírio para derrubá-lo do poder.

Não é que os norte-americanos sejam animais viciados em sangue humano; é que a guerra faz sentido para eles. Cada guerra no planeta dá suporte ao dólar norte-americano e revigora o índice Dow Jones, porque o capital procura paraíso seguro e o encontra [ainda] nos EUA.

Desdolarização
Os norte-americanos nem pensam no destino dos sírios que fugiram para a Jordânia – ou dos ucranianos que fogem para a Rússia em números sempre crescente. Que vergonha para os EUA!

A Síria era país pacífico e próspero, o diamante do Oriente Médio, até ser arruinado pelos islamistas sustentados pelos norte-americanos. A Ucrânia foi a parte mais rica da URSS, até ser arruinada pela extrema direita neonazista e pelos oligarcas apoiados pelos norte-americanos.

Joseph Brodsky anteviu amargamente, em 1994, quando a Ucrânia declarou-se independente da Rússia, que os ucranianos desentendidos ainda declamariam versos da poesia russa, até no leito de morte. A profecia está bem perto de se cumprir.

[*] Israel Shamir é um escritor, jornalista e antissionista. De origem russo-judaica, ele nasceu em Novosibirsk, na Sibéria, emigrou para Israel em 1969. Lá, trabalhou como jornalista e tradutor. Seus artigos sobre a ocupação da Terra Santa pelo sionismo estão reunidos em um sítio eletrônico e em três livros: Galilee Flowers, Cabbala of  Power e Masters of  Discourse, também disponíveis em francês, espanhol, italiano, alemão e russo. Em 2004, envergonhado pelo domínio do sionismo, abandonou o judaísmo e abraçou a fé cristã ortodoxa, sendo batizado na Igreja Ortodoxa de Jerusalém e Terra Santa pelo arcebispo Theodosius Attalla Hanna. Shamir vive atualmente em Jaffa e viaja frequentemente a Moscou e Estocolmo.