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terça-feira, 30 de junho de 2015

Rússia: Olho por olho


29/6/2015, [*] Israel Shamir, Unz Review
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin (poker face)

Fogo e fumaça e enxofre, novas sanções ou os tanques dos EUA nas fronteiras, todas as pragas lançadas sobre a Rússia, uma por cima da outra.
O presidente Putin poderia adotar o lema de Guilherme de Orange: saevis tranquillus in undis, calmo, em plena tempestade. A tempestade está por toda a parte.
  • Já há tanques norte-americanos nos estados bálticos.
  • Navios norte-americanos a caminho do Mar Negro.
  • As sanções da União Europeia contra a Rússia foram prorrogadas por outros seis meses.
  • Há patrimônio russo confiscado na França e na Bélgica.
  • Na Síria, Damasco é ameaçada por rebeldes que os EUA armaram e continuam a armar.
  • A Grécia quer alistar-se ao lado da Rússia, mas provavelmente não ousará.
  • A Armênia, pequeno país escondido entre o Irã e a Turquia, acaba de integrar-se aos estados da União Eurasiana liderada pela Rússia, e já apareceram perturbações da ordem pública por lá, que obrigam a lembrar de Kiev 2013.
  • A Ucrânia está em escombros, enviando ondas e ondas de refugiados para a Rússia.
Qualquer nação mais fraca já estaria histérica. Putin e a Rússia permanecem inabaláveis.
E há aquela piada do Mississipi. Um criminoso negro e um criminoso branco estão sendo levados para a cadeia. O negro está calmo, o branco, em prantos. “Pare de se lamuriar”, diz o negro. “É fácil falar” – diz o branco. – “Vocês negros são acostumados a ser maltratados”. É feito a Rússia. Desde os dias dos sovietes, a Rússia está acostumada aos maus tratos, e desde antes, até, porque a rivalidade entre os herdeiros de Roma e os herdeiros de Constantinopla é, sim, muito antiga. Agora, acabou mais um curto período de calmaria. E estamos de volta à guerra fria. Surpresa, surpresa: a maioria dos russos preferiria a hostilidade do ocidente, como nos tempos de Brezhnev, ao cálido abraço ocidental nos dias de Gorbachev e Yeltsin. Verdade é que as coisas melhoraram muito, com a guerra fria e as sanções.
Boris Ieltsin e Mikhail Gorbachev (D)
  • Os russos ricos e ociosos, afastados dos prazeres de Miami e Côte d’Azur, prestam mais atenção aos compatriotas menos afortunados. Não que russos ricos e ociosos roubem hoje menos, mas eles gastam mais na Rússia mesmo, do que saqueiam.
  • Senhora muito conhecida, Valentina Matvienko, Presidente do Senado russo, foi proibida de viajar à Europa e aos EUA, e teve de passar uns feriados numa estação de veraneio na Rússia. Rapidamente percebeu o que faltava ali, apesar do charme considerável do lugar. E providenciou os necessários recursos para necessárias melhorias. Tomara que todos eles sejam impedidos de sair do país, era o clamor que se ouvia por todos os lados.
  • Os produtores russos de queijo jamais conseguiriam competir com queijos franceses e italianos que ano passado abundavam nos mercados liberais abertos e transfronteiras. Vieram as sanções e, em seis meses, as vendas já quase dobraram. Os queijos russos, mais baratos, encontram-se livremente à venda quando, antes, os supermercados preferiam estocar só os caros queijos estrangeiros.
  • O Exército precisa de tudo para defender a Pátria Mãe, e a indústria russa de alta tecnologia recebe mais e mais encomendas do Ministério da Defesa. Fábricas fechadas e trabalhadores demitidos ou semiaposentados ganham nova vida, compradores estrangeiros fazem fila à entrada, o rublo foi estabilizado. Os jovens acham o que fazer, melhor que assistir à televisão e reclamar do governo. Um sentimento de orgulho russo – depois das terríveis humilhações na Iugoslávia, na Ucrânia e noutros lugares – está de volta.
  • A infraestrutura está flamante. Moscou ganha novas centenas de quilômetros de ciclovias, os parques estão bonitos e bem cuidados. A capital do país brilha, limpíssima, apesar das dificuldades trazidas por chuvas pesadas.
  • Agora você começa a entender por que os russos são favoráveis às sanções. Estão com o governo e o presidente, cujos índices de aprovação, medidos por agências norte-americanas de avaliação de opinião pública, alcançam espetaculares 89%. Nunca houve coisa semelhante. Não que os russos queiram guerra, mas estão fartos de ver seu país empurrado de costas contra a parede, como veem as coisas. Os russos não querem qualquer império só deles, mas querem ser ouvidos e querem ter seus desejos considerados. E querem que seu governo faça os ex-parceiros, atuais adversários, pagarem por cada gesto ou ação anti-Rússia.
Dentre os passos retaliatórios mais populares tomados pelo governo russo, está a firme determinação de não mais colaborar para a retirada das tropas da OTAN que ainda ocupam o Afeganistão.
O presidente Putin, no primeiro mandato, em 2001, foi apoiador entusiasta dos EUA. E, depois da invasão norte-americana ao Afeganistão, ele ofereceu ajuda russa para transferir equipamento para dentro e para fora daquele país. Hoje, quase 15 anos depois, essa via curta e fácil até Cabul foi fechada. Os norte-americanos que arrastem seu armamento pesado para cima e para baixo das montanhas, e pelos vales do Paquistão, onde são emboscados por guerrilheiros com longa experiência em combater invasores, de Alexandre o Grande, até Brezhnev.
Os russos também gostaram da decisão olho-por-olho de banir dúzias de políticos ocidentais, proibidos de entrar em solo russo, como resposta ao banimento de políticos russos, proibidos de entrar em solo europeu. A Rússia talvez não seja o mais buscado destino turístico, mas, acredite se quiser, a proibição de entrar dói. A simples ideia de resposta russa ativa, já colheu de surpresa os europeus: pensavam que os russos não tinham meios, ou não tinham coragem. O berreiro dos figurões ocidentais impedidos de entrar na Rússia é música aos ouvidos dos russos.
Sobre a crise da Ucrânia, há muitos que sonham com tanques russos varrendo Kiev e restaurando a paz civil na Ucrânia atormentada, mas esse sonho permanecerá não realizado, enquanto o presidente Putin acreditar que há outros meios, pacíficos, para resolver o problema. Mesmo assim, o estilo obsessivamente pró-paz, dos soviéticos, e o medo da guerra dão lugar a atitude mais vigorosa, dado que a guerra, quando nos é imposta, é necessidade inevitável da vida. O velho mantra entorpecedor de “qualquer coisa é melhor que guerra” caiu ante a realidade.
Desfile de civis com retratos de perentes mortos
na IIª Grande Guerra em 9/5/2015. Putin à frente.

As celebrações, dia 9 de maio de 2015, dos 70 anos do Dia da Vitória, ficarão para sempre na memória do povo, e deram aos cidadãos boa chance de ver os mais novos brinquedos dos militares russos. Esse ano, os russos destacaram a própria vitória, mais que qualquer vitimização, sofrimentos e perdas. A vitória foi vista como vitória dos russos sobre a Europa, não só sobre a Alemanha; porque praticamente todas as nações europeias, de França, Espanha e Itália, a Hungria e Bulgária, combateram ao lado de Hitler e contra a Rússia. É a mais absoluta verdade, mas foi verdade raramente mencionada, até esse ano. Fanadas as esperanças russas de que a Europa apoiasse as políticas russas de independência em benefício também da Europa, veio afinal a consciência de que os líderes europeus são servis hoje a Washington, como seus predecessores foram servis a Berlim.
Lentamente, ah, tão lentamente, o gigante russo recordou seus dias de juventude, as batalhas do Rio Volga e a tomada de Berlim. Essas memórias o fizeram rir de Frau Merkel e de Mr. Obama. Imediatamente depois do desfile militar do dia 9 de maio, milhões de civis marcharam pelas ruas carregando fotos dos pais e avôs, soldados na Grande Guerra. Foi movimento absolutamente inesperado: nem eu nem outros observadores e jornalistas, estrangeiros ou locais, previram evento de tais dimensões. A cidade planejara marcha de dez mil participantes; 50 vezes mais que isso, mais de meio milhão de pessoas marcharam pelas ruas só em Moscou. Em toda a Rússia foram 12 milhões.
Esse ato sem precedentes de solidariedade à Rússia disparou tremores sísmicos por toda a sociedade. Muitos dos caminhantes levavam imagens do comandante vitorioso daqueles dias, Joseph Stálin. Não é nome amado por todos, longe disso. Mas nome que, apenas mencionado, já faz tremer de fúria os gatos mais gordos e seus aliados, não pode ser de todo mau. Há quem queira devolver o nome de Stalingrado ao local da grande batalha, que foi alterado por Khrushchev. Mas Putin não gosta da ideia. Por enquanto.
A presença do Presidente Xi Jiping da China às celebrações de maio significou um realinhamento histórico com a China: é mudança de proporções oceânicas nas políticas russas. A conexão com a China só se fortalece, dia a dia. Essa é atitude nova: antes, russos e chineses sempre desconfiaram uns dos outros, mesmo depois de superada a hostilidade dos últimos dias do período soviético. Liberais moscovitas pró-ocidente descartaram os chineses e planejaram uma guerra contra a China, liderada pelos EUA. Hoje, esse pesadelo já é passado. Não estamos de volta exatamente aos anos 1950s, quando Mao e Stálin estabeleceram seus laços, mas estamos perto.
Xi Jinping e Putin nos 70 anos do Dia da Vitória

Há coisa de 800 anos, a Rússia esteve em situação semelhante, furiosamente pressionada pelo ocidente. O Papa abençoou uma Cruzada contra os russos, exigindo que aceitassem a hegemonia do ocidente, e desistissem de sua cristandade bizantina. Foi quando o príncipe Alexandre preferiu aceitar o patrocínio dos mongóis sucessores de Genghis Khan, a submeter-se ao diktat ocidental. A troca funcionou: a Rússia continuou a existir e o príncipe valente foi canonizado pela Igreja, como Santo Alexandre Nevsky. Os russos até hoje entendem que usar apoios orientais é menos perigoso para a alma russa do que se curvar a demandas ocidentais.
Será que Putin, nascido em São Petersburgo, que muito preza seus contatos europeus e fala quatro línguas fluentemente (mas não fala chinês), repetirá o feito de Santo Alexandre e realinhará a Rússia com o oriente? Seria perda gigante para a Europa, como Velho Continente convertido em colônia dos EUA.
São Petersburgo, cidade onde está enterrado o corpo de Santo Alexandre é, definitivamente, cidade europeia, virada para o oeste, diferente de Moscou, que olha para o leste. É especialmente deliciosa em junho, o mês das Noites Brancas, quando a cidade é banhada em luz fria e clara durante o dia, e em luz leitosa, quase opaca, à noite, com os lilases em plena floração, debruçados sobre o espelho d’água dos canais e rios que cortam a capital russa do norte, onde nunca se está longe de um curso d’água. A velha glória imperial ainda descansa às margens do rio Neva.
Ali foi o coração do Império Russo, até que Lênin levou o governo de volta para a antiga capital, Moscou. Por isso, durante os anos soviéticos, Petersburgo (então batizada Leningrado) não sofreu com os massivos programas de moradias populares que desfiguraram Moscou. O historiador britânico Arnold Toynbee (hoje caído em desgraça, por sua inclinação antissionista) disse que a mudança para Moscou “corporificou a reação da alma russa contra a civilização ocidental”. A presidência de Putin, ele talvez dissesse, corporificou uma guinada pró-Europa na alma russa. Algo como uma traição da Europa contra a Rússia (como alguns russos veem as coisas) teria levado Putin a afastar-se, agora, da Europa?
Putin discursa na abertura do SPIEF-2015

Vi o presidente Putin no recente Fórum Econômico Internacional em São Petersburgo. No Fórum, Putin saiu-se muito bem: calmo, impenetrável poker face, respondeu com sinceridade todas as perguntas. Em momento algum pareceu irritado ou incomodado. Lidou com calma com a crise da propriedade russa confiscada. Muita gente preferia vê-lo esmurrar a mesa, confiscar bens de franceses e belgas. Nada disso. Prometeu usar os meios legais facultados pelas cortes europeias de justiça.
Putin chegou a São Petersburgo depois de viagem muito bem-sucedida a Baku, capital do Azerbaijão rico em petróleo, onde os Jogos Europeus ofereceram oportunidade para longos encontros com os presidentes da Turquia e do Azerbaijão. Nenhum líder ocidental deu as caras, mas os governantes do nosso lado do mundo apreciaram devidamente a companhia uns dos outros.
Em resumo, o presidente Putin é homem de fala suave. Se tem algum grande porrete, não o exibe por aí. Não se mostra desconsolado, ante a grosseria e as más intenções ocidentais. Parece que está trabalhando muito em busca de arranjos alternativos, mas quer adiar pelo máximo tempo possível quaisquer decisões mais dolorosas. Eventualmente, talvez seja forçado a uma aliança estratégica com a China, que minará ainda mais o que resta da independência europeia.
Mas as coisas não são ou brancas ou pretas. A Rússia está conectada ao ocidente por várias inesperadas vias. O mais implacável inimigo da Rússia é o ex-Ministro de Relações Exteriores da Suécia, Carl Bildt. A esposa dele está proibida de entrar em território russo. Ao mesmo tempo, Bildt indicou um conselheiro para uma empresa russa de petróleo cujo proprietário e o segundo mais rico dos oligarcas russos, Michael Friedman. Friedman, um dos sete oligarcas originais dos tempos de Yeltsin, começou como cambista revendedor de ingressos para shows. Gasta prodigamente em escolas hebraicas de educação religiosa. O seu Alfa Bank tentou interromper a produção de novo tanque russo Armata, levando à falência a fábrica que produzia as proteções blindadas do tanque. Friedman e Putin são amigos. É o que deveria bastar contra a propaganda de que o cruel ditador russo seria inimigo jurado dos oligarcas judeus.
Os jornais russos são livres para atacar Putin...

Verdade é que a Rússia continua liberal, e os liberais russos copiam os liberais norte-americanos, mutatis mutandis. Tratam Putin como seus contrapartes nos EUA tratavam Bush II, embora, a julgar pelo vocabulário, Putin mais pareça um Kim Jong Il. Os jornais são livres para atacar Putin, e usam furiosamente essa liberdade. Diretores de teatro insertam “cacos” anti-Putin nas falas de peças clássicas, sempre como se Putin vivesse de falar contra a Igreja. No cinema, o mundo de Putin é reino de misérias e abusos, feito filme de Jim Jarmusch.
Mas o povo comum gosta de Putin, como Bush II era popular nos estados Republicanos. E gostariam ainda mais, se ele arrancasse dois olhos de norte-americanos, por olho russo. Por enquanto, Putin prefere prosseguir na retaliação simbólica.
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[*] Israel Shamir escreve extensivamente sobre assuntos públicos, principalmente com relação ao conflito Israel/Palestina e política russa, incluindo três livros, Galilee Flowers, Cabbala of Power e Masters of Discourse, disponíveis em inglês, francês, alemão, espanhol, russo, árabe, norueguês, sueco, italiano e húngaro.
Ele se descreve como um nativo de Novosibirsk, na Sibéria; mudou-se para Israel em 1969, serviu como pára-quedista no Exército e lutou na guerra de 1973; depois virou-se para o jornalismo escrito. No final dos anos 1970s ele se juntou à BBC em Londres depois de viver algum tempo no Japão. Regressou a Israel em 1980. Passou a escrever para o jornal israelense Haaretz; foi o porta-voz no Knesset pelo Partido Socialista de Israel (Mapam). Também traduziu e anotou para o russo, a partir do original, as obras enigmáticas de SY Agnon, o único escritor em hebraico a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Sua perspectiva sobre o conflito Israel/Palestina foi resumida em The Pine and the Olive,, publicado em 1988 e reeditado em 2004. Nesse mesmo ano foi recebido na Igreja Ortodoxa de Jerusalém ea Terra Santa, sendo batizado pelo Arcebispo Adam Teodósio Attalla Hanna. Atualmente vive em Jaffa, mas passa muito tempo em Moscou e Estocolmo; é pai de três filhos.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Quem foi? Quem foi?

1/3/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Boris Nemtsov
Quer dizer então que alguém matou Boris Nemtsov, 56 anos, quando passeava com a namorada, modelo ucraniana de 22 anos, por uma ponte em Moscou... Há imagens da cena do crime em CCTV

Vice-Primeiro-Ministro no governo de Boris Yeltsin, Nemtsov foi, no mínimo, parcialmente responsável pela máfia-ização da economia russa. Os únicos que não se alegraram quando Nemtsov e a gangue de Yeltsin deixaram o poder foram alguns oligarcas e os neoliberais “ocidentais”.

Depois de demitido do poder, e até ontem, Nemtsov foi figura insignificante da oposição política, com menos de 1% de votos. O verdadeiro partido de oposição na Rússia são os comunistas, com cerca de 20% do total de votos. Ninguém no governo tinha qualquer motivo para temer ou dar qualquer importância a Nemtsov.

Mikhail Gorbachev
Ontem, o ex-presidente soviético Gorbachev listou os que teriam algo a ganhar com a morte de Nemtsov:

Perguntado se as forças anti-Rússia no exterior poderiam explorar o crime a favor de seus próprios interesses, [Gorbachev] respondeu que “isso, precisamente, é o que acontecerá”.

Claro, algumas forças tentarão extrair vantagem desse crime para seus próprios objetivos – todos só pensam em como livrar-se de Putin, não é? Mas não acredito, de fato, que o Ocidente tenha ido a tal ponto, que tenham cometido o crime para promover seus interesses. Mas não há dúvidas de que o objetivo dos criminosos que assassinaram Boris era esse – disse ele.

Crimes desse tipo são obra de matadores difíceis de encontrar. Devem-se empreender todos os esforços para encontrar os criminosos, disse o ex-presidente.

Gorbachev ainda usa lentes cor-de-rosa quando olha na direção do “ocidente”. O “ocidente” não cometeria crime desse tipo para alcançar seus propósitos? Tanta ingenuidade chega a ser cômica.

Mikhail Chechetov, líder da oposição à junta de  Kiev, foi "suicidado" em 1/3/2015
E quanto aos muitos políticos legitimamente de oposição e que têm apoio popular massivo, que atualmente estão sendo suicidados na Ucrânia?

Quem foi? Quem foi?
  • Pode ter sido alguém que tivesse relações com a “modelo”?
  • Alguns gangsters cujos interesses tivessem sido assaltados nas privatizações para satisfazer outros gangsters realizadas sob governo de Nemtsov?
  • Algum oligarca ucraniano interessado em aprofundar a separação entre o “ocidente” e a Rússia?
  • Algum governo “ocidental” obrando para desestabilizar a Rússia?
Palpites, qualquer um pode dar. Meu palpite vale tanto quanto o seu. 


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Barou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Peculiaridades do caráter nacional russo

13/1/2015, [*] Dmitry OrlovClubOrlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Antiga divindade eslava, Zimnik: representado por um velho de longos cabelos e barbas brancos como neve, que usa um casaco branco, sempre de pés descalços. Carrega um cajado de ferro, que congela instantaneamente e torna sólido tudo em que toca. Pode gerar tempestades de gelo, tempestades de neve e nevoeiros. Anda pelo mundo roubando para si tudo que deseja, especialmente criancinhas malcomportadas.

Eventos recentes, como a derrubada do governo na Ucrânia, a secessão na Crimeia e a decisão dos crimeanos de unir-se à Federação Russa, a subsequente campanha militar contra civis no Leste da Ucrânia, sanções do ocidente contra a Rússia e, mais recentemente, o ataque ao rublo, levaram a uma espécie de fase de transição na sociedade russa, a qual, creio, é muito mal compreendida no ocidente, se é que é alguém a compreende, mesmo que mal, no ocidente. Essa deficiência de compreensão põe a Europa em posição de desvantagem, quando se trata de negociar um fim para a crise em curso.

Se, antes desses eventos, os russos davam-se por satisfeitos com se considerarem “apenas mais um país europeu”, eles agora foram relembrados de que são civilização distinta, com raízes civilizacionais diferentes (bizantinas, não romanas) – civilização que, mais de uma, duas vezes, num século, foi alvo de esforços ocidentais concertados para destruí-la, fossem esforços suecos, poloneses, franceses, alemães ou combinações dos acima listados. Assim o caráter russo condicionou-se num específico conjunto de modos os quais, se não forem corretamente compreendidos, podem com alta probabilidade levar ao desastre a Europa e o mundo.

Os que pensem que Bizâncio teria tido apenas pequena influência cultural sobre a Rússia, saibam que é influência chave. As influências culturais bizantinas, que vieram com o Cristianismo Ortodoxo, primeiro através da Crimeia (berço do Cristianismo na Rússia), depois através da capital russa Kiev (a mesma Kiev que é hoje capital da Ucrânia), ajudaram a Rússia a saltar adiante, beneficiando-se de praticamente um milênio de desenvolvimento cultural. Essas influências incluem a natureza burocrática opaca e pesadamente lerda do governo russo, que os ocidentais (que adoram transparência – dos outros) consideram tão enervante, além de várias outras coisas. Os russos às vezes chamam Moscou de ‘'Terceira Roma'’ – terceira, depois da própria Roma e de Constantinopla – e não é epíteto totalmente desprovido de significado. Mas não significa que a civilização russa tenha qualquer traço derivado; sim, ela soube absorver toda a herança clássica, vista sob muito específicas lentes orientais, mas o vasto ambiente do norte transformou aquela herança em algo radicalmente diferente.

Crescimento da Rússia de 1533 até 1894
Dado que esse tema é de vastíssima complexidade, tratarei apenas de quatro fatores, que considero essenciais para que todos compreendam a transformação que estamos atualmente testemunhando.

1. Reação a ofensa

As populações ocidentais emergiram num ambiente de recursos limitados e incansável pressão populacional, o que, em grande medida, determinou o modo como reagem quando são ofendidos. Por muito tempo, enquanto a autoridade central foi fraca, os conflitos resolviam-se com sangue, e mesmo qualquer pequeno confronto poderia converter velhos amigos, instantaneamente, em adversários de espadas desembainhadas. Era assim porque viviam em ambiente no qual defender o próprio espaço era essencial à sobrevivência.

Diferente disso, a Rússia emergiu como nação num ambiente de recursos quase infinitos, embora quase todos muito dispersos. Cresceu também do legado da rota comercial que levara dos vikings aos gregos, e que fora tão ativa, que geógrafos árabes acreditavam que houvesse um estreito de água salgada que ligava o Mar Negro e o Mar Báltico, embora a rota consistisse só de rios, tal era a quantidade de bens transportados. Nesse ambiente, era importante evitar qualquer conflito, e as pessoas que desembainhavam espadas a qualquer palavra mal pronunciada dificilmente se davam bem.

Assim sendo, emergiu ali uma estratégia para resolução de conflitos muito diferente, que sobrevive até hoje. Se você insulta, ofende ou de qualquer outro modo fere um russo, é altamente improvável que arranje briga (a menos que se trate de demonstração pública de como se briga, ou algum arranjo planejado em determinado número de rounds, para marcar pontos servindo-se de violência). O mais provável é que o russo simplesmente o mande à merda, e dali em diante nunca mais queira saber de qualquer contato com você. Se a proximidade torna difícil a indiferença, o russo considerará a possibilidade de mudar-se, seguindo em qualquer direção que o afaste de você.

É tão comum esse ato de fala na prática, que já está até abreviado numa interjeição monossilábica: “Пшёл!” (“Pshol!”) que pode ser referido simplesmente como “послать” (literalmente, “enviar”). Num ambiente onde há quantidade quase infinita de terra livre para se implantar e viver, essa estratégia faz perfeito sentido. Os russos vivem como povo implantado, mas quando têm de mudar-se, movem-se como nômades, cujo principal método para resolução de conflitos é a relocação voluntária.

Essa reação permanente a ofensas é uma das principais facetas da cultura russa, e ocidentais que não a compreendam dificilmente alcançarão qualquer resultado que lhes interesse ou que, pelo menos, compreendam. Para um ocidental, qualquer insulto pode ser superado com algumas palavras, como “Desculpe”. Para um russo, palavras são excesso desnecessário e incômodo de ruído, sobretudo se emitidas por alguém que você já mandou à merda. Oferecer desculpas verbais não acompanhadas por algo tangível é uma das poucas regras de polidez que, para os russos, assemelham-se a um luxo. Até há poucas décadas, o pedido de desculpas padrão em russo era “извиняюсь” (“izviniáius'”), que se pode traduzir literalmente como “eu me desculpo sozinho”. A Rússia é agora país muito mais polido, mas o padrão cultural básico permanece ativado.

Por mais que desculpas puramente verbais valham nada, a restituição é considerada valiosa e prestigiada. Acertar as coisas pode envolver partilha de uma posse de alto preço, ou alguma nova e significativa promessa-compromisso, ou anúncio de alguma mudança importante de rumo. O ponto é que todos esses eventos envolvem movimento de pivô-mudança-de-direção, não só palavras; porque, além de um certo ponto, palavras só fazem piorar a situação, o que se vê claramente no salto do “Vá à merda” para o estágio ainda menos satisfatório do “E já-já lhe ensino o caminho”.

2. Sobre invasões e invasores

A Rússia tem longa história de ser invadida de todas as direções, mas especialmente do ocidente, e a cultura russa desenvolveu uma determinada maneira de pensar, que os de fora têm dificuldade para compreender.

“Não há nazistas combatendo a favor da Ucrânia”.
(Se você leu e acreditou, troque de óculos e olhe outra vez)
São bandeiras nazistas e da OTAN, lado a lado.
Para começar, é importante perceber que quando os russos lutam para expulsar invasores (e ter a CIA e o Departamento de Estado dos EUA instalados no governo da Ucrânia com ajuda de nazistas ucranianos é, em todos os sentidos, uma invasão), eles não estão lutando por território, não, pelo menos, diretamente. Em vez disso, estão lutando pela Rússia como conceito. E esse conceito declara que a Rússia já foi invadida várias vezes, mas jamais qualquer invasor foi bem-sucedido ali.

Na mente russa, uma invasão bem-sucedida à Rússia envolveria matar absolutamente todos os russos e, como os russos orgulham-se de repetir:

“Eles não podem matar todos os russos” (“Нас всех не убьёшь”).

Com o tempo, a população recompõe-se (chegou a 22 milhões no final da IIª Guerra Mundial); mas o conceito, perdido uma vez, estará perdido para sempre. Pode soar estranho a ouvidos ocidentais que os russos descrevam o próprio país como “país de príncipes, poetas e santos”, mas é o que a Rússia é, é um estado mental. A Rússia não “tem” história: a Rússia “é”a própria história.

Porque os russos lutam pelo conceito de Rússia, muito mais que por qualquer porção de território russo, estão sempre dispostos a retirar-se – no primeiro momento. Quando Napoleão invadiu a Rússia, com planos para saquear o que encontrasse no caminho por dentro do país, só encontrou cinzas e fumaça: os russos haviam queimado as próprias casas, na retirada. Quando finalmente Napoleão chegou a Moscou, a capital também foi incendiada. Napoleão teve de acampar nos arredores, pensando que seria por pouco tempo, até que chegou à conclusão de que já não havia o que fazer (atacar a Sibéria?!), e seus soldados morreriam de fome e frio se ficassem ali, e bateu em rápida e vergonhosa retirada e abandonou os soldados franceses à própria sorte. Foi quando veio à tona outra faceta da herança cultural russa: cada camponês de cada vila incendiada quando os russos se retiraram lá estava, na linha de frente, quando os russos afinal avançaram, ardendo de vontade de meter uma bala num soldado francês.

O que restou do exército alemão que combateu na Rússia na IIa. Guerra Mundial (Stalingrado, 1942-1943)
Assim também, a invasão alemã durante a IIª Guerra Mundial conseguiu avançar rapidamente, tomando grandes porções de território, e os russos mais uma vez recuaram e evacuaram suas populações, realocando fábricas inteiras e outras instalações e instituições na Sibéria e realocando famílias no interior da Rússia. Até que o avanço dos alemães parou e, afinal, eles fizeram meia volta. O padrão repetiu-se, e mais uma vez o exército russo quebrou a moral do invasor, e os locais, que tiveram de suportar a ocupação, mantiveram a cooperação, organizaram-se em resistência e causaram o máximo de dano possível ao exército alemão invasor em retirada.

Outra adaptação russa para lidar com invasores é confiar no frio para ajudar no serviço. Procedimento padrão para desinsetizar e desratizar casas em muitas vilas russas é simplesmente não aquecer a casa: bastam uns poucos dias sob temperatura de -40ºC ou menos, e baratas, percevejos, piolhos, pulgas, cupins, camundongos e ratos morrem todos. Funciona também para invasores. A Rússia é o país mais setentrional do planeta (foto acima). O Canadá avança mais para o norte, mas a população canadense está concentrada ao longo da fronteira sul e não há grandes cidades canadenses acima do Círculo Polar. A Rússia tem ali duas grandes cidades. A vida na Rússia é, em vários sentidos, semelhante à vida no espaço sideral ou em mar aberto: é impossível sem suporte para sobrevivência humana. Ninguém sobrevive ao inverno russo sem a cooperação dos locais, e para afastar ou varrer dali todos os invasores basta negar-lhes cooperação. E se você pensa que algum invasor consegue obter alguma cooperação se matar uns poucos locais e aterrorizar os sobreviventes, releia o item acima, “Reação a ofensas”.

Murmansk, Latitude norte: 68°58′45″, 300 mil hab. em 12/1/2015: primeiro nascer do Sol, em 40 dias. Duração do dia: 38 minutos
3. Sobre potências estrangeiras

Praticamente toda a porção norte do continente eurasiano é território da Rússia, que compreende algo como 1/6 de toda a superfície seca do planeta Terra. Pelos padrões terráqueos, é território gigante. Não se trata de aberração ou acidente histórico: ao longo da história os russos foram absolutamente obrigados a garantir a própria segurança coletiva, o que fizeram garantindo para eles mesmos a maior quantidade possível de território. Se você não sabe o que os motivaria a agir assim, leia acima o item “Sobre invasões e invasores”.

Se você pensa que potências estrangeiras tantas e repetidas vezes tentaram invadir e conquistar a Rússia, pensando em obter acesso àqueles vastos recursos naturais, você pensa errado: o acesso sempre esteve ali, desimpedido. Os russos não são conhecidos por se recusarem a vender os próprios recursos naturais, mesmo para potenciais inimigos. Não. Os inimigos da Rússia sempre pensaram em pôr as mãos nos recursos russos, sem ter de pagar por eles. Para eles, a existência da Rússia sempre foi obstáculo – que eles sempre tentaram eliminar mediante violência.

A única coisa que ganharam foi preços cada vez mais altos para eles mesmos, cada vez que falhava mais uma invasão. O cálculo é simples: os de fora querem os recursos russos; para defender os próprios recursos, a Rússia precisa de estado forte e centralizado, com exército grande e poderoso; ergo, os de fora passaram a ter de pagar para manter o estado e o exército da Rússia. Por causa disso, quase todas as necessidades financeiras do estado russo são atendidas graças a tarifas que importadores estrangeiros pagam para ter principalmente petróleo e gás natural; assim a população russa é poupada de ter de pagar impostos altíssimos. Afinal de contas, a população russa já é obrigada a pagar muito caro cada vez que tem de lutar contra invasões periódicas; por que fazer os russos pagarem também altos impostos?

Assim, o estado russo é estado aduaneiro: usa tarifas e impostos alfandegários para arrancar dinheiro dos inimigos que querem destruí-lo e usa o mesmo dinheiro para defender-se. Dado que os recursos naturais russos não são renováveis, quanto mais hostil for o mundo exterior contra a Rússia, mais caro terá o mesmo mundo exterior de pagar para manter a defesa nacional russa.

Observe-se que essa política é dirigida contra potências estrangeiras, não contra povos não russos. Ao longo dos séculos, a Rússia absorveu muitos imigrados: da Alemanha, durante a Guerra dos 30 anos; da França, depois da Revolução Francesa. Mas recentemente, chegaram fluxos de imigrantes do Vietnã, Coreia, China e Ásia Central. Ano passado, a Rússia absorveu mais imigrantes que qualquer outro país do mundo – exceto os EUA, que agora enfrentam influxo migratório de países abaixo da fronteira sul dos EUA, cujas populações foram violentamente empobrecidas pelas políticas dos EUA. Acima de tudo, os russos estão absorvendo forte influxo, que inclui quase um milhão de imigrados vindos da Ucrânia varrida pela guerra – e os russos não estão reclamando. A Rússia é nação de imigrantes, mais que muitas outras. É mais verdadeiro cadinho de povos, que os EUA.

4. Obrigado, mas sabemos fazer o nosso

Um dos traços culturais mais interessantes é que os russos sempre se sentiram obrigados a brilhar em todas as categorias, do balé e da patinação artística ao hockey, e do futebol às viagens espaciais e fabricação de microchips. Você talvez pense que champagne seria marca registrada de vinho francês, mas verifiquei recentemente que “Советское шампанское” (“Champanhe Soviético”) ainda vende muito bem no período que antecede a festa de Ano Novo, e não só na Rússia, mas também em lojas russas nos EUA, porque, você compreende, a coisa francesa até que é boa, mas não tem sabor suficientemente russo.

Para praticamente tudo que você imagine há uma versão russa, que os russos entendem que seja melhor, e em muitos casos declaram que antecede a “outra” (o rádio, por exemplo, foi inventado por Popov, não por Marconi). Há exceções (por exemplo: frutas tropicais) que são admitidas como excelentes, mas desde que fornecidas por “nação irmã”, como Cuba. Foi o padrão durante os anos soviéticos, e parece estar voltando, em certa medida, hoje.

Leonid Brezhnev
Durante a “estagnação” de Brezhnev/ Andropov/ Gorbachev a inovação russa realmente estagnou, como todo o resto, e a Rússia perdeu terreno para o ocidente, em termos tecnológicos (não em termos culturais). Depois do colapso dos soviéticos, os russos mostraram-se sedentos de importações ocidentais; normal, se se considera que a Rússia, então, produzia praticamente nada de coisa alguma. Então, durante os anos 1990s, veio a era dos compradores ocidentais, que enfiaram produtos importados goela abaixo dos russos, com o objetivo de longo prazo de acabar com a indústria russa e tornar a Rússia puro fornecedor de matérias-primas, momento em que, afinal, a Rússia estaria sem defesa contra embargos e poderia ser facilmente forçada a ceder a própria soberania. Seria uma invasão por vias não militares, contra a qual a Rússia ver-se-ia indefesa.

Esse processo até que avançou, antes de sofrer um que outro grave revés.

  • Primeiro, a manufatura e as exportações de não hidrocarbonetos duplicou várias vezes ao longo de uma década. A avançada incluiu exportações de grãos, armas e alta tecnologia.
  • Segundo, a Rússia encontrou pelo mundo vários ótimos, melhores, mais baratos, mais amigáveis parceiros comerciais. Mesmo assim, o comércio da Rússia com o ocidente, especialmente com a União Europeia, não é, não, de modo algum, insignificante.
  • Terceiro, a indústria russa da Defesa conseguiu manter seus próprios padrões e manteve-se independente de importações. (É exatamente o que não se pode dizer das empresas fornecedoras da Defesa no ocidente, que dependem completamente das exportações russas de titânio).

E afinal desabou a tempestade perfeita sobre os compradores: o rublo foi parcialmente desvalorizado, em resposta aos baixos preços do petróleo, tirando do páreo do mercado os importados e ajudando os produtores domésticos; as sanções já haviam minado gravemente a confiança que os russos ainda tivessem em fornecedores ocidentais; e o conflito na Crimeia fez aumentar a confiança que os russos sempre tiveram nas próprias competências e capacidades. O governo russo está colhendo a oportunidade para estimular empresas que possam promover rápida substituição de importações, com troca de produtos importados por produtos russos. O Banco Central da Rússia já foi encarregado de financiar essas empresas com juros que tornem a substituição de importações ainda mais atraente.

Muita gente está construindo comparações entre o período em que estamos agora e a última vez em que os preços do petróleo despencaram – chegaram a US$ 10/barril – o que, em certo sentido, precipitou o colapso do governo soviético. Mas essa analogia é falsa. Naquele momento, a União Soviética estava economicamente estagnada e dependia integralmente do crédito ocidental para garantir as importações de grãos, sem os quais não conseguiria criar gado suficiente para alimentar a população.

Mikhail Gorbachev
E, no governo, estava Gorbachev, covarde, maleável – homem de “panos quentes”, capitulador, saco de vento liberal mundano, cuja mulher amava fazer compras em Londres. O povo russo o desprezava e chamava-o de “Mishka, o manchado”, por causa da marca de nascença na testa.

Hoje, a Rússia está ressurgente, é um dos maiores exportadores mundiais de grãos e tem no governo o frio, valente e implacável presidente Putin, com índices de aprovação entre os eleitores que já passaram de 80%. Comentaristas e analistas que comparem a Rússia de hoje e a URSS pré-colapso só fazem prova da própria ignorância.

Conclusões

As conclusões quase se autorredigem. O que temos ante os olhos é receita de desastre. Assim sendo, escreverei sob o formato de receita de bolo.

  1. Tome uma nação cujo povo reage a ofensas mandando você à merda e recusando-se a ter a ver qualquer coisa, seja o que for, com você, em vez de pôr-se a dar tiros. Examine bem e assegure-se de que seja a mesma nação cujos recursos naturais são essenciais para manter as lâmpadas acesas na sua casa e a sua própria casa, aquecida; e para encher os seus próprios [seus, de você, não dela!] tanques de aviões de passageiros e jatos de combate, e para longa série de outras coisas essenciais. Considere que um quarto de todas as lâmpadas que há nos EUA só acendem graças a combustível nuclear russo, e que qualquer corte do gás russo para a União Europeia seria cataclismo de grau máximo.

  1. Faça com que a mesma nação sinta-se como se estivesse sendo invadida por um governo ali instalado e que é hostil aos que vivam num território que a população daquela nação considera parte da própria pátria histórica. A única parte não russa da Ucrânia é a Galicia, que se separou há muitos séculos, e da qual a maioria dos russos lhe dirá, sendo o caso, que, já que você vai à merda, pode aproveitar e levar com você a Galicia. Se você gosta de neonazistas, fique com eles p’ra você. E nunca esqueça o que os russos fazem dos invasores: congelam eles e descartam.

  1. Imponha sanções econômicas e financeiras à Rússia. E assista, em desconsolo, aos seus exportadores que começam a perder dinheiro quando a Rússia, em retaliação, bloqueia suas exportações agrícolas. Não esqueça que a Rússia é país que, porque sobreviveu a lista longa de tentativas de invasão, confia já tradicionalmente em estados estrangeiros hostis para que financiem a defesa da Rússia contra eles mesmos. Se não funcionar, os russos recorrerão então a outros meios para conter invasores, como o congelá-los e descartá-los. “Zero gás para membros da OTAN” parece ser excelente slogan. Espero e rezo para que em Moscou, não pegue.

  1. Prepare ataque contra a moeda nacional do tal país, fazendo-a perder parte do valor ao mesmo tempo em que o preço do petróleo desabe. Assista, desconsolado, às risadas dos funcionários russos no Banco Central russo, porque o rublo baixo manteve inalteradas as entradas de dinheiro para o Estado, apesar do baixo preço do petróleo, o que consertou algum potencial déficit no orçamento. Assista, desconsolado, a quebradeira entre os exportadores amigos dos autores da receita, porque o que eles exportam é varrido para fora do mercado russo, porque não tem preço para competir. Não esqueça que a Rússia não tem dívida interna, mantém muito bem controlado um microscópico déficit em orçamento, tem gordas reservas em moeda estrangeira e ótimas reservas em ouro. Não esqueça tampouco que os seus [de você, que está seguindo essa receita para preparar o desastre] bancos emprestaram centenas de bilhões de dólares a empresários e empresas russas (as mesmas que, agora, estão sem acesso ao sistema bancário “ocidental”, por causa das sanções). Espero e rezo para que a Rússia não congele pagamentos de dívidas a bancos ocidentais até que as sanções sejam levantadas, porque, se a Rússia fizer isso, os bancos ocidentais explodem.

  1. Assista, em desconsolo, enquanto a Rússia assina grandes negócios de exportação de gás com meio mundo, exceto você. Será que depois que todos tiverem recebido todo o gás de que precisam, ainda restará algum gás p’ra você? Fato é que esse já não é problema dos russos, porque você ofendeu os russos; e, sendo você quem é, os russos já o mandaram à merda (não se esqueça de, quando for, levar junto a Galícia) e, doravante, só negociarão com outros países, mais amigáveis.

  1. Continue a assistir, desconsolado, enquanto a Rússia procura ativamente meios para romper a maios quantidade possível de laços comerciais que a ligam a você, encontrando fornecedores em outras partes do mundo ou organizando-se para substituir importações.

Mas agora vem a surpresa – impressionantemente, para dizer o mínimo, subnoticiada: a Rússia acaba de propor um bom negócio à União Europeia. Se a União Europeia recusar-se a associar-se à Parceria Transatlântica para Comércio e Investimento com os EUA (“parceria” a qual, por falar disso, ferirá economicamente a própria União Europeia), nesse caso a União Europeia poderá associar-se à União Aduaneira (Eurasiana) com a Rússia. Por que os europeus se deixariam congelar & descartar, se podemos congelar & descartar Washington, em vez deles? Aí está a “indenização” que a Rússia aceitaria, a reparação pelo comportamento ofensivo da União Europeia, contra a Rússia no caso da Ucrânia e das sanções.

Essa oferta-convite, vinda de um país que é estado aduaneiro, é ainda mais generosa. Há muitas e muitas camadas nesse convite-oferta: há aí o reconhecimento de que a UE não representa ameaça militar contra a Rússia nem, tampouco, alguma grave ameaça econômica; a evidência de que países europeus são bonitinhos, pequeninos, fofos e fazem ótimos queijos e salsichas, mas a atual safra de políticos nacionais que está mandando por “lá” é frouxa e acanalhada e controlada por Washington; e precisam de tranco forte para que entendam onde, realmente, estão ancorados os reais interesses de seus países...

Será que a União Europeia aceitará a oferta-convite? Ou acolherá a Galícia como novo estado-membro, e, na sequência será... congelamento & descarte?!


[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net