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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Peculiaridades do caráter nacional russo

13/1/2015, [*] Dmitry OrlovClubOrlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Antiga divindade eslava, Zimnik: representado por um velho de longos cabelos e barbas brancos como neve, que usa um casaco branco, sempre de pés descalços. Carrega um cajado de ferro, que congela instantaneamente e torna sólido tudo em que toca. Pode gerar tempestades de gelo, tempestades de neve e nevoeiros. Anda pelo mundo roubando para si tudo que deseja, especialmente criancinhas malcomportadas.

Eventos recentes, como a derrubada do governo na Ucrânia, a secessão na Crimeia e a decisão dos crimeanos de unir-se à Federação Russa, a subsequente campanha militar contra civis no Leste da Ucrânia, sanções do ocidente contra a Rússia e, mais recentemente, o ataque ao rublo, levaram a uma espécie de fase de transição na sociedade russa, a qual, creio, é muito mal compreendida no ocidente, se é que é alguém a compreende, mesmo que mal, no ocidente. Essa deficiência de compreensão põe a Europa em posição de desvantagem, quando se trata de negociar um fim para a crise em curso.

Se, antes desses eventos, os russos davam-se por satisfeitos com se considerarem “apenas mais um país europeu”, eles agora foram relembrados de que são civilização distinta, com raízes civilizacionais diferentes (bizantinas, não romanas) – civilização que, mais de uma, duas vezes, num século, foi alvo de esforços ocidentais concertados para destruí-la, fossem esforços suecos, poloneses, franceses, alemães ou combinações dos acima listados. Assim o caráter russo condicionou-se num específico conjunto de modos os quais, se não forem corretamente compreendidos, podem com alta probabilidade levar ao desastre a Europa e o mundo.

Os que pensem que Bizâncio teria tido apenas pequena influência cultural sobre a Rússia, saibam que é influência chave. As influências culturais bizantinas, que vieram com o Cristianismo Ortodoxo, primeiro através da Crimeia (berço do Cristianismo na Rússia), depois através da capital russa Kiev (a mesma Kiev que é hoje capital da Ucrânia), ajudaram a Rússia a saltar adiante, beneficiando-se de praticamente um milênio de desenvolvimento cultural. Essas influências incluem a natureza burocrática opaca e pesadamente lerda do governo russo, que os ocidentais (que adoram transparência – dos outros) consideram tão enervante, além de várias outras coisas. Os russos às vezes chamam Moscou de ‘'Terceira Roma'’ – terceira, depois da própria Roma e de Constantinopla – e não é epíteto totalmente desprovido de significado. Mas não significa que a civilização russa tenha qualquer traço derivado; sim, ela soube absorver toda a herança clássica, vista sob muito específicas lentes orientais, mas o vasto ambiente do norte transformou aquela herança em algo radicalmente diferente.

Crescimento da Rússia de 1533 até 1894
Dado que esse tema é de vastíssima complexidade, tratarei apenas de quatro fatores, que considero essenciais para que todos compreendam a transformação que estamos atualmente testemunhando.

1. Reação a ofensa

As populações ocidentais emergiram num ambiente de recursos limitados e incansável pressão populacional, o que, em grande medida, determinou o modo como reagem quando são ofendidos. Por muito tempo, enquanto a autoridade central foi fraca, os conflitos resolviam-se com sangue, e mesmo qualquer pequeno confronto poderia converter velhos amigos, instantaneamente, em adversários de espadas desembainhadas. Era assim porque viviam em ambiente no qual defender o próprio espaço era essencial à sobrevivência.

Diferente disso, a Rússia emergiu como nação num ambiente de recursos quase infinitos, embora quase todos muito dispersos. Cresceu também do legado da rota comercial que levara dos vikings aos gregos, e que fora tão ativa, que geógrafos árabes acreditavam que houvesse um estreito de água salgada que ligava o Mar Negro e o Mar Báltico, embora a rota consistisse só de rios, tal era a quantidade de bens transportados. Nesse ambiente, era importante evitar qualquer conflito, e as pessoas que desembainhavam espadas a qualquer palavra mal pronunciada dificilmente se davam bem.

Assim sendo, emergiu ali uma estratégia para resolução de conflitos muito diferente, que sobrevive até hoje. Se você insulta, ofende ou de qualquer outro modo fere um russo, é altamente improvável que arranje briga (a menos que se trate de demonstração pública de como se briga, ou algum arranjo planejado em determinado número de rounds, para marcar pontos servindo-se de violência). O mais provável é que o russo simplesmente o mande à merda, e dali em diante nunca mais queira saber de qualquer contato com você. Se a proximidade torna difícil a indiferença, o russo considerará a possibilidade de mudar-se, seguindo em qualquer direção que o afaste de você.

É tão comum esse ato de fala na prática, que já está até abreviado numa interjeição monossilábica: “Пшёл!” (“Pshol!”) que pode ser referido simplesmente como “послать” (literalmente, “enviar”). Num ambiente onde há quantidade quase infinita de terra livre para se implantar e viver, essa estratégia faz perfeito sentido. Os russos vivem como povo implantado, mas quando têm de mudar-se, movem-se como nômades, cujo principal método para resolução de conflitos é a relocação voluntária.

Essa reação permanente a ofensas é uma das principais facetas da cultura russa, e ocidentais que não a compreendam dificilmente alcançarão qualquer resultado que lhes interesse ou que, pelo menos, compreendam. Para um ocidental, qualquer insulto pode ser superado com algumas palavras, como “Desculpe”. Para um russo, palavras são excesso desnecessário e incômodo de ruído, sobretudo se emitidas por alguém que você já mandou à merda. Oferecer desculpas verbais não acompanhadas por algo tangível é uma das poucas regras de polidez que, para os russos, assemelham-se a um luxo. Até há poucas décadas, o pedido de desculpas padrão em russo era “извиняюсь” (“izviniáius'”), que se pode traduzir literalmente como “eu me desculpo sozinho”. A Rússia é agora país muito mais polido, mas o padrão cultural básico permanece ativado.

Por mais que desculpas puramente verbais valham nada, a restituição é considerada valiosa e prestigiada. Acertar as coisas pode envolver partilha de uma posse de alto preço, ou alguma nova e significativa promessa-compromisso, ou anúncio de alguma mudança importante de rumo. O ponto é que todos esses eventos envolvem movimento de pivô-mudança-de-direção, não só palavras; porque, além de um certo ponto, palavras só fazem piorar a situação, o que se vê claramente no salto do “Vá à merda” para o estágio ainda menos satisfatório do “E já-já lhe ensino o caminho”.

2. Sobre invasões e invasores

A Rússia tem longa história de ser invadida de todas as direções, mas especialmente do ocidente, e a cultura russa desenvolveu uma determinada maneira de pensar, que os de fora têm dificuldade para compreender.

“Não há nazistas combatendo a favor da Ucrânia”.
(Se você leu e acreditou, troque de óculos e olhe outra vez)
São bandeiras nazistas e da OTAN, lado a lado.
Para começar, é importante perceber que quando os russos lutam para expulsar invasores (e ter a CIA e o Departamento de Estado dos EUA instalados no governo da Ucrânia com ajuda de nazistas ucranianos é, em todos os sentidos, uma invasão), eles não estão lutando por território, não, pelo menos, diretamente. Em vez disso, estão lutando pela Rússia como conceito. E esse conceito declara que a Rússia já foi invadida várias vezes, mas jamais qualquer invasor foi bem-sucedido ali.

Na mente russa, uma invasão bem-sucedida à Rússia envolveria matar absolutamente todos os russos e, como os russos orgulham-se de repetir:

“Eles não podem matar todos os russos” (“Нас всех не убьёшь”).

Com o tempo, a população recompõe-se (chegou a 22 milhões no final da IIª Guerra Mundial); mas o conceito, perdido uma vez, estará perdido para sempre. Pode soar estranho a ouvidos ocidentais que os russos descrevam o próprio país como “país de príncipes, poetas e santos”, mas é o que a Rússia é, é um estado mental. A Rússia não “tem” história: a Rússia “é”a própria história.

Porque os russos lutam pelo conceito de Rússia, muito mais que por qualquer porção de território russo, estão sempre dispostos a retirar-se – no primeiro momento. Quando Napoleão invadiu a Rússia, com planos para saquear o que encontrasse no caminho por dentro do país, só encontrou cinzas e fumaça: os russos haviam queimado as próprias casas, na retirada. Quando finalmente Napoleão chegou a Moscou, a capital também foi incendiada. Napoleão teve de acampar nos arredores, pensando que seria por pouco tempo, até que chegou à conclusão de que já não havia o que fazer (atacar a Sibéria?!), e seus soldados morreriam de fome e frio se ficassem ali, e bateu em rápida e vergonhosa retirada e abandonou os soldados franceses à própria sorte. Foi quando veio à tona outra faceta da herança cultural russa: cada camponês de cada vila incendiada quando os russos se retiraram lá estava, na linha de frente, quando os russos afinal avançaram, ardendo de vontade de meter uma bala num soldado francês.

O que restou do exército alemão que combateu na Rússia na IIa. Guerra Mundial (Stalingrado, 1942-1943)
Assim também, a invasão alemã durante a IIª Guerra Mundial conseguiu avançar rapidamente, tomando grandes porções de território, e os russos mais uma vez recuaram e evacuaram suas populações, realocando fábricas inteiras e outras instalações e instituições na Sibéria e realocando famílias no interior da Rússia. Até que o avanço dos alemães parou e, afinal, eles fizeram meia volta. O padrão repetiu-se, e mais uma vez o exército russo quebrou a moral do invasor, e os locais, que tiveram de suportar a ocupação, mantiveram a cooperação, organizaram-se em resistência e causaram o máximo de dano possível ao exército alemão invasor em retirada.

Outra adaptação russa para lidar com invasores é confiar no frio para ajudar no serviço. Procedimento padrão para desinsetizar e desratizar casas em muitas vilas russas é simplesmente não aquecer a casa: bastam uns poucos dias sob temperatura de -40ºC ou menos, e baratas, percevejos, piolhos, pulgas, cupins, camundongos e ratos morrem todos. Funciona também para invasores. A Rússia é o país mais setentrional do planeta (foto acima). O Canadá avança mais para o norte, mas a população canadense está concentrada ao longo da fronteira sul e não há grandes cidades canadenses acima do Círculo Polar. A Rússia tem ali duas grandes cidades. A vida na Rússia é, em vários sentidos, semelhante à vida no espaço sideral ou em mar aberto: é impossível sem suporte para sobrevivência humana. Ninguém sobrevive ao inverno russo sem a cooperação dos locais, e para afastar ou varrer dali todos os invasores basta negar-lhes cooperação. E se você pensa que algum invasor consegue obter alguma cooperação se matar uns poucos locais e aterrorizar os sobreviventes, releia o item acima, “Reação a ofensas”.

Murmansk, Latitude norte: 68°58′45″, 300 mil hab. em 12/1/2015: primeiro nascer do Sol, em 40 dias. Duração do dia: 38 minutos
3. Sobre potências estrangeiras

Praticamente toda a porção norte do continente eurasiano é território da Rússia, que compreende algo como 1/6 de toda a superfície seca do planeta Terra. Pelos padrões terráqueos, é território gigante. Não se trata de aberração ou acidente histórico: ao longo da história os russos foram absolutamente obrigados a garantir a própria segurança coletiva, o que fizeram garantindo para eles mesmos a maior quantidade possível de território. Se você não sabe o que os motivaria a agir assim, leia acima o item “Sobre invasões e invasores”.

Se você pensa que potências estrangeiras tantas e repetidas vezes tentaram invadir e conquistar a Rússia, pensando em obter acesso àqueles vastos recursos naturais, você pensa errado: o acesso sempre esteve ali, desimpedido. Os russos não são conhecidos por se recusarem a vender os próprios recursos naturais, mesmo para potenciais inimigos. Não. Os inimigos da Rússia sempre pensaram em pôr as mãos nos recursos russos, sem ter de pagar por eles. Para eles, a existência da Rússia sempre foi obstáculo – que eles sempre tentaram eliminar mediante violência.

A única coisa que ganharam foi preços cada vez mais altos para eles mesmos, cada vez que falhava mais uma invasão. O cálculo é simples: os de fora querem os recursos russos; para defender os próprios recursos, a Rússia precisa de estado forte e centralizado, com exército grande e poderoso; ergo, os de fora passaram a ter de pagar para manter o estado e o exército da Rússia. Por causa disso, quase todas as necessidades financeiras do estado russo são atendidas graças a tarifas que importadores estrangeiros pagam para ter principalmente petróleo e gás natural; assim a população russa é poupada de ter de pagar impostos altíssimos. Afinal de contas, a população russa já é obrigada a pagar muito caro cada vez que tem de lutar contra invasões periódicas; por que fazer os russos pagarem também altos impostos?

Assim, o estado russo é estado aduaneiro: usa tarifas e impostos alfandegários para arrancar dinheiro dos inimigos que querem destruí-lo e usa o mesmo dinheiro para defender-se. Dado que os recursos naturais russos não são renováveis, quanto mais hostil for o mundo exterior contra a Rússia, mais caro terá o mesmo mundo exterior de pagar para manter a defesa nacional russa.

Observe-se que essa política é dirigida contra potências estrangeiras, não contra povos não russos. Ao longo dos séculos, a Rússia absorveu muitos imigrados: da Alemanha, durante a Guerra dos 30 anos; da França, depois da Revolução Francesa. Mas recentemente, chegaram fluxos de imigrantes do Vietnã, Coreia, China e Ásia Central. Ano passado, a Rússia absorveu mais imigrantes que qualquer outro país do mundo – exceto os EUA, que agora enfrentam influxo migratório de países abaixo da fronteira sul dos EUA, cujas populações foram violentamente empobrecidas pelas políticas dos EUA. Acima de tudo, os russos estão absorvendo forte influxo, que inclui quase um milhão de imigrados vindos da Ucrânia varrida pela guerra – e os russos não estão reclamando. A Rússia é nação de imigrantes, mais que muitas outras. É mais verdadeiro cadinho de povos, que os EUA.

4. Obrigado, mas sabemos fazer o nosso

Um dos traços culturais mais interessantes é que os russos sempre se sentiram obrigados a brilhar em todas as categorias, do balé e da patinação artística ao hockey, e do futebol às viagens espaciais e fabricação de microchips. Você talvez pense que champagne seria marca registrada de vinho francês, mas verifiquei recentemente que “Советское шампанское” (“Champanhe Soviético”) ainda vende muito bem no período que antecede a festa de Ano Novo, e não só na Rússia, mas também em lojas russas nos EUA, porque, você compreende, a coisa francesa até que é boa, mas não tem sabor suficientemente russo.

Para praticamente tudo que você imagine há uma versão russa, que os russos entendem que seja melhor, e em muitos casos declaram que antecede a “outra” (o rádio, por exemplo, foi inventado por Popov, não por Marconi). Há exceções (por exemplo: frutas tropicais) que são admitidas como excelentes, mas desde que fornecidas por “nação irmã”, como Cuba. Foi o padrão durante os anos soviéticos, e parece estar voltando, em certa medida, hoje.

Leonid Brezhnev
Durante a “estagnação” de Brezhnev/ Andropov/ Gorbachev a inovação russa realmente estagnou, como todo o resto, e a Rússia perdeu terreno para o ocidente, em termos tecnológicos (não em termos culturais). Depois do colapso dos soviéticos, os russos mostraram-se sedentos de importações ocidentais; normal, se se considera que a Rússia, então, produzia praticamente nada de coisa alguma. Então, durante os anos 1990s, veio a era dos compradores ocidentais, que enfiaram produtos importados goela abaixo dos russos, com o objetivo de longo prazo de acabar com a indústria russa e tornar a Rússia puro fornecedor de matérias-primas, momento em que, afinal, a Rússia estaria sem defesa contra embargos e poderia ser facilmente forçada a ceder a própria soberania. Seria uma invasão por vias não militares, contra a qual a Rússia ver-se-ia indefesa.

Esse processo até que avançou, antes de sofrer um que outro grave revés.

  • Primeiro, a manufatura e as exportações de não hidrocarbonetos duplicou várias vezes ao longo de uma década. A avançada incluiu exportações de grãos, armas e alta tecnologia.
  • Segundo, a Rússia encontrou pelo mundo vários ótimos, melhores, mais baratos, mais amigáveis parceiros comerciais. Mesmo assim, o comércio da Rússia com o ocidente, especialmente com a União Europeia, não é, não, de modo algum, insignificante.
  • Terceiro, a indústria russa da Defesa conseguiu manter seus próprios padrões e manteve-se independente de importações. (É exatamente o que não se pode dizer das empresas fornecedoras da Defesa no ocidente, que dependem completamente das exportações russas de titânio).

E afinal desabou a tempestade perfeita sobre os compradores: o rublo foi parcialmente desvalorizado, em resposta aos baixos preços do petróleo, tirando do páreo do mercado os importados e ajudando os produtores domésticos; as sanções já haviam minado gravemente a confiança que os russos ainda tivessem em fornecedores ocidentais; e o conflito na Crimeia fez aumentar a confiança que os russos sempre tiveram nas próprias competências e capacidades. O governo russo está colhendo a oportunidade para estimular empresas que possam promover rápida substituição de importações, com troca de produtos importados por produtos russos. O Banco Central da Rússia já foi encarregado de financiar essas empresas com juros que tornem a substituição de importações ainda mais atraente.

Muita gente está construindo comparações entre o período em que estamos agora e a última vez em que os preços do petróleo despencaram – chegaram a US$ 10/barril – o que, em certo sentido, precipitou o colapso do governo soviético. Mas essa analogia é falsa. Naquele momento, a União Soviética estava economicamente estagnada e dependia integralmente do crédito ocidental para garantir as importações de grãos, sem os quais não conseguiria criar gado suficiente para alimentar a população.

Mikhail Gorbachev
E, no governo, estava Gorbachev, covarde, maleável – homem de “panos quentes”, capitulador, saco de vento liberal mundano, cuja mulher amava fazer compras em Londres. O povo russo o desprezava e chamava-o de “Mishka, o manchado”, por causa da marca de nascença na testa.

Hoje, a Rússia está ressurgente, é um dos maiores exportadores mundiais de grãos e tem no governo o frio, valente e implacável presidente Putin, com índices de aprovação entre os eleitores que já passaram de 80%. Comentaristas e analistas que comparem a Rússia de hoje e a URSS pré-colapso só fazem prova da própria ignorância.

Conclusões

As conclusões quase se autorredigem. O que temos ante os olhos é receita de desastre. Assim sendo, escreverei sob o formato de receita de bolo.

  1. Tome uma nação cujo povo reage a ofensas mandando você à merda e recusando-se a ter a ver qualquer coisa, seja o que for, com você, em vez de pôr-se a dar tiros. Examine bem e assegure-se de que seja a mesma nação cujos recursos naturais são essenciais para manter as lâmpadas acesas na sua casa e a sua própria casa, aquecida; e para encher os seus próprios [seus, de você, não dela!] tanques de aviões de passageiros e jatos de combate, e para longa série de outras coisas essenciais. Considere que um quarto de todas as lâmpadas que há nos EUA só acendem graças a combustível nuclear russo, e que qualquer corte do gás russo para a União Europeia seria cataclismo de grau máximo.

  1. Faça com que a mesma nação sinta-se como se estivesse sendo invadida por um governo ali instalado e que é hostil aos que vivam num território que a população daquela nação considera parte da própria pátria histórica. A única parte não russa da Ucrânia é a Galicia, que se separou há muitos séculos, e da qual a maioria dos russos lhe dirá, sendo o caso, que, já que você vai à merda, pode aproveitar e levar com você a Galicia. Se você gosta de neonazistas, fique com eles p’ra você. E nunca esqueça o que os russos fazem dos invasores: congelam eles e descartam.

  1. Imponha sanções econômicas e financeiras à Rússia. E assista, em desconsolo, aos seus exportadores que começam a perder dinheiro quando a Rússia, em retaliação, bloqueia suas exportações agrícolas. Não esqueça que a Rússia é país que, porque sobreviveu a lista longa de tentativas de invasão, confia já tradicionalmente em estados estrangeiros hostis para que financiem a defesa da Rússia contra eles mesmos. Se não funcionar, os russos recorrerão então a outros meios para conter invasores, como o congelá-los e descartá-los. “Zero gás para membros da OTAN” parece ser excelente slogan. Espero e rezo para que em Moscou, não pegue.

  1. Prepare ataque contra a moeda nacional do tal país, fazendo-a perder parte do valor ao mesmo tempo em que o preço do petróleo desabe. Assista, desconsolado, às risadas dos funcionários russos no Banco Central russo, porque o rublo baixo manteve inalteradas as entradas de dinheiro para o Estado, apesar do baixo preço do petróleo, o que consertou algum potencial déficit no orçamento. Assista, desconsolado, a quebradeira entre os exportadores amigos dos autores da receita, porque o que eles exportam é varrido para fora do mercado russo, porque não tem preço para competir. Não esqueça que a Rússia não tem dívida interna, mantém muito bem controlado um microscópico déficit em orçamento, tem gordas reservas em moeda estrangeira e ótimas reservas em ouro. Não esqueça tampouco que os seus [de você, que está seguindo essa receita para preparar o desastre] bancos emprestaram centenas de bilhões de dólares a empresários e empresas russas (as mesmas que, agora, estão sem acesso ao sistema bancário “ocidental”, por causa das sanções). Espero e rezo para que a Rússia não congele pagamentos de dívidas a bancos ocidentais até que as sanções sejam levantadas, porque, se a Rússia fizer isso, os bancos ocidentais explodem.

  1. Assista, em desconsolo, enquanto a Rússia assina grandes negócios de exportação de gás com meio mundo, exceto você. Será que depois que todos tiverem recebido todo o gás de que precisam, ainda restará algum gás p’ra você? Fato é que esse já não é problema dos russos, porque você ofendeu os russos; e, sendo você quem é, os russos já o mandaram à merda (não se esqueça de, quando for, levar junto a Galícia) e, doravante, só negociarão com outros países, mais amigáveis.

  1. Continue a assistir, desconsolado, enquanto a Rússia procura ativamente meios para romper a maios quantidade possível de laços comerciais que a ligam a você, encontrando fornecedores em outras partes do mundo ou organizando-se para substituir importações.

Mas agora vem a surpresa – impressionantemente, para dizer o mínimo, subnoticiada: a Rússia acaba de propor um bom negócio à União Europeia. Se a União Europeia recusar-se a associar-se à Parceria Transatlântica para Comércio e Investimento com os EUA (“parceria” a qual, por falar disso, ferirá economicamente a própria União Europeia), nesse caso a União Europeia poderá associar-se à União Aduaneira (Eurasiana) com a Rússia. Por que os europeus se deixariam congelar & descartar, se podemos congelar & descartar Washington, em vez deles? Aí está a “indenização” que a Rússia aceitaria, a reparação pelo comportamento ofensivo da União Europeia, contra a Rússia no caso da Ucrânia e das sanções.

Essa oferta-convite, vinda de um país que é estado aduaneiro, é ainda mais generosa. Há muitas e muitas camadas nesse convite-oferta: há aí o reconhecimento de que a UE não representa ameaça militar contra a Rússia nem, tampouco, alguma grave ameaça econômica; a evidência de que países europeus são bonitinhos, pequeninos, fofos e fazem ótimos queijos e salsichas, mas a atual safra de políticos nacionais que está mandando por “lá” é frouxa e acanalhada e controlada por Washington; e precisam de tranco forte para que entendam onde, realmente, estão ancorados os reais interesses de seus países...

Será que a União Europeia aceitará a oferta-convite? Ou acolherá a Galícia como novo estado-membro, e, na sequência será... congelamento & descarte?!


[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

2015: Motivos para otimismo

6/1/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alguns blogueiros têm hoje papel cada dia mais importante, de ajudar a preencher os gigantescos vazios de informação que a imprensa-grande-empresa insiste em manter como tal, quero dizer, como vazios de informação sonegada.



Minha linha de raciocínio não parece aproveitável ou recomendável, se se considera o que todos andam dizendo. Muitos estão convencidos de que 2015 será reprise de 2014 com algumas poucas mudanças para melhor (são previsões sempre seguras, mas chatíssimas de ler), e outros alertam para o perigo de um confronto nuclear entre EUA e Rússia (é possível, com a mesma probabilidade de acontecer que uma colisão de asteroide ou de aparecer uma supernova bem na nossa vizinhança galáctica). Mas até aí é mais do mesmo. A pergunta interessante a ser feita é “O que mudou no terreno em 2014, se é que mudou?”.

Para mim, o desenvolvimento realmente interessante em 2014 é que o mundo como um todo (com poucas e mínimas exceções) tornou-se bastante mais lúcido sobre o tópico “O que os EUA, como império global, são e defendem”. Hoje, já se compreende completamente, em universos mais amplos, que:

1 – Os EUA são império do mal tentando, nem tanto reinar sobre o mundo, mas, mais, destruir o mundo para arrancar vantagens de curto prazo contra todos os demais países.

2 – Os EUA estão falindo, como império e como país, e não há quantidade de fraudes, detonações, torturas e assassinatos que salve os EUA.

3 – Os EUA ainda são bastante poderosos e podem causar desgraça massiva, enquanto vão caindo ladeira abaixo. Essa desgraça pode ser contida, enquanto se fazem planos para um arranjo internacional que surgirá depois de os EUA terem sido descartados.

Se se considera 2013 e antes, esses sentimentos já estavam aparecendo bem manifestos, mas só nas periferias e em tom baixo. A diferença é que em 2014 os mesmos sentimentos tornaram-se conhecimento generalizado, e já apareceram enunciados até de tribunas presidenciais. E ainda mais importante: não se ouvem contra-argumentos! Não escuto uma única voz, que seja, que argumente que os EUA são potência benigna, que estão em ascensão, que não matariam uma mosca e que são e sempre serão o centro do universo. É. Ainda há quem pense assim, mas já não há quem leve a sério tal “pensamento”.

Império do Mal
Ainda há uns poucos redutos sobreviventes: principalmente o Reino Unido, o Canadá e a Austrália. Mas mesmo aí o quadro real aparece sempre distorcido, por causa da imprensa-empresa nacional Murdock-izada que opera por lá. A julgar pelo que ouço do pessoal que vive lá, estão todos quase uniformemente nauseados pela posição de subserviência doentia que seus líderes adotaram ante os EUA.

Quanto à União Europeia (UE), a imagem de uniformidade política que Bruxelas tenta distribuir para o mundo é, em grande parte, ficção. Nos países centrais da Europa Ocidental, líderes empresariais já são, quase uniformemente, favoráveis a cooperação mais próxima com a Rússia, e são contra sanções. Na região não central, nas franjas, países inteiros parecem à beira de mudar de lado. A Hungria – que nunca foi amiga da Rússia – parece hoje mais pró-Rússia que nunca. A Bulgária, que ao longo de séculos manteve atitude de amor-ódio ante a Rússia, parece hoje muito mais tendente ao amor. Até os poloneses dão tratos à bola, coçam a cabeça e se perguntam se cooperação tão íntima com os EUA algum dia seria boa coisa para os interesses nacionais poloneses.

Outra grande mudança que observei é que porcentagem significativa do pessoal que pensa nos EUA já não confia na própria imprensa-empresa norte-americana. Há um certo padrão nas mensagens que se tornam virais e espalham-se alucinadamente por tuítos e pelas chamadas “mídias sociais”. Mensagens marginais, periféricas, devem, por definição, permanecer nas margens.

Até que, ano passado, algo aconteceu: publiquei algumas colunas em que tentava cavar uma via de escape na cobertura que a imprensa-empresa de massas nos EUA fazia dos eventos na Ucrânia; e sempre que publicava colunas daquele tipo, a resposta era avassaladora, surgiam centenas de milhares de novos leitores. Ainda mais importante: muitos deles nunca mais desapareceram e continuaram a visitar o blog querendo mais.

Entendo que isso signifique que o que tenho a dizer, ainda que absolutamente não seja o que a imprensa-empresa capitalista dominante repete e repete, nem por isso é informação marginal, que só interessaria a pequenos nichos especiais de opinião.

Entendo também, por isso mesmo, que muitos blogueiros têm hoje papel cada dia mais importante, de ajudar a preencher os gigantescos vazios de informação que a imprensa-grande-empresa insiste em manter como tal, quero dizer, como vazios de informação sonegada.

Kim Kardashian
É claro que a imprensa-grande-empresa ainda tem importante papel a desempenhar. Por exemplo: sem a imprensa-grande-empresa, eu não saberia o tamanho da bunda de Kim Kardashian. Aí está a grande imprensa-grande-empresa para manter-me bem informado. A bunda de Kim Kardashian canta? Quero dizer: se você está em busca de informação fidedigna sobre essa importante temática, então, sim, a grande-empresa-grande-imprensa nacional norte-americana é sua amiga. Mas para a maioria das questões não relacionadas a bundas, acho que os que comandam os circos político e “midiático” nos EUA infringiram uma regra fundamental; parece que esqueceram, porque foi enunciada pela primeira vez por um norte-americano muito citado, Abe Lincoln:

Abe Lincoln
“É possível enganar todas pessoas por algum tempo, e algumas pessoas, todo o tempo. Mas não é possível enganar todas as pessoas, todo o tempo”.

Caso alguém aí no reino da “mídia” esteja cansado de escrever colunas que só servem para o/a colunista limpar com elas a respectiva Kardashian, eis alguns itens que, se os “jornalistas” quiserem, podem tentar refutar:

1 – A desigualdade econômica TEM DE aumentar sempre, até que a coisa toda desabe, porque só assim é possível continuar a inflar a bolha financeira, enquanto a economia física, real, produtiva, está realmente encolhendo. É totalmente impossível que os ricos gastem na economia real todo o dinheiro que têm.

Em vez disso, os coitadinhos têm de se contentar com investir em itens de luxo, que também não podem usar 24 horas por dia, sete dias por semana, de tal modo que a maioria dos milionaríssimos estão condenados a parar onde estão e deixar-se decair lentamente. Ou, então, eles põem o dinheiro deles em bens de papel de vários tipos – e isso, claro, é ótimo para a bolha financeira. Seja como for, se você vive numa bolha financeira, você tem de avançar, não importa como, contra as mais insuperáveis limitações físicas de terra, energia, água limpa, minas de minérios valiosos e outros itens essenciais para os estoques industriais. Nesse caso, o melhor a fazer é inverter o negócio de Robin-Hood e começar imediatamente a roubar dos pobres para dar aos ricos.

2 – O caos mundial TEM DE SER AUMENTADO SEMPRE, porque é o modo de os militares dos EUA justificarem a própria existência. São militares caríssimos, mas não muito produtivos. (Só o projeto do novo jato de combate F-35 já custou mais de um trilhão de US dólares para ser desenvolvido – e mesmo assim é uma droga de projeto, e é possível que jamais venha a ser construído).

Pois apesar desse gasto alucinado de dinheiro, os militares norte-americanos não conseguem obter uma vitória decisiva, em praticamente qualquer das várias guerras em que estão metidos, não importa quem seja o inimigo, não importa o quanto seja fraco e pobre e miserável, e o máximo que conseguem é sempre um conflito de baixa intensidade, a ser mantido como tal, até que o incêndio novamente recomece a qualquer momento.

MILITARES DOS E.U.A.
Surrando as bundas de mulheres
e crianças civis desde 1950
Provavelmente por causa disso, os militares norte-americanos vivem a ameaçar os fracos e pobres, e usam essas ameaças para obter vantagens financeiras. Mas o único modo de tornar efetivas as ameaças é destruir um ou outro país, regularmente ou com semirregularidade:

“Que lindo país, o de vocês. Odiaríamos convertê-lo em outra Líbia...”

Qualquer confronto com alguma real potência militar – Rússia, China, Índia, até o Irã – está, é claro, completamente fora de questão, porque uma única derrota militar humilhante para os EUA (inevitável, se se considera que os EUA sempre foram derrotados nas guerras em que se meteram com adversários menores e mais fracos), bastaria para pôr abaixo todo o programa do militarismo norte-americano.

3 – Como outro presidente dos EUA (Dwight Eisenhower) disse uma vez: “Se você não consegue resolver um problema, aumente o problema”.

Mas é claro que vez ou outra você tem, sim, de resolver algum problema! Você não pode simplesmente só aumentar e aumentar e aumentar sempre ad infinitum todos os problemas que lhe apareçam.

Nova Melhoria no Memorial Eisenhower
Dwight D. Eisenhower, Presidente Vidente
Sim, mas... Que problemas os EUA resolveram ultimamente? O que está acontecendo de bom no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria ou na Ucrânia? Nada e nada: tudo só piora a cada dia.

E quanto à reforma financeira no início do colapso de 2008 que apanhou todos de surpresa? Nada.

E já há outro colapso gigante à vista, no formato de fracasso da nascente indústria dofracking, porque o preço do petróleo caiu muitíssimo.

Algo de bom a noticiar sobre a reforma da assistência pública à saúde? Não. A saúde pública está cada vez mais ridiculamente mal feita e mais cara.

Os estudantes estão conseguindo pagar os empréstimos para pagar cursos superiores? Não! Nem perto disso!

E que tal um esforço para reduzir as emissões de carbono, para adiar (já que evitar já se sabe que é impossível) o desaparecimento da costa leste, onde metade de tudo está sendo submerso? Não, não, nem um fiapo de esperança.

Resolveram-se os problemas da dívida pública? Não. Nem se fez qualquer esforço nessa direção. Os EUA continuam na rota para a bancarrota e colapso nacional? Ah, sim, continuam.

Todos os sistemas estão OK. Engatem a marcha e sigam em frente!

Claro que a milhagem varia de pessoa a pessoa, mas descobri número surpreendente de pessoas pelo mundo (embora não especialmente nos EUA) que já estão bem antenadas para todas essas questões. E aí está algo que me faz sentir otimista à espera de 2015.
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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak OilEm 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

quarta-feira, 12 de março de 2014

A “crise” na Crimeia e o viés ocidental

11/3/2014, [*] Dmitry Orlov, Blog Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Bandeiras nazistas durante a ocupação do Parlamento em Kiev
[Atualização da 3ª-feira (11/3/2014):

Semana passada publiquei aqui o postado de Renée, porque o Huffington Post recusou-se a publicá-lo. Agora, fico sabendo que todos os comentários que associem o novo governo da Ucrânia aos neonazistas e aos neonazistas assassinos em massa que atiraram contra civis e policiais em Kiev estão proibidos em todos as páginas de notícias nos EUA.

É como se houvesse um blecaute nos “noticiários” nos EUA, contra o seguinte postado:

Parece que o Departamento de Estado dos EUA deu US$ 5 bilhões aos neonazistas ucranianos, que usaram parte do dinheiro para contratar pistoleiros e assassinos em massa, que massacraram civis que se manifestavam nas ruas, policiais e pessoas que passavam por ali, para criar um pretexto para derrubar o governo democraticamente eleito da Ucrânia e instalar um governo anti-Rússia fantoche dos EUA.

É o modo mais curto e suave de dizer, que eu consegui. Agora tratem de ver em quantas colunas de “Cartas do Leitor”, jornais e blogs vocês conseguem cortar-colar o parágrafo acima. Assim, teremos uma ideia da extensão da censura nos EUA. Primeiro, invadem a Ucrânia. Agora, invadem o Huffington Post. Depois, invadirão o quê? A sua sala de jantar?]

Financiados pelos EUA, nazistas operaram o Massacre de Kiev
[Atualização sobre a Ucrânia:

Todo mundo já admite que o massacre de Kiev foi operação forjada, exatamente como eu disse que foi. A teoria dominante reza que os atiradores que atiraram indiscriminadamente contra policiais, manifestantes e passantes foram contratados pela oposição ucraniana (Pergunta interessante: “Teriam, por acaso, sido pagos com dinheiro do Departamento de Estado dos EUA?”). Mas, em resposta, as autoridades recém instaladas em Kiev entraram em surto de retardo mental e estão culpando... Ora, ora... a Rússia! Óbvio!

A Rússia tinha assinado acordo histórico com Yanukovich, aceitando a Ucrânia na União Aduaneira, dando imenso desconto no preço do gás natural, e, além disso, os Jogos Olímpicos em Sochi estavam em andamento. A Rússia, é claro, não quereria desperdiçar tudo isso, e assistia impotente enquanto o governo da Ucrânia era derrubado e substituído por governo de neonazistas financiados pelos EUA, e agora enfrenta sanções por ter defendido direitos de seus cidadãos na Crimeia. Não. Assim, não dá.

Simultaneamente, Putin enfrenta grandes dificuldades para explicar a líderes ocidentais que o que a Rússia está fazendo nada tem de ilegal: há tropas russas legalmente na Crimeia, nos termos de acordo de longo prazo assinado com a Ucrânia e as forças de autodefesa ativas lá são independentes, que não devem obediência aos militares russos.

A Crimeia está às vésperas de fazer um referendo sobre se tornar independente da Ucrânia (e se é parte da Ucrânia, lá está por acaso). Mas o ocidente diz que o referendo seria ilegal.

Nazistas desfilam em Kiev com o retrato de Stepan Bandera, comandante das forças de ocupação alemã na IIa. Guerra Mundial
Vejam vocês! Diferentes dos albaneses no Kosovo, ou dos sul-sudaneses, ou de praticamente todos os demais grupos, os russos na Crimeia não têm direito à autodeterminação. Por quê? Porque são russos?

Essa semana, o postado cuja leitura recomendo é do blog Outlook Zen, A crise na Crimeia e o viés ocidental (ing.). Parece-me excepcionalmente equilibrado.

Minha única crítica é que recorre à Lei de Godwin (“Quanto mais se prolonga uma discussão online, mais aumenta a probabilidade de alguém xingar alguém de envolvimento com nazistas ou com Hitler”), mas ignora o que se lê em “Democratização e antissemitismo na Ucrânia: quando símbolos neonazistas tornam-se “a Nova Normalidade” (“Democratization” and Anti-Semitism in Ukraine: When Neo-Nazi Symbols become “The New Normal”).

[Mike] Godwin espinafrou com razão gente que usa gratuitamente os termos “fascismo” e “nazismo” e compara qualquer um a Hitler.

Sim, mas... E quando bandos de pirados com botas de campanha e braçadeiras com suásticas põem-se a saudarem-se uns os outros com o Hitlergruß? Ainda se trata de comparação gratuita? A seguir vídeo da colocação de símbolos neonazistas e de supremacia branca na ocupação do prédio administrativo em Kiev:

)

Parece que se tornou tabu, nos EUA, dizer que havia neonazistas por trás (ou na frente) do putsch em Kiev. As alegações de que os neonazistas teriam contratado atiradores para matar policiais e manifestantes, para gerar um pretexto para derrubar o governo também estão proibidas? Por que são embaraçosas demais? Ora! É claro que são alegações embaraçosas. Ainda bem que embaraçam alguém. Embaraçosas ou não, mesmo assim tem de ser investigadas.

Adiante, um excerto do postado de Outlook Zen, A crise na Crimeia e o viés ocidental (ing.) aqui traduzido:

Sei que a situação é muito complicada, e absolutamente não quero super simplificá-la. O que os crimeianos querem e se isso tem a ver com a ação dos russos, é, sim, assunto para discutir. Há bons argumentos a favor e contra a ação russa na Crimeia. No instante em que a Rússia suprimir ou ignorar o desejo do povo da Crimeia, serei o primeiro a condenar Putin.

Mas, hoje, o mais reprovável é o exagero que cerca tudo que tenha a ver com a Rússia, divulgado pela imprensa-empresa ocidental. O viés aparece em absolutamente toda e qualquer matéria apresentada como jornalística, e os argumentos apresentados a favor sempre de um lado e contra o outro já beiram a propaganda. Ainda pior é a total falta de contexto para apresentar as ações dos russos.

Soldados dos EUA derrubam estátua de Saddam Hussein em Bagdá, Iraque
Considerem a seguinte lista, de intervenções, pelos EUA, em vários países do mundo, pelos EUA, só nos últimos 50 anos.


Depois de examinar essa lista, é difícil aceitar que a ação russa na Crimeia seja crime, se comparada ao que os EUA fazemos há décadas.

Em momento algum, durante o desenrolar dos eventos acima, a imprensa-empresa questionou se nosso país mereceria sanções econômicas, ou se os EUA deveriam ter cassada a carteirinha de membro do G8; ou denunciou que os EUA estávamos nos convertendo em estado-policial-espião como a Alemanha Nazista. Pois a ação russa na Crimeia foi ‘'denunciada'’ como crime ainda pior que todos os crimes acima listados.

Nenhum patriotismo pode servir de alvará para jornalismo enviesado e mentiroso contra a Rússia. A Guerra Fria acabou há 25 anos. É hora de os norte-americanos aprenderem a avaliar objetivamente as ações dos russos, e abandonarmos o prisma estreito do etnocentrismo ocidental.




[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net