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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

2015: Motivos para otimismo

6/1/2015, [*] Dmitry Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Alguns blogueiros têm hoje papel cada dia mais importante, de ajudar a preencher os gigantescos vazios de informação que a imprensa-grande-empresa insiste em manter como tal, quero dizer, como vazios de informação sonegada.



Minha linha de raciocínio não parece aproveitável ou recomendável, se se considera o que todos andam dizendo. Muitos estão convencidos de que 2015 será reprise de 2014 com algumas poucas mudanças para melhor (são previsões sempre seguras, mas chatíssimas de ler), e outros alertam para o perigo de um confronto nuclear entre EUA e Rússia (é possível, com a mesma probabilidade de acontecer que uma colisão de asteroide ou de aparecer uma supernova bem na nossa vizinhança galáctica). Mas até aí é mais do mesmo. A pergunta interessante a ser feita é “O que mudou no terreno em 2014, se é que mudou?”.

Para mim, o desenvolvimento realmente interessante em 2014 é que o mundo como um todo (com poucas e mínimas exceções) tornou-se bastante mais lúcido sobre o tópico “O que os EUA, como império global, são e defendem”. Hoje, já se compreende completamente, em universos mais amplos, que:

1 – Os EUA são império do mal tentando, nem tanto reinar sobre o mundo, mas, mais, destruir o mundo para arrancar vantagens de curto prazo contra todos os demais países.

2 – Os EUA estão falindo, como império e como país, e não há quantidade de fraudes, detonações, torturas e assassinatos que salve os EUA.

3 – Os EUA ainda são bastante poderosos e podem causar desgraça massiva, enquanto vão caindo ladeira abaixo. Essa desgraça pode ser contida, enquanto se fazem planos para um arranjo internacional que surgirá depois de os EUA terem sido descartados.

Se se considera 2013 e antes, esses sentimentos já estavam aparecendo bem manifestos, mas só nas periferias e em tom baixo. A diferença é que em 2014 os mesmos sentimentos tornaram-se conhecimento generalizado, e já apareceram enunciados até de tribunas presidenciais. E ainda mais importante: não se ouvem contra-argumentos! Não escuto uma única voz, que seja, que argumente que os EUA são potência benigna, que estão em ascensão, que não matariam uma mosca e que são e sempre serão o centro do universo. É. Ainda há quem pense assim, mas já não há quem leve a sério tal “pensamento”.

Império do Mal
Ainda há uns poucos redutos sobreviventes: principalmente o Reino Unido, o Canadá e a Austrália. Mas mesmo aí o quadro real aparece sempre distorcido, por causa da imprensa-empresa nacional Murdock-izada que opera por lá. A julgar pelo que ouço do pessoal que vive lá, estão todos quase uniformemente nauseados pela posição de subserviência doentia que seus líderes adotaram ante os EUA.

Quanto à União Europeia (UE), a imagem de uniformidade política que Bruxelas tenta distribuir para o mundo é, em grande parte, ficção. Nos países centrais da Europa Ocidental, líderes empresariais já são, quase uniformemente, favoráveis a cooperação mais próxima com a Rússia, e são contra sanções. Na região não central, nas franjas, países inteiros parecem à beira de mudar de lado. A Hungria – que nunca foi amiga da Rússia – parece hoje mais pró-Rússia que nunca. A Bulgária, que ao longo de séculos manteve atitude de amor-ódio ante a Rússia, parece hoje muito mais tendente ao amor. Até os poloneses dão tratos à bola, coçam a cabeça e se perguntam se cooperação tão íntima com os EUA algum dia seria boa coisa para os interesses nacionais poloneses.

Outra grande mudança que observei é que porcentagem significativa do pessoal que pensa nos EUA já não confia na própria imprensa-empresa norte-americana. Há um certo padrão nas mensagens que se tornam virais e espalham-se alucinadamente por tuítos e pelas chamadas “mídias sociais”. Mensagens marginais, periféricas, devem, por definição, permanecer nas margens.

Até que, ano passado, algo aconteceu: publiquei algumas colunas em que tentava cavar uma via de escape na cobertura que a imprensa-empresa de massas nos EUA fazia dos eventos na Ucrânia; e sempre que publicava colunas daquele tipo, a resposta era avassaladora, surgiam centenas de milhares de novos leitores. Ainda mais importante: muitos deles nunca mais desapareceram e continuaram a visitar o blog querendo mais.

Entendo que isso signifique que o que tenho a dizer, ainda que absolutamente não seja o que a imprensa-empresa capitalista dominante repete e repete, nem por isso é informação marginal, que só interessaria a pequenos nichos especiais de opinião.

Entendo também, por isso mesmo, que muitos blogueiros têm hoje papel cada dia mais importante, de ajudar a preencher os gigantescos vazios de informação que a imprensa-grande-empresa insiste em manter como tal, quero dizer, como vazios de informação sonegada.

Kim Kardashian
É claro que a imprensa-grande-empresa ainda tem importante papel a desempenhar. Por exemplo: sem a imprensa-grande-empresa, eu não saberia o tamanho da bunda de Kim Kardashian. Aí está a grande imprensa-grande-empresa para manter-me bem informado. A bunda de Kim Kardashian canta? Quero dizer: se você está em busca de informação fidedigna sobre essa importante temática, então, sim, a grande-empresa-grande-imprensa nacional norte-americana é sua amiga. Mas para a maioria das questões não relacionadas a bundas, acho que os que comandam os circos político e “midiático” nos EUA infringiram uma regra fundamental; parece que esqueceram, porque foi enunciada pela primeira vez por um norte-americano muito citado, Abe Lincoln:

Abe Lincoln
“É possível enganar todas pessoas por algum tempo, e algumas pessoas, todo o tempo. Mas não é possível enganar todas as pessoas, todo o tempo”.

Caso alguém aí no reino da “mídia” esteja cansado de escrever colunas que só servem para o/a colunista limpar com elas a respectiva Kardashian, eis alguns itens que, se os “jornalistas” quiserem, podem tentar refutar:

1 – A desigualdade econômica TEM DE aumentar sempre, até que a coisa toda desabe, porque só assim é possível continuar a inflar a bolha financeira, enquanto a economia física, real, produtiva, está realmente encolhendo. É totalmente impossível que os ricos gastem na economia real todo o dinheiro que têm.

Em vez disso, os coitadinhos têm de se contentar com investir em itens de luxo, que também não podem usar 24 horas por dia, sete dias por semana, de tal modo que a maioria dos milionaríssimos estão condenados a parar onde estão e deixar-se decair lentamente. Ou, então, eles põem o dinheiro deles em bens de papel de vários tipos – e isso, claro, é ótimo para a bolha financeira. Seja como for, se você vive numa bolha financeira, você tem de avançar, não importa como, contra as mais insuperáveis limitações físicas de terra, energia, água limpa, minas de minérios valiosos e outros itens essenciais para os estoques industriais. Nesse caso, o melhor a fazer é inverter o negócio de Robin-Hood e começar imediatamente a roubar dos pobres para dar aos ricos.

2 – O caos mundial TEM DE SER AUMENTADO SEMPRE, porque é o modo de os militares dos EUA justificarem a própria existência. São militares caríssimos, mas não muito produtivos. (Só o projeto do novo jato de combate F-35 já custou mais de um trilhão de US dólares para ser desenvolvido – e mesmo assim é uma droga de projeto, e é possível que jamais venha a ser construído).

Pois apesar desse gasto alucinado de dinheiro, os militares norte-americanos não conseguem obter uma vitória decisiva, em praticamente qualquer das várias guerras em que estão metidos, não importa quem seja o inimigo, não importa o quanto seja fraco e pobre e miserável, e o máximo que conseguem é sempre um conflito de baixa intensidade, a ser mantido como tal, até que o incêndio novamente recomece a qualquer momento.

MILITARES DOS E.U.A.
Surrando as bundas de mulheres
e crianças civis desde 1950
Provavelmente por causa disso, os militares norte-americanos vivem a ameaçar os fracos e pobres, e usam essas ameaças para obter vantagens financeiras. Mas o único modo de tornar efetivas as ameaças é destruir um ou outro país, regularmente ou com semirregularidade:

“Que lindo país, o de vocês. Odiaríamos convertê-lo em outra Líbia...”

Qualquer confronto com alguma real potência militar – Rússia, China, Índia, até o Irã – está, é claro, completamente fora de questão, porque uma única derrota militar humilhante para os EUA (inevitável, se se considera que os EUA sempre foram derrotados nas guerras em que se meteram com adversários menores e mais fracos), bastaria para pôr abaixo todo o programa do militarismo norte-americano.

3 – Como outro presidente dos EUA (Dwight Eisenhower) disse uma vez: “Se você não consegue resolver um problema, aumente o problema”.

Mas é claro que vez ou outra você tem, sim, de resolver algum problema! Você não pode simplesmente só aumentar e aumentar e aumentar sempre ad infinitum todos os problemas que lhe apareçam.

Nova Melhoria no Memorial Eisenhower
Dwight D. Eisenhower, Presidente Vidente
Sim, mas... Que problemas os EUA resolveram ultimamente? O que está acontecendo de bom no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, na Síria ou na Ucrânia? Nada e nada: tudo só piora a cada dia.

E quanto à reforma financeira no início do colapso de 2008 que apanhou todos de surpresa? Nada.

E já há outro colapso gigante à vista, no formato de fracasso da nascente indústria dofracking, porque o preço do petróleo caiu muitíssimo.

Algo de bom a noticiar sobre a reforma da assistência pública à saúde? Não. A saúde pública está cada vez mais ridiculamente mal feita e mais cara.

Os estudantes estão conseguindo pagar os empréstimos para pagar cursos superiores? Não! Nem perto disso!

E que tal um esforço para reduzir as emissões de carbono, para adiar (já que evitar já se sabe que é impossível) o desaparecimento da costa leste, onde metade de tudo está sendo submerso? Não, não, nem um fiapo de esperança.

Resolveram-se os problemas da dívida pública? Não. Nem se fez qualquer esforço nessa direção. Os EUA continuam na rota para a bancarrota e colapso nacional? Ah, sim, continuam.

Todos os sistemas estão OK. Engatem a marcha e sigam em frente!

Claro que a milhagem varia de pessoa a pessoa, mas descobri número surpreendente de pessoas pelo mundo (embora não especialmente nos EUA) que já estão bem antenadas para todas essas questões. E aí está algo que me faz sentir otimista à espera de 2015.
__________________________

[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak OilEm 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O Império e a “faca só lâmina” [1]: exércitos globais + ONGs [1/4]

Dividir nações soberanas & substituí-las por sistemas de administração global

12/2/2012, [*] Tony Cartalucci, Blog Land Destroyer  
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu (sugestão do Chico Villela)

Parte 1: O imperialismo está vivo e bem de saúde


O Império Britânico não tinha só uma frota que projetava sua hegemonia por todo o planeta: também tinha redes financeiras para consolidar o poder econômico global, e os sistemas de administração para garantir o fluxo eficiente e ininterrupto de recursos, de terras distantes, de volta a Londres e para os bolsos da elite inglesa endinheirada. Era uma máquina bem azeitada, refinada por séculos de experiência.

Por mais que todas as crianças aprendam na escola sobre o Império Britânico, parece ser doença política moderna generalizada entre os adultos acreditar que a realidade seja organizada como eram organizados os seus livros de história na escola: em capítulos bem claramente demarcados. Daí a ideia hoje tão errada quanto repetida de que o período do Imperialismo seria uma espécie de capítulo encerrado da história humana, e que hoje o mundo seria “multipolar”. Infelizmente, nada mais distante da realidade. O Imperialismo não foi extinto: simplesmente, ele evoluiu.

O imperialismo está vivo e bem de saúde

Há vários exemplos pertinentes que ilustram que o imperialismo está vivo e bem de saúde, e apenas espertamente disfarçado sob nomenclatura atualizada. As origens do que hoje se chama “livre comércio” derivam, na verdade, de concessões econômicas que os britânicos várias vezes extorquiram das nações, com sua estratégia de “diplomacia de navios & canhões” [orig. gunboat diplomacy]: ancoravam os navios e respectivos canhões ao largo de uma capital estrangeira e ameaçavam bombardeá-la e ocupá-la militarmente, se suas demandas não fossem atendidas.

Sudeste Asiático Colonial, c. 1850. A Tailândia/Sião nunca foi colonizada, mas fez várias concessões (clique no mapa para aumentar)

Em meados dos anos 1800s, a Tailândia, então Reino de Sião, estava cercada por todos os lados por nações colonizadas; nessas circunstâncias, foi obrigada a aceitar o que os britânicos impuseram, no Tratado Bowring, de 1855. Vejam o quanto algumas dessas concessões impostas pela diplomacia de “navios e canhões” soam parecidas com regras da “liberalização da economia” de hoje:

1. O Sião garantiu extraterritorialidade às questões britânicas. [2]
2. Os britânicos podiam comerciar livremente em todos os portos e manter residência permanente em Bangkok.
3. Os britânicos podiam comprar e alugar propriedades em Bangkok. [3]
4. Cidadãos britânicos podiam viajar livremente pelo país, com passes fornecidos pelo cônsul britânico.
5. Negócios de importação e exportação eram taxados em, no máximo, 3%, exceto ópio e ouro e prata em lingotes, que eram isentos de impostos.
6. Comerciantes britânicos tinham direito de comprar e vender diretamente a indivíduos siameses.

Exemplo mais contemporâneo, hoje, seria a ocupação militar do Iraque e o plano de reforma econômica daquele estado, depois de quebrado, proposto por Paul Bremer (do Conselho de Relações Exteriores, CFR). A revista Economist de 25/9/2003, enumera as providências para a “liberalização econômica” neocolonial do Iraque, em artigo intitulado Vamos à liquidação de quintal: se funcionar, o Iraque será o sonho de qualquer capitalista:

1. Propriedade de 100% dos bens do estado iraquiano.
2. Repatriação total de lucros.
3. Equiparação legal entre empresas estrangeiras e locais.
4. Autorização para funcionamento de bancos estrangeiros sem restrições e para compra de bancos locais.
5. Taxas e impostos sobre renda e lucros de empresas limitados a 15%.
6. Todas as tarifas reduzidas a 5%.

Nomenclaturas à parte, nada mudou desde 1855, no que tenha a ver com a “lista dos desejos” dos imperialistas. A revista Economist argumenta, como argumentaria qualquer imperialista do século 18-19, que o Iraque carece de especialistas estrangeiros para reerguer-se, justificando a evisceração da soberania nacional iraquiana e o assalto aos recursos nacionais. Diferente do Sião, o Iraque recusou-se a aceitar o “argumento” dos canhões modernos de Wall Street & Londres; e, como os britânicos tantas vezes fizeram nos “dias de glória” do Império, os canhões fizeram o que ameaçavam fazer.

A Guerra Anglo-Zulu. Causa da guerra: diamante e expansão imperial
E como os britânicos fizeram, quando descobriram diamantes na Zululândia, no final dos 1800, o que os levou a inventar uma casus belli que justificasse a destruição do Reino Zulu, os arquitetos do imperialismo global de nossos dias, também inventaram pretexto muito duvidoso para invadir o Iraque, antes de começar o saque final.

Guerra Anglo-Zulu. “Missão cumprida”. A cidade de Ulandi foi incendiada, e os britânicos tratam de dividir a Zululândia em 14 áreas, governadas por prepostos seus, obedientes e servis. Os britânicos cuidaram muito atentamente de cultivar rivalidades entre os 14 chefetes, para garantir que nunca mais voltassem a unir-se para desafiar as ambições de hegemonia dos britânicos, na região.
(clique na imagem para aumentar)
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No final da Guerra Anglo-Zulu, os britânicos desmontaram a Zululândia, dividida em 14 áreas separadas, cada uma governada por um preposto do Império Britânico, obediente e servil. O império britânico cuidou de semear animosidades entre todos eles, para impedir que ressurgisse a ‘ameaça zulu’. Hoje, vemos as que parecem ser consequências ‘acidentais’ das intervenções militares, que estão levando a confrontos mortais, em alguns casos a guerras civis, no Iraque, na Líbia, no Paquistão, onde há planos para dividir o país, à maneira do que foi feito na Zululândia; e na Síria. Nada disso é acidental, tudo é planejado. Dividir e conquistar é estratagema militar clássico, que não escapou aos olhos e à atenção de Wall Street & London.

Vídeo a seguir: Discurso de despedida de Dwight D. Eisenhower, dia 17/1/1961, alertando os norte-americanos para a ameaça do complexo militar industrial.

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Vídeo a seguir: Iraque à Venda. Lembram-se daquele complexo militar-industrial sobre o qual o presidente Dwight Eisenhower alertou os EUA? O resumo, no caso da Guerra do Iraque é, em primeiro lugar, que não deveria ter existido.

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Se as pessoas estudarem história e virem que os eventos de hoje não passam de repetição, sob novos rótulos, do que o império faz e sempre fez há séculos, as pessoas seriam menos passivas ante o que não passa de ação criminosa de proporções gigantes, de exploração de dimensões globais – que nos é vendida hoje como “intervenção justificada”. Basta olhar o Iraque, hoje destruído, e os lucros que a destruição gerou para as “500 empresas” da revista Fortune; enquanto soldados e civis iraquianos, todos, pagam o preço com o corpo, o sangue, o fim de qualquer futuro e a própria vida.





Notas dos tradutores
[1] É imagem-criação de João Cabral de Melo Neto, no poema A faca só lâmina: “assim como uma faca / que sem bolso ou bainha / se transformasse em parte / de vossa anatomia”. Lê-se, na íntegra, na Revista Bula. Recolhemos aqui, para traduzir o título original “Empire’s Double Edged Sword: Global Military + NGOs”.
[2] É uma das concessões que os EUA querem arrancar hoje do Afeganistão: que os norte-americanos que pratiquem crimes em território afegão, tenham o direito de ser julgados no território dos EUA.
[3] Israel impede que palestinos e não judeus em geral comprem propriedades nos territórios ocupados da Palestina.
_____________________

[*] Tony Cartalucci é um pesquisador de geopolítica e escritor sediado em Bangkok, Tailândia. Seu trabalho visa cobrir os eventos mundiais a partir de uma perspectiva do Sudeste Asiático, bem como promover a auto-suficiência como uma das chaves para a verdadeira liberdade.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

EUA-2012: “O implacável espancamento da democracia”


7/11/2012, Robert Parry, Consortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Robert Parry
Afinal, depois de quatro anos de longo suplício, o povo norte-americano rejeitou a política dos Republicanos, de sequestro e espancamento implacável da democracia. Em vez de recompensar o Velho Grande Partido [orig. Great Old Party, GOP], por fazer “gemer” a economia dos EUA, os eleitores – por margem de quase 3 milhões de votos – reelegeram o presidente Barack Obama.

A estratégia de violência dos Republicanos começou no dia em que Obama tomou posse, dia 20/1/2009. O plano sempre foi deslegitimar, denegrir e destruir o primeiro presidente negro dos EUA. Fracassou, porque os jovens, os negros, os hispânicos e outras minorias uniram-se na luta para defender o candidato que elegeram; compareceram às urnas em grandes números e nunca cederam.

Em 2012, o presidente Obama perdeu votos entre os brancos (mais brancos votaram nos Republicanos, que em 2008), mas outras minorias demográficas, entre as quais as mulheres, votaram mais massivamente na reeleição que na eleição de Obama.

Ao fazê-los, os eleitores não só rejeitaram o projeto dos Republicanos de usar a economia dos EUA como refém (obstruindo todas as propostas que Obama encaminhou ao Congresso e forçando uma crise que levou ao rebaixamento do crédito dos EUA no ano passado), mas, também, reagiram contra os esforços dos Republicanos de suprimir o voto de milhões de eleitores. Além disso, também neutralizaram o ataque – de violência sem precedentes – da campanha conduzida pela televisão e que rendeu centenas de milhões de dólares às redes comerciais, dinheiro o qual foi injetado na campanha por bilionários pró-Republicanos.

Por tudo isso, a noite das eleições presidenciais foi grande noite para a democracia norte-americana. Os eleitores conseguiram resistir à mais violenta ofensiva conduzida pelos plutocratas e pela televisão, na história moderna dos EUA. Resistiram e deram o troco. Além da reeleição de Obama, os Democratas de fato ganharam assentos no Senado dos EUA (contrariando as expectativas de que poderiam perder a maioria).

Os Republicanos conservaram a maioria que tinham na Câmara de Representantes – beneficiaram-se da nova redivisão em distritos, em muitos estados controlados por governadores e Assembleias estaduais Republicanos – mas, depois de encerradas algumas eleições ainda não decididas, a maioria Republicana se verá menor do que antes.

A Grande Pergunta

Eisenhower
A grande pergunta do dia, portanto, depois desse fracasso dos Republicanos, é se a derrota levará a algum tipo de exame de consciência que faça os Republicanos olharem-se no espelho e começarem a se reconstituir, em busca de uma imagem de partido de empresários sérios e mais responsáveis, semelhante à que tiveram nos anos 1950s, na era Eisenhower.

Richard Nixon
Os Republicanos terão aprendido a lição? Repudiarão, afinal, as táticas do vencer a qualquer custo que aprenderam de Richard Nixon, inclusive sua “Southern Strategy” e os apelos nada sutis a sentimentos e ressentimentos racistas e xenofóbicos? Os Republicanos aceitarão os fatos da ciência, em questões cruciais como o aquecimento global – ou continuarão a insistir em fantasias e a fazer o próprio pensamento político depender integralmente de propaganda?

Os Republicanos afinal reconhecerão que a República Norte-Americana foi criada por Fundadores que acolheram o Estado e o Governo como agentes cruciais na construção da nação, e que conceberam a Constituição para criar uma autoridade central com poderes fortes para promover “o bem-estar geral”? Os Fundadores nunca rejeitaram e desdenharam o governo, como faz hoje o Tea Party.

Encontrar respostas a essas questões é tarefa difícil para os Republicanos, os quais não só internalizaram a violência, ao longo dos últimos 40 anos, mas, também, implantaram genes do “não queremos saber de nada” no próprio DNA do partido. Em termos gerais, os Republicanos beneficiaram-se dessa abordagem. Não é fácil abandonar táticas que tenham dado resultado.

E há também a considerar a realidade da massiva infraestrutura da imprensa-empresa de direita, jornalistas, editores, colunistas, think-tanks mercenários e grupos de ataque organizados como gangues – os quais, todos, tem fortes interesses investidos na manutenção do status quo.

Ainda que alguns líderes dos conservadores possam ter algum desejo ou interesse em mudar a rota, teriam de enfrentar diretamente inúmeros jornalistas e comunicadores, que operam pelas televisões comerciais como propagandistas entrincheirados (falo dos Rush Limbaugh, Glenn Beck e da rede Fox News), todos a postos, desde já, para denunciar como traidores quaisquer conservadores que deem sinal de interessar-se por atitude mais responsável.

Nesse quadro, ante a perspectiva de guerra quase inevitável, o Partido Republicano pode bem optar por manter a mesma linha de atuação; continuarão, assim, a trabalhar para consolidar o voto dos brancos e para legislar na direção de suprimir o voto de outros grupos étnicos, investindo simultaneamente cada vez mais em propaganda, para estabelecer confusão ampla, geral e irrestrita na opinião pública, para perseverar nas táticas de obstrução de votações.

Mas a dura realidade com a qual os Republicanos têm hoje de conviver é que aquelas táticas velhas não deram certo em 2012. Os Republicanos fizeram refém a economia dos EUA e disseram, pela imprensa-empresa, que a única salvação, para os eleitores, seria eleger Mitt Romney e, dali em diante, obedecer servilmente a um Congresso Republicano.

Hoje já se viu que mais de 60 milhões de eleitores reelegeram o presidente Obama e declararam que o Partido Republicano dos EUA é blefe.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Quem bate os tambores de guerra contra o Irã?


Terry Jones

Tanto quanto os contribuintes de cidades italianas medievais, estamos tendo o nosso dinheiro desviado para pagar a ganância de máquina militar



6/12/2011, Terry Jones, The Guardian, UK
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O presidente Dwight D Eisenhower em 1961, ao se aposentar, alertou seus colegas americanos sobre o perigo em permitir uma relação muito próxima entre políticos e a indústria de defesa. Foto: W. Eugene Smith 

No século 14 houve duas pandemias. Uma foi a Peste Negra; a outra foi a comercialização da guerra. Mercenários sempre houve, mas no reinado de Eduardo III converteram-se em principal sustentáculo do exército inglês nos primeiros 20 anos do que seria a Guerra dos 100 Anos. Então, quando Eduardo assinou o tratado de Brétigny em 1360 e disse aos soldados que parassem de guerrear e voltassem para casa, muitos deles não tinham casa para onde voltar. Estavam habituados a guerrear e da guerra tiravam o próprio sustento. Então, aqueles homens organizaram-se em exércitos freelance, não por acaso batizados de “livres empresas” [ing. free companies], e avançaram pela França, pilhando, matando e estuprando.

Um desses exércitos ficou conhecido como A Grande Empresa [ing. The Great Company]. Conforme estimativas conhecidas, reunia 16 mil soldados, maior que qualquer dos então existentes exércitos nacionais. Atacou até o papa, em Avignon, prendeu-o e exigiu resgate. O papa cometeu o erro de pagar aos mercenários grandes quantidades de dinheiro vivo, o que só os estimulou e prosseguir nos malfeitos. Também sugeriu que se mudassem para a Itália, onde seus arquiinimigos, os Visconti, governavam Milão. Foi o que fizeram, sob a bandeira do Marquês de Monferrato, também subsidiado pelo papa.

Ali o pesadelo começou. Enormes exércitos privados puseram-se a varrer a Europa, desastre que só foi menor que a Peste Negra. Foi como se o gênio houvesse escapado da garrafa e ninguém conseguia metê-lo lá, de volta. A guerra, de repente, estava convertida em negócio lucrativo; as cidades italianas viram-se empobrecer – todo o dinheiro que os contribuintes pagavam era usado para comprar os serviços das livres empresas. E, dado que os que lucravam com a guerra naturalmente ansiavam por continuar a fazê-lo, e do mesmo modo, a guerra tornou-se eterna, infindável.

Corra o filme para o futuro, 650 anos adiante, mais ou menos. Os EUA, no governo de George W Bush, decidiu privatizar a invasão do Iraque, empregando “fornecedores” privados de serviços de guerra, como a empresa Blackwater, hoje rebatizada Xe Services. Em 2003, a Blackwater conseguiu um contrato sem licitação, de 27 milhões de dólares, para garantir a segurança de Paul Bremer, então presidente da Autoridade Provisória da Coalizão [ing. Coalition Provisional Authority]. Desde então, vendendo proteção a servidores públicos em zonas de conflito desde 2004, a empresa já recebeu mais de 320 milhões de dólares. E em 2011 o governo Obama contratou serviços da Xe, pelos quais terá pago, até dezembro em curso, 250 milhões de dólares por serviços de segurança no Afeganistão. Essa é apenas uma das várias empresas que lucram com a guerra.

Em 2000, o Projeto para o Novo Século Americano [ing. Project for the New American Century] publicou um relatório, “Rebuilding America's Defenses” [Reconstruindo as Defesas dos EUA], cujo objetivo declarado é aumentar os gastos da Defesa, de 3% para 3,5% ou 3,8% do PIB dos EUA. De fato, esses gastos já chegam hoje a 4,7% do PIB dos EUA. Na Grã-Bretanha, gastamos, na Defesa, cerca de 57 bilhões por ano, 2,5% do PIB.

Assim como os cidadãos contribuintes das cidades-estado italianas medievais, estamos vendo nosso dinheiro ser drenado para o negócio da guerra. Empresas responsáveis têm de gerar lucros para remunerar os acionistas. No século 14, os acionistas das livres empresas eram os próprios soldados. Se a empresa não estivesse contratada por alguém para fazer guerra contra algum outro, os acionistas viam sumir os dividendos. Por isso, cuidavam, eles mesmos, de criar mercados nos quais seus negócios continuassem a render lucros.

A Empresa Branca [ing. White Company] de Sir John Hawkwood podia oferecer seus serviços ao papa ou à cidade de Florença. Se a oferta não interessasse a algum desses, Hawkwood imediatamente oferecia os mesmos serviços aos seus respectivos inimigos. Como Francis Stonor Saunders escreve, em seu maravilhoso Hawkwood – Diabolical Englishman:

“As empresas tinham, unicamente, o valor negativo de manter o equilíbrio do poder militar entre as cidades”. [1]

Exatamente como a Guerra Fria.

Há vinte anos, numa livraria, passei a mão numa revista da indústria de armas. “Graças a Deus, Saddam existe” – era o título do editorial. Explicava que, desde o colapso do bloco soviético e o fim da Guerra Fria, as pastas de contratos da indústria de armas andaram vazias. Mas naquele momento, havia afinal um inimigo, e a indústria voltava a sonhar com melhores tempos. A invasão do Iraque foi inventada em torno de uma mentira: Saddam jamais teve armas de destruição em massa; mas a Defesa carecia de inimigo; e os políticos rapidamente forneceram-lhe um.

Hoje, os mesmos tambores de guerra, encorajados pelo ataque à embaixada britânica semana passada, voltam a bater, clamando por ataque contra o Irã. Seymour Hersh escreve na revista New Yorker:

“Todo o urânio baixo-enriquecido que o Irã produz é conhecido, legal e legítimo”. [2]

O relatório recente da Agência Internacional de Energia Atômica, que provocou onda de fúria contra ambições nucleares dos iranianos – continua Hersh – não contém sequer uma linha que prove que o Irã estaria desenvolvendo armas nucleares.

No século 14, quem vivia em simbiose com os militares era a igreja. Hoje, são os políticos. O governo dos EUA gastou espantosíssimos 687 bilhões de dólares na “defesa”, em 2010. Pensem em tudo que se poderia fazer, se o mesmo dinheiro fosse aplicado em hospitais, escolas, ou para pagar hipotecas extorsivas, de famílias despejadas que hoje vivem na rua.

O ex-presidente Dwight Eisenhower dos EUA aproveitou a oportunidade de um discurso de despedida, em 1961, para alertar os cidadãos norte-americanos contra o risco de admitir relacionamento muito íntimo entre os políticos e a indústria da defesa.

“Essa conjunção, quando há um imenso establishment militar e grande indústria de armas, é novidade na experiência dos norte-americanos” – disse ele. – “Nos conselhos do governo, temos de nos prevenir conta o risco de que venham a acumular excessiva influência. O potencial para que cresça muito um poder desastroso e deslocado está aí, existe e continuará a existir”.

Existe mesmo. O gênio, outra vez, escapou da garrafa.



Notas dos tradutores
[1]  SAUNDERS, Francis Stonor, “Hawkwood: Diabolical Englishman” [Hawkwood, Inglês Diabólico] (nos EUA “The Devil's Broker” [O Corretor do Diabo]), Londres: Faber and Faber, 2004.
[2]  HERSH, Seymour M., “Iran and the Bomb. How real is the nuclear threat?”, 6/6/2011, New Yorker.