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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Atenção BRICS: Serguei Lavrov está desistindo dos “EUA−ocidente”

14/9/2014, The Saker, Vineyard of the Saker   
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Ontem assisti a um interessante programa da TV russa, “O direito de saber”, que mostrou uma entrevista ao vivo, de uma hora, com Sergei Lavrov (abaixo,  sem legendas e em russo), Ministro de Relações Exteriores da Rússia, em conversa com cinco jornalistas russos. Nada tão importante que justifique o trabalho de traduzir, mas quero partilhar com vocês algumas coisas que já observei no passado e que reapareceram poderosamente expressas durante aquela conversa.


Como se poderia prever, os tópicos incluíram a guerra civil na Ucrânia; a situação da investigação sobre o ataque e derrubada do avião malaio MH17, sanções contra a Rússia, a expansão da OTAN, as negociações em Minsk e o engajamento da Rússia com os países BRICS.

Em todos esses tópicos o programa seguia roteiro semelhante: um dos jornalistas pedia que Lavrov comentasse o que acontecera numa ou outra circunstância e Lavrov confirmava:

(...) é verdade, tentamos tudo que foi possível, mas sem resultado positivo. Lamentamos muito.

O mais curioso foi que os jornalistas manifestavam surpresa, alguns até indignação por as coisas terem chegado ao ponto que chegaram, mas a reação de Lavrov era “é, vocês têm razão, não tem jeito mesmo. É situação completamente sem esperanças”. O efeito geral era de um conselho de classe escolar, com os professores discutindo a situação de um aluno inapelavelmente idiota e incapaz de melhorar. De diferente, só, que, naquele caso, o “aluno” era o chamado “ocidente”.

O silêncio dos MENTIROSOS
Por exemplo, sobre o caso do voo MH17, os jornalistas mostraram surpresa ante o vazio de resultados e a total esterilidade do relatório “oficial” recém divulgado. Observaram que toda a imprensa-empresa ocidental entrou em surto de histeria, com manchetes do tipo “Putin Terrorista” ou “Basta! Basta!”, como se não soubessem que a investigação continua.
A reação de Lavrov foi

(...) é verdade. Bom... fizemos o possível no Conselho de Segurança, apresentamos nossa contribuição, queríamos um total cessar-fogo para que o local do acidente pudesse ser periciado adequadamente, oferecemos as nossas informações, conversamos com os malaios, quisemos conversar com os especialistas, mas eles só conversaram com a Junta de Kiev, passaram 15 dias lá e só conversaram com a Junta. Ainda temos detalhes a esclarecer com os peritos, mas, ao que se vê, só nós continuamos interessados em obter investigação completa e completamente transparente (não é citação, mas é paráfrase bem confiável das palavras de Lavrov).

A impressão que resta da conversa toda é algo como

(...) sinceramente, com gente assim não há o que fazer. O que mais poderíamos tentar?


Sobre as sanções, os jornalistas disseram que vários países estão surpresos com a velocidade com a Rússia afastou-se do “ocidente” e começou a construir relações com Ásia, África, América Latina e com o subcontinente indiano. Mais uma vez, a resposta de Lavrov foi

(...) é, nós mesmos também nos surpreendemos, nós mesmos, com a rapidez dos eventos. Mas não tivemos escolha.

Não é o único programa de entrevistas que passa essa mensagem. A impressão que tenho é que a Rússia desistiu dos “EUA−ocidente”. Claro: vão continuar a conversar e a Rússia tentará, mesmo contra qualquer probabilidade, arrancar comportamento adulto responsável dos políticos ocidentais. Mas ninguém na Rússia tem qualquer esperança de conseguir.

Em outro programa desse tipo (Sunday Evening with Vladimir Soloviev) os participantes observaram que a Alemanha assumira o papel de pressionar a Finlândia, a República Eslovaca e outros países que não queriam adotar mais sanções. Outra vez, a mensagem russa foi

(...) esqueçam os alemães. Esse pessoal não tem jeito.

Creio que há sincero e muito difundido sentimento de desgosto e de descrença, na Rússia, em relação aos países da União Europeia. Quanto aos EUA, os russos já veem os norte-americanos como lunáticos messiânicos, militantes do ódio racista e nacionalista, capazes de fazer qualquer coisa para causar dano à Rússia, do modo que encontrem à mão, por doido, absurdo, inútil ou hipócrita que seja.

Tudo isso se resume a um consenso que se vai generalizando segundo o qual, por mais que qualquer guerra contra os EUA e OTAN deva ser evitada, pouco mais haveria a ganhar dos esforços para manter a paz. Muitos políticos dizem hoje que

(...) nossa política externa sempre foi excessivamente influenciada pelo “ocidente”. Isso agora tem de mudar – o futuro da Rússia está noutro lugar. 

Cuidado com minhas sanções!
A implantação de sanções contra a Rússia é perfeito exemplo disso. Enquanto apenas alguns direitistas mais ferozes e pró-EUA ainda reclamam (e, sim, é claro que essa gente sempre existe). Há também muita gente que entende que, apesar de não se encontrarem ostras belon francesas à venda em Moscou, as sanções chegam como perfeita bênção, uma vez que forçam a Rússia a separar-se do “ocidente” – separação que, para muitos russos, já deveria ter acontecido há muito tempo. No curto prazo, as sanções ocidentais “morderão”, sobretudo no mercado de alguns itens high-tech, mas no longo prazo e nos grandes números, muita gente entende que o principal erro, e erro muito mais grave, desde o início, era depender do “ocidente” para aquele tipo de produto.

Mais uma vez, a emoção dominante é de desgosto, estranheza e cansaço. Embora um homem tão finamente educado nas artes da diplomacia, como Lavrov, jamais o declare nesses termos, a reação geral já é claramente que “vocês, europeus estão em decadência; vocês fracassaram; não precisamos de vocês para nada; goodbye”. Mas dito sem qualquer ira e, de fato, quase que só com tristeza.

Não creio que diplomatas russos venham a fazer altas declarações antiocidente na ONU ou seja onde for. O contrário do amor não é o ódio: o contrário do amor é a indiferença.

Os funcionários do governo russo continuarão a falar de “nossos parceiros” e, até, de “nossos amigos”, mas, ao mesmo tempo em que a retórica bem-soante continuará, as relações com o Ocidente irão gradualmente deixando de ser prioridade para a diplomacia russa, para o business russo e mesmo para a opinião pública russa em geral. De fato, a Rússia já está construindo um mundo multipolar e, se o Ocidente não quer ter lugar nesse mundo... problema dele. Os russos sabem que o Ocidente não pode impedir a emergência desse novo mundo, e realmente pouco se incomodam se o Ocidente recusar-se a aceitar a nova realidade ou resistir contra dançar segundo as novas regras.

BRICS, um MUNDO MULTIPOLAR
Mais uma coisa: os russos estão, sim, com certeza, muito furiosos com a posição extremamente agressiva da OTAN, porque a interpretam – corretamente – como sinal de hostilidade.

Mas, ao contrário do que vários blogueiros têm dito, os russos não temem a ameaça militar que a OTAN está fazendo. A reação dos russos contra os mais recentes movimentos da OTAN (novas bases e mais soldados na Europa Central, mais gastos, etc.) é denunciá-los como provocação. Mas todos os funcionários russos insistem em que a Rússia tem meios para responder à ameaça militar.

Como disse um deputado russo,

(...) cinco grupos de reação rápida [como a OTAN definiu sua “nova estratégia”] é problema que se resolve com um único míssil.

É fórmula simplista, mas basicamente correta. Putin disse exatamente a mesma coisa, quando informou, sem margem de dúvida, que, em caso de ataque convencional massivo “seja de quem for”, a Rússia, sim, usará suas armas atômicas táticas.

De fato, se a OTAN prosseguir com a estupidez que é o plano de estacionar tropas na Polônia e/ou nos países do Báltico, entendo que a Rússia se afastará do Tratado de Forças Nucleares Intermediárias (IRNF) e usará sucessores avançados do famoso RSD-10 (SS-20).  Como já escrevi antes, a decisão de duplicar o tamanho das Forças Russas Aerotransportadas e de atualizar o status do 45º Regimento Especial Aeroembarcado de elite, para dimensões de brigada, já foi tomada. Pode-se dizer que a Rússia estava prevendo a criação da força da OTAN, de 10 mil soldados,  no momento em que duplicou as dimensões de suas próprias forças aerotransportadas, de 36 mil, para 72 mil soldados. Já tendo, portanto, tomado as providências necessárias para dar conta da ameaça militar, o Kremlin pode agora passar a cuidar dos assuntos realmente importantes.

Dentre as várias concepções distorcidas que acolhemos em nossa cabeça durante nosso “adestramento” ocidental (não consigo chamar a coisa de “educação”), nós, no ocidente, temos uma tendência a ver nossa parte do mundo como o centro do planeta, e alguns até enchem a boca para dizer que os EUA seriam a única nação indispensável, a única realmente importante. É o que se vê até em nossos mapas sistematicamente centrados na Europa ou nos EUA e na crença já quase dogmática nos EUA de que ninguém é ou será jamais mais importante que os norte-americanos. Tudo isso está errado.

“Nosso norte é o sul”, mapa de Joaquin Torres Garcia, 1943
De fato, o Império Anglo-Sionista Norte-Americano está em declínio lento, mas inexorável. Todo o resto do mundo lhe fará ainda algumas reverências, mas, mais ou menos rapidamente, lhe dará as costas e seguirá adiante. Se, nas instalações de adestramento a que chamamos “escolas” houvesse professores realmente capazes de educar gerações para o mundo em que realmente viverão, todos já teriam começado a desenhar mapas centrados na China e ensinariam aos jovens trainees que já ninguém mais leva a sério os chamados “valores ocidentais”.

Até Obama já anunciou seu “pivô” para a Ásia! Só que, à maneira típica dos anglo-sionistas, o tal “pivô” significava, apenas, que os EUA usariam mais forças militares e mais pressões para obrigar o mundo a obedecer aos desejos do Império. De modo bem diferente do que fazem os EUA, a Rússia não anunciou “pivô” algum, mas Putin já se reuniu quatro vezes, só em 2014, com Xi Jinping; e os dois lados declararam que sua parceria estratégica é a mais forte que jamais houve na história das relações entre os dois países.

Não há dúvida de que a Rússia está realmente voltando o olhar para a China, a América Latina, África e outras partes do mundo. Seus diplomatas continuam a conversar, sorrir, falam de “parceiros” e “amigos”, mas creio que estamos assistindo a um evento histórico: pela primeira vez, desde o século XIII, a Rússia está-se distanciando do Ocidente e começou a apostar o próprio futuro em associação com a Ásia (e o resto do planeta).


The Saker

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O novo plano de Defesa de Obama: “Drones”, Operações Especiais e Ciberguerra


Spencer Ackerman

5/12/2012, Spencer Ackerman, Wired
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O presidente Obama anunciou hoje sua visão para o futuro militar dos EUA. Deem adeus às grandes guerras de contraguerrilha. Todos a postos para mais guerra clandestina, ataques de drones e combates online, com os militares de olhos postos no Pacífico, não mais no Afeganistão. 

Em rara visita ao Pentágono, o presidente Obama declarou que os EUA estarão “fortalecendo nossa presença no Pacífico Asiático” e “virando a página de uma década de guerra.” Na prática, significa cortar nos “sistemas retrógrados da Guerra Fria” (não especificou quais) e no Exército e na Marinha, como parte de amplo esforço para cortar o que o Pentágono calcula hoje em $487 bilhões em seu orçamento, ao longo de dez anos.

Obama discursa em sua visita ao Pentágono
Mas também significa que os EUA investirão pesado em outras especialidades militares, de agora até 2020. Obama identificou-as como “inteligência, vigilância, contraterrorismo, prevenção da construção e uso de armas de destruição em massa e a capacidade para operar em ambientes nos quais o inimigo tente nos negar acesso.”

Traduzido do jargão secreto da Defesa: toneladas de ferramentas de espionagem, inclusivedrones; forças letais para operações especiais; armas de ciberataque; ferramentas para despistar rastreamento e bloqueios (orig. jammers); e presença para deter e confrontar o Irã – talvez também a China, que insiste em manter a Marinha e a Força Aérea dos EUA bem longe de suas praias[1].

A coisa soa como versão requentada do projeto do Pentágono dez anos passados, e talvez seja isso mesmo. Os militares serão “menores e mais magros, mas igualmente ágeis, flexíveis e tecnologicamente avançados”, nos termos do recém-lançado documento do Pentágono, no qual se delineia a mudança de estratégia; e preservando “capacidades de ponta, explorando nossa vantagem tecnológica, ampla e unida em rede”. Em algum lugar, Donald Rumsfeld sorriu[2]. 

Mas o documento de fato não diz o que tudo isso realmente significa – por exemplo, que armas, navios, tanques, aviões e soldados estão com a cabeça sobre o cepo. Essa é a tarefa do orçamento da defesa para o próximo ano, que o Pentágono está finalizando e divulgará no início de fevereiro. Mas como o Blog “Danger Room” noticiou na 4ª-feira, a Força Aérea perderá 200 aviões e a Marinha dispensará cerca de 100 mil soldados, porque o Pentágono terá de cortar $450 bilhões do orçamento, em dez anos[3]. E o documento já divulgado pelo Pentágono também faz vaga referência a cortes no arsenal nuclear dos EUA.

As linhas de ataque da estratégia de defesa de Obama já estavam claras, antes até de a tinta secar. O Republicano Buck McKeon (R-Calif.), presidente da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados, chamou a coisa de “retirada do mundo”, marcada por “pesados cortes nas nossas forças militares”. E se a estratégia parece dieta para fazer o orçamento da defesa emagrecer $487 bilhões em dez anos, como está programado, o Pentágono perderá outros $600 bilhões, no mesmo período, que começa a contar ano que vem, a menos que o Congresso aprove acordo gigante para reduzir o déficit. Há tempo de sobra para que os militares consigam reverter o tal acordo. Mas o secretário de Defesa Leon Panetta já avisou que novos cortes “nos forçarão a cortar missões, compromissos e capacidades indispensáveis para proteger interesses vitais da segurança nacional”.

Ao longo do ano passado, o Pentágono discutiu modos para reafirmar a postura da defesa dos EUA – nem tanto porque quisesse, mas porque a iminência dos cortes obrigou o Pentágono a repensar o que fazer para defender o país por preço mais em conta. Críticos acusam o processo de ser retrógrado, estratégia movida a dinheiro, em vez de estratégia militar que orientasse o modo como o Pentágono gasta dinheiro. Afinal, na última vez que o Pentágono pensou sobre as próprias prioridades em muitos anos, a primeira resposta que apareceu foi “vencer as guerras de hoje” (.pdf[4]) Era fevereiro de 2010.

Pois a prioridade mudou. A nova estratégia “transiciona (sic) a empreitada de nossa Defesa, da ênfase nas guerras de hoje, para a preparação para desafios futuros” – diz o documento. Esses desafios “são inextricavelmente ligados aos desenvolvimentos no arco que se estende do Pacífico Ocidental e Leste da Ásia, até a região do Oceano Índico e sul da Ásia”. 

Mas o Pentágono não está pondo fim às “Guerras na Sombra” – ataques não declarados contra alvos terroristas, por drones e comandos clandestinos, no Paquistão, Iêmen, Somália e além. Mas, sutilmente, o Pentágono muda de objetivo. “No futuro que se pode antever”, diz o documento, os EUA caçarão terroristas – “monitorando atividades de ameaças que venham de entidades não estatais em todo o mundo, trabalhando com seus aliados e parceiros para estabelecer controle sobre territórios sem governo, atacando diretamente os grupos e indivíduos mais perigosos, quando necessário.”

Se isso significa alguma coisa, significa mandar a espionagem global, antes das missões para capturar e matar terroristas. Essas missões sempre exigiram inteligência, mas tudo faz pensar em programas de vigilância e espionagem de longo alcance, como os clusters de vigilância da Força Aérea do tipo “Gorgon Stare”, e a espionagem militar massiva parece estar crescendo em importância.

Nem os EUA estão dizendo que estão caindo fora do Oriente Médio. “A segurança do Golfo” será enfatizada – o que é o mesmo que dizer que a nova prioridade dos militares é conter o Irã. O que por sua vez exige “priorizar” a “presença” dos EUA e forças aliadas “na e em torno da região”. Tradução: a Força Aérea manterá a base-gigante em Al-Udeid no Qatar; e a V Frota da Marinha continuará a patrulhar o Golfo.

Mas a guerra de contraguerrilha, foco da ação do Exército dos EUA na última década, nem por isso será abolida. Oficialmente, é a nona entrada na lista de prioridades da Defesa. E mesmo aí, o documento fala, no máximo, sobre “guerra limitada de contraguerrilha”, e sabe-se lá o que isso significa, porque “as forças dos EUA não mais serão planejadas para operações de larga escala, prolongada, de estabilização”. 

Apesar de os militares estarem-se mudando para o Pacífico – o que significa mais trabalho para Marinha e Força Aérea – além de espionagem com drones; forças letais para operações especiais; despistamento e bloqueios cyber e ataques cirúrgicos, o general Martin Dempsey, chefe do Comando do Estado-maior, não quer que se esqueça o Exército. Dempsey lembrou que “o documento não diz, em lugar algum, que nunca mais combateremos guerras no solo”.



Notas dos tradutores




[4]  “Quadrennial Defense Review Report (February 2010)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Quem bate os tambores de guerra contra o Irã?


Terry Jones

Tanto quanto os contribuintes de cidades italianas medievais, estamos tendo o nosso dinheiro desviado para pagar a ganância de máquina militar



6/12/2011, Terry Jones, The Guardian, UK
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu

O presidente Dwight D Eisenhower em 1961, ao se aposentar, alertou seus colegas americanos sobre o perigo em permitir uma relação muito próxima entre políticos e a indústria de defesa. Foto: W. Eugene Smith 

No século 14 houve duas pandemias. Uma foi a Peste Negra; a outra foi a comercialização da guerra. Mercenários sempre houve, mas no reinado de Eduardo III converteram-se em principal sustentáculo do exército inglês nos primeiros 20 anos do que seria a Guerra dos 100 Anos. Então, quando Eduardo assinou o tratado de Brétigny em 1360 e disse aos soldados que parassem de guerrear e voltassem para casa, muitos deles não tinham casa para onde voltar. Estavam habituados a guerrear e da guerra tiravam o próprio sustento. Então, aqueles homens organizaram-se em exércitos freelance, não por acaso batizados de “livres empresas” [ing. free companies], e avançaram pela França, pilhando, matando e estuprando.

Um desses exércitos ficou conhecido como A Grande Empresa [ing. The Great Company]. Conforme estimativas conhecidas, reunia 16 mil soldados, maior que qualquer dos então existentes exércitos nacionais. Atacou até o papa, em Avignon, prendeu-o e exigiu resgate. O papa cometeu o erro de pagar aos mercenários grandes quantidades de dinheiro vivo, o que só os estimulou e prosseguir nos malfeitos. Também sugeriu que se mudassem para a Itália, onde seus arquiinimigos, os Visconti, governavam Milão. Foi o que fizeram, sob a bandeira do Marquês de Monferrato, também subsidiado pelo papa.

Ali o pesadelo começou. Enormes exércitos privados puseram-se a varrer a Europa, desastre que só foi menor que a Peste Negra. Foi como se o gênio houvesse escapado da garrafa e ninguém conseguia metê-lo lá, de volta. A guerra, de repente, estava convertida em negócio lucrativo; as cidades italianas viram-se empobrecer – todo o dinheiro que os contribuintes pagavam era usado para comprar os serviços das livres empresas. E, dado que os que lucravam com a guerra naturalmente ansiavam por continuar a fazê-lo, e do mesmo modo, a guerra tornou-se eterna, infindável.

Corra o filme para o futuro, 650 anos adiante, mais ou menos. Os EUA, no governo de George W Bush, decidiu privatizar a invasão do Iraque, empregando “fornecedores” privados de serviços de guerra, como a empresa Blackwater, hoje rebatizada Xe Services. Em 2003, a Blackwater conseguiu um contrato sem licitação, de 27 milhões de dólares, para garantir a segurança de Paul Bremer, então presidente da Autoridade Provisória da Coalizão [ing. Coalition Provisional Authority]. Desde então, vendendo proteção a servidores públicos em zonas de conflito desde 2004, a empresa já recebeu mais de 320 milhões de dólares. E em 2011 o governo Obama contratou serviços da Xe, pelos quais terá pago, até dezembro em curso, 250 milhões de dólares por serviços de segurança no Afeganistão. Essa é apenas uma das várias empresas que lucram com a guerra.

Em 2000, o Projeto para o Novo Século Americano [ing. Project for the New American Century] publicou um relatório, “Rebuilding America's Defenses” [Reconstruindo as Defesas dos EUA], cujo objetivo declarado é aumentar os gastos da Defesa, de 3% para 3,5% ou 3,8% do PIB dos EUA. De fato, esses gastos já chegam hoje a 4,7% do PIB dos EUA. Na Grã-Bretanha, gastamos, na Defesa, cerca de 57 bilhões por ano, 2,5% do PIB.

Assim como os cidadãos contribuintes das cidades-estado italianas medievais, estamos vendo nosso dinheiro ser drenado para o negócio da guerra. Empresas responsáveis têm de gerar lucros para remunerar os acionistas. No século 14, os acionistas das livres empresas eram os próprios soldados. Se a empresa não estivesse contratada por alguém para fazer guerra contra algum outro, os acionistas viam sumir os dividendos. Por isso, cuidavam, eles mesmos, de criar mercados nos quais seus negócios continuassem a render lucros.

A Empresa Branca [ing. White Company] de Sir John Hawkwood podia oferecer seus serviços ao papa ou à cidade de Florença. Se a oferta não interessasse a algum desses, Hawkwood imediatamente oferecia os mesmos serviços aos seus respectivos inimigos. Como Francis Stonor Saunders escreve, em seu maravilhoso Hawkwood – Diabolical Englishman:

“As empresas tinham, unicamente, o valor negativo de manter o equilíbrio do poder militar entre as cidades”. [1]

Exatamente como a Guerra Fria.

Há vinte anos, numa livraria, passei a mão numa revista da indústria de armas. “Graças a Deus, Saddam existe” – era o título do editorial. Explicava que, desde o colapso do bloco soviético e o fim da Guerra Fria, as pastas de contratos da indústria de armas andaram vazias. Mas naquele momento, havia afinal um inimigo, e a indústria voltava a sonhar com melhores tempos. A invasão do Iraque foi inventada em torno de uma mentira: Saddam jamais teve armas de destruição em massa; mas a Defesa carecia de inimigo; e os políticos rapidamente forneceram-lhe um.

Hoje, os mesmos tambores de guerra, encorajados pelo ataque à embaixada britânica semana passada, voltam a bater, clamando por ataque contra o Irã. Seymour Hersh escreve na revista New Yorker:

“Todo o urânio baixo-enriquecido que o Irã produz é conhecido, legal e legítimo”. [2]

O relatório recente da Agência Internacional de Energia Atômica, que provocou onda de fúria contra ambições nucleares dos iranianos – continua Hersh – não contém sequer uma linha que prove que o Irã estaria desenvolvendo armas nucleares.

No século 14, quem vivia em simbiose com os militares era a igreja. Hoje, são os políticos. O governo dos EUA gastou espantosíssimos 687 bilhões de dólares na “defesa”, em 2010. Pensem em tudo que se poderia fazer, se o mesmo dinheiro fosse aplicado em hospitais, escolas, ou para pagar hipotecas extorsivas, de famílias despejadas que hoje vivem na rua.

O ex-presidente Dwight Eisenhower dos EUA aproveitou a oportunidade de um discurso de despedida, em 1961, para alertar os cidadãos norte-americanos contra o risco de admitir relacionamento muito íntimo entre os políticos e a indústria da defesa.

“Essa conjunção, quando há um imenso establishment militar e grande indústria de armas, é novidade na experiência dos norte-americanos” – disse ele. – “Nos conselhos do governo, temos de nos prevenir conta o risco de que venham a acumular excessiva influência. O potencial para que cresça muito um poder desastroso e deslocado está aí, existe e continuará a existir”.

Existe mesmo. O gênio, outra vez, escapou da garrafa.



Notas dos tradutores
[1]  SAUNDERS, Francis Stonor, “Hawkwood: Diabolical Englishman” [Hawkwood, Inglês Diabólico] (nos EUA “The Devil's Broker” [O Corretor do Diabo]), Londres: Faber and Faber, 2004.
[2]  HERSH, Seymour M., “Iran and the Bomb. How real is the nuclear threat?”, 6/6/2011, New Yorker.

domingo, 11 de julho de 2010

Lula diz que quer comprar avião da África do Sul para proteger pré-sal


http://navy.org.za/files/bateleur4.jpg
Denel Bateleur MALE (medium-altitude long-endurance)

Ele afirma estar ‘de olho’ em aviões não tripulados para defender reservas. Presidente também propõe parceria com africanos em projeto de aeronave.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta sexta-feira (9) em encontro com o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, que quer uma parceria com a África da Sul no desenvolvimento de um avião, que, segundo ele, deve estar pronto em 2015. Lula disse também que o Brasil tem interesse na compra de aviões não tripulados da África do Sul para atuar na defesa das reservas do pré-sal.
“Nós estamos querendo que o companheiro Zuma se junte ao Brasil na construção do avião KC-390, que é o novo Hércules que nós estamos construindo, um avião de caça, que é importante, a gente pretende que em 2015 ele esteja pronto”, afirmou. “O Ministério da Defesa e [o Ministério da] Ciência e Tecnologia vão continuar discutindo [a questão]”, disse. O Hércules é, na verdade, um avião de transporte usado pela Força Aérea Brasileira.
http://www.defesabr.com/FAB/KC-390_02.jpg
KC-390

O presidente afirmou também que o Brasil tem interesse na compra de aviões não tripulados da África do Sul para serem usados na defesa das reservas de petróleo na camada de pré-sal.
“Nós temos muita fronteira marítima, muita fronteira seca, nós temos o pré-sal a 300 quilômetros da nossa costa, e se a gente não tomar cuidado, é capaz que alguém tire lá, por debaixo”, disse.
“E pode ser que apareça algum esperto querendo pegar o nosso petróleo, e nós vamos ter que ficar lá, de olho, e por isso nós estamos de olho nesses veículos, esses aviões não-tripulados da África do Sul.”

domingo, 27 de junho de 2010

O submarino verde-amarelo ( El submarino verdeamarillo)

Brasil espera que la construcción de su primer submarino nuclear produzca una ola de conocimientos tecnológicos que catapulte a empresas y apoye su base energética.

Vie, 06/18/2010 - 11:59

Para los marinos brasileños fue como un regalo navideño cuando el 23 de diciembre de 2008 el presidente Lula da Silva puso la firma para adquirir cinco submarinos franceses por más de US$ 8.300 millones. Con la compra, el país duplicaba su flota actual de sumergibles, pero representaba mucho más. El paquete incluía nada menos que el cuerpo para un submarino de propulsión nuclear, el sueño de toda flota, pero disfrutado sólo por un quinteto: Estados Unidos, Inglaterra, Francia, Rusia y China. Justamente los miembros permanentes del Consejo de Seguridad de la ONU, un asiento al que Brasil también aspira.

Las cinco superpotencias tienen sus submarinos equipados con armamento nuclear, pero aún con armas convencionales es un instrumento fenomenal. Por un lado, la potencia del reactor nuclear le permite alcanzar velocidades seis veces superior a la de uno convencional. Por otro, como el reactor no es a combustión, no necesita oxigeno. Eso se traduce en una autonomía casi ilimitada, dependiendo sólo del tamaño de sus almacenes y la resistencia psicológica de la tripulación. Es más, puede mantener la velocidad máxima todo el tiempo que necesite, incluso a gran profundidad.

“Un submarino nuclear significa estar en todos los lugares al mismo tiempo”, se entusiasmaba el comandante de la marina brasileña Julio Soares de Moura Neto.

Pero el plan de los almirantes brasileños es más ambicioso. Según el cronograma, el submarino nuclear estará listo hacia 2021, pero sólo será el primero de una línea de producción. Cada siete años se botará uno nuevo hasta alcanzar una flota de, al menos, cinco unidades, la necesidad mínima establecida por el plan de defensa de ese país para patrullar las aguas profundas que rodean sus más de 7.000 kilómetros de costa.

Como arma, una flota de submarinos nucleares parece algo exagerado para el vecindario sudamericano. No es tanto el poder de fuego donde tienen puestos sus ojos los brasileños, sino en el terreno tecnológico local, donde el submarino tendrá sus resultados más inmediatos y concretos. De acuerdo al cronograma, para 2014 los brasileños esperan obtener una tecnología propia de generación termonuclear. Además, algunos expertos de ese país auguran que el submarino nuclear podrá abastecer de energía a localidades costeras remotas de ese país, ampliando aún más su uso civil.

Según el acuerdo franco-brasileño la naviera francesa DCNS proveerá el diseño del casco y la tecnología de fabricación, la empresa gala de defensa Thales aportará los sistemas de navegación y armas, mientras que el sistema de propulsión será provisto por los propios brasileños. Con una inversión de US$ 250 millones en el Centro Experimental de Aramar, en el estado de São Paulo, los brasileños esperan terminar el Laborario Experimental de Generación Nucleoeléctrica (Labegne), el prototipo que probará y homologará toda la tecnología brasileña en generación nuclear.

Si pasan el cometido, Brasil será el primer país latinoamericano en tener lista su propia tecnología de generación nuclear, ya sea para motorizar un submarino, como para apoyar el plan energético del país.

Argentina, pese a haber estado más avanzado en los años 80 y haber recibido a partir de 2007 un apoyo inédito a su proyecto Carem, un reactor de cuarta generación modular capaz de crear entre 300 megawatts hasta 700 megawatts (MW) de potencia, recién se encuentra entrando a la fase de ingeniería de detalle y el reclutamiento de unos 1.500 profesionales para llevarla a cabo. Incluso la norteña provincia de Formosa ya suscribió una carta de intención para instalar un generador nuclear en su territorio, pero la construcción aún no ha comenzado.

El Labegne es un reactor de agua presurizada (PWR, por pressurized water reactor) de 48 MW, que es la potencia que se requiere para los submarinos proyectados. Según el coordinador del programa nuclear de Eletronuclear, el operador de las centrales nucleares brasileñas, el Labegne puede convertirse en la base para desarrollar en las próximas décadas centrales de baja y mediana potencia. Los técnicos argentinos de la Comisión Nacional de Energía Nuclear (CNEA) calculan que este tipo de reactor puede servir para desarrollar las centrales de 1.000 MW que Brasil planea desarrollar para independizar su matriz energética de los períodos de lluvias y sequías.

Justamente la primera central PWR comercial, la estadounidense Shippingport, data de mediados de los años 50 y fue diseñada a partir de los conocimientos del prototipo Mark I de reactores para submarinos. Hoy es la tecnología más difundida en el mercado internacional. Al 30 de diciembre de 2008, 264 de los 438 que funcionan en el mundo se basan en esta tecnología, incluyendo las centrales nucleares brasileñas Angra I y II.

¿Cuál es su característica? Funcionan con uranio levemente enriquecido y utilizan agua común presurizada para mantener la temperatura del reactor sin que entre en ebullición. El mismo hidrógeno del agua contiene los neutrones disparados por la reacción. Entre las ventajas, los analistas mencionan la estabilidad, la economía del material crítico para la fisión y el agua común que, por lejos, es mucho más barata que el agua pesada. Pero a la hora de las contras, este tipo de reactores exige un delicado desarrollo de materiales para soportar la presión y corrosión; y no pueden recambiar el combustible mientras está en operaciones, debiendo hacer paradas que atentan contra la eficiencia de la central.

Por otra parte, como el agua absorbe más neutrones que el agua pesada, los PWR demandan uranio enriquecido. Los cálculos de la marina son que para el navío necesitarán un combustible enriquecido a menos de 20%, pero esa parte sería la que Brasil tiene más resuelta. Desde 1982 domina el enriquecimiento de uranio mediante centrifugado y para fines de 2010 estará haciendo las primeras pruebas de Usexa, la planta que producirá uranio enriquecido a escala industrial, y que alimentará a las centrales Angra. Pondrá sus ultra centrifugadoras en línea cuando requiera un mayor enriquecimiento para alimentar los submarinos, o en paralelo para las plantas de generación eléctrica.

Transferencia de conocimientos
El desarrollo nuclear brasileño dejará otros beneficios menos tangibles. La construcción de la planta nuclear Atucha, en Argentina, por ejemplo, dejó varias cosas. “Nosotros ya lo vivimos con Atucha”, dice Miguel Shlump, de la CNEA. “Como efecto de estas construcciones nos quedan el desarrollo de metales, electrónica, electricidad, sistemas de calidad altamente exigentes e incluso trabajadores altamente calificados como soldadores de precisión”.

Por lo pronto, muchas firmas brasileñas participan activamente en el proyecto del reactor nuclear para el submarino. Nuclebras Equipamentos Pesados S.A. (Nuclep) construyó el recipiente del reactor Lebegne, Dedini S.A fabricó la turbina y el grupo Garcia Jaraguá participa en la construcción del presurizador y condensador.

Además, los contratos con Francia incluyen transferencia tecnológica, la formación de equipos brasileños en Francia y la radicación de franceses en Brasil. El Ministerio de Defensa brasileño calcula que 21 sectores industriales se verán directamente vinculados al proyecto y otros 19, de manera indirecta, generándose más de 11.500 puestos de trabajo sólo para el proyecto de los submarinos nucleares.

Y sin duda el que se llevará la mejor parte será el gigante de la infraestructura e ingeniería Odebrecht. Este grupo brasileño participará con 50% de las acciones en una sociedad con fines específicos junto a la naviera francesa DCNS, que tiene 49%, y la Marina de Brasil, que tiene 1%, para construir y operar el astillero encargado del Programa Submarino (Prosub) hasta que se hayan completado los cuatro sumergibles convencionales y el nuclear hasta 2022. Para dimensionarlo: el astillero estará localizado en la isla de Madeira, en las instalaciones de Compañía Docas de Rio de Janeiro, ocupando una superficie de 900.000 m2 con capacidad para construir dos submarinos simultáneamente y atender otros 10 al mismo tiempo.

Como si esto fuera poco, el Ministerio de Defensa baraja varios proyectos además del Prosub como para que la industria local esté más que expectante. Acordó, también con Francia, la adquisición de 50 helicópteros EC 725, y ya fue hecha una inversión de US$ 400 millones para fabricarlos localmente. Al cierre de esta edición estaba en pleno proceso de licitación de 36 aviones cazas de última generación, considerando no sólo precios, sino también las ofertas de transferencia tecnológica de las aeronaves.

Asi mismo, en el escritorio del ministro de Defensa, Nelson Jobim, hay carpetas con proyectos de buques patrulleros, aviones robotizados, carros de combate y sistemas de control satelital. Todo un paquete que supera holgadamente los US$ 50.000 millones.

“Nosotros estimamos que [las empresas brasileñas] pueden captar 40% de cada proyecto”, dice con entusiasmo Jairo Candido, presidente del conglomerado industrial Grupo Imbra y director de Comdefesa, la comisión de la industria de defensa de la poderosa Federación de Industrias del Estado de São Paulo (FIESP). “Pero los verdaderos negocios dependen del mercado, cuando se pueden colocar en terceros países”, aclara.

La transferencia de tecnologías y conocimientos puede dar paso a la creación de empresas líderes en el mundo. Y el ejecutivo apunta al caso de Embraer, que, al fabricar los aviones de entrenamiento de la italiana Aermacci, aprendió las tecnologías de la construcción de jets. Hoy Embraer es una las compañías que más jets civiles venden en todo el mundo.

Retirado da revista mexicana "America Economia"

sexta-feira, 25 de junho de 2010

MINISTÉRIO DA DEFESA ESCOLHE O RAFALE

sexta-feira, 25 de junho de 2010


DEFESA ESCOLHE O RAFALE E DECISÃO FINAL SERÁ DO PRESIDENTE

“Depois de muitas especulações, o ministério da Defesa decidiu escolher o caça Rafale, de fabricação francesa, para integrar a Defesa Aérea brasileira.

A decisão foi tomada com base apenas em questões técnicas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá convocar o Conselho de Defesa Nacional para discutir o assunto.

Uma exposição de motivos de cerca de 40 páginas que será assinada pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, e os comandantes da Aeronáutica, Brigadeiro Juniti Saito, e da Marinha, Almirante Moura Neto, confirma a escolha. O documento está dividido entre os pontos positivos e negativos de cada um dos três aviões finalistas – Rafale (Dassault), Gripen NG (Saab) e F-18 (Boeing).

Cada parágrafo remete a documentos elaborados pela Força Aérea e pela Marinha. A Marinha foi consultada visando os porta-aviões de 50 toneladas que serão incorporados no futuro. Também foi assegurada a participação da Embraer em todas as etapas do projeto. Além disso, a empresa negocia com a França o desenvolvimento e a venda do cargueiro militar KC-390.

Em dezembro do ano passado, a Força Aérea entregou um relatório que colocaria o F-18 como vencedor e não o Gripen, como se chegou a especular. Nelson Jobim mandou a FAB refazer o documento para adequar a pontuação à Estratégia Nacional de Defesa (END).

A FAB teria utilizado os mesmos critérios do FX1, que foi cancelado no início do primeiro mandato de Lula em 2003. Na época, o custo de manutenção, o preço unitário do avião e o pacote de contrapartidas comerciais eram os itens que mais pontuavam.

Desta vez, a transferência de tecnologia valeu 40 de 100 pontos. Ao final do governo Fernando Henrique, valia apenas 9 pontos em 100. O Gripen NG teve a melhor avaliação quanto à transferência de tecnologia, mas perdeu muitos pontos em outros itens e foi considerado um projeto de alto risco. Na prática, o avião sueco só teve boa avaliação no início do processo. O Rafale, por sua vez, só foi mal no quesito preço. A hora vôo do Gripen está calculada entre US$ 7 e US$ 8 mil. A Saab prometeu que ficaria em US$ 3 mil. Confirmada a decisão, a Saab estará em maus lençóis, pois o Gripen NG é o único projeto da empresa junto com a modernização das versões C e D do mesmo avião.

A própria Suécia não adquiriu o avião e só o fará se o negócio com o Brasil sair. Já o Rafale tem mais de 100 unidades entregues e outras 180 encomendas. O modelo está bem avaliado nos Emirados Árabes Unidos e na Suíça. O F-18 Super Hornet, da Boeing, está bem cotado na Índia.

ANÁLISE DA NOTÍCIA

Marcelo Rech

O fato de o Ministério da Defesa ter optado pelo Rafale não significa que o processo está concluído ou que será confirmado pelo presidente Lula. Há uma eleição no horizonte próximo e não seria nenhuma surpresa que a decisão ficasse para a próxima administração. A escolha foi técnica. O governo acredita poder compensar, no âmbito da aliança estratégica com a França, o fato de o Rafale ser o mais caro entre os três finalistas.

A Embraer também ganha, e muito. Eleito o Gripen, ela apenas participaria do projeto. Com o Rafale, estará liderando o processo. A empresa também envolve o desenvolvimento e a comercialização do cargueiro KC-390 no negócio. Os Estados Unidos não poderiam, por lei, fechar um negócio de compra do Super Tucano em troca da venda do F-18, como se especulou recentemente.

Jobim pediu mudanças porque não aceita uma compra de prateleira, como disse várias vezes em audiências públicas realizadas no Congresso. Ele quer a industrialização da Defesa e o domínio da tecnologia pelo Brasil. E acredita que isso será possível com a eleição do Rafale."

FONTE: reportagem de Marcelo Rech publicado no correio eletrônico: inforel@inforel.org e transcrito no site www.fab.mil.br. O autor, Marcelo Rech, é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais, Estratégias e Políticas de Defesa e Terrorismo e contra-insurgência.”