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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A comédia sino-americana de erros


Entreouvido no frege da Maria Boa na Vila Vudu: “Artigo útil, só, para ver sionistas norte-americanos alinhando-se com a China” :-D)).

10/11/2014, [*] SpenglerAsia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dos “Comentários” [aqui traduzidos]:

John Rintala  Top Commenter (Harvard University)
“Os que comentam que Spengler representa a linha pró-Israel, e surpreendem-se agora ao vê-lo falar dos chineses com [alguma] simpatia, têm de compreender que a China soube, muito cuidadosamente, neutralizar o lobby EUA-Israel, garantindo negócios lucrativos para os empresários israelenses; assim, preservou boas relações com Israel. A China vai construir uma ferrovia de Eilat, no Mar Vermelho, até Ashdod, no Mediterrâneo.”

Michael Ngan  Top Commenter (University of Victoria)
Muito obrigado, John Rintala, pelo esclarecimento. É a explicação mais plausível para a súbita conversão do “Spengler”, à racionalidade, sem repetir o sionismo doentio de sempre.


A odisseia da China (Teatro de Pequim)

PEQUIM – Tudo na tragédia acontece por alguma razão, e o resultado é sempre triste; na comédia, muitas coisas acontecem por acaso, e o resultado é quase sempre feliz. As relações sino-americanas não estão destinadas ao conflito, embora o conflito seja possível. Os desentendimentos que dificultam as relações entre os dois países mais poderosos do mundo permanecem no âmbito da comédia, não da tragédia. É o máximo a que se pode aspirar, porque não há quantidade possível de explicações que tornem chineses e norte-americanos compreensíveis uns para os outros.

Onde os chineses são defensivos e cuidadosos, os norte-americanos tendem a vê-los como agressivos; onde os chineses são ambiciosos expansionistas, os EUA os ignoram completamente. Os EUA são potência do Pacífico acostumada a dominar os mares. No pouco que os EUA dão atenção à política exterior chinesa, só fazem mostrar alarme quando a China faz exigências territoriais sobre ilhas microscópicas e não habitadas que Japão, Vietnã e as Filipinas também reclamam para si. Exceto para fazer soar como se fosse coisa séria a retórica de alguns líderes militares chineses, porém, as ilhas em disputa praticamente nem aparecem na escala das prioridades da China.

É o que aparece bem claramente na notícia segundo a qual, na semana passada, China e Japão divulgaram um “Acordo Fundamentado sobre como Gerir e Aprimorar Relações Bilaterais”, resultado de reuniões entre o Conselheiro para Segurança Nacional do Japão, Shotaro Yachi, e o Conselheiro do Estado Chinês, Yang Jiechi. O documento sinaliza que serão criados “mecanismos para gerenciamento de crises, que evitem disputas”; e que os dois países servir-se-ão sempre de “consultas e diálogo”.

Nem o Japão nem a China têm qualquer interesse numa confrontação militar no Pacífico, embora os dois lados tenham usado as disputas pelas ilhas, em encenação dirigida aos respectivos eleitorados nacionalistas internos. O Acordo Fundamentado sobre como Gerir e Aprimorar Relações Bilaterais é claro sinal de que a encenação ao estilo Kabuki já foi longe demais.

Samurai no teatro estilo Kabuki
Meme frequente, em resposta ao suposto expansionismo chinês no Pacífico, inventou uma aliança militar Índia-Japão, sob patrocínio dos EUA, para conter as ambições chinesas. Embora uns poucos nacionalistas indianos tenham abraçado a ideia, examinada de fora vê-se que não passou de gesto oco. Se Índia e China entrarem em confronto por causa, por exemplo, de fronteiras, o que o Japão poderia fazer para ajudar?!

O recém-eleito governo indiano de Narendra Modi jamais levou a sério a ideia. Ao contrário, depois da recente visita do presidente Xi Jinping à Índia, Modi já está de olhos postos em investimentos chineses dos quais a infraestrutura indiana carece com urgência. A economia passa por cima de questiúnculas sobre fronteiras em áreas montanhosas desabitadas que separam as duas nações mais populosas do mundo.

Há também uma dimensão estratégica sobre o crescente bom entendimento que se constata entre China e Índia. Do ponto de vista da Índia, o apoio chinês ao exército paquistanês é motivo de preocupação, mas pode servir como faca de dois gumes. O Paquistão permanece sob o risco de ataque pelo Islã militante, e o principal garantidor da estabilidade do país é o exército. A China quer fortalecer o exército como escudo contra os radicais islamistas, que ameaçam tanto a província chinesa de Xinjiang quanto a Índia; e fortalecer o exército paquistanês, provavelmente, atende tanto aos interesses indianos quanto aos interesses da China.

Analistas chineses estão espantados, sem fala, ante a resposta dos EUA ao que veem como show sem importância no Mar do Sul da China; e a Índia só os preocupa tangencialmente. Ainda estão dando tratos à bola para compreender por que a resposta que emergiu do estrago que os EUA promoveram na Ucrânia foi relacionamento muitíssimo ampliado entre EUA e Rússia.

Por um princípio de diplomacia, a China não aprecia separatistas, porque já tem seus próprios separatistas a enfrentar, a começar pelos uigures muçulmanos na província de Xinjiang. Mas Washington jogou todas as suas fichas na certeza de que os tumultos da Praça Maidan em Kiev ano passado arrancariam a Crimeia do controle russo; o que realmente aconteceu foi que a Crimeia, onde está localizada a principal base naval de águas temperadas da Rússia, foi reintegrada à Federação Russa.

S-400 - Sistema anti-aéreo de mísseis  de defesa
(clique na imagem para aumentar)
Quando, em retaliação, o ocidente impôs sanções contra a Rússia, Moscou moveu-se para o leste – resposta óbvia, e resposta com forte impacto sobre o poder no ocidente. Não apenas a Rússia abriu suas reservas de gás à China, mas também aceitou fornecer à China sua mais sofisticada tecnologia militar, inclusive o formidável sistema de defesa aérea S-400. No passado, a Rússia sempre resistiu contra fazer isso, por causa dos esforços chineses para copiar, por engenharia reversa, os sistemas russos. A crise da Ucrânia mudou tudo isso.

Só agora, afinal, analistas ocidentais observam que a nova aproximação entre russos e chineses pode criar dificuldades para o ocidente. O New York Times devotou manchete de primeira página às opiniões de observadores soviéticos, os suspeitos de sempre, na edição do dia 9/11/2014.

Era óbvio há meses, e deveria continuar óbvio imediatamente antes do fato: o ocidente meramente empurrou “Mano” Putin-Coelho [orig. B'rer Putin] para a floresta densa a leste dele. De todos os erros de cálculo na política do ocidente desde a IIª Guerra Mundial, esse foi, talvez, o mais estúpido. E lá ficam os chineses, hoje, a coçar a cabeça, sem acreditar em tal boa sorte não esperada.

Claro que, sim, é erro falar de aliança Rússia-China; mas está em desenvolvimento um condomínio sino-russo na Ásia. Os negócios de energia e defesa entre Moscou e Pequim são importantes por eles mesmos, mas se tornam muito mais importantes no contexto do que pode ser o mais ambicioso projeto econômico de toda a história: a Nova Rota da Seda. O Pacífico pouco promete à China. Japão e Coreia do Sul são economias maduras, consumidores, tanto quanto concorrentes, da China.

Expansão no Pacífico simplesmente nada tem a oferecer à economia da China. O que a China deseja é ser inexpugnável dentro das próprias fronteiras: gastará generosamente para desenvolver mísseis terra-mar suficientemente potentes para despachar porta-aviões, submarinos de caça e sistemas de defesa aérea dos EUA.

A China prospecta nas direções oeste e sul: energia e minérios na Ásia Central; comida no sudeste da Ásia, portos de águas mornas no Oceano Índico, mercado vasto e acesso aos mercados mundiais onde estejam. A rede de ferrovias, oleodutos, gasodutos e telecomunicações que a China está construindo através das ex-repúblicas soviéticas e através da própria Rússia a levará até o Mediterrâneo [1] e será como trampolim para o comércio chinês com a Europa.

Rota da Seda via sul da Ásia e OM (terra e mar)
(clique na imagem para aumentar)
Toda a massa continental eurasiana tornar-se-á, provavelmente, zona econômica chinesa, sobretudo agora, com a Rússia muito mais disposta a aceitar os termos da China. Que os EUA tenham facilitado esse processo, tornando-o realidade antes até do esperado, pondo-se a atirar contra moinhos de vento na Ucrânia, confunde os chineses, sim; mas não impede que eles usufruam os resultados.

É difícil estimar o impacto de tudo isso, mas é provável que a influência chinesa expanda-se para o oeste, numa escala que o ocidente ainda nem começou a imaginar. Não se sabe se a China tem ideia clara das implicações que pode ter sua Nova Rota da Seda. A implosão da posição geopolítica dos EUA jogou oportunidades e riscos à porta de Pequim, para grande surpresa de Pequim.

Há um ano, funcionários chineses diziam, privadamente, que seu país acompanharia “a liderança da potência dominante” em tudo que tivesse a ver com segurança do Oriente Médio, incluídas as tentativas iranianas para adquirir armas atômicas. Ao longo das últimas várias décadas, a China deixou que os EUA se aproximassem do Golfo Pérsico, enquanto ia aumentando a dependência chinesa daquele petróleo. Em 2020, a China espera estar importando 70% do seu petróleo, a maior parte do qual virá do Golfo.

O pensamento chinês mudou radicalmente nos últimos poucos meses, em parte por causa do colapso do estado iraquiano e do crescimento do Estado Islâmico. Nada mais difícil que encontrar algum especialista chinês que ainda creia que os EUA possam realmente cuidar da segurança do Golfo Pérsico. As opiniões dividem-se entre os que pensam que os EUA são simplesmente incompetentes, e os que pensam que os EUA desejam, deliberadamente, desestabilizar o Golfo Pérsico.

Para muitos (...), os EUA têm interesse em desestabilizar o Golfo para atingir a China. Outro proeminente analista chinês disse que o Estado Islâmico é comandado por oficiais sunitas treinados nos EUA durante a “avançada” [orig. surge] de 2007-2008, e por elementos do velho exército de Saddam Hussein; o que explicaria por que o EI tem mostrado tanta competência militar e organizacional.

A ideia é plenamente justificável, sim: o general David Petraeus ajudou a treinar os 100 mil que fizeram o “Despertar Sunita”, para criar “equilíbrio” de poder contra o regime de maioria xiita que os EUA haviam ajudado a pôr no poder em 2006. Como, perguntam os chineses, o governo Bush e Petraeus poderia ter sido tão absolutamente estúpido? É tarefa hercúlea convencer os chineses de que, sim, sim, eles foram, sim, tão absolutamente estúpidos.


A atitude da China em relação a Washington já é hoje de declarado desdém. Sobre as eleições de meio de mandato nos EUA, o jornal oficial do governo chinês, Global Times, escreveu:

O presidente pato-manco será ainda mais firmemente imobilizado? Fez serviço insípido, quase nada deu a quem o apoiou. A sociedade norte-americana cansou-se de banalidade do presidente que elegeu.

Mas o declínio da influência dos EUA na região da qual a China obtém a maior parte do próprio petróleo não é evento feliz para Pequim.

A China não previu o fim da rédea solta que dera aos norte-americanos e não sabe ainda com certeza o que fará a seguir. Tentou manter um equilíbrio entre os países com os quais comercia e que são hostis entre eles. Vendeu muitas armas convencionais ao Irã, por exemplo, e alguns mísseis balísticos, antigos, pouco sofisticados.

Mas a China vendeu à Arábia Saudita seus mísseis ultrassofisticados de médio alcance, top-de-linha, o que deu aos sauditas “formidável capacidade de contenção” contra o Irã e outros possíveis adversários. A China obtém mais petróleo da Arábia Saudita que de qualquer outro país, embora as importações de Iraque e Omã para a China estejam aumentando depressa. Por que Iraque e Omã são mais próximos do Irã, a China quer que, ali, haja equilíbrio.

A opinião chinesa está dividida quanto às implicações de o Irã obter armas atômicas: alguns estrategistas creem que o equilíbrio nuclear na região bastará para impedir que qualquer daqueles países use as tais armas; outros temem que ação nuclear no Golfo venha a deter o fluxo de petróleo, o que derrubaria a economia chinesa. A China uniu-se às negociações no grupo P-5 “+1” (dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) sobre o status nuclear do Irã, mas não ofereceu política independente da política do presidente Barack Obama.


Enquanto isso, o crescimento do extremismo islamista preocupa Pequim, como teria, mesmo, de preocupar. Pelo menos, algumas centenas de uigures estão lutando incorporados ao Estado Islâmico, presumivelmente para aprender competências de terrorista a serem levadas de volta à China. Analistas chineses têm opinião nada apreciativa da abordagem que o governo Obama adotou para enfrentar o Estado Islâmico, mas não têm qualquer alternativa a propor. É questão cada dia mais importante. A instabilidade ameaça o projeto da Rota da Seda em vários centros crucialmente importantes.

A China não nutre qualquer simpatia pelo que analistas ali costumam chamar de “Islã político”. O flerte entre EUA e Fraternidade Muçulmana – Obama flertou e importantes senadores Republicanos, como o senador John McCain, também flertaram – é visto pelos chineses como incompetência, ou pior. Mas a China não tem capacidade para perseguir terroristas islamistas, se não pelo deslocamento de uns poucos marinheiros na costa da Somália.

O processo de construir políticas na China é cauteloso, conservador e dirigido por consensos. A preocupação dominante, acima de todas as demais, entre os chineses, é a própria economia chinesa. O ritmo das transformações do Oriente Médio surpreendeu os chineses; agora, tentam decidir o que fazer a seguir.

A política pro forma dos chineses é unir-se às conversações sobre o Irã e oferecer-se para unir-se às conversações do “Quarteto” (ONU, EUA, União Europeia e Rússia) sobre a questão Israel-Palestina; mas nenhuma dessas iniciativas tem muito a ver com as atuais preocupações dos chineses.

Não se pode ainda prever o que a China fará no futuro. Mas parece inevitável que os interesses básicos da China levem o país a envolvimento muito maior e mais profundo na região, tanto maior e mais profundo quanto mais avance a retirada dos EUA.


Nota dos tradutores
[1] Ver também, 16/11/2014, redecastorphoto: Pepe Escobar, “Rota de Seda da China, à glória”, traduzido.

[*] Spengler, apelido de David P. Goldman, escreve a coluna Spengler para o Asia Times Online e contribuifrequentemente para as publicações The Tablet, First Things (2009-2011) e outras. Foi Chefe Global de Pesquisa de Dívida do Bank of America (2002-2005), Diretor Global de Estratégia de Crédito do Credit Suisse (1998-2002). Ocupou cargos importantes nas organizações financeiras Bear Stearnse Cantor Fitzgerald. Foi colunista da revista Forbes (1994-2001). Seu livro How Civilizations Die (and why Islam is Dying, Too) foi lançado em setembro de 2011.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Atenção BRICS: Serguei Lavrov está desistindo dos “EUA−ocidente”

14/9/2014, The Saker, Vineyard of the Saker   
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Ontem assisti a um interessante programa da TV russa, “O direito de saber”, que mostrou uma entrevista ao vivo, de uma hora, com Sergei Lavrov (abaixo,  sem legendas e em russo), Ministro de Relações Exteriores da Rússia, em conversa com cinco jornalistas russos. Nada tão importante que justifique o trabalho de traduzir, mas quero partilhar com vocês algumas coisas que já observei no passado e que reapareceram poderosamente expressas durante aquela conversa.


Como se poderia prever, os tópicos incluíram a guerra civil na Ucrânia; a situação da investigação sobre o ataque e derrubada do avião malaio MH17, sanções contra a Rússia, a expansão da OTAN, as negociações em Minsk e o engajamento da Rússia com os países BRICS.

Em todos esses tópicos o programa seguia roteiro semelhante: um dos jornalistas pedia que Lavrov comentasse o que acontecera numa ou outra circunstância e Lavrov confirmava:

(...) é verdade, tentamos tudo que foi possível, mas sem resultado positivo. Lamentamos muito.

O mais curioso foi que os jornalistas manifestavam surpresa, alguns até indignação por as coisas terem chegado ao ponto que chegaram, mas a reação de Lavrov era “é, vocês têm razão, não tem jeito mesmo. É situação completamente sem esperanças”. O efeito geral era de um conselho de classe escolar, com os professores discutindo a situação de um aluno inapelavelmente idiota e incapaz de melhorar. De diferente, só, que, naquele caso, o “aluno” era o chamado “ocidente”.

O silêncio dos MENTIROSOS
Por exemplo, sobre o caso do voo MH17, os jornalistas mostraram surpresa ante o vazio de resultados e a total esterilidade do relatório “oficial” recém divulgado. Observaram que toda a imprensa-empresa ocidental entrou em surto de histeria, com manchetes do tipo “Putin Terrorista” ou “Basta! Basta!”, como se não soubessem que a investigação continua.
A reação de Lavrov foi

(...) é verdade. Bom... fizemos o possível no Conselho de Segurança, apresentamos nossa contribuição, queríamos um total cessar-fogo para que o local do acidente pudesse ser periciado adequadamente, oferecemos as nossas informações, conversamos com os malaios, quisemos conversar com os especialistas, mas eles só conversaram com a Junta de Kiev, passaram 15 dias lá e só conversaram com a Junta. Ainda temos detalhes a esclarecer com os peritos, mas, ao que se vê, só nós continuamos interessados em obter investigação completa e completamente transparente (não é citação, mas é paráfrase bem confiável das palavras de Lavrov).

A impressão que resta da conversa toda é algo como

(...) sinceramente, com gente assim não há o que fazer. O que mais poderíamos tentar?


Sobre as sanções, os jornalistas disseram que vários países estão surpresos com a velocidade com a Rússia afastou-se do “ocidente” e começou a construir relações com Ásia, África, América Latina e com o subcontinente indiano. Mais uma vez, a resposta de Lavrov foi

(...) é, nós mesmos também nos surpreendemos, nós mesmos, com a rapidez dos eventos. Mas não tivemos escolha.

Não é o único programa de entrevistas que passa essa mensagem. A impressão que tenho é que a Rússia desistiu dos “EUA−ocidente”. Claro: vão continuar a conversar e a Rússia tentará, mesmo contra qualquer probabilidade, arrancar comportamento adulto responsável dos políticos ocidentais. Mas ninguém na Rússia tem qualquer esperança de conseguir.

Em outro programa desse tipo (Sunday Evening with Vladimir Soloviev) os participantes observaram que a Alemanha assumira o papel de pressionar a Finlândia, a República Eslovaca e outros países que não queriam adotar mais sanções. Outra vez, a mensagem russa foi

(...) esqueçam os alemães. Esse pessoal não tem jeito.

Creio que há sincero e muito difundido sentimento de desgosto e de descrença, na Rússia, em relação aos países da União Europeia. Quanto aos EUA, os russos já veem os norte-americanos como lunáticos messiânicos, militantes do ódio racista e nacionalista, capazes de fazer qualquer coisa para causar dano à Rússia, do modo que encontrem à mão, por doido, absurdo, inútil ou hipócrita que seja.

Tudo isso se resume a um consenso que se vai generalizando segundo o qual, por mais que qualquer guerra contra os EUA e OTAN deva ser evitada, pouco mais haveria a ganhar dos esforços para manter a paz. Muitos políticos dizem hoje que

(...) nossa política externa sempre foi excessivamente influenciada pelo “ocidente”. Isso agora tem de mudar – o futuro da Rússia está noutro lugar. 

Cuidado com minhas sanções!
A implantação de sanções contra a Rússia é perfeito exemplo disso. Enquanto apenas alguns direitistas mais ferozes e pró-EUA ainda reclamam (e, sim, é claro que essa gente sempre existe). Há também muita gente que entende que, apesar de não se encontrarem ostras belon francesas à venda em Moscou, as sanções chegam como perfeita bênção, uma vez que forçam a Rússia a separar-se do “ocidente” – separação que, para muitos russos, já deveria ter acontecido há muito tempo. No curto prazo, as sanções ocidentais “morderão”, sobretudo no mercado de alguns itens high-tech, mas no longo prazo e nos grandes números, muita gente entende que o principal erro, e erro muito mais grave, desde o início, era depender do “ocidente” para aquele tipo de produto.

Mais uma vez, a emoção dominante é de desgosto, estranheza e cansaço. Embora um homem tão finamente educado nas artes da diplomacia, como Lavrov, jamais o declare nesses termos, a reação geral já é claramente que “vocês, europeus estão em decadência; vocês fracassaram; não precisamos de vocês para nada; goodbye”. Mas dito sem qualquer ira e, de fato, quase que só com tristeza.

Não creio que diplomatas russos venham a fazer altas declarações antiocidente na ONU ou seja onde for. O contrário do amor não é o ódio: o contrário do amor é a indiferença.

Os funcionários do governo russo continuarão a falar de “nossos parceiros” e, até, de “nossos amigos”, mas, ao mesmo tempo em que a retórica bem-soante continuará, as relações com o Ocidente irão gradualmente deixando de ser prioridade para a diplomacia russa, para o business russo e mesmo para a opinião pública russa em geral. De fato, a Rússia já está construindo um mundo multipolar e, se o Ocidente não quer ter lugar nesse mundo... problema dele. Os russos sabem que o Ocidente não pode impedir a emergência desse novo mundo, e realmente pouco se incomodam se o Ocidente recusar-se a aceitar a nova realidade ou resistir contra dançar segundo as novas regras.

BRICS, um MUNDO MULTIPOLAR
Mais uma coisa: os russos estão, sim, com certeza, muito furiosos com a posição extremamente agressiva da OTAN, porque a interpretam – corretamente – como sinal de hostilidade.

Mas, ao contrário do que vários blogueiros têm dito, os russos não temem a ameaça militar que a OTAN está fazendo. A reação dos russos contra os mais recentes movimentos da OTAN (novas bases e mais soldados na Europa Central, mais gastos, etc.) é denunciá-los como provocação. Mas todos os funcionários russos insistem em que a Rússia tem meios para responder à ameaça militar.

Como disse um deputado russo,

(...) cinco grupos de reação rápida [como a OTAN definiu sua “nova estratégia”] é problema que se resolve com um único míssil.

É fórmula simplista, mas basicamente correta. Putin disse exatamente a mesma coisa, quando informou, sem margem de dúvida, que, em caso de ataque convencional massivo “seja de quem for”, a Rússia, sim, usará suas armas atômicas táticas.

De fato, se a OTAN prosseguir com a estupidez que é o plano de estacionar tropas na Polônia e/ou nos países do Báltico, entendo que a Rússia se afastará do Tratado de Forças Nucleares Intermediárias (IRNF) e usará sucessores avançados do famoso RSD-10 (SS-20).  Como já escrevi antes, a decisão de duplicar o tamanho das Forças Russas Aerotransportadas e de atualizar o status do 45º Regimento Especial Aeroembarcado de elite, para dimensões de brigada, já foi tomada. Pode-se dizer que a Rússia estava prevendo a criação da força da OTAN, de 10 mil soldados,  no momento em que duplicou as dimensões de suas próprias forças aerotransportadas, de 36 mil, para 72 mil soldados. Já tendo, portanto, tomado as providências necessárias para dar conta da ameaça militar, o Kremlin pode agora passar a cuidar dos assuntos realmente importantes.

Dentre as várias concepções distorcidas que acolhemos em nossa cabeça durante nosso “adestramento” ocidental (não consigo chamar a coisa de “educação”), nós, no ocidente, temos uma tendência a ver nossa parte do mundo como o centro do planeta, e alguns até enchem a boca para dizer que os EUA seriam a única nação indispensável, a única realmente importante. É o que se vê até em nossos mapas sistematicamente centrados na Europa ou nos EUA e na crença já quase dogmática nos EUA de que ninguém é ou será jamais mais importante que os norte-americanos. Tudo isso está errado.

“Nosso norte é o sul”, mapa de Joaquin Torres Garcia, 1943
De fato, o Império Anglo-Sionista Norte-Americano está em declínio lento, mas inexorável. Todo o resto do mundo lhe fará ainda algumas reverências, mas, mais ou menos rapidamente, lhe dará as costas e seguirá adiante. Se, nas instalações de adestramento a que chamamos “escolas” houvesse professores realmente capazes de educar gerações para o mundo em que realmente viverão, todos já teriam começado a desenhar mapas centrados na China e ensinariam aos jovens trainees que já ninguém mais leva a sério os chamados “valores ocidentais”.

Até Obama já anunciou seu “pivô” para a Ásia! Só que, à maneira típica dos anglo-sionistas, o tal “pivô” significava, apenas, que os EUA usariam mais forças militares e mais pressões para obrigar o mundo a obedecer aos desejos do Império. De modo bem diferente do que fazem os EUA, a Rússia não anunciou “pivô” algum, mas Putin já se reuniu quatro vezes, só em 2014, com Xi Jinping; e os dois lados declararam que sua parceria estratégica é a mais forte que jamais houve na história das relações entre os dois países.

Não há dúvida de que a Rússia está realmente voltando o olhar para a China, a América Latina, África e outras partes do mundo. Seus diplomatas continuam a conversar, sorrir, falam de “parceiros” e “amigos”, mas creio que estamos assistindo a um evento histórico: pela primeira vez, desde o século XIII, a Rússia está-se distanciando do Ocidente e começou a apostar o próprio futuro em associação com a Ásia (e o resto do planeta).


The Saker

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O galo americano prepara-se para cocoricar de cima do lixão asiático

23/2/2014, [*] Peter Lee, Blog China Matters
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Este artigo é variante encurtada de um artigo publicado em 25/2/2014, pelo mesmo autor,  no Asia Times Online sob o título: Asia pivot comes back to bite the US


Em outras palavras: é hora de os EUA cacarejarem a plenos pulmões, na celebração do pivô para a Ásia. Isso, acho eu, é o que farão no tour “Fodam-se vocês” que o presidente Obama realizará pelas democracias asiáticas em abril de 2014.

A viagem exige mais que apenas rápido trabalho preliminar, dada a complicada situação na Ásia.

Não é só que a República Popular da China e o Japão estejam engalfinhados em furioso arranca-rabo, e que as Filipinas tenham declarado que o Mar do Sul da China é o novo Sudetenland [1], e que a República Popular da China enfrentará confrontação, não negociação. O caso é que os EUA estão menos que perfeitamente felizes com os pontiagudos cotovelos do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe e as fraturas que causou na frente unida da pivotagem.

Houve fascinante eclosão de colunas publicadas nos veículos de prestígio dos EUA (Bloomberg, NY Times, Washington Post e Business Week), todas fortemente críticas contra Abe e a provocativa visita ao Santuário de Yasukuni...

Santuário Yasukuni
Mas a tal visita aconteceu em dezembro de 2013. E o soco no queixo, de “resposta”, só está aparecendo em fevereiro de 2014. Meio (muito) atrasado.

Ah! E deve-se considerar que o detalhe altamente insultante, de que o primeiro-ministro Abe ouviu as tolices de Joe Biden por uma hora, deu-lhe as costas e saiu para visitar o santuário, só vazou no final de janeiro.

Assim sendo, por que, sem mais nem menos, os EUA põem-se hoje a sapatear de fúria por causa da manifestação bem clara das inclinações históricas revisionistas de Abe... no ano passado?

Bem. Depois de examinar as vísceras divinatórias exclusivas para leitores (pagantes! Brincadeirinha!) de China Matters, acredito que aquele furor tem muito a ver com a anunciada viagem do presidente Obama à Ásia.

Até agora, a República Popular da China não está no itinerário. Mas Japão e Filipinas, sim. E também a Coreia do Sul (incluída, pelo que se sabe depois de muito lobbying).

A viagem está parecendo celebração da pivotagem para a Ásia – a tal estratégia para conter a China que não ousa dizer o próprio nome, mas tem o objetivo de garantir a posição de liderança dos EUA no Leste da Ásia, mediante o movimento de empurrar as relações da China com seus vizinhos para posição mais polarizada e confrontacional, o que combina melhor com a superioridade militar dos EUA.

Mais que isso, a viagem mascarará o terreno perdido no lamentável cancelamento de viagem anterior do presidente Obama à Ásia (por causa da farsa do teto da dívida dos EUA) e fará-crer, a um mundo em dúvida, que a verdade é o contrário do que parece: que os EUA estão no comando, plenos de decisão e coragem, senhores dos eventos, país-líder da coalizão das democracias asiáticas, de fato, sim, o universalmente saudado hegemon, amo e senhor, da Ásia.

Vejo a viagem do presidente Obama como uma daqueles tours imperiais que imperadores romanos e chineses empreendiam, para mostrar que o poder do império ainda era vigente até as regiões das fronteiras mais distantes.

O problema é, porém, que há uma democracia asiática que está visivelmente elevando as apostas, contra o dia em que os EUA mudem de ideia e decidam que seus reais interesses estão muito mais para o lado do temido eixo G2 (cooperação entre EUA e China para organizar os negócios, não necessariamente na direção que interesse a outras nações do Pacífico).

Shizo Abe
Essa nação, é claro, é o Japão.

O primeiro-ministro Abe, por sua linhagem e experiência pessoal, está em boa posição para recordar as muitas vezes que os EUA decidiram que interesses norte-americanos e japoneses não são necessariamente coincidentes.

Essas vezes vão desde o Tratado de Portsmouth (quando Teddy Roosevelt decidiu que o Japão era membro ainda não suficientemente maduro do clube imperial, para colher todos os frutos de sua vitória sobre a Rússia czarista); até a desagradável IIª Guerra Mundial (que o grupo revisionista de Abe considera ser culpa integral dos EUA), passando pelo inesperado reconhecimento da República Popular da China, o torpedeamento da economia japonesa pelo Acordo Plaza imposto pelos EUA e pela conversa enervante, sempre dissimulada, sobre o tal G2, que volta e meia reaparece na diplomacia dos EUA.

Num plano pessoal, o primeiro-ministro Abe com certeza recorda o quanto ele, pessoalmente, apoiou George W. Bush na sua política confrontacional contra a República Popular Democrática da Coreia (RPDC, “Coreia do Norte”) em 2005, para, na sequência, ver o Japão – e a questão da assinatura de Abe, dos sequestrados – apagados e deixados de lado, na pressa de Chris Hill & Condoleezza Rice para concluírem um acordo transitório com a RPDC.

Em clave mais feliz, o primeiro-ministro Abe provavelmente também recorda que a secretária Clinton sempre fez empenhada oposição ao G2 e sempre apoiou avidamente o “pivô para a Ásia”, com a estratégia subjacente de empregar a aliança com o Japão como principal pedra de toque de toda a política dos EUA na Ásia. Para contar toda essa história seria preciso escrever um livro inteiro, mas vale a pena recordar que se sabe que o presidente Obama estava pronto para declarar que as Senkakus não estão incluídas no tratado de segurança EUA-Japão – presumivelmente em resposta a algum gesto chinês de apaziguamento –, quando a secretária Clinton e o ministro Maehara passaram a explorar (ou, pela minha avaliação, inventaram tudo) o imbróglio das terras raras/capitão Zhan em 2010, o que levou a resultado diametralmente oposto: Obama declarou que as Senkakus estavam incluídas, sim, no tratado.

Ilhas  Diaoyu e Senkaku
Subsequentemente, se tornou claro que a secretária Clinton havia decidido impedir qualquer engajamento, e que tratava as questões marítimas com a República Popular da China como pretexto para fazer avançar uma política de confrontação contra a China, sempre se servindo da política como base para o pivô militarizado na direção da Ásia.

Mas a secretária Clinton foi-se, pelo menos por hora; e o decididamente muito menos confrontacional Kerry parece que tem tido capacidade para assumir as rédeas da diplomacia norte-americana.

O foco de Kerry dirigido para o Oriente Médio tem ocasionado resmungos nervosos/ressentidos de apoiadores do relacionamento com o Japão em Washington, pela razão declarada de que o foco de Kerry no Extremo Oriente é insuficiente, e o “pivô” estaria sendo deixando de lado. Uma razão não declarada talvez seja que a China, porque em vários sentidos seu papel é importante no Irã e na Síria, parece estar andando polegada a polegada na direção de um relacionamento quase-G2 com Kerry, o que pode ser resultado de alguns favores feitos à China, à custa das democracias do “pivô”.

Um desses favores, como especulei nesse blog, pode ter sido os EUA exigirem que o Japão fizesse prova de sua sinceridade contra a proliferação nuclear, devolvendo certa quantidade de plutônio baixo-enriquecido que recebeu dos EUA, há muito tempo.

John Kerry
Seja como for, sinto que era necessário para Kerry firmar as próprias credenciais de “durão contra a China”; e creio que foi o que ele fez, ao mandar Evan Madeiros fazer o maior barulho a respeito de os EUA absolutamente não admitirem uma ZAID (Zona Aérea de Identificação da Defesa) no Mar do Sul da China. E a China, a qual, creio, já desmentira que tivesse qualquer interesse em  ZAIDs no Mar do Sul da China, rapidamente respondeu que não estava considerando esse movimento; assim, permitiu que Kerry se mudasse, da desprezível casa-do-cachorro do apaziguamento à Chamberlain, para o prestigiado alto reino da força bruta à Churchill.

Agora, o presidente Obama pode ir à Ásia, amparado na ideia de que a credencial dos EUA, de ter metido “o dedo no olho da China”, seja relativamente segura.

Nesse contexto, afinal, o que concluir da campanha organizada para fazer chover sobre o primeiro-ministro Abe, justamente quando ele desfilava em Yasukuni?

Acho que é porque o presidente Obama deseja usar a viagem de abril para afirmar o pivô e, mais importante, para afirmar a indispensável liderança dos EUA no tal pivô.

Isso significa descer o chicote no Japão e demonstrar que os EUA não se deixarão prender nas esperanças e sonhos do governo Abe (de um governo que explora a aliança com os EUA como ferramenta dele para restaurar a soberania e o comando militar e diplomático do Japão em toda a Ásia).

Seria preciso uma modalidade especial de negação para ignorar o fato de que o primeiro-ministro Abe borbulha de planos para expandir a marca diplomática e de segurança do Japão em toda a Ásia, dos Kuriles a Myanmar e à Índia... Ou para não considerar o fato de que essas ambições absolutamente não se encaixam na estrutura hierárquica no topo da qual há o pivô dos EUA, com a aliança de segurança EUA-Japão na camada logo abaixo, e o relacionamento do Japão com outras democracias asiáticas guiadas pelo pivô, pela aliança de segurança, pelo poder e pela glória da visão estratégica... dos EUA!

Esse desagradável estado de coisas pode ser constatado no enigma que parece subjazer aos maus-tratos às canelas de Abe: a distância que não para de aumentar entre a Coreia do Sul e o Japão.

Um dos problemas mais renitentes do pivô sempre foi o rancor entre os governos de Abe e de Park; e, também a predileção marcadamente antipivotal da Coreia do Sul, sempre interessada em deslizar na direção do campo econômico e político da República Popular da China.

Abe, contrário à doutrina ostensiva da solidariedade pivotal, parece feliz por exacerbar sistematicamente e com determinação as rixas entre Japão e Coreia do Sul, não só com visitas ao santuário Yasukuni mas, também com comentários depreciativos, feitos por seus aliados, sobre as lições da IIª Guerra Mundial e as comfort women. E, contrário à ideia de que os EUA coordenem o pivô, Abe também não se cansa de falar em tom depreciativo contra os esforços dos EUA para se autoinserirem na disputa.

Segundo Peter Ennis do Japan Dispatch, os tumultos em torno da visita de Abe ao santuário Yasukuni tiveram um papel nos esforços dos EUA para mediar uma reaproximação entre Japão e Coreia do Sul.

Para Ennis, o vice-presidente Biden achava que Abe não visitaria Yasukuni; e comunicou esse seu palpite ao presidente Park. Quando transpirou que Abe, sim, visitaria Yasukuni, Biden fez aquele infeliz telefonema, para tentar persuadir Abe a não ir. Em termos essenciais, Abe mandou-o catar coquinhos.

Não satisfeito com mandar Biden catar coquinhos, Abe, ao que parece pessoalmente, “vazou” detalhes do telefonema para um de seus jornais favoritos, segundo Ennis:

Peter Ennis
Dia 12 de dezembro, Biden pessoalmente telefonou a Abe, e, em conversa tensa e demorada, pressionou o primeiro-ministro a não visitar Yasukuni. Sankei Shimbun do dia 30 de janeiro, citando “fontes não identificadas do governo”, publicou relato detalhado da conversa, relato que o gabinete do vice-presidente não desmentiu.

(Gente bem informada em Tóquio, citando os bem conhecidos laços que ligam o jornal Sankei e Abe, acredita que o relato da conversa partiu diretamente de Abe – avaliação com a qual concordam altos funcionários dos EUA).

Durante a conversa, Biden disse a Abe: “Eu disse ao presidente Park que ‘não creio que o presidente Abe visite o Santuário Yasukuni. Se o senhor der algum sinal de que não visitará o santuário, creio que o presidente Park concordará em reunir-se com o senhor.’”

Abe há muito tempo resiste contra o que considera arrogância e insolência dos norte-americanos que não respeitam suas convicções nacionalistas; e respondeu a Biden que tinha, sim, planos para visitar Yasukuni.

Imediatamente depois que Abe maliciosamente vazou a informação de que ignorara o apelo do vice-presidente Biden, o qual estaria dando satisfações ao presidente Park na questão do santuário, sobreveio uma onda de “colunistas” e “comentaristas” e “especialistas”, com o poder do fogo concentrado de Richard Armitage, Victor Cha e Michael Green no Washington Post, todos a exigir que o presidente Obama visitasse Seul...

... e pouco depois se anunciou que a Coreia do Sul fora acrescentada no roteiro da viagem, e que o Japão não seria o único anfitrião no norte da Ásia a ser honrado com uma visita de Obama.

Que coisa!

Agora, além do desejo de Abe se sapatear sobre os sentimentos de Biden e Park, para ostentar bem alta a bandeira do seu revisionismo nacionalista, creio que há também outras forças à vista.

Primeiro de tudo, como já escrevi noutro artigo, Abe não tem relação confortável com o governo Obama. Seu avatar sempre foi Dick Cheney, com quem Abe tentou coordenar uma política de contenção da China durante seu primeiro mandato; e seus aliados naturais são os Republicanos da direita norte-americana e falcões pró-Japão/contra-China nos establishments de segurança e defesa dos EUA.

Dick Cheney e Shinzo Abe na Casa Branca
Acho que a humilhação pública e direta de Biden foi sinal dado por Abe de que não está sob o tacão da Casa Branca, e que seus aliados nos EUA podem extrair vantagem do embaraço no governo Obama, para questionar a eficácia e a execução da política do governo para o Japão (e seus esforços para cavar uma rota intermediária entre a República Popular da China e o Japão); e para fazer lobby que empurre a política dos EUA na Ásia na direção da doutrina japão-cêntrica de contenção da, e confrontação contra, a República Popular da China.

Em segundo lugar, a República da Coreia (Coreia do Sul) e o Japão são concorrentes diretos na Ásia. Durante o governo do presidente Lee Myung-bak da Coreia do Sul, ele tentou abertamente roubar do Japão o trono da liderança na Ásia (e o lugar de aliado “n°1” dos EUA). Abe, com suas inclinações nacionalistas, é claramente hostil às pretensões da Coreia.

Se alguém quiser jogar o jogo profundo, é preciso saber que o Japão teme, tanto quanto a Coreia também as teme, a reunificação da Coreia e a emergência de uma democracia asiática que superará em muito o Japão no vigor nacional e econômico. Uma das histórias menos comentadas de Abe, é seu flerte com a Coreia do Norte, com encontros clandestinos entre diplomatas japoneses e da República Popular Democrática da Coreia e, além disso, o oferecimento que lhes fez a Suíça (e, desconfio, também a Índia), que pôs seus bons serviços de mediadora à disposição do Japão.

O contexto ostensivo desse ir-e-vir é ganhar blindagem na miserável questão dos reféns japoneses [orig. Japanese abductees]; mas suspeito que o real objetivo é obter algum tipo de aproximação direta com a Coreia do Norte, que dará ao Japão acesso direto ao país; passará a perna no regime das conversações dos Cinco Partidos lideradas pela China; desequilibrará EUA, China e Coreia do Sul no movimento em que estão empenhados para se aproximarem dos recursos humanos e minerais sempre subexplorados da Coreia do Norte; e ainda conseguirá manter viva a Coreia do Norte, e a península como está, confortavelmente dividida.

Em outras palavras, a Coreia do Sul é bem-vinda para testar suas opções como potência continental dentro da esfera de influência da República Popular da China, usando Shandong como fornecedor de trabalho barato, em vez da Coreia do Norte. O Japão muito apreciará comer o almoço sul-coreano numa Ásia marítima democrática, muito obrigado.

Joe Biden
Em terceiro, enquanto Abe trabalha para recuperar a plena soberania militar, de defesa e de segurança do Japão, ele não tem interesse algum em que os EUA se arroguem o privilégio de determinar a agenda diplomática regional do Japão. No mínimo, parece que Abe deseja engajamento extensivo com os EUA, mas no contexto de relações bilaterais entre pares, negociadas mediante mecanismos explícitos, como a aliança de segurança e o Tratado da Parceria Trans-Pacífico. Essa visão do relacionamento EUA-Japão com certeza não inclui ouvir, nem Joe Biden, nem os “especialistas” do governo Obama a pontificarem sobre a Ásia, sobretudo quando visem a demonstrar o credo dos EUA como parceiro confiável (enquanto tentam mostrar à Coreia do Sul que China e EUA podem, sim, muito significativamente, modelar o comportamento do Japão). (...)

Creio que, como previ no ano passado, as galinhas do movimento do “pivô na direção da Ásia” estão tendo inevitavelmente de voltar para os respectivos poleiros. A decisão de confrontar a ameaça marítima da República Popular da China encorajou as democracias asiáticas, especialmente o Japão, a tal ponto que a liderança norte-americana está a um passo de ser abertamente desafiada.

O Japão, a Coreia do Sul e a República Popular da China podem saber bem das intenções dos EUA, mas estão menos convencidos de que os EUA cumpram a promessa de uma estratégia de pivô modulada, unificada e cuidadosamente administrada que dê poder aos EUA mediante uma estratégia militarizada de contenção contra a República Popular da China, sem que os EUA comprometam a imagem de parceiro honesto e confiável... enquanto sufocam qualquer iniciativa independente de seus aliados da vanguarda do pivô.

Em vez disso, parece é que, especialmente o Japão, vai-se distanciando silenciosamente e fará o melhor para explorar o pivô para perseguir suas próprias agendas regionais, ao mesmo tempo em que recorre aos EUA em busca de apoio nos momentos difíceis, apoio o qual, como reza a teoria do pivô, os EUA são obrigados a dar.

Assim sendo, em vez de uma frente implacavelmente unida contra a República Popular da China – razão de ser do pivô! – tem-se agora uma aliança em fluxo, contenção equívoca e a ponto de ser testada pela China, e cada vez mais próxima de tensos encontros na zona marítima.

Aí está, em outras palavras, uma receita para...?  Não se vê muito bem o que seja, mas com certeza não é a paz, a estabilidade e a prosperidade partilhadas de que Hillary Clinton falava e que prometeu entregar graças ao “pivô”.

O Japão está suficientemente investido no relacionamento com os EUA e a aliança para suportar até o governo Obama, o qual em breve iniciará a longa mas inevitável decadência rumo ao status de pato manco.

Mas anúncios, iniciativas e viagens à Ásia podem obter tanto quanto o Japão; e os aliados asiáticos cada vez mais olham na direção do Japão como liderança regional, veem o que veem e descobrem a necessidade e a importância de continuar a andar cada um pela sua própria trilha.

Diz-se que o sol não nasce por que o galo cocorica. Mas nesse caso, sim, nasceu. Acho que o presidente Obama está aprendendo que o sol nasceu exatamente porque o galo cocoricou, vale dizer: a assertividade dos japoneses é consequência do empoderamento do establishment japonês mais linha dura, um dos efeitos da doutrina norte-americana do pivô.

Problema é que, agora que o sol nasceu e está subindo, parece que continuará subindo por conta própria. E quanto a isso não há o que o galo possa fazer.




Nota dos tradutores
[1] Sudetenland - Região histórica do norte da República Tcheca, ao longo da fronteira com a Polônia. Habitada por séculos por alemães étnicos, foi tomada pelos nazistas em setembro de 1938 e devolvida à Tchecoslováquia em 1945, depois de a população alemã ter sido expulsa. O nome faz referência às montanhas Sudetes
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[*] Peter Lee é jornalista norte americano de origem chinesa que escreve sobre assuntos dos países do sul e leste da Ásia e a intersecção de negócios entre essa região e os EUA. Além de articulista de várias publicações anima o blog China Matters.