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sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pepe Escobar: “A guerra de palavras do Mar do Sul da China”

2/6/2015, [*] Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Guerra Fria 2
Com a Guerra Fria 2.0 entre EUA e Rússia ainda longe de se diluir, a última coisa de que o mundo precisa é de uma reencarnação do falcão Bush-oso (ing. Bushit) Donald “sabidos não sabidos” Rumsfeld.
Em lugar dele, o “sabido sabido” – previsível – que se consegue é o Supremo do Pentágono, Ash Carter.
O neoconservador Ash deu um show no Diálogo de Xangrilá, no fim de semana passado em Cingapura.
Pequim está engajada em serviços de declarar suas nove ilhas artificiais no Mar do Sul da China; sete nos atóis de Spratlys, e duas outras no arquipélago de Paracel. Ash praticamente “ordenou” a Pequim que faça “imediato e duradouro alto” na expansão; acusou Pequim de “marchar fora de passo” em relação às normas internacionais; e coroou o show sobrevoando o Estreito de Malacca num V-22 Osprey.
Washington nunca cessa de lembrar ao mundo que a “liberdade de navegação” no Estreito de Malaca – através do qual a China importa um mar de energia – é protegida pela Marinha dos EUA.
Depois de Xangrilá, o Presidente Barack Obama dos EUA também sentiu a necessidade de entrar no jogo, e disse que a China deve respeitar a lei e parar de “dar cotoveladas”. Mas admitiu que “é possível que algumas das alegações dos chineses sejam legítimas.” E daí? Quando você é “potência do Pacífico”, você tem o direito de não permanecer calado sobre..., bem... sobre tudo.
Observando o Grande Quadro, o Primeiro-Ministro de Cingapura, Lee Hsien Loong pelo menos tentou mostrar-se valente, e insistiu que o Oceano Pacífico é “vasto o bastante” para ambas, Washington e Pequim .
Assim, mais uma vez estamos de volta a dois quilômetros quadrados de rochas, microilhas e atóis, aninhados em estonteantes 150 mil quilômetros quadrados de literalmente, águas turvas; e a mil quilômetros de distância do litoral leste da China.
Pequim declara sua “indiscutível” soberania sobre pelo menos 80% do Mar do Sul da China. Não só sobre pelo menos US$ 5 trilhões em petróleo e gás ainda por explorar; tudo isso está bem no centro de uma super rota naval de altíssima circulação da economia global, pela qual a Europa, o Oriente Médio, a China, o Japão, a Coreia do Sul e muitas das nações da ASEAN trocam energia e imensa variedade de produtos.
Países da ASEAN
A resposta do Ministério de Relações Exteriores da China ao que disse Ash Carter foi bastante detalhada. O ponto chave: o código de conduta no Mar do Sul da China deve ser – e de fato será – negociado entre a China e as nações da ASEAN. Todos sabem disso em todo o sudeste da Ásia.
E a chave-de-ouro para gerar suspense: pelo modo como Pequim vê as coisas, nada disso tem absolutamente coisa alguma a ver com os EUA.
Avisem lá os neoconservadores da espécie “Ash”. O medo não disfarçado dos neoconservadores é que a “agressão chinesa” está convertendo aquelas águas num Mare Nostrum da República Popular da China. Desde o final da IIª Guerra Mundial e da capitulação do Japão, a “potência do Pacífico” se autoatribuiu a coroa de Senhor do Pacífico – da Ásia até a Califórnia. Fácil ver que a coisa aí não vai acabar bem – com a nova assertividade da China sinalizando talvez o fim do hegemon.
Assim sendo, o que Ash fará? Se quiser cumprir o que anunciou, que os EUA contam com continuar a ser a “primeira potência militar no Leste da Ásia por muitas e muitas décadas vindouras”, terá de despachar uma frota naval para bloquear extensão considerável da costa leste da China. Bem-vindos à bomba-relógio geopolítica do Mar do Sul da China.
O que a China reclama para si
Se no Mar do Sul da China temos China em oposição a Vietnã, Malásia, Brunei e Taiwan, no Mar do Leste da China temos China em oposição a Japão, Taiwan e Coreia do Sul. Pequim garantiu firmemente que não haverá Zona Aérea de Identificação da Defesa [orig. Air Defense Identification Zone (ADIZ) no Mar do Sul da China, por enquanto – porque as condições não são “apropriadas”. Todos lembramos quando a ADIZ no Mar do Leste da China foi anunciada no final de 2013. O Pentágono imediatamente despachou para lá um par de B-52s para darem uma volta. A tensão amainou e permanece – relativamente amainada. Por enquanto.
A ideia de que a China é um dragão maléfico prestes a devorar todos os menores que ela naquelas águas é sandice. Desde antes de o comandante da Frota do Pacífico, almirante Harry Harris, pôr-se a rosnar que uma “Grande Muralha de Areia” estava sendo erguida no Mar do Sul da China, outros atores regionais já estavam em plena ação, não como assistentes paralisados.
De fato, por muito tempo a China – bem como o Brunei – não teve pista de pouso no Mar do Sul da China. As Filipinas têm, na ilha Thitu. O Vietnã tem, além de um heliporto, em Truong Sa. A Malásia tem, em Swallow Reef – e recebem grande número de aeronaves militares. Taiwan tem um aeroporto militar em Taiping.
Pequim com certeza pode usar as ilhas artificiais para alocar material naval e aéreo. Mas não é só a China que está reivindicando propriedades. O Vietnã está fazendo exatamente o mesmo, em dois atóis nas Spratlys.
Mar do Sul da China Ilhas Spratly no centro do mapa
Washington, por sua vez, tem acesso a oito bases filipinas – inclusive à base naval Carlito Cunanan, no coração da ação no Mar do Sul da China. Manila, que é o elo regional fraco, aposta numa estratégia de duas pinças: apoio irrestrito a Washington, e completa internacionalização, sobretudo, precisamente, do Mar do Sul da China.
Taiwan tem trabalhado muito, investindo numa missile corvette com tecnologia stealth e feita em casa, de baixo custo de manutenção, alta mobilidade e pesadamente armada.
Enquanto isso, o comandante da 7ª Frota dos EUA, vice-almirante Robert Thomas, está muito entusiasmado por o Japão estar exercitando o tal proverbial “papel mais ativo”, não só no Mar do Leste da China, mas também nos oceanos Pacífico e Índico.
foto:
Não há dúvida alguma de que Washington está permitindo a remilitarização do Japão. É hora pois de lançar um Observatório dos Mares Sul e Leste da China. E ficar de olho neles, à procura de qualquer perigoso pretexto a usar como casus belli entre o hegemon em declínio e a potência re-emergente que não quer mais saber de “manter perfil discreto”. [1]
E que tal uma Sopa Won Ton à (Guerra) Fria?
Está preparado o cenário para um jogo de apostas tremendamente altas. Para Pequim, a expansão entre as Spratlys e as Paracels significa romper os limites geográficos do Sudeste Asiático, como uma antecipação da projeção de poder pelo Oceano Índico direto ao Sudoeste Asiático.
Para Washington, tratar-se-á de conseguir perturbar a Rota de Seda Marítima – que é a rota pela qual Pequim importa – pelo Estreito de Malaca e dali pelo Mar do Sul da China – nada menos que 82% de todo seu petróleo e 30% do gás natural.
Estreito de Malaca
Preparem-se para homilias pesadas sobre o dever de Washington, de proteger “a liberdade de navegação” e infinitas execrações da “agressão chinesa” – cujo contraponto é a expansão das Novas Rotas da Seda, do Novo Banco de Desenvolvimento criado pelos países BRICs e do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura lotado de outros países BRICs, plus Alemanha e sortimento variado de europeus na diretoria; todos esses são vetores numa estratégia múltipla que vai minando a hegemonia do dólar norte-americano.
Longe vão os dias iniciais de Obama, quando Kissinger e o Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski sugeriam “relacionamento especial” entre os EUA e a China; uma espécie de G-2 manco, controlado de fato pelo hegemon excepcionalista. Não surpreende que Pequim tenha desconfiado. Agora então, o governo Obama apenas está de volta ao modo padrão – do tempo da “contenção”. Ash Carter só deu um passo adiante.

Com a Guerra Fria 2.0 longe de esvaziada, temos também de considerar a Guerra do Molho de Soja Frio – ou a Guerra da Sopa Fria. Os neoconservadores norte-americanos que fiquem espertos. Indigestão de camarão tigre não é sopa.
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Nota dos tradutores
[1] Durante a era Deng Xiaoping, a política exterior chinesa foi caracterizada pela expressão “tao guang yang hui”, traduzida em geral como “manter perfil discreto” (ing. “keep a low profile”). Em anos recentes, observadores têm questionado se essa estratégia ainda se aplica à diplomacia chinesa, sobretudo à luz da recente exortação do Presidente Xi Jinping, de que a China pratique “diplomacia de grande potência” (The Diplomat).
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

sábado, 16 de maio de 2015

China x Japão: “Hiroshima e Nagasaki não foram bombardeadas por nada”

13/5/2015, [*] Shannon Tiezzi, The Diplomat
Chinese Diplomat: Hiroshima and Nagasaki Were Bombed for a Reason
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
Hiroshima, Japão - Memorial da Paz
Como parte da conferência em andamento para revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares [orig. Treaty on the Non-Proliferation of Nuclear Weapons (NPT), o Ministro de Relações Exteriores do Japão, Fumio Kishida, conclamou os líderes globais a verem de perto as consequências devastadoras dos bombardeios com armas nucleares. Kishida convidou líderes a visitar Hiroshima e Nagasaki, as duas cidades japonesas que os EUA usaram como alvos de ataques nucleares no final da IIª Guerra Mundial, para que “vissem com os próprios olhos a realidade dos bombardeios atômicos”.
Mas o jornal Kyodo News noticia que o comitê revisor do NPT removeu das versões do acordo que estão sendo analisadas todos os trechos que contivessem esse tipo de linguajar, depois de receber objeções do representante da China, Fu Cong.

Fu associou a ênfase nas cidades de Hiroshima e Nagasaki a tentativas do Japão para “distorcer a história”, colocando-se como única vítima.

Como Mina Pollmann já observara antes em coluna para o Tokyo Report blog de The Diplomat, o Japão, como única vítima de ataques atômicos está tendo papel de destaque na conferência de revisão do NPT. Políticos japoneses, incluídos os prefeitos de Hiroshima e Nagasaki, exigiram que os estados signatários do Tratado de Não Proliferação tomem medidas concretas com o objetivo de realmente eliminar as armas nucleares. Vítimas dos bombardeios contra Hiroshima e Nagasaki, conhecidos como hibakusha (em japonês), participaram da conferência para dar mais peso às discussões sobre as horrendas consequências dos ataques dos EUA contra as duas cidades japonesas.

Kishida também se referiu a essa questão em sua fala à conferência revisora do TNP. Disse que:
 
(...) um reconhecimento comum das consequências das armas nucleares no plano humanitário (...) pode servir como força motriz para o desarmamento nuclear.

Na sequência desse comentário, convidou “líderes políticos e jovens” a viajarem a Hiroshima e Nagasaki, particularmente quando os líderes estiverem no Japão para as reuniões do G7 no próximo ano.

China - lançamento das Lanternas da Paz
O Japão estava insistindo muito firmemente para que esse tipo de comentário fosse inserido nos documentos finais da conferência, mas a China (como também a Coreia do Sul) objetou, em termos muito firmes. Fu disse ao jornal Kyodo News que, na 2ª-feira (11/5/2015), requerera que aquela referência fosse removida da versão preparatória que está sendo discutida do documento final. Disse que:
 
(...) essa conferência deve afastar-se desse tipo de referências, porque há excessivas “referências históricas” associadas aos bombardeios contra Hiroshima e Nagasaki.

Fu argumentou que, ao enfatizar o sofrimento causado pelos bombardeios, o governo do Japão “tenta pintar o Japão como vítima da IIª Guerra Mundial, não como agente ativo da própria guerra”. Enfatizou a muitas atrocidades que os japoneses cometeram em guerras na China, Coreia e Sudeste da Ásia, atrocidades que o representante chinês acusou Tóquio de estar tentando negar ou minimizar.
 
Não queremos qualquer menção a Hiroshima [ou] Nagasaki , porque houve razões que determinaram o bombardeio dessas duas cidades, disse Fu.
Fazer referência às duas cidades no documento final do Tratado de Não Proliferação “é como impor à conferência uma interpretação unilateral de eventos da IIª Guerra Mundial” – disse Fu.

A porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, Hua Chunying, respondeu de modo semelhante, quando perguntada sobre a conferência revisora do TNP na 3ª-feira (12/5/2015). Disse que todas as partes devem “evitar introduzir fatores complicados e muito sensíveis” nas negociações da conferência revisora. Pressionada a dizer se líderes chineses tinham planos para visitar Hiroshima e Nagasaki, Hua respondeu:
 
Permitam-me perguntar antes: quando os líderes japoneses planejam vir à China e visitar o memorial em homenagem às vítimas do massacre de Nanjing?

Calçada com estátuas homenageando as vítimas do massacre de Nanjing - China


Para muitos chineses, a violência que houve depois que as tropas japonesas conquistaram Nanjing dia 13/12/1937 é emblemática das atrocidades que os japoneses cometeram em tempos de guerra – e do revisionismo histórico japonês. O governo chinês, que recentemente converteu o dia 13 de dezembro em dia nacional de homenagem aos mortos naquele massacre, diz que 300 mil chineses civis foram mortos pelos soldados japoneses. Alguns funcionários do governo japonês, inclusive um diretor da rede nacional de notícias NHK
, têm negado até que o massacre tenha acontecido.

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[*] Shannon Tiezzi tem como foco principal a China. Escreve sobre as relações internacionais da China, política interna e economia. Atuou anteriormente como participante em pesquisas na Fundação Política de US-China, onde apresentou o programa semanal de televisão China Forum. Recebeu seu mestrado pela Universidade de Harvard e seu bacharelado pela Faculdade de William e Mary. Estudou na Universidade de Tsinghua, em Pequim.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A comédia sino-americana de erros


Entreouvido no frege da Maria Boa na Vila Vudu: “Artigo útil, só, para ver sionistas norte-americanos alinhando-se com a China” :-D)).

10/11/2014, [*] SpenglerAsia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dos “Comentários” [aqui traduzidos]:

John Rintala  Top Commenter (Harvard University)
“Os que comentam que Spengler representa a linha pró-Israel, e surpreendem-se agora ao vê-lo falar dos chineses com [alguma] simpatia, têm de compreender que a China soube, muito cuidadosamente, neutralizar o lobby EUA-Israel, garantindo negócios lucrativos para os empresários israelenses; assim, preservou boas relações com Israel. A China vai construir uma ferrovia de Eilat, no Mar Vermelho, até Ashdod, no Mediterrâneo.”

Michael Ngan  Top Commenter (University of Victoria)
Muito obrigado, John Rintala, pelo esclarecimento. É a explicação mais plausível para a súbita conversão do “Spengler”, à racionalidade, sem repetir o sionismo doentio de sempre.


A odisseia da China (Teatro de Pequim)

PEQUIM – Tudo na tragédia acontece por alguma razão, e o resultado é sempre triste; na comédia, muitas coisas acontecem por acaso, e o resultado é quase sempre feliz. As relações sino-americanas não estão destinadas ao conflito, embora o conflito seja possível. Os desentendimentos que dificultam as relações entre os dois países mais poderosos do mundo permanecem no âmbito da comédia, não da tragédia. É o máximo a que se pode aspirar, porque não há quantidade possível de explicações que tornem chineses e norte-americanos compreensíveis uns para os outros.

Onde os chineses são defensivos e cuidadosos, os norte-americanos tendem a vê-los como agressivos; onde os chineses são ambiciosos expansionistas, os EUA os ignoram completamente. Os EUA são potência do Pacífico acostumada a dominar os mares. No pouco que os EUA dão atenção à política exterior chinesa, só fazem mostrar alarme quando a China faz exigências territoriais sobre ilhas microscópicas e não habitadas que Japão, Vietnã e as Filipinas também reclamam para si. Exceto para fazer soar como se fosse coisa séria a retórica de alguns líderes militares chineses, porém, as ilhas em disputa praticamente nem aparecem na escala das prioridades da China.

É o que aparece bem claramente na notícia segundo a qual, na semana passada, China e Japão divulgaram um “Acordo Fundamentado sobre como Gerir e Aprimorar Relações Bilaterais”, resultado de reuniões entre o Conselheiro para Segurança Nacional do Japão, Shotaro Yachi, e o Conselheiro do Estado Chinês, Yang Jiechi. O documento sinaliza que serão criados “mecanismos para gerenciamento de crises, que evitem disputas”; e que os dois países servir-se-ão sempre de “consultas e diálogo”.

Nem o Japão nem a China têm qualquer interesse numa confrontação militar no Pacífico, embora os dois lados tenham usado as disputas pelas ilhas, em encenação dirigida aos respectivos eleitorados nacionalistas internos. O Acordo Fundamentado sobre como Gerir e Aprimorar Relações Bilaterais é claro sinal de que a encenação ao estilo Kabuki já foi longe demais.

Samurai no teatro estilo Kabuki
Meme frequente, em resposta ao suposto expansionismo chinês no Pacífico, inventou uma aliança militar Índia-Japão, sob patrocínio dos EUA, para conter as ambições chinesas. Embora uns poucos nacionalistas indianos tenham abraçado a ideia, examinada de fora vê-se que não passou de gesto oco. Se Índia e China entrarem em confronto por causa, por exemplo, de fronteiras, o que o Japão poderia fazer para ajudar?!

O recém-eleito governo indiano de Narendra Modi jamais levou a sério a ideia. Ao contrário, depois da recente visita do presidente Xi Jinping à Índia, Modi já está de olhos postos em investimentos chineses dos quais a infraestrutura indiana carece com urgência. A economia passa por cima de questiúnculas sobre fronteiras em áreas montanhosas desabitadas que separam as duas nações mais populosas do mundo.

Há também uma dimensão estratégica sobre o crescente bom entendimento que se constata entre China e Índia. Do ponto de vista da Índia, o apoio chinês ao exército paquistanês é motivo de preocupação, mas pode servir como faca de dois gumes. O Paquistão permanece sob o risco de ataque pelo Islã militante, e o principal garantidor da estabilidade do país é o exército. A China quer fortalecer o exército como escudo contra os radicais islamistas, que ameaçam tanto a província chinesa de Xinjiang quanto a Índia; e fortalecer o exército paquistanês, provavelmente, atende tanto aos interesses indianos quanto aos interesses da China.

Analistas chineses estão espantados, sem fala, ante a resposta dos EUA ao que veem como show sem importância no Mar do Sul da China; e a Índia só os preocupa tangencialmente. Ainda estão dando tratos à bola para compreender por que a resposta que emergiu do estrago que os EUA promoveram na Ucrânia foi relacionamento muitíssimo ampliado entre EUA e Rússia.

Por um princípio de diplomacia, a China não aprecia separatistas, porque já tem seus próprios separatistas a enfrentar, a começar pelos uigures muçulmanos na província de Xinjiang. Mas Washington jogou todas as suas fichas na certeza de que os tumultos da Praça Maidan em Kiev ano passado arrancariam a Crimeia do controle russo; o que realmente aconteceu foi que a Crimeia, onde está localizada a principal base naval de águas temperadas da Rússia, foi reintegrada à Federação Russa.

S-400 - Sistema anti-aéreo de mísseis  de defesa
(clique na imagem para aumentar)
Quando, em retaliação, o ocidente impôs sanções contra a Rússia, Moscou moveu-se para o leste – resposta óbvia, e resposta com forte impacto sobre o poder no ocidente. Não apenas a Rússia abriu suas reservas de gás à China, mas também aceitou fornecer à China sua mais sofisticada tecnologia militar, inclusive o formidável sistema de defesa aérea S-400. No passado, a Rússia sempre resistiu contra fazer isso, por causa dos esforços chineses para copiar, por engenharia reversa, os sistemas russos. A crise da Ucrânia mudou tudo isso.

Só agora, afinal, analistas ocidentais observam que a nova aproximação entre russos e chineses pode criar dificuldades para o ocidente. O New York Times devotou manchete de primeira página às opiniões de observadores soviéticos, os suspeitos de sempre, na edição do dia 9/11/2014.

Era óbvio há meses, e deveria continuar óbvio imediatamente antes do fato: o ocidente meramente empurrou “Mano” Putin-Coelho [orig. B'rer Putin] para a floresta densa a leste dele. De todos os erros de cálculo na política do ocidente desde a IIª Guerra Mundial, esse foi, talvez, o mais estúpido. E lá ficam os chineses, hoje, a coçar a cabeça, sem acreditar em tal boa sorte não esperada.

Claro que, sim, é erro falar de aliança Rússia-China; mas está em desenvolvimento um condomínio sino-russo na Ásia. Os negócios de energia e defesa entre Moscou e Pequim são importantes por eles mesmos, mas se tornam muito mais importantes no contexto do que pode ser o mais ambicioso projeto econômico de toda a história: a Nova Rota da Seda. O Pacífico pouco promete à China. Japão e Coreia do Sul são economias maduras, consumidores, tanto quanto concorrentes, da China.

Expansão no Pacífico simplesmente nada tem a oferecer à economia da China. O que a China deseja é ser inexpugnável dentro das próprias fronteiras: gastará generosamente para desenvolver mísseis terra-mar suficientemente potentes para despachar porta-aviões, submarinos de caça e sistemas de defesa aérea dos EUA.

A China prospecta nas direções oeste e sul: energia e minérios na Ásia Central; comida no sudeste da Ásia, portos de águas mornas no Oceano Índico, mercado vasto e acesso aos mercados mundiais onde estejam. A rede de ferrovias, oleodutos, gasodutos e telecomunicações que a China está construindo através das ex-repúblicas soviéticas e através da própria Rússia a levará até o Mediterrâneo [1] e será como trampolim para o comércio chinês com a Europa.

Rota da Seda via sul da Ásia e OM (terra e mar)
(clique na imagem para aumentar)
Toda a massa continental eurasiana tornar-se-á, provavelmente, zona econômica chinesa, sobretudo agora, com a Rússia muito mais disposta a aceitar os termos da China. Que os EUA tenham facilitado esse processo, tornando-o realidade antes até do esperado, pondo-se a atirar contra moinhos de vento na Ucrânia, confunde os chineses, sim; mas não impede que eles usufruam os resultados.

É difícil estimar o impacto de tudo isso, mas é provável que a influência chinesa expanda-se para o oeste, numa escala que o ocidente ainda nem começou a imaginar. Não se sabe se a China tem ideia clara das implicações que pode ter sua Nova Rota da Seda. A implosão da posição geopolítica dos EUA jogou oportunidades e riscos à porta de Pequim, para grande surpresa de Pequim.

Há um ano, funcionários chineses diziam, privadamente, que seu país acompanharia “a liderança da potência dominante” em tudo que tivesse a ver com segurança do Oriente Médio, incluídas as tentativas iranianas para adquirir armas atômicas. Ao longo das últimas várias décadas, a China deixou que os EUA se aproximassem do Golfo Pérsico, enquanto ia aumentando a dependência chinesa daquele petróleo. Em 2020, a China espera estar importando 70% do seu petróleo, a maior parte do qual virá do Golfo.

O pensamento chinês mudou radicalmente nos últimos poucos meses, em parte por causa do colapso do estado iraquiano e do crescimento do Estado Islâmico. Nada mais difícil que encontrar algum especialista chinês que ainda creia que os EUA possam realmente cuidar da segurança do Golfo Pérsico. As opiniões dividem-se entre os que pensam que os EUA são simplesmente incompetentes, e os que pensam que os EUA desejam, deliberadamente, desestabilizar o Golfo Pérsico.

Para muitos (...), os EUA têm interesse em desestabilizar o Golfo para atingir a China. Outro proeminente analista chinês disse que o Estado Islâmico é comandado por oficiais sunitas treinados nos EUA durante a “avançada” [orig. surge] de 2007-2008, e por elementos do velho exército de Saddam Hussein; o que explicaria por que o EI tem mostrado tanta competência militar e organizacional.

A ideia é plenamente justificável, sim: o general David Petraeus ajudou a treinar os 100 mil que fizeram o “Despertar Sunita”, para criar “equilíbrio” de poder contra o regime de maioria xiita que os EUA haviam ajudado a pôr no poder em 2006. Como, perguntam os chineses, o governo Bush e Petraeus poderia ter sido tão absolutamente estúpido? É tarefa hercúlea convencer os chineses de que, sim, sim, eles foram, sim, tão absolutamente estúpidos.


A atitude da China em relação a Washington já é hoje de declarado desdém. Sobre as eleições de meio de mandato nos EUA, o jornal oficial do governo chinês, Global Times, escreveu:

O presidente pato-manco será ainda mais firmemente imobilizado? Fez serviço insípido, quase nada deu a quem o apoiou. A sociedade norte-americana cansou-se de banalidade do presidente que elegeu.

Mas o declínio da influência dos EUA na região da qual a China obtém a maior parte do próprio petróleo não é evento feliz para Pequim.

A China não previu o fim da rédea solta que dera aos norte-americanos e não sabe ainda com certeza o que fará a seguir. Tentou manter um equilíbrio entre os países com os quais comercia e que são hostis entre eles. Vendeu muitas armas convencionais ao Irã, por exemplo, e alguns mísseis balísticos, antigos, pouco sofisticados.

Mas a China vendeu à Arábia Saudita seus mísseis ultrassofisticados de médio alcance, top-de-linha, o que deu aos sauditas “formidável capacidade de contenção” contra o Irã e outros possíveis adversários. A China obtém mais petróleo da Arábia Saudita que de qualquer outro país, embora as importações de Iraque e Omã para a China estejam aumentando depressa. Por que Iraque e Omã são mais próximos do Irã, a China quer que, ali, haja equilíbrio.

A opinião chinesa está dividida quanto às implicações de o Irã obter armas atômicas: alguns estrategistas creem que o equilíbrio nuclear na região bastará para impedir que qualquer daqueles países use as tais armas; outros temem que ação nuclear no Golfo venha a deter o fluxo de petróleo, o que derrubaria a economia chinesa. A China uniu-se às negociações no grupo P-5 “+1” (dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) sobre o status nuclear do Irã, mas não ofereceu política independente da política do presidente Barack Obama.


Enquanto isso, o crescimento do extremismo islamista preocupa Pequim, como teria, mesmo, de preocupar. Pelo menos, algumas centenas de uigures estão lutando incorporados ao Estado Islâmico, presumivelmente para aprender competências de terrorista a serem levadas de volta à China. Analistas chineses têm opinião nada apreciativa da abordagem que o governo Obama adotou para enfrentar o Estado Islâmico, mas não têm qualquer alternativa a propor. É questão cada dia mais importante. A instabilidade ameaça o projeto da Rota da Seda em vários centros crucialmente importantes.

A China não nutre qualquer simpatia pelo que analistas ali costumam chamar de “Islã político”. O flerte entre EUA e Fraternidade Muçulmana – Obama flertou e importantes senadores Republicanos, como o senador John McCain, também flertaram – é visto pelos chineses como incompetência, ou pior. Mas a China não tem capacidade para perseguir terroristas islamistas, se não pelo deslocamento de uns poucos marinheiros na costa da Somália.

O processo de construir políticas na China é cauteloso, conservador e dirigido por consensos. A preocupação dominante, acima de todas as demais, entre os chineses, é a própria economia chinesa. O ritmo das transformações do Oriente Médio surpreendeu os chineses; agora, tentam decidir o que fazer a seguir.

A política pro forma dos chineses é unir-se às conversações sobre o Irã e oferecer-se para unir-se às conversações do “Quarteto” (ONU, EUA, União Europeia e Rússia) sobre a questão Israel-Palestina; mas nenhuma dessas iniciativas tem muito a ver com as atuais preocupações dos chineses.

Não se pode ainda prever o que a China fará no futuro. Mas parece inevitável que os interesses básicos da China levem o país a envolvimento muito maior e mais profundo na região, tanto maior e mais profundo quanto mais avance a retirada dos EUA.


Nota dos tradutores
[1] Ver também, 16/11/2014, redecastorphoto: Pepe Escobar, “Rota de Seda da China, à glória”, traduzido.

[*] Spengler, apelido de David P. Goldman, escreve a coluna Spengler para o Asia Times Online e contribuifrequentemente para as publicações The Tablet, First Things (2009-2011) e outras. Foi Chefe Global de Pesquisa de Dívida do Bank of America (2002-2005), Diretor Global de Estratégia de Crédito do Credit Suisse (1998-2002). Ocupou cargos importantes nas organizações financeiras Bear Stearnse Cantor Fitzgerald. Foi colunista da revista Forbes (1994-2001). Seu livro How Civilizations Die (and why Islam is Dying, Too) foi lançado em setembro de 2011.