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terça-feira, 9 de junho de 2015

“Operação Impensável”:Em 1945 os “aliados” já tinham planos secretos contra a Rússia soviética


25/5/2015, [*] Yuriy Rubtsov, Strategic Culture
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
 
Entreouvido no Beco do Zuluá na Vila Vudu:  

O que aí se lê não são idas e vindas do bem contra o mal, nem de algum “ocidente” contra algum “oriente”. 

O que aí se lê são 70 anos de idas e vindas dos interesses do CAPITAL, que sempre foi global.

Se o capital parece “mais global” hoje, do que nos séculos XV, XIX ou XX, é só porque AS COMUNICAÇÕES globalizaram-se. 

OS DISCURSOS globalizaram-se, uniformizaram-se e viraram o insuportável tédio “jornalístico” que há hoje.

O capital não mudou uma vírgula: sempre foi global. E o capital sempre temeu mortalmente o comunismo e os sovietes. 

O resto é jornalismo desdemocrático, de notícias vestidas para matar, fatos arranjados, celebridades & golpismos, TOTALMENTE INDEMOCRATIZÁVEL, o desgraçado.



Em Yalta, EUA e Inglaterra já tramavam traição à Rússia
No final de maio de 1945 Josef Stálin ordenou que o Marechal Georgy Zhukov deixasse a Alemanha e viesse a Moscou. Stálin estava preocupado com as ações do aliados britânicos. Stálin observara que as forças soviéticas desarmavam os alemães e os enviavam a campos de prisioneiros; mas os britânicos, não. Em vez de desarmar e prender os alemães, os britânicos estavam cooperando com eles e lhes permitiam manter a capacidade de combate. Para Stálin, a única explicação para esse comportamento era que os britânicos planejassem usar depois aqueles soldados alemães. Stálin sabia que a atitude dos britânicos era flagrante violação do acordo entre governos, segundo os quais tropas que se rendessem tinham de ser desarmadas e imediatamente desmontadas.
A inteligência soviética pôs as mãos (e os olhos) no telegrama secreto que Winston Churchill enviara ao marechal-de-campo Bernard Montgomery, comandante das forças britânicas. O telegrama ordenava que Montgomery recolhesse as armas e as conservasse disponíveis para serem devolvidas aos alemães, caso a ofensiva soviética continuasse.
Seguindo instruções de Stálin, Zhukov condenou duramente as atividades dos britânico no Conselho de Comando dos Aliados (União Soviética, EUA, Reino Unido e França). Disse que a história registrava poucos exemplos de tamanha traição e descaso com compromissos assumidos entre nações que tinham, ou se haviam comprometido a ter, status de aliadas. Montgomery rejeitou a acusação. Poucos anos depois admitiu que recebera ordens para fazer exatamente o que Zhukov acusara os ingleses de terem feito e que as executara. Como soldado, não tivera alternativa.
Disputava-se batalha feroz nos arredores de Berlim. Dessa vez, Winston Churchill disse que a Rússia Soviética convertera-se em ameaça mortal para o mundo livre. O primeiro-ministro britânico queria que se criasse um novo front no leste, imediatamente, para conter a ofensiva soviética. Churchill vivia obcecado pela ideia de que, depois de derrotado o exército nazista alemão, a União Soviética já surgia como nova ameaça.
Essa é a razão pela qual Londres quis que Berlim fosse tomada por forças anglo-norte-americanas. Churchill quis também que os norte-americanos libertassem a Checoslováquia e Praga com a Áustria controlada pelos aliados, todos sob as mesmas condições.
Georgy Zhukov
Já em abril de 1945, Churchill dera instruções para que o Grupo de Planejamento Conjunto das Forças Armadas Britânicas planejasse a Operação Impensável [orig. Operation Unthinkable], nome de código de dois planos relacionados de um conflito entre os aliados ocidentais e a União Soviética. Os generais receberam ordens para traçar meios para “impor à Rússia a vontade dos EUA e do Império Britânico”. A data hipotética marcada para o início da invasão, pelos aliados, da Europa hipoteticamente tomada pelos soviéticos, seria 1º de julho de 1945. Nos últimos dias da guerra contra a Alemanha de Hitler, Londres deu início a preparativos para apunhalar a União Soviética pelas costas.
O plano previa guerra total para ocupar as partes da União Soviética que tiveram significado crucial para o esforço de guerra, e assestar assim golpe decisivo, que tiraria das forças armadas soviéticas a capacidade para defender-se.
O plano incluiu a possibilidade de as forças soviéticas recuarem com profundidade para dentro do próprio território, tática que já havia sido usada em guerras anteriores.
O Alto Comando Britânico considerou esse plano militarmente irrealizável, porque as forças soviéticas superavam as forças aliadas na proporção de três para um – na Europa e no Oriente Médio, onde o plano previa que se travassem os combates. As unidades alemãs entravam nessa conta como tentativa de equilibrar a correlação de forças: por isso Churchill tanto precisava de que os prisioneiros alemães continuassem em prontidão para combater.
O Gabinete de Guerra concluiu:
O Exército Russo desenvolveu um Alto Comando capaz e muito experiente. O exército é incomensuravelmente mais forte, vive e se movimenta em escala muito mais leve de manutenção que qualquer exército ocidental, e usa táticas firmes, baseadas sobretudo na pouca importância atribuída às baixas, para alcançar o objetivo. O equipamento foi rapidamente aprimorado durante a guerra e hoje é bom. Sabe-se o suficiente sobre esse desenvolvimento, para dizer que com certeza absoluta o exército soviético não é inferior aos das grandes potências. A facilidade que os russos mostraram para desenvolver e aprimorar equipamento e armas existentes, e para produzi-los em massa foi realmente muito impressionante. Já se sabe até que houve casos de os alemães terem copiado traços básicos de armamento russo.
Os planejadores britânicos chegaram a conclusões pessimistas. Disseram que qualquer ataque seria “imprevisível” e que a campanha seja “longa e cara”. Na verdade, o relatório dizia:
Se vamos iniciar guerra contra a Rússia, temos de estar preparados para guerra total, que seria longa e cara.
A superioridade numérica das forças do campo soviético deixavam poucas possibilidades de sucesso.
Russos dançam comemorando a rendição de Berlim (2/5/1945)
A avaliação, assinada pelo Comandante do Estado-Maior das Forças Conjuntas, dia 9/6/1945 – na próxima 4ª-feira serão 70 anos! – concluía:
Estaria além de nossas capacidades alcançar sucesso rápido, mas sempre limitado, e estaríamos comprometidos em guerra longa, contra todas as probabilidades de sucesso. E essas probabilidades convertem-se em pura fantasia, se os americanos cansarem, ficarem indiferentes e deixarem-se arrastar pelo ímã da guerra no Pacífico.
O primeiro-ministro recebeu rascunho do plano dia 8 de junho de 1945. Por mais que o enfurecesse, Churchill teve de se conformar, ante a evidente superioridade do Exército Vermelho. Mesmo com a bomba atômica já incluída no inventário militar dos EUA, o novo presidente dos EUA Harry Truman também teve de aceitar o argumento e a conclusão.
Vyacheslav Molotov
Na sequência, em reunião com o Ministro de Relações Exteriores da URSS, Vyacheslav Molotov, Truman pegou o touro pelos chifres. Fez ameaça mal disfarçada de que se poderiam aplicar sanções econômicas contra a União Soviética. Dia 8 de maio de 1945, o Presidente dos EUA ordenou que se reduzissem significativamente, sem qualquer notificação prévia, a venda e a entrega de suprimentos. Chegou a ponto de fazer retornar às bases nos EUA, todos os navios norte-americanos que já estavam a caminho da URSS.
Algum tempo passou, e a ordem foi cancelada, ou a URSS não entraria na guerra contra o Japão, algo de que os EUA muito precisavam. Mas as relações bilaterais haviam sido feridas para sempre.
Joseph Grew
O memorando assinado pelo Secretário de Estado em exercício, Joseph Grew, dia 19 de maio de 1945, dizia que a guerra contra a URSS era inevitável. Ordenava “endurecer posições” nos contatos com a URSS. Segundo Grew, recomendava-se iniciar imediatamente os combates, antes que a URSS conseguisse recuperar-se da guerra e restaurar seu vastíssimo potencial militar, econômico e territorial.
Os militares receberam impulso dos políticos. Em agosto de 1945 (a guerra contra o Japão ainda não terminara), o mapa dos alvos estratégicos dentro da URSS e Mandchúria foi apresentado ao general L. Groves, chefe do programa nuclear dos EUA. O plano indicava 15 das maiores cidades da URSS: Moscou, Baku, Novosibirsk, Gorky, Sverdlovsk, Chelyabinsk, Omsk, Kuibyshev, Kazan, Saratov, Molotov (Perm), Magnitogorsk, Grozny, Stalinsk (provavelmente, Stalino – a atual Donetsk) e Nizhny Tagil. Cada alvo vinha acompanhado de descrições: geografia, potencial industrial e alvos a atingir primeiro. Washington abriu novo front: dessa vez, contra seu aliado.
Londres e Washington imediatamente esqueceram que haviam combatido lado a lado, ombro a ombro, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Esqueceram também todos os compromissos que haviam assumido nas conferências de Yalta, Potsdam e São Francisco.
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Nota dos tradutores
[1] “Operação Impensável é o nome de um plano inicial de guerra feito pelo governo britânico em 1945. Tal operação consistia na invasão da então União Soviética por forças militares britânicas, poloneses exilados, americanos, e até alemães recém rendidos. Dada a superioridade do poder militar da União Soviética, os demais “aliados” optaram por não executar tal operação.
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[*] Yuriy Rubtsov nasceu em 21/2/1957 em Kaliningrado, região de Moscou. Em 1980, graduou-se na Escola de Engenharia Naval Superior da FE Dzerzhinsky. Em seguida doutorou-se em História. De 1980 a 1996 serviu em unidades da Marinha. Desde 1987, ele serviu como oficial da Frota do Norte nos destróiers “Almirante Nakhimov” e “Almirante Isachenkov”. Nos anos de serviço no Norte começou a estudar Heráldica e História do Ártico. De 1991 a 1996 foi presidente da Sociedade Heráldica de Severomorsk e membro da Comissão de Heráldica da Frota do Norte, cargo que ocupou até o fim do serviço militar. Em 1993 graduou-se no curso de Formação em Serviço Público já sob o Governo da Federação da Rússia, hoje Academia Norte-Oeste da Administração Pública. Desde 1996, ele atuou na TV e na Rádio do Ministério Central de Defesa da Federação Russa (Moscou). Em 2004 foi transferido para a reserva no posto de Capitão (equivalente a tenente-coronel no Brasil). Foi premiado com 14 medalhas da URSS e da Rússia, entre eles: Comenda de Cooperação Militar, a “Distinguished Service” em 2º e 3º graus, e a medalha “Almirante Kuznetsov”. Foi é professor emérito da Universidade Militar do Ministério da Defesa da Rússia. Atualmente é Vice-Presidente da Empresa “TSENKI” − Roscosmos e engenheiro-chefe do estúdio de televisão dessa empresa. Neste último local de trabalho foi premiado com a medalha Agência Espacial Federal por promoção e divulgação de atividades espaciais russas . Continua a se envolver com Heráldica apenas como amador.
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sábado, 16 de maio de 2015

China x Japão: “Hiroshima e Nagasaki não foram bombardeadas por nada”

13/5/2015, [*] Shannon Tiezzi, The Diplomat
Chinese Diplomat: Hiroshima and Nagasaki Were Bombed for a Reason
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
Hiroshima, Japão - Memorial da Paz
Como parte da conferência em andamento para revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares [orig. Treaty on the Non-Proliferation of Nuclear Weapons (NPT), o Ministro de Relações Exteriores do Japão, Fumio Kishida, conclamou os líderes globais a verem de perto as consequências devastadoras dos bombardeios com armas nucleares. Kishida convidou líderes a visitar Hiroshima e Nagasaki, as duas cidades japonesas que os EUA usaram como alvos de ataques nucleares no final da IIª Guerra Mundial, para que “vissem com os próprios olhos a realidade dos bombardeios atômicos”.
Mas o jornal Kyodo News noticia que o comitê revisor do NPT removeu das versões do acordo que estão sendo analisadas todos os trechos que contivessem esse tipo de linguajar, depois de receber objeções do representante da China, Fu Cong.

Fu associou a ênfase nas cidades de Hiroshima e Nagasaki a tentativas do Japão para “distorcer a história”, colocando-se como única vítima.

Como Mina Pollmann já observara antes em coluna para o Tokyo Report blog de The Diplomat, o Japão, como única vítima de ataques atômicos está tendo papel de destaque na conferência de revisão do NPT. Políticos japoneses, incluídos os prefeitos de Hiroshima e Nagasaki, exigiram que os estados signatários do Tratado de Não Proliferação tomem medidas concretas com o objetivo de realmente eliminar as armas nucleares. Vítimas dos bombardeios contra Hiroshima e Nagasaki, conhecidos como hibakusha (em japonês), participaram da conferência para dar mais peso às discussões sobre as horrendas consequências dos ataques dos EUA contra as duas cidades japonesas.

Kishida também se referiu a essa questão em sua fala à conferência revisora do TNP. Disse que:
 
(...) um reconhecimento comum das consequências das armas nucleares no plano humanitário (...) pode servir como força motriz para o desarmamento nuclear.

Na sequência desse comentário, convidou “líderes políticos e jovens” a viajarem a Hiroshima e Nagasaki, particularmente quando os líderes estiverem no Japão para as reuniões do G7 no próximo ano.

China - lançamento das Lanternas da Paz
O Japão estava insistindo muito firmemente para que esse tipo de comentário fosse inserido nos documentos finais da conferência, mas a China (como também a Coreia do Sul) objetou, em termos muito firmes. Fu disse ao jornal Kyodo News que, na 2ª-feira (11/5/2015), requerera que aquela referência fosse removida da versão preparatória que está sendo discutida do documento final. Disse que:
 
(...) essa conferência deve afastar-se desse tipo de referências, porque há excessivas “referências históricas” associadas aos bombardeios contra Hiroshima e Nagasaki.

Fu argumentou que, ao enfatizar o sofrimento causado pelos bombardeios, o governo do Japão “tenta pintar o Japão como vítima da IIª Guerra Mundial, não como agente ativo da própria guerra”. Enfatizou a muitas atrocidades que os japoneses cometeram em guerras na China, Coreia e Sudeste da Ásia, atrocidades que o representante chinês acusou Tóquio de estar tentando negar ou minimizar.
 
Não queremos qualquer menção a Hiroshima [ou] Nagasaki , porque houve razões que determinaram o bombardeio dessas duas cidades, disse Fu.
Fazer referência às duas cidades no documento final do Tratado de Não Proliferação “é como impor à conferência uma interpretação unilateral de eventos da IIª Guerra Mundial” – disse Fu.

A porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China, Hua Chunying, respondeu de modo semelhante, quando perguntada sobre a conferência revisora do TNP na 3ª-feira (12/5/2015). Disse que todas as partes devem “evitar introduzir fatores complicados e muito sensíveis” nas negociações da conferência revisora. Pressionada a dizer se líderes chineses tinham planos para visitar Hiroshima e Nagasaki, Hua respondeu:
 
Permitam-me perguntar antes: quando os líderes japoneses planejam vir à China e visitar o memorial em homenagem às vítimas do massacre de Nanjing?

Calçada com estátuas homenageando as vítimas do massacre de Nanjing - China


Para muitos chineses, a violência que houve depois que as tropas japonesas conquistaram Nanjing dia 13/12/1937 é emblemática das atrocidades que os japoneses cometeram em tempos de guerra – e do revisionismo histórico japonês. O governo chinês, que recentemente converteu o dia 13 de dezembro em dia nacional de homenagem aos mortos naquele massacre, diz que 300 mil chineses civis foram mortos pelos soldados japoneses. Alguns funcionários do governo japonês, inclusive um diretor da rede nacional de notícias NHK
, têm negado até que o massacre tenha acontecido.

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[*] Shannon Tiezzi tem como foco principal a China. Escreve sobre as relações internacionais da China, política interna e economia. Atuou anteriormente como participante em pesquisas na Fundação Política de US-China, onde apresentou o programa semanal de televisão China Forum. Recebeu seu mestrado pela Universidade de Harvard e seu bacharelado pela Faculdade de William e Mary. Estudou na Universidade de Tsinghua, em Pequim.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

EUA: economia declina, aumenta a ameaça de guerra


7/5/2015, [*] Paul Craig RobertsAnnual Conference of the Financial West Group, New Orleans – publicado por Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A Economia dos EUA
Os eventos definitórios de nosso tempo foram o colapso da União Soviética, o 11/9, a exportação de postos de trabalho dos norte-americanos e a desregulação das finanças. Nesses eventos encontra-se a base dos problemas da política exterior dos EUA e de seus problemas econômicos.

Os EUA sempre tiveram boa opinião de si mesmos, mas, com o colapso da União Soviética, a autossatisfação alcançou novos píncaros. Os EUA tornaram-se o povo excepcional, o povo indispensável, o povo que a história escolheu para exercer hegemonia eterna sobre o mundo. Essa doutrina neoconservadora libera o governo dos EUA do dever de cumprir a lei internacional e autoriza Washington a usar de coerção contra estados soberanos para refazer o mundo à sua imagem e semelhança.

Paul Wolfowitz
Para proteger o status de Washington como única potência que resultara do colapso da União Soviética, Paul Wolfowitz, em 1992, escreveu a doutrina que ficaria conhecida como Doutrina Wolfowitz. Essa doutrina é a base da política externa de Washington. A doutrina declara:

Nosso primeiro objetivo é impedir a re-emergência de novo rival, no território da União Soviética [1] [orig. ex-União Soviética] ou noutro lugar, que implique ameaça do tipo da que foi a União Soviética. Essa é consideração dominante subjacente à nova estratégia regional de defesa e exige que nos dediquemos a impedir que qualquer potência hostil domine qualquer região cujos recursos sejam, sob controle consolidado, suficientes para gerar poder global.

Em março desse ano (2015), o Conselho de Relações Exteriores dos EUA estendeu essa doutrina também para a China.

Washington está agora dedicada a bloquear a ascensão de dois grandes países que têm arsenais nucleares. Essa dedicação é a razão da crise que Washington inventou na Ucrânia e de ela ser usada como propaganda anti-Rússia. A China enfrenta hoje o “Pivoteamento para a Ásia” e a construção de novas bases aéreas e marítimas dos EUA, para assegurar que Washington tenha total controle sobre o Mar do Sul da China, agora definido como Área de Interesse Nacional dos EUA.

Joseph Stiglitz
O 11/9 serviu para lançar a guerra dos neoconservadores, pela hegemonia sobre o Oriente Médio. O 11/9 também serviu para lançar o estado policial doméstico, dentro dos EUA e contra os norte-americanos. Enquanto as liberdades civis iam-se atrofiando dentro dos EUA, os EUA passaram quase todo este início do século XXI em guerra, guerras que custaram aos EUA, segundo Joseph Stiglitz e Linda Bilmes, no mínimo US$ 6 trilhões de dólares. Essas guerras, todas elas, deram péssimo resultado. Desestabilizaram os governos de uma importante área produtora de energia. E as guerras multiplicaram muitas vezes os “terroristas”, os mesmos cujo aniquilamento fora a razão oficial para as guerras.

Assim como o colapso da União Soviética deixou livre o caminho para a hegemonia dos EUA, também exportou para bem longe os empregos dos norte-americanos. O colapso da União Soviética convenceu China e Índia a abrir aos capitais norte-americanos seus massivos e subutilizados mercados de trabalho. Empresas norte-americanas, com até os mais relutantes arrastados pelos grandes varejistas e pela ameaça de retomada das propriedades pelos urubus de Wall Street, transferiram para o exterior os empregos na manufatura, na indústria e todos os tipos de serviços profissionais comercializáveis, como engenharia de programas de computação. 

Assim a classe média foi dizimada, e perderam as escadas que havia para a mobilidade social (para cima). O PIB e a base tributária dos EUA moveram-se com os empregos, para China e Índia. As rendas das famílias norte-americanas de renda média deixaram de crescer e entraram em declínio. Sem crescimento de renda para puxar a economia, Alan Greenspan recorreu à expansão da dívida dos consumidores, que se expandiu até o esgotamento. Atualmente, já nada há que puxe a economia.

Quando os bens e serviços produzidos fora, nos postos de trabalho exportados para longe, chegam aos EUA para serem vendidos, entram como importações, o que piora muito a situação da balança comercial. Estrangeiros passam então a usar seus superávits para comprar papéis, ações, empresas e propriedade imobiliária nos EUA. Consequentemente, lucros, dividendos, ganhos de capital e rendas são redirecionados, dos norte-americanos para estrangeiros. Isso piora ainda mais o déficit já existente.

Para proteger o valor de câmbio do dólar, dados os grandes déficits em conta corrente e a criação de dinheiro para dar jeito nos balanços dos “bancos grandes demais para quebrar”, Washington conta com bancos centrais, no Japão e na Europa, para que continuem a imprimir dinheiro e dinheiro sem parar. A emissão de yens e euros supera a emissão de dólares e, assim, protege o valor de compra do dólar.


Lei Glass-Steagall que separava os bancos comerciais e os bancos de investimento foi, pode-se dizer, desgastada, antes de ser completamente rejeitada durante o segundo mandato do governo Clinton. Essa rejeição da lei, somada ao fracasso para regular os derivativos, a remoção de qualquer limite a posições de especuladores, e a enorme concentração que resultou do status de letra morta das leis antitrustes, produziram, não a utopia de algum ‘livre mercado’, mas, isso sim, crise financeira grave, que perdura. A liquidez emitida para fazer frente à crise resultou em bolhas, no mercado de ações e de papéis.

Implicações, consequências, soluções:

Quando a Rússia bloqueou a invasão da Síria e o bombardeio do Irã planejados pelo governo Obama, os neoconservadores deram-se conta de que, enquanto eles, por uma década, só pensavam nas guerras que inventaram no Oriente Médio e na África, o presidente Putin havia reabilitado a economia e o exército russos.

O primeiro objetivo da doutrina Wolfowitz – impedir a re-emergência de algum novo rival – havia fracassado. Aí estava a Rússia, a dizer “não” aos EUA. O Parlamento Britânico uniu-se a ela ao vetar a participação de forças britânicas na invasão norte-americana contra a Síria. O poder da única potência fora abalado.

Com isso, a atenção dos neoconservadores saltou, do Oriente Médio, para a Rússia. Durante toda a década passada, Washington consumira US$ 5 bilhões financiando políticos atuais e potenciais na Ucrânia, além de Organização Não Governamentais (ONGs) que podiam ser postas nas ruas, em “protestos”.

Quando o presidente da Ucrânia fez um cálculo de custo-benefício da proposta de associação da Ucrânia à União Europeia, viu que era mau negócio para a Ucrânia e rejeitou a proposta. Foi quando Washington ordenou às suas ONGs que tomassem as ruas. Os neonazistas aderiram à violência, e o governo, despreparado para a violência, entrou em colapso.

Victoria Nuland e Geoffrey Pyatt
Victoria Nuland e Geoffrey Pyatt escolheram os novos governantes ucranianos e estabeleceram na Ucrânia um regime vassalo.

Washington esperava usar esse golpe de estado para expulsar os russos de sua base naval do Mar Negro, a única base russa em águas temperadas. Mas a Crimeia, que fora parte da Rússia durante séculos, votou, em plebiscito sua reintegração à Rússia. Foi terrível frustração para Washington, mas ela recobrou-se; e decretou que o ato de autodeterminação soberana dos crimeanos dever-se-ia chamar “invasão russa” e “anexação da Crimeia”. Washington usou esse golpe de propaganda para quebrar o relacionamento econômico e político entre Europa e Rússia, pressionando a Europa para que impusesse sanções contra a Rússia.

As sanções tiveram efeito muito pior sobre a Europa, que sobre a Rússia. E os europeus, hoje, já se preocupam mais com a crescente beligerância de Washington, do que com a Rússia. A Europa nada tem a ganhar de algum conflito com a Rússia, e teme estar sendo empurrada para a guerra. Há indicações de que alguns governos europeus começam a considerar avaliar, eles mesmos, política externa independente da de Washington.

A demonização e a virulenta campanha de propaganda anti-Rússia, destruiu a confiança que a Rússia tivesse no ocidente. Com o comandante Breedlove da OTAN a exigir mais dinheiro, mais soldados, mais bases próximas às fronteiras da Rússia, a situação é claramente perigosa. E num desafio militar direto contra Moscou, Washington agora inventou de incorporar à OTAN a Ucrânia e a Geórgia, dois estados que já foram províncias da Rússia.

No plano econômico, o dólar como moeda de reserva já se converteu em problema para todo o mundo. Sanções e outras formas do imperialismo financeiro norte-americano levam os países – inclusive países muito grandes – a deixar o sistema de pagamentos em dólar. Como o comércio exterior vai-se fazendo cada vez mais sem recorrer ao dólar norte-americano, a demanda por dólares diminui, mas a oferta foi muitíssimo ampliada como resultado do “Alívio Quantitativo” [orig. Quantitative Easing]. Por causa da produção deslocalizada para fora do país e da dependência dos EUA de importados, uma queda no valor do dólar resultaria em inflação doméstica, o que baixaria ainda mais os padrões de vida nos EUA e ameaçaria os já fraudados mercados de ações, de títulos e de metais preciosos.

A razão real para o Alívio Quantitativo é dar apoio aos balanços dos bancos. Mas a razão oficial é estimular a economia e sustentar a recuperação econômica. O único sinal de recuperação é o PIB real, que se mostra positivo, só porque o deflator está subvaliado.

Há clara evidência de que não houve recuperação econômica alguma. Com o PIB do primeiro trimestre negativo, e o do segundo trimestre já com sinais de que também será negativo, a segunda perna da longa virada para baixo pode já começar nesse verão.


Sobretudo, o atual alto desemprego (23%) é diferente do desemprego que havia antes. No século XX pós-guerra, o Federal Reserve enfrentou a inflação esfriando toda a economia. Vendas declinam, estoques crescem e há dispensa de empregados. Com o aumento do desemprego, o Fed invertia o curso e os trabalhadores eram novamente convocados para os empregos. Hoje, os empregos já não estão nos EUA. Foram exportados para outros países. As fábricas se foram. Não há empregos para os quais reconvocar os trabalhadores.

Restaurar a economia exigiria reverter a exportação de empregos e postos de trabalho e trazer os empregos de volta para os EUA. Pode-se fazer, se se alterar o modo como se cobram impostos das grandes corporações. A taxa de imposto a pagar sobre lucro das empresas pode ser determinada pela localização geográfica onde as empresas agregam valor aos produtos que comerciam nos EUA. Se os bens e serviços são produzidos no exterior, as taxas de impostos sobem. Se bens e serviços são produzidos domesticamente, as taxas podem ser mais baixas. Podem-se usar os impostos para criar vantagens a favor de produtos produzidos nos EUA.

Mas essa reforma é bem pouco provável, considerando-se o poder de lobbying das corporações transnacionais e de Wall Street. Concluo pois que a economia dos EUA continuará declinante.

No front de política externa, a húbris e a arrogância da autoimagem dos EUA como o país “excepcional, indispensável” com direitos hegemônicos sobre outros países significam que o mundo está condenado à guerra. Nem Rússia nem China aceitarão a posição de vassalagem que Grã-Bretanha, Alemanha, França e o resto da Europa, Canadá, Japão e Austrália aceitaram. A Doutrina Wolfowitz deixa bem claro que o preço da paz mundial é o mundo aceitar a hegemonia de Washington.

Assim sendo, a menos que o dólar e, com ele, o poder dos EUA, entrem em colapso, ou a Europa tenha afinal coragem de romper com Washington e buscar política externa independente, dizendo adeus à OTAN, o futuro que mais provavelmente nos espera é a guerra nuclear.

A agressão que Washington comete e a propaganda violenta já convenceram Rússia e China de que Washington quer guerra, e essa percepção já aproximou dos dois países numa aliança estratégica. A celebração do Dia da Vitória, 9 de maio, na Rússia, que marca os 70 anos da derrota de Hitler é ponto de virada histórica. Governantes ocidentais boicotaram a celebração, mas os chineses lá estavam, substituindo-os. Pela primeira vez, soldados chineses desfilaram ao lado de soldados russos, e o presidente da China e a esposa sentaram-se ao lado do presidente Putin da Rússia.

A matéria do Saker sobre o evento é interessante. Vejam com atenção o gráfico em que se vê o número de baixas na IIª Guerra Mundial. As baixas russas, comparadas às baixas somadas de EUA, Reino Unido e França deixam ver com perfeita clareza que quem derrotou Hitler foi a Rússia.

Nesse ocidente orwelliano, as versões mais recentemente reescritas da história deixam de fora que foi o Exército Vermelho que destruiu a Wehrmacht. Alinhado com essa história reescrita, inventada, Obama, no discurso dos 70 anos da rendição alemã só falou das forças dos EUA. Bem diferente disso, para muito melhor, Putin agradeceu aos “povos de Grã-Bretanha, França e EUA pela sua contribuição para a vitória.

A vitória em Stalingrado

Já há muitos anos o presidente Putin repete publicamente que o ocidente não ouve a Rússia. Washington e seus estados sabujos na Europa, Canadá, Austrália e Japão não ouvem quando a Rússia diz “não nos provoquem demais. Nós não somos o inimigo. Queremos ser parceiros de vocês”.

Com os anos passando sem que Washington lhes desse atenção, Rússia e China finalmente se aperceberam de que só lhes resta escolher entre vassalagem ou guerra.

Houvesse gente inteligente, qualificada, no Conselho de Segurança Nacional, no Departamento de Estado, ou no Pentágono, Washington já teria sido avisada para afastar-se da política neoconservadora de semear desconfiança. Mas com a húbris neoconservadora a ocupar todos os nichos do governo, Washington cometeu o erro que pode ser fatal para toda a humanidade.

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[1] NOTA IMPORTANTE DA VILA VUDU: Depois de demoradas discussões, votamos e decidimos que NUNCA MAIS ESCREVEREMOS “ex-União Soviética” ou “extinta União Soviética”. Os comunistas sempre dissemos/escrevemos “União Soviética” – e assim deve ser.
Concluímos que ninguém diz/pensa/escreve “extinta França Imperial”, “ex-Quilombo dos Palmares”, “ex-Brasil Colônia”, “extinto Adoniram Barbosa”.

Ninguém, no mundo do capital, diz, sequer, “extinta Alemanha Nazista”, nem ninguém diz “ex-Espanha Franquista”. Mas tooooodos os atores e agentes do mundo do capital – sobretudo os “jornalistas”! – dizem/escrevem SEMPRE “ex-URSS”. Vejam como são as coisas: tudo é sempre, luta de classes, até a lexicologia e a sintaxe.

Esse repetido “ex”/”extinta” só aparece em “ex-URSS”/“extinta URSS”, porque interessa ao capital, ao ocidente capitalista e aos papagaios de repetição que se leem/ouvem na imprensa-empresa brasileira [só rindo!], repetir sempre, sempre, sempre, que a URSS “foi extinta”. Ora! A URSS foi tão “extinta” quanto o Quilombo de Palmares ou Pixinguinha ou Adoniram ou o Palestra Itália ou o Pátio do Colégio.

Por tudo isso, doravante escreveremos/traduziremos sempre “União Soviética” ou “URSS”. É nossa decisão de gramática comunista.

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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano, colunista doCreators Syndicate. Serviu como Secretário-Assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street Journal,Business Week e Scripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch  Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia,  Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.