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sexta-feira, 15 de maio de 2015

EUA: economia declina, aumenta a ameaça de guerra


7/5/2015, [*] Paul Craig RobertsAnnual Conference of the Financial West Group, New Orleans – publicado por Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A Economia dos EUA
Os eventos definitórios de nosso tempo foram o colapso da União Soviética, o 11/9, a exportação de postos de trabalho dos norte-americanos e a desregulação das finanças. Nesses eventos encontra-se a base dos problemas da política exterior dos EUA e de seus problemas econômicos.

Os EUA sempre tiveram boa opinião de si mesmos, mas, com o colapso da União Soviética, a autossatisfação alcançou novos píncaros. Os EUA tornaram-se o povo excepcional, o povo indispensável, o povo que a história escolheu para exercer hegemonia eterna sobre o mundo. Essa doutrina neoconservadora libera o governo dos EUA do dever de cumprir a lei internacional e autoriza Washington a usar de coerção contra estados soberanos para refazer o mundo à sua imagem e semelhança.

Paul Wolfowitz
Para proteger o status de Washington como única potência que resultara do colapso da União Soviética, Paul Wolfowitz, em 1992, escreveu a doutrina que ficaria conhecida como Doutrina Wolfowitz. Essa doutrina é a base da política externa de Washington. A doutrina declara:

Nosso primeiro objetivo é impedir a re-emergência de novo rival, no território da União Soviética [1] [orig. ex-União Soviética] ou noutro lugar, que implique ameaça do tipo da que foi a União Soviética. Essa é consideração dominante subjacente à nova estratégia regional de defesa e exige que nos dediquemos a impedir que qualquer potência hostil domine qualquer região cujos recursos sejam, sob controle consolidado, suficientes para gerar poder global.

Em março desse ano (2015), o Conselho de Relações Exteriores dos EUA estendeu essa doutrina também para a China.

Washington está agora dedicada a bloquear a ascensão de dois grandes países que têm arsenais nucleares. Essa dedicação é a razão da crise que Washington inventou na Ucrânia e de ela ser usada como propaganda anti-Rússia. A China enfrenta hoje o “Pivoteamento para a Ásia” e a construção de novas bases aéreas e marítimas dos EUA, para assegurar que Washington tenha total controle sobre o Mar do Sul da China, agora definido como Área de Interesse Nacional dos EUA.

Joseph Stiglitz
O 11/9 serviu para lançar a guerra dos neoconservadores, pela hegemonia sobre o Oriente Médio. O 11/9 também serviu para lançar o estado policial doméstico, dentro dos EUA e contra os norte-americanos. Enquanto as liberdades civis iam-se atrofiando dentro dos EUA, os EUA passaram quase todo este início do século XXI em guerra, guerras que custaram aos EUA, segundo Joseph Stiglitz e Linda Bilmes, no mínimo US$ 6 trilhões de dólares. Essas guerras, todas elas, deram péssimo resultado. Desestabilizaram os governos de uma importante área produtora de energia. E as guerras multiplicaram muitas vezes os “terroristas”, os mesmos cujo aniquilamento fora a razão oficial para as guerras.

Assim como o colapso da União Soviética deixou livre o caminho para a hegemonia dos EUA, também exportou para bem longe os empregos dos norte-americanos. O colapso da União Soviética convenceu China e Índia a abrir aos capitais norte-americanos seus massivos e subutilizados mercados de trabalho. Empresas norte-americanas, com até os mais relutantes arrastados pelos grandes varejistas e pela ameaça de retomada das propriedades pelos urubus de Wall Street, transferiram para o exterior os empregos na manufatura, na indústria e todos os tipos de serviços profissionais comercializáveis, como engenharia de programas de computação. 

Assim a classe média foi dizimada, e perderam as escadas que havia para a mobilidade social (para cima). O PIB e a base tributária dos EUA moveram-se com os empregos, para China e Índia. As rendas das famílias norte-americanas de renda média deixaram de crescer e entraram em declínio. Sem crescimento de renda para puxar a economia, Alan Greenspan recorreu à expansão da dívida dos consumidores, que se expandiu até o esgotamento. Atualmente, já nada há que puxe a economia.

Quando os bens e serviços produzidos fora, nos postos de trabalho exportados para longe, chegam aos EUA para serem vendidos, entram como importações, o que piora muito a situação da balança comercial. Estrangeiros passam então a usar seus superávits para comprar papéis, ações, empresas e propriedade imobiliária nos EUA. Consequentemente, lucros, dividendos, ganhos de capital e rendas são redirecionados, dos norte-americanos para estrangeiros. Isso piora ainda mais o déficit já existente.

Para proteger o valor de câmbio do dólar, dados os grandes déficits em conta corrente e a criação de dinheiro para dar jeito nos balanços dos “bancos grandes demais para quebrar”, Washington conta com bancos centrais, no Japão e na Europa, para que continuem a imprimir dinheiro e dinheiro sem parar. A emissão de yens e euros supera a emissão de dólares e, assim, protege o valor de compra do dólar.


Lei Glass-Steagall que separava os bancos comerciais e os bancos de investimento foi, pode-se dizer, desgastada, antes de ser completamente rejeitada durante o segundo mandato do governo Clinton. Essa rejeição da lei, somada ao fracasso para regular os derivativos, a remoção de qualquer limite a posições de especuladores, e a enorme concentração que resultou do status de letra morta das leis antitrustes, produziram, não a utopia de algum ‘livre mercado’, mas, isso sim, crise financeira grave, que perdura. A liquidez emitida para fazer frente à crise resultou em bolhas, no mercado de ações e de papéis.

Implicações, consequências, soluções:

Quando a Rússia bloqueou a invasão da Síria e o bombardeio do Irã planejados pelo governo Obama, os neoconservadores deram-se conta de que, enquanto eles, por uma década, só pensavam nas guerras que inventaram no Oriente Médio e na África, o presidente Putin havia reabilitado a economia e o exército russos.

O primeiro objetivo da doutrina Wolfowitz – impedir a re-emergência de algum novo rival – havia fracassado. Aí estava a Rússia, a dizer “não” aos EUA. O Parlamento Britânico uniu-se a ela ao vetar a participação de forças britânicas na invasão norte-americana contra a Síria. O poder da única potência fora abalado.

Com isso, a atenção dos neoconservadores saltou, do Oriente Médio, para a Rússia. Durante toda a década passada, Washington consumira US$ 5 bilhões financiando políticos atuais e potenciais na Ucrânia, além de Organização Não Governamentais (ONGs) que podiam ser postas nas ruas, em “protestos”.

Quando o presidente da Ucrânia fez um cálculo de custo-benefício da proposta de associação da Ucrânia à União Europeia, viu que era mau negócio para a Ucrânia e rejeitou a proposta. Foi quando Washington ordenou às suas ONGs que tomassem as ruas. Os neonazistas aderiram à violência, e o governo, despreparado para a violência, entrou em colapso.

Victoria Nuland e Geoffrey Pyatt
Victoria Nuland e Geoffrey Pyatt escolheram os novos governantes ucranianos e estabeleceram na Ucrânia um regime vassalo.

Washington esperava usar esse golpe de estado para expulsar os russos de sua base naval do Mar Negro, a única base russa em águas temperadas. Mas a Crimeia, que fora parte da Rússia durante séculos, votou, em plebiscito sua reintegração à Rússia. Foi terrível frustração para Washington, mas ela recobrou-se; e decretou que o ato de autodeterminação soberana dos crimeanos dever-se-ia chamar “invasão russa” e “anexação da Crimeia”. Washington usou esse golpe de propaganda para quebrar o relacionamento econômico e político entre Europa e Rússia, pressionando a Europa para que impusesse sanções contra a Rússia.

As sanções tiveram efeito muito pior sobre a Europa, que sobre a Rússia. E os europeus, hoje, já se preocupam mais com a crescente beligerância de Washington, do que com a Rússia. A Europa nada tem a ganhar de algum conflito com a Rússia, e teme estar sendo empurrada para a guerra. Há indicações de que alguns governos europeus começam a considerar avaliar, eles mesmos, política externa independente da de Washington.

A demonização e a virulenta campanha de propaganda anti-Rússia, destruiu a confiança que a Rússia tivesse no ocidente. Com o comandante Breedlove da OTAN a exigir mais dinheiro, mais soldados, mais bases próximas às fronteiras da Rússia, a situação é claramente perigosa. E num desafio militar direto contra Moscou, Washington agora inventou de incorporar à OTAN a Ucrânia e a Geórgia, dois estados que já foram províncias da Rússia.

No plano econômico, o dólar como moeda de reserva já se converteu em problema para todo o mundo. Sanções e outras formas do imperialismo financeiro norte-americano levam os países – inclusive países muito grandes – a deixar o sistema de pagamentos em dólar. Como o comércio exterior vai-se fazendo cada vez mais sem recorrer ao dólar norte-americano, a demanda por dólares diminui, mas a oferta foi muitíssimo ampliada como resultado do “Alívio Quantitativo” [orig. Quantitative Easing]. Por causa da produção deslocalizada para fora do país e da dependência dos EUA de importados, uma queda no valor do dólar resultaria em inflação doméstica, o que baixaria ainda mais os padrões de vida nos EUA e ameaçaria os já fraudados mercados de ações, de títulos e de metais preciosos.

A razão real para o Alívio Quantitativo é dar apoio aos balanços dos bancos. Mas a razão oficial é estimular a economia e sustentar a recuperação econômica. O único sinal de recuperação é o PIB real, que se mostra positivo, só porque o deflator está subvaliado.

Há clara evidência de que não houve recuperação econômica alguma. Com o PIB do primeiro trimestre negativo, e o do segundo trimestre já com sinais de que também será negativo, a segunda perna da longa virada para baixo pode já começar nesse verão.


Sobretudo, o atual alto desemprego (23%) é diferente do desemprego que havia antes. No século XX pós-guerra, o Federal Reserve enfrentou a inflação esfriando toda a economia. Vendas declinam, estoques crescem e há dispensa de empregados. Com o aumento do desemprego, o Fed invertia o curso e os trabalhadores eram novamente convocados para os empregos. Hoje, os empregos já não estão nos EUA. Foram exportados para outros países. As fábricas se foram. Não há empregos para os quais reconvocar os trabalhadores.

Restaurar a economia exigiria reverter a exportação de empregos e postos de trabalho e trazer os empregos de volta para os EUA. Pode-se fazer, se se alterar o modo como se cobram impostos das grandes corporações. A taxa de imposto a pagar sobre lucro das empresas pode ser determinada pela localização geográfica onde as empresas agregam valor aos produtos que comerciam nos EUA. Se os bens e serviços são produzidos no exterior, as taxas de impostos sobem. Se bens e serviços são produzidos domesticamente, as taxas podem ser mais baixas. Podem-se usar os impostos para criar vantagens a favor de produtos produzidos nos EUA.

Mas essa reforma é bem pouco provável, considerando-se o poder de lobbying das corporações transnacionais e de Wall Street. Concluo pois que a economia dos EUA continuará declinante.

No front de política externa, a húbris e a arrogância da autoimagem dos EUA como o país “excepcional, indispensável” com direitos hegemônicos sobre outros países significam que o mundo está condenado à guerra. Nem Rússia nem China aceitarão a posição de vassalagem que Grã-Bretanha, Alemanha, França e o resto da Europa, Canadá, Japão e Austrália aceitaram. A Doutrina Wolfowitz deixa bem claro que o preço da paz mundial é o mundo aceitar a hegemonia de Washington.

Assim sendo, a menos que o dólar e, com ele, o poder dos EUA, entrem em colapso, ou a Europa tenha afinal coragem de romper com Washington e buscar política externa independente, dizendo adeus à OTAN, o futuro que mais provavelmente nos espera é a guerra nuclear.

A agressão que Washington comete e a propaganda violenta já convenceram Rússia e China de que Washington quer guerra, e essa percepção já aproximou dos dois países numa aliança estratégica. A celebração do Dia da Vitória, 9 de maio, na Rússia, que marca os 70 anos da derrota de Hitler é ponto de virada histórica. Governantes ocidentais boicotaram a celebração, mas os chineses lá estavam, substituindo-os. Pela primeira vez, soldados chineses desfilaram ao lado de soldados russos, e o presidente da China e a esposa sentaram-se ao lado do presidente Putin da Rússia.

A matéria do Saker sobre o evento é interessante. Vejam com atenção o gráfico em que se vê o número de baixas na IIª Guerra Mundial. As baixas russas, comparadas às baixas somadas de EUA, Reino Unido e França deixam ver com perfeita clareza que quem derrotou Hitler foi a Rússia.

Nesse ocidente orwelliano, as versões mais recentemente reescritas da história deixam de fora que foi o Exército Vermelho que destruiu a Wehrmacht. Alinhado com essa história reescrita, inventada, Obama, no discurso dos 70 anos da rendição alemã só falou das forças dos EUA. Bem diferente disso, para muito melhor, Putin agradeceu aos “povos de Grã-Bretanha, França e EUA pela sua contribuição para a vitória.

A vitória em Stalingrado

Já há muitos anos o presidente Putin repete publicamente que o ocidente não ouve a Rússia. Washington e seus estados sabujos na Europa, Canadá, Austrália e Japão não ouvem quando a Rússia diz “não nos provoquem demais. Nós não somos o inimigo. Queremos ser parceiros de vocês”.

Com os anos passando sem que Washington lhes desse atenção, Rússia e China finalmente se aperceberam de que só lhes resta escolher entre vassalagem ou guerra.

Houvesse gente inteligente, qualificada, no Conselho de Segurança Nacional, no Departamento de Estado, ou no Pentágono, Washington já teria sido avisada para afastar-se da política neoconservadora de semear desconfiança. Mas com a húbris neoconservadora a ocupar todos os nichos do governo, Washington cometeu o erro que pode ser fatal para toda a humanidade.

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[1] NOTA IMPORTANTE DA VILA VUDU: Depois de demoradas discussões, votamos e decidimos que NUNCA MAIS ESCREVEREMOS “ex-União Soviética” ou “extinta União Soviética”. Os comunistas sempre dissemos/escrevemos “União Soviética” – e assim deve ser.
Concluímos que ninguém diz/pensa/escreve “extinta França Imperial”, “ex-Quilombo dos Palmares”, “ex-Brasil Colônia”, “extinto Adoniram Barbosa”.

Ninguém, no mundo do capital, diz, sequer, “extinta Alemanha Nazista”, nem ninguém diz “ex-Espanha Franquista”. Mas tooooodos os atores e agentes do mundo do capital – sobretudo os “jornalistas”! – dizem/escrevem SEMPRE “ex-URSS”. Vejam como são as coisas: tudo é sempre, luta de classes, até a lexicologia e a sintaxe.

Esse repetido “ex”/”extinta” só aparece em “ex-URSS”/“extinta URSS”, porque interessa ao capital, ao ocidente capitalista e aos papagaios de repetição que se leem/ouvem na imprensa-empresa brasileira [só rindo!], repetir sempre, sempre, sempre, que a URSS “foi extinta”. Ora! A URSS foi tão “extinta” quanto o Quilombo de Palmares ou Pixinguinha ou Adoniram ou o Palestra Itália ou o Pátio do Colégio.

Por tudo isso, doravante escreveremos/traduziremos sempre “União Soviética” ou “URSS”. É nossa decisão de gramática comunista.

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[*] Paul Craig Roberts (nascido em 3/4/1939) é um economista norte-americano, colunista doCreators Syndicate. Serviu como Secretário-Assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da ReaganomicsEx-editor e colunista do Wall Street Journal,Business Week e Scripps Howard News ServiceTestemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch  Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia,  Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

“Neocons” e a promoção do caos no Oriente Médio

13/4/2015, [*] Ray McGovernConsortium News
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Guerra do Golfo Pérsico em 1991
Depois da Guerra do Golfo em 1991, os neoconservadores nos EUA supuseram que nenhum país nunca mais conseguiria resistir aos exércitos high-tech dos EUA e deram-se conta de que já não havia União Soviética para limitar as ações dos EUA. Foi quando nasceu a estratégia das “mudanças de regime” – e muita gente começou a morrer.

O general de quatro estrelas e ex-insider em Washington, Wesley Clark, cantou essa história toda há vários anos, de como Paul Wolfowitz e seus coconspiradores neoconservadores implementaram o plano deles, de varredura, para desestabilizar países chaves no Oriente Médio, tão logo ficou evidente para todos eles que a Rússia pós-soviética “não nos conterá”.



Como revi recentemente no clip de oito minutos em YouTube (acima, em inglês), do discurso do general Clark em outubro de 2007, o que mais me saltou aos olhos foi que os neoconservadores sentiam-se fortalecidos pela avaliação que fizeram de que, depois do colapso da União Soviética, a Rússia estaria neutralizada, já sem capacidade para conter a ação militar dos EUA no Oriente Médio.

A fala pública de Clark escapou a qualquer crítica ou comentário na mídia-empresa sempre amiga dos neoconservadores (surpresa, surpresa!), mas ele conta lá que lembra perfeitamente de ter ouvido, de um alto general do Pentágono, pouco depois dos ataques do 11/9/2001, sobre o plano coordenado por Donald Rumsfeld/ Paul Wolfowitz para  “mudança de regime” no Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e Irã.

Foi muito surpreendente, porque oficialmente os EUA apresentam-se como país que respeitaria a lei internacional, que protesta muito quando outras nações poderosas derrubam (alguns) presidentes em estados fracos e – depois da IIª Guerra Mundial – os EUA condenaram agressões passadas cometidas pelos nazistas alemães e protestaram muito por os soviéticos “subverterem” nações pró-EUA.

Mas o que realmente me chamou a atenção dessa vez foi o significado de Clark lá estar denunciando Wolfowitz, em 1992, a se gabar do que supunha que tivesse sido uma grande lição aprendida do ataque ao Iraque (“Tempestade no Deserto”) em 1991, a saber, que “os soviéticos não nos conterão”.

O que Clark disse que Wolfowitz dissera tem a ver diretamente com um problema que me atormenta desde março de 2003, quando George W. Bush atacou o Iraque. Será que osneocons – conhecidos como “os doidos” entre a pequena população que permanece mentalmente sã em Washington – teriam sido suficientemente doidos a ponto de optar pela guerra para “rearranjar” o Oriente Médio, se a União Soviética não se tivesse esfacelado em 1991?

Não é questão ociosa. Apesar do fracasso dos EUA no Iraque e por toda parte, os “doidos”neocons ainda têm enorme influência sobre o Establishment em Washington. Assim sendo, a questão muda um pouco: será que, com a Rússia muito mais estável e muito mais forte hoje, os “doidos” ainda estão pensando em arriscar uma escalada militar contra a Rússia, pela Ucrânia – o que William R. Polk, diplomata norte-americano aposentado, avaliou como confrontação nuclear potencialmente perigosa, uma “crise dos mísseis cubanos ao contrário”?

O comentário de Putin 

O vácuo geopolítico que permitiu que os neocons tentassem pôr em operação o esquema deles de “mudança de regime” no Oriente Médio pode bem ser a causa profunda do que o presidente Vladimir Putin da Rússia disse em seu discurso do Estado da Nação, dia 25/4/2005, (vídeo com legendas em inglês no fim do parágrafo) que o colapso da União Soviética foi “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. O comentário do presidente Putin foi convertido em meme favorito dos que obram para demonizar Putin, apresentando-o como decidido a atacar a Europa, para assim reconstruir alguma poderosa neo-URSS.


Mas, falando dois anos depois da invasão contra o Iraque, Putin parece acertar, pelo menos no que tenha a ver com o modo como os neocon sexploraram a ausência do contrapeso russo, para super distender o poder dos EUA, de modo que agrediram muito violentamente o mundo, devastadores para as pessoas nos países atacados pelas intervenções norte-americanas e, mesmo, com considerável prejuízo para os próprios EUA.

Se se toma alguma distância e tenta-se uma visada não enviesada sobre a disseminação da violência no Oriente Médio ao longo dos últimos 25 anos, é difícil não chegar à conclusão de que o comentário do presidente Putin acertou o olho do alvo. Com a Rússia enfraquecida como potência militar nos anos 1990s e início dos 2000s, nada havia que contivesse os políticos norte-americanos e os impedisse de se atirarem ao mais desatinado aventureirismo contra o “baixo ventre macio” da Rússia, ação que, anos antes, implicaria risco considerável de confrontação armada entre EUA e Rússia.

Morei na URSS durante os anos 1970s e não desejo a ninguém aquele tipo de regime restritivo. Mas até que se desintegrou, foi regime militarmente forte a ponto de conter o aventureirismo à moda Wolfowitz. E digo que – para os milhões de pessoas já mortas, feridas ou arrancadas da própria terra e da própria casa pela ação militar dos EUA no Oriente Médio ao longo dos últimos 12 anos – o colapso da URSS, como força de contenção contra as guerras norte-americanas não foi só “catástrofe geopolítica”: foi desastre absoluto, até agora ainda sem remédio ou alívio.

Encontro com Wolfowitz

No discurso de 2007, o general Clark contou de um encontro que teve, no início de 1991, com Paul Wolfowitz, então subsecretário de Defesa para Assuntos Políticos (e depois, de 2001 a2005, vice-secretário de Defesa). Aconteceu logo depois de um grande levante dos xiitas no Iraque, em março de 1991. O governo do presidente George H.W. Bush provocara o levante, mas nada fez para salvar os xiitas da retaliação brutal que Saddam Hussein aplicou-lhes, Saddan que mal sobrevivera à derrota no Golfo Pérsico.

Paul Wolfowitz
Nas palavras de Clark, Wolfowitz disse:

Devíamos ter-nos livrado de Saddam Hussein. A verdade é que, uma das coisas que aprendemos é que podemos usar força militar no Oriente Médio, e os soviéticos não nos impedirão. Temos cinco, dez anos para limpar aqueles velhos governos clientes dos soviéticos – Síria, Irã (sic), Iraque – antes que a próxima superpotência apareça para nos desafiar.

Hoje, claro, já são mais de dez anos. Mas não se deixem enganar pela suposição de que Wolfowitz e seus colegas neocons entendam que teriam falhado de modo significativo. O desassossego que eles iniciaram não para de aumentar – no Iraque, Síria, Líbia, Somália, Líbano, para nem falar da nova onda de violência que atinge frontalmente o Iêmen, além da crise na Ucrânia. Pois... a carapaça antiaderente que envolve os mesmos neocons continua a recobri-los e protegê-los, na grande mídia-empresa.

Um detalhe é, sim, verdade: o Irã é terrível desapontamento para os neocons. O Irã está hoje mais estável e menos isolado do que antes; desempenha papel sofisticado no Iraque; e está muito próximo de concluir um grande acordo nuclear com o ocidente – o que impedirá que algum macaco neocon-israelense entre na loja de porcelanas para quebrar tudo, como aconteceu no passado.

Revés anterior sofrido pelos neocons aconteceu no final de agosto de 2013, quando o presidente Barack Obama decidiu não se deixar prender na ratoeira que os neocons lhe preparavam para que ordenasse às forças dos EUA que bombardeassem a Síria. Wolfowitz et alii estiveram muito próximos de conseguir que os EUA formalmente se envolvessem na guerra contra o governo do presidente Bashar al-Assad da Síria quando aconteceu o que aconteceu. Com a ajuda de Vladimir Putin, o diabo encarnado (para os neocons), Obama enfrentou os neocons, derrotou-os e evitou a guerra.

Vladimir Putin
Uma semana depois de já não haver qualquer dúvida de que os neocons não conseguiriam a guerra que queriam na Síria, de repente, lá estava eu, no estúdio central da rede CNN em Washington ao lado de Paul Wolfowitz e do ex-senador Joe Lieberman, outro destacado neocon. Como contei em How War on Syria Lost Its Way”,  a cena era surreal – na verdade, fúnebre, com os dois, Wolfowitz e Lieberman, aos palavrões, furiosos, como se tivessem saído do estádio onde o time deles perdera feio o Super Bowl.

Preferências israelenses/neocons

Mas os neocons são duros na queda. Apesar dos grotescos fracassos, como a Guerra no Iraque, e seus desapontamentos, como não conseguir a guerra com que sonhavam, na Síria, eles jamais aprendem qualquer lição, nem mudam as próprias metas. Apenas recalibram o objetivo. Passaram imediatamente a atirar contra Putin novamente, dessa vez por causa da Ucrânia, como meio para limpar o caminho novamente para “mudança de regime” na Síria e no Irã.

Os neocons também podem extrair algum consolo, do “sucesso” que tiveram nas ações para pôr fogo no Oriente Médio, com xiitas e sunitas já saltando uns na goela dos outros – péssimo para muita gente em todo o mundo e com certeza para as muitas vítimas inocentes na região, mas, afinal, nem tão péssimo para os neocons. Líderes israelenses e seus companheiros de leito (homens e mulheres) entendem que guerras lá entre os próprios muçulmanos sempre têm, no mínimo, alguma vantagem de curto prazo para Israel, porque consolidam o controle sobre a Cisjordânia palestina.

Em memorandum que a organização Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIPS) enviou ao presidente Obama dia 6/9/2013, chamamos a atenção de todos para uma matéria excepcionalmente clara e sincera sobre as motivações de israelenses e neoconservadores, assinada por ninguém menos que a chefe da sucursal do The New York Times em Jerusalém e empenhada amiga de Israel, Jodi Rudoren, de 2/9/2013, apenas dois dias antes de Obama colher os frutos do sucesso de Putin, que conseguira persuadir os sírios a entregar seus arsenais de armas químicas para serem destruídas, e cancelasse qualquer plano de atacar a Síria – para terrível consternação dos neocons em Washington.

Jodi Rudoren
Pode-se provavelmente perdoar Rudoren pela ingenuidade “politicamente incorreta”. A moça estava há apenas um ano no serviço, tinha pouca experiência de como noticiar eventos do Oriente Médio e – excitadíssima ante e iminência do ataque à Síria – ela aparentemente esqueceu o que reza o manual de redação do Times para quem escreva de Jerusalém. Seja como for, as prioridades de Israel transpareceram muito claramente no que Rudoren escreveu.

No artigo dela, intitulado Israel apoia ataque limitado contra a Síria, Rudoren observava que os israelenses andavam dizendo, em voz baixa, que o melhor resultado para a guerra na Síria que (então) já durava 2 anos e meio seria, pelo menos naquele momento, resultado-zero:

Para Jerusalém, o status quo, por horrendo que seja do ponto de vista humanitário, é preferível, seja a uma vitória do governo de Assad e seus apoiadores iranianos, seja a um fortalecimento dos grupos rebeldes, cada dia mais dominados por jihadistas sunitas.

É situação “de tabela”, na qual é preciso que os dois times percam, ou, pelo menos, você não deseja que qualquer deles vença – quer que fique como está – disse Alon Pinkas, um ex-cônsul geral de Israel em New York. “Que sangrem os dois, que sangrem até morrer: esse é o pensamento estratégico por aqui. Enquanto sangrarem, a Síria não será ameaça real”.

Mais claro, impossível. Se esse ainda é o modo como os líderes israelenses veem a situação na Síria, eles contam com envolvimento cada vez maior dos EUA – declarado ou clandestino – como meio que garantiria que nenhuma solução apareça para o conflito na Síria. Quanto mais tempo demorar a matança entre sunitas e xiitas, não só na Síria, mas por todo o Oriente Médio, mais segura estaria Israel, pelo cálculo dos líderes em Telavive.

Ajudar os terroristas

Mas os líderes israelenses também deixaram claro que, se algum lado tiver de prevalecer, que prevaleçam os sunitas, apesar de todo o extremismo sangrento da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. Em setembro de 2013, pouco depois do artigo de Rudoren, o embaixador de Israel nos EUA, Michael Oren, então conselheiro muito próximo do Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, disse ao Jerusalem Post que Israel preferia os extremistas sunitas, a Assad.

O maior perigo para Israel vem do arco estratégico que se estende de Teerã a Damasco e Beirute. E vemos o governo de Assad como pedra basilar desse arco – disse Oren numa entrevista. – Sempre quisemos que Bashar Assad saísse, sempre preferimos os bandidos que não fossem apoiados pelo Irã, aos bandidos apoiados pelo Irã. E disse que continuava a ser assim, mesmo que os “bandidos” fossem ligados à al-Qaeda.

Michael Oren
Em junho de 2014, Oren – que então falava como ex-embaixador – disse que Israel preferiria uma vitória do Estado Islâmico, que estava massacrando soldados iraquianos capturados e degolando ocidentais, à continuação do governo de Assad, apoiado pelos cidadãos sírios.

Do ponto de vista de Israel, se um dos males tiver de prevalecer, que prevaleça o mal sunita – disse Oren.

Netanyahu disse coisa semelhante dia 3/3/2015, no discurso ao Congresso dos EUA, no qual trivializou a ameaça do Estado Islâmico com suas “facas de açougueiro, armas capturadas e YouTube”, comparado ao Irã que, para ele, estaria “exaurindo as nações” do Oriente Médio.

O fato de o principal aliado da Síria ser o Irã, com o qual a Síria mantém tratado de defesa mútua tem papel importante nos cálculos dos israelenses. Por isso, enquanto alguns líderes ocidentais tentam construir algum acordo realista, ainda que imperfeito, para pôr fim à guerra na Síria, outros, com considerável influência em Washington, querem, só, que o governo do presidente Assad e toda a região sangrem até a morte.

Por cruel e cínica que seja essa estratégia, não é muito difícil de entender. Mas, sim, parece ser uma dessas situações complicadas, politicamente carregadas, que está muito acima das competências pelas quais são pagos os calouros, os amadores, que aconselham o presidente Obama – e que, muito lamentavelmente, não têm recursos nem talentos nem meios para derrotar os neocons que mandam no Establishment em Washington. Para nem falar do Congresso que Netanyahu mantém hipnotizado.

Espertalhões desmascarados

Falando de Congresso, um ano depois da matéria de Rudoren, o senador Bob Corker, R-Tennessee, que atualmente preside a Comissão de Relações Exteriores do Senado, divulgou alguns detalhes do ataque militar que estava planejado contra a Síria, ao mesmo tempo em que muito lamentou que tivesse sido cancelado.

Bob Corker
Nessa fala, Corker apresentou a mudança abrupta de Obama, dia 31/8/2013, quando optou por negociações, em vez de ataque declarado à Síria, Como “o pior momento da política exterior dos EUA desde que estou aqui”. Seguindo estritamente o roteiro dos neocons, Corker atacou o acordo com Putin e os sírios, para livrar a Síria de suas armas químicas.

Corker protestou:

Na essência – lamento se soar um tanto retórico – pulamos no colo de Putin.

Um grande Não-Não, é claro – sobretudo no Congresso – a qualquer coisa que se assemelhe a “pular no colo de Putin”, mesmo que Obama tenha conseguido tirar as armas químicas da Síria, sem fazer os EUA pularem em mais uma guerra no Oriente Médio.

Seria ótimo, é claro, se o general Clark tivesse partilhado antes, com o resto dos norte-americanos, o que sabia sobre a posição do Pentágono. Ninguém jamais o veria como “vazador” de segredos.

Quando fez aquele discurso (vídeo acima), em setembro de 2007, o general estava empenhado na tentativa quixotesca de conseguir a indicação dos democratas como candidato à presidência em 2008. Em outras palavras, Clark quebrou o juramento de silêncio que todos os generais fazem, e que perdura mesmo depois da aposentadoria, apenas para conseguir separar-se, pouco que fosse, do fracasso dos EUA no Iraque – e arrancar alguns votos entre os Democratas antiguerra. Não funcionou, então ele apoiou Hillary Clinton; não funcionou, então ele apoiou Barack Obama.

Wolfowitz, como lhe é característico, já tomou novamente pé na situação. Agora trabalha para ser conselheiro de política externa e de defesa de Jeb Bush, aspirante à presidência dos EUA, e com certeza já está a soprar suas ideias para o Oriente Médio nas orelhas do próximo chefão. Alguém sabe se “pandemônio” tem plural?
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[*] Ray McGovern nasceu no Bronx em Nova York em 25/8/1939 e lá cresceu. Formou-se com honras pela Universidade Fordham e serviu no Exército dos EUA de 1962-1964. Está casado com Rita Kennedy por 50 anos. Juntos têm cinco filhos e oito netos.
Aposentado como analista da CIA onde trabalhou no período 1963-1990. Trabalhou inicialmente como oficial da CIA responsável pela análise da política soviética no Vietnã.
No início da década de 1980, já como analista sênior, montou e dirigiu o grupo de National Intelligence Estimates que preparava o President's Daily Brief. Rotineiramente apresentava essesbriefings matinais de inteligência na Casa Branca. Em meados da década de 1980 era o analista que conduzia briefings matinais one-on-one com o Vice-Presidente, os Secretários de Estado e da Defesa, o Comandante do Estado Maior Conjunto e do Assistente do Presidente para a Segurança Nacional. Sua carreira CIA começou no governo do presidente John F. Kennedy, e durou até a Presidência da George Bush (pai).
Após aposentar-se fundou a organização Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIPS)[Profissionais Veteranos de Inteligência, pela Sanidade] onde atua até hoje.