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sábado, 13 de junho de 2015

Desdolarização: Rússia está falando (muito) sério


6/6/2015, [*] F. William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Desdolarização da Rússia
A Rússia está prestes a dar outro grande passo na direção de libertar o rublo, extraindo-o do Sistema-dólar. O Ministro das Finanças russo acaba de informar que está considerando lançar papéis da dívida do Estado russo em Yuan chinês. Seria via muito elegante para afastar-se de vez da dependência, das chantagens e das ações de terrorismo financeiro de que o Tesouro dos EUA fez meio de vida. E simultaneamente se estreitam os laços entre China e Rússia – o pior pesadelo geopolítico para Washington.
O Vice-Ministro russo das Finanças, Sergey Storchak, anunciou que seu Ministério está dedicado a estudo aprofundado do que se exige para lançar papéis russos denominados em Yuan, a moeda chinesa. Esse noticiário recente é parte de uma estratégia de longo prazo, entre Rússia e China, que alcança diretamente o coração da hegemonia norte-americana – US$ – no lugar de principal moeda de reserva mundial.
O US$ é usado hoje como principal moeda de reserva em cerca de 60% dos bancos centrais pelo mundo. A segunda é o € (euro). Agora a China se move cuidadosamente, como principal potência comercial do planeta, para criar sua Renminbi (o Yuan chinês) como mais uma dessas grandes moedas de reserva. É evento que tem enormes implicações geopolíticas. Enquanto o US$ for a principal moeda de reserva, o mundo tem de comprar dólares e papéis do Tesouro dos EUA para suas reservas. Isso é que tem possibilitado que Washington continue a acumular déficits em orçamento desde 1971, quando o US$ abandonou o padrão-ouro.
Na realidade, China, Japão, Rússia, Alemanha – todos países com balança comercial superavitária – financiam os déficits de Washington, o que torna possível para os EUA fazer todas as guerras que faz pelo mundo. É paradoxo ao qual Rússia e China, pelo menos, estão decididas a pôr fim o mais rapidamente possível.
Desdolarização
Ano passado, Rússia e China assinaram enormes acordos de energia, para 30 anos de fornecimento de petróleo e gás russo à China. Os pagamentos serão feitos em moeda local, não em dólares. Já em 2014, os pagamentos em moedas nacionais entre China e Rússia no comércio bilateral, aumentaram nove vezes, comparados a 2013. Lin Zhi, Diretor do Departamento de Europa e Ásia Central do Ministério Chinês de Desenvolvimento Econômico anunciou em novembro passado que:
(...) cerca de 100 bancos comerciais russos já estão abrindo contas para pagamentos recebidos do exterior em Yuan. A lista dos bancos comerciais nos quais depositantes comuns podem abrir contas em Yuan também está aumentando.
Em novembro passado, o 18º maior banco da Rússia, o Sberbank, tornou-se o primeiro banco russo a financiar letras de câmbio em Yuan.
Estratégia de longo prazo
O que tudo isso indica é que Rússia e China estão planejando cuidadosamente uma estratégia de longo prazo para sair da relação de dependência que as mantém ligadas à moeda dos EUA, algo que, como mostraram as sanções impostas à Rússia pelos EUA ano passado, torna os dois países vulneráveis ao impacto devastador das guerras de moedas que os EUA espalham pelo mundo.
A China acaba de ser aceita “em princípio” pelo Grupo dos 7 ministros de finanças, para ter seu Yuan chinês incluído na cesta de moedas que gozam de Special Drawing Rights (Direitos Especiais de Saque), que o FMI distribui entre seus membros. Hoje, só há nessa cesta o US$ (dólar), o € (euro) e o ¥ (yen) japonês. Incluir aí o Yuan será passo gigantesco para fazer da moeda chinesa mais uma moeda internacional de reserva; simultaneamente, enfraquece parte que corresponde ao dólar.
Desdolarização
As reservas estrangeiras chinesas consistem predominantemente de papéis em dólar norte-americano, principalmente bônus do Tesouro dos EUA – o que é uma fragilidade estratégica, porque em caso de guerra essas reservas podem ser congeladas – como o Irã já sabe muito bem. Para a China, é imperativo aumentar o conteúdo de ouro em suas reservas e diversificar o restante delas para outras moedas.
A China também acertou com a Rússia e o projeto russo da União Econômica Eurasiana a unificação da rede de ferrovias de alta velocidade da Nova Rota da Seda. Simultaneamente, Pequim anunciou que está criando fundo gigantesco, de $16 bilhões, para desenvolveu minas de ouro ao longo da ferrovia que liga Rússia, China e Ásia Central. Isso sugere planos para elevar fortemente a quantidade de ouro na composição das reservas chinesas. O banco central da China aumentou muito a quantidade de ouro em seu poder nos anos recentes, embora ainda não tenha divulgado se já ultrapassou as alegadas 8.000 toneladas de ouro que haveria no Federal Reserve. Espera-se que a China divulgue as dimensões de sua real reserva de ouro quando for formalmente aceita na cesta de moedas SDR-FMI, talvez adiante, ainda esse ano.
Ano passado, 2014, Song Xin, presidente da Associação Ouro China disse que:
Temos de criar nosso banco de ouro o mais rapidamente possível. (...) Ele nos ajudará a comprar reservas e dará mais peso à voz e aos controles da China no mercado de ouro.
Um fundo do setor ouro, que envolve países ao longo da Rota da Seda já foi criado no noroeste da China, na cidade de Xi’an, no mês de maio/2015, controlado pelo Bolsa de Ouro de Xangai [orig. Shanghai Gold Exchange (SGE)], parte do Banco do Povo da China [orig. PBOC]. A China é o maior produtor mundial de ouro. Dentre os 65 países ao longo das rotas do Cinturão Econômico da Rota da Seda, há inúmeros que se identificam como importantes bases de reserva e consumidores de ouro. Xinhua noticia que 60 países investiram naquele fundo, que facilitará o processo pelo qual os bancos centrais dos estados-membros poderão ampliar suas reservas de ouro.
O dólar e o rublo
O Dr. Diedrick Goedhuys, ex-conselheiro econômico do Reserve Bank da África do Sul, disse-me pessoalmente, numa entrevista:
Quero enfatizar a qualidade que só o ouro tem como ativo financeiro, de não implicar risco para ninguém. Um bônus do Tesouro, por exemplo, é ativo na minha mão, mas é risco, é passivo a ser resgatado, na contabilidade do Tesouro. O ouro, não. É exclusivamente ativo. O plano de mineração de ouro que o governo da China está executando é importantíssimo. É plano de longo prazo. Talvez ainda se passem dez anos antes de ele apresentar efeito significativo.
Agora, com Washington e Wall Street cada dia mais frustradas por não conseguirem derrubar o rublo e o renminbi, Rússia e China estão dando passos gigantes para livrar-se das cadeias do US$, movimento que pode libertar toda a humanidade, se completado corretamente.
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[*] Frederick William Engdahl é jornalista, conferencista e consultor para riscos estratégicos. É graduado em política pelaPrinceton University; autor consagrado e especialista em questõesenergéticas e geopolítica da revista online New Eastern Outlook.
Nascido em Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos, é filho de F. William Engdahl e Ruth Aalund (nascida Rishoff). F.W. Engdahl cresceu no Texas, e depois de se formar em engenharia e jurisprudência na Princeton University em 1966 (bacharelado), e pós-graduação em economia comparativa da University of Stockholm 1969-1970. Trabalhou como economista e jornalista free-lance em New York e na Europa. Começou a escrever sobre política do petróleo, com o primeiro choque do petróleo na década de 1970. Tem sido colaborador de longa data do movimento LaRouche.
Seu primeiro livro foi A Century of War: Anglo-American Oil Politics and the New World Order, onde discute os papéis de Zbigniew Brzezinski, de George Ball e dos EUA na derrubada do xá do Irã em 1979, que se destinava a manipular os preços do petróleo e impedir a expansão soviética. Engdahl afirma que Brzezinski e Ball usaram o modelo de balcanização do mundo islâmico proposto por Bernard Lewis.Em 2007, completou seu livro Seeds of Destruction: The Hidden Agenda of Genetic Manipulation. Seu último livro foi: Gods of Money: Wall Street and the Death of the American Century (2010).
Engdahl é autor frequente do sítio do Centre for Research on Globalization. É casado desde 1987 e vive há mais de duas décadas perto de Frankfurt am Main, na Alemanha.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Pepe Escobar: Por que a OTAN treme de medo da Rússia

1/5/2015, [*] Pepe EscobarRussia Today – RT
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Sede da OTAN
O ataque por duas frentes – guerra ao preço do petróleo/raid contra o rublo – que visava a destruir a economia russa e metê-la no formato de vassalagem, como um recurso natural a ser usado pelo ocidente, falhou.

Os recursos naturais também foram essencialmente a razão para a tentativa de reduzir o Irã à posição de vassalo do ocidente. Nada jamais teve a ver com Teerã desenvolver alguma arma nuclear – hipótese já banida pelos dois líderes da Revolução Islâmica, o Aiatolá Khomeini e o Supremo Líder Aiatolá Khamenei.

O “Novo Grande Jogo” na Eurásia sempre só teve a ver com controlar a massa de terra eurasiana. Mas pequenos reveses que sofra o projeto da elite norte-americana não significam que o jogo ficará limitado a alguma mera guerra de atrito. Antes, o contrário disso.

Tudo sobre o Prompt Global Strike (PGS) [Ataque Global Imediato]

Na Ucrânia, o Kremlin tem dito mais que explicitamente que há duas linhas vermelhas absolutas. A Ucrânia não será integrada à OTAN. E Moscou não permitirá que as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk sejam esmagadas.

Estamos nos aproximando de um esgotamento de prazo potencialmente explosivo – em julho – quando expiram as sanções que a União Europeia impôs à Rússia. Uma União Europeia em tumulto – mas ainda escravizada à OTAN – vê passar o patético comboio “Cavalgada do Dragão” [orig. Dragoon Ride] dos Bálticos para a Polônia, ou o exercício-show “Determinação Atlântica” [orig. Atlantic Resolve] da OTAN – pode decidir expandir as sanções, ou até tentar excluir a Rússia da Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais [orig. Society for Worldwide Interbank Financial TelecommunicationSWIFT].

China e Rússia substituem o  SWIFT 
Só tolos ainda creem que Washington venha a arriscar vidas de norte-americanos por causa da Ucrânia ou mesmo, da Polônia. Examinemos então alguns passos adiante.

Se algum dia as coisas chegarem ao impensável – guerra entre OTAN e Rússia na Ucrânia – os círculos russos de Defesa não têm dúvida alguma quanto à sua superioridade convencional e nuclear, no mar e em terra. E o Pentágono também sabe disso. A Rússia pode reduzir a farelo as forças da OTAN, em poucas horas. E então Washington estaria diante da terrível escolha: ou aceitar derrota vergonhosa, ou escalar para as armas táticas nucleares.

O Pentágono sabe que a Rússia tem capacidades aéreas e mísseis de defesa suficientes para contra-atacar qualquer coisa que exista dentro do Prompt Global Strike (PGS) [Ataque Global Imediato] dos EUA. Mas, simultaneamente, Moscou tem dito que prefere não usar essas suas capacidades.

O major-general Kirill Makarov, vice-comandante das Forças de Defesa Aeroespaciais da Rússia, foi bem claro sobre a ameaça do PGS. A nova doutrina militar de Moscou, de dezembro de 2014, declara que:  

(I) esse projeto norte-americano de Ataque Global Imediato e
(II) o atual crescimento militar da OTAN são as duas principais ameaças de segurança que há contra a Rússia.

Diferentes da incansável provocação/demonização de que o Pentágono/OTAN faz meio de vida, os círculos de defesa russos não precisam anunciar aos gritos o modo pelo qual estão hoje algumas gerações à frente dos EUA em tudo que tenha a ver com armamento avançado.

Jens Stoltenberg, Secretário-Geral da OTAN
Em resumo: enquanto o Pentágono metia pés e mãos na lama das guerras no Afeganistão e Iraque, ninguém prestava atenção ao salto tecnológico à frente, que os russos estavam dando. E o mesmo se aplica à capacidade da China para atingir os satélites norte-americanos, sem os quais todos os sistemas dos mísseis balísticos intercontinentais (MBIs) guiados por satélites, dos EUA, estarão inutilizados.

Nesse cenário privilegiado, a Rússia joga para ganhar tempo, até que tenha vedado completamente todo o espaço aéreo russo com o sistema S-500, tornando-o inexpugnável para os MBIs, as aeronaves stealth [indetectáveis por radar] e os mísseis cruzadores norte-americanos.

Nada disso escapou à atenção da Comissão Conjunta de Inteligência [orig. Joint Intelligence Committee (JIC)] britânica – quando avaliou, há algum tempo, se Washington poderia lançar um primeiro ataque contra a Rússia.

Segundo a JIC, Washington pode enlouquecer completamente se:

(a) um governo extremista tomar o poder nos EUA;
(b) se diminuir a confiança que os EUA depositam em alguns, se não em todos, seus aliados ocidentais, devido a desenvolvimentos políticos nos respectivos países;
(c) e se acontecer algum repentino avanço nos EUA na esfera das armas, etc.. Nesse caso, os conselhos da impaciência podem dominar toda a estrutura.

Os boatos que a Think-tank-elândia norte-americana tem distribuído, segundo os quais os planejadores militares russos provavelmente se aproveitariam de sua superioridade, para lançar um primeiro ataque nuclear contra os EUA, são pura bobagem; a doutrina russa é eminentemente defensiva.

Mesmo assim, não se pode excluir a possibilidade de Washington fazer o impensável, na próxima vez que o Pentágono supuser que esteja na posição em que a Rússia está hoje.

Modifica-se a Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais [ing. SWIFT]

Antes, todo o jogo se travava em torno de quem reinava sobre as ondas – dom geopolítico que os EUA herdaram da Grã-Bretanha. O controle sobre os mares significava que os EUA herdavam cinco impérios: Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Países Baixos.

Dólar dos EUA - desmascarado
Todas aquelas gigantescas forças tarefas dos porta-aviões norte-americanos patrulhando os oceanos para garantir o “livre comércio” – como reza a máquina hegemônica de propaganda – podiam virar-se contra a China num piscar de olhos. É mecanismo semelhante ao cuidadosamente coreografado “liderar pela retaguarda”, operação financeira para, simultaneamente, derrubar o rublo/lançar uma guerra do petróleo e, assim, obrigar a Rússia a submeter-se.

O plano máster de Washington falsamente muito simples prossegue: “neutralizar” a China com o Japão, e a Rússia com a Alemanha; com os EUA garantindo apoio às suas duas âncoras, Alemanha e Japão. A Rússia é de fato o único país BRICS que bloqueia o andamento do plano máster.

As coisas estavam nesse ponto, até que Pequim lançou sua(s) Nova(s) Rota(s) da Seda(s), que essencialmente significa(m) unir toda a Eurásia numa bonança comercial/de negócios “ganha-ganha” sobre trilhos de alta velocidade, com o processo trazendo para terra firme o dinheiro dos fretes da tonelagem transportada; tirando-o dos mares.

Por tudo isso, a demonização non-stop da Rússia pela OTAN é, de fato, negócio bizarro, desatualizado. Imaginem a OTAN arranjando briga contra a complexa parceria estratégica em constante evolução Rússia-China. E, num futuro nem tão distante, como já sugeri, Alemanha, Rússia e China têm tudo que se exige para serem pilares essenciais de uma Eurásia plenamente integrada.

Yuan, a nova moeda de reserva
Como as coisas estão hoje, o jogo chave que se desenrola por trás das cortinas é Moscou e Pequim construindo silenciosamente a sua própria Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (um sistema SWIFT, mas distante do controle pelos EUA), ao mesmo tempo em que a Rússia prepara-se para blindar seu espaço aéreo, com os S-500s.

O oeste da Ucrânia está destruído; que fique lá com a União Europeia corroída de tanta “austeridade” – a qual, por falar dela, não quer a Ucrânia. E tudo isso enquanto a mesma União Europeia vai minando comercialmente os EUA, com seu euro fraudado que ainda a impede de entrar mais nos mercados norte-americanos.

Quanto àquela OTAN irrelevante, só lhe resta chorar, chorar, chorar.

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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: SputinikTom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009. 
− Adquira seu novo livro Empire of Chaos, publicado no final de 2014 pela Nimble Books.

sábado, 8 de novembro de 2014

Rússia-China-Brasil unindo forças para evitar o dólar-EUA

3/11/2014, Jim RodgersElite NWO Agenda (vídeo, 3’24”)
Diálogo transcrito e traduzido pelo pessoal da Vila Vudu 


Âncora (0’19”): (...) E o que o Brasil espera, ou está buscando, no que tenha a ver com a Rússia?

Jim Rodgers: O que o Brasil quer da Rússia, e a Rússia quer o mesmo, é formar alguma espécie de sistema para concorrer com o Banco Mundial, e com o FMI e com o dólar norte-americano. O Brasil gostaria de dominar o hemisfério ocidental. Pensam nisso há muitos séculos, que deveriam...

Âncora: (0’36”) O que lhe parece que acontecerá no curto prazo?

Jim Rodgers: Se a Índia estiver envolvida, é difícil que aconteça qualquer coisa no curto prazo. Mas Brasil e China e Rússia podem, sem dúvida, facilmente, construir juntos alguma coisa para concorrer com o dólar... O dólar norte-americano é moeda terrivelmente cheia de furos... Eu sou norte-americano, posso falar. Nós temos problema muito sérios, e o mundo tem problemas muito sérios. E precisamos de alguma coisa de fora, outra coisa. E talvez Brasil, Rússia e China possam montar uma moeda realmente capaz de concorrer com o dólar.

Âncora: (1’04”) ... Putin já falou do grande potencial da América Latina.

Jim Rodgers: E a América Latina tem, mesmo, grande potencial. A Rússia quer outros mercados para seus bens manufaturados. O Brasil, a América Latina querem outra fonte, além de EUA e Ásia. Mas Putin está viajando pela Ásia, e a América Latina tem muitos negócios com a Ásia, os chineses estão por toda a parte na América Latina. A união desses países é um processo, pode-se dizer, natural.

Âncora: (1’49”) E a Rússia já está exportando para a América Latina. Tem-se mostrado custo-efetivo...

Jim Rodgers: Claro que sim. Pois se ninguém impede a Rússia de exportar para onde bem entenda [risos]. Claro que está. Os EUA são hoje local onde é muito caro produzir. No que tenha a ver com distâncias, na América Latina você tem as mesmas vantagens que o Japão. Eles podem fazer, como nós podemos.

Âncora: (2’13”) ... Para a Rússia fazer negócios no Brasil, qual é o custo da força de trabalho?

Jim Rodgers: É barato. A verdade é que é muito fácil fazer negócios na América Latina. Isso nem se discute. E, sim, eles têm força de trabalho razoavelmente bem educada. Se eu fosse a Rússia, eu me interessaria primeiro pela Ásia, mas, sim, sem dúvida, a Rússia pode escolher ir primeiro à América Latina, claro, sem dúvida.

Âncora: (2’43”) Quanto aos BRICS, em geral, a Rússia tem investido muito esforço no grupo. O que a Rússia acrescenta aos BRICS?

Jim Rodgers: A Rússia contribui com muita coisa para os BRICS, como a China e o Brasil. Dou menos importância à Índia. Eu descartaria a Índia, nesse grupo, se estivesse nesse negócio. Mas a Rússia tem uma coisa importante que é uma moeda livremente conversível. Nenhum dos outros países BRICS tem moeda com liquidez, livremente conversível. E, saiba-se ou não, os outros países têm grandes dívidas, a Índia tem grande dívida, o Brasil tem grande dívida, a Rússia não é grande devedor, tem grandes reservas internacionais. Claro, sim, a Rússia tem muito a contribuir para o grupo.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Pepe Escobar: Agora, é guerra total contra os BRICS

4/11/2014, [*] Pepe EscobarRússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

BRICS - Reunião de Fortaleza - 15/7/2014 
Apertem os cintos, a guerra de informação já desencadeada contra a Rússia deve expandir-se para Brasil, Índia e China.

Brasil, Rússia, Índia e China, como o mundo inteiro sabe, são os quatro principais países do grupo BRICS de potências emergentes, que também inclui a África do Sul e em futuro próximo incorporará também outras nações do Sul Global. Os BRICS perturbam imensamente Washington – e sua Think-Tank-elândia – porque são a corporificação do impulso concertado do Sul Global rumo a um mundo multipolar.

Podem-se apostar garrafas de champanhe crimeano que a resposta dos EUA a esse processo deve ser alguma espécie de guerra total de informação – não muito diferente, em espírito, do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)], elemento central da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, do Pentágono. Os BRICS são vistos como importante ameaça –, e conseguir contratorpedeá-los implica dominar toda a grade informacional.

Vladimir Davydov, diretor do Instituto de América Latina da Academia de Ciências da Rússia, acertou o olho do alvo quando observou que:

(...) a situação atual mostra que há tentativas para suprimir não só a Rússia, mas também os BRICS, dado que o papel global daquela associação só faz crescer.

A demonização da Rússia escalou rapidamente nos EUA, das sanções relacionadas à Ucrânia, para Putin o “novo Hitler” e a ressureição do bicho-papão bem testado ao longo da Guerra Fria, tipo “Os Russos estão chegando”.

Dilma Rousseff
No caso do Brasil a guerra de informação já começou antes da reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Assim como Wall Street e suas elites comprador locais faziam de tudo para bombardear o que definem como economia “estatista”, Dilma foi também pessoalmente demonizada.

Passos não inimagináveis para futuro próximo talvez incluam sanções contra a China, por causa de sua posição “agressiva” no Mar do Sul da China, ou Hong Kong, ou Tibet; sanções contra a Índia por causa do Kashmir; sanções contra o Brasil por causa de violações de direitos humanos ou excesso de desflorestamento. Seletos diplomatas indianos, lamentam, off the record, que o primeiro dos BRICS a ser afivelado sob pressão será a Índia.

Dado que os BRICS são tijolos realmente chaves na construção de um sistema global de relações internacionais e um sistema financeiro mais inclusivo – e não há outros no mercado – eles que, pelo menos, mantenham-se bem alertas. Se não, cada um deles será abatido, um depois do outro.

Georgy Toloraya, diretor executivo da Comissão Nacional Russa de Pesquisa sobre os BRICS, lembra que hoje, pelo menos, há “mais e mais comunicação acontecendo pelos canais BRICS.”

Os brasileiros, por exemplo, estão particularmente interessados em cooperação de investimentos. O Banco de Desenvolvimento dos BRICS será realidade já em 2015. E uma equipe russa está preparando relatório detalhado sobre perspectivas futuras para cooperação entre os BRICS, para ser discutido em Pequim, em profundidade, durante uma semana, enquanto acontece a reunião de cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico [orig., Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC].

Da guerra de energia à guerra da moeda

O novo choque do petróleo dos sauditas – que, no mínimo, recebeu luz verde do governo Obama – combina perfeitamente com o padrão “Conhecimento Total de Informação” (TIA), em termos de ofensiva contra os BRICS, com dois deles no papel de alvos chaves: Rússia e Brasil.

O preço do petróleo é a questão
Mais de 50% do orçamento da Rússia vem da venda de petróleo e gás. Cada redução de US$ 10 no preço do barril de petróleo significa que a Rússia deixa de receber coisa como US$ 14,6 bilhões por ano. Pode ser, de certo modo, compensado pela desvalorização do rublo – mais de 25% contra o dólar norte-americano, desde o início de 2014. E a Rússia, claro, ainda tem cerca de US$ 450 bilhões em reservas. Mesmo assim, a economia russa pode crescer só de0,5 a 2% em 2015.

Com a redução de US$ 1 nos preços do petróleo cru, a maior empresa brasileira, Petrobras, perde mais de US$ 900 milhões. Aos preços atuais do petróleo, a Petrobras estará perdendo em torno de US$ 14 bilhões por ano. A queda dos preços portanto mina a expansão de longo prazo da Petrobrás para financiar novos projetos de infraestrutura e de exploração conectados aos seus valiosos depósitos de petróleo do pré-sal. A Petrobras foi alvo preferencial para a demonização de Rousseff.

O Irã não é membro dos BRICS, mas partilha o impulso do grupo com vistas a um mundo multipolar. Para equilibrar o próprio orçamento, o Irã precisa de petróleo a US$ 136 o barril. Um acordo nuclear a ser firmado com o P5+1 em três semanas, dia 24/11/2014, pode levar a um alívio nas sanções – pelo menos as vindas da Europa – e permitir que o Irã melhore suas exportações de petróleo. Mas em Teerã não há ilusões sobre o quanto a manipulação dos preços foi cerebrada para desestabilizar ainda mais a economia iraniana e minar sua posição nas negociações nucleares.

 Acordo nuclear Irã e P5+1
No front econômico, a doutrina do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)] manifesta-se em o Fed pôr fim ao quantitative easingQE [injeção de dólares recém impressos na economia, lit. “facilitação quantitativa” ou “alívio quantitativo”]: significa que o dólar dos EUA continuará a subir e mais dólares dos EUA deixarão os mercados emergentes. A rede chinesa Xinhua expôs e discutiu seriamente essa questão.

O dólar norte-americano e o Yuan estão efetivamente ligados. Quando o dólar norte-americano sobe, o Yuan também sobe. Mas é a economia chinesa que sofre. O que preocupa Pequim é que é possível que a manufatura chinesa torne-se excessivamente cara, em muitíssimos países nos quais as margens de lucro já são muito estreitas.

Portanto, o que com certeza acontecerá é o Banco Central da China determinar uma queda controlada do Yuan – e ao mesmo tempo desenvolver mecanismos para combater a saída de dinheiro quente, sobretudo para Hong Kong.

A China pode até ser relativamente imune ao fim do QE. Mas todos na Ásia lembram ainda muito bem da crise financeira de 1997, que respingou na Rússia em 1998. Os únicos beneficiados então foram – e quem seria?! – os interesses privados norte-americanos e a hegemonia de Washington.

O centro não se mantém coeso [orig. The center cannot hold]

A demonização dos BRICS, em graus diferentes, prossegue sem parar – com o foco central na Rússia, a qual, por falar dela, iniciará a IIIª Guerra Mundial. Por quê? Porque os EUA dizem que sim.

A adesão de outros países do Sul-Global fortalece os BRICS
A mais recente ação envolve o Serviço de Inteligência da Defesa Dinamarquesa [orig. Danish Defense Intelligence Service (DDIS)], que noticiou, semana passada que a Rússia simulara um ataque com jatos e mísseis sobre a ilha de Bornholm em junho/2014.

DDIS não distribuiu qualquer detalhe concreto sobre o ataque simulado. Mas enfatizou que foi o maior exercício militar russo sobre o Mar Báltico desce 1991. DDIS distribuiu um documento “Avaliação de Risco 2014” [orig. Risk Assessment 2014], no qual prevê que:

(...) ao longo dos próximos poucos anos, a situação no leste da Ucrânia tem alta probabilidade de converter-se em novo conflito europeu frio.

Mas os dinamarqueses foram muito claros:

Não há indicações de que a Rússia constitua crescente ameaça militar direta ao território dinamarquês.

Immanuel Wallerstein
Nada disso impediu que os chefes militares norte-americanos de sempre se pusessem a repetir que a Rússia se prepara para iniciar a IIIª Guerra Mundial.

Não há absolutamente nenhuma prova de que Washington esteja preparada sequer para discutir a possibilidade de modificar o atual sistema-mundo, como teorizado por Immanuel Wallerstein, na busca por gestão mais democrática. A próxima reunião do G20 na Austrália, mais uma vez, deixará isso bem claro.

O que se vê, portanto, é o sistema, cada dia mais fragmentado, deslizando inexoravelmente rumo a um catastrófico ponto de ruptura.  O “Conhecimento Total de Informação” [orig.Total Information Awareness (TIA)] e suas reviravoltas e circunvoluções não passam de “estratégia” desesperada para adiar uma decadência inevitável.

No fim, Wallerstein estava certo. O mundo do pós-Guerra Fria está condenado a permanecer imensamente volátil.

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.