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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Três fronts para provocar guerra contra a Rússia: Washington pode incendiar o caos na Ásia Central

24/2/2015, [*] Ivan Lisan, Odnaka.org, The Vineyard of the Saker

Traduzido do russo para inglês por Robin
Traduzido  do inglês pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
A declaração do general norte-americano “Ben” Hodges, de que dentro de quatro ou cinco anos a Rússia pode desenvolver a capacidade para manter guerras simultâneas em três fronts não é só reconhecimento do crescente potencial militar da Federação Russa, mas, também, promessa-ameaça de que Washington lá estará, plantada precisamente em todos esses três fronts, bem ali, junto às fronteiras da Federação Russa.

Mapa da Federação russa e fronteiras
(clique na imagem para aumentar)
No contexto do inevitável crescimento da China e da crise financeira que certamente se agravará, com o espocar concomitante de bolhas e mais bolhas, nada mais resta aos EUA para tentar preservar sua hegemonia global, que minar os adversários. E o único meio para alcançar tal objetivo é disparar o caos nas repúblicas que fazem fronteira com a Rússia.

Eis por que a Rússia enfrentará, inevitavelmente, um período de conflitos e crises junto às suas fronteiras.

O primeiro front, de fato, até já existe, na Ucrânia; o segundo muito provavelmente será entre Armênia e Azerbaijão, na disputa por Nagorno-Karabakh, e o terceiro front, é claro, será criado na Ásia Central.

mapa: Nagorno-Kara...

Localização de Nagorno-Karabakh 
Se a guerra na Ucrânia leva a milhões de refugiados, dezenas de milhares de mortos e à destruição de cidades, reaquecer o conflito em Karabakh minará completamente toda a política externa russa no Cáucaso.

Todas as cidades na Ásia Central estão sob ameaça de explosões e ataque. Até aqui esse “futuro front” tem atraído menor atenção da imprensa-empresa – a Novorrússia domina todos os canais de televisão, jornais e websites – mas aquele teatro de guerra será dos mais complexos, depois do conflito na Ucrânia.

Subsidiário do Califato junto ao ventre da Rússia

A tendência clara, indiscutível, no Afeganistão – e a principal fonte de estabilidade na região – é na direção de uma aliança entre os Talibã e o Estado Islâmico. Isso, embora a formação dessa união ainda esteja nos primeiros dias; embora praticamente não se ouçam referências a essa aliança, ou só se ouçam referências fragmentadas; e embora não se conheça ainda a verdadeira escala das atividades dos emissários do Estado Islâmico – e a tendência à aliança entre os Talibã e o Estado Islâmico apenas deixe ver uma ponta de iceberg sobre a superfície.

Mas já não há dúvidas de que há agitadores do Estado Islâmico ativos no Paquistão e em províncias do sul do Afeganistão, controladas pelos Talibã. Nesse caso, a primeira vítima do caos no Afeganistão é o Paquistão, país que, por insistência e com a ajuda dos EUA, alimentou os Talibã nos anos 1980s. Esse projeto ganhou vida própria e é persistente pesadelo para Islamabad, que já decidiu estabelecer relações amigáveis com China e Rússia.

Essa tendência pode ser vista nos ataques dos Talibãs contra escolas paquistanesas, cujos professores já andam armados; na prisão repetida de terroristas nas grandes cidades; e no início de atividades em apoio a tribos hostis aos Talibã no norte.

Af-Pak e fronteiras
O mais recente desdobramento legislativo no Paquistão é uma emenda à Constituição, para expandir a jurisdição dos tribunais militares também para civis. Por todo o país, terroristas islamistas e simpatizantes estão sendo presos. Só no noroeste, já aconteceram mais de 8 mil prisões, incluindo membros do clericato. Organizações religiosas foram banidas, e emissários do Estado Islâmico foram capturados.

Dado que os EUA não gostam de pôr todos os ovos na mesma cesta, garantirão apoio ao governo em Cabul, que lhes permitirá permanecer legitimamente no país; e também darão apoio aos Talibã, que já está se convertendo também ao Estado Islâmico. Resultado disso será um caos generalizado, no qual os EUA não tomarão parte (formal e oficialmente); apenas se sentarão nas suas bases militares, esperando para saber quem sobreviveu. Então, Washington garantirá assistência ao vitorioso. Observe-se que os serviços de segurança dos EUA apoiam os Talibã já há muito tempo e bem efetivamente: muitos das forças oficiais de segurança e da Polícia no Afeganistão são ex-Talibã e Mujahideen.

Há método nessa destruição

O primeiro modo para desestabilizar a Ásia Central é criar problemas nas fronteiras, associados à ameaça de que os Mujahideen invadirão a região. A testagem dos vizinhos já começou: já surgiram problemas no Turcomenistão, que até teve de pedir que Cabul não realizasse operações militares de larga escala nas províncias fronteiriças. O Tadjiquistão forçou os Talibã a negociar a libertação dos guardas de fronteira que haviam sequestrado, e o serviço de fronteira do Tadjiquistão noticia que há grande número de Mujahideen junto às suas fronteiras.

Em geral, todos os países que fazem fronteira com o Afeganistão já subiram o nível de segurança nas áreas limítrofes.

O segundo modo é infiltrar islamistas por trás das linhas. Esse processo já começou: o número de extremistas só no Tadjiquistão já subiu para mais que o triplo no ano passado; ainda que estejam sendo caçados e presos, obviamente não será possível capturá-los todos. Além do mais, a situação é agravada pela volta dos trabalhadores migrantes que estavam na Rússia, o que expande a base para recrutamento. Se parar ou diminuir o fluxo até aqui ininterrupto de ajuda russa ao país, o efeito poderá ser descontentamento popular e tumultos orquestrados e manipulados.

Kadir Malikov, especialista do Quirquistão, informa que foram alocados US$ 70 milhões para o grupo militar Maverenahr do Exército Islâmico, que inclui representantes de todas as repúblicas da Ásia Central, para organizarem atos de terrorismo na região, com especial ênfase no Vale Fergana, coração da Ásia Central.

Vale Fergana - localização geográfica
Outro ponto de vulnerabilidade são as eleições parlamentares no Quirguistão, marcadas para o próximo outono. Uma nova “onda” de “revoluções coloridas” gerará o caos e levará à desintegração de vários países.

Guerras autossustentáveis

Promover guerras é trabalho caro; por isso, a desestabilização na região deve ser autossustentável ou, pelo menos, deve gerar algum lucro para o complexo militar-industrial dos EUA. Nesse quesito, Washington tem obtido vários sucessos: deu ao Uzbequistão 328 veículos blindados que Kiev havia requisitado para sua guerra na Novorrússia. À primeira vista, não é negócio lucrativo, porque as máquinas foram doadas, mas, de fato, o Uzbequistão ficará atrelado aos EUA para obter peças de reposição e munição para os blindados. Washington tomou medida semelhante, quando transferiu equipamento e armas para Islamabad.

Mas os EUA não têm sido bem-sucedidos nas tentativas para impor seus sistemas de armas à Índia: os indianos não assinaram qualquer contrato, e Obama viu desfilarem carros e equipamento militares russos, quando assistiu a um desfile militar em Nova Delhi.

Os EUA estão empurrando os países naquela região para guerra contra os próprios protegesdos norte-americanos – os Talibã e o Estado Islâmico – e, ao mesmo tempo, fornecem armas aos inimigos deles.

Desestabilização disseminada

Assim se vê que 2015 será marcado por preparativos para desestabilização disseminada por toda a Ásia Central e pela transformação do “AfPak” em subsidiário do Estado Islâmico nas fronteiras de Rússia, Índia, China e Irã. O início da guerra em escala total, que será inevitável, acontecerá quando o caos já estiver disseminado pela região. Levará a um banho de sangue nos “Bálcãs Eurasianos”, envolvendo automaticamente mais de 1/3 da população mundial e quase todos os rivais geopolíticos dos EUA. É oportunidade que Washington avaliará como boa demais para ser desperdiçada.

Qual será a resposta da Rússia?
A resposta da Rússia a esse desafio tem de ser multifacetada: envolver a região no processo da integração eurasiana; garantir assistência militar, econômica e política aos países da região; trabalhar em íntima associação com seus aliados na Organização de Cooperação de Xangai, OCX, e com os países BRICS (Brasil, Índia, China e África do Sul); fortalecer o exército do Paquistão; e, claro, ajudar a capturar os servidores barbudos do Califato.

Mas a resposta mais importante terá de ser a modernização acelerada das forças armadas russas e de seus aliados; e esforços para fortalecer e estreitar os laços da Organização do Tratado de Segurança Coletiva [orig. Collective Security Treaty Organization,CSTO], dando à CSTO o direito de contornar a altamente ineficiente Organização das Nações Unidas, ONU.

A região é extremamente importante: se a Ucrânia é o fusível da guerra, a Ásia Central é um depósito de pólvora. Se voar pelos ares, metade do continente será atingido.


[*] Ivan Lizan é um jornalista ucraniano especializado em geopolítica. 

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Pepe Escobar: Agora, é guerra total contra os BRICS

4/11/2014, [*] Pepe EscobarRússia Today
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

BRICS - Reunião de Fortaleza - 15/7/2014 
Apertem os cintos, a guerra de informação já desencadeada contra a Rússia deve expandir-se para Brasil, Índia e China.

Brasil, Rússia, Índia e China, como o mundo inteiro sabe, são os quatro principais países do grupo BRICS de potências emergentes, que também inclui a África do Sul e em futuro próximo incorporará também outras nações do Sul Global. Os BRICS perturbam imensamente Washington – e sua Think-Tank-elândia – porque são a corporificação do impulso concertado do Sul Global rumo a um mundo multipolar.

Podem-se apostar garrafas de champanhe crimeano que a resposta dos EUA a esse processo deve ser alguma espécie de guerra total de informação – não muito diferente, em espírito, do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)], elemento central da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, do Pentágono. Os BRICS são vistos como importante ameaça –, e conseguir contratorpedeá-los implica dominar toda a grade informacional.

Vladimir Davydov, diretor do Instituto de América Latina da Academia de Ciências da Rússia, acertou o olho do alvo quando observou que:

(...) a situação atual mostra que há tentativas para suprimir não só a Rússia, mas também os BRICS, dado que o papel global daquela associação só faz crescer.

A demonização da Rússia escalou rapidamente nos EUA, das sanções relacionadas à Ucrânia, para Putin o “novo Hitler” e a ressureição do bicho-papão bem testado ao longo da Guerra Fria, tipo “Os Russos estão chegando”.

Dilma Rousseff
No caso do Brasil a guerra de informação já começou antes da reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Assim como Wall Street e suas elites comprador locais faziam de tudo para bombardear o que definem como economia “estatista”, Dilma foi também pessoalmente demonizada.

Passos não inimagináveis para futuro próximo talvez incluam sanções contra a China, por causa de sua posição “agressiva” no Mar do Sul da China, ou Hong Kong, ou Tibet; sanções contra a Índia por causa do Kashmir; sanções contra o Brasil por causa de violações de direitos humanos ou excesso de desflorestamento. Seletos diplomatas indianos, lamentam, off the record, que o primeiro dos BRICS a ser afivelado sob pressão será a Índia.

Dado que os BRICS são tijolos realmente chaves na construção de um sistema global de relações internacionais e um sistema financeiro mais inclusivo – e não há outros no mercado – eles que, pelo menos, mantenham-se bem alertas. Se não, cada um deles será abatido, um depois do outro.

Georgy Toloraya, diretor executivo da Comissão Nacional Russa de Pesquisa sobre os BRICS, lembra que hoje, pelo menos, há “mais e mais comunicação acontecendo pelos canais BRICS.”

Os brasileiros, por exemplo, estão particularmente interessados em cooperação de investimentos. O Banco de Desenvolvimento dos BRICS será realidade já em 2015. E uma equipe russa está preparando relatório detalhado sobre perspectivas futuras para cooperação entre os BRICS, para ser discutido em Pequim, em profundidade, durante uma semana, enquanto acontece a reunião de cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico [orig., Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC].

Da guerra de energia à guerra da moeda

O novo choque do petróleo dos sauditas – que, no mínimo, recebeu luz verde do governo Obama – combina perfeitamente com o padrão “Conhecimento Total de Informação” (TIA), em termos de ofensiva contra os BRICS, com dois deles no papel de alvos chaves: Rússia e Brasil.

O preço do petróleo é a questão
Mais de 50% do orçamento da Rússia vem da venda de petróleo e gás. Cada redução de US$ 10 no preço do barril de petróleo significa que a Rússia deixa de receber coisa como US$ 14,6 bilhões por ano. Pode ser, de certo modo, compensado pela desvalorização do rublo – mais de 25% contra o dólar norte-americano, desde o início de 2014. E a Rússia, claro, ainda tem cerca de US$ 450 bilhões em reservas. Mesmo assim, a economia russa pode crescer só de0,5 a 2% em 2015.

Com a redução de US$ 1 nos preços do petróleo cru, a maior empresa brasileira, Petrobras, perde mais de US$ 900 milhões. Aos preços atuais do petróleo, a Petrobras estará perdendo em torno de US$ 14 bilhões por ano. A queda dos preços portanto mina a expansão de longo prazo da Petrobrás para financiar novos projetos de infraestrutura e de exploração conectados aos seus valiosos depósitos de petróleo do pré-sal. A Petrobras foi alvo preferencial para a demonização de Rousseff.

O Irã não é membro dos BRICS, mas partilha o impulso do grupo com vistas a um mundo multipolar. Para equilibrar o próprio orçamento, o Irã precisa de petróleo a US$ 136 o barril. Um acordo nuclear a ser firmado com o P5+1 em três semanas, dia 24/11/2014, pode levar a um alívio nas sanções – pelo menos as vindas da Europa – e permitir que o Irã melhore suas exportações de petróleo. Mas em Teerã não há ilusões sobre o quanto a manipulação dos preços foi cerebrada para desestabilizar ainda mais a economia iraniana e minar sua posição nas negociações nucleares.

 Acordo nuclear Irã e P5+1
No front econômico, a doutrina do “Conhecimento Total de Informação” [orig. Total Information Awareness (TIA)] manifesta-se em o Fed pôr fim ao quantitative easingQE [injeção de dólares recém impressos na economia, lit. “facilitação quantitativa” ou “alívio quantitativo”]: significa que o dólar dos EUA continuará a subir e mais dólares dos EUA deixarão os mercados emergentes. A rede chinesa Xinhua expôs e discutiu seriamente essa questão.

O dólar norte-americano e o Yuan estão efetivamente ligados. Quando o dólar norte-americano sobe, o Yuan também sobe. Mas é a economia chinesa que sofre. O que preocupa Pequim é que é possível que a manufatura chinesa torne-se excessivamente cara, em muitíssimos países nos quais as margens de lucro já são muito estreitas.

Portanto, o que com certeza acontecerá é o Banco Central da China determinar uma queda controlada do Yuan – e ao mesmo tempo desenvolver mecanismos para combater a saída de dinheiro quente, sobretudo para Hong Kong.

A China pode até ser relativamente imune ao fim do QE. Mas todos na Ásia lembram ainda muito bem da crise financeira de 1997, que respingou na Rússia em 1998. Os únicos beneficiados então foram – e quem seria?! – os interesses privados norte-americanos e a hegemonia de Washington.

O centro não se mantém coeso [orig. The center cannot hold]

A demonização dos BRICS, em graus diferentes, prossegue sem parar – com o foco central na Rússia, a qual, por falar dela, iniciará a IIIª Guerra Mundial. Por quê? Porque os EUA dizem que sim.

A adesão de outros países do Sul-Global fortalece os BRICS
A mais recente ação envolve o Serviço de Inteligência da Defesa Dinamarquesa [orig. Danish Defense Intelligence Service (DDIS)], que noticiou, semana passada que a Rússia simulara um ataque com jatos e mísseis sobre a ilha de Bornholm em junho/2014.

DDIS não distribuiu qualquer detalhe concreto sobre o ataque simulado. Mas enfatizou que foi o maior exercício militar russo sobre o Mar Báltico desce 1991. DDIS distribuiu um documento “Avaliação de Risco 2014” [orig. Risk Assessment 2014], no qual prevê que:

(...) ao longo dos próximos poucos anos, a situação no leste da Ucrânia tem alta probabilidade de converter-se em novo conflito europeu frio.

Mas os dinamarqueses foram muito claros:

Não há indicações de que a Rússia constitua crescente ameaça militar direta ao território dinamarquês.

Immanuel Wallerstein
Nada disso impediu que os chefes militares norte-americanos de sempre se pusessem a repetir que a Rússia se prepara para iniciar a IIIª Guerra Mundial.

Não há absolutamente nenhuma prova de que Washington esteja preparada sequer para discutir a possibilidade de modificar o atual sistema-mundo, como teorizado por Immanuel Wallerstein, na busca por gestão mais democrática. A próxima reunião do G20 na Austrália, mais uma vez, deixará isso bem claro.

O que se vê, portanto, é o sistema, cada dia mais fragmentado, deslizando inexoravelmente rumo a um catastrófico ponto de ruptura.  O “Conhecimento Total de Informação” [orig.Total Information Awareness (TIA)] e suas reviravoltas e circunvoluções não passam de “estratégia” desesperada para adiar uma decadência inevitável.

No fim, Wallerstein estava certo. O mundo do pós-Guerra Fria está condenado a permanecer imensamente volátil.

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Império Anglo-Sionista está em guerra contra a Rússia (Parte 2 de 2)

27/9/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker e Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Continuação de: 29/9/2014, redecastorphoto em: O império anglo-sionista está em guerra contra a Rússia (Parte 1 de 2)

The Saker
A Novorússia está perdida para o resto da Ucrânia. Para sempreNem algum esforço conjunto Putin-Obama poderia impedir que assim seja. De fato, os Ukies sabem disso e essa é a razão pela qual nem se esforçam para conquistar corações e mentes da população local. De fato, estou convencido que a chamada destruição “randômica” ou “ao acaso” da infraestrutura industrial, econômica, científica e cultural da Novorússia foi ato intencional de vingança de ódio, semelhante ao que fazem os anglo-sionistas, que sempre se põem a matar civis quando não conseguem impor-se por meios militares (exemplos disso são a Iugoslávia e o Líbano).

Claro que Moscou talvez possa forçar líderes políticos novorussos a assinar alguma espécie de documento pelo qual aceitem a soberania de Kiev, mas será pura ficção e já é muito, muito tarde para tentar isso. Seja de jure seja de facto, a Novorússia jamais voltará a aceitar ser governada por Kiev, e todo mundo sabe disso, em Kiev, na Novorússia e na Rússia.

Que ares teria uma independência de facto, mas não de jure?

Nenhuma força militar, nem guarda nacional, batalhão de oligarcas ou SBU ucranianos; total independência cultural, religiosa, linguística e educacional; funcionários eleitos localmente e mídia local; só que tudo isso com bandeiras Ukies; nenhum status de independência oficial, nada de Forças Armadas Novorussas (serão chamadas de alguma coisa como “força regional de segurança” ou, até, “força policial"); e nada de moeda novorussa (embora o rublo, assim como o dólar e o euro, seja usado diariamente). Os altos oficiais teriam de ser aprovados oficialmente por Kiev (o que Kiev sempre faria, para não deixar ver a própria impotência). Assim seria um arranjo temporário, transicional e instável de independência de facto mas não de jure, mas suficiente para garantir a Kiev uma saída sem desonra.

Isso posto, raciocino sobre a ideia de que ambas, Kiev e Moscou, têm interesse em manter a ficção de uma Ucrânia unitária. Para Kiev, é um modo de não aparecer completamente derrotada pelos amaldiçoados Moskals. Mas e quanto à Rússia?

E se você estivesse no lugar de Putin?

Faça a você mesmo a seguinte pergunta: se você fosse Putin e seu objetivo fosse conseguir mudança de regime em Kiev, você preferia que a Novorússia fosse parte da Ucrânia ou não? Minha hipótese é que manter a Novorússia dentro da Ucrânia é muito melhor, pelas seguintes razões:

  1. Ela faz parte, ainda que num nível macro, do processo ucraniano, como eleições nacionais e imprensa-empresa nacional.
  2. Força a comparação com as condições no resto da Ucrânia.
  3. Torna muito mais fácil influenciar o comércio, os negócios, os transportes, etc..
  4. Cria um centro político alternativo (livre de nazistas), a Kiev.
  5. Torna mais fácil para os interesses russos (de todos os tipos) penetrar na Ucrânia.
  6. Remove a possibilidade de criar-se um “muro” tipo Guerra Fria ou outro tipo de barreira ou marcador geográfico.
  7. Remove a acusação de que a Rússia desejaria dividir a Ucrânia.

Mapa da Novorússia - WPost, EUA (ago/2014)
Em outras palavras, manter a Novorússia só nominalmente, de jure, como parte da Ucrânia é a melhor maneira de parecer que aceita as demandas anglo-sionistas, ao mesmo tempo em que continua a subverter o governo da Junta nazista que está no poder. Em artigo recente, mostrei em traços gerais o que a Rússia pode fazer sem incorrer em grandes consequências:

  1. Opor-se politicamente ao regime em todas as frentes possíveis: ONU, imprensa, opinião pública, etc.
  2. Manifestar apoio político à Novorússia e a qualquer oposição ucraniana.
  3. Manter a guerra de informação (a imprensa-empresa russa faz belo serviço).l
  4. Impedir que a Novorússia caia (ajuda militar clandestina).
  5. Manter, sem aliviar, a pressão econômica sobre a Ucrânia.
  6. Quebrar, em todos os pontos possíveis, o “arco de gentilezas” entre EUA e União Europeia.
  7. Ajudar a Crimeia e a Novorússia a prosperar economicamente e financeiramente.

Em outras palavras – dar a impressão de estar fora, ao mesmo tempo em que se mantém muito muito dentro.

Seja como for, que alternativa existe?

Já quase posso ouvir o coro dos “oba-patriotas” indignados (é como esse pessoal é chamado na Rússia), a me acusarem de só ver a Novorússia como ferramenta para os objetivos políticos russos, e de ignorar as mortes e o sofrimento pelos quais passa o povo da Novorússia. A isso, só posso responder o seguinte:

  1. Alguém por acaso crê, com seriedade, que uma Novorrússia independente possa viver em paz e segurança, por mínimas que sejam, se não houver mudança de regime em Kiev?
  2. Se a Rússia não pode aguentar uma junta nazista no poder em Kiev, como a Novorússia aguentaria?!

Em geral, os oba-patriotas sonham com o que “poderia” ser feito agora e passam longe de qualquer visão de médio e longo prazo. Assim como os que creem que se poderia salvar a Síria mandando para lá a Força Aérea Russa, os oba-patriotas creem que a crise na Ucrânia poderia ser resolvida mandando-se tanques para lá. São perfeito exemplo do que H. L. Mencken tinha em mente quando escreveu que “para cada problema complexo sempre há uma resposta clara, simples e errada”. 

A triste realidade é que o tipo de pensamento que jaz por trás dessas soluções “simples” é sempre o mesmo: não negocie, não ceda, não conceda, não considere o longo prazo, só e sempre o futuro mais imediato; e em todos os casos use a força.

Bases Aéreas dos EUA-OTAN na Europa
Mas fatos são fatos: o bloco EUA/OTAN é poderoso militarmente, economicamente e politicamente e pode ferir muito gravemente a Rússia, especialmente no longo prazo. Além disso, por mais que a Rússia possa derrotar facilmente os militares ucranianos, dificilmente essa seria “vitória” significativa. Externamente, dispararia massiva deterioração no clima político internacional; e internamente os russos teriam de suprimir pela força os nacionalistas ucranianos (e nem todos eles são nazistas). A Rússia pode fazer isso? Mais uma vez, a resposta é “sim, mas... a que preço?”.

Um dos meus bons amigos foi coronel na unidade das Forças Especiais da KGB chamada “Kaskad” (que, adiante, foi rebatizada como “Vympel”). Um dia ele me contou como o pai dele, que fora operador especial da GRU, combateu contra insurgentes ucranianos, desde o final da IIª Guerra Mundial em 1945, até 1958: quer dizer, durante 13 anos! Stálin e Krushchev precisaram de 13 anos para, afinal, conseguir esmagar os insurgentes nacionalistas ucranianos. Alguém aí, no pleno uso das próprias faculdades mentais, acredita sinceramente que a Rússia moderna poderia repetir aquelas políticas e consumir anos e anos caçando novamente insurgentes ucranianos?

Além do mais, nacionalistas ucranianos conseguiram combater o poder soviético comandado por Stálin e Krushchev durante 13 anos inteiros e depois do final da guerra –, sim, mas não se vê hoje qualquer resistência antinazista em Zaporozhie, Dnepropetrivsk ou Carcóvia. Sim, Luganks e Donetsk levantaram-se e pegaram em armas com grande sucesso, sim, mas, e quanto ao resto da Ucrânia? Se você fosse Putin, você confiaria que forças russas que entrassem como libertadoras nessas cidades fossem recebidas com as mesmas festas que se viram na Crimeia?

Pois mesmo assim os oba-patriotas continuam a clamar por mais intervenção russa e mais operações militares russas contra forças Ukies. Não será já mais que hora de começarmos a perguntar quem se beneficiaria desse tipo de políticas?

Já se sabe do velho truque da CIA-EUA de usar as mídias sociais e a blogosfera, para promover o extremismo nacionalista na Rússia. Maksim Shevchenko, patriota russo e jornalista conhecido e respeitado, mantinha um grupo organizado exclusivamente para rastrear os números de IP de algumas das organizações nacionalistas radicais mais influentes, seus websites, blogs e postados individuais na Internet russa. Assim se descobriu que a maioria daquelas organizações tinham base nos EUA, no Canadá e em Israel.  Surpresa, surpresa. Ou, talvez, surpresa-zero?

Bases militares múltiplas da OTAN na Europa
Para os anglo-sionistas, faz perfeito sentido apoiarem extremistas e nacionalistas doidos-furiosos na Rússia. Ou esses grupos podem ser usados para influenciar a opinião pública ou, no mínimo, podem ser usados para minar o regime que esteja no poder. Pessoalmente, não vejo diferença alguma entre um Udaltsov ou um Navalnii por um lado, e um Limonov ou um Dugin por outro. O único efeito do que esse pessoal faz é enfurecer gente no Kremlin. O pretexto para enfurecer o pessoal do Kremlin não faz diferença – para Navalnyi é a conversa de “eleições roubadas”; para Dugin é “apunhalaram a Novorússia pelas costas”. E não importa se uns ou outros são realmente agentes pagos ou só “idiotas úteis” (Deus os julgará). O que realmente importa é que as soluções que eles pregam absolutamente não são soluções; são sempre, só, pretextos “certinhos” para atacar o regime que esteja no poder.

Entrementes, não apenas Putin não traiu nem vendeu nem entregou nem apunhalou coisa alguma nem abandonou a Novorússia; é Poroshenko que mal se segura na presidência, e é o Banderastão que se liquefaz e desce pelo ralo. Há também muita gente que, sim, consegue ver com clareza através dessa espessa cortina de nonsense, seja na Rússia (Yuri Baranchik) seja fora de lá (M. K. Bhadrakumar).

Mas e quanto aos oligarcas?

Já escrevi sobre essa questão recentemente, mas acho que é importante voltar a ela, porque a primeira coisa que se tem de compreender para compreender o contexto russo ou ucraniano é que oligarcas são uma realidade da vida. Não implica dizer que a existência deles seja boa coisa; só que Putin e Poroshenko e, quanto a isso, qualquer um que queira fazer qualquer coisa por lá tem de levar em consideração os oligarcas. A grande diferença é que, enquanto em Kiev um regime controlado pelos oligarcas foi substituído por um governo dos oligarcas, na Rússia a oligarquia só pode influenciar, não controlar, o Kremlin. Os exemplos de Khodorkovsky ou Evtushenkov mostram que o Kremlin ainda pode derrubar um ou outro oligarca, quando necessário; e derruba.

Mesmo assim, uma coisa é pegar um ou dois oligarcas; outra, muito diferente é remover os oligarcas da equação ucraniana: os oligarcas lá ficarão. Para Putin, pois, qualquer estratégia ucraniana tem de levar em consideração a presença e, francamente, o poder dos oligarcas ucranianos e de seus contrapartes russos.

Putin sabe que os oligarcas só são sinceramente fieis a eles mesmos, e que “meu país”, para eles, é onde estejam as propriedades deles. Como especialista da KGB que trabalhou exatamente com a inteligência externa, essa verdade é absolutamente óbvia para Putin; e a mentalidade dos oligarcas os torna, assim, manipuláveis. Qualquer agente de inteligência sabe que as pessoas podem ser manipuladas por uma lista finita de abordagens: ideologia, ego, ressentimento, sexo, um esqueleto no armário e, claro, dinheiro. Do ponto de vista de Putin, Rinat Akhmetov, por exemplo, é sujeito que emprega coisa como 200 mil pessoas no Donbass; que pode, é claro, fazer o que decida fazer; e cuja lealdade oficial a Kiev e à Ucrânia é só a camuflagem para ocultar sua única lealdade real: ao próprio dinheiro. Claro que Putin não precisa gostar dele ou respeitar Akhmetov (em geral, especialistas em inteligência sempre desprezam esse tipo de gente). Mas isso significa também que, para Putin, Akhmetov é pessoa crucialmente importante, com a qual conversar, explorar e, sendo possível, usar para alcançar o objetivo nacional estratégico russo no Donbass.

Rinat Akhmetov, oligarca baseado no Donbass
Já escrevi muitas vezes: os russos conversam com os inimigos. Com um sorriso no rosto. E vale ainda muito mais para especialista em inteligência externa treinado para mostrar-se comunicativo, compreensivo, acolhedor. Para Putin, Akhmetov não é amigo nem aliado, mas é figura de poder a ser manipulada a favor da Rússia. O que estou querendo explicar é, em outras palavras, o seguinte:

Há muitos rumores sobre negociações secretas entre Rinat Akhmetov e funcionários russos. Alguns dizem que Khodakovski estaria envolvido. Outros falam de Surkov. Não tenho dúvida alguma de que estão acontecendo negociações secretas. De fato, estou convencido de que todos os lados e partes estão conversando com todos os outros lados e partes. Até uma criatura repugnante, do mal, vil, como Kolomoiski. O sinal de que alguém finalmente decida tirá-lo de cena acontecerá precisamente quando ninguém mais conversar com ele. Acontecerá, provavelmente, com o tempo, mas não acontecerá antes de a base de poder em que ele se apoia ser suficientemente erodida.

Um blogueiro russo acredita que Akhmetov já teria sido “persuadido” (leia-se: subornado) por Putin e já estaria disposto a jogar por regras novas segundo as quais “quem manda é Putin”. É possível. Talvez ainda não, mas aconteça em breve. Talvez jamais aconteça. Só quero dizer é que negociações entre o Kremlin e os oligarcas Ukies locais são tão lógicas e inevitáveis quanto os contatos entre EUA e a Máfia italiana, antes de as Forças Armadas dos EUA entrarem na Itália.

Mas... há uma 5ª coluna na Rússia?

Há. Não há dúvida alguma: há. Primeiro e sobretudo, está ativa dentro do próprio governo de Medvedev e até mesmo dentro da administração presidencial. Não se pode esquecer que Putin foi posto no poder por duas forças que competiam entre elas: os serviços secretos e o big money. E sim, sim, por mais que seja verdade que Putin enfraqueceu tremendamente o componente “big money” (que chamo de “os Integracionistas Atlanticistas”), o big Money continua muito ativo, embora hoje mais contido, mais cuidadoso, menos arrogante que no tempo em que Medvedev estava formalmente no poder.

Medvedev e Putin assistem TV (Sochi - Jan/2014)
A grande modificação nos anos recentes é que a luta entre os patriotas (os “Soberanistas Eurasianos”) e a 5ª coluna hoje acontece em terreno aberto; mas está longe de acabar. E absolutamente não se pode nunca subestimar essa gente: eles têm muito poder, têm muito dinheiro e uma capacidade fantástica para corromper, ameaçar, desacreditar, sabotar, ocultar, disfarçar, confundir, etc.. São espertos, sabem encontrar os melhores profissionais em cada campo, e são muito, muito, muito bons, nas campanhas políticas mais imundas.

Por exemplo, os quinta-colunistas tentam furiosamente dar voz à oposição Nacional-Bolchevique (os dois, Limonov e Dugin são presenças regulares na televisão russa) e dizem os boatos que eles financiam também grande parte da imprensa-empresa Nacional Bolchevique (exatamente como os irmãos Koch pagaram para constituir o movimento “Tea Party” nos EUA).

Outro problema é que, por mais que se saiba que esses sujeitos estão objetivamente apostando seu dinheiro nas cartas da CIA, não há provas. Como me disse várias vezes um amigo espertíssimo: a maior parte das conspirações são colusões, e esse tipo de “acerto” entre dois contra terceiro é muito difícil de provar. Mas a comunidade de interesses entre a CIA-EUA e a oligarquia russa e ucraniana é tão óbvia que pode ser considerada inegável.

O real perigo para a Rússia

Agora, afinal, temos o quadro completo. Mais uma vez, Putin tem de enfrentar simultaneamente:

1) uma campanha estratégica de guerra psicológica conduzida por EUA/UK & Co., que combina a demonização de Putin pela imprensa-empresa comercial, e uma campanha pelas mídias sociais para desacreditá-lo pela passividade e ausência de ‘'resposta forte'’ ao ocidente.

2) Um grupo pequeno, mas muito vociferante de (quase todos eles) Nacional-Bolcheviques (Limonov, Dugin & Co.) que encontraram na causa novorussa uma oportunidade perfeita para atacar Putin por não partilhar a ideologia deles e implementar as ‘'soluções'’ deles, todas elas “claras, simples e erradas”.

3) Uma rede de oligarcas poderosos que querem usar a oportunidade apresentada pelas ações dos grupos (1) e (2) acima, para promover seus próprios interesses.

4) Uma 5ª coluna para cujos ativistas, todos os grupos anteriores geraram uma fantástica oportunidade para enfraquecer os Soberanistas Eurasianos.

5) Um senso de desapontamento, em muitos russos que sentem sinceramente que a Rússia está-se deixando tratar passivamente como saco-de-pancadas.

6) Uma grande, ampla maioria de pessoas na Novorússia que quer ser completamente independente (de facto e de jure) de Kiev e que estão sinceramente convencidas de que qualquer negociação com Kiev será prelúdio de traição, pela Rússia, dos interesses da Novorússia.

7) A realidade objetiva de que os interesses da Rússia e da Novorússia não são os mesmos.

8) A realidade objetiva de que o Império Anglo-Sionista é ainda muito poderoso e potencialmente perigoso.

Vladimir Putin no Kremlin
É muito, muito difícil para Putin tentar equilibrar todas essas forças de tal modo que o vetor resultante seja favorável ao interesse estratégico da Rússia.

Minha ideia, que defendo aqui, é que simplesmente só há uma solução para essa charada: separar completamente a política oficial declaratória da Rússia e as ações reais da Rússia.

A ajuda clandestina à Novorússia – o Voentorg – é exemplo disso, mas exemplo limitado, porque o que a Rússia terá de fazer vai além de operações clandestinas. A Rússia terá de parecer que faz uma coisa quando, na verdade, estará fazendo exatamente o contrário.

Nesse momento, é do interesse estratégico da Rússia parecer que:

1) apoia uma solução negociada nas seguintes linhas: uma Ucrânia unitária não alinhada com amplo direito regional a todas as regiões – e, simultaneamente, opor-se politicamente ao regime em todas as frentes, na ONU, na imprensa, na opinião pública, etc. e apoiar os dois lados, a Novorrússia e qualquer oposição ucraniana.

2) Dar aos oligarcas russos e ucranianos uma razão para, se não apoiarem, pelo menos não se oporem à solução acima (por ex.: não estatizar as propriedades de Akhmetov no Donbass) – e, simultaneamente, garantir que conserva suficiente “poder de fogo” para manter os oligarcas sob controle.

3) Negociar com a União Europeia a real implementação do Acordo da Ucrânia com a UE – e, simultaneamente ajudar a Ucrânia a suicidar-se, cuidando para que não falte suficiente poder de estrangulamento econômico, a ser usado para impedir que o regime imploda.

4) Negociar com a União Europeia e a Junta em Kiev a entrega de gás – e, simultaneamente garantir que o regime ucraniano seja obrigado a pagar sempre, até quebrar.

5) Mostrar-se em posição não confrontacional ante os EUA – e, simultaneamente tentar criar a maior quantidade possível de tensões entre EUA e União Europeia.

6) Parecer disponível para tudo e disposta a fazer negócios com o Império Anglo-Sionista – e, simultaneamente, construir um sistema internacional alternativo não centrado nos EUA ou no dólar.

Como se pode ver, é bem mais que programa normal de ação clandestina.

Desdolarização da Economia internacional
Aqui se está lidando com um programa complexíssimo, de várias camadas, programa para alcançar o mais importante objetivo russo na Ucrânia (mudança de regime e des-nazificação), ao mesmo tempo em que se inibem o mais possível as tentativas, pelos anglo-sionistas, para recriar uma crise severa e duradoura entre Oriente e Ocidente, na qual a União Europeia, basicamente, se fundirá com os EUA.

Conclusão: uma chave para políticas russas?

A maioria de nós está habituado a pensar em termos de categorias de super potências. Afinal, o presidente dos EUA, de Reagan até Obama, meteram-nos goela abaixo dieta pesada de declarações altissonantes quase sempre operações militares seguidas por “informes” do Pentágono, ameaças, sanções, boicotes, etc.. Minha ideia é essa sempre foi a marca registrada da “diplomacia” ocidental desde as Cruzadas até a campanha de bombardeio em curso hoje contra o ISIS/ISIL.

Rússia e China têm tradição diametralmente oposta a essa. Por exemplo, em termos de metodologia, Lavrov sempre repete o mesmo princípio:

(...) “queremos fazer de nossos inimigos, agentes neutros; dos neutros, parceiros; e dos parceiros, amigos”.

A função dos diplomatas russos não é preparar guerras e mais guerras, mas evitá-las. Sim, a Rússia combaterá, mas só depois de a diplomacia ter falhado completamente. Se, para os EUA a diplomacia não passa de instrumento para distribuir ameaças, para a Rússia é o principal instrumento para esvaziar qualquer ameaça.

Não surpreende pois que a diplomacia dos EUA seja primitiva a ponto de ser quase cômica. Afinal, quem precisa de sofisticação e inteligência para dizer “aceite ou explodimos você”?! Qualquer punguista de beco sabe fazer isso. Os diplomatas russos são muito mais parecidos com especialistas em descartar explosivos e localizar minas enterradas: têm de ser pacientes, muito cuidadosos e completamente focados. Mas, mais importante, não podem permitir que alguém os tire do jogo, para evitar que a coisa toda voe pelos ares.

A Rússia está completa e absolutamente ciente de que o Império Anglo-Sionista está em guerra contra ela e que já não há, para a Rússia, supondo que algum dia tenha havido, a opção de render-se. A Rússia também compreende que não é superpotência real nem, e ainda menos, um império. A Rússia é apenas um país muito poderoso que está tentando extrair os caninos mais mortíferos do Império, sem disparar guerra frontal contra ele. Na Ucrânia, a Rússia não vê solução que não seja mudança de regime em Kiev. Para alcançar esse objetivo, a Rússia sempre preferirá uma solução negociada a solução obtida pela força, mesmo que venha a usar a força, se não lhe deixarem nenhuma outra solução. Em outras palavras:

1) A meta de longo prazo da Rússia é pôr abaixo o Império Anglo-Sionista.
2) A meta de médio prazo da Rússia é criar condições para mudança de regime em Kiev.
3) A meta de curto prazo da Rússia é impedir que a Junta tome posse da Novorússia.

O método preferido da Rússia para alcançar esses objetivos é negociar com todas as partes envolvidas. Um pré-requisito para alcançar esses objetivos é impedir que o Império seja bem-sucedido na tentativa de criar aguda crise continental (na via inversa, o “estado profundo” do Império compreende perfeitamente tudo isso; daí ter havido duas declarações de guerra: uma, por Obama; a outra por Poroshenko).

Barack Obama e Petro Poroshenko (jun/2014)
Desde que vocês mantenham em mente esses princípios básicos, o que parece ser zigue-zagues, contradições e passividade nas políticas da Rússia, começarão a fazer sentido.

Claro que permanece aberta a questão de se a Rússia alcançará seus objetivos. Em teoria, uma ataque bem-sucedido da Junta contra a Novorússia poderia forçar a Rússia a intervir. Assim também, sempre há a possibilidade de outro “ataque sob falsa bandeira”, possivelmente, ataque nuclear. Creio que a política russa é sólida e a melhor realistamente realizável nas atuais circunstâncias, mas só o tempo dirá.

Lamento que tenha precisado de mais de 6.400 palavras para explicar isso, mas em sociedade na qual a maioria dos “pensamentos” são expressos em pios [orig. tweets], e as análises, em postados no Facebook, não é tarefa fácil lançar alguma luz sobre o que já se vai convertendo num dilúvio de mal-entendidos e mal-explicados, tudo piorado, sempre, pela manipulação das mídias sociais. Sinto que 60 mil palavras ainda explicariam melhor, porque inventar slogans é fácil; difícil é refutar racionalmente os pressupostos e implicações dos slogans.

Minha esperança é que pelo menos aqueles dentre vocês que estivessem sinceramente confusos ante a posição aparentemente ilógica da Rússia tenham agora como ligar os pontos e alcançar o sentido geral de tudo isso.

Cordiais saudações a todos.

The Saker