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sábado, 9 de maio de 2015

Império Anglo–Sionista e Rússia, em rota de colisão

6/5/2015, The Saker, The Vineyard of the Saker
More signs of preparations for war?
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


 
The Saker
Como muitos de vocês já sabem, a Marinha Chinesa enviou dois navios de guerra para o Mar Negro. Estão a caminho da base naval russa em Novorossiysk. Várias versões circularam sobre as razões dessa movimentação:
 
●– os navios são parte dos preparativos para a visita de Xi Jinping, para as comemorações do 9 de maio; 
●– são parte de uma possível venda de fragatas chinesas à Rússia; 
●– são parte dos preparativos para exercícios conjuntos sino-russos no Mediterrâneo.
 
Todas me parecem plausíveis. Embora alguns tenham especulado que a compra de fragatas chinesas pela Rússia seria grave desfeita contra a indústria russa, discordo. Se um país prepara-se para guerra, a quantidade de equipamento de defesa é muito mais importante que a nacionalidade do fabricante. Além disso, sabe-se que o projeto das naves da Marinha Chinesa é baseado no projeto dos navios russos. Assim sendo, não é caso de “a Rússia não pode fazer tal coisa”, mas é, sim, caso de “os estaleiros russos estão operando em plena capacidade, e os chineses podem entregar encomendas imediatamente”. Como solução rápida, faz perfeito sentido comprar equipamento de um aliado, especialmente se o projeto desse equipamento é baseado no seu. 
 
Seja o caso qual for, a chegada desses navios da Marinha Chinesa é uma bofetada nos EUA e no resto da OTAN, que têm feito de tudo para mostrar o que chamam de “ação decisiva” no Mar Negro... Até que aparece a China e indica claramente que está com a Rússia. O fato de que russos e chineses estarão em manobras conjuntas no Mediterrâneo, que a OTAN sempre considerou como mare nostrum, é afronta ainda maior ao aspirante a hegemon global eterno. 
 
Enquanto isso, vejam a seguir o vídeo que acabo de receber de um amigo.


Quando vi esse vídeo, pensei ‘é o exato tipo de “vídeo de mobilização” que um país produz quando se “prepara para a guerra”. Não há nada de errado com o patriotismo, desde que não degenere em nacionalismo, mas a repetição, feito mantra, de “Rússia! Rússia! Rússia! Rússia!” faz-me sentir muito desconfortável, porque ou visa a provocar “sentimentos de mobilização” ou, ainda pior, visa a aproveitar o estado já “mobilizado” da população.

Não estou dizendo que a Rússia está pronta para atacar alguém. O que estou dizendo é que há numerosos sinais de que a Rússia está agindo como país que se prepara para guerra. Tampouco estou criticando a Rússia por estar-se preparando para a guerra.

Estou apenas triste (e assustado) pelo fato de a Rússia sentir que tenha de preparar-se para guerra.

Para encerrar, acho ao mesmo tempo assustador e desanimador que a opinião pública no ocidente em geral seja mantida na mais nebulosa ignorância do fato de que, como está acontecendo nesse exato instante, o Império Anglo-Sionista e a Rússia estão em rota de colisão. Como poderia alguém se opor a algo que não sabe que está acontecendo?

Essa é a razão pela qual continuarei a soar o alarme, na esperança de que essa “barreira de silêncio” possa ser derrubada, antes que seja tarde demais.


The Saker

domingo, 28 de dezembro de 2014

Roy Chaderton: “O quintal dos EUA já não é a América Latina; é a Europa”

20/12/2014, Saker-LatinoamericaRoy Chaderton ‒ Embaixador venezuelano na OEA, Organização dos Estados Americanos é entrevistado por Bruno Sgarzini
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Saker Latinoamerica


Essa é outra história que tem a ver com  “alisar” a praia, antes da invasão: o homem (...) começa a ganhar bem, casa-se, tem um filho e compra um cachorro, é convidado para fazer uma conferência em Harvard; e é ali que o homem acaba de ser “alisado”, de vez: porque deixa de ver o império como império, apanhado na rede dessas formas não violentas de cooptação. É o que aconteceu a alguém como [Fernando] Henrique Cardoso, que se uniu aos comícios antichavistas.

Nada mais fácil que se pôr a “denunciar” e ameaçar deixar o governo cada vez que as coisas ficam difíceis.

 Criticar não é coisa que se possa fazer levianamente, para livrar a própria cara, cada vez que surge um problema.

A crítica deve ser manejada como arma.

A crítica revolucionária não é muleta para fazer andar moralistas reacionários.


Roy Chaderton
O embaixador venezuelano na Organização dos Estados Americanos - OEA, Roy Chaderton, ajudanos a apartar do liberalismo dominante e a desconstruir a narrativa com a qual o anglo-sionismo construiu sua dominação global e deseja perpetuá-la.

Segundo essas novas coordenadas, Chaderton reconstrói o relato a partir de sua experiência como chanceler e diplomata de carreira na Grã-Bretanha, França e Estados Unidos, dentre outros países. O que se segue é uma entrevista que é preciso ler.

PERGUNTA: Na atualidade há grande disputa por energia, dentro, inclusive, das rotas planejadas para o transporte da mesma energia, enquanto a China edifica as Novas Rotas da Seda que a podem levar a ser uma das principais potências do mundo, em meio à eclosão de uma nova ordem multipolar – como Chávez anteviu. Qual sua visão nesse contexto de luta para criar essa nova ordem, com os EUA que tentam impedir que seja criada promovendo conflitos cada vez mais intensos e mais difíceis de explicar?

Roy Chaderton, embaixador da Venezuela na OEA: Lembro, de quando era embaixador em Londres, de uma visita oficial ao Secretario de Relações Exteriores da Grã-Bretanha. Ele disse que as próximas guerras seriam por energia e pela água. E se há recursos que nos sobram nesse continente e na Venezuela são exatamente esses, tão importantes para o desenvolvimento da humanidade e das nações. Como razões para mais guerras, energia e água estão sempre presentes, sejam grandes guerras, miniguerras, guerras ocultas e subterrâneas e no reaparecimento de formas racistas e de opressão, as quais, inclusive, se veem nos próprios EUA, onde a tragédia do racismo continua. E pode-se ver que persiste lá uma estrutura social totalmente racista, apesar das aparentes formas de igualdade e acesso equitativo a posições sociais.

Nesse contexto, também se vê a exacerbação do poder econômico e o crescimento desmedido da ditadura dos veículos da imprensa-empresa de massas. Talvez valha a pena relembrar que a guerra “midiática” não começou em Roma nem na Grécia, nem com as revoluções panfletárias, mas começou, simplesmente, em 1887 – ano em que a empresa “midiática” Hearst enviou um correspondente a Cuba, para que desenhasse in loco imagens da guerra de independência.

Aconteceu que quando o artista chegou a Havana, viu que não havia o que desenhar, e pediu autorização para voltar aos EUA, porque estava sem ter o que fazer em Cuba, porque não havia guerra alguma a desenhar. William Hearst, patrão do “jornalista”, respondeu: “Desenhe as imagens, que eu desenho a guerra”.

A partir disso gerou-se uma campanha “jornalística” feroz contra a Espanha, até que, um ano depois, estava ancorado em Havana, não se sabe por quê, um encouraçado dos EUA, chamado “Maine”. Esse navio foi o pretexto para que os EUA entrassem em guerra contra a Espanha, atacassem a Espanha e começassem a intervir no processo de independência de Cuba.

A primeira grande operação-golpe clandestina

A guerra “midiática” de quarta geração continua, e que ninguém confie na “mídia”, porque por trás da “mídia” vem a guerra real, mesmo que por outros meios, e mesmo que as redes sociais tenham aplicado importantes derrotas às tais “mídias”.

Quase 38 anos depois daquele “evento”, foi realizado o filme Cidadão Kane, o qual, pela primeira vez, denunciava a imbricação entre os interesses da imprensa-empresa e das elites econômicas e políticas.

Claro que as guerras geradas pela “mídia” continuaram, apesar de algumas resistências individuais. Já nos anos 50s, o senador McCarthy, católico e bêbado, moveu campanha ensandecida contra todos e quaisquer que fossem acusados de alimentar simpatias ou militância comunista, socialista e marxista, e atacou muitos jornalistas. Na resistência contra McCarthy, destacou-se o jornalista Edward Murrow (...). E nos anos 60 e 70, em plena guerra do Vietnã, destacou-se o jornalista Walter Cronkite, da CBS, o primeiro a informar o que realmente se passava lá.

(...)

Hoje em dia já são uma corporação militar industrial, financeira e “jornalística”, e esse é o poder que está enlouquecido e inventa guerras como a do Iraque, onde o governo dos EUA e a imprensa-empresa norte-americana levaram ONU e a comunidade internacional a atacar um país que não ameaçava a segurança dos EUA.

Exemplos como esses há milhares, e o que vemos hoje é uma unificação crescente dos veículos da imprensa-empresa de direita contra os movimentos sociais e os povos livres. Especialmente na Venezuela, que a imprensa-empresa apresenta como ditadura violadora dos direitos humanos, mesmo ante a evidência de que os EUA são os principais responsáveis por esses delitos no mundo e controlam as organizações que fazem as falsas denúncias.

O poder da imprensa-empresa combinado ao poder político já penetrou tudo. Antes, a América Latina produzia lutadores e lutadoras importantes, por exemplo, as Mães da Praça de Maio; agora, só se ouve falar de especialistas em “direitos humanos” que fazem uma defesa acomodatícia e oportunista de um legalismo esterilizado. Vez ou outra, até que se pode admitir que um ou outro caso das ditas “violações de direitos humanos” corresponda a casos politicamente significativos e relevantes, mas, em geral, a dita “defesa de direitos humanos” não passa de grande mentira que se harmoniza perfeitamente com a guerra mundial pela energia e pela água da qual falamos. Eles nos roubam água e petróleo. E tantos, por aí, a reivindicar vagos “direitos humanos”...

A “nação excepcional e indispensável” contra a América Latina (e o mundo)

É tão forte o ataque no plano continental, que é como se estivéssemos na defensiva. Na verdade, estamos, sim, em movimento de ofensiva: nossos países andam hoje muito melhor do que antes, com movimentos sociais e a esquerda em crescimento, com suas respectivas características e diferenças.

PERGUNTA: O senhor falou de uma imprensa-empresa, em confluência com o poder econômico e político e também com o poder militar. O senhor falou de vários fatos que estão acontecendo, recapitulou rapidamente o que os ultracapitalistas chamaram de “Fim da História”, com a ascensão dos EUA como ‘xerife mundial’ (o Iraque é o grande exemplo), e agora uma forte repressão contra os movimentos sociais e os países que defendem a própria soberania. Como essa ofensiva está articulada contra a América Latina?

Roy Chaderton, embaixador da Venezuela na OEA: O império mostra cada vez mais abertamente suas misérias. Penso, mesmo, que ruirá de dentro para fora, mas acho que não acontecerá durante minha vida. Por hora, estão caindo cascalhos da pedra do muro que protege o império e que, um dia, foram estruturas monolíticas indestrutíveis. Seja como for, a guerra “midiática” de 4ª geração continua, e não se pode relaxar porque, depois dela vem a guerra real, mesmo que por meios diferentes e mesmo que as redes sociais já tenham aplicado boas derrotas ao tal poder “midiático”.

Em termos militares, sempre fizeram o que fazem os Marines: primeiro, bombardeiam para “alisar” a praia; na sequência, chegam as tropas de invasão e ocupação. No caso da Venezuela, esse “alisamento” é feito pela imprensa-empresa; tem o objetivo de nos fazer sentir-nos mal, fracos, errados, viciosos, ignorantes. Fazer-nos crer que o país onde vivemos é o pior do mundo, o mais corrupto, o mais pervertido.

É tão forte o ataque no plano continental, que às vezes parece que estamos na defensiva, mas não. Nossos países estão hoje muito melhores do que antes, os movimentos sociais estão crescendo, a esquerda vai aos poucos se re-estruturando, com suas diferenças. E o povo responde ao que os governos progressistas lutam para assegurar.

Na Nicarágua, por exemplo, todos comem, e é hoje o país mais seguro do continente. Na Bolívia todos comem e os bolivianos têm dinheiro e distribuem uma prosperidade que antes nunca conheceram porque sempre lhes foi roubada, como acontecia também aqui na Venezuela. São coisas básicas. Antes de grandes sofisticações e complexíssimas aspirações nacionais ou individuais, é preciso garantir o básico. O direito mais básico, de todos, é o direito à vida. Para isso é preciso comer. A educação também é direito de todos. Sem ela, a vida é sempre miserável. De fato, hoje, em muitos países do continente está em curso uma revolução pacífica, porque se o estado oferece e garante educação e formação para o povo, estou transferindo instrumentos que as massas podem usar para defender-se e derrotar os bandidos.

Chávez sempre disse que não vivemos tempos de luta armada, mas tempos de confiar no povo e que o levante aconteça pelo voto popular. É claro que algo está acontecendo, porque se vê que os países do Caribe, que tiveram a formação conservadora dos britânicos, já estão apoiando a Venezuela e já não se deixam levar pelo cabresto pela OEA. Acontece quando a alma é mais forte que o medo e as ameaças, e há gente que não se encolhe e não baixa a cabeça em circunstâncias difíceis e nunca, em nenhuma circunstância, rouba ou se deixa corromper, por muito que esteja em jogo.

Mas estamos vivendo momentos de imenso perigo, porque o império está desesperado e seus aliados estão com medo.

O quintal dos EUA já não é a América Latina: é a Europa. E a OEA já não é o ministério das colônias dos EUA. Muita coisa mudou.

PERGUNTA: Recompor situações?

Os estados-nação estão sob ameaça e sob risco de serem fragamentados, como consequência do avanço do projeto daquele 1% cujo principal interesse é criar um Estado global, com sede nos EUA, e que haja grande massa de desempregados, efeito de uma nova fase no uso das tecnologias, o que gera ameaças e crises. Porque esse modelo de civilização carece de guerras e mais guerras e de intermináveis conflitos.

A ascensão dos movimentos populares tem a ver com isto, porque quando se ouve falar sobre fragmentação dos estados-nação a primeira ideia que ocorre é o caso da Iugoslávia, que era independente do poder dos EUA, onde conviviam nações de diferentes origens e culturas. E a Iugoslávia foi partida numa guerra estimulada pelos EUA contra a Sérvia, apoiada pela Croácia, que era estado semifascista, com católicos de extrema direita.

O que estamos vendo acontecer na Ucrânia é semelhante e assombroso, porque a OTAN e os EUA tentam obter o que nem Napoleão nem Hitler jamais conseguiram: cercar e sufocar a Rússia. E tentam fragmentar a Ucrânia.

Mas na América Latina não foi muito diferente. Vimos recentemente na Bolívia a “meia lua” separatista, imediatamente contida por uma reunião da UNASUL no Chile. Não há dúvidas de que esses movimentos separatistas são estimulados. Na Venezuela, são os grupos separatistas de Táchira e Zulia, que ficaram conhecidos por seu “Plano Balboa”.

O estado de Zulia, por exemplo, poderia ser autárquico, posto que tem energia, produz alimentos nas terras mais férteis da Venezuela e tem fronteiras internacionais e acesso ao mar. Em teoria, seria local ideal para provocar uma divisão de dentro para fora, gerando atritos entre países, criando condições para confrontos, até que a ONU e os EUA encontrem meios para intervir para “recompor” a situação.

Interessante é que, hoje, já se encontram focos não convencionais de resistência para os que temos visão de mundo de esquerda; e por todos os lados se veem nacionalistas de direita anti-norte-americanos. Há até alguns espaços de interesses comuns convergentes. Mas não há dúvidas de que o mais característico é que o império vive seu período de máxima paranoia. Se se considera o que me disse certa vez um embaixador gringo na Venezuela, que “todas as políticas são locais”, o significado disso tudo é que a política externa dos EUA já está sequestrada pelos cubanos da Florida, estado que garante total impunidade para terroristas e é “lar” da escória do continente.

PERGUNTA: O senhor falou das intenções separatistas em Zulia y Táchira, do abrandamento da cabeça de praia e da ofensiva contra os povos livres. Nesse contexto, qual a força do povo venezuelano, para derrotar a tentativa de restauração conservadora?

Roy Chaderton, embaixador da Venezuela na OEA: Os imensos progressos que se realizaram nos últimos anos. Os que antes não comiam, agora comem. Num país onde todos estão estudando e onde já não há analfabetos – o que até a ONU já reconheceu – quem antes nem chegava à escola primária hoje já está alfabetizado e já completou os estudos fundamentais; quem nem chegava à escola secundária, idem; quem jamais antes chegara à universidade, hoje está formado. Cada um desses venezuelanos converte-se em instrumento de defesa do sistema que lhe deu dignidade – e que começou com a chegada do chavismo ao governo da Venezuela.

Por isso se vê que estamos nas ruas defendendo nossa revolução, mas não a defendemos com machado e fuzil. Nós a defendemos com um exemplar da Constituição Bolivariana. É realmente espetáculo maravilhoso, independente do que tenhamos de fazer ainda pelas armas. Quem empunha a Constituição está aprendendo que seus direitos e sua dignidade não estão plenamente conquistados, que as pessoas apenas começaram a conhecer os próprios direitos e a própria dignidade com o processo venezuelano. São como um exército de reserva para a resistência.

Por outro lado, essas mesmas pessoas são o alvo selecionado para ser atacado pela ditadura “midiática”, da imprensa-empresa do império. Acho, sim, que é preciso chamar as coisas pelo nome: é uma ditadura. E os EUA não são democracia, não são “império democrático”: são uma plutocracia.

PERGUNTA: Sobre o quê, especificamente, o senhor está falando?

Estou dizendo que o que há em Washington é governo dos ricos. Abraham Lincoln falava da democracia como governo do povo, para o povo e pelo povo, e em certo sentido cumpriu. Mas o que há hoje é governo dos ricos e para os ricos. Só será senador se for milionário ou se tiver milionários que o apoiem. A imprensa-empresa é concentrada e foi silenciada, mas não pela censura oficial que conhecemos na América Latina e, sim, pela censura das grandes empresas “midiáticas”, que vendem lixo ao seu público consumidor, geram cada dia mais fanatismo religioso e mantêm seus consumidores isolados do que se passa no mundo.

Porque “informação” é só a que convenha aos EUA. Se Washington bombardeia e tortura em Faluja, Iraque, ninguém sabe disso nos EUA. Os EUA são país terrivelmente mal informado e sem cultura geral, com veículos de imprensa-empresa que existem para reproduzir e ensinar às multidões o que haja de mais banal, de mais baixo, de mais vil. Difícil imaginar algo mais repugnante que um reality show no qual é entrevistado um homem que engravidou a própria avó, ali em cena, ao lado dele, barriguda. E de repente os dois se põem a brigar, e entram em cena leões-de-chácara que apartam a briga.

Toda essa porcaria é inventada nos EUA. Daí também que os EUA sejam os maiores produtores mundiais de pornografia. Simultaneamente são puritanos e horrorizam-se quando o presidente dos EUA tem uma experiência de felação e é entrevistado exibindo uma lata de Coca-Cola. [1] Também é o país onde alguém pode perder cargo para o qual tenha sido eleito se for apanhado com outra mulher que não a própria esposa, como aconteceu ao governador da Carolina do Norte, quando se soube que mantinha “um caso” com uma argentina, e foi visitá-la no país dela, pensando que “ninguém descobriria”. Façam-me o favor! Nesses “critérios” moralistas misturam-se crueldade, maldade e o mais perfeito ridículo.

Os EUA são império que vai desaparecer. Ainda demora e eu, com certeza, não estarei vivo para ver.

PERGUNTA: Por que não verá?

Roy Chaderton, embaixador da Venezuela na OEA: Porque prevejo que não acontecerá no curto prazo. Tomara que eu esteja enganado. Mas a verdade é que derrubar o império não é empreitada simples. É império rico e armado. Além do mais, o complexo industrial-militar é hoje mais forte que nunca. No Vietnã, por exemplo, quem mais enriqueceu foi a empresa Halliburton, que fornecia tudo, de tanques de guerra a hambúrgueres. Tudo isso é sigiloso, tudo é protegido, todo o esforço acadêmico e intelectual dos EUA está dirigido para a guerra; os drones são produto das guerras. Agora, alguém sentado na Califórnia ou no Texas aperta um botão frente a uma tela de computador e mata à distância quem apareça ali, na sua “lista de matar”.

Tentativas de guerra civil e atentados divisionistas

Muita gente quebrou, inclusive pessoas do 4 de fevereiro. A palavra “lealdade” é muito importante.

PERGUNTA: Com a guerra de 4ª geração, estão tentando levar a Venezuela a um confronto civil, como na Síria, mas esse cenário foi desarticulado nas mais recentes tentativas de golpe. Como a Revolução Bolivariana articula sua liderança nesse contexto, quando a reação se mostra tão violentamente beligerante?

Roy Chaderton, embaixador da Venezuela na OEA: Há um dito que ensina que, para dançar um tango, é preciso que haja dois interessados em dançar. Também para uma guerra civil, é preciso que haja dois lados interessados. Já temos 15 anos de processo revolucionário na Venezuela e não houve guerra civil, porque, primeiro, tínhamos a sabedoria de Chávez, depois, a sabedoria de Maduro. Quando se vê o que houve em Altamira vê-se que havia um assalto planejado para desarticular os militares e aquilo estava sendo apresentado como se fosse alguma insurreição. Chávez deixou que a coisa se esvaziasse e em três meses já nada havia na “praça”.

Na Venezuela não temos cultura de guerra civil. Tivemos guerra civil, sim, na Guerra Federal e na Independência, guerras nas quais perdemos 1/3 da população. Passamos por situações difíceis, combates internos, golpes de Estado, processos de desestabilização, mas, por uma ou outra razão sempre se produziram processos de conciliação. Depois da guerra subversiva dos anos 1960s e 1970s, nos reconciliamos no processo de pacificação. Os guerrilheiros desceram da montanha, não mataram ninguém nem foram mortos e alguns deles, hoje, estão na ultradireita!

Essa é outra história que tem a ver com o       “alisamento” da praia: o homem sofreu tanto como guerrilheiro, ferido, fugindo de tropas militares, comendo mal, arriscando a vida... e depois encontra respeito e reconhecimento da classe governante. Começa a ganhar bem, casa-se, tem um filho e um cachorro, é convidado para fazer uma conferência em Harvard e é ali que o homem acaba de ser “alisado” de vez: porque deixa de ver o império como império, apanhado na rede dessas formas não violentas de cooptação. É o que aconteceu a alguém como [Fernando] Henrique Cardoso, quando se une aos comícios antichavistas, como Joaquín Villalobos.

Uma coisa é que se tornem moderados ou racionais, porque não se faz revolução com doidos varridos. É preciso ser racional, é claro, como Jesús Faría, economista marxista-leninista dos mais respeitados, que disse, há pouco tempo, que é claro que temos de ajudar alguns empresários a manter a produção, porque sem isso seria o desabastecimento; e que não é possível infernizar a vida dos empresários com medidas burocráticas “pensadas” por “esquerdistas” de merda ou burocratas, porque, com isso, nós também ajudamos a desestabilizar o país. É claro que é preciso pensar racionalmente. Não há outro meio para promover cada vez mais justiça social, mais igualdade, democracia e liberdade.

PERGUNTA: Há pouco tempo, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, disse que há chavistas que falam como chavistas, mas não são chavistas; e que há um setor muito conhecido da esquerda que ameaçou deixar o governo se suas demandas não forem atendidas. Que lhe parece?

Roy Chaderton, embaixador da Venezuela na OEA: Nada mais fácil que se pôr a ‘denunciar’ e ameaçar deixar o governo cada vez que as coisas ficam difíceis. Criticar não é coisa que se possa fazer levianamente, para livrar a própria cara, cada vez que surge um problema. A crítica revolucionária deve ser manejada como arma. A crítica revolucionária não é muleta para fazer andar moralistas reacionários. Denuncie muito, ponha-se a criticar... e você está salvo! Se tudo vai bem, você elogia em segredo. Se as coisas vão mal, você criticaem público. Muita gente pensa assim, e a imprensa-empresa existe para dar “meios” a essa gente e vender a ilusão de que alguém estaria criticando para transformar. De fato, a “crítica” que a imprensa-empresa distribui é crítica para conservar: repetir e reproduzir. Muita gente quebrou, inclusive pessoas do 4 de fevereiro. A palavra “lealdade” é muito importante.

Também há os que causam danos ao processo revolucionário, de dentro para fora. Um burocrata, por exemplo, que inventa e impõe dificuldades e empecilhos à ação popular. No serviço público, o revolucionário tem de mostrar que ama o próprio povo. Mas se, porque está no governo, alguém se sente “superior”, só porque está do lado de “lá” da mesa, e há um homem ou uma mulher muito pobre do lado de “cá” da mesma mesa, aí está alguém que é um perigo para a revolução. Os incompetentes, os arrogantes e os inconsequentes, saibam ou não, atrasam a revolução e ajudam a reação.

Nota dos tradutores

[1] Sobre isso ver Carlos Eduardo Lins da Silva, Folha de S.Paulo, 29/11/1998: Escândalo modela EUA no fim do século” - Desdobramentos do caso Monica Lewinsky influenciam áreas como política, jornalismo, costumes e feminismo. 

Os “pêlos (sic) pubianos na lata de Coca-Cola”, que tanto escandalizaram o país em 1991, eram brincadeira de criança se comparados aos charutos e vestidos de agora, e as acusações de Hill eram muito menos substantivas do que as de Paula Jones ou Kenneth Starr. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Desgostosa e decepcionada, Rússia desiste oficialmente de todos os esforços de “diálogo” com o Império Anglo-Sionista

5/12/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Amigos,

A íntegra do discurso do presidente Putin à Assembleia Federal da Rússia já está disponível online [aqui, em espanhol e outras línguas] e, como é texto muito longo, não o reproduzirei. Proponho-me aqui a chamar a atenção de todos para quatro trechos, reproduzidos verbatim daquele discurso, com algumas passagens chaves assinaladas em negrito.

A maior parte do discurso tratou de questões econômicas e internas, mas me parece que esses quatro pontos, especialmente as expressões que Putin escolheu, realmente “contam a história” da posição do Kremlin, hoje, vis-à-vis o ocidente. Vejam com os próprios olhos:

1) Crimeia é russa para sempre:

Foi evento de especial significação para o país e o povo, porque a Crimeia é onde vive nosso povo e a península tem importância estratégica para a Rússia como fonte espiritual do desenvolvimento de uma nação russa multifacetada mas sólida e de um estado russo centralizado. Na Crimeia, na cidade ancestral de Chersonesus ou Korsun, como se lê nos antigos cronistas russos, que o Grande Príncipe Vladimir foi batizado, antes de trazer o cristianismo para a Rus.

18/3/2014- A Crimeia se devolve à Rússia
Além da similaridade étnica, língua comum, elementos comuns da cultura material, território comum, embora antes não houvesse fronteiras demarcadas, e nascentes economia e governo comuns, o cristrianismo foi poderosa força espiritual de unificação que ajudou a envolver várias tribos e uniões tribais do vasto mundo eslavo oriental na criação de uma nação russa e de um estado russo. Foi graças a essa unidade espiritual que nossos antepassados, pela primeira vez, e dali para sempre, viram-se, eles mesmos, como nação unida. Tudo isso nos autoriza a dizer que a Crimeia, antiga Korsun ou Chersonesus, e Sevastopol têm inestimável valor civilizacional, mesmo, sagrado, para a Rússia, como o Monte do Templo em Jerusalém para os seguidores do Islã e do Judaísmo. E assim será a Crimeia, para sempre, para nós.

2) Rússia jamais será colônia da União Europeia:

Quanto a isso, a Rússia já fez importante contribuição para ajudar a Ucrânia. Permitam-me reiterar que bancos russos já investiram cerca de US$ 25 bilhões na Ucrânia. Ano passado, o Ministro de Finanças da Rússia prorrogou empréstimo de mais US$ 3 bilhões. A Gazprom garantiu mais US$ 5,5 bilhões à Ucrânia e até ofereceu um desconto não solicitado, sob a condição de que o país pagasse US$ 4,5 bilhões. Somem tudo e chega-se ao total de US$ 32,5-33,5 bilhões mobilizados para ajudar a Ucrânia, só nos últimos tempos.

A Alemanha não conseguiu colonizar a Russia na IIa Guerra Patriótica
Claro: temos o direito de levantar perguntas. Para que serviu a tragédia ucraniana? Não teria sido possível acertar as diferenças, inclusive as disputas, pelo diálogo, no quadro de legalidade vigente e com legitimidade? Agora nos veem com conversa de que aquela seria política competente e equilibrada, com a qual teríamos de pactuar, sem perguntas, de olhos vendados.

Não acontecerá nunca. Se, para alguns países europeus o orgulho nacional é conceito há muito esquecido, e a soberania não passa de uma espécie de luxo, a verdadeira soberania é, para Rússia, absolutamente necessária para a sobrevivência.

3) O Império já era inimigo mortal da Rússia muito antes da Crimeia

Lembramos bem como e quem, quase abertamente, apoiou o separatismo naquele momento, e até o mais visível terrorismo na Rússia, obra de assassinos cujas mãos estavam manchadas de sangue, ninguém menos que rebeldes e as recepções de alto nível organizadas para eles. Aqueles “rebeldes” mostram a cara novamente na Chechênia. Não tenho dúvidas de que o pessoal local, as autoridades legais locais tomarão conta adequadamente deles. Agora, trabalham para eliminar mais uma ação terrorista. Nós os apoiamos.

Quero reiterar que não esquecemos a recepção de alto nível que receberam terroristas travestidos como combatentes da liberdade e da democracia. Naquele momento, percebemos que quanto mais espaço damos a eles e quanto mais desculpas criamos, mais nossos oponentes tornam-se ousados e mais agressivas e cínicas as infrações e crimes que cometem.

Brigadas antinazistas femininas da Crimeia (Sinferopol) na IIa. Guerra Patriótica
Apesar de nossa abertura de antes, sem precedentes, e de nossa disposição para cooperar em tudo, até nas questões mais sensíveis, apesar do fato de que consideramos – e todos os senhores e senhoras sabem disso e lembram disso – nossos ex-adversários como amigos próximos e até como aliados, o apoio externo ao separatismo na Rússia, inclusive informação, apoio político e financeiro e apoio e atenção fornecidos pelos serviços especiais – foi absolutamente óbvio e não deixou qualquer dúvida de que eles permitiriam com prazer que a Rússia seguisse o cenário iugoslavo de desintegração e desmembramento. Com as consequências mais trágicas para o povo da Rússia.

Não deu certo. Não permitimos que acontecesse.

Exatamente como não funcionou para Hitler, com suas ideias de ódio a povos, que estava decidido a destruir a Rússia e a nos empurrar para trás, para além dos Urais. Todos com certeza lembram como isso acabou.

4) Rússia não se deixará abusar

Ninguém jamais derrotará militarmente a Rússia. Temos exército moderno e pronto para combater. Como dizem agora, é exército “polido”, nem por isso, menos formidável. Nós temos a força, o desejo e a coragem para defender nossa liberdade.

Protegeremos a diversidade do mundo. Diremos a verdade aos povos do mundo, até que todos vejam a imagem real da Rússia, não a imagem falsa e distorcida. Ativamente promoveremos as relações comerciais e humanitárias, e as relações científicas, educacionais e culturais. Faremos precisamente isso sempre que qualquer governo tente impor uma nova cortina de ferro em torno da Rússia.

Jamais, em tempo algum, enveredaremos pela trilha do autoisolamento, da xenofobia, da suspeição e da criação de inimigos. Tudo isso é sinal de fraqueza. Os russos somos fortes e confiantes.

Vladimir Putin e Sergey Lavrov
Minha opinião é que estamos assistindo a um grande evento de “dizer o que tem de ser dito”. Por inúmeras razões, Putin e o Ministro de Relações Exteriores Lavrov haviam decidido não falar nesses termos, antes, por vários meses. Aos poucos, vimos crescer e começar a manifestar-se uma forte impressão de profundo desgosto, de irritação profunda, de base, entre os russos. No discurso à Assembleia, afinal tudo isso foi trazido à tona.

Já é dolorosamente claro que a Rússia vê os EUA como ator desagradável, arrogante, fátuo, que a Rússia pode deter; e que a Rússia vê os governos no poder na União Europeia como colônias sem voz. Igualmente claro é que os russos estão fartos de tentar argumentar com “os ocidentais”, de tentar trazê-los à razão. Os norte-americanos são tolos e arrogantes demais; os europeus excessivamente sem vergonha ou espinha dorsal.

Diferente dos norte-americanos, os russos sempre falam com seus inimigos, e alguma forma de “conversa” com o ocidente continuará. Mas é completamente óbvio que o Kremlin abandonou qualquer esperança de alcançar alguma coisa mediante qualquer tipo de diálogo. Doravante, a Rússia dependerá, quase exclusivamente, de ações unilaterais. E dado que os russos nunca ameaçam, essas ações virão sempre com choque e surpresa para as plutocracias ocidentais.

Já disse e escrevi mil vezes: o Império Anglo-sionista declarou guerra real contra a Rússia– guerra na qual as forças militares são menos importantes que a guerra informacional, mas que nem por isso é guerra menos real. O que o Império talvez não perceba é que essa não será guerra curta: será guerra longa. E enquanto o Império já usou praticamente todas as suas armas, os russos apenas iniciaram suas operações defensivas. Será guerra longa e só terminará quando um dos lados quebrar, em colapso.

Em março desse ano escrevi um postado intitulado Obama piorou muito as coisas na Ucrânia – agora a Rússia está pronta para a guerraA Rússia não queria guerra, a guerra lhe foi imposta, num momento em que a Rússia não estava pronta. Pois hoje Putin disse ao mundo que a Rússia não se submeterá, que aceita o desafio e que vencerá.

The Saker

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Império Anglo-Sionista está em guerra contra a Rússia (Parte 2 de 2)

27/9/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker e Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Continuação de: 29/9/2014, redecastorphoto em: O império anglo-sionista está em guerra contra a Rússia (Parte 1 de 2)

The Saker
A Novorússia está perdida para o resto da Ucrânia. Para sempreNem algum esforço conjunto Putin-Obama poderia impedir que assim seja. De fato, os Ukies sabem disso e essa é a razão pela qual nem se esforçam para conquistar corações e mentes da população local. De fato, estou convencido que a chamada destruição “randômica” ou “ao acaso” da infraestrutura industrial, econômica, científica e cultural da Novorússia foi ato intencional de vingança de ódio, semelhante ao que fazem os anglo-sionistas, que sempre se põem a matar civis quando não conseguem impor-se por meios militares (exemplos disso são a Iugoslávia e o Líbano).

Claro que Moscou talvez possa forçar líderes políticos novorussos a assinar alguma espécie de documento pelo qual aceitem a soberania de Kiev, mas será pura ficção e já é muito, muito tarde para tentar isso. Seja de jure seja de facto, a Novorússia jamais voltará a aceitar ser governada por Kiev, e todo mundo sabe disso, em Kiev, na Novorússia e na Rússia.

Que ares teria uma independência de facto, mas não de jure?

Nenhuma força militar, nem guarda nacional, batalhão de oligarcas ou SBU ucranianos; total independência cultural, religiosa, linguística e educacional; funcionários eleitos localmente e mídia local; só que tudo isso com bandeiras Ukies; nenhum status de independência oficial, nada de Forças Armadas Novorussas (serão chamadas de alguma coisa como “força regional de segurança” ou, até, “força policial"); e nada de moeda novorussa (embora o rublo, assim como o dólar e o euro, seja usado diariamente). Os altos oficiais teriam de ser aprovados oficialmente por Kiev (o que Kiev sempre faria, para não deixar ver a própria impotência). Assim seria um arranjo temporário, transicional e instável de independência de facto mas não de jure, mas suficiente para garantir a Kiev uma saída sem desonra.

Isso posto, raciocino sobre a ideia de que ambas, Kiev e Moscou, têm interesse em manter a ficção de uma Ucrânia unitária. Para Kiev, é um modo de não aparecer completamente derrotada pelos amaldiçoados Moskals. Mas e quanto à Rússia?

E se você estivesse no lugar de Putin?

Faça a você mesmo a seguinte pergunta: se você fosse Putin e seu objetivo fosse conseguir mudança de regime em Kiev, você preferia que a Novorússia fosse parte da Ucrânia ou não? Minha hipótese é que manter a Novorússia dentro da Ucrânia é muito melhor, pelas seguintes razões:

  1. Ela faz parte, ainda que num nível macro, do processo ucraniano, como eleições nacionais e imprensa-empresa nacional.
  2. Força a comparação com as condições no resto da Ucrânia.
  3. Torna muito mais fácil influenciar o comércio, os negócios, os transportes, etc..
  4. Cria um centro político alternativo (livre de nazistas), a Kiev.
  5. Torna mais fácil para os interesses russos (de todos os tipos) penetrar na Ucrânia.
  6. Remove a possibilidade de criar-se um “muro” tipo Guerra Fria ou outro tipo de barreira ou marcador geográfico.
  7. Remove a acusação de que a Rússia desejaria dividir a Ucrânia.

Mapa da Novorússia - WPost, EUA (ago/2014)
Em outras palavras, manter a Novorússia só nominalmente, de jure, como parte da Ucrânia é a melhor maneira de parecer que aceita as demandas anglo-sionistas, ao mesmo tempo em que continua a subverter o governo da Junta nazista que está no poder. Em artigo recente, mostrei em traços gerais o que a Rússia pode fazer sem incorrer em grandes consequências:

  1. Opor-se politicamente ao regime em todas as frentes possíveis: ONU, imprensa, opinião pública, etc.
  2. Manifestar apoio político à Novorússia e a qualquer oposição ucraniana.
  3. Manter a guerra de informação (a imprensa-empresa russa faz belo serviço).l
  4. Impedir que a Novorússia caia (ajuda militar clandestina).
  5. Manter, sem aliviar, a pressão econômica sobre a Ucrânia.
  6. Quebrar, em todos os pontos possíveis, o “arco de gentilezas” entre EUA e União Europeia.
  7. Ajudar a Crimeia e a Novorússia a prosperar economicamente e financeiramente.

Em outras palavras – dar a impressão de estar fora, ao mesmo tempo em que se mantém muito muito dentro.

Seja como for, que alternativa existe?

Já quase posso ouvir o coro dos “oba-patriotas” indignados (é como esse pessoal é chamado na Rússia), a me acusarem de só ver a Novorússia como ferramenta para os objetivos políticos russos, e de ignorar as mortes e o sofrimento pelos quais passa o povo da Novorússia. A isso, só posso responder o seguinte:

  1. Alguém por acaso crê, com seriedade, que uma Novorrússia independente possa viver em paz e segurança, por mínimas que sejam, se não houver mudança de regime em Kiev?
  2. Se a Rússia não pode aguentar uma junta nazista no poder em Kiev, como a Novorússia aguentaria?!

Em geral, os oba-patriotas sonham com o que “poderia” ser feito agora e passam longe de qualquer visão de médio e longo prazo. Assim como os que creem que se poderia salvar a Síria mandando para lá a Força Aérea Russa, os oba-patriotas creem que a crise na Ucrânia poderia ser resolvida mandando-se tanques para lá. São perfeito exemplo do que H. L. Mencken tinha em mente quando escreveu que “para cada problema complexo sempre há uma resposta clara, simples e errada”. 

A triste realidade é que o tipo de pensamento que jaz por trás dessas soluções “simples” é sempre o mesmo: não negocie, não ceda, não conceda, não considere o longo prazo, só e sempre o futuro mais imediato; e em todos os casos use a força.

Bases Aéreas dos EUA-OTAN na Europa
Mas fatos são fatos: o bloco EUA/OTAN é poderoso militarmente, economicamente e politicamente e pode ferir muito gravemente a Rússia, especialmente no longo prazo. Além disso, por mais que a Rússia possa derrotar facilmente os militares ucranianos, dificilmente essa seria “vitória” significativa. Externamente, dispararia massiva deterioração no clima político internacional; e internamente os russos teriam de suprimir pela força os nacionalistas ucranianos (e nem todos eles são nazistas). A Rússia pode fazer isso? Mais uma vez, a resposta é “sim, mas... a que preço?”.

Um dos meus bons amigos foi coronel na unidade das Forças Especiais da KGB chamada “Kaskad” (que, adiante, foi rebatizada como “Vympel”). Um dia ele me contou como o pai dele, que fora operador especial da GRU, combateu contra insurgentes ucranianos, desde o final da IIª Guerra Mundial em 1945, até 1958: quer dizer, durante 13 anos! Stálin e Krushchev precisaram de 13 anos para, afinal, conseguir esmagar os insurgentes nacionalistas ucranianos. Alguém aí, no pleno uso das próprias faculdades mentais, acredita sinceramente que a Rússia moderna poderia repetir aquelas políticas e consumir anos e anos caçando novamente insurgentes ucranianos?

Além do mais, nacionalistas ucranianos conseguiram combater o poder soviético comandado por Stálin e Krushchev durante 13 anos inteiros e depois do final da guerra –, sim, mas não se vê hoje qualquer resistência antinazista em Zaporozhie, Dnepropetrivsk ou Carcóvia. Sim, Luganks e Donetsk levantaram-se e pegaram em armas com grande sucesso, sim, mas, e quanto ao resto da Ucrânia? Se você fosse Putin, você confiaria que forças russas que entrassem como libertadoras nessas cidades fossem recebidas com as mesmas festas que se viram na Crimeia?

Pois mesmo assim os oba-patriotas continuam a clamar por mais intervenção russa e mais operações militares russas contra forças Ukies. Não será já mais que hora de começarmos a perguntar quem se beneficiaria desse tipo de políticas?

Já se sabe do velho truque da CIA-EUA de usar as mídias sociais e a blogosfera, para promover o extremismo nacionalista na Rússia. Maksim Shevchenko, patriota russo e jornalista conhecido e respeitado, mantinha um grupo organizado exclusivamente para rastrear os números de IP de algumas das organizações nacionalistas radicais mais influentes, seus websites, blogs e postados individuais na Internet russa. Assim se descobriu que a maioria daquelas organizações tinham base nos EUA, no Canadá e em Israel.  Surpresa, surpresa. Ou, talvez, surpresa-zero?

Bases militares múltiplas da OTAN na Europa
Para os anglo-sionistas, faz perfeito sentido apoiarem extremistas e nacionalistas doidos-furiosos na Rússia. Ou esses grupos podem ser usados para influenciar a opinião pública ou, no mínimo, podem ser usados para minar o regime que esteja no poder. Pessoalmente, não vejo diferença alguma entre um Udaltsov ou um Navalnii por um lado, e um Limonov ou um Dugin por outro. O único efeito do que esse pessoal faz é enfurecer gente no Kremlin. O pretexto para enfurecer o pessoal do Kremlin não faz diferença – para Navalnyi é a conversa de “eleições roubadas”; para Dugin é “apunhalaram a Novorússia pelas costas”. E não importa se uns ou outros são realmente agentes pagos ou só “idiotas úteis” (Deus os julgará). O que realmente importa é que as soluções que eles pregam absolutamente não são soluções; são sempre, só, pretextos “certinhos” para atacar o regime que esteja no poder.

Entrementes, não apenas Putin não traiu nem vendeu nem entregou nem apunhalou coisa alguma nem abandonou a Novorússia; é Poroshenko que mal se segura na presidência, e é o Banderastão que se liquefaz e desce pelo ralo. Há também muita gente que, sim, consegue ver com clareza através dessa espessa cortina de nonsense, seja na Rússia (Yuri Baranchik) seja fora de lá (M. K. Bhadrakumar).

Mas e quanto aos oligarcas?

Já escrevi sobre essa questão recentemente, mas acho que é importante voltar a ela, porque a primeira coisa que se tem de compreender para compreender o contexto russo ou ucraniano é que oligarcas são uma realidade da vida. Não implica dizer que a existência deles seja boa coisa; só que Putin e Poroshenko e, quanto a isso, qualquer um que queira fazer qualquer coisa por lá tem de levar em consideração os oligarcas. A grande diferença é que, enquanto em Kiev um regime controlado pelos oligarcas foi substituído por um governo dos oligarcas, na Rússia a oligarquia só pode influenciar, não controlar, o Kremlin. Os exemplos de Khodorkovsky ou Evtushenkov mostram que o Kremlin ainda pode derrubar um ou outro oligarca, quando necessário; e derruba.

Mesmo assim, uma coisa é pegar um ou dois oligarcas; outra, muito diferente é remover os oligarcas da equação ucraniana: os oligarcas lá ficarão. Para Putin, pois, qualquer estratégia ucraniana tem de levar em consideração a presença e, francamente, o poder dos oligarcas ucranianos e de seus contrapartes russos.

Putin sabe que os oligarcas só são sinceramente fieis a eles mesmos, e que “meu país”, para eles, é onde estejam as propriedades deles. Como especialista da KGB que trabalhou exatamente com a inteligência externa, essa verdade é absolutamente óbvia para Putin; e a mentalidade dos oligarcas os torna, assim, manipuláveis. Qualquer agente de inteligência sabe que as pessoas podem ser manipuladas por uma lista finita de abordagens: ideologia, ego, ressentimento, sexo, um esqueleto no armário e, claro, dinheiro. Do ponto de vista de Putin, Rinat Akhmetov, por exemplo, é sujeito que emprega coisa como 200 mil pessoas no Donbass; que pode, é claro, fazer o que decida fazer; e cuja lealdade oficial a Kiev e à Ucrânia é só a camuflagem para ocultar sua única lealdade real: ao próprio dinheiro. Claro que Putin não precisa gostar dele ou respeitar Akhmetov (em geral, especialistas em inteligência sempre desprezam esse tipo de gente). Mas isso significa também que, para Putin, Akhmetov é pessoa crucialmente importante, com a qual conversar, explorar e, sendo possível, usar para alcançar o objetivo nacional estratégico russo no Donbass.

Rinat Akhmetov, oligarca baseado no Donbass
Já escrevi muitas vezes: os russos conversam com os inimigos. Com um sorriso no rosto. E vale ainda muito mais para especialista em inteligência externa treinado para mostrar-se comunicativo, compreensivo, acolhedor. Para Putin, Akhmetov não é amigo nem aliado, mas é figura de poder a ser manipulada a favor da Rússia. O que estou querendo explicar é, em outras palavras, o seguinte:

Há muitos rumores sobre negociações secretas entre Rinat Akhmetov e funcionários russos. Alguns dizem que Khodakovski estaria envolvido. Outros falam de Surkov. Não tenho dúvida alguma de que estão acontecendo negociações secretas. De fato, estou convencido de que todos os lados e partes estão conversando com todos os outros lados e partes. Até uma criatura repugnante, do mal, vil, como Kolomoiski. O sinal de que alguém finalmente decida tirá-lo de cena acontecerá precisamente quando ninguém mais conversar com ele. Acontecerá, provavelmente, com o tempo, mas não acontecerá antes de a base de poder em que ele se apoia ser suficientemente erodida.

Um blogueiro russo acredita que Akhmetov já teria sido “persuadido” (leia-se: subornado) por Putin e já estaria disposto a jogar por regras novas segundo as quais “quem manda é Putin”. É possível. Talvez ainda não, mas aconteça em breve. Talvez jamais aconteça. Só quero dizer é que negociações entre o Kremlin e os oligarcas Ukies locais são tão lógicas e inevitáveis quanto os contatos entre EUA e a Máfia italiana, antes de as Forças Armadas dos EUA entrarem na Itália.

Mas... há uma 5ª coluna na Rússia?

Há. Não há dúvida alguma: há. Primeiro e sobretudo, está ativa dentro do próprio governo de Medvedev e até mesmo dentro da administração presidencial. Não se pode esquecer que Putin foi posto no poder por duas forças que competiam entre elas: os serviços secretos e o big money. E sim, sim, por mais que seja verdade que Putin enfraqueceu tremendamente o componente “big money” (que chamo de “os Integracionistas Atlanticistas”), o big Money continua muito ativo, embora hoje mais contido, mais cuidadoso, menos arrogante que no tempo em que Medvedev estava formalmente no poder.

Medvedev e Putin assistem TV (Sochi - Jan/2014)
A grande modificação nos anos recentes é que a luta entre os patriotas (os “Soberanistas Eurasianos”) e a 5ª coluna hoje acontece em terreno aberto; mas está longe de acabar. E absolutamente não se pode nunca subestimar essa gente: eles têm muito poder, têm muito dinheiro e uma capacidade fantástica para corromper, ameaçar, desacreditar, sabotar, ocultar, disfarçar, confundir, etc.. São espertos, sabem encontrar os melhores profissionais em cada campo, e são muito, muito, muito bons, nas campanhas políticas mais imundas.

Por exemplo, os quinta-colunistas tentam furiosamente dar voz à oposição Nacional-Bolchevique (os dois, Limonov e Dugin são presenças regulares na televisão russa) e dizem os boatos que eles financiam também grande parte da imprensa-empresa Nacional Bolchevique (exatamente como os irmãos Koch pagaram para constituir o movimento “Tea Party” nos EUA).

Outro problema é que, por mais que se saiba que esses sujeitos estão objetivamente apostando seu dinheiro nas cartas da CIA, não há provas. Como me disse várias vezes um amigo espertíssimo: a maior parte das conspirações são colusões, e esse tipo de “acerto” entre dois contra terceiro é muito difícil de provar. Mas a comunidade de interesses entre a CIA-EUA e a oligarquia russa e ucraniana é tão óbvia que pode ser considerada inegável.

O real perigo para a Rússia

Agora, afinal, temos o quadro completo. Mais uma vez, Putin tem de enfrentar simultaneamente:

1) uma campanha estratégica de guerra psicológica conduzida por EUA/UK & Co., que combina a demonização de Putin pela imprensa-empresa comercial, e uma campanha pelas mídias sociais para desacreditá-lo pela passividade e ausência de ‘'resposta forte'’ ao ocidente.

2) Um grupo pequeno, mas muito vociferante de (quase todos eles) Nacional-Bolcheviques (Limonov, Dugin & Co.) que encontraram na causa novorussa uma oportunidade perfeita para atacar Putin por não partilhar a ideologia deles e implementar as ‘'soluções'’ deles, todas elas “claras, simples e erradas”.

3) Uma rede de oligarcas poderosos que querem usar a oportunidade apresentada pelas ações dos grupos (1) e (2) acima, para promover seus próprios interesses.

4) Uma 5ª coluna para cujos ativistas, todos os grupos anteriores geraram uma fantástica oportunidade para enfraquecer os Soberanistas Eurasianos.

5) Um senso de desapontamento, em muitos russos que sentem sinceramente que a Rússia está-se deixando tratar passivamente como saco-de-pancadas.

6) Uma grande, ampla maioria de pessoas na Novorússia que quer ser completamente independente (de facto e de jure) de Kiev e que estão sinceramente convencidas de que qualquer negociação com Kiev será prelúdio de traição, pela Rússia, dos interesses da Novorússia.

7) A realidade objetiva de que os interesses da Rússia e da Novorússia não são os mesmos.

8) A realidade objetiva de que o Império Anglo-Sionista é ainda muito poderoso e potencialmente perigoso.

Vladimir Putin no Kremlin
É muito, muito difícil para Putin tentar equilibrar todas essas forças de tal modo que o vetor resultante seja favorável ao interesse estratégico da Rússia.

Minha ideia, que defendo aqui, é que simplesmente só há uma solução para essa charada: separar completamente a política oficial declaratória da Rússia e as ações reais da Rússia.

A ajuda clandestina à Novorússia – o Voentorg – é exemplo disso, mas exemplo limitado, porque o que a Rússia terá de fazer vai além de operações clandestinas. A Rússia terá de parecer que faz uma coisa quando, na verdade, estará fazendo exatamente o contrário.

Nesse momento, é do interesse estratégico da Rússia parecer que:

1) apoia uma solução negociada nas seguintes linhas: uma Ucrânia unitária não alinhada com amplo direito regional a todas as regiões – e, simultaneamente, opor-se politicamente ao regime em todas as frentes, na ONU, na imprensa, na opinião pública, etc. e apoiar os dois lados, a Novorrússia e qualquer oposição ucraniana.

2) Dar aos oligarcas russos e ucranianos uma razão para, se não apoiarem, pelo menos não se oporem à solução acima (por ex.: não estatizar as propriedades de Akhmetov no Donbass) – e, simultaneamente, garantir que conserva suficiente “poder de fogo” para manter os oligarcas sob controle.

3) Negociar com a União Europeia a real implementação do Acordo da Ucrânia com a UE – e, simultaneamente ajudar a Ucrânia a suicidar-se, cuidando para que não falte suficiente poder de estrangulamento econômico, a ser usado para impedir que o regime imploda.

4) Negociar com a União Europeia e a Junta em Kiev a entrega de gás – e, simultaneamente garantir que o regime ucraniano seja obrigado a pagar sempre, até quebrar.

5) Mostrar-se em posição não confrontacional ante os EUA – e, simultaneamente tentar criar a maior quantidade possível de tensões entre EUA e União Europeia.

6) Parecer disponível para tudo e disposta a fazer negócios com o Império Anglo-Sionista – e, simultaneamente, construir um sistema internacional alternativo não centrado nos EUA ou no dólar.

Como se pode ver, é bem mais que programa normal de ação clandestina.

Desdolarização da Economia internacional
Aqui se está lidando com um programa complexíssimo, de várias camadas, programa para alcançar o mais importante objetivo russo na Ucrânia (mudança de regime e des-nazificação), ao mesmo tempo em que se inibem o mais possível as tentativas, pelos anglo-sionistas, para recriar uma crise severa e duradoura entre Oriente e Ocidente, na qual a União Europeia, basicamente, se fundirá com os EUA.

Conclusão: uma chave para políticas russas?

A maioria de nós está habituado a pensar em termos de categorias de super potências. Afinal, o presidente dos EUA, de Reagan até Obama, meteram-nos goela abaixo dieta pesada de declarações altissonantes quase sempre operações militares seguidas por “informes” do Pentágono, ameaças, sanções, boicotes, etc.. Minha ideia é essa sempre foi a marca registrada da “diplomacia” ocidental desde as Cruzadas até a campanha de bombardeio em curso hoje contra o ISIS/ISIL.

Rússia e China têm tradição diametralmente oposta a essa. Por exemplo, em termos de metodologia, Lavrov sempre repete o mesmo princípio:

(...) “queremos fazer de nossos inimigos, agentes neutros; dos neutros, parceiros; e dos parceiros, amigos”.

A função dos diplomatas russos não é preparar guerras e mais guerras, mas evitá-las. Sim, a Rússia combaterá, mas só depois de a diplomacia ter falhado completamente. Se, para os EUA a diplomacia não passa de instrumento para distribuir ameaças, para a Rússia é o principal instrumento para esvaziar qualquer ameaça.

Não surpreende pois que a diplomacia dos EUA seja primitiva a ponto de ser quase cômica. Afinal, quem precisa de sofisticação e inteligência para dizer “aceite ou explodimos você”?! Qualquer punguista de beco sabe fazer isso. Os diplomatas russos são muito mais parecidos com especialistas em descartar explosivos e localizar minas enterradas: têm de ser pacientes, muito cuidadosos e completamente focados. Mas, mais importante, não podem permitir que alguém os tire do jogo, para evitar que a coisa toda voe pelos ares.

A Rússia está completa e absolutamente ciente de que o Império Anglo-Sionista está em guerra contra ela e que já não há, para a Rússia, supondo que algum dia tenha havido, a opção de render-se. A Rússia também compreende que não é superpotência real nem, e ainda menos, um império. A Rússia é apenas um país muito poderoso que está tentando extrair os caninos mais mortíferos do Império, sem disparar guerra frontal contra ele. Na Ucrânia, a Rússia não vê solução que não seja mudança de regime em Kiev. Para alcançar esse objetivo, a Rússia sempre preferirá uma solução negociada a solução obtida pela força, mesmo que venha a usar a força, se não lhe deixarem nenhuma outra solução. Em outras palavras:

1) A meta de longo prazo da Rússia é pôr abaixo o Império Anglo-Sionista.
2) A meta de médio prazo da Rússia é criar condições para mudança de regime em Kiev.
3) A meta de curto prazo da Rússia é impedir que a Junta tome posse da Novorússia.

O método preferido da Rússia para alcançar esses objetivos é negociar com todas as partes envolvidas. Um pré-requisito para alcançar esses objetivos é impedir que o Império seja bem-sucedido na tentativa de criar aguda crise continental (na via inversa, o “estado profundo” do Império compreende perfeitamente tudo isso; daí ter havido duas declarações de guerra: uma, por Obama; a outra por Poroshenko).

Barack Obama e Petro Poroshenko (jun/2014)
Desde que vocês mantenham em mente esses princípios básicos, o que parece ser zigue-zagues, contradições e passividade nas políticas da Rússia, começarão a fazer sentido.

Claro que permanece aberta a questão de se a Rússia alcançará seus objetivos. Em teoria, uma ataque bem-sucedido da Junta contra a Novorússia poderia forçar a Rússia a intervir. Assim também, sempre há a possibilidade de outro “ataque sob falsa bandeira”, possivelmente, ataque nuclear. Creio que a política russa é sólida e a melhor realistamente realizável nas atuais circunstâncias, mas só o tempo dirá.

Lamento que tenha precisado de mais de 6.400 palavras para explicar isso, mas em sociedade na qual a maioria dos “pensamentos” são expressos em pios [orig. tweets], e as análises, em postados no Facebook, não é tarefa fácil lançar alguma luz sobre o que já se vai convertendo num dilúvio de mal-entendidos e mal-explicados, tudo piorado, sempre, pela manipulação das mídias sociais. Sinto que 60 mil palavras ainda explicariam melhor, porque inventar slogans é fácil; difícil é refutar racionalmente os pressupostos e implicações dos slogans.

Minha esperança é que pelo menos aqueles dentre vocês que estivessem sinceramente confusos ante a posição aparentemente ilógica da Rússia tenham agora como ligar os pontos e alcançar o sentido geral de tudo isso.

Cordiais saudações a todos.

The Saker