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terça-feira, 4 de novembro de 2014

The Saker: “Muito, muito interessante aconteceu na Novorússia”

29/10/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Dado que todos os jornalistas estavam mais ou menos abertamente se acusando uns os outros de estarem “filtrando a verdade”, todas as partes realmente envolvidas no conflito concordaram com gravar tudo, nada editar e publicar as gravações, nuas e cruas, no YouTube.

Entreouvido no quiosque do Fiófroxo na Vila Vudu: Taí! Se essa moda pega, damos cabo TOTALMENTE, dos “jornais nacionais”, dos “fatos & versões” e outras bobajadas ditas “jornalísticas” do VAGABUNDÍSSIMO “jornalismo” brasileiro... e a informação MELHORARÁ MUUUUUITO!:-D))

The Saker
Coisa fantasticamente interessante aconteceu na Novorússia: dois altos comandantes novorussos, Igor Bezler e Alexey Mozgovoi tiveram um encontro com os ucranianos do outro lado.

Não tenho como confirmar as datas dos eventos (o que vi só exibe as datas das postagens noYouTube), mas aparentemente começaram quando Igor Bezler aceitou ser entrevistado por três equipes de televisão ao mesmo tempo: uma russa, uma novorussa e uma ucraniana. Notícia importante aí, é, é claro, que uma jornalista ucraniana tenha tido acesso à cidade de Gorlovka, atualmente cercada por forças ucranianas, e tenha conseguido falar com a população local, inclusive combatentes, antes de entrevistar pessoalmente o próprio Bezler.

Dado que todos os jornalistas estavam mais ou menos abertamente se acusando uns os outros de estarem “filtrando a verdade”, todas as partes concordaram com gravar tudo, nada editar e publicar as gravações no YouTube.

Ao assistir, tenham em mente que, no Banderastão, não entram jornalistas russos, que as redes russas de televisão estão proibidas de operar e que o povo, na Ucrânia controlada pela junta só ouve, incansavelmente repetida, a “informação” de que o outro lado são terroristas e soldados russos. A imprensa-empresa ucraniana é a mais repugnante, vendida, subserviente e propagandística que vocês possam imaginar [Oh, Saker, amigo! Você não conhece a “grande imprensa-empresa” no Brasil! Veja a série A Ucrânia é aqui! (NTs)].

E então, de repente, pelo menos uma equipe da televisão ucraniana concorda em exibir a cara e a fala de um dos mais temidos comandantes novorussos e lhe entrega o microfone para que diga o que queira.

Mas o evento seguinte foi ainda mais interessante. Alexei Mozgovoi concordou em fazer uma videoconferência, não só com jornalistas ucranianos, mas também com reais comandantes militares em campo, do exército ucraniano. Ver Mozgovoi e os ucranianos falando cara a cara foi absolutamente fantástico. E, nisso, tenho de pedir desculpas, porque não posso pedir que nossos tradutores traduzam e legendem a coisa toda. Primeiro, porque não é uma, mas são duas longas videoconferências e três longos vídeos. Confiram vocês mesmos:

Entrevista com Bezler:
Publicada dia 21/10/2014 (duração: 2 horas e 17 minutos)


Primeira videoconferência de Mozgovoi:
Publicada dia 22/10/2014 (duração: 1 hora e 20 minutos)


Segunda videoconferência de Mozgovoi:
Publicada dia 28/10/201 (duração:1 hora e 51 minutos)


Espero sinceramente que alguém, em algum lugar do mundo, traduza. Mas é trabalho demais, que não posso pedir a nenhum dos voluntários que trabalham conosco.

Além do mais, são vídeos muito complexos. Há discussões, em alguns momentos todos gritam e interrompem-se uns os outros, há conversa cruzada e acontecem, até, duas canções. É coisa complexa, carregada de emoções, muito difícil de converter em texto traduzido. E é trabalho que exige muito tempo.

Então, proponho-me, aqui, a partilhar com vocês os elementos que mais me chamaram a atenção.

Mas, antes, quero esclarecer um ponto importante: a ideia original aparentemente foi reunir combatentes para conversar com combatentes; mas do lado ucraniano só aparecem alguns poucos comandantes e alguns poucos ativistas. O lado novorusso está representado por soldados de verdade. Aparentemente, os ucranianos não consideraram prudente expor pela televisão os seus homens de campo.

Para começar, foi muito espantoso constatar que os dois lados concordam sobre imensa quantidade de pontos. Os dois lados concordam que essa guerra é inútil e só beneficia os inimigos da Ucrânia. Os dois lados manifestaram desprezo, desgosto, até ira contra todos os políticos no poder e contra os oligarcas que, hoje, governam o Banderastão. Os dois lados concordam que Yanukovich nunca passou de puro lixo, e que os protestos da Praça Maidan foram legítimos, mas os protestos originais e legítimos foram sequestrados por inimigos da Ucrânia. Os dois lados também concordam que essa guerra teria de ter fim. Mas, por favor, não esqueçam que os nazistas ucranianos não foram convidados. O que ali se via eram, principalmente, militares regulares ucranianos e novorussos, e ativistas ucranianos, conversando com um comandante novorusso, Mozgovoi. E, sim, também há real desacordo em alguns pontos.

A posição dos ucranianos era (numa paráfrase, a citação não é perfeita):

Maidan foi legítimo e correto, mas vocês – os novorussos – pegaram em armas e, assim, criaram uma crise que a junta ilegítima usou, e a qual nos impediu de defender nossos objetivos políticosNão queremos que nosso país se divida ainda mais e é isso, exatamente, o que vocês estão fazendo. Sabemos também que os “russos armados vestidos de verde e muito bem-educados” estão combatendo ao lado de vocês e que muitos de vocês não representam verdadeiros interesses da Ucrânia, mas interesses da Rússia  Parem de combater e unam-se ao processo político para varrer de nosso país todos esses loucos.

A isso, Mozgovoi respondeu (numa paráfrase, a citação não é perfeita):

Nós não escolhemos combater, vocês chegaram aqui em nossa terra e estão matando nosso povo. Se vocês realmente querem varrer de Kiev aquela escória nazista, então não se interponham entre Kiev e nós, deixem-nos passar – e nós facilmente resolveremos o problema de Kiev. Vocês recebem ordens de comandantes nazistas e dos oligarcas e nada estão fazendo para impedi-los de continuar a matar nosso povo. Se nós depuséssemos as armas, seríamos todos massacrados.

Interessante: quando os ucranianos acusaram os novorussos de estarem fazendo o jogo da Rússia, Mozgovoi respondeu que os ucranianos eram peões nas mãos da CIA; supreendentemente, os ucranianos praticamente concordaram que, sim, é a CIA quem dirige o show. Quanto a Mozgovoi, não negou que a Rússia estava ajudando.

Os dois lados manifestaram frustração por não poder unir forças e, juntos, expulsar do país os oligarcas e os nazistas.

Durante a entrevista de Bezler, surpreendentemente, alguém da equipe da televisão ucraniana perguntou a Bezler se ele fala ucraniano; ele respondeu que sim. Sem acreditar, o ucraniano perguntou se ele saberia recitar algum poema do famoso poeta Taras Shevchenko. Então, para surpresa geral, Bezler recitou o poema “aos poloneses” [1], no qual Shevchenko descreve o quão felizes estavam os cossacos depois de derrotar os poloneses[2]:

As estrelas já brilhavam.
Como nuvens, os cossacos,
aos polacos então cercavam.
Quando a lua prateava
os canhões bramiram –
e acordaram do seu sono
os fidalgos e suas senhoras...
Correr aonde iam nestas horas!
Acordaram do seu sono;
mas, não reagiram.

O sol novamente aparecia e,
no horizonte, dos fidalgos e
suas senhoras, sombras refletia

Os cossacos reunidos
a Deus graças deram.

Grasnaram seu canto:
as aves partiram;
e, do inimigo os olhos,
os cossacos não viram.

Taras Shevchenko
Muito interessante constatar que Bezler fala perfeito ucraniano, e que soube colher rapidamente a chance que lhe apareceu para fazer lembrar aos seus adversários ucranianos que, no passado, os dois lados foram usados e manipulados por ocidentais que odiavam a Rússia e os ortodoxos – e fez tudo isso usando versos de um poeta que é herói nacional de todos que estavam ali reunidos!

Outro momento também surreal aconteceu quando um soldado novorusso pegou um violão e cantou uma canção sobre a guerra. Os ucranianos deram sinais claros de que ficaram muito emocionados; com certeza, a canção os emocionou, porque várias vezes repete que ali estavam “russos lutando contra russos”. Essa questão apareceu várias vezes, na conversação. Do ponto de vista dos novorussos, os ucranianos também são parte do “reino cultural russo” (o que evita de usar as palavras “estado” e “nacionalidade”), embora com sotaque diferente e história diferente. Os ucranianos insistiram que são outra nacionalidade, embora mantenham fortes laços com o “reino cultural russo”.

Nas duas entrevistas, de Bezler e Mozgovoi, surgiu a questão dos prisioneiros. Os dois lados reclamaram que seus homens teriam sido maltratados e torturados na prisão. Mais um detalhe interessante: participaram da entrevista de Bezler dois oficiais ucranianos, um ativista de direitos humanos e outro, que representava o Ministério da Defesa da Ucrânia, para a questão dos prisioneiros de guerra. Esses quatro imediatamente admitiram que Bezler tratara os prisioneiros ucranianos, não como prisioneiros de guerra, mas como hóspedes: podiam andar pelas instalações do quartel, comiam e dormiam com os demais soldados de Bezler, e foram tratados com cordialidade e pelas regras da boa hospitalidade. Em dada ocasião, comeram até caviar vermelho.

Mas o mesmo Bezler admitiu abertamente que “quando cruzamos com nazistas dos esquadrões da morte, não carregamos prisioneiros”, o que confirma o que já escrevi várias vezes: que a cordialidade e a hospitalidade russas para com prisioneiros de guerra ucranianos só se aplicam a soldados das unidades militares regulares; membros de esquadrões da morte capturados são imediatamente executados.

Houve centenas de rápidos momentos e trocas de argumentos e gestos, que gostaria muito de partilhar com vocês, mas isso exigiria muito mais espaço e tempo. Quero deixar dito, porém, que fiquei muito impressionado de ver inimigos conversando em termos MUITO cordiais. Também me surpreendeu a rapidez com que os ucranianos concordaram com a ideia de que a Ucrânia tem de se livrar o quanto antes dos nazistas e dos oligarcas. Em vários momentos, gente dos dois lados disse “vamos fazer isso juntos!” Outros, manifestavam ainda alguma dúvida. Sinceramente, fiquei muitíssimo impressionado com a coragem e a decência de muitos dos ucranianos que falaram naquelas entrevistas, os quais, embora sempre defendendo a linha da integridade territorial da Ucrânia, admitiram bem claramente que odeiam os nazistas e seus oligarcas. Peço a deus que proteja aqueles homens honestos e corajosos.

Os dois, Bezler e Mozgovoi pareciam estar muito, muito bem. Mozgovoi surpreendeu-me, ao dizer claramente que seu objetivo é mudança de regime em Kiev, não apenas a separação da Novorússia que, para ele, claramente, é só solução temporária, como medida de autodefesa. Bem evidentemente, os dois, Bezler e Mozgovoi são, em primeiro lugar e sobretudo, antinazistas, e ambos veem que não existe qualquer “solução novorussa”. Mozgovoi disse explicitamente que entende que os dois lados podem conviver perfeitamente, se os ucranianos se livrarem de seus nazistas e oligarcas.

Por mais que eu sempre tenha dito que a única solução estável possível para a crise é uma desnazificação da Ucrânia, com a conversão do atual Banderastão em uma Ucrânia “mentalmente sã”, não sou ingênuo e também vejo que o processo pode exigir uma década ou mais. Mas ver que Mozgovoi e seus contrapartes ucranianos concordam quanto à necessidade de desnazificar e desoligarquizar (inventei uma palavra?!), mostra que ainda há esperança, porque o resumo de tudo é: há muito mais em comum entre os dois lados, do que coisas que os separem!

Mais uma vez, repito, ali estavam soldados ucranianos regulares, não os alucinados membros de esquadrões-da-morte nazistas. Sei disso. E os dois lados não discordam quanto às questões essenciais. Também vejo isso. Mas também vejo que há base, um mínimo em comum, para começar a negociar. Nada obriga a prosseguir como se se tratasse de uma guerra de extermínio.

A Ucrânia que conhecemos está morta. Também a Crimeia e a Novorússia de antes já não existem para sempre, e há uma Ucrânia destroçada que chamo de “Banderastão”, ocupada pela CIA-EUA, nazistas ucranianos e oligarcas. Minha esperança é que assim como a guerra civil ucraniana foi convertida em guerra que visa a garantir a autodeterminação e a libertação da Novorússia, assim também, talvez, a guerra pela autodeterminação e a libertação da Novorússia se converta em guerra pela libertação do Banderastão, para livrá-lo dos nazistas/ EUA/ oligarcas que ocupam a região.

Se acontecer assim e se uma nova Ucrânia vier a emergir, nesse caso não tenho dúvidas de que o povo da Ucrânia concordará com que cada região tenha direito de se autodeterminar, a partir do direito cultural de manter-se autônomos. Só então se saberá realmente que regiões querem ficar e que regiões querem separar-se para sempre.

Alexander Zakharchenko
Até lá, continuo muito positivamente impressionado pelos comandantes de campo novorussos. Bezler e Mozgovoi, é claro, mas também Givi, Motorola, Zakharchenko, Kononov e os demais, são figuras fortes, capazes de combater e de argumentar. Strelkov, infelizmente, está mais numa terra-de-ninguém, em termos políticos, e muito me preocupa a aproximação entre ele e o blogueiro el-Murid, que é claramente ponte de ligação para os “patriotas-oba-oba” e os “difamadores de Putin”, usados, todos esses, pelo Império, para desacreditar Putin. Mesmo assim, a disputa política continua entre os líderes novorussos, e ainda não há comando claro. Esperemos que as próximas eleições ajudem a resolver essa questão.

The Saker

Notas dos tradutores

[1] O poema parece ser “A Noite de Taras”, poema homenagem, ao heroico episódio de luta do povo ucraniano contra a shlyakhta (nobreza) polonesa. A batalha se deu junto ao rio Trubaylo em 1630 (localidade de Pereyaslav). O exército polonês, sob o comando de Stanislav Konetspolski, foi destroçado pelos cossacos comandados por Taras Fedorovych (Taras Tryasylo). Daí o nome do poema: “A noite de Taras” [NTs, sem nenhuma confirmação. Todas as correções e comentários são bem-vindos].

[2] Há tradução ao português de versos que parecem ser desse poema, em Poemas Ucranianos − A Noite de TarasO excerto acima foi copiado-colado de lá, e fica aqui só como “guia”, porque não há como confirmar, sequer, se é o mesmo trecho declamado pelo comandante novorrusso e traduzido pelo Saker.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP) 8/10/2014, 16h UTC/Zulu


A calma antes da tempestade?

8/10/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no Quiosque do Barrossorto na Vila Vudu:
(Voz fina) — Cróóóóóózes! Tire o fracking e ponha o pré-sal e... Socorro! A Ucrânia é aqui! Aécim é uma espécie de “Yats”, que os EUA querem plantar aqui!”
(Voz grossa) — Acho que o Aécim tá mais é pra Yéltsin...

The Saker
Situação militar

A situação na Ucrânia e Novorússia é muito tensa e pode levar ao reinício das hostilidades.

As Forças de Repressão da Junta (FRJ) usaram o cessar-fogo para lamber as feridas, reorganizar-se, concentrar as forças, trazer os reforços muito necessários, preparar fortificações defensivas e trazer para perto novas unidades. As Forças Armadas da Novorússia (FAN fizeram o mesmo, mas, diferentes das FRJ, as FAN sofrem de falta de equipamento, situação tornada possivelmente ainda pior pela redução no fluxo de armas, particularmente armas pesadas, da Rússia (que chegavam pelo chamado voentorg). Em termos de pessoal, o influxo de voluntários para as Forças de Defesa da Novorússia (FDN) manteve-se forte e contínuo.

Por que Moscou fechou a válvula do respiradouro para a Novorrússia?

Pode haver inúmeras razões, mas as três principais são, provavelmente:

1. Um modo de pressionar a liderança novorussa a respeitar o cessar-fogo e para lembrá-los de que não podem ignorar a posição do Kremlin.
2. Para negar aos anglo-sionistas qualquer possibilidade de encontrarem alguma prova dovoentorg.
3. Para mostrar aos europeus: “Viram bem? Estamos cumprindo nossa parte no acordo, mas a Junta, não”.

O item 3, por falar dele, é absoluta verdade.

Embora o aeroporto de Donetsk tenha sido finalmente “tomado”, não porque “todos os Ukiesforam mortos”, mas porque “todo o sistema de artilharia dos Ukies foi destruído”, porque é isso que interessa a Donetsk), as FRJ continuam a bombardear a cidade ao norte, a oeste e a sudoeste. E há muito preocupantes sinais de que as FRJ preparam-se para tentar cercar Gorlovka.

7/10/2014, Mapa dos combates 
(clique na imagem para aumentar)

Enquanto isso, as FAN recolheram as unidades que haviam seguido para o extremo norte e até para oeste de Mariupol e o “front sul” tem agora formato muito mais defensável, como se viu no mapa anterior (aqui, uma versão de mais alta resolução).

A linha de frente não se moveu durante o cessar-fogo. As FAN fizeram alguns avanços locais, as FRJ retrocederam em algumas locações, mas em geral a linha de contato permaneceu a mesma e está sendo usada como uma base para o desenvolvimento de um plano de desengajamento preparado por especialistas ucranianos, da Organização de Segurança e Coordenação da Europa (OSCE), novorussos e russos. Na verdade, há hoje oficialmente 80 oficiais russos no Donbass (convidados por Kiev) que estão participando do desenvolvimento da planejada “zona neutra” entre os dois lados. Esse fato em si, muitíssimo interessante como é hoje, mostra que EUA, União Europeia, OSCE e a Junta tiveram de desistir do que insistiam em repetir, que os russos não teriam voz nem status num “processo ucraniano interno e soberano”.

Outro desenvolvimento muito interessante foi a oferta do presidente Lukashenko, da Bielorrússia, que se dispôs a enviar soldados mantenedores da paz, o que as autoridades novorussas imediatamente aceitaram. Até aqui, ainda não está oficialmente sobre a mesa, mas a oferta é interessante pelas seguintes razões:

1. Os bielorrussos têm exército extremamente forte, bem treinado e bem equipado e podem ser força robusta e eficaz para manter a paz.

2. As forças armadas bielorrussas são extremamente próximas das forças armadas russas e, para todas as finalidades práticas, são uma só entidade. Assim, ambos, novorussos e russos, podem confiar nos bielorrussos.

3. Por mais que Lukashenko não passe de bocó que volta e meia faz declarações bizarras e contraditórias, ele também é homem que sabe ver o escore do jogo e que permanecerá leal à Rússia e à Organização do Tratado de Segurança Coletiva [orig. Collective Security Treaty Organisation (CSTO)].

Em outras palavras, trazer os bielorrussos como mantenedores da paz – pode bem significar o fim de quaisquer esperanças que os Ukies ainda tivessem de reconquistar o Donbass. Isso, contudo, pode significar o fim de qualquer esperança que os novorussos tenham de libertar a Novorússia ocupada pela Junta.

O cessar-fogo será mantido?

Não sei, mas tenho confiança que os novorussos não serão os primeiros a quebrá-lo. A maioria dos novorussos odeia esse cessar-fogo, mas também compreendem que há questões políticas maiores a serem consideradas, e que eles simplesmente não podem desafiar Moscou. Quanto ao Kremlin, sua posição parece ser que o “Plano A” é tirar o máximo proveito do cessar-fogo; e o “Plano B” e assegurar que todo o peso político de um eventual reinício das hostilidades caia sobre os Ukies.

Examinando a mídia russa (empresas-imprensa e as redes sociais), eu diria que:

1. Há amplo consenso na Rússia, de que os novorussos ganharam o direito de serem libertados de Kiev. Claro que muitos (a maioria?) russos compreendem que a Novorússia pode ter de permanecer formalmente como parte de uma Ucrânia unitária, mas só formalmente, não de forma significativa; e só temporariamente. Bom exemplo é a análise desse blogueiro (em russo e em tradução automática ao inglês).

2. Ninguém na Rússia confia na Junta ou em Poroshenko. Há um consenso de que o único modo de manter segura a Novorússia é torná-la militarmente forte para resistir a qualquer possível ataque ucraniano.

3. O campo Dugin-Limonov perdeu a guerra de Relações Públicas e pouca gente ainda defende qualquer tipo de intervenção militar declarada. Mas isso pode mudar muito rapidamente, se as FRJ romperem o cessar-fogo e atacarem.

4. O campo dito “liberal” (no sentido russo) apoiado pela CIA está em total desarranjo. Exceto o canal de TV Dozhd ou a rádio Ekho Moskvy, ninguém mais os leva a sério, e quando um de seus representantes aparece na TV, acaba destripado em poucos minutos por outros entrevistados.

Concluo, de tudo isso, que a Rússia está “pronta para o pulo”: se os Ukies rompem o cessar-fogo e atacam massivamente, o “respiradouro-voentorg” será imediatamente reaberto e fluirá livremente; se os Ukies tiverem sucesso e se as FAN não conseguirem mesmo resistir ao assalto, a Rússia intervirá diretamente outra vez, como fez em agosto. Se a Novorússia for realmente ameaçada, Putin enviará abertamente militares russos (embora só venha a fazer isso se não lhe restar absolutamente nenhuma outra opção).

Situação política: Banderastão

A situação na Ucrânia ocupada pela Junta (também chamada “Banderastão”) é do mais completo caos. Violência (política e criminal) por toda parte, e o estado, pode-se dizer, deixou de funcionar. Considere-se por exemplo a destruição de várias estátuas de Lênin.

Primeiro, para começar, o fato de que estejam sendo destruídas já é exemplo eloquente de o quanto os Ukies são ignorantes, porque foi Lênin quem criou a Ucrânia como estado; Stálin depois acrescentou o oeste da Ucrânia; e Krushchev deu a Crimeia aos Ukies. Assim, podem repetir sempre o mesmo slogan “Комуняку на гілляку” (“comunistas para os galhos”, no sentido de que os comunistas devem ser enforcados), mas a realidade não se altera: a Ucrânia moderna é entidade 100% montada pelos comunistas (...). Mas o ponto principal é que a destruição dessas estátuas mostra que já não há qualquer lei ou ordem, e que as gangues de rua são a única “autoridade restante”.

Segundo, há clãs que lutam uns contra outros dentro da Junta (Poroshenko  vs  Kolomoiski  vs Liashko vs Iarosh vs Tymoshenko etc.), mas não resta nenhuma real oposição. Ou, pelo menos, acho que se pode dizer que já não resta qualquer oposição real.

Elena Bondarenko

Depois do brutal ataque ao Deputado Nestor Shufrich (que está hospitalizado), só restam duas figuras de oposição, mais ou menos bem conhecidas: Elena Bondarenko e Nikolai Levchenko, ambos, como Shufrich, do Partido das Regiões. Bondarenko foi abertamente ameaçada pelo Ministro de Relações Exteriores, que realmente disse o seguinte, na TV Ukie:

Quando a ouço falar, minha mão vai direto para a minha pistola.

Palavras, em público, de uma alta autoridade no Banderastão!

Elena Bondarenko
Na verdade, muito me preocupa a segurança pessoal dela; depois que se recusou a participar da próxima farsa eleitoral dos Ukie, sua vida está absolutamente sob risco; o mais provável é que ela já tenha escapado para a Rússia ou a Crimeia.

Nikolai Levchenko

A outra figura destacada na “oposição” é Nikolai Levchenko, deputado também do Partido das Regiões frequentemente associado ao oligarca Rinat Akhmetov. Levchenko, que foi eleito no Donbass, é especialmente odiado por muitos comandantes de campo novorussos, porque se opõe às FRJ e às FAN, e porque várias vezes já disse que esses dois lados são o mesmo lado. Mas ninguém sabe se Levchenko acredita sinceramente que a resistência armada só faz piorar tudo, ou se apenas fala pelos interesses financeiros de Rinat Akhmetov. O que posso dizer é que ele se opôs abertamente à Junta neonazista no Parlamento, e que, por causa disso, já foi atacado e agredido. Bondarenko também se atreveu a desafiar abertamente a JuntaUkie em seus discursos no Parlamento e foi arrancada à força da tribuna, mas não foi (ainda?) espancada.

Importante destacar aqui que esses dois, Bondarenko e Levchenko, são ucranianos leais – culpam em parte os novorussos pela violência reinante, e também rejeitaram a reintegração da Crimeia à Rússia, que culpam pelas políticas alucinadas de Kiev.

Se o Ocidente operasse com alguma decência (ou com alguma inteligência!), essas seriam as pessoas a serem apoiadas. Mas agora já é tarde demais, e pessoas como Bondarenko e Levchenko simplesmente já perderam as respectivas bases eleitorais; seus antigos eleitores que, hoje, não só rejeitam a posição “moderada” dos dois, como, também, enfrentam o destino de terem de deixar a Ucrânia e já não estão preocupados com eleições para o Parlamento.

Que eu saiba, nem Levchenko, nem Bondarenko concorrerão às próximas “eleições” que os dois já disseram que consideram total farsa (e, além do mais, dado que o Donbass não participará dessas eleições, que sentido faria a candidatura dos dois?).

Nikolai Levchenko
Quanto ao Partido Comunista Ucraniano, já está hoje basicamente na clandestinidade; vários de seus membros foram atacados, ameaçados e assassinados.

A triste, mas inegável realidade, é que não há oposição no Banderastão; só vários clãs e várias “tendências”, em que se combinam interesses dos neonazistas e dos oligarcas.

O Banderastão portanto não tem futuro político do qual se possa falar. Mas, de fato, não tem tampouco futuro econômico, cultural, social, ou qualquer outro tipo de futuro. A única dúvida é se o país acabará mais parecido com o Haiti, a Somália ou o Iraque. Em matéria de futuro, a única coisa certa agora é que o inverno será terrível e violento.

Situação política: Novorússia

Continua a luta interna, na Novorússia, entre líderes políticos e comandantes militares em campo. No melhor dos casos, alguns deles simplesmente ignoram todos os demais (Khodakovski ou os líderes cossacos); no pior, combatem diretamente uns contra outros (Bezler e Zakharchenko). Na verdade, parece que Zakharchenko renunciou, depois a renúncia foi retirada.

Por que continuam essas lutas internas?

Há várias razões, dentre as quais:

1) O acordo de cessar-fogo é extremamente controverso e, embora não satisfaça a ninguém na Novorússia, o grau de oposição varia de pessoa para pessoa.

2) Embora Strelkov tenha tentado com real empenho converter uma insurgência de milicianos voluntários num exército regular, não teve tempo suficiente e, embora a coordenação puramente militar tenha melhorado (ao que se sabe com a cooperação de especialistas do exército russo), continua a faltar unidade política.

3) Há também as próximas eleições na Novorússia, e alguns políticos (Zakharchenko, Gubarev) sentem que têm de assumir posição politicamente correta.

4) O fato de que os interesses objetivos de russos e novorussos não sejam um e o mesmo também exacerba a questão de quem obterá ajuda dos russos.

5) Alguns comandantes militares de campo novorussos (Mozgovoi?) sentem que todo esse circo político é inútil, e que a Novorússia tem de ser governada por aqueles que a libertaram: os militares. Obviamente, não é posição que seduza os políticos civis.

6) A briga dentro da Rússia, entre “Integracionistas Atlanticistas” e “Soberanistas Eurasianos” está como que respingando para a Novorússia.

Resultado disso, eu diria que a Novorússia é sólida em termos militares e fraca em termos políticos. Além disso, ao contrário do que eu esperava, Strelkov não teve grande impacto na cena política russa e, pelo menos até agora, permanece relativamente recluso. Não tenho explicação para isso.

Conclusão:

Por um lado, o cessar-fogo está sendo constantemente e cada vez mais violado. É com certeza possível um grande ataque Ukie. Por outro lado, o trabalho de criar uma zona intermediária entre os dois lados, que possivelmente envolva tropas estrangeiras, está sendo tocado ativamente, e o conflito pode ser temporariamente congelado ao longo da atual linha de contato. Os dois lados, o Banderastão e a Novorússia são politicamente fracos e nenhum está realmente sob a autoridade de uma pessoa ou de um grupo claro de pessoas.

Os próximos meses serão catastróficos para a Ucrânia ocupada pelos nazistas, e, bem literalmente, tudo é possível, incluindo uma 3ª Praça Maidan; golpe; insurreições locais, operações forjadas sob falsa bandeira, assassinatos e, claro, guerra.

De certo modo, a estúpida trincheira-pré-muro que os Ukies estão construindo ao longo da fronteira com Novorússia, Rússia e Transnistria talvez acabe por proteger os vizinhos do Banderastão, da explosão que está para acontecer ali.

The Saker

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Império Anglo-Sionista está em guerra contra a Rússia (Parte 2 de 2)

27/9/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker e Information Clearing House
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Continuação de: 29/9/2014, redecastorphoto em: O império anglo-sionista está em guerra contra a Rússia (Parte 1 de 2)

The Saker
A Novorússia está perdida para o resto da Ucrânia. Para sempreNem algum esforço conjunto Putin-Obama poderia impedir que assim seja. De fato, os Ukies sabem disso e essa é a razão pela qual nem se esforçam para conquistar corações e mentes da população local. De fato, estou convencido que a chamada destruição “randômica” ou “ao acaso” da infraestrutura industrial, econômica, científica e cultural da Novorússia foi ato intencional de vingança de ódio, semelhante ao que fazem os anglo-sionistas, que sempre se põem a matar civis quando não conseguem impor-se por meios militares (exemplos disso são a Iugoslávia e o Líbano).

Claro que Moscou talvez possa forçar líderes políticos novorussos a assinar alguma espécie de documento pelo qual aceitem a soberania de Kiev, mas será pura ficção e já é muito, muito tarde para tentar isso. Seja de jure seja de facto, a Novorússia jamais voltará a aceitar ser governada por Kiev, e todo mundo sabe disso, em Kiev, na Novorússia e na Rússia.

Que ares teria uma independência de facto, mas não de jure?

Nenhuma força militar, nem guarda nacional, batalhão de oligarcas ou SBU ucranianos; total independência cultural, religiosa, linguística e educacional; funcionários eleitos localmente e mídia local; só que tudo isso com bandeiras Ukies; nenhum status de independência oficial, nada de Forças Armadas Novorussas (serão chamadas de alguma coisa como “força regional de segurança” ou, até, “força policial"); e nada de moeda novorussa (embora o rublo, assim como o dólar e o euro, seja usado diariamente). Os altos oficiais teriam de ser aprovados oficialmente por Kiev (o que Kiev sempre faria, para não deixar ver a própria impotência). Assim seria um arranjo temporário, transicional e instável de independência de facto mas não de jure, mas suficiente para garantir a Kiev uma saída sem desonra.

Isso posto, raciocino sobre a ideia de que ambas, Kiev e Moscou, têm interesse em manter a ficção de uma Ucrânia unitária. Para Kiev, é um modo de não aparecer completamente derrotada pelos amaldiçoados Moskals. Mas e quanto à Rússia?

E se você estivesse no lugar de Putin?

Faça a você mesmo a seguinte pergunta: se você fosse Putin e seu objetivo fosse conseguir mudança de regime em Kiev, você preferia que a Novorússia fosse parte da Ucrânia ou não? Minha hipótese é que manter a Novorússia dentro da Ucrânia é muito melhor, pelas seguintes razões:

  1. Ela faz parte, ainda que num nível macro, do processo ucraniano, como eleições nacionais e imprensa-empresa nacional.
  2. Força a comparação com as condições no resto da Ucrânia.
  3. Torna muito mais fácil influenciar o comércio, os negócios, os transportes, etc..
  4. Cria um centro político alternativo (livre de nazistas), a Kiev.
  5. Torna mais fácil para os interesses russos (de todos os tipos) penetrar na Ucrânia.
  6. Remove a possibilidade de criar-se um “muro” tipo Guerra Fria ou outro tipo de barreira ou marcador geográfico.
  7. Remove a acusação de que a Rússia desejaria dividir a Ucrânia.

Mapa da Novorússia - WPost, EUA (ago/2014)
Em outras palavras, manter a Novorússia só nominalmente, de jure, como parte da Ucrânia é a melhor maneira de parecer que aceita as demandas anglo-sionistas, ao mesmo tempo em que continua a subverter o governo da Junta nazista que está no poder. Em artigo recente, mostrei em traços gerais o que a Rússia pode fazer sem incorrer em grandes consequências:

  1. Opor-se politicamente ao regime em todas as frentes possíveis: ONU, imprensa, opinião pública, etc.
  2. Manifestar apoio político à Novorússia e a qualquer oposição ucraniana.
  3. Manter a guerra de informação (a imprensa-empresa russa faz belo serviço).l
  4. Impedir que a Novorússia caia (ajuda militar clandestina).
  5. Manter, sem aliviar, a pressão econômica sobre a Ucrânia.
  6. Quebrar, em todos os pontos possíveis, o “arco de gentilezas” entre EUA e União Europeia.
  7. Ajudar a Crimeia e a Novorússia a prosperar economicamente e financeiramente.

Em outras palavras – dar a impressão de estar fora, ao mesmo tempo em que se mantém muito muito dentro.

Seja como for, que alternativa existe?

Já quase posso ouvir o coro dos “oba-patriotas” indignados (é como esse pessoal é chamado na Rússia), a me acusarem de só ver a Novorússia como ferramenta para os objetivos políticos russos, e de ignorar as mortes e o sofrimento pelos quais passa o povo da Novorússia. A isso, só posso responder o seguinte:

  1. Alguém por acaso crê, com seriedade, que uma Novorrússia independente possa viver em paz e segurança, por mínimas que sejam, se não houver mudança de regime em Kiev?
  2. Se a Rússia não pode aguentar uma junta nazista no poder em Kiev, como a Novorússia aguentaria?!

Em geral, os oba-patriotas sonham com o que “poderia” ser feito agora e passam longe de qualquer visão de médio e longo prazo. Assim como os que creem que se poderia salvar a Síria mandando para lá a Força Aérea Russa, os oba-patriotas creem que a crise na Ucrânia poderia ser resolvida mandando-se tanques para lá. São perfeito exemplo do que H. L. Mencken tinha em mente quando escreveu que “para cada problema complexo sempre há uma resposta clara, simples e errada”. 

A triste realidade é que o tipo de pensamento que jaz por trás dessas soluções “simples” é sempre o mesmo: não negocie, não ceda, não conceda, não considere o longo prazo, só e sempre o futuro mais imediato; e em todos os casos use a força.

Bases Aéreas dos EUA-OTAN na Europa
Mas fatos são fatos: o bloco EUA/OTAN é poderoso militarmente, economicamente e politicamente e pode ferir muito gravemente a Rússia, especialmente no longo prazo. Além disso, por mais que a Rússia possa derrotar facilmente os militares ucranianos, dificilmente essa seria “vitória” significativa. Externamente, dispararia massiva deterioração no clima político internacional; e internamente os russos teriam de suprimir pela força os nacionalistas ucranianos (e nem todos eles são nazistas). A Rússia pode fazer isso? Mais uma vez, a resposta é “sim, mas... a que preço?”.

Um dos meus bons amigos foi coronel na unidade das Forças Especiais da KGB chamada “Kaskad” (que, adiante, foi rebatizada como “Vympel”). Um dia ele me contou como o pai dele, que fora operador especial da GRU, combateu contra insurgentes ucranianos, desde o final da IIª Guerra Mundial em 1945, até 1958: quer dizer, durante 13 anos! Stálin e Krushchev precisaram de 13 anos para, afinal, conseguir esmagar os insurgentes nacionalistas ucranianos. Alguém aí, no pleno uso das próprias faculdades mentais, acredita sinceramente que a Rússia moderna poderia repetir aquelas políticas e consumir anos e anos caçando novamente insurgentes ucranianos?

Além do mais, nacionalistas ucranianos conseguiram combater o poder soviético comandado por Stálin e Krushchev durante 13 anos inteiros e depois do final da guerra –, sim, mas não se vê hoje qualquer resistência antinazista em Zaporozhie, Dnepropetrivsk ou Carcóvia. Sim, Luganks e Donetsk levantaram-se e pegaram em armas com grande sucesso, sim, mas, e quanto ao resto da Ucrânia? Se você fosse Putin, você confiaria que forças russas que entrassem como libertadoras nessas cidades fossem recebidas com as mesmas festas que se viram na Crimeia?

Pois mesmo assim os oba-patriotas continuam a clamar por mais intervenção russa e mais operações militares russas contra forças Ukies. Não será já mais que hora de começarmos a perguntar quem se beneficiaria desse tipo de políticas?

Já se sabe do velho truque da CIA-EUA de usar as mídias sociais e a blogosfera, para promover o extremismo nacionalista na Rússia. Maksim Shevchenko, patriota russo e jornalista conhecido e respeitado, mantinha um grupo organizado exclusivamente para rastrear os números de IP de algumas das organizações nacionalistas radicais mais influentes, seus websites, blogs e postados individuais na Internet russa. Assim se descobriu que a maioria daquelas organizações tinham base nos EUA, no Canadá e em Israel.  Surpresa, surpresa. Ou, talvez, surpresa-zero?

Bases militares múltiplas da OTAN na Europa
Para os anglo-sionistas, faz perfeito sentido apoiarem extremistas e nacionalistas doidos-furiosos na Rússia. Ou esses grupos podem ser usados para influenciar a opinião pública ou, no mínimo, podem ser usados para minar o regime que esteja no poder. Pessoalmente, não vejo diferença alguma entre um Udaltsov ou um Navalnii por um lado, e um Limonov ou um Dugin por outro. O único efeito do que esse pessoal faz é enfurecer gente no Kremlin. O pretexto para enfurecer o pessoal do Kremlin não faz diferença – para Navalnyi é a conversa de “eleições roubadas”; para Dugin é “apunhalaram a Novorússia pelas costas”. E não importa se uns ou outros são realmente agentes pagos ou só “idiotas úteis” (Deus os julgará). O que realmente importa é que as soluções que eles pregam absolutamente não são soluções; são sempre, só, pretextos “certinhos” para atacar o regime que esteja no poder.

Entrementes, não apenas Putin não traiu nem vendeu nem entregou nem apunhalou coisa alguma nem abandonou a Novorússia; é Poroshenko que mal se segura na presidência, e é o Banderastão que se liquefaz e desce pelo ralo. Há também muita gente que, sim, consegue ver com clareza através dessa espessa cortina de nonsense, seja na Rússia (Yuri Baranchik) seja fora de lá (M. K. Bhadrakumar).

Mas e quanto aos oligarcas?

Já escrevi sobre essa questão recentemente, mas acho que é importante voltar a ela, porque a primeira coisa que se tem de compreender para compreender o contexto russo ou ucraniano é que oligarcas são uma realidade da vida. Não implica dizer que a existência deles seja boa coisa; só que Putin e Poroshenko e, quanto a isso, qualquer um que queira fazer qualquer coisa por lá tem de levar em consideração os oligarcas. A grande diferença é que, enquanto em Kiev um regime controlado pelos oligarcas foi substituído por um governo dos oligarcas, na Rússia a oligarquia só pode influenciar, não controlar, o Kremlin. Os exemplos de Khodorkovsky ou Evtushenkov mostram que o Kremlin ainda pode derrubar um ou outro oligarca, quando necessário; e derruba.

Mesmo assim, uma coisa é pegar um ou dois oligarcas; outra, muito diferente é remover os oligarcas da equação ucraniana: os oligarcas lá ficarão. Para Putin, pois, qualquer estratégia ucraniana tem de levar em consideração a presença e, francamente, o poder dos oligarcas ucranianos e de seus contrapartes russos.

Putin sabe que os oligarcas só são sinceramente fieis a eles mesmos, e que “meu país”, para eles, é onde estejam as propriedades deles. Como especialista da KGB que trabalhou exatamente com a inteligência externa, essa verdade é absolutamente óbvia para Putin; e a mentalidade dos oligarcas os torna, assim, manipuláveis. Qualquer agente de inteligência sabe que as pessoas podem ser manipuladas por uma lista finita de abordagens: ideologia, ego, ressentimento, sexo, um esqueleto no armário e, claro, dinheiro. Do ponto de vista de Putin, Rinat Akhmetov, por exemplo, é sujeito que emprega coisa como 200 mil pessoas no Donbass; que pode, é claro, fazer o que decida fazer; e cuja lealdade oficial a Kiev e à Ucrânia é só a camuflagem para ocultar sua única lealdade real: ao próprio dinheiro. Claro que Putin não precisa gostar dele ou respeitar Akhmetov (em geral, especialistas em inteligência sempre desprezam esse tipo de gente). Mas isso significa também que, para Putin, Akhmetov é pessoa crucialmente importante, com a qual conversar, explorar e, sendo possível, usar para alcançar o objetivo nacional estratégico russo no Donbass.

Rinat Akhmetov, oligarca baseado no Donbass
Já escrevi muitas vezes: os russos conversam com os inimigos. Com um sorriso no rosto. E vale ainda muito mais para especialista em inteligência externa treinado para mostrar-se comunicativo, compreensivo, acolhedor. Para Putin, Akhmetov não é amigo nem aliado, mas é figura de poder a ser manipulada a favor da Rússia. O que estou querendo explicar é, em outras palavras, o seguinte:

Há muitos rumores sobre negociações secretas entre Rinat Akhmetov e funcionários russos. Alguns dizem que Khodakovski estaria envolvido. Outros falam de Surkov. Não tenho dúvida alguma de que estão acontecendo negociações secretas. De fato, estou convencido de que todos os lados e partes estão conversando com todos os outros lados e partes. Até uma criatura repugnante, do mal, vil, como Kolomoiski. O sinal de que alguém finalmente decida tirá-lo de cena acontecerá precisamente quando ninguém mais conversar com ele. Acontecerá, provavelmente, com o tempo, mas não acontecerá antes de a base de poder em que ele se apoia ser suficientemente erodida.

Um blogueiro russo acredita que Akhmetov já teria sido “persuadido” (leia-se: subornado) por Putin e já estaria disposto a jogar por regras novas segundo as quais “quem manda é Putin”. É possível. Talvez ainda não, mas aconteça em breve. Talvez jamais aconteça. Só quero dizer é que negociações entre o Kremlin e os oligarcas Ukies locais são tão lógicas e inevitáveis quanto os contatos entre EUA e a Máfia italiana, antes de as Forças Armadas dos EUA entrarem na Itália.

Mas... há uma 5ª coluna na Rússia?

Há. Não há dúvida alguma: há. Primeiro e sobretudo, está ativa dentro do próprio governo de Medvedev e até mesmo dentro da administração presidencial. Não se pode esquecer que Putin foi posto no poder por duas forças que competiam entre elas: os serviços secretos e o big money. E sim, sim, por mais que seja verdade que Putin enfraqueceu tremendamente o componente “big money” (que chamo de “os Integracionistas Atlanticistas”), o big Money continua muito ativo, embora hoje mais contido, mais cuidadoso, menos arrogante que no tempo em que Medvedev estava formalmente no poder.

Medvedev e Putin assistem TV (Sochi - Jan/2014)
A grande modificação nos anos recentes é que a luta entre os patriotas (os “Soberanistas Eurasianos”) e a 5ª coluna hoje acontece em terreno aberto; mas está longe de acabar. E absolutamente não se pode nunca subestimar essa gente: eles têm muito poder, têm muito dinheiro e uma capacidade fantástica para corromper, ameaçar, desacreditar, sabotar, ocultar, disfarçar, confundir, etc.. São espertos, sabem encontrar os melhores profissionais em cada campo, e são muito, muito, muito bons, nas campanhas políticas mais imundas.

Por exemplo, os quinta-colunistas tentam furiosamente dar voz à oposição Nacional-Bolchevique (os dois, Limonov e Dugin são presenças regulares na televisão russa) e dizem os boatos que eles financiam também grande parte da imprensa-empresa Nacional Bolchevique (exatamente como os irmãos Koch pagaram para constituir o movimento “Tea Party” nos EUA).

Outro problema é que, por mais que se saiba que esses sujeitos estão objetivamente apostando seu dinheiro nas cartas da CIA, não há provas. Como me disse várias vezes um amigo espertíssimo: a maior parte das conspirações são colusões, e esse tipo de “acerto” entre dois contra terceiro é muito difícil de provar. Mas a comunidade de interesses entre a CIA-EUA e a oligarquia russa e ucraniana é tão óbvia que pode ser considerada inegável.

O real perigo para a Rússia

Agora, afinal, temos o quadro completo. Mais uma vez, Putin tem de enfrentar simultaneamente:

1) uma campanha estratégica de guerra psicológica conduzida por EUA/UK & Co., que combina a demonização de Putin pela imprensa-empresa comercial, e uma campanha pelas mídias sociais para desacreditá-lo pela passividade e ausência de ‘'resposta forte'’ ao ocidente.

2) Um grupo pequeno, mas muito vociferante de (quase todos eles) Nacional-Bolcheviques (Limonov, Dugin & Co.) que encontraram na causa novorussa uma oportunidade perfeita para atacar Putin por não partilhar a ideologia deles e implementar as ‘'soluções'’ deles, todas elas “claras, simples e erradas”.

3) Uma rede de oligarcas poderosos que querem usar a oportunidade apresentada pelas ações dos grupos (1) e (2) acima, para promover seus próprios interesses.

4) Uma 5ª coluna para cujos ativistas, todos os grupos anteriores geraram uma fantástica oportunidade para enfraquecer os Soberanistas Eurasianos.

5) Um senso de desapontamento, em muitos russos que sentem sinceramente que a Rússia está-se deixando tratar passivamente como saco-de-pancadas.

6) Uma grande, ampla maioria de pessoas na Novorússia que quer ser completamente independente (de facto e de jure) de Kiev e que estão sinceramente convencidas de que qualquer negociação com Kiev será prelúdio de traição, pela Rússia, dos interesses da Novorússia.

7) A realidade objetiva de que os interesses da Rússia e da Novorússia não são os mesmos.

8) A realidade objetiva de que o Império Anglo-Sionista é ainda muito poderoso e potencialmente perigoso.

Vladimir Putin no Kremlin
É muito, muito difícil para Putin tentar equilibrar todas essas forças de tal modo que o vetor resultante seja favorável ao interesse estratégico da Rússia.

Minha ideia, que defendo aqui, é que simplesmente só há uma solução para essa charada: separar completamente a política oficial declaratória da Rússia e as ações reais da Rússia.

A ajuda clandestina à Novorússia – o Voentorg – é exemplo disso, mas exemplo limitado, porque o que a Rússia terá de fazer vai além de operações clandestinas. A Rússia terá de parecer que faz uma coisa quando, na verdade, estará fazendo exatamente o contrário.

Nesse momento, é do interesse estratégico da Rússia parecer que:

1) apoia uma solução negociada nas seguintes linhas: uma Ucrânia unitária não alinhada com amplo direito regional a todas as regiões – e, simultaneamente, opor-se politicamente ao regime em todas as frentes, na ONU, na imprensa, na opinião pública, etc. e apoiar os dois lados, a Novorrússia e qualquer oposição ucraniana.

2) Dar aos oligarcas russos e ucranianos uma razão para, se não apoiarem, pelo menos não se oporem à solução acima (por ex.: não estatizar as propriedades de Akhmetov no Donbass) – e, simultaneamente, garantir que conserva suficiente “poder de fogo” para manter os oligarcas sob controle.

3) Negociar com a União Europeia a real implementação do Acordo da Ucrânia com a UE – e, simultaneamente ajudar a Ucrânia a suicidar-se, cuidando para que não falte suficiente poder de estrangulamento econômico, a ser usado para impedir que o regime imploda.

4) Negociar com a União Europeia e a Junta em Kiev a entrega de gás – e, simultaneamente garantir que o regime ucraniano seja obrigado a pagar sempre, até quebrar.

5) Mostrar-se em posição não confrontacional ante os EUA – e, simultaneamente tentar criar a maior quantidade possível de tensões entre EUA e União Europeia.

6) Parecer disponível para tudo e disposta a fazer negócios com o Império Anglo-Sionista – e, simultaneamente, construir um sistema internacional alternativo não centrado nos EUA ou no dólar.

Como se pode ver, é bem mais que programa normal de ação clandestina.

Desdolarização da Economia internacional
Aqui se está lidando com um programa complexíssimo, de várias camadas, programa para alcançar o mais importante objetivo russo na Ucrânia (mudança de regime e des-nazificação), ao mesmo tempo em que se inibem o mais possível as tentativas, pelos anglo-sionistas, para recriar uma crise severa e duradoura entre Oriente e Ocidente, na qual a União Europeia, basicamente, se fundirá com os EUA.

Conclusão: uma chave para políticas russas?

A maioria de nós está habituado a pensar em termos de categorias de super potências. Afinal, o presidente dos EUA, de Reagan até Obama, meteram-nos goela abaixo dieta pesada de declarações altissonantes quase sempre operações militares seguidas por “informes” do Pentágono, ameaças, sanções, boicotes, etc.. Minha ideia é essa sempre foi a marca registrada da “diplomacia” ocidental desde as Cruzadas até a campanha de bombardeio em curso hoje contra o ISIS/ISIL.

Rússia e China têm tradição diametralmente oposta a essa. Por exemplo, em termos de metodologia, Lavrov sempre repete o mesmo princípio:

(...) “queremos fazer de nossos inimigos, agentes neutros; dos neutros, parceiros; e dos parceiros, amigos”.

A função dos diplomatas russos não é preparar guerras e mais guerras, mas evitá-las. Sim, a Rússia combaterá, mas só depois de a diplomacia ter falhado completamente. Se, para os EUA a diplomacia não passa de instrumento para distribuir ameaças, para a Rússia é o principal instrumento para esvaziar qualquer ameaça.

Não surpreende pois que a diplomacia dos EUA seja primitiva a ponto de ser quase cômica. Afinal, quem precisa de sofisticação e inteligência para dizer “aceite ou explodimos você”?! Qualquer punguista de beco sabe fazer isso. Os diplomatas russos são muito mais parecidos com especialistas em descartar explosivos e localizar minas enterradas: têm de ser pacientes, muito cuidadosos e completamente focados. Mas, mais importante, não podem permitir que alguém os tire do jogo, para evitar que a coisa toda voe pelos ares.

A Rússia está completa e absolutamente ciente de que o Império Anglo-Sionista está em guerra contra ela e que já não há, para a Rússia, supondo que algum dia tenha havido, a opção de render-se. A Rússia também compreende que não é superpotência real nem, e ainda menos, um império. A Rússia é apenas um país muito poderoso que está tentando extrair os caninos mais mortíferos do Império, sem disparar guerra frontal contra ele. Na Ucrânia, a Rússia não vê solução que não seja mudança de regime em Kiev. Para alcançar esse objetivo, a Rússia sempre preferirá uma solução negociada a solução obtida pela força, mesmo que venha a usar a força, se não lhe deixarem nenhuma outra solução. Em outras palavras:

1) A meta de longo prazo da Rússia é pôr abaixo o Império Anglo-Sionista.
2) A meta de médio prazo da Rússia é criar condições para mudança de regime em Kiev.
3) A meta de curto prazo da Rússia é impedir que a Junta tome posse da Novorússia.

O método preferido da Rússia para alcançar esses objetivos é negociar com todas as partes envolvidas. Um pré-requisito para alcançar esses objetivos é impedir que o Império seja bem-sucedido na tentativa de criar aguda crise continental (na via inversa, o “estado profundo” do Império compreende perfeitamente tudo isso; daí ter havido duas declarações de guerra: uma, por Obama; a outra por Poroshenko).

Barack Obama e Petro Poroshenko (jun/2014)
Desde que vocês mantenham em mente esses princípios básicos, o que parece ser zigue-zagues, contradições e passividade nas políticas da Rússia, começarão a fazer sentido.

Claro que permanece aberta a questão de se a Rússia alcançará seus objetivos. Em teoria, uma ataque bem-sucedido da Junta contra a Novorússia poderia forçar a Rússia a intervir. Assim também, sempre há a possibilidade de outro “ataque sob falsa bandeira”, possivelmente, ataque nuclear. Creio que a política russa é sólida e a melhor realistamente realizável nas atuais circunstâncias, mas só o tempo dirá.

Lamento que tenha precisado de mais de 6.400 palavras para explicar isso, mas em sociedade na qual a maioria dos “pensamentos” são expressos em pios [orig. tweets], e as análises, em postados no Facebook, não é tarefa fácil lançar alguma luz sobre o que já se vai convertendo num dilúvio de mal-entendidos e mal-explicados, tudo piorado, sempre, pela manipulação das mídias sociais. Sinto que 60 mil palavras ainda explicariam melhor, porque inventar slogans é fácil; difícil é refutar racionalmente os pressupostos e implicações dos slogans.

Minha esperança é que pelo menos aqueles dentre vocês que estivessem sinceramente confusos ante a posição aparentemente ilógica da Rússia tenham agora como ligar os pontos e alcançar o sentido geral de tudo isso.

Cordiais saudações a todos.

The Saker