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sábado, 14 de fevereiro de 2015

Ucrânia: “O acordo inútil que todos tanto queriam”

13/2/2015, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
Devo dizer que estou simultaneamente assustado e às gargalhadas com a reação totalmente descabida de muitos comentaristas ao que se pode chamar de Acordo “Minsk-2” [ing. “Mink-2 Agreement” (M2A)]. Aparentemente todos esqueceram todos os instrumentos de análise e agora se armam de declarações hiperbólicas, vociferantes, mas vazias. Lendo alguns dos comentários registrados nesse blog, pode-se perdoar qualquer um que pense que, sabe-se lá como, a guerra na Ucrânia acabou e o Império Anglo-Sionista, ajudado por Putin, Surkov e um exército de anônimos, mas sinistros oligarcas gregos, acaba de infligir golpe terrível, mortal, contra o sonho novorrusso.

Mas... o que está acontecendo por aqui? Enlouqueceram todos?

O que está acontecendo explica-se, pelo menos em parte, porque se pode ler qualquer coisa, e também o contrário, nesse acordo (voltarei a isso, adiante) e também porque a imprensa-empresa ocidental existe para apresentar todos e quaisquer acordos como triunfo da potência, da diplomacia e das sanções do “ocidente”. Não passa de total, completo nonsense, é claro, mas é o que encontra quem se exponha à imprensa-empresa. Assim sendo, deixemos de lado as “declarações” e usemos o cérebro para realmente *pensar*.

Primeiro, devo relembrar aos presentes que a Junta golpista na Ucrânia até hoje rompeu todos os acordos que assinou. Todos, sem faltar um. E não há absolutamente motivo algum para acreditar que dessa vez será diferente.

Segundo, Poroshenko pode prometer o que bem entenda, mas o verdadeiro poder na “Ucrânia independente” é Tio Sam & a gangue de “Maidanitas” que Tio Sam sustenta.

Terceiro, por que, diabos, alguém imagina que Merkel e Hollande sentiram de repente uma poderosa pulsão para “coçar aquela coceira diplomática” lá deles, e decidiram intervir? Teria a aquela pulsão repentina algo a ver com um local chamado Debaltsevo? Se sim, o que dispõe o Acordo Minsk-2 sobre Debaltsevo? Acertou quem disse *NADA*.

Quarto, o acordo sequer foi assinado por Poroshenko. Quem assinou foi Kuchma, pela Ucrânia.

Quinto, releiam o item abaixo (11) do acordo:

(11) Restaurar o total controle pelo governo ucraniano sobre a fronteira do país em toda a zona de conflito, que tem de começar no primeiro dia depois da eleição local e terminar depois da plena regulação política (eleições políticas particularmente nos Oblasts de Donetsk e Luhansk baseadas na lei da Ucrânia e reforma Constitucional) ao final de 2015, como condição para o cumprimento do item 11 – em consultas e de acordo com representantes nos Oblasts de Donetsk e Lugansk, no quadro do Grupo de Contato Trilateral.

Putin, Hollande, Merkel e Porô; lunch em Minsk
Estão vendo o que eu vejo? Esqueçam que a fronteira só voltará ao controle de Kiev depois de “algo” acontecer. Concentrem-se no “algo” propriamente dito: além de eleições... uma reforma constitucional em consultas e de acordo com líderes novorrussos! Alguém aí acredita seriamente que o Parlamento Ucraniano participará em coisa alguma que se pareça, mesmo de longe, com o que aí se lê? Liashko? Farion? Tsiagnibok e Iarosh, todos trabalhando unidos com os “morenos subumanos” do Donbass, para mudar a Constituição da Ucrânia? Nunca acontecerá!

Até aqui, em resumo, já temos que o Acordo Minsk-2:

1) foi assinado por alguém sem autoridade;
2) em nome de uma Junta golpista que não tem poder algum;
3) nada diz sobre a principal razão que levou ao encontro em Minsk; e
4) contém “disposições” claramente impossíveis.

O que mais, então, contém o texto brilhantíssimo? Na verdade há uma pequena seção do documento que contém um elemento realista: o cessar-fogo seguido da retirada das armas pesadas. Aí está. É o que se aproveita. O resto é completo nonsense. Vejam, item a item:

#(5): eleições locais organizadas pela Junta e novorrussos juntos. Nonsense.
#(5): eleições, se tudo isso aí acontecer antes. Dado que nada disso jamais acontecerá, nunca haverá eleição alguma.
#(7): perdões e anistias. Anistia geral para todos os crimes de guerra (incluindo o ataque contra o avião malaio MH-17 e o “churrasco” de Odessa). Repugnante.
#(8): troca de “todos por todos”. Problema, só, que muitos prisioneiros foram mortos nas mãos da Junta, há muito tempo.
#(9): assistência humanitária. Item oco: a ajuda já está chegando.
#(10): pagamento de pensões: a Junta não tem dinheiro. Nunca acontecerá.
#(12): retirada de todas as forças estrangeiras. Nonsense: as forças dos países da OTAN que lá estão lá continuarão; os que não estão (cerca de 9 mil soldados russos) não podem “sair”, porque, para começar, nunca lá entraram.
#(13): reforma Constitucional. Nunca acontecerá.
#(13): reforma Constitucional incluindo a criação de unidades de Milícia Popular. \o/ \o/ [rindo muito!] – Aparentemente, esse será o novo nome das Forças Armadas da Novorrússia.
#(13): Criação de “grupos de trabalho”. ‘Tá bom. Certo. Vão sonhando.

Ukies (azul) cercados por novorrussos (vermelho) em Debaltsevo
(clique na imagem para aumentar)
Fato é que o mais interessante sobre Minsk-2 não é o que ele diz, mas o que NÃO diz:

1) nem uma palavra sobre Debaltsevo;
2) nem uma palavra sobre a junta realmente sentar, algum dia, para negociar com as autoridades novorrussas;
3) nem uma palavra sobre o futuro status da Ucrânia;
4) nem uma palavra sobre a economia da Ucrânia (que continua em queda livre);
5) nem uma palavra sobre forças de paz (indispensáveis para que qualquer cessar-fogo seja efetivo);
6) nem uma palavra sobre o fato de que os novorrussos não são “terroristas”, mas combatentes que lutam pela independência nacional. Poroshenko nunca falou diretamente com eles.

É possível que essas questões tenham sido de fato discutidas, mas essa parte das discussões não será divulgada para o grande público. Deve haver cláusulas secretas no Acordo Minsk-2.

Contudo, é perfeitamente provável, também que essas questões tenham sido discutidas, sem que se chegasse a qualquer tipo de acordo; por isso, foram deixadas de lado, sem que se fale delas.

Mas se nada de realmente importante foi decidido, por que tantos participaram tão ‘publicamente’ desse exercício? Fácil: porque todos os presentes arrancaram alguma coisinha desse acordo (assumindo-se que o que apareceu no Acordo Minsk-2 seja realmente implementado):

1) Os novorrussos:

a) uma pausa nos ataques de terroristas da Junta, contra cidades novorrussas;
b) o reconhecimento da linha de contato;
c) garantia de que o Voentorg permanece aberto (controle da fronteira);
d) tempo para mobilizar e treinar seus planejados 100 mil combatentes extras;
e) o reconhecimento por todas as partes (inclusive pelos europeus), de que merecem status especial.

2) Poroshenko:

a) apoio visível e simbólico a líderes mundiais;
b) suspensão no avanço das tropas novorrussas;
c) uma vaga esperança de que as forças da Junta, sitiadas em Debaltsevo, serão autorizadas a escapar de lá;
d) dinheiro do FMI (nem perto de suficiente, mas melhor que nada).

3) Merkel e Hollande:

a) a ilusão de que haveria política externa relevante, na União Europeia;
b) a esperança (que provavelmente dará em nada) de conseguir deter os norte-americanos pirados;
c) a esperança de aplacar a guerra econômica com a Rússia (Mistrals?)

4) Putin:

a) o direito de controlar a fronteira, até que se façam reformas constitucionais, quer dizer, ad aeternum
b) o reconhecimento de que, sem ele, nenhuma solução pode ser encontrada; 
c) esperança de algum suavizamento nas sanções.

Petro Poroshenko "pensa" que governa...
Todos obtiveram o que queriam e saíram de lá com um sorriso nos lábios. Bom para eles, mas nada disso muda coisa alguma na direção de resolver o conflito ou implica sequer o começo de alguma solução.

A realidade é que nada aconteceu em Minsk, nada, pelo menos, que tivesse qualquer importância. Os novorrussos venceram a mais recente batalha (outra vez), e podem sair de lá numa posição de força; e conseguiram que a Junta prometesse suspender o bombardeamento ensandecido. E dado que Debaltsevo sequer foi mencionada, parece-me que as forças da Junta que estão sitiadas naquela região serão autorizadas a sair de lá com o rabo entre as pernas, deixando para trás todas as armas. Significa que o caldeirão de Debaltsevo será controlado pela Novorrússia.

Putin obteve reconhecimento político e a esperança, pelo menos, de que não virão novas sanções (lembrem que, depois de Minsk-1, a União Europeia imediatamente impôs novas sanções contra a Rússia). Os europeus também arrancaram seu bocadinho, sobretudo melhoria no campo das Relações Públicas. O grande perdedor, definitivamente, é Poroshenko que, agora, tem a missão impossível de “vender” o acordo Minsk-2 a um Parlamento totalmente ensandecido (o qual, por falar dele, está atualmente apreciando um projeto de lei apresentado pelo partido de Poroshenko, que converte em crime qualquer desmentido da “agressão russa” contra a Ucrânia).

Conclusão:

Como num jogo de xadrez, o tempo é fator crítico. O acordo Minsk-2 deu a todos um pouco de tempo, mas o conflito voltará, e a única coisa que porá fim a esse conflito será o duplo colapso, da economia e das forças armadas da Ucrânia – que, me parece, acontecerá nesse verão. Até lá, o conflito permanecerá mais ou menos “congelado”, e só acreditarei que a Junta retirou seus armamentos pesados se/quando eu vir a coisa acontecer. Além do quê, lembrem, se pode combater muito bem com tanques, morteiros e infantaria.

O Banderastão nazista e a Novorrússia são projetos civilizacionais completamente diferentes, que não podem e jamais conviverão sob um mesmo teto. Sim, por razões táticas, pode ser necessário fingir que seja possível, mas a realidade é que não é e jamais será. O único modo de manter a Novorrússia dentro da Ucrânia é desnazificar a Ucrânia. E até que seja desnazificada, a Novorrússia não voltará a ser parte da Ucrânia.

Nazis do Banderastão (Ukies) desfilam em Kiev
Esse é fato muito duro, que ninguém no ocidente está disposto a aceitar. Em Kiev, eles entendem perfeitamente que é assim, mas a “solução” deles é esvaziar a Novorrússia, com “limpeza étnica” de todos os novorrussos, para entregar esse muito necessário Lebensraum à Raça Superior do oeste da Ucrânia. E, isso, a Rússia nunca admitirá que aconteça. Assim, só restam dois resultados possíveis: a União Europeia cede, e a Ucrânia é desnazificada; ou os EUA iniciam guerra total contra a Rússia, em tentativa alucinada para impedir que se confirme o outro resultado.

Mais duas coisas que quero mencionar aqui:

Em termos puramente militares, a retirada de armamento pesado é vantagem integral para a Novorrússia. Não esqueçam que Kiev usou esses sistemas para tentar aterrorizar a população de novorrussos, e os novorrussos usavam a própria artilharia para tentar desarmar a artilharia da Junta. Os novorrussos não poderiam nunca usar a própria artilharia para atacar, porque estão lutando para libertar o próprio país e não querem assassinar os próprios civis.

Assim sendo, em outras palavras, se os dois lados realmente retirarem seus armamentos pesados, a Junta golpista perderá uma capacidade crucial; e os novorrussos perderão uma capacidade praticamente sem qualquer serventia.

Resposta curta à turma do “Putin entregou o jogo”: pessoal, tenho ignorado até aqui a repetição hipnotizada de vocês, que só fazem repetir slogans de “Putin afinou”, “Putin apunhalou a Novorrússia pelas costas” etc.. Um fato é incontestável: ninguém aí jamais encontrou um dado, uma evidência, um argumento, um, que fosse, baseado em pensamento racional, lógico, e análise coerente, que comprovasse o que vocês pensam que sabem. Repetir mantras é ótimo para os yoguis, mas, cá no meu blog, não faz vocês parecerem nem um pouco mais espertos. Deixo que postem as bobagens de vocês aqui, porque “por que não?”, mas, por favor, não tomem minha atitude como sinal de qualquer respeito pelo nonsense que vocês cospem.

A principal razão pela qual não respondo e desmonto os “argumentos” de vocês é que o tempo, que nunca falha, acabará com vocês mais completa e irremissivelmente do que eu jamais conseguiria. E será mais duro de engolir, para vocês, se forem desmoralizados não por argumentos meus, mas por fatos em campo (como aconteceu com os que viviam a cacarejar que Putin traíra Assad e a Síria quando, como vocês diziam, “tirou-lhes a única arma de contenção contra as armas nucleares israelenses”).

Seja como for, se precisam manter ativado o mantra de hipnotizar que tanto apreciam, saibam que, aqui, o mantra só os faz parecer mais idiotas a cada dia. E, considerando que há por aí alguns blogs, embora menos, a cada dia, que “pensam” (digamos), como vocês, considerem a possibilidade de “comentar” naqueles blogs, não no meu. São blogs nos quais vocês serão aplaudidos de pé a qualquer slogan de repetição que repitam, sobretudo se vocês os enunciarem em tom muito-macho, absolutamente sem nuances, chapados. Por que vocês insistem em sofrer aqui, quando há esses “paraísos de consenso” por aí? Pensem, pelo menos, em mudarem-se para lá, OK? :-)

Por agora, é isso. Estarei na estrada amanhã até o fim do dia. Recebam esse postado como um “open thread” e um “até logo”, até sábado, se Deus quiser. Saudações.

The Saker 
PS: charge enviada por um amigo (coragem, pessoal, venceremos!)


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Ucrânia: Guerra em Kiev e p’rá lá de Kiev?

22/1/2015, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Ônibus atacado pelos "ukies" em Donetsk
no Distrito de Leninsky - 13 mortos
Hoje, finalmente, o governo ucraniano admitiu, três dias depois de ter acontecido, que perdeu posições e o controle sobre o aeroporto de Donetsk. Aquelas posições no aeroporto davam cobertura às posições controladas pela artilharia ucraniana no noroeste de Donetsk. Aquelas posições de artilharia estavam  bombardeando a cidade, que os federalistas controlam; e os federalistas atacaram o aeroporto, para deslocá-las de lá.

Segundo estatísticas fornecidas a VICE News pelo necrotério, registraram-se 157 mortos em Donetsk desde o início de janeiro, 119 das quais nas duas últimas semanas.

Demorou para que os federalistas finalmente conseguissem ocupar todo o aeroporto. Vários contra-ataques pelo exército ucraniano foram repelidos, e as forças contra-atacantes foram destruídas.

Partes do aeroporto foram controlados durante meses pelos radicais “voluntários” do Partido Setor Direita (Pravy Sektor), que agora formam a “Guarda Nacional” da Ucrânia. O 3º nome na lista eleitoral do Partido foi capturado pelos federalistas, e o líder daqueles radicais, Dmytro Yarosh, foi ferido quando inspecionada a posição dos neonazistas no aeroporto.

Tem havido combates não decisivos mais ao sul, perto de Mariupol, e luta no nordeste, perto de Lugansk, com os federalistas obtendo alguns pequenos avanços. Mas o mapa geral não mudou muito nos últimos meses.

O exército ucraniano continua a recrutar e, com a ajuda de alguns membros da OTAN, está reunindo maiores forças. Duvido muito que tenham a motivação, o treinamento, equipamento ou comando indispensáveis para serem bem sucedidos em combate. Vovó não vai dar certo. Os soldados do lado oposto já se comprovaram melhores, em vários aspectos. Apesar de repetidas “declarações” do governo ucraniano, segundo as quais mil, 2 mil ou 9 mil soldados regulares e centenas de tanques russos estariam combatendo ao lado dos federalistas, nenhum desses foi jamais documentado.

Loja bombardeada pelos "ukies" em Donetsk
O exército ucraniano não pode vencer uma guerra contra os federalistas apoiados pela Rússia. O governo ucraniano está quebrado, e não acha quem o “resgate”. Por que tanto insiste em tentar fazer guerra?

Minha impressão é que os EUA continuam a empurrar o governo ucraniano para que mantenha seus inúteis esforços, para invalidar e tornar nulo qualquer acordo de cessar-fogo, liderado pela Europa, com a Rússia, e, assim, manter vigentes as sanções contra a Rússia. Guerra Fria 2.0 com ‘procuradores’ em guerra na Ucrânia é o plano dos EUA para impedir que a Rússia desafie a posição global de ‘eu-só-eu-e-mais-eu’, dos EUA.

Todo o conflito parece basear-se em planos de mais longo prazo:

Soldados norte-americanos serão deslocados para a Ucrânia nessa primavera, para começar a treinar quatro companhias da Guarda Nacional Ucraniana, disse o comandante do Exército dos EUA na Europa, tenente-general Ben Hodges, durante visita a Kiev na 4ª-feira (21/1/2015).

Mas o número de soldados que será deslocado para a Área de treinamento de Yavoriv, próxima da cidade de L'viv — a cerca de 100km da fronteira da Polônia – ainda não foi fixado.

Hmmmm. A Guarda Nacional Ucraniana é constituída principalmente de unidades fascistas, responsáveis pelas matanças na Praça Maidan, que levaram ao golpe contra o governo eleito na Ucrânia. É a capital ucraniana ocidental dos fascistas ucranianos. Por que militares dos EUA treinariam aquelas unidades perto de Lviv, quando o exército ucraniano regular está tão óbvia e visivelmente carecendo de treinamento?! Por que treiná-los na próxima primavera se o conflito, com um pouco de boa vontade dos dois lados, pode estar resolvido em um, dois meses?

 Zakharchenko tuitou a destruição das baterias
"ukies" que bombardeavam áreas civis em Donetsk

(clique na imagem para aumentar) 
A experiência ensina que sempre que os EUA anunciam oficialmente que iniciarão treinamento em tal mês e em tal lugar, já está em andamento algum treinamento completamente não oficial e muitas vezes clandestino.

Tenho zero dúvidas de que forças especiais dos EUA, provavelmente disfarçadas como “empresários fornecedores [de qualquer coisa] contratados”, já estão treinando unidades ucranianas semi-irregulares. Uma vez que a guerra convencional não parece ajudar a causa do governo ucraniano, aquelas unidades provavelmente estarão sendo preparadas para guerra ainda mais suja.

Há, de fato, sinais de que já há ação de comandos locais de “guerrilha” [orig. partisan warfare] contra os federalistas. Hoje, foram disparados morteiros em áreas civis de Donetsk, que atingiram um ônibus e mataram 13 pessoas. Diferentes dos morteiros da artilharia regular, esses morteiros são armas de curto alcance. Os que os dispararam estavam dentro de área predominantemente federalista, mas não fortemente controlada. Escrevendo de Donestk, Alec Luhn, do The Guardian, tuitou hoje:

Comandos locais de guerrilha? Batalhão Dnipro-1 diz que comandos locais na região de Lugansk explodiram um trem carregado de carvão para a Rússia.

Se estiver acontecendo o que desconfio que esteja, e essas unidades semirregulares do governo ucraniano estiverem fazendo guerra-de-guerrilhas em regiões controladas pelos federalistas, então a resposta óbvia dos federalistas será despachar unidades semelhantes para áreas controladas pelo governo ucraniano. Significa guerra em Kiev e p’rá lá de Kiev.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como“Whisky Bar ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP) 8/10/2014, 16h UTC/Zulu


A calma antes da tempestade?

8/10/2014, The SakerThe Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no Quiosque do Barrossorto na Vila Vudu:
(Voz fina) — Cróóóóóózes! Tire o fracking e ponha o pré-sal e... Socorro! A Ucrânia é aqui! Aécim é uma espécie de “Yats”, que os EUA querem plantar aqui!”
(Voz grossa) — Acho que o Aécim tá mais é pra Yéltsin...

The Saker
Situação militar

A situação na Ucrânia e Novorússia é muito tensa e pode levar ao reinício das hostilidades.

As Forças de Repressão da Junta (FRJ) usaram o cessar-fogo para lamber as feridas, reorganizar-se, concentrar as forças, trazer os reforços muito necessários, preparar fortificações defensivas e trazer para perto novas unidades. As Forças Armadas da Novorússia (FAN fizeram o mesmo, mas, diferentes das FRJ, as FAN sofrem de falta de equipamento, situação tornada possivelmente ainda pior pela redução no fluxo de armas, particularmente armas pesadas, da Rússia (que chegavam pelo chamado voentorg). Em termos de pessoal, o influxo de voluntários para as Forças de Defesa da Novorússia (FDN) manteve-se forte e contínuo.

Por que Moscou fechou a válvula do respiradouro para a Novorrússia?

Pode haver inúmeras razões, mas as três principais são, provavelmente:

1. Um modo de pressionar a liderança novorussa a respeitar o cessar-fogo e para lembrá-los de que não podem ignorar a posição do Kremlin.
2. Para negar aos anglo-sionistas qualquer possibilidade de encontrarem alguma prova dovoentorg.
3. Para mostrar aos europeus: “Viram bem? Estamos cumprindo nossa parte no acordo, mas a Junta, não”.

O item 3, por falar dele, é absoluta verdade.

Embora o aeroporto de Donetsk tenha sido finalmente “tomado”, não porque “todos os Ukiesforam mortos”, mas porque “todo o sistema de artilharia dos Ukies foi destruído”, porque é isso que interessa a Donetsk), as FRJ continuam a bombardear a cidade ao norte, a oeste e a sudoeste. E há muito preocupantes sinais de que as FRJ preparam-se para tentar cercar Gorlovka.

7/10/2014, Mapa dos combates 
(clique na imagem para aumentar)

Enquanto isso, as FAN recolheram as unidades que haviam seguido para o extremo norte e até para oeste de Mariupol e o “front sul” tem agora formato muito mais defensável, como se viu no mapa anterior (aqui, uma versão de mais alta resolução).

A linha de frente não se moveu durante o cessar-fogo. As FAN fizeram alguns avanços locais, as FRJ retrocederam em algumas locações, mas em geral a linha de contato permaneceu a mesma e está sendo usada como uma base para o desenvolvimento de um plano de desengajamento preparado por especialistas ucranianos, da Organização de Segurança e Coordenação da Europa (OSCE), novorussos e russos. Na verdade, há hoje oficialmente 80 oficiais russos no Donbass (convidados por Kiev) que estão participando do desenvolvimento da planejada “zona neutra” entre os dois lados. Esse fato em si, muitíssimo interessante como é hoje, mostra que EUA, União Europeia, OSCE e a Junta tiveram de desistir do que insistiam em repetir, que os russos não teriam voz nem status num “processo ucraniano interno e soberano”.

Outro desenvolvimento muito interessante foi a oferta do presidente Lukashenko, da Bielorrússia, que se dispôs a enviar soldados mantenedores da paz, o que as autoridades novorussas imediatamente aceitaram. Até aqui, ainda não está oficialmente sobre a mesa, mas a oferta é interessante pelas seguintes razões:

1. Os bielorrussos têm exército extremamente forte, bem treinado e bem equipado e podem ser força robusta e eficaz para manter a paz.

2. As forças armadas bielorrussas são extremamente próximas das forças armadas russas e, para todas as finalidades práticas, são uma só entidade. Assim, ambos, novorussos e russos, podem confiar nos bielorrussos.

3. Por mais que Lukashenko não passe de bocó que volta e meia faz declarações bizarras e contraditórias, ele também é homem que sabe ver o escore do jogo e que permanecerá leal à Rússia e à Organização do Tratado de Segurança Coletiva [orig. Collective Security Treaty Organisation (CSTO)].

Em outras palavras, trazer os bielorrussos como mantenedores da paz – pode bem significar o fim de quaisquer esperanças que os Ukies ainda tivessem de reconquistar o Donbass. Isso, contudo, pode significar o fim de qualquer esperança que os novorussos tenham de libertar a Novorússia ocupada pela Junta.

O cessar-fogo será mantido?

Não sei, mas tenho confiança que os novorussos não serão os primeiros a quebrá-lo. A maioria dos novorussos odeia esse cessar-fogo, mas também compreendem que há questões políticas maiores a serem consideradas, e que eles simplesmente não podem desafiar Moscou. Quanto ao Kremlin, sua posição parece ser que o “Plano A” é tirar o máximo proveito do cessar-fogo; e o “Plano B” e assegurar que todo o peso político de um eventual reinício das hostilidades caia sobre os Ukies.

Examinando a mídia russa (empresas-imprensa e as redes sociais), eu diria que:

1. Há amplo consenso na Rússia, de que os novorussos ganharam o direito de serem libertados de Kiev. Claro que muitos (a maioria?) russos compreendem que a Novorússia pode ter de permanecer formalmente como parte de uma Ucrânia unitária, mas só formalmente, não de forma significativa; e só temporariamente. Bom exemplo é a análise desse blogueiro (em russo e em tradução automática ao inglês).

2. Ninguém na Rússia confia na Junta ou em Poroshenko. Há um consenso de que o único modo de manter segura a Novorússia é torná-la militarmente forte para resistir a qualquer possível ataque ucraniano.

3. O campo Dugin-Limonov perdeu a guerra de Relações Públicas e pouca gente ainda defende qualquer tipo de intervenção militar declarada. Mas isso pode mudar muito rapidamente, se as FRJ romperem o cessar-fogo e atacarem.

4. O campo dito “liberal” (no sentido russo) apoiado pela CIA está em total desarranjo. Exceto o canal de TV Dozhd ou a rádio Ekho Moskvy, ninguém mais os leva a sério, e quando um de seus representantes aparece na TV, acaba destripado em poucos minutos por outros entrevistados.

Concluo, de tudo isso, que a Rússia está “pronta para o pulo”: se os Ukies rompem o cessar-fogo e atacam massivamente, o “respiradouro-voentorg” será imediatamente reaberto e fluirá livremente; se os Ukies tiverem sucesso e se as FAN não conseguirem mesmo resistir ao assalto, a Rússia intervirá diretamente outra vez, como fez em agosto. Se a Novorússia for realmente ameaçada, Putin enviará abertamente militares russos (embora só venha a fazer isso se não lhe restar absolutamente nenhuma outra opção).

Situação política: Banderastão

A situação na Ucrânia ocupada pela Junta (também chamada “Banderastão”) é do mais completo caos. Violência (política e criminal) por toda parte, e o estado, pode-se dizer, deixou de funcionar. Considere-se por exemplo a destruição de várias estátuas de Lênin.

Primeiro, para começar, o fato de que estejam sendo destruídas já é exemplo eloquente de o quanto os Ukies são ignorantes, porque foi Lênin quem criou a Ucrânia como estado; Stálin depois acrescentou o oeste da Ucrânia; e Krushchev deu a Crimeia aos Ukies. Assim, podem repetir sempre o mesmo slogan “Комуняку на гілляку” (“comunistas para os galhos”, no sentido de que os comunistas devem ser enforcados), mas a realidade não se altera: a Ucrânia moderna é entidade 100% montada pelos comunistas (...). Mas o ponto principal é que a destruição dessas estátuas mostra que já não há qualquer lei ou ordem, e que as gangues de rua são a única “autoridade restante”.

Segundo, há clãs que lutam uns contra outros dentro da Junta (Poroshenko  vs  Kolomoiski  vs Liashko vs Iarosh vs Tymoshenko etc.), mas não resta nenhuma real oposição. Ou, pelo menos, acho que se pode dizer que já não resta qualquer oposição real.

Elena Bondarenko

Depois do brutal ataque ao Deputado Nestor Shufrich (que está hospitalizado), só restam duas figuras de oposição, mais ou menos bem conhecidas: Elena Bondarenko e Nikolai Levchenko, ambos, como Shufrich, do Partido das Regiões. Bondarenko foi abertamente ameaçada pelo Ministro de Relações Exteriores, que realmente disse o seguinte, na TV Ukie:

Quando a ouço falar, minha mão vai direto para a minha pistola.

Palavras, em público, de uma alta autoridade no Banderastão!

Elena Bondarenko
Na verdade, muito me preocupa a segurança pessoal dela; depois que se recusou a participar da próxima farsa eleitoral dos Ukie, sua vida está absolutamente sob risco; o mais provável é que ela já tenha escapado para a Rússia ou a Crimeia.

Nikolai Levchenko

A outra figura destacada na “oposição” é Nikolai Levchenko, deputado também do Partido das Regiões frequentemente associado ao oligarca Rinat Akhmetov. Levchenko, que foi eleito no Donbass, é especialmente odiado por muitos comandantes de campo novorussos, porque se opõe às FRJ e às FAN, e porque várias vezes já disse que esses dois lados são o mesmo lado. Mas ninguém sabe se Levchenko acredita sinceramente que a resistência armada só faz piorar tudo, ou se apenas fala pelos interesses financeiros de Rinat Akhmetov. O que posso dizer é que ele se opôs abertamente à Junta neonazista no Parlamento, e que, por causa disso, já foi atacado e agredido. Bondarenko também se atreveu a desafiar abertamente a JuntaUkie em seus discursos no Parlamento e foi arrancada à força da tribuna, mas não foi (ainda?) espancada.

Importante destacar aqui que esses dois, Bondarenko e Levchenko, são ucranianos leais – culpam em parte os novorussos pela violência reinante, e também rejeitaram a reintegração da Crimeia à Rússia, que culpam pelas políticas alucinadas de Kiev.

Se o Ocidente operasse com alguma decência (ou com alguma inteligência!), essas seriam as pessoas a serem apoiadas. Mas agora já é tarde demais, e pessoas como Bondarenko e Levchenko simplesmente já perderam as respectivas bases eleitorais; seus antigos eleitores que, hoje, não só rejeitam a posição “moderada” dos dois, como, também, enfrentam o destino de terem de deixar a Ucrânia e já não estão preocupados com eleições para o Parlamento.

Que eu saiba, nem Levchenko, nem Bondarenko concorrerão às próximas “eleições” que os dois já disseram que consideram total farsa (e, além do mais, dado que o Donbass não participará dessas eleições, que sentido faria a candidatura dos dois?).

Nikolai Levchenko
Quanto ao Partido Comunista Ucraniano, já está hoje basicamente na clandestinidade; vários de seus membros foram atacados, ameaçados e assassinados.

A triste, mas inegável realidade, é que não há oposição no Banderastão; só vários clãs e várias “tendências”, em que se combinam interesses dos neonazistas e dos oligarcas.

O Banderastão portanto não tem futuro político do qual se possa falar. Mas, de fato, não tem tampouco futuro econômico, cultural, social, ou qualquer outro tipo de futuro. A única dúvida é se o país acabará mais parecido com o Haiti, a Somália ou o Iraque. Em matéria de futuro, a única coisa certa agora é que o inverno será terrível e violento.

Situação política: Novorússia

Continua a luta interna, na Novorússia, entre líderes políticos e comandantes militares em campo. No melhor dos casos, alguns deles simplesmente ignoram todos os demais (Khodakovski ou os líderes cossacos); no pior, combatem diretamente uns contra outros (Bezler e Zakharchenko). Na verdade, parece que Zakharchenko renunciou, depois a renúncia foi retirada.

Por que continuam essas lutas internas?

Há várias razões, dentre as quais:

1) O acordo de cessar-fogo é extremamente controverso e, embora não satisfaça a ninguém na Novorússia, o grau de oposição varia de pessoa para pessoa.

2) Embora Strelkov tenha tentado com real empenho converter uma insurgência de milicianos voluntários num exército regular, não teve tempo suficiente e, embora a coordenação puramente militar tenha melhorado (ao que se sabe com a cooperação de especialistas do exército russo), continua a faltar unidade política.

3) Há também as próximas eleições na Novorússia, e alguns políticos (Zakharchenko, Gubarev) sentem que têm de assumir posição politicamente correta.

4) O fato de que os interesses objetivos de russos e novorussos não sejam um e o mesmo também exacerba a questão de quem obterá ajuda dos russos.

5) Alguns comandantes militares de campo novorussos (Mozgovoi?) sentem que todo esse circo político é inútil, e que a Novorússia tem de ser governada por aqueles que a libertaram: os militares. Obviamente, não é posição que seduza os políticos civis.

6) A briga dentro da Rússia, entre “Integracionistas Atlanticistas” e “Soberanistas Eurasianos” está como que respingando para a Novorússia.

Resultado disso, eu diria que a Novorússia é sólida em termos militares e fraca em termos políticos. Além disso, ao contrário do que eu esperava, Strelkov não teve grande impacto na cena política russa e, pelo menos até agora, permanece relativamente recluso. Não tenho explicação para isso.

Conclusão:

Por um lado, o cessar-fogo está sendo constantemente e cada vez mais violado. É com certeza possível um grande ataque Ukie. Por outro lado, o trabalho de criar uma zona intermediária entre os dois lados, que possivelmente envolva tropas estrangeiras, está sendo tocado ativamente, e o conflito pode ser temporariamente congelado ao longo da atual linha de contato. Os dois lados, o Banderastão e a Novorússia são politicamente fracos e nenhum está realmente sob a autoridade de uma pessoa ou de um grupo claro de pessoas.

Os próximos meses serão catastróficos para a Ucrânia ocupada pelos nazistas, e, bem literalmente, tudo é possível, incluindo uma 3ª Praça Maidan; golpe; insurreições locais, operações forjadas sob falsa bandeira, assassinatos e, claro, guerra.

De certo modo, a estúpida trincheira-pré-muro que os Ukies estão construindo ao longo da fronteira com Novorússia, Rússia e Transnistria talvez acabe por proteger os vizinhos do Banderastão, da explosão que está para acontecer ali.

The Saker