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quarta-feira, 29 de abril de 2015

Sobre guerra e xadrez

15/4/2015, [*] Rostislav Ishchenko – The Vineyard of the Saker
Traduzido do russo p/ inglês: Evgenia
Traduzido do inglês pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
Xadrez é jogo muito antigo, que reproduz ações militares com acuidade invejável. O desenvolvimento da tecnologia da computação permitiu que se criassem coloridos jogos de estratégia, de computador, nos melhores dos quais se alcança a vitória equilibrando vários parâmetros (incluindo economia, recursos naturais e outros). Mas nenhum desses jogos chega sequer perto de reproduzir a situação estratégica real, no nível em que é reproduzida num um simples jogo de xadrez.

Até o desenvolvimento da teoria do xadrez é idêntico ao desenvolvimento do pensamento militar. As partidas jogadas há 200, 300 anos por grandes jogadores de xadrez e campeões afamados impressionam muitas vezes pela simplicidade; o que eles descobriram é hoje já muito bem sabido por qualquer enxadrista principiante. Assim também, as descobertas táticas e estratégicas de Miltiades e Epaminondas; Ciro, O Grande; Alexandre, O Grande; Aníbal e Cesar, que, hoje, são bem conhecidas de qualquer aluno, não só de academia militar, mas também do Colégio Militar Suvorov.

Nem por isso esses conhecimentos resultam em número maior de grandes líderes militares ou de grandes jogadores de xadrez. Já se percebeu há muito tempo, e não fomos nós que descobrimos, que aderência estrita às regras do jogo, seja no xadrez seja nas atividades militares muitas vezes resulta em vitória sobre oponente mais fraco, mas leva apenas ao empate (o famoso impasse posicional da 1ª Guerra, ou as infindáveis manobras sem sentido dos exércitos europeus no século 18) em confronto contra oponente que tenha recursos comparáveis e treinamento teórico assemelhado.

Vitórias realmente grandes, vitórias nas quais forças mais fracas ou iguais esmagam o inimigo, só são possíveis se se quebram regras. Nesse sentido, o xadrez e a teoria militar podem ser descritos numa mesma e única frase: “Quem não assume riscos não bebe Champanhe”. Maior o risco, mais completa a vitória; mas se acontece de o inimigo ser mais talentoso (ou ter, simplesmente, mais sorte), nesse caso a derrota do ousado-temerário será devastadora.

Para vencer, é indispensável abrir a posição no momento certo e então se manter sempre à frente do oponente, tomando mais rapidamente decisões mais consistentes. Um grande jogador de xadrez, como um grande comandante militar, pode encontrar o momento certo quando o empate posicional previsto à frente tem de ser convertido num não-sabido que não pode ser calculado com precisão. Confiança nos primeiros três passos, rapidez e intuição trazem a vitória. Contudo, para fazer esse jogo, o(a) jogador(a) tem de estar perfeitamente seguro(a) de si mesmo(a) e dos próprios recursos.

Diz-se que guerra é uma extensão da política por outros meios. Na verdade, guerra é política em sua forma mais pura, concentrada e não mascarada por convenções diplomáticas nem desinformações ‘jornalísticas’. Estados não são gente. Gente pode ser amiga sincera de gente. Estados, até quando amistosos, mesmo assim são destinados a lutar por poder e domínio (ou por melhores condições para seus cidadãos). O aliado de hoje é o concorrente de amanhã (ou vice-versa).

Significa que o básico da estratégia militar (ou do xadrez) é aplicável para descrever todas as rotinas globais diárias. É importante ter em mente, contudo, que um jogador de xadrez tem de operar com um número limitado de peças que podem compor número limitado de combinações possíveis. Um comandante militar em campanha lida com número muito maior de fatores que tem de levar em consideração e calcular, afora os fatores não sabidos e imprevisíveis. Há também dezenas e centenas de milhares, talvez milhões, de opiniões subjetivas e desejos individuais dos seus subordinados, além de ocorrências inesperadas como súbitas mudanças de temperatura ou de traços da paisagem não registrados nos mapas, etc. Apesar disso tudo, em geral o comandante militar também lida com número finito de combinações, que podem ser calculadas mais ou menos acuradamente (por mais que a sorte, nesse caso, tenha papel muito significativo).

Na política, só se podem calcular tendências. Os resultados das ações planejadas e executadas por você ou por seu adversário só podem ser apreciados em termos de probabilidades, porque bilhões de livres desejos da humanidade, além de qualidades individuais imprevisíveis e possíveis reações a esse ou outro estímulo de dezenas de milhares de políticos e funcionários públicos, que determinam a implementação de cada ação, levam os resultados de suas decisões para o reino das coisas desejadas, não das coisas garantidas. Isso exige correções continuadas nos planos e ações, de acordo com circunstâncias sempre em mudança.

Guerra e xadrez
Eis por que em política, diferente do jogo de xadrez e da ação militar, super exigir os recursos do oponente e distrair a atenção dele dos objetivos estratégicos críticos têm papel muito mais importante. Além disso, em política até o ponto mais insignificante pode tornar-se crítico e estratégico.

O que você faz, num jogo de xadrez, se você se descobre numa situação difícil, quando a posição do seu oponente é claramente mais forte? Você tenta encontrar um movimento que resulte em ameaça contra ele em outro ponto do tabuleiro, que possa crescer mais depressa do que o adversário consiga capitalizar a favor da posição vantajosa em que ele está. Mas suas posições podem ser calculadas e em muitos casos é possível dizer quem está ganhando e quem está perdendo, assumindo basicamente os movimentos certos.

Um comandante militar que se vê com uma crise nas mãos e sem recursos para responder a ela, age de modo bem semelhante. Tenta criar para seu oponente uma dificuldade noutra área, e pode até chegar à vitória, se consegue passar à frente do inimigo ou se força o oponente a parar sua operação bem-sucedida porque tem de usar os recursos para enfrentar o problema recém surgido. Na maioria dos casos desse tipo, é impossível prever quem vencerá. Quando os recursos são mais ou menos comparáveis, há excesso de fatores não conhecidos que influenciam o resultado final. Por isso é que, numa guerra, não se assumem riscos que não sejam absolutamente inevitáveis, e a primeira coisa a fazer sempre é estabilizar a situação antes de pensar com dar andamento à operação ou preparar-se para operação nova.

Na política dão-se passos semelhantes. Mas nesse caso praticamente não há fatores conhecidos. Como já ficou dito acima, tudo o que se conhece são tendências e dinâmicas do processo. Sabe-se claramente quem está caindo, quem está subindo e onde está o ponto em que se cruzarão, se os vetores e as dinâmicas permanecerem estáveis. O resto é desconhecido. Essa é a razão pela qual políticos sábios, no governo de estados, tentam não provocar outros estados, uma vez que em algum momento os eventos podem escapar de qualquer controle, e engolir os políticos que iniciaram os eventos.

Além disso, não só a possibilidade de desenvolvimento incontrolável da situação é alarmante, mas também é alarmante a impossibilidade de prever-se o momento exato em que ocorrerá a perda de controle. Assim, em qualquer momento durante uma crise política, é impossível dizer se os líderes políticos ainda têm controle sobre os eventos ou se o ‘controle’ não passa de delírio-ilusão (dos próprios líderes, como também de qualquer outra pessoa).

Por isso, quanto maior o número de pontos críticos em que podem colidir os interesses dos atores chaves, mais ativas as tentativas que fazem para super exigir dos recursos do inimigo; mais perigosa fica a situação; e menores são as chances de manter controle adequado sobre os eventos. Nesse caso, além disso, o direito de tomar decisões estratégicas progressivamente cai para planos hierarquicamente inferiores (frequentemente sem notificação aos líderes nominais). Essa é a condição em que encontramos o mundo hoje.

Perdendo consistentemente em cada crise, os EUA criaram crise após crise, para distrair a atenção e tentar super exigir dos recursos de seus oponentes.

Compreendo que muitos digam que os EUA venceram na maioria das crises. Até dão exemplos: Hussein foi deposto no Iraque; Gaddafi, na Líbia; na Ucrânia, o regime nazista que chegou ao poder com a ajuda dos EUA controla grande parte do território. Mais exemplos há, e tudo parece muito bem parado. Mas há um problema: cada ação tinha um objetivo, que não é necessariamente o mesmo que hoje se vê no resultado.

Bank of BRICS
Os EUA com certeza não depuseram Hussein e Gaddafi para entregar o poder daqueles territórios ricos em jazidas de petróleo a islamistas extremistas. Tampouco levaram nazistas ao poder na Ucrânia porque estivessem preocupados com o bem-estar dos nazistas. Essas ações foram empreendidas com um e único objetivo em mente: alterar as tendências geopolíticas mundiais de enfraquecimento dos EUA e da União Europeia – com Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul (os países BRICS e outros menos visíveis, mas também economias em desenvolvimento) cada dia mais fortes.

O fim da dominação econômica pelo ocidente era processo visível e podia ser facilmente calculado no quadro do modelo global contemporâneo. Mas os EUA ainda conservaram uma gigantesca vantagem política e militar.

Usando esse seu trunfo, os EUA tentaram criar uma situação na qual os recursos de seus atuais e potenciais oponentes geopolíticos fossem consumidos mais depressa que os recursos dos EUA. Idealmente, os recursos dos EUA poderiam até aumentar à custa dos recursos dos seus oponentes. Em tal cenário, todos os problemas dos EUA estariam resolvidos.

Mas em praticamente nenhuma das áreas de crise, os EUA conseguiram induzir seus oponentes a super expor e super desgastar os próprios recursos, enquanto os próprios EUA, esses sim, comprometeram-se em novos gastos para apoiar os regimes que eles levaram ao poder. Implica dizer que os golpes vão muito-bem-muito-bom na superfície, por fora, tudo parece ótimo. Mas o objetivo estratégico não foi alcançado. Além disso, quanto mais espetacular parece o sucesso, pior é a situação real (despesas cada vez mais altas) e mais se aproxima a derrota final.

É muito similar ao que aconteceu a Napoleão em 1812 [havia um erro no original, nessa data, aqui já corrigido (NTs)]. Ele está avançando, os russos estão em retirada, mas não só não há vitória como, também, o Grande Exército está avançando rumo às entranhas da Rússia, e quanto mais avança, pior fica sua posição estratégica. Até que Napoleão entra em Moscou. Segundo todas as aparências, era a vitória. Imediatamente Napoleão mandou Lauriston para negociar com Kutuzov e Alexander I, com instruções para concluir a paz a qualquer custo (palavras chave: “a qualquer custo”). Tinha razão para a pressa: em outubro foi forçado a sair de Moscou; e em dezembro o Grande Exército já não existia.

A Ucrânia é a única região em que os EUA tiveram sucesso, embora apenas relativo. Por efeito da guerra civil, a Rússia está forçada a consumir alguns recursos para prover ajuda humanitária e dar apoio político e diplomático ao Donbass, além de ter de preparar-se para agravamento da situação política e militar em sua fronteira de sudoeste. Essa prontidão também consome recursos.

Apesar disso tudo, até mesmo na Ucrânia, os EUA estão gastando mais para manter no poder o regime de Kiev, do que a Rússia, para ajudar as repúblicas do Donbass. Adicionalmente, os EUA fracassaram no esforço para arrastar para o conflito a União Europeia. E ainda mais: nos últimos meses, a Europa só fez tentar afastar-se gradualmente dos EUA.

Assim sendo, considerados todos os vários conflitos caríssimos em que está metida, a posição de Washington nada tem de invejável. E absolutamente ninguém pode dizer que a situação geopolítica geral dê motivos para otimismo.

As guerras dos EUA
Primeiro, o fato de que os EUA promoveram guerras civis na Líbia, na Síria e no Iraque mostra que os norte-americanos optaram por queimar até as raízes a terra que não tem meios para conservar como sua. Washington concluiu que o fogo custa praticamente nada e ainda pode dar lucro, se manobrado corretamente. Até aqui as regiões que estão sendo queimadas ainda exigem que os EUA gastem dinheiro, mas é muito menos dinheiro do que seria necessário para manter regimes condicionalmente estáveis (palavra chave: “condicionalmente”) pró-EUA.

Segundo, ao promover a criação do estado nazista na Ucrânia, os EUA entraram em confronto direto com a Rússia. Independente do que digam os funcionários do governo em Moscou, é guerra. Guerra muito real de destruição, até aqui ainda sem contato direto entre os exércitos das superpotências (palavras chaves: “até aqui”).

É como se, no México, a Rússia instalasse no poder (mediante golpe armado) e passasse a apoiar ativamente, forças que declarassem que o principal objetivo delas era a devolução de todos os territórios que o México perdeu como resultado da guerra EUA-México de 1846-1848, e também das possessões espanholas na Flórida. Pode-se esperar que essa guerra permaneça como um tipo novo de guerra, mas as ações dos EUA estão empurrando a situação para um ponto em que ficará completamente fora de controle (fora do controle dos EUA). E não importa quem viva na Casa Branca ou o que pense sobre isso, essa guerra terá de ser guerreada, e os EUA terão de iniciar o Armagedon).

O terceiro ponto comprova isso. Tendo perdido tudo na Ucrânia (lembremo-nos de que os EUA consomem mais dos seus recursos em Kiev, do que a Rússia em Donetsk, quando o plano era conseguir o oposto disso), os EUA começaram a preparar-se para novo movimento no jogo, para desviar a atenção dos russos dos pontos em que os EUA são vulneráveis; para isso, tentaram atrair as atenções para novos perigos em novas direções.

Dado que já é óbvio que os gastos nas zonas de conflito que os EUA criaram impedirão que os EUA acumulem recursos para vencer a guerra (por recursos), o único movimento vencedor (e o empate é impossível nessa situação) seria destruir a Rússia. Quer dizer: para que os EUA conservem por mais algum tempo o domínio global, a Rússia tem de desaparecer (tem de desaparecer, no mínimo, a forma de Rússia que existe hoje).

Destruição mútua?
O único meio para conseguir esse resultado (exceto a mútua destruição garantida) é explodir o país de dentro para fora. Já se veem vários passos que são dados, obviamente, para alcançar esse objetivo. Especificados:

1. Continuam as tentativas para desacreditar os governantes russos.

2. São promovidas atividades de rua de todos os tipos (não necessariamente de tipo “cidadãos pela paz”) que possam gerar tumultos que levem a total ou parcial perda de controle sobre os eventos, pelas autoridades locais e em várias regiões (mas para começar basta que haja tumultos numa única grande cidade, a partir da qual os eventos desenvolvem-se exponencialmente).

3. Está em testes a viabilidade de os EUA desestabilizarem aliados da Rússia na União Econômica Eurasiana (os primeiros alvos são Armênia, Bielorrússia e Cazaquistão).

4. Estão em curso tentativas para criar áreas de conflito nas fronteiras da Rússia (estados do Báltico) ou nas regiões com presença russa (Transnistria).

5. E não se devem excluir provocações militares diretas (inclusive atos terroristas) contra territórios russos (Crimeia, região Krasnodar, regiões em torno da Ucrânia, região de Kaliningrado), conduzidas a partir de territórios de países vizinhos, com participação direta ou indireta (instrutores) de pessoal militar dos EUA e de alguns outros países da OTAN.

A Rússia está em posição que lhe permite superar essas ameaças. Mas os EUA sabem disso. Portanto, para que o jogo seja bem-sucedido, tem de ser jogado em “área de falta”. Significa que Moscou será posta em situações nas quais não conseguirá fazer o cálculo estratégico para definir se medidas tomadas para defender a própria soberania levarão ou não levarão a resposta militar dos EUA... ou se os EUA estão blefando. O mais perigoso de tudo é que Washington também nunca saberá se blefa, se fala sério.

Primeiro, porque em política o blefe só dá certo se você mesmo não tem muita certeza de que esteja blefando e mantém-se sempre pronto para a qualquer momento saltar da banda, para fora do contexto do blefe.

Segundo, na luta política, políticos que blefam sempre estão pressionados pelas tentativas dos oponentes para obrigá-los a admitir o blefe, admissão que pode roubar votos nas eleições seguintes.

Tudo isso significa exclusivamente o seguinte: os EUA estão condenados a continuar subindo as apostas do jogo. Não só por interesses econômicos ou de política exterior, mas também por causa da natureza da luta interna pelo poder dentro dos EUA.

Luta interna pelo poder
A situação política atingiu o ponto quando nenhum político individualmente, não importa o quanto seja poderoso e influente, pode dizer que controla os eventos. Os processos desenvolvem-se seguindo lógica própria deles mesmos.

Ainda é possível repor os eventos sob controle, mediante esforço coordenado da maioria das partes interessadas. Mas para que isso aconteça, é preciso que a Europa, pelo menos (e mesmo sem a Grã-Bretanha), una-se aos esforços de China e Rússia.

É importante compreender que a noção enxadrística de “aperto de tempo” (Zeitnot, quando o jogador é pressionado pelo tempo) não se aplica só ao jogo de xadrez. Interfere muito mais dramaticamente na atividade militar ou política. E nós estamos à beira desse “aperto de tempo”. Esperemos que o “aperto de tempo” não se some, agora, à situação de  Zugzwang (jogada obrigatória, que piora a situação do jogador).

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[*] Rostislav Shchenko é Presidente do Centro de Análise Sistemática e Previsões políticas da Ucrânia.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Três fronts para provocar guerra contra a Rússia: Washington pode incendiar o caos na Ásia Central

24/2/2015, [*] Ivan Lisan, Odnaka.org, The Vineyard of the Saker

Traduzido do russo para inglês por Robin
Traduzido  do inglês pelo pessoal da Vila Vudu


The Saker
A declaração do general norte-americano “Ben” Hodges, de que dentro de quatro ou cinco anos a Rússia pode desenvolver a capacidade para manter guerras simultâneas em três fronts não é só reconhecimento do crescente potencial militar da Federação Russa, mas, também, promessa-ameaça de que Washington lá estará, plantada precisamente em todos esses três fronts, bem ali, junto às fronteiras da Federação Russa.

Mapa da Federação russa e fronteiras
(clique na imagem para aumentar)
No contexto do inevitável crescimento da China e da crise financeira que certamente se agravará, com o espocar concomitante de bolhas e mais bolhas, nada mais resta aos EUA para tentar preservar sua hegemonia global, que minar os adversários. E o único meio para alcançar tal objetivo é disparar o caos nas repúblicas que fazem fronteira com a Rússia.

Eis por que a Rússia enfrentará, inevitavelmente, um período de conflitos e crises junto às suas fronteiras.

O primeiro front, de fato, até já existe, na Ucrânia; o segundo muito provavelmente será entre Armênia e Azerbaijão, na disputa por Nagorno-Karabakh, e o terceiro front, é claro, será criado na Ásia Central.

mapa: Nagorno-Kara...

Localização de Nagorno-Karabakh 
Se a guerra na Ucrânia leva a milhões de refugiados, dezenas de milhares de mortos e à destruição de cidades, reaquecer o conflito em Karabakh minará completamente toda a política externa russa no Cáucaso.

Todas as cidades na Ásia Central estão sob ameaça de explosões e ataque. Até aqui esse “futuro front” tem atraído menor atenção da imprensa-empresa – a Novorrússia domina todos os canais de televisão, jornais e websites – mas aquele teatro de guerra será dos mais complexos, depois do conflito na Ucrânia.

Subsidiário do Califato junto ao ventre da Rússia

A tendência clara, indiscutível, no Afeganistão – e a principal fonte de estabilidade na região – é na direção de uma aliança entre os Talibã e o Estado Islâmico. Isso, embora a formação dessa união ainda esteja nos primeiros dias; embora praticamente não se ouçam referências a essa aliança, ou só se ouçam referências fragmentadas; e embora não se conheça ainda a verdadeira escala das atividades dos emissários do Estado Islâmico – e a tendência à aliança entre os Talibã e o Estado Islâmico apenas deixe ver uma ponta de iceberg sobre a superfície.

Mas já não há dúvidas de que há agitadores do Estado Islâmico ativos no Paquistão e em províncias do sul do Afeganistão, controladas pelos Talibã. Nesse caso, a primeira vítima do caos no Afeganistão é o Paquistão, país que, por insistência e com a ajuda dos EUA, alimentou os Talibã nos anos 1980s. Esse projeto ganhou vida própria e é persistente pesadelo para Islamabad, que já decidiu estabelecer relações amigáveis com China e Rússia.

Essa tendência pode ser vista nos ataques dos Talibãs contra escolas paquistanesas, cujos professores já andam armados; na prisão repetida de terroristas nas grandes cidades; e no início de atividades em apoio a tribos hostis aos Talibã no norte.

Af-Pak e fronteiras
O mais recente desdobramento legislativo no Paquistão é uma emenda à Constituição, para expandir a jurisdição dos tribunais militares também para civis. Por todo o país, terroristas islamistas e simpatizantes estão sendo presos. Só no noroeste, já aconteceram mais de 8 mil prisões, incluindo membros do clericato. Organizações religiosas foram banidas, e emissários do Estado Islâmico foram capturados.

Dado que os EUA não gostam de pôr todos os ovos na mesma cesta, garantirão apoio ao governo em Cabul, que lhes permitirá permanecer legitimamente no país; e também darão apoio aos Talibã, que já está se convertendo também ao Estado Islâmico. Resultado disso será um caos generalizado, no qual os EUA não tomarão parte (formal e oficialmente); apenas se sentarão nas suas bases militares, esperando para saber quem sobreviveu. Então, Washington garantirá assistência ao vitorioso. Observe-se que os serviços de segurança dos EUA apoiam os Talibã já há muito tempo e bem efetivamente: muitos das forças oficiais de segurança e da Polícia no Afeganistão são ex-Talibã e Mujahideen.

Há método nessa destruição

O primeiro modo para desestabilizar a Ásia Central é criar problemas nas fronteiras, associados à ameaça de que os Mujahideen invadirão a região. A testagem dos vizinhos já começou: já surgiram problemas no Turcomenistão, que até teve de pedir que Cabul não realizasse operações militares de larga escala nas províncias fronteiriças. O Tadjiquistão forçou os Talibã a negociar a libertação dos guardas de fronteira que haviam sequestrado, e o serviço de fronteira do Tadjiquistão noticia que há grande número de Mujahideen junto às suas fronteiras.

Em geral, todos os países que fazem fronteira com o Afeganistão já subiram o nível de segurança nas áreas limítrofes.

O segundo modo é infiltrar islamistas por trás das linhas. Esse processo já começou: o número de extremistas só no Tadjiquistão já subiu para mais que o triplo no ano passado; ainda que estejam sendo caçados e presos, obviamente não será possível capturá-los todos. Além do mais, a situação é agravada pela volta dos trabalhadores migrantes que estavam na Rússia, o que expande a base para recrutamento. Se parar ou diminuir o fluxo até aqui ininterrupto de ajuda russa ao país, o efeito poderá ser descontentamento popular e tumultos orquestrados e manipulados.

Kadir Malikov, especialista do Quirquistão, informa que foram alocados US$ 70 milhões para o grupo militar Maverenahr do Exército Islâmico, que inclui representantes de todas as repúblicas da Ásia Central, para organizarem atos de terrorismo na região, com especial ênfase no Vale Fergana, coração da Ásia Central.

Vale Fergana - localização geográfica
Outro ponto de vulnerabilidade são as eleições parlamentares no Quirguistão, marcadas para o próximo outono. Uma nova “onda” de “revoluções coloridas” gerará o caos e levará à desintegração de vários países.

Guerras autossustentáveis

Promover guerras é trabalho caro; por isso, a desestabilização na região deve ser autossustentável ou, pelo menos, deve gerar algum lucro para o complexo militar-industrial dos EUA. Nesse quesito, Washington tem obtido vários sucessos: deu ao Uzbequistão 328 veículos blindados que Kiev havia requisitado para sua guerra na Novorrússia. À primeira vista, não é negócio lucrativo, porque as máquinas foram doadas, mas, de fato, o Uzbequistão ficará atrelado aos EUA para obter peças de reposição e munição para os blindados. Washington tomou medida semelhante, quando transferiu equipamento e armas para Islamabad.

Mas os EUA não têm sido bem-sucedidos nas tentativas para impor seus sistemas de armas à Índia: os indianos não assinaram qualquer contrato, e Obama viu desfilarem carros e equipamento militares russos, quando assistiu a um desfile militar em Nova Delhi.

Os EUA estão empurrando os países naquela região para guerra contra os próprios protegesdos norte-americanos – os Talibã e o Estado Islâmico – e, ao mesmo tempo, fornecem armas aos inimigos deles.

Desestabilização disseminada

Assim se vê que 2015 será marcado por preparativos para desestabilização disseminada por toda a Ásia Central e pela transformação do “AfPak” em subsidiário do Estado Islâmico nas fronteiras de Rússia, Índia, China e Irã. O início da guerra em escala total, que será inevitável, acontecerá quando o caos já estiver disseminado pela região. Levará a um banho de sangue nos “Bálcãs Eurasianos”, envolvendo automaticamente mais de 1/3 da população mundial e quase todos os rivais geopolíticos dos EUA. É oportunidade que Washington avaliará como boa demais para ser desperdiçada.

Qual será a resposta da Rússia?
A resposta da Rússia a esse desafio tem de ser multifacetada: envolver a região no processo da integração eurasiana; garantir assistência militar, econômica e política aos países da região; trabalhar em íntima associação com seus aliados na Organização de Cooperação de Xangai, OCX, e com os países BRICS (Brasil, Índia, China e África do Sul); fortalecer o exército do Paquistão; e, claro, ajudar a capturar os servidores barbudos do Califato.

Mas a resposta mais importante terá de ser a modernização acelerada das forças armadas russas e de seus aliados; e esforços para fortalecer e estreitar os laços da Organização do Tratado de Segurança Coletiva [orig. Collective Security Treaty Organization,CSTO], dando à CSTO o direito de contornar a altamente ineficiente Organização das Nações Unidas, ONU.

A região é extremamente importante: se a Ucrânia é o fusível da guerra, a Ásia Central é um depósito de pólvora. Se voar pelos ares, metade do continente será atingido.


[*] Ivan Lizan é um jornalista ucraniano especializado em geopolítica. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Conflicts Forum: Comentário semanal, 5−12/9/2014: A História novamente em marcha

18/9/2014, Conflicts Forum, Comentário semanal, 5−12/9/2014
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

- Bravo! Agora vamos surrar o touro!
 Seguramente ele chifrará o urso!!
O “ordenamento” do “não Ocidente” está passando por mudança gigantesca. Apesar de esse novo padrão ainda não estar plenamente cristalizado, algumas de suas características emergentes já se vão destacando e apontam para consequências importantes, particularmente para o futuro da Europa; mas também, no prazo mais longo, dos EUA. E a atual conjuntura de eventos parece que, quase com certeza, está envolvendo a Europa na maré de águas turvas, e que sobem rapidamente, de sua própria situação doméstica – ao mesmo tempo em que se deixa empurrar para perigosa escalada contra Moscou, e para uma aventura no Oriente Médio que com certeza resultará em problemas crescentes, no melhor dos casos; e em virtual desintegração da região, no pior. A Europa está pondo em risco o seu próprio “projeto”.

Dmitri Trenin
Dmitri Trenin, de Carnegie Moscow escreveu:

Um quarto de século de esforços da Rússia, para encontrar lugar aceitável para ela no sistema ocidental liderado pelos EUA terminou num amargo desapontamento.

Não só esses esforços (inclusive a iniciativa russa para alcançar o acordo com os EUA que pôs fim à Guerra Fria) terminaram numa sensação de amargura e sentimentos de frustração, mas, também, alteraram um equilíbrio político chave. A corrente atlanticista [1] na Rússia foi derrotada, e tornou-se impossível deter a dinâmica da re-soberanização. [2]

O que mais chama a atenção é que os quase igualmente empenhados e longos esforços do Irã, para alcançar um modus vivendi com os EUA no que tenha a ver com o lugar do Irã na ordem do Oriente Médio, também já estão azedando. Há sentimento palpável, amplamente disseminado no Irã agora, de que as (prorrogadas) conversações no Grupo P5+1 não levarão ao fim das sanções ocidentais.

Num indicador chave da significação dessa mudança na consciência política no Irã, os Reformistas Iranianos sofreram duro revés numa importante eleição para a presidência do Conselho Municipal de Teerã (posto mais significativo do que possa parecer). Em resumo, a visão dos Atlanticistas Iranianos (os reformistas) de que conseguiriam alcançar acomodação aceitável com a ordem ocidental – como a visão dos reformistas russos – fracassou e perdeu espaço político. O presidente Rouhani está sentindo que é necessário que ele se reposicione politicamente, para evitar dano colateral. E os reformistas terão também de corrigir a própria rota e mudar de postura.

Conforme um modo de ver, esses eventos não estariam correlacionados – seriam simplesmente coincidentes, resultados de “causas” diferentes. Mas para o pensamento oriental, quando dois eventos, que exibam qualidade muito similar, de repente acontecem ao mesmo tempo, é preciso deixar de considerar só alguma “causalidade”; e tem-se de considerar também um significado e uma “direcionalidade” mais gerais, que podem, sim, estar-se manifestando naqueles eventos.

Guerra de informação contra Vladimir Putin
No fétido ambiente atual de guerra-de-informação contra o presidente Putin, muitos no ocidente podem estar assumindo (erradamente) que o presidente russo seja simplesmente “antiocidental”. Não é bem assim. Putin, como muitos russos de sua geração, acreditou um dia na tese de Andropov, de que as elites dos EUA e Europa convergiriam (mas sem se mesclar) suficientemente, para chegarem a tratar-se, uma a outra, com mútua consideração. Mas Putin jamais foi Atlanticista “puro”; de fato, sempre esteve no meio (entre os atlanticistas e os que favorecem a re-soberanização – e por esse “caminho do meio” é que Putin chegou ao poder).

Mas agora, com os atlanticistas completamente eclipsados, a presidência de Putin, como um de seus conselheiros observou, será definida, de fato, nem tanto pelo modo como o presidente conduzir a crise da Ucrânia, mas, muito mais, pela habilidade que demonstre para articular e definir essa “direcionalidade” – e para articular um novo conceito para a nação russa.

De fato, essa “direcionalidade” já tem andado bem à vista – de um ou de outro modo – por cerca de 15 anos, e pode ser rastreada, hoje, até a crítica que fizeram o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban e outros, contra a democracia liberal-de-mercado. Ou, para dizer com mais precisão, contra a democracia baseada num “fundamentalismo de mercado” que reduziu a política a pouco além de tecnocratas tornando os mercados cada vez mais “efetivos”, e com a política externa considerada como, na prática, mais um mercado – um mercado em que a “moeda” é poder internacional, em vez de dinheiro.

Orban argumentou que a democracia liberal-de-mercado fracassou, porque não protegeu devidamente a propriedade coletiva (“os comuns” [orig. the commons]), carregou o estado com dívidas impagáveis e, mais importante, porque comprovou que a promessa liberal de prosperidade para todos não passa, afinal, de fantasia. Orban e seus aliados procuraram definir uma alternativa que protegesse melhor os próprios cidadãos. Os críticos “detonaram” essa crítica dos valores liberais ocidentais, taxando-a de “democracia nada liberal” e retorno ao autoritarismo.

Viktor Orban - Primeiro Ministro da Hungria
Como corrigir esses fracassos do liberalismo ocidental tem sido até agora discussão de certo modo, embora não inteiramente, hipotética; mas a crise da Ucrânia passou de repente a exigir respostas para essa importante questão – e não só “em tese”, mas respostas a serem diretamente postas em prática. Para o mesmo Trenin:

Essencialmente, o Kremlin [agora] vê o futuro da Rússia como separado do resto da Europa. A proposta [de Putin] para uma Europa Expandida, que se estenderia de Lisboa a Vladivostok, recebida com frieza por tantos europeus, foi finalmente retirada da mesa pelo próprio autor. (...) A União Europeia decepcionou amargamente os russos duas vezes, nos últimos seis meses.

A Rússia está se [auto]integrando ao “não Ocidente”.

Mas o que mais chocou a liderança russa foram a insistência obcecada dos EUA em usar sua “bomba de nêutrons” financeira (excluir a Rússia do sistema financeiro global), e a rapidez com que a Alemanha dispôs-se a apoiar as sanções. Isso levou os russos a empreender uma re-visão, um “re-pensar”, pelos fundamentos, o modo como o estado russo tinha de agir para se proteger.

Em primeiro lugar, fez surgir duas principais considerações: como recuperar alguma soberania e autonomia reais para a Rússia (daí a ênfase numa aliança com a China, país que, pela avaliação dos russos, conservou a própria soberania; além de uma abertura para esses dois aliados que consideram desengajar-se, quando, o quanto e se for necessário, do sistema financeiro do dólar, criando um sistema alternativo de compensações); e gerando maior autoconfiança econômica.

Xi Jinping e Vladimir Putin assinam "negócio do século" (gás) de US$ 400 bilhões (maio/2014)
Essas foram as respostas práticas, mas, além dessas, a liderança russa está considerando meios para consolidar o renascido patriotismo (despertado pela questão ucraniana) mediante um etos “não liberal” – para que sirva como a nova base para o nacionalismo russo. Importante figura da política russa descreveu, em conversa com Conflicts Fórum, a forte convicção na Rússia de que a nova ordem mundial que se vai desdobrando só poderá ser modelada pelos que tenham conseguido regenerar a vitalidade do próprio povo – e tenham recuperado a plena soberania nacional.

Na Rússia, esse “novo nacionalismo” está tomando forma mediante uma recuperação de valores tradicionais (dentre os quais a religiosidade e a espiritualidade). Já não se baseia portanto só no modo de pensar puramente secular: considera o papel da Igreja Ortodoxa na geração de valores morais baseados na família tradicional e na comunidade “de vida” – especialmente no contexto de coexistência pacífica entre vários grupos étnicos por todo o país. Compreende também a reafirmação do contrato social, re-empoderado suficientemente para preencher sua obrigação básica, de garantir proteção aos próprios cidadãos. Esse novo conceito do Estado incluiria proteger valores russos centrais contra aspectos da zeitgeistculturalmente intervencionista neoliberal – e protegê-los também contra as consequências do fundamentalismo de mercado. Exige também que o Estado seja suficientemente forte para proteger-se contra as vicissitudes da ordem global dominada pelo Ocidente (que inclui as infoguerras).

Nem chega a surpreender que depois da longa era de revoluções “coloridas” e iniciativas-golpe para “mudança de regime”, todo o planeta, em vários pontos do mundo, esteja buscado um “estado forte”, capaz de resistir contra tais “incursões”.

A questão aqui é que, se se tratar de, muito frouxamente, trocar os “atlanticistas” reformistas e os “principistas” iranianos por russos que defendem a re-soberanização; e trocar a Igreja Ortodoxa Russa pelo Marjahiyya (fontes da educação moral, no Islã), não fará muita diferença.

BRICS  - O "não ocidente" 
O mesmo se pode dizer de muitos no “não ocidente”, inclusive China e Índia. Em resumo, estamos vendo muita gente no “não ocidente” que se afasta deliberadamente do liberalismo ocidental: que “desistiu” dele. Aquele modelo já não é, definitivamente, o modelo de governança que preferem, nem ele reflete os princípios pelos quais muita gente crê que o mundo deva ser ordenado.

Embora a crise na Ucrânia e a já evanescente possibilidade de acordo entre P5+1 e Irã, possam ter tido efeito de catalisadores parciais para a emergência de um bloco “não ocidental”, a principal força motriz está sendo, sem sombra de dúvida, a ostensiva manipulação, pelos EUA, de todo o sistema financeiro global, com vistas a alcançar os interesses financeiros e objetivos políticos dos EUA. Isso, porque, depois da crise de 2008 – e da expansão sem precedentes da base monetária que se seguiu àquela crise – as bolhas que se criaram e a concomitante liquefação da riqueza das pessoas comuns passaram a ser a própria condição sine qua non para manter o próprio sistema financeiro.

A combinação envenenada do:

(a) uso do sistema monetário global como ferramenta devastadora de coerção política, e de
(b) uma política monetária (“alívio quantitativo”, ing. Quantitative Easing, QE)

Que feriu todo mundo (outros estados e todos os indivíduos que não se incluam no “1%”) passou a servir como verdadeiro “sargento recrutador” contra o liberalismo e qualquer sistema financeiro conservador.

Bases militares NUCLEARES dos EUA na Europa
Daí a surpresa em Moscou: a Alemanha entende esse processo. De início, a Alemanha pareceu estar jogando o “grande jogo” pela Ucrânia, tentando pôr-se como uma ponte até a Rússia, tentando esvaziar a crise. Então, de repente (seja qual tenha sido a razão – que ainda não foi esclarecida), a Alemanha pôs-se a apoiar a escalada nas sanções, apesar de até um cessar-fogo já estar vigente!

Os alemães sabem que a Europa carece de uma nova missão, uma nova definição de o que, precisamente, significa, hoje, ser parte de um “projeto” europeu. O perigo de a Europa não ter autonomia para construir sua própria política de segurança (vive atada à OTAN); de a unidade europeia continuar definida apenas nos termos do apoio que dê a uma potência em declínio, cada dia mais disfuncional, todos esses pontos foram acaloradamente discutidos dentro do governo alemão.

A crise da “visão liberal-de-mercado” não está tampouco “muito longe”: está exatamente aqui, bem no coração da Europa também, com 95% dos gregos, 91% dos espanhóis e 90% dos italianos entendendo que o país de cada um caminha na direção errada. Recessão na Escócia, tumultos de rua em Barcelona, o fascismo em ascensão, recessão econômica: todos os sinais gritam que há problemas à frente.

Sim, a “velha Europa” em Newport fez muito para conter qualquer avanço da OTAN para mais perto das fronteiras da Rússia e manteve os termos do Ato de Fundação da OTAN de 1997. Mesmo assim, a OTAN – a instituição – ainda conseguiu sua “dose” do dia, de adrenalina. Institucionalmente, está em “alta”. O que implica dizer que as decisões tomadas em Newport só levarão a repetidas escaladas nas tensões entre OTAN, Europa e Rússia. E a União Europeia optou por impor mais uma rodada de sanções. O embaixador russo à União Europeia respondeu que não resta alternativa à Rússia, além de impor contramedidas.

É duvidoso que a Alemanha, agora, consiga safar-se da inexorabilidade das consequências da decisão que tomou de apoiar mais e mais sanções. A Rússia mexeu-se adiante: as tensões se aprofundarão. Mais uma vez, vê-se a incoerência da estratégia: qual é, agora, o objetivo da Europa para a Ucrânia? Quer infligir derrota total aos insurgentes do Donbass (e a Putin)?

Vladimir Putin e Angela Merkel
Os EUA, temerosos de que se implante a percepção de que já são potência declinante, entraram em surto (admitidamente impressionante) de demonstração de força bruta para negar qualquer “impressão'’ de declínio (roteirizou e impôs no solo a narrativa sobre a Ucrânia; demonizou com êxito quase inacreditável o presidente Putin; e arrastou a União Europeia para o pântano das sanções). E, como se tudo aquilo ainda não bastasse, empurrou os europeus para dentro de uma guerra estrategicamente incoerente e perigosíssima contra o ISIL – e, mais uma vez, só para mostrar que os EUA podem ir onde queiram e fazer o que bem entendam. É atitude que turvará ainda mais os céus no Oriente Médio. Em pouco tempo, os europeus perceberão que não têm aliados reais na região para a tal empreitada.

As consequências são profundas: a Alemanha, ao empurrar o projeto europeu de volta para a “caixa” furada da qual, de fato, ele tem de conseguir safar-se, e ao mostrar, mais uma vez, que só sabe ver a “unidade” da Europa se for pelos termos redutores do apoio aos planos de guerra dos EUA, só fez atrair a Europa para o poço de seus próprios problemas, cada dia mais graves. Ao queimar as pontes com Moscou, a Alemanha queimou também a opção de reimaginar a Europa de outro modo – como um “concerto pró Europa”, por exemplo. De fato, logo veremos os gasodutos do Iraque e Irã tomando rumo leste – de costas para um “ocidente” atlântico de águas estagnadas.

A Europa também continua refém de um sistema monetário global que exige mais e mais estímulos para impedir que o sistema financeiro entre em colapso – mesmo que o efeito da monetarização agressiva só sirva para incubar mais e mais rejeição por todo o continente. Definitivamente, o prognóstico não é bom.

Notas dos tradutores

[1] “Oposição real* a Putin e ao seu projeto só existe *dentro* do Kremlin, no partido “Rússia Unida” e em algumas figuras influentes. Chamo essa oposição real de“Atlanticistas Integracionistas” (AI), porque o objetivo-chave deles é “integrar a Rússia à estrutura mundial anglo-sionista de poder(The Saker, 4/4/2014, traduzido na redecastorphoto em: : Começou uma nova Guerra Fria. Que alívio!.

[2] “A base *real* de poder de Putin está no povo russo que o apoia diretamente e pessoalmente, na Frente de Todos os Povos Russos, e no grupo que chamo de “Eurasianos Soberanistas” (ES), cujo objetivo básico é desenvolver uma nova ordem mundial, multipolar, para livrar-se do atual sistema financeiro internacional anglo-sionista; reorientar a maior parte possível da antiga URSS na direção de integrar-se com o Ocidente; e desenvolver o norte da Rússia” (The Saker, 4/4/2014, traduzido na redecastorphoto em: Começou uma nova Guerra Fria. Que alívio!).
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[*] Alastair Crookeàs vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio
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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.