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sexta-feira, 15 de março de 2019

Rouhani e Sistani, Irã e Iraque Visita histórica

(enquanto o mundo se reorganiza sem EUA & Brasil) 

EUA e Brasil vergonha do mundo 



13/3/2019, 
Al-Monitor (do correspondente) [dica de Pepe Escobar, pelo Facebook]
Traduzido pelo pessoal da Vila Mandinga e publicado pelo blog O Empastelador

A visita de estado de Hassan Rouhani ao Iraque foi um sucesso para o presidente iraniano. Em termos de cooperação política e econômica, foram assinados vários memorandos de entendimento para facilitar o comércio, os investimentos, as conexões logísticas e as viagens entre os dois vizinhos. Além disso, foi divulgada importante declaração conjunta sobre o compromisso dos dois países para implementar 
os Acordos de Argel 1975 e anexos relacionados, que enfrentam questões sensíveis e gravemente deterioradas como a demarcação de fronteiras.

São passos da maior importância para Rouhani. Mas o coroamento dessas démarches foi a audiência do dia 13 de março – evento sem precedentes – com o Grande Aiatolá Ali al-Sistani em Najaf — primeira vez que presidente iraniano em exercício é recebido pelo clérigo de mais alta hierarquia no Iraque. Sistani “acolheu com satisfação todos os movimentos para fortalecer as relações entre o Iraque e seus vizinhos para promover interesses mútuos e a partir do respeito à soberania dos estados e da não intervenção em assuntos internos". Também "expressou a necessidade de políticas regionais e internacionais moderadas nessa região, para evitar mais tragédia e danos." Para compreender a significação desse encontro, é preciso considerar a influência de Sistani no Irã.

Ano passado, houve 
110 mil alunos seminaristas no Irã, concentrados principalmente na cidade sagrada de Qom. Segundo dados do gabinete de Sistani, 49 mil alunos em 300 seminários no Irã receberam bolsas de estudos do Grande Aiatolá em 2013: 35 mil em Qom, 10 mil em Mashhad e 4.000 em Isfahan (muitos seminaristas recebem bolsas-auxílios de várias autoridades clericais. Além desses, também há estudantes no Irã que não recebem nenhum tipo de bolsa. Assim sendo, pode-se assumir que proporção significativa de seminaristas iranianos são mantidos diretamente por Sistani, o qual, embora viva há muitos anos no Iraque é cidadão iraniano. Essas redes têm grande influência no Irã, onde o sistema prevalecente, dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica [ver também Guardianship of the Jurist (ing.)] — embora só imponha disciplina política, não religiosa – repousa sobre a legitimidade religiosa.

Muçulmanos xiitas tendem a seguir autoridades religiosas no que tenha a ver com como conduzir a própria vida pessoal pelo que determine a religião. Esses altos jurisconsultos são chamados maraji al-taqlid ("fontes a serem imitadas"). Para manter serviços de caridade e estudos, recolhem um 'imposto', khums — imposto de 20% sobre a riqueza — além de doações dos fiéis. Embora não haja estatísticas de quanto seguidores tem cada marja, um 
estudo pioneiro lançou alguma luz sobre o tema.

Uma equipe do MIT [Massachusetts Institute of Technology] analisou milhares de peregrinos iranianos e iraquianos que fizeram a peregrinação do 
Arbaeen em 2015. O evento anual atrai milhões de peregrinos. Os iranianos que fazem a viagem ao Iraque não podem ser tomados como representantes do iraniano médico. Mesmo assim é interessante considerar que a distribuição dos Reformistas, em relação aos conservadores entre os iranianos pesquisados, foi quase sempre igual. Além disso, 19% dos respondentes iranianos eram de Teerã; 12,2% de Isfahan e 11,28% de Qom; na população iraniana as porcentagens respectivas foram 16,2%; 6,5% e 1,53%.

Porcentagem ligeiramente superior a 60% dos pesquisados disseram que seguem Khamenei; 20% que seguem o Grande Aiatolá Nasser Makarem Shirazi; e 15% seguem Sistani; 80% dos iraquianos declararam-se seguidores de Sistani.

Mas quanto a pagar o khums — considerando-se que cerca de metade dos entrevistados não quiseram responder – só 22% dos iranianos disseram pagá-lo a Khamenei, e 9% a Makarem Shirazi. Por sua vez, 11% dos iranianos disseram que pagam seu khums a Sistani, além de 46% dos iraquianos pesquisados, que também pagam a taxa sobre a riqueza a Sistani.

O que nos dizem esses dados? Claro que há várias dimensões a considerar – incluindo a consideração de que peregrinos religiosos não são amostra da maioria da população, especialmente no Irã. Mesmo assim, é possível extrair algumas inferências razoáveis:
  • Sistani conta com número considerável de seguidores empenhados no Irã.
  • Quem queira ser bem-sucedido no governo iraquiano precisa das bênçãos de Sistani.
  • Quem queira operar com sucesso no Iraque também precisa das bênçãos de Sistani.
  • Considerando-se que Sistani rejeita a teocracia, suas bênçãos podem também servir como guia em ocasiões em que seja relevante ganhar a classe média iraniana e outros estratos da sociedade menos ligados ao pensamento dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica.

Na verdade, muitos dados empíricos garantem evidências para tudo que acima se resumiu. Seja o governo em Bagdá, ou mesmo as autoridades de EUA e Irã, todos já aprenderam e aceitaram que é necessário evitar a oposição da suprema autoridade religiosa em Najaf, Iraque.

A grande influência que Sistani tem na política iraquiana (também extra-constitucional) ficou evidente seja quando conclamou o país a participar no processo eleitoral depois da invasão comandada pelos EUA, suas opiniões sobre primeiros-ministros ou até na luta contra o 'Estado Islâmico'. Essa influência ampliou-se para a política iraniana, onde várias facções buscaram o apoio dele para promover as respectivas posições e respectivos capitais políticos – especialmente em tempos de crise.

Por exemplo, 
Sistani recusou-se a receber o conservador Mahmoud Ahmadinejad (2005-13) quando visitou o Iraque — inclusive em 2008, na primeira viagem de presidente iraniano ao Iraque. Mas o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, político moderado veterano, que por muito tempo apoiou Rouhani, sim, foi recebido por Sistani quando Rafsanjani visitou o Iraqueem março de 2009. No verão daquele ano, vários grupos em Teerã tentaram convencer o Grande Aiatolá a apoiá-los, num momento em que a República Islâmica enfrentou o momento mais grave de agitações internas desde a Revolução de 1979, logo depois da disputada reeleição de Ahmadinejad.

Em telegrama que vazou do Departamento de Estado dos EUA, alguém 
bem próximo de Sistani dizia que o alto clérigo dissera que recebera cartas de todos os principais grupos envolvidos no conflito de facções no Irã, que "queriam que eu dissesse o que mais interessava a cada um". Sistani manteve-se neutro, em parte movido pelo desejo de não se deixar respingar por desdobramentos.

A cautelosa preferência de Sistani por forças pró-reforma no Irã transparece também no relacionamento muito próximo que mantém com o ministro de Relações Exteriores Mohammad Javad Zarif, que, desde que assumiu o ministério em in 2013, já foi várias vezes recebido pela suprema autoridade religiosa do Iraque. Na primeira visita de Zarif como ministro de Relações Exteriores, Sistani, 
segundo uma fonte, disse a Zarif que “Li quase todo o seu livro, Mr. Ambassador,[1] e valorizo sua experiência e entendo que o senhor merece a posição que tem, de ministro de Relações Exteriores." E o Iraque foi o primeiro país que Zarif visitou, depois de assumir o ministério.

Em mais um sinal da influência de Najaf na política iraniana, não se deve ignorar que uma das figuras mais poderosas e bem relacionadas no Irã é o representante pessoal de Sistani, o Aiatolá Jawad Shahristani. Fosse nas negociações sobre quem comandaria o governo em Bagdá, ou na mobilização para a luta contra o 'Estado Islâmico', Shahristani sempre teve papel de destaque, com acesso à mais alta liderança no Irã, o que, provavelmente, está além do alcance da maioria dos membros do Gabinete iraniano.

A influência que facilita esses poderosos canais de atuação surge, em parte, das complexidades de laços de família (e políticos): Shahristani é genro de Sistani; Shahristani também é sogro de Ali Khomeini, neto do Aiatolá Ruhollah Khomeini — fundador da República Islâmica.

Sobre esse pano de fundo, a decisão da suprema autoridade religiosa de conceder uma audiência a Rouhani e Zarif informa aos líderes iraquianos que se devem engajar no governo Rouhani, mesmo que contem com o apoio de centros rivais de poder em Teerã, como o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC). Mais que isso, os feitos de Rouhani essa semana devem ter deixado bem claro para o governo Trump e seus aliados árabes, que o Irã nem abandonará nem será abandonado pelo Iraque, embora não se deva interpretar essa posição, de Bagdá ao lado de Teerã, como Bagdá ter posto Teerã acima de Washington.

Por fim, e talvez o mais importante de tudo, o encontro de Rouhani e Sistani foi uma injeção muito necessária de capital político, em momento de crise doméstica. De fato, Rouhani vem enfrentando fogo incessante de seus inimigos de linha-dura, revitalizados pela saída do governo Trump do Plano Amplo de Ação Conjunta [o chamado 'acordo nuclear do Irã].

Apesar de a viagem de Rouhani ao Iraque já estar planejada há mais tempo, a agenda foi, parece, impactada pela dinâmica de poder em Teerã – e pela a visível preferência de Sistani por moderação e reforma no Irã. Esse detalhe não escapou aos rivais do presidente do Irã, como já se viu na 
cobertura doméstica polarizada de sua audiência com Sistani. Assim, com Rouhani e Zarif manobrando para reafirmar sua autoridade sobre a política exterior da República Islâmica, há vários indicadores a serem observados em busca de sinais sobre o comando que tenham nas questões das agendas regionais. Dentre esses, a possibilidade de uma visita à Síria em futuro próximo, que também seria a primeira de Rouhani como presidente.


[1] Āqā-ye Safir: Goftogu bā Mohammad-Javād Zarif, Safir-e Pishin-e Irān dar Sāzemān-e Mellal-e Mottahed [Mr. Ambassador: A Dialogue with Mohammad Javād Zarif, the Former Ambassador of Iran to the United Nations], MohammadMehdi Rāji (ed.), Tehran: Nashr-e Ney, 2013, ISBN 978-964-185-298-8 (paperback), 368 pp. Aqui, resenha em inglês [NTs].

quinta-feira, 2 de abril de 2015

China tem apostas altas no conflito no Iêmen

31/3/2015, [*] MK BhadrakumarAsia Times Online − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Os caminhos do petróleo & gás e pontos estratégicos
(clique na imagem para aumentar)
Pelo que se pode ver, é muito alto o nível de interesse de Pequim nos desenvolvimentos no Iêmen. Era de esperar, pode-se dizer, considerando que a China depende dos países do Golfo para metade de todas as suas importações de petróleo, além de manter amplo relacionamento com os países da região, que nunca parou de se expandir e aprofundar-se. A iniciativa “Estrada e Cinturão” acrescentou ao quadro uma dimensão estratégica, uma vez que a Rota da Seda cruza o Mar Vermelho.

Na verdade, a China será muito fortemente pressionada para tomar partido numa disputa regional. Isso converte a China numa espécie de “fiel depositário” do destino de todos, especialmente quando o Iêmen chegar ao Conselho de Segurança da ONU, o que é questão só de tempo.

Xinhua noticiou hoje a visita em curso da delegação da Defesa do Paquistão à Arábia Saudita, citando o Ministro da Defesa, Khawaja Asif, que disse que o Paquistão “garantirá todos os recursos, no caso de qualquer ameaça” à Arábia Saudita, mas, ao mesmo tempo, o Paquistão também busca “um fim para os conflitos no mundo muçulmano”. A matéria diz que o Primeiro-Ministro Nawaz Sharif “faria contato com líderes dos países amigos” (o que, presumivelmente, inclui o Irã). A mesma matéria dá a impressão de que o Paquistão pisa em ovos sobre uma linha muito tênue entre a devoção aos seus benfeitores sauditas e o risco de assumir qualquer dos lados numa guerra sectária.

Petróleo importado pela China, por país
(clique na imagem para aumentar)
Interessante, a rede Xinhua publicou nada menos que quatro comentários, entre ontem e hoje, sobre o conflito no Iêmen. Se se lê nas entrelinhas, há ali vestígios de desaprovação contra a intervenção militar dos sauditas, além de visível ceticismo quanto à eficácia de uma ofensiva por terra da aliança liderada pelos sauditas.

Mais significativamente, o papel do Irã é visto com muito clara compreensão e analisado sob uma luz positiva, e a China até antevê como possível que cresça o papel do Irã no mundo; a China, especificamente, prevê que aumentará o envolvimento entre EUA e Irã. Na sequência, alguns excertos interessantes:

●– Analistas dizem que a ação dos sauditas em apoio ao governo do Iêmen é motivada pelo desejo de preservar o importante status dos sauditas na região. Ainda mais: como fonte importante de ajuda econômica para o Iêmen, Riad de modo algum poderia tolerar qualquer inclinação de Sanaa na direção de Teerã.

Estreito de Bab el Mandeb
●– Uma das razões pelas quais Arábia Saudita e países árabes não pouparam esforços contra os houthis foi a necessidade de deter o rápido avanço dos rebeldes na direção da Arábia Saudita, e para bloquear o estratégico estreito de Bab al-Mandeb no Mar Vermelho, pelo qual passam milhares de navios todos os anos, disseram os analistas.

●– Segundo observadores, incursões terrestres serão muito difíceis e gerariam graves desafios para a coalizão (...) Geograficamente o Iêmen é terreno extremo, com montanhas altíssimas, cavernas e armadilhas de todo o tipo, extremamente difícil para a penetração de soldados por terra.

●– O Irã espera sinceramente o fim dos ataques aéreos dos sauditas contra posições dos houthis, e que se chegue a uma solução política para a crise no Iêmen, apesar de o país estar sendo acusado por alguns vizinhos de intrometer-se no Iêmen, disseram alguns analistas.

●– O objetivo do Irã é ver um governo de coalizão constituído no Iêmen, com a população xiita iemenita devidamente representada.

●– Os analistas não veem o Irã buscando influência dominante sobre o Iêmen, país que depende muito fortemente de dinheiro externo, que não é item abundante em Teerã por causa das sanções. Além disso, há um mar a separar o Irã e o Iêmen, enquanto a Arábia Saudita, que tradicionalmente tem tido forte influência no Iêmen, está logo ali, do outro lado da fronteira norte.

Hassan Rouhani (E) e Mohammad Javad Zarif
●– Ainda além disso, o Irã não quer que a crise no Iêmen crie ainda mais problemas para os esforços iranianos para melhorar os laços com seus vizinhos. O Presidente do Irã, Hassan Rouhani, prometeu melhorar os laços com países vizinhos, como uma das prioridades de seu governo. Zarif também visitou países do Golfo com os quais têm sido raros os contatos e trocas de alto nível, por causa das relações estremecidas.

●– Para o Irã, a crise iemenita é questão complicada. Mas, se bem conduzida, poderá gerar um efeito-demonstração para todo o mundo, e especialmente para os EUA, do papel essencial que o Irã pode ter na solução de questões regionais.

Os comentários (ing.) estão aquiaquiaqui e aqui.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Pepe Escobar: “Pura Guerra” em Teerã


8/10/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Aeroporto Internacional Imã Khomeini - Teerã
Acabo de passar uma semana frenética em Teerã. Antes de partir, tomei uma decisão consciente: só um livro na mochila. Concentração máxima. Acabei por escolher Pure War,[1] na reedição da editora Semiotext(e), Los Angeles, do clássico de Paul Virilio, de 1983, que apanhara há alguns dias na [livraria] Foyles, em novo endereço, em Londres.

Para correspondente itinerante, ir ao Irã é sempre extraespecial. Conseguir aprovação no visto de imprensa quase sempre demora eras. Era minha sexta viagem – e não tinha o visto. Só um número, atado a um visto no aeroporto. Até o último minuto, achava que seria deportado do Aeroporto Internacional Imã Khomeini – de volta a Abu Dhabi, aquela que, hoje, finge que bombardeia O Califa. Então, um pequeno milagre: sala VIP, visto em 10 minutos e depois disso só me lembro de já estar zunindo por uma Teerã completamente deserta, ao raiar do sol de uma 6ª-feira, passando pela frente de uma estação espacial psicodélica pintada de verde que é o santuário do Imã Khomeini.

Por que Virilio? Porque foi o primeiro a conceitualizar a noção de que, com a explosão de uma guerra assimétrica, a Guerra Total tornou-se local – em escala global. Discorri sobre isso em meu livro de 2007, Globalistan e em meus escritos. Washington e Telavive ameaçam bombardear o Irã, há anos. Virilio foi o primeiro a dizer que a “paz” só faz estender a guerra por outros meios.

Maio de 1968 como teatro da mente – um teatro da imaginação. Quando a sociedade pôde ser uma obra de arte, uma performance, com as multidões na rua, como coro. A última reação criativa contra o consumismo. “Todo o poder à imaginação”.

Bela manhã ensolarada, à frente do complexo do Ministério do Exterior. Uma exposição/instalação sobre a guerra Irã-Iraque – “imposta”, como todos sabem. Um campo minado reconstruído; um mapa das nações que armavam Saddam; fotos de jovens combatentes/mártires que não teriam mais de 14 anos. Um teatro de rememoração dolorida. No final de 1978, Teerã também teve suas multidões nas ruas como coro – contra o xá. Khomeini foi reação contra o consumismo; mas foi “poder da imaginação”? E então, tudo foi engolido num teatro de crueldade – a tragédia da guerra “imposta”.

Guerra no sentido jornalístico é uma delinquência nacional elevada à escala de conflito extremamente importante – É o equivalente dos “tumultos”, como as antigas sociedades os chamavam. Já não se pode nem falar de guerras, são delinquências interestatais. É terrorismo de Estado.

Pepe Escobar (C) na Conferência Internacional
de Pensadores Independentes
Em Teerã, meus imensamente gentis anfitriões eram os organizadores de “Novo Horizonte: Conferência Internacional de Pensadores Independentes” [orig. New Horizon: the International Conference of Independent Thinkers]. Depois de muitas idas e vindas, o Ministério de Relações Exteriores acabou por também se envolver. A conferência distribuiu uma importante resolução, condenando o ISIS/ISIL/O Califa; o sionismo; a islamofobia, o sectarismo; e o apoio cego que Washington garante a qualquer tipo de ataque que Israel lance contra a Palestina: a delinquência nacional de Israel, ou terrorismo de Estado. A conferência também conclamou a uma maior cooperação e entendimento entre o Ocidente e o Islã: implica lutar contra as delinquências interestatais. 

A melhor defesa é atacar; e para atacar você tem de ter ideias; no momento não há nenhuma ideia em circulação. A imaginação hoje está na imagem, e a imagem está no poder. Não há imaginação para nada, só para a imagem.

Tive de deixar um fabuloso jantar tradicional persa a céu aberto, para ir para os estúdios daPress TV para um debate com o notório conservador Daniel Pipes sobre ISISISILDaesh. Surpreendentemente, concordamos mais do que eu esperaria. Bem, nem tão difícil, se se considera a “estratégia” de nada-de-estratégia do governo Obama; uma imagem (bombas e mísseis Tomahawks), em luta contra outra imagem (o show de degola que O Califa editou cuidadosamente).

Enquanto isso, o discurso do presidente Hassan Rouhani na ONU continua a provocar ondas: “Extremistas ameaçam nossos vizinhos, recorrem à violência e derramam sangue”. “Quem pode vencer é o povo da região”, na luta contra O Califa. Rouhani não se referia exatamente aos jatos made in USA alegadamente usados pela coalizão dos sem noção/covardes do Conselho de Cooperação do Golfo; Casa de Saud, Emirados Árabes Unidos, Bahrain e a Jordânia, membro-associado.

Hassan Rouhani - Presidente do Irã
Em todas as conversas que tive, um consenso emerge; o vácuo de poder do pós-Choque e Pavor de 2003 e da ocupação levou à ascensão da al-Qaeda no Iraque e, dali, ao ISISISIL/ Daesh. Mas mesmo que Teerã e Washington possam ter flertado sobre movimento conjunto contra O Califa, Washington depois negou que quisesse ajuda e Teerã rejeitou tudo.

Ainda assim, o que Rouhani disse em New York continua ecoando todos os dias, por toda parte, em Teerã; armar o “novo” Exército Sírio Livre na Arábia Saudita, e logo lá, é como “treinar outro grupo de terroristas e enviá-los para lutar na Síria”. E a “estratégia” de Washington está capacitando cada vez mais ditadores sunitas que fizeram carreira demonizando xiitas.

E então entrou em cena o outro Califa “não oficial”, o neo-otomano Recep Tayyip Erdogan; nada de usar “território” ou “bases militares” da Turquia, para a “coalizão”, se “os objetivos não incluírem a derrubada do regime de Bashar al-Assad”. Quem precisa do Califa Erdogan para dar combate ao Califa Ibrahim? O major-general Qassem Suleimani, comandante da Força Iraniana Quds, pode fazê-lo; a fotografia dele, ao lado de guerrilheiros peshmergas curdos causou sensação em todo o Irã, quando exibida na Rede de Notícias da República Islâmica do Irã [orig. Islamic Republic of Iran News Network (IRINN)].

O cinema nos mostra o que é a nossa consciência. Nossa consciência é um efeito de montagem – é uma colagem. Só há colar, cortar e emendar. Assim se explica muito bem o que Jean-Francois Lyotard chama de desaparecimento das grandes narrativas. Sociedade sem classes, justiça social – ninguém mais acredita nelas. Estamos na era das micronarrativas, a arte do fragmento.

A alegria do parque Laleh – um parque persa riscado em todas as direções por gatos persas e exímios jogadores de voleibol e badminton e famílias empurrando carrinhos de bebê. É onde Arash Darya-Bandari, extraordinário medievalista, com muitos anos passados na Bay Area, dá-me curso intensivo sobre os detalhes de uma grande narrativa sobrevivente; o xiismo e o conceito de Khomeini de velayat-e-faqih. Em termos de Pura Não Guerra, tudo tem a ver, sempre, com justiça social. Por isso é ininteligível para o turbocapitalismo.

O parque como ágora; um jardim de delícias intelectuais. Praticamente todas as minhas principais conversas aconteceram em caminhadas por dentro ou à volta do parque Laleh. E então, uma noite, saí para uma caminhada solitária, e encontrei um filme/performance revolucionário, num palco improvisado, completado com uma trincheira e morteiros. Público de alguns homens solitários e algumas famílias espalhadas pela praça. O cinema, mantendo viva a consciência da guerra Irã-Iraque.

O fim da Contenção corresponde ao início da guerra de informação, conflito no qual a superioridade de informação é mais importante que a capacidade para infligir dano.

A Conferência “Novo Horizonte” só poderia ser sobre guerra de informação. O tema geral foi a luta contra o lobby sionista. Todos sabem o que significa o lobby e como opera, especialmente nos EUA. Mas, em minhas breves intervenções, no Ministério de Relações Exteriores e na Conferência, preferi focar o alcance financeiro/econômico global do lobby. É o único modo de furar a armadura aparentemente invencível do lobby.

Gareth Porter durante entrevista à PressTV
Outra face da guerra de informação. Por todos os lugares por onde andei tive o prazer de ver que o livro de Gareth Porter – Manufactured Crisis: The Untold Story of the Iranian Nuclear Scare – foi recebido como uma bênção. O livro foi traduzido para o farsi pela Agência Fars de Notícias em apenas dois meses, com cuidado meticuloso, e lançado numa cerimônia simples.

O livro está destinado a tornar-se best seller – e demonstra conclusivamente, por exemplo, como o “complô” iraniano para equipar mísseis com ogivas nucleares foi integralmente fabricado pelo grupo terrorista Mujahedin-e Khalq (MEK) e na sequência passado para a Agência Internacional de Energia Atômica, pelo Mossad. Comparem-se o respeito com que Gareth é tratado em Teerã e a muralha de silêncio que cercou o lançamento do livro nos EUA – mais um reflexo da “selva de espelhos”, que já dura 35 anos, que opõe Washington a Teerã.

Como se poderia prever, os imbecis analfabetos nos EUA disseram da Conferência que seria um “festim de ódio antissemita”. Gareth foi descrito como “jornalista anti-Israel” e eu como “jornalista brasileiro anti-Israel”. Obviamente o inferno dos imbecis não está familiarizado com o conceito de “política exterior”.

O espaço já não está na geografia – está na eletrônica. A unidade está nos terminais. Está no tempo instantâneo dos postos de comando, quartéis-generais multinacionais, torres de controle, etc. A política acontece menos no espaço físico, que no sistema de tempo administrado por várias tecnologias. Há um movimento, da geo- para a crono-política: a distribuição do território torna-se a distribuição do tempo. A distribuição do território está ultrapassada, é mínima.

Hora de ir ao bazaar – a definitiva distribuição urbana de território. Na entrada principal, um grupo agita calculadoras e pedaços de papel, envolto numa gritaria incrível. A piada, com Roberto Quaglia – autor que desmontou completamente a saga do 11/9 – é que a coisa parece mercado de escravos. Nada disso. É nada menos que um mercado de futuros, sobre o desempenho do rial. Com a moeda nacional flutuando muito por causa das sanções – perdeu ¾ do valor nos últimos poucos anos – a chance de ganhar uma bolada é irresistível.

Encontramos a bela Zahra – vende toalhas feitas à mão, mas é, mesmo, tremenda fotógrafa de moda. E, então, o ritual que amo desde sempre: andar à procura do tapete tribal perfeito. Nesse caso, um Zaghol dos anos 1930s, que não será jamais reproduzido, porque os nômades locais estão ficando sedentários e não há novos tecelãos. Um caso de distribuição de território que se vai convertendo em distribuição de tempo (perdido).

Os faraós, os romanos, os gregos eram agrimensores. Aquilo era geopolítica. Já não vivemos lá, estamos na cronopolítica. Organização, proibições, interrupções, ordens, poderes, estruturações, sujeições estão agora no reino da temporalidade. E é onde a resistência também deveria estar.

O que nos leva, mais uma vez, às sanções. Muito está rendendo o que Rouhani disse ao presidente da Áustria, Hans Fisher, na ONU – sobre o Irã estar pronto para entregar gás à União Europeia. Não vai acontecer amanhã; o último número que obtive, em Teerã, é que o país precisaria de pelo menos US$ 200 bilhões em investimentos para atualizar sua infraestrutura de energia. Rouhani foi obrigado a esclarecer o que dissera. E Teerã não vai vender-se a preço de liquidação à União Europeia.

O fim das sanções tem tudo a ver com a cronopolítica.

Entramos na era do terrorismo de larga escala. Assim como se fala de pequena delinquência e grande delinquência, acho que também se pode dizer pequeno terrorismo e grande terrorismo. (...) Os complexos militar-industrial e científico continuam a funcionar por autoimpulso e momentum. É uma máquina louca que não vai parar.

Teerã pensa sobre a máquina louca, sem parar. Fui mais ou menos “sequestrado” de uma reunião e acabei num pequeno think-tank, com um fabuloso mapa na parede, no qual se detalham os centros de comando dos EUA. Todos os estudantes só querem saber o que o Império está realmente querendo do Irã.

Portal da antiga embaixada dos EUA em Teerã
Uma visita ao “Ninho de Espiões” – a antiga embaixada dos EUA – é também inevitável. Uma apoteose de tecnologia dos anos 1970s – imaculadamente preservada como em nenhum outro lugar do mundo; equipamento de rádio, proto-computadores, telefones, telexes, uma “sala de falsificação”, para produzir passaportes falsos. Não surpreende que Washington nunca se tenha recuperado da perda desse ponto privilegiadíssimo de escuta de todo o Oriente Médio. Esse prédio algum dia será uma embaixada “normal” dos EUA? Alguém poderia perguntar àquele Hamlet caipira que por pouco não virou o bombardeador maluco.

Por isso o aeroporto é hoje a nova cidade. As pessoas já não são cidadãos, são passageiros em trânsito. Não mais uma sociedade nômade, no sentido das grandes derivas nomádicas, mas só uma, concentrada no vetor do transporte. A nova capital é (...) uma cidade na intersecção das praticabilidades do tempo, em outras palavras, da velocidade.

O último dia tinha de guardar uma epifania. Esperei por ela todo o dia – entre entrevistas e um fabuloso almoço indiano no norte de Teerã com Gareth e o Dr. Marandi da Faculdade de Estudos Mundiais, da Universidade de Teerã; o banquete platônico ideal de convivialidade e intelecto. E então, à noite, uma corrida maluca até o santuário em Rey; bairro de operários, pedra fundacional de Teerã, um dos mais importantes locais de peregrinação no Irã, como Qom e Mashhad.

Entrada do Santuário de Rey
Santuário de Rey - Vista do interior
A iluminação estética sobrecarrega os sentidos, acrescenta-se ao impulso espiritual – com impulso extra, porque se pode dizer que o único ocidental ali, era eu. Dezenas de milhares de peregrinos homenageiam ali a morte do enteado do Imã Ali. Quem falou de morte das grandes narrativas? No Irã profundo, continuam vivas.

E depois, começa tudo outra vez, como num sonho de Coleridge; terei sonhado eu esse fugidio interlúdio persa, ou Teerã sonhou um pequeno sonho de mim? E logo estou de volta ao meu modo-padrão – passageiro-em-trânsito essencial; tapete nômade, mochila e bilhete de embarque. Próxima parada, uma cidade sem rosto, numa intersecção da velocidade.

Nota dos tradutores

[1] VIRILIO, Paul; LOTRINGER, Sylvester [1982], Guerra pura. A militarização do cotidiano. Trad. Elza Minet e Laymaert Garcia dos Santos, São Paulo: Brasiliense, 1984. Introd. Laymaert Garcia dos Santos.



[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.
Seu novo livro, Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

domingo, 28 de setembro de 2014

Irã apresenta-se como aliado natural do Ocidente

26/9/2014, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline − rediffBLOGS
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Entreouvido no Quiosque do Neguimbró, na Vila Vudu:  
ZeroHedge  que traduzimos  diz que Obama estaria preso numa arapuca armada pelos sauditas, que só pensam em detonar primeiro a Síria e, na sequência, o Irã.

O embaixador Bhadrakumar  que traduzimos aqui  diz com todas as letras que:

(1) nem “meia dúzia de Arábias Sauditas” fariam da tal “coalizão” de Obama coisa que preste;
(2) que Obama faz-e-acontece e manda pácas; e que
(3) Obama estaria acolhendo alguma “coalizão” que o Irã estaria oferecendo.

Neguim aki tá achano que a gente tem de resolver de que lado estamos: ou estamos com Obama ou estamos com Putin. Mas ainda não decidimos, sequer, se essa questão tem alguma importância. Então, continuamos a traduzir qualquer coisa que faça qualquer sentido. E depois a gente vê de que lado ficamos.

Qualquer coisa que faça qualquer sentido é melhor que a opinião dos williamswaacks e daqueles “especialistas” de araque lá-dele, no canal (PAGO!) GloboNews.

De garantido, garantido mesmo, só sabemos que NÃO ESTAMOS COM OBAMA, pela suficiente razão de que “Obama” não existe: ou “Barack” é boneco de ventríloquo do império anglo-sionista & Wall Street, ou “Barack” é boneco de ventríloquo da Arábia Saudita, do Golfo Reacionário & Wall Street. E a gente aki é BRICS, pró Movimento dos Não Alinhados, pelo Sul-Sul, pró ALBA, pró Condenados da Terra, contra golberys, soros, marinassilvas et alii.

E “Putin”, além de ser BRICS, é, pelo menos, entidade TOTALMENTE EXISTENTE [pano rápido].
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Morador caminha sobre escombros dos bombardeios dos EUA no Iraque (23/9/2014)
A grande maioria com que a Casa dos Comuns em Londres aprovou há apenas algumas horas a resolução de apoiar a proposta do governo para unir-se aos EUA nos ataques contra o Estado Islâmico no Iraque catapultou o Primeiro-Ministro, David Cameron, para a mais crucialmente importante posição na estratégia do presidente Barack Obama. Com a Grã-Bretanha ao seu lado, os EUA não dependem tanto da desconjuntada “coalizão dos desejantes/dispostos”, enquanto que, sem a Grã-Bretanha, mesmo que ali houvesse seis Arábias Sauditas, a coalizão continuaria sem valer grande coisa.

Cameron já começou a preparar-se. Seu encontro na 4ª-feira (24/9/2014)em New Yorkcom o Presidente do Irã, Hassan Rouhani (pouco antes da votação na Câmara dos Comuns) foi simbólico: foi o primeiro encontro de britânicos e iranianos desde a Revolução Islâmica de 1979; mas Londres jamais teria feito movimento historicamente tão importante, se já não soubesse, de antemão, que a integração do Irã na comunidade internacional é iminente.

Acordo nuclear Irã - EUA
De fato, a fachada do processo P5+Alemanha já foi posta de lado, e Washington e aliados europeus selecionados estão negociando diretamente com Teerã, marginalizando completamente a Rússia. As consultas EUA-Irã intensificaram-se e as declarações iranianas também apontam na direção de uma real possibilidade de emergir um acordo nuclear até o final de novembro.

Como já escrevi, as duas vias – o papel do Irã na “coalizão” comandada pelos EUA contra o Estado Islâmico; e as conversações nucleares – estão correndo pescoço a pescoço. Ninguém mais nem tenta argumentar na direção oposta – de que as duas vias não estejam interligadas.

Cameron e Rouhani em New York (24/9/2014)
Num discurso extraordinário à Assembleia Geral da ONU na 5ª-feira, 25/9/2014 (um dia depois da reunião Cameron-Rouhani), o presidente iraniano disse com total clareza que um acordo nuclear abrirá infinitas possibilidades de cooperação entre o ocidente e o Irã. O argumento de Rouhani é constituído de dois passos:

(a) o ocidente que trate de ver que o Irã é seu único “aliado natural” no Oriente Médio; e
(b) se o problema nuclear for resolvido, o Irã poderá trabalhar com o ocidente, para criar um Novo Oriente Médio.

Com toda a certeza, Washington e Londres verão isso como o mais perto que o Irã jamais chegou de mostrar que está disposto a ajudar numa transição política na Síria, como ajudou na transição no Iraque, transição que satisfez plenamente Obama.


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muita outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.