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sexta-feira, 15 de março de 2019

Rouhani e Sistani, Irã e Iraque Visita histórica

(enquanto o mundo se reorganiza sem EUA & Brasil) 

EUA e Brasil vergonha do mundo 



13/3/2019, 
Al-Monitor (do correspondente) [dica de Pepe Escobar, pelo Facebook]
Traduzido pelo pessoal da Vila Mandinga e publicado pelo blog O Empastelador

A visita de estado de Hassan Rouhani ao Iraque foi um sucesso para o presidente iraniano. Em termos de cooperação política e econômica, foram assinados vários memorandos de entendimento para facilitar o comércio, os investimentos, as conexões logísticas e as viagens entre os dois vizinhos. Além disso, foi divulgada importante declaração conjunta sobre o compromisso dos dois países para implementar 
os Acordos de Argel 1975 e anexos relacionados, que enfrentam questões sensíveis e gravemente deterioradas como a demarcação de fronteiras.

São passos da maior importância para Rouhani. Mas o coroamento dessas démarches foi a audiência do dia 13 de março – evento sem precedentes – com o Grande Aiatolá Ali al-Sistani em Najaf — primeira vez que presidente iraniano em exercício é recebido pelo clérigo de mais alta hierarquia no Iraque. Sistani “acolheu com satisfação todos os movimentos para fortalecer as relações entre o Iraque e seus vizinhos para promover interesses mútuos e a partir do respeito à soberania dos estados e da não intervenção em assuntos internos". Também "expressou a necessidade de políticas regionais e internacionais moderadas nessa região, para evitar mais tragédia e danos." Para compreender a significação desse encontro, é preciso considerar a influência de Sistani no Irã.

Ano passado, houve 
110 mil alunos seminaristas no Irã, concentrados principalmente na cidade sagrada de Qom. Segundo dados do gabinete de Sistani, 49 mil alunos em 300 seminários no Irã receberam bolsas de estudos do Grande Aiatolá em 2013: 35 mil em Qom, 10 mil em Mashhad e 4.000 em Isfahan (muitos seminaristas recebem bolsas-auxílios de várias autoridades clericais. Além desses, também há estudantes no Irã que não recebem nenhum tipo de bolsa. Assim sendo, pode-se assumir que proporção significativa de seminaristas iranianos são mantidos diretamente por Sistani, o qual, embora viva há muitos anos no Iraque é cidadão iraniano. Essas redes têm grande influência no Irã, onde o sistema prevalecente, dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica [ver também Guardianship of the Jurist (ing.)] — embora só imponha disciplina política, não religiosa – repousa sobre a legitimidade religiosa.

Muçulmanos xiitas tendem a seguir autoridades religiosas no que tenha a ver com como conduzir a própria vida pessoal pelo que determine a religião. Esses altos jurisconsultos são chamados maraji al-taqlid ("fontes a serem imitadas"). Para manter serviços de caridade e estudos, recolhem um 'imposto', khums — imposto de 20% sobre a riqueza — além de doações dos fiéis. Embora não haja estatísticas de quanto seguidores tem cada marja, um 
estudo pioneiro lançou alguma luz sobre o tema.

Uma equipe do MIT [Massachusetts Institute of Technology] analisou milhares de peregrinos iranianos e iraquianos que fizeram a peregrinação do 
Arbaeen em 2015. O evento anual atrai milhões de peregrinos. Os iranianos que fazem a viagem ao Iraque não podem ser tomados como representantes do iraniano médico. Mesmo assim é interessante considerar que a distribuição dos Reformistas, em relação aos conservadores entre os iranianos pesquisados, foi quase sempre igual. Além disso, 19% dos respondentes iranianos eram de Teerã; 12,2% de Isfahan e 11,28% de Qom; na população iraniana as porcentagens respectivas foram 16,2%; 6,5% e 1,53%.

Porcentagem ligeiramente superior a 60% dos pesquisados disseram que seguem Khamenei; 20% que seguem o Grande Aiatolá Nasser Makarem Shirazi; e 15% seguem Sistani; 80% dos iraquianos declararam-se seguidores de Sistani.

Mas quanto a pagar o khums — considerando-se que cerca de metade dos entrevistados não quiseram responder – só 22% dos iranianos disseram pagá-lo a Khamenei, e 9% a Makarem Shirazi. Por sua vez, 11% dos iranianos disseram que pagam seu khums a Sistani, além de 46% dos iraquianos pesquisados, que também pagam a taxa sobre a riqueza a Sistani.

O que nos dizem esses dados? Claro que há várias dimensões a considerar – incluindo a consideração de que peregrinos religiosos não são amostra da maioria da população, especialmente no Irã. Mesmo assim, é possível extrair algumas inferências razoáveis:
  • Sistani conta com número considerável de seguidores empenhados no Irã.
  • Quem queira ser bem-sucedido no governo iraquiano precisa das bênçãos de Sistani.
  • Quem queira operar com sucesso no Iraque também precisa das bênçãos de Sistani.
  • Considerando-se que Sistani rejeita a teocracia, suas bênçãos podem também servir como guia em ocasiões em que seja relevante ganhar a classe média iraniana e outros estratos da sociedade menos ligados ao pensamento dos Jurisconsultos Guardiões da Lei Islâmica.

Na verdade, muitos dados empíricos garantem evidências para tudo que acima se resumiu. Seja o governo em Bagdá, ou mesmo as autoridades de EUA e Irã, todos já aprenderam e aceitaram que é necessário evitar a oposição da suprema autoridade religiosa em Najaf, Iraque.

A grande influência que Sistani tem na política iraquiana (também extra-constitucional) ficou evidente seja quando conclamou o país a participar no processo eleitoral depois da invasão comandada pelos EUA, suas opiniões sobre primeiros-ministros ou até na luta contra o 'Estado Islâmico'. Essa influência ampliou-se para a política iraniana, onde várias facções buscaram o apoio dele para promover as respectivas posições e respectivos capitais políticos – especialmente em tempos de crise.

Por exemplo, 
Sistani recusou-se a receber o conservador Mahmoud Ahmadinejad (2005-13) quando visitou o Iraque — inclusive em 2008, na primeira viagem de presidente iraniano ao Iraque. Mas o ex-presidente Akbar Hashemi Rafsanjani, político moderado veterano, que por muito tempo apoiou Rouhani, sim, foi recebido por Sistani quando Rafsanjani visitou o Iraqueem março de 2009. No verão daquele ano, vários grupos em Teerã tentaram convencer o Grande Aiatolá a apoiá-los, num momento em que a República Islâmica enfrentou o momento mais grave de agitações internas desde a Revolução de 1979, logo depois da disputada reeleição de Ahmadinejad.

Em telegrama que vazou do Departamento de Estado dos EUA, alguém 
bem próximo de Sistani dizia que o alto clérigo dissera que recebera cartas de todos os principais grupos envolvidos no conflito de facções no Irã, que "queriam que eu dissesse o que mais interessava a cada um". Sistani manteve-se neutro, em parte movido pelo desejo de não se deixar respingar por desdobramentos.

A cautelosa preferência de Sistani por forças pró-reforma no Irã transparece também no relacionamento muito próximo que mantém com o ministro de Relações Exteriores Mohammad Javad Zarif, que, desde que assumiu o ministério em in 2013, já foi várias vezes recebido pela suprema autoridade religiosa do Iraque. Na primeira visita de Zarif como ministro de Relações Exteriores, Sistani, 
segundo uma fonte, disse a Zarif que “Li quase todo o seu livro, Mr. Ambassador,[1] e valorizo sua experiência e entendo que o senhor merece a posição que tem, de ministro de Relações Exteriores." E o Iraque foi o primeiro país que Zarif visitou, depois de assumir o ministério.

Em mais um sinal da influência de Najaf na política iraniana, não se deve ignorar que uma das figuras mais poderosas e bem relacionadas no Irã é o representante pessoal de Sistani, o Aiatolá Jawad Shahristani. Fosse nas negociações sobre quem comandaria o governo em Bagdá, ou na mobilização para a luta contra o 'Estado Islâmico', Shahristani sempre teve papel de destaque, com acesso à mais alta liderança no Irã, o que, provavelmente, está além do alcance da maioria dos membros do Gabinete iraniano.

A influência que facilita esses poderosos canais de atuação surge, em parte, das complexidades de laços de família (e políticos): Shahristani é genro de Sistani; Shahristani também é sogro de Ali Khomeini, neto do Aiatolá Ruhollah Khomeini — fundador da República Islâmica.

Sobre esse pano de fundo, a decisão da suprema autoridade religiosa de conceder uma audiência a Rouhani e Zarif informa aos líderes iraquianos que se devem engajar no governo Rouhani, mesmo que contem com o apoio de centros rivais de poder em Teerã, como o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC). Mais que isso, os feitos de Rouhani essa semana devem ter deixado bem claro para o governo Trump e seus aliados árabes, que o Irã nem abandonará nem será abandonado pelo Iraque, embora não se deva interpretar essa posição, de Bagdá ao lado de Teerã, como Bagdá ter posto Teerã acima de Washington.

Por fim, e talvez o mais importante de tudo, o encontro de Rouhani e Sistani foi uma injeção muito necessária de capital político, em momento de crise doméstica. De fato, Rouhani vem enfrentando fogo incessante de seus inimigos de linha-dura, revitalizados pela saída do governo Trump do Plano Amplo de Ação Conjunta [o chamado 'acordo nuclear do Irã].

Apesar de a viagem de Rouhani ao Iraque já estar planejada há mais tempo, a agenda foi, parece, impactada pela dinâmica de poder em Teerã – e pela a visível preferência de Sistani por moderação e reforma no Irã. Esse detalhe não escapou aos rivais do presidente do Irã, como já se viu na 
cobertura doméstica polarizada de sua audiência com Sistani. Assim, com Rouhani e Zarif manobrando para reafirmar sua autoridade sobre a política exterior da República Islâmica, há vários indicadores a serem observados em busca de sinais sobre o comando que tenham nas questões das agendas regionais. Dentre esses, a possibilidade de uma visita à Síria em futuro próximo, que também seria a primeira de Rouhani como presidente.


[1] Āqā-ye Safir: Goftogu bā Mohammad-Javād Zarif, Safir-e Pishin-e Irān dar Sāzemān-e Mellal-e Mottahed [Mr. Ambassador: A Dialogue with Mohammad Javād Zarif, the Former Ambassador of Iran to the United Nations], MohammadMehdi Rāji (ed.), Tehran: Nashr-e Ney, 2013, ISBN 978-964-185-298-8 (paperback), 368 pp. Aqui, resenha em inglês [NTs].

terça-feira, 8 de julho de 2014

Iraque: Irã leva EUA às cordas

7/7/2014, [*] M K Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Hossein Amir-Abdollahian
A diplomacia iraniana está trocando de marcha, no que tenha a ver com a situação no Iraque. O vice-ministro de Relações Exteriores, Hossein Amir-Abdollahian, partiu em viagem pelos Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Omã. Antes, no início da semana, o presidente Hassan Rouhani já conversara separadamente com o Emir do Qatar.

Semana passada, Abdollahian esteve em Moscou, viagem que ele já descreveu como bem-sucedida, dado que forjou “uma posição comum e coordenada” entre os dois países com vistas a combater contra o terrorismo no Iraque e ajudar Bagdá a proteger a “unidade, independência e integridade territorial”.

Teerã está deliberadamente deixando de lado a Arábia Saudita, que está sendo vista como principal protagonista no Iraque e Síria apoiando o Estado Islâmico do Iraque e Levante [ISIL]. E adotou a medida bem pouco usual de distribuir uma declaração, no domingo, para esclarecer, acima de qualquer dúvida, que o ministro de Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif absolutamente não visitara, nem visitaria a Arábia Saudita e que boatos nessa direção não têm qualquer fundamento.

 Javad Zarif
Essa declaração equivale a “empurrar para o lado”, diplomaticamente, a Arábia Saudita, ao mesmo tempo em que o Irã “declara” que nada há a discutir com a Arábia Saudita sobre o Iraque, enquanto os sauditas mantiverem a estratégia pervertida de desestabilizar o Iraque e forçar “mudança de regime”. A viagem regional de Abdollahian tem, muito provavelmente, o objetivo de chamar a atenção para o perigo de um revide a partir do Iraque, que teria impacto negativo sobre a segurança e a estabilidade regional.

Para garantir, ele levará aos três países, que são aliados chaves dos EUA, a conclusão a que Teerã chegou, de que Washington está jogando jogo duplo no Iraque, fugindo como a raposa e caçando como a cachorrada. As mais recentes notícias de Teerã sugerem que o Irã concluiu definitivamente, a partir de informação de inteligência confiável, que o governo Obama faz-se de Janus bifronte e usa duas caras na crise do Iraque, buscando meios para uma “reestréia” militar e política dentro do país para tentar proteger seus interesses econômicos.

Reza Naqdi
Importante: o comandante da Força Basij, Mohammad Reza Naqdi alertou, em tom grave, sobre a “formação de uma nova frente de resistência”, por Teerã, contra os EUA e seus aliados regionais. É o mais forte sinal de alerta que o Irã envia a Washington, até agora. Naqdi, figura muito poderosa no establishment de segurança no Irã, reporta-se diretamente ao supremo líder aiatolá Ali Khamenei. A dura mensagem a Obama é para que ele ponha fim imediatamente à empreitada do ISIL; ou aguente as consequências da “resistência”.

Ao mesmo tempo, Abdollahian novamente refutou os boatos de que o Irã teria enviado tropas para o Iraque. Claro, são boatos gerados também como propaganda distribuída por empresas de jornalismo mantidas com dinheiro do governo dos EUA, como a Radio Free Europe/Radio Liberty. Evidentemente, Teerã sabe que esses boatos visam, em primeiro lugar, manter a escalada constante, incremental, da presença militar dos EUA no Iraque [“EUA negam superdistensão da guerra (“mission creep”), e não param de superdistender a guerra”.  

Abu Bakr
Al-Baghdadi
Não surpreendentemente, a névoa da guerra vai se tornando mais espessa. Apesar da névoa, não param de surgir inúmeras sempre novas questões incômodas. Por um lado, Bagdá questionou a autenticidade de um vídeo recentemente distribuído, em que se vê o chefe do ISIL Abu Bakr Al-Baghdadi. Se o vídeo é falso, a grande pergunta é: quem anda pelo mundo a inflar a imagem do ISIL, fazendo de tudo para atrair na direção dele as atenções planetárias? Dito em outras palavras: quem tem mais a ganhar, com espalhar mais terror e mais medo?

Interpretação completamente nova surgiu hoje, segundo a qual o atual tumulto no Iraque foi golpe cuidadosamente urdido por EUA e seus aliados regionais, especialmente a Turquia – que mantém silêncio ensurdecedor sobre os desenvolvimentos no Iraque. Pergunta-se: o sequestro de turcos no consulado deles em Mosul, ostensivamente pelo ISIL, pode ser golpe de publicidade, para divulgação global, para apresentar Ancara como vítima, não com mentora do grupo terrorista? E não há resposta fácil.

O Daily Mail britânico publicou matéria exclusiva sobre a estranha decisão tomada pelo governo Obama, de libertar Al-Baghdadi, há cinco anos, da prisão onde estava. Gesto absolutamente excepcional, tratando-se de suspeito de comandar a al-Qaeda.

Hmmm... A névoa da guerra só se adensa!

EUA fornece "softwares" e inteligência para o ISIS/ISIL/DAASH
Novamente, recentes relatos iranianos selecionados pela imprensa oficial do governo russo sugerem que os EUA podem estar partilhando inteligência importante com o ISIL, que, adiante teriam utilidade em campo, no front operacional. Sendo isso verdade, o envio pelo governo Obama de algumas centenas de “conselheiros militares”, e o deslocamento de brigadas de drones para os céus do Iraque, assumem significado absolutamente novo.

Ainda que se deixe de lado tudo isso, fato é que o governo Obama e os aliados regionais dos EUA – Arábia Saudita e Turquia, em especial – já não podem confiar que o “projeto” ISIL tenha alguma serventia para derrubar do poder o primeiro-ministro Nouri Al-Maliki. A melhor aposta deles era isolar Maliki dentro do próprio campo xiita. Mas as coisas não estão andando nessa direção.

Grande aiatolá Ali al-Sistani
Outro duro golpe contra Washington, Riad e Ancara: Al-Sistani, grande aiatolá do Iraque – e clérigo imensamente respeitado e reverenciado – tomou a providência excepcional de esclarecer seus pronunciamentos sobre o impasse político em Bagdá. O grande aiatolá distribuiu declaração oficial em que diz que jamais manifestou qualquer oposição a que Maliki se mantivesse como primeiro-ministro (em direção diametralmente oposta ao que a imprensa-empresa saudita e dos EUA publicaram que seria a posição de Al-Sistani).

Fato é que Maliki está bem vivo e ativo e parecia realmente empenhado, quando disse que talvez se interesse por concorrer ao terceiro mandato como primeiro-ministro.

Não há dúvidas: Maliki está na liça.




[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Oriente Médio, Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de geopolítica, de energia e de segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu  e Ásia Times Online, Al Jazeera, Counterpunch, Information Clearing House, e muitas outras. Anima o blog Indian Punchline no sítio Rediff BLOGS. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala, Índia.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Iraque paga o preço da intervenção sectária dos EUA

18/6/2014, [*] Ramzy Baroud, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Guerreiros xiitas preparam-se para a luta em Bagdá - 13/6/2014
Xiitas armados cantavam “Labeiki ya Zaynab”, brandindo os rifles frente às câmeras de TV em Bagdá, dia 13/6/2014. Aparentemente, se preparavam para a luta difícil que tinham pela frente. Para eles, seria como se um canto de guerra respondesse ao chamamento de Zaynab, filha do Imã Ali, o grande califa muçulmano que viveu em Medina há 14 séculos. Foi o período durante o qual a seita xiita emergiu lentamente, baseada numa disputa política cujas consequências se sentem ainda hoje.

O canto, só ele, basta para demonstrar a feia natureza sectária da guerra no Iraque, que nos últimos dias atingiu ponto sem precedentes. Menos de mil combatentes do Estado Islâmico do Iraque e Levante (ing. ISIL) avançaram contra a maior cidade do Iraque, Mosul, dia 10/6, forçando duas divisões do exército iraquiano (cerca de 30 mil soldados) a uma retirada caótica.

Aiatolá Ali al-Sistani
O chamado às armas foi feito por um dos mais reverenciados clérigos xiitas do Iraque, o Grande Aiatolá Ali al-Sistani, e lido num dos sermões da oração da 6ª-feira (13/6/2014) em Kerbala:

(...) Todos os que tenham condições de portar uma arma e lutar contra os terroristas em defesa do próprio país (...) devem unir-se como voluntários às forças que já combatem para alcançar esse objetivo sagrado – dizia um trecho do sermão.

Os terroristas dos quais falou Sistani são o ISIL, estimados em apenas 7 mil terroristas na região. São bem organizados, muito bem equipados e muito cruéis.

Para conservar os seus já consideráveis ganhos territoriais, o ISIL moveu-se rapidamente para o sul, aproximando-se de outras cidades iraquianas. Atacaram e tomaram Baiji, dia 11/6/2014. No mesmo dia, tomaram Tikrit, cidade do ex-presidente Saddam Hussein do Iraque, onde receberam reforços de ex-combatentes ba’athistas.

Por dois dias tentaram tomar Samarra, sem conseguir; voltaram-se então para o leste de Bagdá, contra as cidades de Jalawala e Saaddiyah. Não há como verificar a veracidade do noticiário sobre o que está acontecendo nas cidades que caem sob controle do ISIL, mas a considerar o legado sangrento que deixaram na Síria, e o que o próprio ISIL noticia das suas atividades, deve-se esperar pelo pior.

Em poucos dias, o ISIL já controlava grande extensão de terra, suficiente para alterar o mapa político do Oriente Médio previsto pelas potências coloniais França e Grã-Bretanha há quase um século.

É difícil antever o que o futuro guarda. O governo dos EUA está petrificado ante a ideia de voltar a envolver-se no Iraque.

Mas foi a ação dos EUA – em nome dos neoconservadores que em larga medida determinavam a política exterior dos EUA durante o governo de George W. Bush – que pôs fogo nesse conflito e gerou o incêndio que arde até hoje.

Em dezembro de 2011, os EUA reconheceram o próprio fracasso e retiraram-se do Iraque, na esperança de mesmo assim conservarem alguma influência sobre o governo iraquiano dos xiitas do primeiro-ministro, Nouri al-Maliki. Falharam miseravelmente mais uma vez; hoje, é o Irã que tem influência considerável sobre o governo em Bagdá.

De fato, a influência e os interesses iranianos no Iraque são tão poderosos que, apesar das muitas “declarações” de arrogância e provocação que têm sido feitas pelo presidente Barack Obama dos EUA, os EUA não têm meios para intervir na mutável realidade no Iraque, sem a ajuda dos iranianos. Notícias que circulam na imprensa-empresa de EUA e Grã-Bretanha falam da possibilidade de uma “parceria” EUA-Irã para enfrentar os terroristas do ISIL, não só no Iraque mas também na Síria.

ISIL fuzila sumariamente a população xiita em Mosul (Iraque)
A história está-se acelerando a velocidade frenética. Alianças aparentemente impossíveis começam a criar-se muito rapidamente. Os mapas são apagados e redesenhados por linhas determinadas por combatentes mascarados armados com armas automáticas montadas em carrocerias de caminhonetes. É verdade que ninguém poderia prever esses eventos; mas quando alguns disseram que a guerra do Iraque poderia “desestabilizar” o Oriente Médio por décadas futuras, estavam falando precisamente do que hoje todos veem.

Quando Bush inventou sua guerra contra o Iraque para combater “al-Qaeda”, não havia “al-Qaeda” no Iraque; a guerra de Bush, sim, levou a “al-Qaeda” para o Iraque.

Um misto de húbris e ignorância – e nenhuma compreensão da história do Iraque – levou o governo Bush a inventar e manter aquela guerra horrível. Morreram centenas de milhares de iraquianos naquela aventura militarista imoral dos EUA. Os que não foram mortos foram presos, espancados, torturados, violentados ou fugiram, numa odisseia iraquiana sem fim.

Os norte-americanos brincaram levianamente com o Iraque, em vários sentidos. Dissolveram o exército; destroçaram todas as instituições políticas; tentaram refazer uma “nova” sociedade seguindo fórmulas do Pentágono e de analistas da CIA em Washington e na Virginia. Oprimiram os muçulmanos sunitas, deram poder aos xiitas e assim alimentaram a fogueira do sectarismo, sem medir qualquer consequência. Quando as coisas não saíram como o planejado, tentaram dar poder a alguns grupos xiitas e outros; e armaram grupos sunitas para combater a resistência iraquiana contra a guerra.

As consequências disso tudo são um mar de sangue. A guerra civil iraquiana de 2006-07 custou dezenas de milhares de mortos, que se somam à lista sempre crescente de vítimas de toda aquela aventura militarista dos EUA. Não houve eleição que não tenha sido fraudada, no esforço para remediar o irremediável; nenhuma técnica de tortura deixou de ser usada contra a rebelião; nenhuma “acordo” servil com os grupos sectários ou étnicos deixou de ser feito; não se economizou em nenhuma corrupção; e nem assim foi possível criar sequer algum arremedo verossímil de “estabilidade”.

Em vermelho, área do Iraque e da Síria atualmente ocupada pelo ISIL/ISIS
Em dezembro de 2011, os norte-americanos fugiram do inferno iraquiano, deixando para trás uma luta ainda em andamento e sem conclusão à vista.

O que se vê hoje no Iraque é parte integral da desgraça que os EUA distribuíram na região. Basta dizer que o líder do ISIL, hoje, Abu Baker al-Baghdadi, é iraquiano de Samarra, que combateu contra os EUA e foi preso e torturado em Camp Bucca – a maior prisão dos EUA no Iraque – por cinco anos.

Não seria muito exato dizer que o ISIL nasceu num calabouço de uma prisão norte-americana no Iraque. Seria preciso examinar com mais detalhe a história do ISIL, porque tem raízes que vão ao fundo desse conflito. É história tão cheia de mistérios quanto as figuras mascaradas que explodem gente e degolam gente sem nenhuma atenção aos elevados valores da religião que eles dizem representar.

Mas não há como negar que a orquestração ensandecida e ignorante que os EUA promoveram, para opressão em massa dos iraquianos – e contra, sobretudo, os sunitas, principalmente na guerra de 2003, antes de os EUA terem de bater em retirada apressada, foi fator importante, dos principais, na formação do ISIL – e para os horrendos níveis de violência do grupo extremista.

Não se sabe ainda se o ISIL conseguirá manter os territórios que tomou, nem se terá meios para enfrentar combate na Bagdá xiita controlada por EUA e Irã. Mas algumas coisas são certas:

A marginalização política sistemática das comunidades sunitas iraquianas é, ao mesmo tempo, sem sentido e insustentável. Um novo contrato social e político é indispensável, para reorganizar o que foi destruído pela invasão norte-americana e outras interferências externas, inclusive do Irã.

A natureza do conflito tornou-se tão complexa, que um acordo político no Iraque terá de ser amparado em acordo similar na Síria – que está servindo como criadouro de brutalidades, como o ISIL. É hora de começar a cuidar de tratar das feridas sírias e das feridas iraquianas, para que, afinal, possam começar a cicatrizar.



[*] Ramzy Baroud, palestino da diáspora, é colunista internacional e editor do site Palestine Chronicle. Seu mais recente livro é My Father Was a Freedom Fighter: Gaza’s Untold History [Meu pai era um revolucionário: a história não contada de Gaza], publicado pela Pluto Press.