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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

(a) ISIS/EI promove seu multinacionalismo sangrento e (b) Obama se rende: Assad comandará a transição na Síria

17/11/2014, [*] Moon of Alabama
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

(a) ISIS/EI promove seu multinacionalismo sangrento

Estado Islâmico (ISIS/EI) atual, em preto
Com bem planejada campanha de mídia, em três atos, o Estado Islâmico (EI) anunciou que se está convertendo em entidade multinacional presente em muitos países. E o presidente dos EUA afinal aceitou que o presidente da Síria deve, pelo menos durante a tal “transição”, permanecer onde está [e de onde, por falar nisso, ninguém conseguiu tirá-lo, por mais que tantos tenham tentado (NTs)].

Há uma semana, grupos jihadistas em cinco países árabes publicaram vídeos nos quais juram fidelidade ao Estado Islâmico e ao seu Califa. Os grupos aparecem na Argélia, no Egito (Sinai), na Líbia, no Iêmen e na Arábia Saudita. Os vídeos parecem ter sido editados pelos mesmos profissionais que editam todos os vídeos oficiais do Estado Islâmico, mas incluem tomadas locais de cada país.

Na 5ª-feira (13/11/2014) passada apareceu o segundo ato, quando foi publicada nova fita de áudio, com uma fala do Califa:

O discurso de Baghdadi foi dividido em duas partes principais. A primeira cobria aproximadamente dois terços do tempo da gravação e durava 17 minutos. Baghdadi falou do fracasso das operações da aliança internacional, que ele chama de “campanha dos Cruzados”, e zombou dos árabes que participam daquelas operações. Na segunda parte, que foi a mais perigosa, ele anunciou que o EI está em processo de expansão e surgem novas províncias em vários estados árabes. Essas duas partes foram divulgadas sob a principal manchete de Baghdadi: sua jihad continuará e alcançará todos os povos e todas as terras em todos os tempos.

Um terceiro ato, um vídeo muito bem produzido, foi distribuído, com mais de 16 minutos de duração, que mostrava uma fila de 18 homens do Estado Islâmico, cada um deles degolando um oficial ou piloto sírio capturado. 

Degoladores do ISIS/EI e degolados 
Na cena anterior ao momento dessa foto, vê-se uma cesta com facas bowie e cada degolador pega uma faca. Todos, na cena, usam o mesmo uniforme novo em folha, que não é o uniforme ocidental padrão, mas mostram mangas do tipo das que se veem nos uniformes usados no Afeganistão. (O padrão digital da estampa de camuflagem parece vir dos Emirados Árabes Unidos.) Todos têm mochilas iguais e gorros iguais. Todos os prisioneiros vestem o mesmo tipo de roupa. O único degolador que não aparece uniformizado e o único que tem o rosto coberto é britânico (apelido “Jihadi John”) e já fora visto em outro vídeo de decapitações. Este tem papel especial no final do clip. Todos os degoladores são de diferentes nacionalidades e representam a internacionalização do Estado Islâmico. Há um francês, um saudita, um iemenita, um paquistanês, um afegão, e outros.

A degola é mostrada do começo ao fim, em detalhes, parcialmente em câmera lenta. As decapitações são feitas devagar e sem hesitação. Quando a cabeça está separada do pescoço, é posta sobre o tronco, no chão. Não há gritos nem qualquer tipo de luta. A julgar pelos olhos e pela calma, todos, degoladores e degolados, parecem ter sido drogados, pelo menos superficialmente.

ISIS/EI em ordem unida
O vídeo exibe uma marca que mostra que foi filmado em Dabiq na Síria, o que tem muitos significados simbólicos. Dabiq é um vale no norte de Aleppo, onde o sultão otomano Salim I derrotou os mamelucos egípcios no século XVI. Dabiq é também o local onde, segundo alguns textos islamistas, travar-se-á a batalha do Armageddon, no confronto histórico final entre o bem (muçulmanos) e o mal (cristãos).

A degola dos oficiais sírios toma cerca de 12 minutos e só depois dela é mostrada outra decapitação, a qual, parece, aconteceu antes. O decapitado é Abdul-Rahman Kassig, “ex” soldado Ranger da força especial dos EUA que combateu no Iraque e apareceu depois como “trabalhador humanitário” na Síria, a serviço da oposição. Foi capturado pelo Estado Islâmico em 2013. A degola não é mostrada, mas vê-se a cabeça separada do corpo. O degolador é “Jihadi John” e ele ameaça os EUA e o Reino Unido: “Massacraremos vocês, nas suas ruas”. Nada sugere que seja piada. Parece, isso sim, anúncio de operações já planejadas.

O vídeo e a produção são de excelente qualidade. Com certeza a edição ficou a cargo de alguém que conhece muito bem o “estilo” da narrativa dramática ocidental e, também, da produção ocidental.

ISIS/EI ativo na Argelia, Líbia, Egito, Arábia Saudita, Síria e Iraque
Os valores simbólicos do vídeo não estão tanto propriamente na degola, embora os detalhes pornográficos possam ter sido incluídos para recrutar doentes psicóticos de um determinado tipo. Os pontos simbólicos estão na locação (e no que Dabiq representa) e no próprio grupo multinacional de degoladores, todos, hoje, já alistados como soldados uniformizados do Estado Islâmico.

É esse detalhe, afinal, que faz o vídeo aparecer como terceira parte de uma campanha de mídia muito bem planejada para anunciar e demonstrar o caráter multinacional do Estado Islâmico.

Por mais que tenham aparecido várias colunas escritas nas últimas semanas, sobre derrotas que o Estado Islâmico estaria sofrendo em algumas batalhas pequenas e sem importância no Iraque, a campanha de mídia lançada pelo EI aponta na direção oposta. O Estado Islâmico está crescendo e já é entidade multinacional com ampla distribuição geográfica. E vai-se tornando cada dia mais duro, mais difícil, combater contra ele. Mas significa também que o EI passará a precisar de mais recursos financeiros, que serão difíceis de obter. Significa também mais comunicação entre seus “ramos” – e comunicação é coisa rastreável, detectável e interrompível.

O vídeo acima discutido inclui também uma passagem na qual se explica que o Estado Islâmico e o fato de manter-se embasado em “Tawheed e Jihad” é consequência DIRETA das hostilidades e da ocupação, pelos “cruzados”, do Iraque. É explicação suficiente para pôr fim, de uma vez por todas, à conversa de tantos “especialistas”, que só fazem culpar Malik ou Assad pela ameaça que o EI traz para todos.

(b) Obama se rende: Assad comandará a transição na Síria

Barack Obama discursa na Austrália
Já havia previsto aqui que, para dar combate ao Estado Islâmico, o presidente Obama teria de deixar de lado a obsessão por derrubar o presidente Assad da Síria. Na 6ª-feira (14/11/2014), o primeiro-ministro Davutoğlu  da Turquia disse que recebera fortes sinais de que os EUA mudariam sua política para a Síria e que teriam desistido de derrubar o presidente Assad. Agora, numa conferência de imprensa em Brisbane durante a reunião do G-20, o próprio Obama disse que:

PRESIDENTE OBAMA: [...] Agora, estamos procurando uma solução política, eventualmente dentro da Síria, que inclua todos os grupos que vivem lá – os alawitas, os sunitas, cristãos. E, a certa altura, o povo sírio e os vários atores envolvidos, além de atores regionais – Turquia, Irã, apoiadores de Assad, como a Rússia – terão de se engajar numa conversa política.

E essa é a natureza da diplomacia sempre, com certeza nesse caso, onde você acaba tendo conversas diplomáticas potencialmente com gente de quem você não gosta e de governos dos quais você não gosta. Mas ainda não estamos nem próximos desse estágio.

PERGUNTA: Ok, mas, só para pôr um ponto final nesse assunto: o senhor continua a trabalhar ativamente para encontrar meios para tirar Assad de lá, como parte dessa transição política?

PRESIDENTE OBAMA: Não.

Até agora, os EUA sempre repetiram que Assad não poderia permanecer no governo como parte da tal “transição” (Rússia e Irã sempre insistiram, exatamente, em que Assad ficasse no governo, durante a transição). Assim sendo, aí está uma mudança na política dos EUA para a Síria. E, considerando-se a expansão do Estado Islâmico, é, afinal, mudança importante e sensível.


[*] “Moon of Alabama” é título popular de “Alabama Song” (também conhecida como “Whisky Bar” ou “Moon over Alabama”) dentre outras formas. Essa canção aparece na peça Hauspostille (1927) de Bertolt Brecht, com música de Kurt Weil; e foi novamente usada pelos dois autores, em 1930, na ópera A Ascensão e a Queda da Cidade de Mahoganny. Nessa utilização, aparece cantada pela personagem Jenny e suas colegas putas no primeiro ato. Apesar de a ópera ter sido escrita em alemão, essa canção sempre aparece cantada em inglês. Foi regravada por vários grandes artistas, dentre os quais David Bowie (1978) e The Doors (1967). A seguir podemos ver/ouvir versão em performance de David Johansen com legendas em português.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pepe Escobar: O Califa, pronto para se integrar à OPEP

31/10/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Califa Ibrahim ou Abu Bakr al-Baghdadi
O Califa Ibrahim líder do Estado Islâmico – codinome Abu Bakr al-Baghdadi – jamais cessa de nos surpreender, ele e, principalmente, seus poderosos apoiadores estufados de petrodólares. O Califa é, para todas as finalidades práticas, hoje, um dos “grandes do petróleo”, merecedor de ingressar na Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP. Seus bandidos takfiri/ mercenários estão – teoricamente – já há algum tempo, extraindo, refinando, embarcando e/ou contrabandeando e fechando gordos negócios que envolvem vastas quantidades de petróleo, embolsando lucros de cerca de US$ 2 milhões/dia.

Os preços do petróleo do Califa são de morrer (degolado?)! Afinal, ele está praticando a mesma estratégia de preços baixos concebida pelo pessoal que ele quer destronar em Meca, a Casa de Saud. O PIB do Califato em todo o “Siriaque” só tem um rumo a seguir: aumentar sempre.

Abdullah II da Jordânia
E, oh, que ironia! Os principais fregueses para o petróleo barato do Califa são aquele paraíso terrestre do “Sultão” Recep Tayyip Erdogan, codinome Turquia, aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN; e aquele reino do reizinho de Playstation, Abdullah II ibn al-Hussein, que se faz de país, codinome Jordânia.

Entrementes, a gigantesca, imensamente sofisticada orgia de siglas de agências militares de inteligência arregimentada pela liga “livre” EUA/OTAN simplesmente não consegue gravar/ interceptar essa zoeira.

Não surpreende, porque tampouco gravaram/ interceptaram os bandidos do Califa quando estavam tomando vastas fatias do “Siriaque” no verão, embarcados em flamantes versões de picapes cruza-desertos, naquele coruscante cartaz de propaganda de Toyotas brancas.

Quanto à “solução” do Império do Caos, de interceptar os lucros do petróleo do Califa, a única decisão tomada até agora foi bombardearem oleodutos que pertencem à República Árabe Síria, quer dizer, de fato, ao povo sírio.

Nunca subestimem a capacidade da doutrina de política externa do presidente Obama, “Não façam merda coisa estúpida”, para atingir píncaros inimagináveis de estupidez.

Ô, xeique, não dou a mínima: entra por um ouvido, sai pelo outro

E houve também o facinoroso festival de beija-mão do Secretário de Estado John Kerry ao capo da Casa de Saud, que aconteceu em Riad, mês passado.

John Kerry e o Rei Abdullah da Arábia Saudita

Nesse artigo-obra-prima, William Engdahl vai ao fundo, sem meias palavras, do suposto acordo de EUA-Sauditas “petróleo barato/bombardeie-Bashar-al-Assad/enfraqueça a Rússia”. É possível que não tenha sido acordo direto; o mais provável é Washington e Riad trabalhando juntas para objetivos comuns: mudança de regime na Síria no longo prazo; e minar ambos, Irã e Rússia, no curto prazo.

Aquele crucial gambito no Oleogasodutostão, central para a charada síria – um gasoduto que parta do Qatar para uma Síria-pós-mudança-de-regime, em vez de Irã-Iraque-Síria – não é exatamente prioridade dos sauditas, mas, sim, de um Qatar rival.

O que Kerry fez foi levar o selo de apoio da Voz do Dono à estratégia saudita de baixos preços do petróleo, pensando no curto prazo (consumidores norte-americanos nas bombas de gasolina) e, no médio prazo, pressionando os ganhos de ambos, do Irã e da Rússia. Evidentemente ninguém mais fala do fracasso da indústria norte-americana do gás de xisto (shale gas e obtido pelo criminosamente poluidor fracking [Nrc]).

Os sauditas, por sua vez, têm outras considerações chaves, dentre as quais recuperar sua fatia de mercado em toda a Ásia, onde estão localizados seus maiores consumidores. Estão perdendo mercado por causa do cru vendido com desconto pelo Irã e pelo Iraque. Assim, ambos esses países têm de ser “castigados”; além da aversão doentia da Casa de Saud contra todos os xiitas.

General John Allen
Quanto ao grande quadro na Síria, o capo de Obama para negociações com o Califa, o general John Allen, estabeleceu a tábua da lei, no jornal saudita Asharq Al-Awasat. Disse que:

Não haverá solução militar aqui [na Síria].

Disse também que:

O objetivo não é criar uma força em campo para libertar Damasco.

Tradução automática: aqueles bandidos velhos de antes, os “estamos derrotando Assad com o Exército Sírio Livre” já foram enterrados sete palmos no chão. E os bandidos novos do novo Exército Sírio Livre a serem treinados – e onde mais seria?! – na Arábia Saudita, não estão sendo vistos exatamente como santos salvadores de coisa alguma. Para todas as finalidades práticas, no cenário de médio prazo só se veem mais bombardeios norte-americanos (só bombardeiam infraestrutura síria, patrimônio do povo sírio); não se cogita de mudança de regime em Damasco; e o Califa continuará a consolidar seus ganhos.

E finalmente... o fator Hollywood

Imagine se aquela esfarrapada al-Qaeda “histórica” tivesse todos esses recursos super descolados, de propaganda e Relações Públicas! Guerreiros barbudos, de turbante, armados com velhas Kalashnikovs em cavernas no Afeganistão... tudo tão démodé! O Califa não apenas contrabandeia dezenas de milhares de barris de petróleo todos os dias sem ser perturbado, mas também usa um refém britânico, como seu correspondente estrangeiro (que deve ter-se convertido ao salafismo), e que fala diretamente de uma Kobani completamente deserta, a minutos de ser completamente capturada por um bando de takfiris e mercenários (com certeza não são mujahideen). Vídeo a seguir:


A produção é de primeiríssima. Impossível não se ver a alta qualidade da produção. A reportagem especial do Califa começa com uma longa tomada feita do alto, por um drone, da cidade de Kobani. Será drone norte-americano? [1] Terá sido capturado no Iraque? Serádrone israelense? Turco? Britânico? Os takfiris ainda não entraram na sintonia fina daLockheed Martin – ainda não.

Enquanto isso, em solo, só agora Ancara afinal permitiu que 200 peshmergas do Curdistão Iraquiano – cujos líderes escorregadios têm negócios com a Turquia – atravessassem a fronteira para, em teoria, ajudar Kobani. Nem soldados, nem armas nem suprimentos são permitidos para as forças do PKK/PYD curdos que, até agora, realmente defenderam Kobani. A procrastinação sem fim, pelo sultão Erdogan, será um dia condenada, em qualquer tribunal independente, como o principal fator que possibilitou a possível queda de Kobani.

O primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu já apresentou, mais uma vez, as “condições” para que seu país ajude a – até agora espetacularmente inócua – campanha dos EUA contra o Califa: Kobani terá de ser libertada só por peshmergas iraquianos e por restos dos bandidos do Exército Sírio Livre que andem por lá; não, em nenhum caso, por “terroristas” (como os membros do PKK/PYD).

Mapa da região de Kobani
A verdade é que Kobani – localizada precisamente na fronteira entre o sudeste da Anatolia e o norte da Síria – é altamente estratégica. A situação em campo é terrível. Devem ainda estar lá pouco mais de mil moradores, cercados dentro das próprias casas. Para protegê-los, pouco mais de 2 mil combatentes curdos sírios, inclusive a Brigada Ishtar, de mulheres. Só 200peshmergas vindos do Curdistão Iraquiano não farão grande diferença, contra vários milhares dos bandidos do Califa, fortemente armados e contando com pelo menos 20 tanques. Não parece bem parado, embora, diferente do que ‘informa’ a reportagem do refém britânico aprovado pelo Califa, os falsos “mujahideen” ainda não tenham conseguido controlar toda a cidade.

O Califa, de qualquer modo, não parará. Absolutamente nada do que acima se comenta seria nem remotamente possível, sem a cumplicidade semiclandestina/ semideclarada dos EUA/ Ocidente, o que prova, de uma vez por todas, que o Califa é dádiva caída do céu, para alimentar a eterna Guerra Global ao Terror [ou, como Bush dizia, “Guerra Global ao Terô”] GGaT. E Dick Cheney? Por que nunca pensou nisso?

Nota dos tradutores
[1] No filme, lê-se “Drone do Exército do Estado Islâmico”. Cróóóóóóózes!
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pepe Escobar: Um califa numa selva de espelhos

15/10/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

I'm aiming at you, love/ Estou mirando você, amor,
Cause killing you is killing myself/ Porque matar você é matar-me eu mesmo
Orson Welles (dir.), The Lady from Shanghai, 1947

Abu Bakr al-Baghdadi, O Califa
Ele é invencível. Ele degola. Ele contrabandeia. Ele conquista. Ele é totalmente o bamba dos bambas. Nem Tomahawk nem Hellfire conseguem tocá-lo. Ele sempre obtém o que quer, em Kobani; na província Anbar; com a Casa de Saud (que ele quer substituir), para ver se faz Putin (que ele quer degolar) sofrer por causa dos preços baixos.

Se fosse versão remake do clássico noir de Orson Welles, A Dama de Xangai na sequência do espelho (vídeo no fim do parágrafo), o advogado (norte-americano?) e a femme fatale (xiita?) também acabariam mortos; mas O Califa do Estado Islâmico sobreviveria como um Welles maior que a vida, livre para vagar ao léu, saquear e “oferecer meu amor ao nascer do dia” – como num Bravo Mundo Califado fulgurante no “Siriaque” sobre as cinzas do Acordo Sykes-Picot.


Ele está ganhando todas na província de Anbar, no Iraque. Os bandidos d’O Califa estão agora já próximos de – e logo que lugar! – Abu Ghraib; ex-Central de Tortura de Dábliu, Dick e Rummy. Estão a meros 12 km do aeroporto internacional de Bagdá. Podem derrubar um jato de passageiros com um míssil terra-ar disparado do ombro (ou MANPAD). Com certeza, não algum voo da Emirates – afinal, são importantes patrocinadores.

Hit, na província de Anbar, é agora território d’O Califa. As forças policiais e o comando operacional da província já perderam quase completamente o controle sobre Ramadi. O Califa controla agora o eixo crucial formado por Hit, Ramadi, Fallujah; a Autoestrada 1 [Highway 1] entre Bagdá e a fronteira da Jordânia; e a Autoestrada 2, entre Bagdá e a fronteira síria.

Os bandidos d’O Califa já estão tomando nada menos que todo o famoso cinturão de Bagdá, antigamente chamado “triângulo da morte” naqueles dias linha-dura da ocupação pelos norte-americanos, nos idos de 2004. Mensagem para Donald Rumsfeld: lembra-se dos seus “remanescentes”? Voltaram. E estão no comando.

As duas cidades, Ramadi e Fallujah, foram reduzidas a um acúmulo de escolas, hospitais, mesquitas e pontes bombardeadas. As ruas residenciais estão já virtualmente abandonadas. Segundo a ONU, já há pelo menos 360.803 desalojados internos na província de Anbar, além de 115 mil outros em áreas sob o controle d’O Califa. Pelo menos 63% das 1,6 milhão de pessoas que vivem na província estão classificadas como “carentes” – acesso apavorantemente mínimo à água, comida e cuidados de saúde, e recebendo de pouca a absolutamente zero ajuda humanitária daquela ficção, a “comunidade internacional”. A embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, não está pondo os bofes pela boca de tanto gritar a favor da “responsabilidade de proteger” (R2P).

Como seria possível que a espetacular Dominação de Pleno Espectro do Pentágono não veja acontecer nada disso? É claro que veem. Mas não dão a mínima. O Pentágono vez ou outra usa helicópteros Apache AH-64 para atacar alguns dos bandidos d’O Califa em Ramadi e Hit. Mas Apaches podem ser facilmente atingidos com MANPADS. Estão estacionados no Internacional de Bagdá e sua única missão é proteger o aeroporto. Quem liga para “dano colateral” local e civil?

De caso com a Máfia (trailer a seguir)


Em Kobani, antes a terceira maior cidade no Curdistão Sírio, no extremo nordeste, O Califa também matou a pau. Outro êxodo de proporções bíblicas já chega a 300 mil refugiados – e continua a aumentar, com mais de 180 mil deles a caminho da Turquia.

O Califa conta com ajuda indireta de O Sultão (ou Califa alternativo), também conhecido como presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia. Teerã está – com toda a razão – furiosíssima, ao ver o “ocidente” – e a Turquia – traindo os curdos outra vez. Não é segredo que O Sultão Erdogan nada está fazendo, porque quer ferrar os guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e o Partido da União Democrática Sírio-Curdo (PYD); eles que morram, em vez de repelir a dominação turca sobre aquelas áreas imensas, essencialmente curdas, da Anatolia. Assim, a única coisa que O Sultão Erdogan faz é apoiar o bombardeio sem alvo pelo Pentágono cum a tal coalizão dos covardes-sem-noção.

Qualquer um que acredite no que o Comando Central anda espalhando, que os jatos da Casa de Saud e dos Emirados Árabes Unidos conduzem “ataques com bombardeio” nos arredores de Kobani ganha passagem só de ida para Oz. Imaginem se aqueles palhaços seriam capazes de usar bombas guiadas de precisão ou detectores a laser treinados. Para começar, o Pentágono tem inteligência-zero, do local – porque há zero operadores capazes de apontar os alvos, com laser. Assim sendo, a “coalizão” mal e porcamente consegue acertar o tanque velho (dos 25 em torno de Kobani) ou um Humvee, dos 2.000 que enchem um vale já agora por duas semanas.

Mas a “coalizão” com certeza consegue – miraculosamente! – acertar a infraestrutura síria, como instalações de energia. Em junho, a desculpa oficial do Pentágono era “Não temosdrones no Iraque”. Agora já não há desculpas para os drones capazes de ler que “Esse produto é prejudicial à saúde” num maço de Marlboro não acertarem os homens d’O Califa em Kobani – ou na província de Anbar, se for o caso. Portanto, a coisa resume-se a uma mistura de incompetência e negligência. Muito mais fácil foi atingir festas de casamento de pashtuns nos Waziristões. Sobretudo porque, então, ninguém estava prestando atenção.

Recep Tayyp Erdogan (E) e Jens Stoltenberg
Os bandidos do próprio Erdogan, entrementes, instituíram um toque de recolher em todas as principais cidades e vilas no sudeste, na Anatolia, e já estão fuzilando até manifestantes curdos pacíficos. 15 milhões de curdos na Anatolia não podem estar errados: Erdogan quer que Kobani caia. Ankara permanece, para todas as finalidades práticas, principal eixo logístico para os bandidos d’O Califa. O Sultão está usando O Califa como exército “por procuração” para esmagar os curdos.

Evidência definitiva foi dada pelo líder do PYD curdo, Salih Muslim, que se encontrou com militares da inteligência turca e pediu ajuda. Condições: desistir que qualquer esperança de autodeterminação para os curdos sírios; entregar todas as cidades e regiões autogovernadas por vocês; e assistam aí enquanto nós instalamos uma “zona tampão”/zona aérea de exclusão turca, dentro de território sírio.

Que ninguém espere que o governo “Não façam merda estúpida”/”Não temos estratégia alguma” de Obama sentencie que “Erdogan tem de sair”. Além do mais, o patético clube da Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice e seu vice, Ben Rhodes, não têm nem ideia do que se passa.

Para a Zona Verde! (trailer a seguir)


Teerã, por sua vez, identificou claramente o jogo imundo de Erdogan. O Sultão sabe que bombardeiros-monstro B1-B sobrevoando Kobani são absolutamente inúteis – enquanto os bandidos d’O Califa usam explosões massivas de carros-bomba e continuam a avançar. Serão necessários “coturnos em solo”. Entra a Turquia, agente da OTAN. Mas com uma condição: mudança de regime em Damasco, ou, pelo menos, prelúdio disso, com a tal zona “tampão”/zona aérea de exclusão sobre a Síria.

O Grande Quadro permanece o mesmo. O Sultão Erdogan e a Casa de Saud querem mudança de regime em Damasco (Erdogan sonham com um fantoche sunita como vassalo de Ankara; os sauditas querem seu próprio agente wahhabista). Israel concorda esfuziante. E se a coisa vier com brinde – atacar o novo governo do Iraque, ainda apoiado pelo Irã, na Zona Verde fabricada pelos EUA – melhor ainda. Resumo de tudo isso: “Não faça merda estúpida” traduz-se como: Conselho de Cooperação do Golfo, Turquia e Israel estão usando Washington para fazer avançar sua agenda bastante explícita.

O Sultão Erdogan, como capo mafioso, parece ter assimilado uma coisinhas do filme Os bons companheiros, de Martin Scorsese (trailer a seguir).


Está extraindo o maior naco de carne possível da completamente desentendida equipe do “Não façam merda estúpida”. O Sultão tem em vista pôr coturnos turcos em solo para gloriosamente invadirem a Síria em modo “intervenção humanitária” padrão OTAN. E tudo isso vendido como se a OTAN estivesse oferecendo “proteção” a estado-membro. O novo secretário da OTAN, ex-primeiro ministro da Noruega Jens Stoltenberg, acaba de visitar Ankara. A Arábia Saudita já “votou” a favor da zona “tampão”/aérea de exclusão. O mesmo vale para o general François Hollande, aquele lamentável arremedo de presidente da França.

Mais uma vez, Teerã aparece para o resgate. O ministro de Relações Exteriores anunciou  devidamente que o Irã está pronto para libertar Kobani do jugo dos bandidos d’O Califa (e pode fazê-lo), se o presidente Bashar Al-Assad solicitar. Agora, o tabuleiro de xadrez é assim: a OTAN ficou sem qualquer pretexto para montar uma invasão à Síria, com ou sem participação de Erdogan, capo mafioso.

Operação “Tire as Mãos do meu Toyota”

As SUVs Toyota d'O Califa desfilam no deserto
O Califa também ganha muito no departamento “faça-sangrar o Pentágono”. Um único “ataque” contra os bandidos d’O Califa – envolvendo F-15s, F-16s ou F-22s – custa até US$500 mil. O Pentágono acaba de informar que já gastou nada menos que US$ 1,1 bilhão contra O Califa desde junho.

E para quê? Virtualmente todos os bens que estão sendo destruídos pelas bombas norte-americanas são fabricados nos EUA, entregues ao exército do Iraque e depois capturados na ofensiva de O Califa. Eis aí, pois, o Império do Caos gastando uma fortuna do Tesouro dos EUA para detonar tanques, Humvees e outros itens pelos quais os contribuintes norte-americanos pagaram. Não surpreende que os mesmos contribuintes estejam furiosos. Eis a Operação Tire as Mãos do meu Toyota.

Além do mais, o Pentágono não tem nem ideia de como construir sua força “rebelde” por procuração, como Obama mandou, para combater contra O Califa (sem soldados ou marines norte-americanos, só fanáticos wahhabistas e sortimento variado de mercenários).

Para começar, não têm nem ideia de o que, diabos, seria um “rebelde moderado”. A malta deve ser “avaliada” e − se aprovada − deve então ser mandada para a Arábia Saudita (mas... para a Arábia Saudita?!) para ser treinada. Lá, o sujeito encarregado será – e o que mais poderia ser – um honcho das Operações Especiais, major-general Michael Nagata. Mesmo sob o mais otimista dos cenários, o Pentágono não conseguirá pôr esse seu exército de “rebeldes moderados” no solo, na Síria, antes do verão de 2015.


Podem-se apostar caixas e caixas de Chateau Margaux, que esse primor de armamento acabará capturado pelos bandidos d’O Califa. Aplica-se também aos “rebeldes” confiáveis em solo.

Mas a obra-prima de dadaísmo real é que, primeiro, esses rebeldes serão polidamente solicitados pelo Pentágono a esquecer qualquer plano de livrar-se de Assad, para lutar contra O Califa. Pelo menos por enquanto. Re-entra em cena Stoltenberg, novo comandante da OTAN:

Ano que vem, na reunião ministerial, tomaremos decisões sobre a chamada frente de ataque, mas, mesmo antes de estar estabelecida, a OTAN, afinal, tem um exército forte. Podemos deslocá-lo para onde quisermos.

Oh, grande homem! Por que não para o “Siriaque”?

Se tudo isso parece roteiro da série de sucesso Blacklist (trailer a seguir), é porque é.


Por que não escalar Red (James Spader) para lugar contra O Califa? E depois, quem sabe... e se Red é O Califa? Finge que se persegue, ele contra ele mesmo – e sempre ganha, maior elegância. De volta à Dama de Xangai, de Welles: “Matar você é matar-me eu mesmo”. O caso é que ninguém quereria ver morto O Califa, quando é tal, tamanho, imenso, indiscutível sucesso de bilheteria


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.
Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.