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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pepe Escobar: O Califa, pronto para se integrar à OPEP

31/10/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

O Califa Ibrahim ou Abu Bakr al-Baghdadi
O Califa Ibrahim líder do Estado Islâmico – codinome Abu Bakr al-Baghdadi – jamais cessa de nos surpreender, ele e, principalmente, seus poderosos apoiadores estufados de petrodólares. O Califa é, para todas as finalidades práticas, hoje, um dos “grandes do petróleo”, merecedor de ingressar na Organização dos Países Exportadores de Petróleo, OPEP. Seus bandidos takfiri/ mercenários estão – teoricamente – já há algum tempo, extraindo, refinando, embarcando e/ou contrabandeando e fechando gordos negócios que envolvem vastas quantidades de petróleo, embolsando lucros de cerca de US$ 2 milhões/dia.

Os preços do petróleo do Califa são de morrer (degolado?)! Afinal, ele está praticando a mesma estratégia de preços baixos concebida pelo pessoal que ele quer destronar em Meca, a Casa de Saud. O PIB do Califato em todo o “Siriaque” só tem um rumo a seguir: aumentar sempre.

Abdullah II da Jordânia
E, oh, que ironia! Os principais fregueses para o petróleo barato do Califa são aquele paraíso terrestre do “Sultão” Recep Tayyip Erdogan, codinome Turquia, aliado da Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN; e aquele reino do reizinho de Playstation, Abdullah II ibn al-Hussein, que se faz de país, codinome Jordânia.

Entrementes, a gigantesca, imensamente sofisticada orgia de siglas de agências militares de inteligência arregimentada pela liga “livre” EUA/OTAN simplesmente não consegue gravar/ interceptar essa zoeira.

Não surpreende, porque tampouco gravaram/ interceptaram os bandidos do Califa quando estavam tomando vastas fatias do “Siriaque” no verão, embarcados em flamantes versões de picapes cruza-desertos, naquele coruscante cartaz de propaganda de Toyotas brancas.

Quanto à “solução” do Império do Caos, de interceptar os lucros do petróleo do Califa, a única decisão tomada até agora foi bombardearem oleodutos que pertencem à República Árabe Síria, quer dizer, de fato, ao povo sírio.

Nunca subestimem a capacidade da doutrina de política externa do presidente Obama, “Não façam merda coisa estúpida”, para atingir píncaros inimagináveis de estupidez.

Ô, xeique, não dou a mínima: entra por um ouvido, sai pelo outro

E houve também o facinoroso festival de beija-mão do Secretário de Estado John Kerry ao capo da Casa de Saud, que aconteceu em Riad, mês passado.

John Kerry e o Rei Abdullah da Arábia Saudita

Nesse artigo-obra-prima, William Engdahl vai ao fundo, sem meias palavras, do suposto acordo de EUA-Sauditas “petróleo barato/bombardeie-Bashar-al-Assad/enfraqueça a Rússia”. É possível que não tenha sido acordo direto; o mais provável é Washington e Riad trabalhando juntas para objetivos comuns: mudança de regime na Síria no longo prazo; e minar ambos, Irã e Rússia, no curto prazo.

Aquele crucial gambito no Oleogasodutostão, central para a charada síria – um gasoduto que parta do Qatar para uma Síria-pós-mudança-de-regime, em vez de Irã-Iraque-Síria – não é exatamente prioridade dos sauditas, mas, sim, de um Qatar rival.

O que Kerry fez foi levar o selo de apoio da Voz do Dono à estratégia saudita de baixos preços do petróleo, pensando no curto prazo (consumidores norte-americanos nas bombas de gasolina) e, no médio prazo, pressionando os ganhos de ambos, do Irã e da Rússia. Evidentemente ninguém mais fala do fracasso da indústria norte-americana do gás de xisto (shale gas e obtido pelo criminosamente poluidor fracking [Nrc]).

Os sauditas, por sua vez, têm outras considerações chaves, dentre as quais recuperar sua fatia de mercado em toda a Ásia, onde estão localizados seus maiores consumidores. Estão perdendo mercado por causa do cru vendido com desconto pelo Irã e pelo Iraque. Assim, ambos esses países têm de ser “castigados”; além da aversão doentia da Casa de Saud contra todos os xiitas.

General John Allen
Quanto ao grande quadro na Síria, o capo de Obama para negociações com o Califa, o general John Allen, estabeleceu a tábua da lei, no jornal saudita Asharq Al-Awasat. Disse que:

Não haverá solução militar aqui [na Síria].

Disse também que:

O objetivo não é criar uma força em campo para libertar Damasco.

Tradução automática: aqueles bandidos velhos de antes, os “estamos derrotando Assad com o Exército Sírio Livre” já foram enterrados sete palmos no chão. E os bandidos novos do novo Exército Sírio Livre a serem treinados – e onde mais seria?! – na Arábia Saudita, não estão sendo vistos exatamente como santos salvadores de coisa alguma. Para todas as finalidades práticas, no cenário de médio prazo só se veem mais bombardeios norte-americanos (só bombardeiam infraestrutura síria, patrimônio do povo sírio); não se cogita de mudança de regime em Damasco; e o Califa continuará a consolidar seus ganhos.

E finalmente... o fator Hollywood

Imagine se aquela esfarrapada al-Qaeda “histórica” tivesse todos esses recursos super descolados, de propaganda e Relações Públicas! Guerreiros barbudos, de turbante, armados com velhas Kalashnikovs em cavernas no Afeganistão... tudo tão démodé! O Califa não apenas contrabandeia dezenas de milhares de barris de petróleo todos os dias sem ser perturbado, mas também usa um refém britânico, como seu correspondente estrangeiro (que deve ter-se convertido ao salafismo), e que fala diretamente de uma Kobani completamente deserta, a minutos de ser completamente capturada por um bando de takfiris e mercenários (com certeza não são mujahideen). Vídeo a seguir:


A produção é de primeiríssima. Impossível não se ver a alta qualidade da produção. A reportagem especial do Califa começa com uma longa tomada feita do alto, por um drone, da cidade de Kobani. Será drone norte-americano? [1] Terá sido capturado no Iraque? Serádrone israelense? Turco? Britânico? Os takfiris ainda não entraram na sintonia fina daLockheed Martin – ainda não.

Enquanto isso, em solo, só agora Ancara afinal permitiu que 200 peshmergas do Curdistão Iraquiano – cujos líderes escorregadios têm negócios com a Turquia – atravessassem a fronteira para, em teoria, ajudar Kobani. Nem soldados, nem armas nem suprimentos são permitidos para as forças do PKK/PYD curdos que, até agora, realmente defenderam Kobani. A procrastinação sem fim, pelo sultão Erdogan, será um dia condenada, em qualquer tribunal independente, como o principal fator que possibilitou a possível queda de Kobani.

O primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu já apresentou, mais uma vez, as “condições” para que seu país ajude a – até agora espetacularmente inócua – campanha dos EUA contra o Califa: Kobani terá de ser libertada só por peshmergas iraquianos e por restos dos bandidos do Exército Sírio Livre que andem por lá; não, em nenhum caso, por “terroristas” (como os membros do PKK/PYD).

Mapa da região de Kobani
A verdade é que Kobani – localizada precisamente na fronteira entre o sudeste da Anatolia e o norte da Síria – é altamente estratégica. A situação em campo é terrível. Devem ainda estar lá pouco mais de mil moradores, cercados dentro das próprias casas. Para protegê-los, pouco mais de 2 mil combatentes curdos sírios, inclusive a Brigada Ishtar, de mulheres. Só 200peshmergas vindos do Curdistão Iraquiano não farão grande diferença, contra vários milhares dos bandidos do Califa, fortemente armados e contando com pelo menos 20 tanques. Não parece bem parado, embora, diferente do que ‘informa’ a reportagem do refém britânico aprovado pelo Califa, os falsos “mujahideen” ainda não tenham conseguido controlar toda a cidade.

O Califa, de qualquer modo, não parará. Absolutamente nada do que acima se comenta seria nem remotamente possível, sem a cumplicidade semiclandestina/ semideclarada dos EUA/ Ocidente, o que prova, de uma vez por todas, que o Califa é dádiva caída do céu, para alimentar a eterna Guerra Global ao Terror [ou, como Bush dizia, “Guerra Global ao Terô”] GGaT. E Dick Cheney? Por que nunca pensou nisso?

Nota dos tradutores
[1] No filme, lê-se “Drone do Exército do Estado Islâmico”. Cróóóóóóózes!
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[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.
− Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Pepe Escobar: Um califa numa selva de espelhos

15/10/2014, [*] Pepe EscobarAsia Times Online − The Roving Eye
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

I'm aiming at you, love/ Estou mirando você, amor,
Cause killing you is killing myself/ Porque matar você é matar-me eu mesmo
Orson Welles (dir.), The Lady from Shanghai, 1947

Abu Bakr al-Baghdadi, O Califa
Ele é invencível. Ele degola. Ele contrabandeia. Ele conquista. Ele é totalmente o bamba dos bambas. Nem Tomahawk nem Hellfire conseguem tocá-lo. Ele sempre obtém o que quer, em Kobani; na província Anbar; com a Casa de Saud (que ele quer substituir), para ver se faz Putin (que ele quer degolar) sofrer por causa dos preços baixos.

Se fosse versão remake do clássico noir de Orson Welles, A Dama de Xangai na sequência do espelho (vídeo no fim do parágrafo), o advogado (norte-americano?) e a femme fatale (xiita?) também acabariam mortos; mas O Califa do Estado Islâmico sobreviveria como um Welles maior que a vida, livre para vagar ao léu, saquear e “oferecer meu amor ao nascer do dia” – como num Bravo Mundo Califado fulgurante no “Siriaque” sobre as cinzas do Acordo Sykes-Picot.


Ele está ganhando todas na província de Anbar, no Iraque. Os bandidos d’O Califa estão agora já próximos de – e logo que lugar! – Abu Ghraib; ex-Central de Tortura de Dábliu, Dick e Rummy. Estão a meros 12 km do aeroporto internacional de Bagdá. Podem derrubar um jato de passageiros com um míssil terra-ar disparado do ombro (ou MANPAD). Com certeza, não algum voo da Emirates – afinal, são importantes patrocinadores.

Hit, na província de Anbar, é agora território d’O Califa. As forças policiais e o comando operacional da província já perderam quase completamente o controle sobre Ramadi. O Califa controla agora o eixo crucial formado por Hit, Ramadi, Fallujah; a Autoestrada 1 [Highway 1] entre Bagdá e a fronteira da Jordânia; e a Autoestrada 2, entre Bagdá e a fronteira síria.

Os bandidos d’O Califa já estão tomando nada menos que todo o famoso cinturão de Bagdá, antigamente chamado “triângulo da morte” naqueles dias linha-dura da ocupação pelos norte-americanos, nos idos de 2004. Mensagem para Donald Rumsfeld: lembra-se dos seus “remanescentes”? Voltaram. E estão no comando.

As duas cidades, Ramadi e Fallujah, foram reduzidas a um acúmulo de escolas, hospitais, mesquitas e pontes bombardeadas. As ruas residenciais estão já virtualmente abandonadas. Segundo a ONU, já há pelo menos 360.803 desalojados internos na província de Anbar, além de 115 mil outros em áreas sob o controle d’O Califa. Pelo menos 63% das 1,6 milhão de pessoas que vivem na província estão classificadas como “carentes” – acesso apavorantemente mínimo à água, comida e cuidados de saúde, e recebendo de pouca a absolutamente zero ajuda humanitária daquela ficção, a “comunidade internacional”. A embaixadora dos EUA à ONU, Samantha Power, não está pondo os bofes pela boca de tanto gritar a favor da “responsabilidade de proteger” (R2P).

Como seria possível que a espetacular Dominação de Pleno Espectro do Pentágono não veja acontecer nada disso? É claro que veem. Mas não dão a mínima. O Pentágono vez ou outra usa helicópteros Apache AH-64 para atacar alguns dos bandidos d’O Califa em Ramadi e Hit. Mas Apaches podem ser facilmente atingidos com MANPADS. Estão estacionados no Internacional de Bagdá e sua única missão é proteger o aeroporto. Quem liga para “dano colateral” local e civil?

De caso com a Máfia (trailer a seguir)


Em Kobani, antes a terceira maior cidade no Curdistão Sírio, no extremo nordeste, O Califa também matou a pau. Outro êxodo de proporções bíblicas já chega a 300 mil refugiados – e continua a aumentar, com mais de 180 mil deles a caminho da Turquia.

O Califa conta com ajuda indireta de O Sultão (ou Califa alternativo), também conhecido como presidente Recep Tayyip Erdogan da Turquia. Teerã está – com toda a razão – furiosíssima, ao ver o “ocidente” – e a Turquia – traindo os curdos outra vez. Não é segredo que O Sultão Erdogan nada está fazendo, porque quer ferrar os guerrilheiros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e o Partido da União Democrática Sírio-Curdo (PYD); eles que morram, em vez de repelir a dominação turca sobre aquelas áreas imensas, essencialmente curdas, da Anatolia. Assim, a única coisa que O Sultão Erdogan faz é apoiar o bombardeio sem alvo pelo Pentágono cum a tal coalizão dos covardes-sem-noção.

Qualquer um que acredite no que o Comando Central anda espalhando, que os jatos da Casa de Saud e dos Emirados Árabes Unidos conduzem “ataques com bombardeio” nos arredores de Kobani ganha passagem só de ida para Oz. Imaginem se aqueles palhaços seriam capazes de usar bombas guiadas de precisão ou detectores a laser treinados. Para começar, o Pentágono tem inteligência-zero, do local – porque há zero operadores capazes de apontar os alvos, com laser. Assim sendo, a “coalizão” mal e porcamente consegue acertar o tanque velho (dos 25 em torno de Kobani) ou um Humvee, dos 2.000 que enchem um vale já agora por duas semanas.

Mas a “coalizão” com certeza consegue – miraculosamente! – acertar a infraestrutura síria, como instalações de energia. Em junho, a desculpa oficial do Pentágono era “Não temosdrones no Iraque”. Agora já não há desculpas para os drones capazes de ler que “Esse produto é prejudicial à saúde” num maço de Marlboro não acertarem os homens d’O Califa em Kobani – ou na província de Anbar, se for o caso. Portanto, a coisa resume-se a uma mistura de incompetência e negligência. Muito mais fácil foi atingir festas de casamento de pashtuns nos Waziristões. Sobretudo porque, então, ninguém estava prestando atenção.

Recep Tayyp Erdogan (E) e Jens Stoltenberg
Os bandidos do próprio Erdogan, entrementes, instituíram um toque de recolher em todas as principais cidades e vilas no sudeste, na Anatolia, e já estão fuzilando até manifestantes curdos pacíficos. 15 milhões de curdos na Anatolia não podem estar errados: Erdogan quer que Kobani caia. Ankara permanece, para todas as finalidades práticas, principal eixo logístico para os bandidos d’O Califa. O Sultão está usando O Califa como exército “por procuração” para esmagar os curdos.

Evidência definitiva foi dada pelo líder do PYD curdo, Salih Muslim, que se encontrou com militares da inteligência turca e pediu ajuda. Condições: desistir que qualquer esperança de autodeterminação para os curdos sírios; entregar todas as cidades e regiões autogovernadas por vocês; e assistam aí enquanto nós instalamos uma “zona tampão”/zona aérea de exclusão turca, dentro de território sírio.

Que ninguém espere que o governo “Não façam merda estúpida”/”Não temos estratégia alguma” de Obama sentencie que “Erdogan tem de sair”. Além do mais, o patético clube da Conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice e seu vice, Ben Rhodes, não têm nem ideia do que se passa.

Para a Zona Verde! (trailer a seguir)


Teerã, por sua vez, identificou claramente o jogo imundo de Erdogan. O Sultão sabe que bombardeiros-monstro B1-B sobrevoando Kobani são absolutamente inúteis – enquanto os bandidos d’O Califa usam explosões massivas de carros-bomba e continuam a avançar. Serão necessários “coturnos em solo”. Entra a Turquia, agente da OTAN. Mas com uma condição: mudança de regime em Damasco, ou, pelo menos, prelúdio disso, com a tal zona “tampão”/zona aérea de exclusão sobre a Síria.

O Grande Quadro permanece o mesmo. O Sultão Erdogan e a Casa de Saud querem mudança de regime em Damasco (Erdogan sonham com um fantoche sunita como vassalo de Ankara; os sauditas querem seu próprio agente wahhabista). Israel concorda esfuziante. E se a coisa vier com brinde – atacar o novo governo do Iraque, ainda apoiado pelo Irã, na Zona Verde fabricada pelos EUA – melhor ainda. Resumo de tudo isso: “Não faça merda estúpida” traduz-se como: Conselho de Cooperação do Golfo, Turquia e Israel estão usando Washington para fazer avançar sua agenda bastante explícita.

O Sultão Erdogan, como capo mafioso, parece ter assimilado uma coisinhas do filme Os bons companheiros, de Martin Scorsese (trailer a seguir).


Está extraindo o maior naco de carne possível da completamente desentendida equipe do “Não façam merda estúpida”. O Sultão tem em vista pôr coturnos turcos em solo para gloriosamente invadirem a Síria em modo “intervenção humanitária” padrão OTAN. E tudo isso vendido como se a OTAN estivesse oferecendo “proteção” a estado-membro. O novo secretário da OTAN, ex-primeiro ministro da Noruega Jens Stoltenberg, acaba de visitar Ankara. A Arábia Saudita já “votou” a favor da zona “tampão”/aérea de exclusão. O mesmo vale para o general François Hollande, aquele lamentável arremedo de presidente da França.

Mais uma vez, Teerã aparece para o resgate. O ministro de Relações Exteriores anunciou  devidamente que o Irã está pronto para libertar Kobani do jugo dos bandidos d’O Califa (e pode fazê-lo), se o presidente Bashar Al-Assad solicitar. Agora, o tabuleiro de xadrez é assim: a OTAN ficou sem qualquer pretexto para montar uma invasão à Síria, com ou sem participação de Erdogan, capo mafioso.

Operação “Tire as Mãos do meu Toyota”

As SUVs Toyota d'O Califa desfilam no deserto
O Califa também ganha muito no departamento “faça-sangrar o Pentágono”. Um único “ataque” contra os bandidos d’O Califa – envolvendo F-15s, F-16s ou F-22s – custa até US$500 mil. O Pentágono acaba de informar que já gastou nada menos que US$ 1,1 bilhão contra O Califa desde junho.

E para quê? Virtualmente todos os bens que estão sendo destruídos pelas bombas norte-americanas são fabricados nos EUA, entregues ao exército do Iraque e depois capturados na ofensiva de O Califa. Eis aí, pois, o Império do Caos gastando uma fortuna do Tesouro dos EUA para detonar tanques, Humvees e outros itens pelos quais os contribuintes norte-americanos pagaram. Não surpreende que os mesmos contribuintes estejam furiosos. Eis a Operação Tire as Mãos do meu Toyota.

Além do mais, o Pentágono não tem nem ideia de como construir sua força “rebelde” por procuração, como Obama mandou, para combater contra O Califa (sem soldados ou marines norte-americanos, só fanáticos wahhabistas e sortimento variado de mercenários).

Para começar, não têm nem ideia de o que, diabos, seria um “rebelde moderado”. A malta deve ser “avaliada” e − se aprovada − deve então ser mandada para a Arábia Saudita (mas... para a Arábia Saudita?!) para ser treinada. Lá, o sujeito encarregado será – e o que mais poderia ser – um honcho das Operações Especiais, major-general Michael Nagata. Mesmo sob o mais otimista dos cenários, o Pentágono não conseguirá pôr esse seu exército de “rebeldes moderados” no solo, na Síria, antes do verão de 2015.


Podem-se apostar caixas e caixas de Chateau Margaux, que esse primor de armamento acabará capturado pelos bandidos d’O Califa. Aplica-se também aos “rebeldes” confiáveis em solo.

Mas a obra-prima de dadaísmo real é que, primeiro, esses rebeldes serão polidamente solicitados pelo Pentágono a esquecer qualquer plano de livrar-se de Assad, para lutar contra O Califa. Pelo menos por enquanto. Re-entra em cena Stoltenberg, novo comandante da OTAN:

Ano que vem, na reunião ministerial, tomaremos decisões sobre a chamada frente de ataque, mas, mesmo antes de estar estabelecida, a OTAN, afinal, tem um exército forte. Podemos deslocá-lo para onde quisermos.

Oh, grande homem! Por que não para o “Siriaque”?

Se tudo isso parece roteiro da série de sucesso Blacklist (trailer a seguir), é porque é.


Por que não escalar Red (James Spader) para lugar contra O Califa? E depois, quem sabe... e se Red é O Califa? Finge que se persegue, ele contra ele mesmo – e sempre ganha, maior elegância. De volta à Dama de Xangai, de Welles: “Matar você é matar-me eu mesmo”. O caso é que ninguém quereria ver morto O Califa, quando é tal, tamanho, imenso, indiscutível sucesso de bilheteria


[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing HouseRed Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia TodayThe Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
− Obama Does Globalistan,  Nimble Books, 2009.
Seu novo livro,  Empire of Chaos, será publicado em novembro/2014 pela Nimble Books.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Apocalypse Now, edição iraquiana

Lutando no Iraque até o inferno congelar

23/9/2014, [*] Peter Van BurenTomDispatch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

                                      — De que lado nós estamos?
               — Eu não sei!
Usei, no título, uma fórmula irônica, antes de mergulharmos na questão pesada do Iraque. Pensei também em começar contando como, em 2011, fiz contato com autor muito conhecido, para pedir-lhe que escrevesse umas linhas sobre o livro que eu estava lançando We Meant Well: How I Helped Lose the Battle for the Hearts and Minds of the Iraqi People [Nossa intenção foi boa: Como ajudei a perder a guerra pelos corações e mentes do povo iraquiano], e ele, sábio, declinou do meu convite e acrescentou, irônico: “E você por acaso pensa que escreveu o último livro sobre fracassos dos EUA no Iraque?”.

Mas não posso continuar no mesmo passo irônico. Como norte-americano que ama profundamente o próprio país, absolutamente não consigo, está acima das minhas forças, acreditar que Washington mergulhou outra vez no pântano das questões iraquianas entre sunitas e xiitas. Qualquer jovem soldado agora incluído entre os 1.600 coturnos não-em-solo no Iraque tinha oito anos quando aconteceu a primeira invasão, em 2003. Provavelmente, teve de perguntar ao pai sobre a coisa. Afinal, há menos de três anos, quando papai afinal voltou para casa de cabeça erguida, o presidente Obama garantiu aos norte-americanos  que “deixamos para trás um Iraque soberano, estável e autoconfiante”. O quê?! Como? O que aconteceu, afinal, no piscar de um olho?
 
Os Filhos do Iraque

Às vezes, nesses dias, quando ligo a TV, toma conta de mim a impressão de estar vendo outra vez as mesmas paisagens do Iraque que conheço bem. Com 22 anos como diplomata a serviço do Departamento de Estado, passei 12 longos meses no Iraque, em 2009-2010, como parte da ocupação norte-americana. Minha função era comandar duas equipes nareconstrução da nação. Na prática, significava pagar por escolas que jamais seriam completadas, por padarias em ruas sem água nem eletricidade, e organizar incontáveis infindáveis eventos de propaganda sobre “temas da semana” que Washington gerava (“pequenos negócios”, “empreendedorismo”, “empoderamento das mulheres”, “construção da democracia”).

Organizamos até desconjuntados jogos de futebol, nos quais o dinheiro do contribuinte norte-americano era usado para coagir relutantes equipes de sunitas a enfrentar cara a cara hesitantes equipes de xiitas, na esperança de que, sabe-se lá como, o caos criado pela invasão norte-americana pudesse ser suavizado entre as quatro linhas. Uma tarde, fracassamos horrivelmente no esforço para reconciliar a milenar fratura entre sunitas e xiitas que nós mesmos despertáramos e convertêramos em limpeza étnica como meio de vida em 2003-2004, embora o placar tenha sido gerenciado atentamente para não sair do empate entre iraquianos e soldados do 82º Batalhão Aeroembarcado com os quais trabalhei.

Nouri al-Maliki - ex Primeiro Ministro do Iraque
Em 2006, os EUA negociaram a ascensão ao poder do Primeiro-Ministro Nouri al-Maliki, político xiita escolhido a dedo para unir o Iraque. Plano horrível, perfeita, luminosa mentira, logo apareceu sobre a mesa. Aplicando quantidades imensas de dinheiro, os emissários de Washington criaram a  grupo de sunitas unidos por laços frouxos e apresentados como “moderados”, que aceitaram parar temporariamente a matança, em troca da promessa de que teriam lugar à mesa do Novo Iraque (do Iraque ainda-mais-novo).

O “espaço político” para tudo isso foi criado por escalada massiva do esforço militar norte-americano, que, de tão massiva, recebeu nome especial aprovado pelo pessoal da “publicidade & marketing’: o surge, a avançada.

Fui encarregado de reunir-me com os líderes da Sahwa na minha área. Meu trabalho naquele momento era persuadi-los a não abandonar o barco, ficar onde estavam só um pouco mais, embora eles já tivessem certeza de que já haviam sido nossos aliados por, precisamente, tempo demais. O governo xiita de Maliki em Bagdá, que já estava ignorando todas as sugestões dos EUA para ser inclusivo, não fazia outra coisa além de garantir que não houvesse nenhum “filho do Iraque” sunita, no Iraque dele.

Falsas alianças e puxa-tapetes não eram estranhos aos sunitas senhores-da-guerra com os quais me cabia trabalhar. Frequentemente, nossa conversa – embalada por número incalculável de pequenos copos de chá doce, doce, mexido com colheres de metal quentes ao rubro – mudava, de xiitas e norte-americanos, para a luta dos bisavós deles contra os britânicos. A vingança cobre várias gerações, eles me garantiam; e as lembranças vão muito muito longe no Oriente Médio, avisavam.

Quando afinal saí de lá, em 2010, um ano antes de os militares norte-americanos afinal partirem, a verdade em campo já deveria ser perfeitamente evidente para qualquer um capaz de ver. O Iraque já havia sido tacitamente fraturado em vários pequenos “estadetes” controlados por sunitas, xiitas e curdos. O governo de Bagdá convertera-se em típica cleptocracia de terceiro-mundo mantida por dinheiro dos EUA, mas com viés particularmente repugnante: era também governo de um grupo de autocratas dedicados a perseguir, marginalizar, degradar e, talvez, algum dia, destruir a minoria sunita do país.

A influência dos EUA evanescia rapidamente, deixando o Departamento de Estado, um pequenos contingente militar, vários espiões e ‘terceirizados’ de empresas privadas obrigados a esconder-se por trás das muralhas da embaixada de um bilhão de dólares (a maior do planeta!), que fora erguida em momento de surto de húbris imperial.

A potência estrangeira que tinha a maior influência sobre os eventos então era o Irã, país que, certo dia, o governo Bush decidiu derrubar, junto com Saddam Hussein, como parte do Eixo do Mal.

Os netos do Iraque

Os custos espantosos apavorantes de tudo isso – US$ 25 bilhões para treinar o exército iraquiano; US para a reconstrução-que-nada-constrói;US para a guerra em geral; quase 4.500 norte-americanos mortos e mais de 32 mil feridos; e no Iraque mais de 190.000 mortos (com estimativas que falam de um milhão de mortos) – podem ser agora avaliados em relação aos resultados. A tentativa, durante nove anos, de criar um estado-cliente dos EUA no Iraque fracassou, tragicamente e completamente. A prova está hoje nas primeiras páginas de todos os jornais.

Fazendo uma conta em termos os mais brutais, gastamos sangue e voltamos sem petróleo. Em vez do que queríamos, a guerra ao terror dos EUA resultou na dissolução de uma estase que havia no Oriente Médio pós-Guerra Fria que, estranhamente, foi preservada pelo autocrata iraquiano que os EUA derrubaram, Saddam Hussein. Agitamos um ninho de vespas de fervor islâmico, sectarismo, fundamentalismo e pan-nacionalismo. Ano após ano, os grupos islamistas de terror ficaram mais fortes. Aquele horrível raio que expôs a política dos EUA para o Oriente Médio sob luz tão horrenda persistirá até os dias de nossos netos. Poderia ter havido tantos e tão variados futuros. Agora só restam uns poucos, e as pilhas de mortos só crescem sobre as ruínas na nossa húbris. Eis o que conseguimos. Eis o que ganhamos.

Com um novo presidente eleito em 2008, em parte por causa do que prometera, que poria fim ao envolvimento militar dos EUA no Iraque, a estratégia de Washington sofreu uma metamorfose e virou o mantra mais midiático-palatável do tal “sem coturnos no solo”. Em vez dos coturnos, apoiados por agressiva inteligência de guerra e aplicação “cirúrgica” de ataques de drones e outros tipos de poder aéreo, as operações secretas dos EUA passaram a associar-se com elementos “moderados” dentro de governos islamistas, ou com elementos rebeldes da oposição a eles – conforme Washington optasse por apoiar governo−bandido ou oposição−bandida.

Resultados? Caos na Líbia, cuja extensão se avalia pelo fluxo de armamento avançado dos arsenais de Muammar Gaddafi, deposto, que se espalhou por todo o Oriente Médio e partes significativas da África; caos no Iêmen; caos na Síria; caos na Somália; caos no Quênia; caos no Sudão do Sul e, claro, caos no Iraque.

Abu Bakr al-Baghdadi, O Califa
E então apareceu o Estado Islâmico (EI) e o novo “califato”, filho parido por uma ocupação negligente, no leito de um governo xiita autocrático decidido a acabar com os sunitas de uma vez por todas. E de repente... Lá se vão os EUA outra vez de volta ao Iraque!

O que, em agosto de 2014 foi inicialmente divulgado como esforço humanitário limitado para salvar os iazidis, pequena seita religiosa da qual ninguém em Washington nem em lugar algum dos EUA jamais ouvira falar, logo se metamorfoseou e já lá se iam os 1.600 soldados norte-americanos de volta ao solo no Iraque, e os aviões dos EUA de volta aos céus do Curdistão no norte, até o sul de Bagdá.

Na sequência, os iazidis também foram ou abandonados ou salvos; ou então já ninguém em Washington precisava deles para coisa alguma. Quem sabe quem, naquele momento, teria alguma vez pensado neles? Serviram, isso sim, ao objetivo para o qual foram lembrados: aparecer como casus belli dessa guerra.

A agonia dos iazidis, pelo menos, foi horrendamente real, diferente do ataque inventado no Golfo de Tonkin que levou à vastíssima guerra no Vietnã em 1964, e das inexistentes Armas de Destruição em Massa que nunca existiram, senão como pretexto para que os EUA invadissem o Iraque em 2003.

A  mais recente guerra no Iraque exibe “instrutores” de Operações Especiais, ataques aéreos contra combatentes do Estado Islâmico armados com armas norte-americanas que o Exército do Iraque abandonou (e armamento que, evidentemente, será refornecido por Washington ao Exército do Iraque), aviação norte-americana levantando voo de dentro do Iraque e, também, de um porta-aviões no Golfo Persa e possivelmente de vários pontos, e com guerra aérea através da fronteira, dentro da Síria.

É preciso unir muitos pontos de virada, para ter um círculo

A verdade em campo hoje é tragicamente familiar: um Iraque ainda mais dividido em estadetes em luta uns contra outros; uma cleptocracia, no governo de Bagdá, já começando a ser reanimada com o sangue novo de mais dinheiro norte-americano despejado lá; e mais um primeiro-ministro xiita recebendo a mesma lista de tarefas a cumprir que Washington mandou para lá em 2003-2011: amolecer os sunitas; unificar o Iraque; tornar o país mastigável. O Departamento de Estado ainda permanece lá, escondido por trás das muralhas daquela embaixada de 1 bilhão de dólares. Mais dinheiro será consumido para treinar o exército iraquiano já destruído e em colapso. E o Irã continua a ser, como sempre foi, a potência estrangeira com maior capacidade para influenciar aqueles eventos.

Aiatolá Ali Khamenei, do Irã
Mas há uma estranha diferença a ser observada: na guerra do Iraque passada, os iranianos patrocinaram e comandaram ataques de milícias xiitas contra as forças norte-americanas de ocupação (e contra mim); agora, seus agentes de forças especiais e conselheiros militares estão lutando lado a lado com aqueles mesmos milicianos xiitas sob a cobertura da força aérea dos EUA. Querem coturnos em solo? Já há forças iranianas em solo, lá mesmo. Aí está um exemplo de como e o quanto a política cria estranhos companheiros de cama (Os homens do Aiatolá), mas também exemplo de o que acontece quando você sai de casa sem ideia do que fará, montando alguma “estratégia” na correria, pelo caminho.

Obama não pode ser culpado de todos esses desmandos, com certamente fez sua parte para piorar tudo – e não há dúvida de que, sim, tudo piora muito, se o governo de Obama outra vez assume a “propriedade” da luta entre sunitas e xiitas. O “novo” plano de unidade que falhará segue o padrão do que já falhou em 2007: usar força militar dos EUA para criar algum espaço político para “reconciliação” entre sunitas (primeiro, incinerados; segundo, sempre perseguidos) e um governo xiita comprado, que o dinheiro dos EUA tenta encurralar num “acordo” feito ao arrepio do que o Irã deseja. Talvez se possa chamar qualquer nova organização sunita que representantes dos EUA alinhavem, ainda que por pouco tempo, precariamente, de “os Netos do Iraque”.

Brett McGurk
Só para aumentar ainda mais o fator horror, o pessoal chave encarregado de pôr em andamento os “planos” de Washington são, todos, caras muito conhecidas. Brett McGurk, que ocupou posições chaves no Iraque, lá está novamente como vice-secretário de Estado Assistente para o Iraque e Irã. McGurk já foi chamado de soprador de orelha de Maliki, por causa da proximidade que mantinha com o ex-primeiro-ministro. O atual embaixador dos EUA, Robert Stephen Beecroft, era o vice-chefe da missão diplomática, o segundo homem na embaixada em Bagdá, em 2011.

O que se vê é que está sendo montada uma segunda falsa coalizão de gente espantosamente pouco desejante/disposta a fazer qualquer paz. E os “especialistas” midiáticos sempre a clamar histericamente por mais guerra em Washington são também, todos eles, nomes muito conhecidos: praticamente todos são cadáveres ressuscitados dos dias de glória da invasão de 2003.

Loyd Austin
Lloyd Austin, o general que supervisiona o novo esforço militar dos EUA, já supervisionou a retirada em 2011. O general John Allen, foi arrancado da aposentadoria militar para coordenar a nova guerra na região – trabalhou há pouco tempo como conselheiro civil do Secretário de Estado John Kerry – e foi vice-comandante na província Anbar no Iraque, durante a “avançada” [surge]. E também do lado dos EUA, estão de volta, recontratados, todos os mercenários das empresas de segurança terceirizadas, sem qualquer novidade. De novidade, mesmo, só o presidente Obama, que  cita sem ironia e sem vergonha, a velha autorização congressional de 2002 para invadir o Iraque, contra a qual Obama candidato discursou e votou, como sua base legal para a nova guerra desse ano.

Os iranianos também mantêm o mesmo comandante militar em solo no Iraque, Qassem Suleimani, comandante da Força Quds do Corpo de Guardas Revolucionários do Irã. Que mundo pequeno! Suleimani também ajuda na coordenação das operações diretas do Hezbollah dentro da Síria.

Até o porta-aviões no Golfo Persa do qual partem os ataques aéreos, o USS George H.W. Bush, foi batizado, muito a propósito, com o nome do primeiro-presidente que afundou os EUA bem fundo no Iraque – há quase um quarto de século. Considerem o seguinte: os EUA estão no Iraque há tanto, tanto tempo, que já têm até um porta-aviões com o nome do presidente que inventou a loucura toda.

USS George H.W. Bush
Numa agenda de 36 meses para “destruir” o ISIS/ISIL, o presidente Obama já concede que essa guerra passará às mãos do próximo presidente, como George W. Bush fez com o Iraque “dele”, que entregou a Obama. O próximo governo talvez seja chefiado por Hillary Clinton, que era Secretária de Estado quando a Guerra do Iraque 2.0 “chegou ao fim”. E é impossível não lembrar que foi o governo do marido dela quem manteve viva a Guerra do Iraque original, de 1990-1991, mediante as zonas aéreas de exclusão e sanções, que inventou sem parar. Pode-se falar de uma tradição, de um pedigree, no que tenha a ver com criar e recriar guerras no Iraque, até que o mundo se acabe.

Se há alguma lição resumida a extrair disso tudo, talvez seja que não há poço que não possa ser escavado ainda mais fundo. Como é possível que ainda haja quem não veja que, depois de mais de vinte anos de declarações de vitória-sem-vitória no Iraque, o tal “sucesso” genuíno de que falam é impossível, e não importa como o “definam”? A única via para vencer, e não guerrear. Se insistir em guerrear, você não passa de um equivalente geopolítico do bobo-de-feira que, com um saco cheio de dinheiro falso, tenta comprar um jumento de pelúcia.

Apocalypse daquela vez, Apocalypse o retorno

As guerras dos EUA no Oriente Médio acontecem num espaço de alucinação, onde a realidade pouco importa. Portanto, se você está com a impressão de já leu tudo isso antes, entre 2003 e 2010, é porque realmente leu.

Mas para os que tenham um pouco mais de idade, os ecos vão muito mais longe. Participei recentemente de um programa de entrevista na televisão holandesa, durante o qual o ex-deputado Republicano Pete Hoekstra cometeu um lapso de linguagem, muito esclarecedor. Estávamos falando sobre o ISIS/ISIL, e Hoekstra, às tantas, disse que os EUA de modo algum poderiam oferecer ao ISIS/ISIL “santuário no Camboja”. Corrigiu-se rapidamente e emendou “na Síria”. Mas já dissera tudo.

Tanques do Exército iraquiano
Já passamos por coisa semelhante, com os fracassos da política e da estratégia dos EUA no Vietnam convertidos, por metástase, em guerra no Camboja e Laos – e para negar santuário às forças do Vietnã do Norte. Como hoje, sobre o ISIS/ISIL, só nos diziam que eram bárbaros, que queriam impor uma filosofia maléfica sobre toda a região. Eles também, inesquecivelmente, tinham de ser combatidos “lá mesmo”, para impedir que nos atacassem “cá em casa”. Naquele tempo não se dizia “the Homeland”, mas o resto foi idêntico, sem tirar nem pôr.

Assim como a similitude, também a diferença em relação ao Vietnã é muito eloquente. Quando a realidade do fracasso dos EUA no Vietnã afinal tornou-se tão evidente, que já não havia mais ninguém para quem mentir, a guerra do Vietnã acabou e os soldados voltaram para casa. E nunca mais foram mandados para aquela mesma guerra perdida.

Mas hoje os EUA estão entrando na “guerra do Iraque” pela terceira vez – e alguma loucura de repetição os faz crer que, dessa vez, a vitória virá. A verdade é outra: dali os EUA só extrairão fracasso e mais fracasso. Parafraseando um jovem John Kerry, ele mesmo retornado do Vietnam: quem será o último a morrer, por esse erro sem fim? Desgraçadamente, ainda se passarão muitos anos antes que os EUA aprendam.
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[*] Peter Van Buren nasceu em New York/1960. Trabalhou durante 24 anos como funcionário doForeign Service do governo dos EUA, alertou sobre desmandos e má gestão do Departamento de Estado durante a reconstrução do Iraque em seu primeiro livroWe Meant Well: How I Helped Lose the Battle for the Hearts and Minds of the Iraqi People. Escreve regularmente no blog TomDispatchsobre acontecimentos atuais. Seu novo livro, Ghosts of Tom Joad: A Story of the # 99percent, acaba de ser publicado.
É articulista habitual também nas seguintes publicações: The New York TimesSalonNPRAl Jazzeera,Huffington PostThe NationAntiwar, American Conservative MagazineMother Jones, MichaelMoore.com,  Le MondeAsia TimesThe Guardian (UK), Daily KosMiddle East OnlineGuernica e muitas outras. É comentarista habitual nas redes de rádio e TV no programas: BBC World ServiceNPR’s All Things Considered and Fresh AirCurrentTVHuffPo LiveRT−Russia TodayITVBritain’s Channel 4 ViewpointCCTV e Voice of America,