Mostrando postagens com marcador John Kennedy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador John Kennedy. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Noam Chomsky: Os EUA são o maior estado terrorista do planeta


Deu no New York Times! Agora é oficial!

20/10/2014, [*] Noam ChomskyTelesur, Venezuela
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Noam Chomsky
Imaginem que o Pravda publicasse na primeira página os resultados de um estudo feito pelaKGB que tivesse avaliado os resultados de todas as grandes operações terroristas que o Kremlin tivesse comandado ao redor do mundo, como parte do esforço para descobrir o que levou cada “ação” dessas ao sucesso ou ao fracasso, e estudo que, no final, concluísse que, desgraçadamente, atos terroristas raramente “dão certo” e de tal modo tendem a “dar errado” que, hoje, seria muito mais recomendável [o Kremlin recomendando!] repensar a política e as vias políticas, em vez de fazer terrorismo.

Imaginem também que o artigo citasse o presidente Putin, o qual dissesse que havia encomendado esse estudo à KGB para descobrir casos de “financiamento e apoio com armas e munição a insurgentes ativos dentro de país estrangeiro e que tivessem realmente dado certo. E a KGB [Putin falando] não conseguiu encontrar grande coisa. E que, por isso [Putin] relutava um pouco em repetir novos esforços terroristas.

Se – embora seja quase inimaginável – artigo desse tipo aparecesse publicado na imprensa, se ouviriam muitos gritos de ultraje e indignação que clamariam aos céus; e a Rússia seria amargamente criticada, condenada (e até coisa pior!) não só pelo terrível currículo como terrorista ativíssimo, afinal abertamente confessado, mas, também, por a classe política russa não mostrar nenhuma preocupação e nenhuma indignação, exceto pelo fato de o terrorismo de estado russo funcionar muito mal, e para ordenar que as práticas terroristas fossem aprimoradas.

Tudo isso é muito difícil de imaginar. Artigo desse tipo nunca seria publicado. O problema é que o tal artigo existe e foi publicado. De diferente, só um pequeno detalhe: apareceu publicado no New York Times – e é quase exatamente o tal artigo impossível.

Cabeçalho da reportagem do NYT
Dia 14/10/2014, a matéria de primeira página do New York Times tratava de um estudo feito pela CIA em que a Agência examina as principais ações terroristas comandadas pela Casa Branca em todo o mundo, num esforço para conhecer os fatores que levaram cada ação terrorista ao sucesso ou ao fracasso; e a CIA concluiu que, que, desgraçadamente, atos terroristas raramente “dão certo” e de tal modo tendem a “dar errado” que, hoje, seria indispensável repensar a política e as vias políticas, em vez de fazer terrorismo.

E o artigo cita o presidente Obama, o qual diz que havia encomendado esse estudo à CIA para descobrir casos de “financiamento e apoio com armas e munição a insurgentes ativos dentro de país estrangeiro e que tivessem realmente dado certo. E a CIA [é Obama falando] não conseguiu encontrar grande coisa”. E que, por isso [Obama] relutava um pouco em repetir novos esforços terroristas.

Não se ouviu nenhum grito de ultraje; indignação zero, nada.

A conclusão é clara. Na cultura política ocidental dá-se por natural e adequado que o Líder do Mundo Livre governa um estado-bandido terrorista e pode proclamar abertamente sua eminente liderança na prática de tais crimes. E dá-se por perfeitamente natural e adequado que o professor de Direito Constitucional e laureado com o Prêmio Nobel da Paz que tem as rédeas do poder só se deva preocupar com praticar com mais eficácia, o mesmo velho terrorismo de sempre.

Basta examinar mais de perto, para ter certeza que as conclusões a extrair são exatamente essas.

O artigo começa citando abertamente as operações [terroristas] dos EUA “de Angola a Nicarágua e a Cuba”. Acrescentemos um pouco do que o jornal omitiu.

Jonas Savimbi
Em Angola, os EUA uniram-se à África do Sul no apoio crucial ao UNITA, exército do terrorista Jonas Savimbi, e continuaram a apoiar aqueles terroristas mesmo depois de Savimbi já ter sido completamente derrotado numa eleição livre e cuidadosamente fiscalizada e até depois de a própria África do Sul já ter deixado de apoiar aquele “monstro cuja ânsia de poder trouxe terrível miséria para seu próprio povo” – nas palavras do embaixador britânico em Angola, Marrack Goulding, secundado pelo chefe da estação da CIA na vizinha Kinshasa, o qual já alertara que “não foi boa ideia” apoiar o citado monstro, “por causa da extensão dos crimes de Savimbi. Era homem terrivelmente brutal”.

Apesar das operações terroristas extensivas e violentíssimas apoiadas pelos EUA em Angola, forças cubanas conseguiram expulsar do país os agressores sul-africanos, os obrigaram a deixar também a Namíbia que ocupavam ilegalmente, e abriram caminho para a eleição em Angola na qual, depois de derrotado, Savimbi “desconsiderou completamente a avaliação feita por quase 800 observadores estrangeiros que acompanharam as eleições, para os quais as eleições haviam sido livres e justas” (New York Times), e continuou a sua guerra terrorista com o apoio dos EUA.

Os feitos heroicos dos cubanos na libertação da África e no fim do apartheid foram saudados por Nelson Mandela, quando afinal deixou a prisão. Dentre seus primeiros atos, Mandela declarou que:

(...) durante todos os meus anos de prisão, Cuba foi uma inspiração, e Fidel Castro, uma torre de fortaleza (...)[as vitórias cubanas] destruíram o mito da invencibilidade do opressor branco e inspiraram as lutas de massas da África do Sul (...) ponto de virada para a libertação de nosso continente – e do meu povo – do flagelo do apartheid. (...) Que outro país pode apresentar histórico de mais desapego e desprendimento que Cuba, em suas relações com a África?

Henry Kissinger
Bem diferente disso, o comandante terrorista Henry Kissinger ficou “apoplético” ante a insubordinação do “pipsqueak” [nulidade; zé-ninguém; meia-leca] Castro, que tinha de ser “esmagado”, como registram William Leogrande e Peter Kornbluh em seu livro Back Channel to Cuba, a partir de documentos recentementes liberados para conhecimento público.

Voltando à Nicarágua, é preciso não esquecer a guerra terrorista de Reagan, que prosseguiu ainda bem depois de a Corte Internacional de Justiça ter ordenado a Washington que cessasse seu “uso ilegal da força” – quer dizer: terrorismo internacional – e pagasse reparação substancial, e depois de já haver projeto de resolução do Conselho de Segurança da ONU conclamando todos os estados (de fato, só os EUA) a respeitar a lei internacional, que foi vetada por Washington.

Mas é preciso reconhecer que a guerra terrorista de Reagan contra a Nicarágua – à qual Bush-pai, “o Bush estadista” – não foi tão destrutiva quando o terrorismo de estado que o mesmo Reagan patrocinara entusiasticamente em El Salvador e na Guatemala. A Nicarágua teve a vantagem de contar com um exército para enfrentar as forças terroristas comandadas pelos EUA, enquanto nos países vizinhos os terroristas que assaltavam a população eram as forças de segurança armadas e treinadas por Washington.

Em algumas semanas estaremos comemorando o Grand Finale das guerras terroristas de Washington na América Latina: o assassinato de seis importantes intelectuais latino-americanos, sacerdotes jesuítas, por uma unidade terrorista de elite do exército salvadorenho, o Batalhão Atlacatl, armado e treinado por Washington, agindo sob ordens explícitas do Alto Comando, e com longo currículo de massacres das vítimas de sempre.

Atlacatl Battalionarmado e treinado pelos EUA
Esse crime chocante, cometido dia 16/11/1989, na Universidade Jesuíta em San Salvador foi o ápice da terrível praga terrorista que se espalhou pelo continente depois que John F. Kennedy mudou a missão dos militares latino-americanos, de “defesa hemisférica” – relíquia já ultrapassada da IIª Guerra Mundial – para “segurança interna”, o que significa: guerra contra a população doméstica, dentro de cada país.

Resultado disso aparece descrito sucintamente por Charles Maechling, que comandou o planejamento da contrainsurgência e defesa interna dos EUA, de 1961 a 1966. Ele fala da decisão de Kennedy, em 1962, como mudança de “tolerância com os roubos e a crueldade entre os militares latino-americanos”, para “cumplicidade direta” nos crimes dos mesmos militares, a ponto de os EUA garantirem apoio “aos métodos de Heinrich Himmler dos esquadrões-da-morte”.

Tudo isso está esquecido, exceto “o tipo certo de fatos”.

John Kennedy
Em Cuba, as operações terroristas de Washington foram lançadas a pleno furor pelo presidente Kennedy, para punir os cubanos por terem derrotado a invasão da Baía dos Porcos comandada pelos EUA. Como escreve o historiador Piero Gleijeses, JFK:

(...) ordenou a seu irmão, o advogado-geral Robert F. Kennedy (RFK), que comandasse o grupo de alto nível inter-agências que concebeu a Operação Mongoose [fuinha], um programa de operações paramilitares, guerra econômica e sabotagem, que ele lançou no final de 1961, para impor ‘os terrores da Terra’ a Fidel Castro, ou, dito mais prosaicamente, para derrubá-lo do governo.

A expressão “terrores da terra” é citada pelo historiador Arthur Schlesinger, sócio de RFK, na biografia semioficial que escreveu dele. RFK informou à CIA que o problema cubano passava a ser:  

(...) a principal prioridade do governo dos EUA – tudo o mais é secundário – e não se deve desviar nenhum minuto, nenhum esforço, nenhuma capacidade humana do esforço para derrubar o governo de Castro e levar “os terrores da Terra” a Cuba.

Robert Kennedy
A guerra terrorista lançada pelos irmãos Kennedy não foi coisa pequena. Envolveu 400 norte-americanos, 2 mil cubanos, uma esquadra privada de barcos rápidos e orçamento anual de US$ 50 milhões, controlado em parte por uma base da CIA que operava em Miami, em violação do Ato de Neutralidade e, presumivelmente, violando também a lei que proíbe operações da CIA dentro dos EUA. As operações incluíram bombardeamento de hotéis e instalações industriais, afundamento de barcos pesqueiros, envenenamento de rebanhos e de plantações, contaminação de estoques de açúcar exportados, etc.. Algumas dessas operações não foram especificamente autorizadas pela CIA, mas executadas pelas forças terroristas que a CIA fundara e financiava, diferença que nada significa no caso de ação contra inimigos oficiais.

As operações terroristas Mongoose foram comandadas pelo general Edward Lansdale, que tinha ampla experiência em operações terroristas comandadas pelos EUA nas Filipinas e no Vietnã. O trabalho da Operation Mongoose  era gerar “revolta aberta e derrubar o regime comunista” em outubro de 1962, o que, para “sucesso definitivo exigirá intervenção militar decisiva dos EUA”, depois que o terrorismo e a subversão tivessem preparado o terreno.

Outubro de 1962 é, claro, momento muito significativo na história moderna. Naquele mês, Nikita Khrushchev enviou mísseis para Cuba, desencadeando a crise dos mísseis que chegou ameaçadoramente perto de uma guerra nuclear terminal. Especialistas reconhecem hoje que Khrushchev foi motivado em parte pela imensa preponderância dos EUA em termos de força, depois que Kennedy respondeu aos seus pedidos para reduzirem as armas ofensivas, aumentando ainda mais a vantagem dos EUA, e em parte por preocupação de que os EUA pudessem invadir Cuba. Anos depois, o Secretário de Defesa de Kennedy, Robert McNamara, reconheceu que Cuba e Rússia tiveram razões para temer um ataque. “Se eu estivesse no lugar dos cubanos ou soviéticos, teria pensado como eles” – disse McNamara numa conferência internacional nos 40 anos da crise dos mísseis.

Raymond Garthoff
O muito respeitado analista político Raymond Garthoff, que teve muitos anos de experiência direta na inteligência dos EUA, relata que, nas semanas antes de a crise de outubro de 1962 eclodir, um grupo de cubanos terroristas que operavam da Flórida com autorização dos EUA executou

(...) um ousado ataque com barcos rápidos contra um hotel cubano próximo ao mar, nos arredores de Havana, onde se sabia que se reuniam técnicos militares soviéticos, matando grande número de russos e cubanos.

E pouco depois, continua Garthoff, as forças terroristas atacaram navios cargueiros britânicos e cubanos e outra vez invadiram Cuba, dentre outras ações cuja frequência aumentava no início de outubro. Num momento tenso da ainda não solucionada crise dos mísseis, dia 8 de novembro de 1962, uma equipe de terroristas enviada pelos EUA explodiu uma instalação industrial em Cuba, depois de as operações Mongoose já estarem oficialmente suspensas. Fidel Castro disse que 400 trabalhadores morreram nesse ataque, guiado por “fotografias feitas por aviões espiões”. Atentados para tentar assassinar Castro e outros ataques terroristas continuaram a acontecer imediatamente depois de a crise estar terminada, e escalaram novamente em anos posteriores.

Houve algumas poucas notícias de uma parte bem menor da guerra terrorista, muitos atentados para assassinar Castro, em geral deixadas rapidamente de lado como trapalhadas infantis da CIA. Além disso, nada do que aconteceu jamais atraiu muito interesse ou comentários nos EUA.

A primeira investigação séria, em idioma inglês, sobre o impacto daquelas ações sobre os cubanos foi publicada em 2010 pelo pesquisador canadense Keith Bolender, em seu Voices From The Other Side: An Oral History Of Terrorism Against Cuba, estudo valioso, largamente ignorado.

Os três exemplos considerados na matéria do New York Times sobre o terrorismo norte-americano são só a ponta do iceberg. Mesmo assim, é útil ver esse muito claro e significativo reconhecimento de o quanto Washington é dedicada a operações do terrorismo mais mortífero e destruidor, e do pouco, praticamente nada, que essa ação terrorista dos EUA significa para a classe política, que aceita como normal e adequado que os EUA se apresentem ante o mundo como superpotência terrorista, imune a leis e normas civilizadas.

Muito estranhamente, o mundo não pensa como a classe política norte-americana. Pesquisa internacional distribuída ano passado pelo Worldwide Independent Network/Gallup International Association (WIN/GIA) descobriu que os EUA ocupam o primeiro lugar, de longe, como “maior ameaça contra a paz mundial hoje”, muito à frente do Paquistão, segundo colocado (certamente inflado pelo voto dos indianos), e nenhum outro país sequer se aproxima desses dois.

Felizmente, os norte-americanos foram poupados, e não tiveram de tomar conhecimento dessa informação insignificante.


[*] Noam Chomsky, nasceu Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo e ativista político estadunidense. É professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts  (MIT). Seu nome está associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenômenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceituada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas. Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário, havendo quem o associe ao anarcossindicalismoSeu mais recente livro é Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire.

sábado, 7 de dezembro de 2013

1963: Ngo Dinh Diem assassinado

Todos os golpes da CIA são o mesmo golpe

2/10/2013, [*] John Prados, Blog Unredacted (Arquivos da Segurança Nacional dos EUA)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nós da família [de João Goulart] estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance para elucidar esse caso. Eu sempre digo o seguinte: a exumação é apenas um dos meios para se chegar à verdade depois de tanto tempo. A Justiça brasileira tem que cumprir o seu papel legal, constitucional e, principalmente, soberano. Pedimos ao Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul que abrisse uma ação cautelar para nós solicitarmos a oitiva dos agentes americanos que tinham conhecimento da operação que estão sob proteção do Estado americano e moram dentro dos Estados Unidos [João Vicente Goulart, em entrevista à Deutche Welle Brasil, 5/12/2013].

Ngo Dinh Diem assassinado. Essa foto foi tirada por um funcionário dos EUA em serviço
no Vietnã, nunca identificado; está arquivada nos US National Archives (USNA)
[Arquivos Nacionais dos EUA].
Ngo Dinh Diem
Com outubro já chegando a novembro, nos aproximamos do 50º aniversário do golpe militar apoiado pelos EUA no Vietnã do Sul, que derrubou o governo e resultou no assassinato do governador de Saigon, Ngo Dinh Diem e de eu irmão e alter ego Ngo Dinh Nhu. Embora generais do Vietnã do Sul sejam os responsáveis diretos pelo golpe de Estado, o governo Kennedy apoiou-os com entusiasmo e lhes ofereceu o apoio da CIA.

Essa história foi objeto da Conferência “Vietnam, 1963”, semana passada. O golpe e muitas outras questões pertinentes foram discutidas na Conferência organizada pelo Centro Vietnã e Arquivos da Universidade Texas Tech, co-organizada pelo Projeto História Internacional da Guerra Fria do Wilson Center e pela Administração dos Arquivos e Gravações Nacionais dos EUA, nos dia 26-28/9/2013.

O papel da CIA no golpe em Saigon já está há muito tempo estabelecido, mas ainda restam controvérsias sobre quando e como o presidente John F. Kennedy passou a investir todo seu peso no apoio a generais golpistas do Vietnã do Sul.

Daniel Ellsberg
Versão muito amplamente aceita [mas que Ellsberg, nos Pentagon Papers”, põe em dúvida (NTs)] afirma que “uma claque [orig. a cabal] de altos funcionários conspiradores” de Washington, entre os quais o vice-secretário de Estado, W. Averell Harriman; o vice-secretário de Estado para o Extremo Oriente, Roger A. Hilsman; e o secretário do Conselho de Segurança Nacional, Michael Forrestal teriam conspirado para que as coisas acontecessem como aconteceram. Segundo essa versão, aquela “claque de conspiradores” esperaram que o governo estivesse fora de Washington, num fim-de-semana em agosto de 1963, e aproveitaram o momento para fazer chegar uma instrução ao embaixador dos EUA, Henry Cabot Lodge, no sentido de que desse apoio ao golpe dos generais. Segundo essa narrativa, outros altos funcionários, principalmente o diretor da CIA, John McCone, ficaram enfurecidos quando souberam da manobra e denunciaram o que ficou conhecido como “Hilsman cable” [ou Telegrama 243, datado de 24/8/1963] em reunião do Conselho de Segurança Nacional dos EUA do dia 26/8/1963, o que teria levado o presidente Kennedy a rescindir as instruções enviadas a Cabot Lodge.

John Kennedy
No final de 2009, os Arquivos Nacionais reuniram e apresentaram novas provas desse caso,[atualizadas em 1/11/2013 (NTs)] entre as quais as gravações reais de áudio das reuniões do Conselho de Segurança Nacional dos EUA sobre o Vietnã realizadas durante aquela semana crucial em 1963, provavelmente porque o presidente Kennedy tinha um sistema de gravação instalado em seu escritório na Casa Branca e no “Cabinet Room”, onde eram realizadas as reuniões do Conselho de Segurança Nacional. Essa prova, combinada com documentos relevantes da mesma época, mostram que essa versão padrão da história do telegrama de Hilsman não é acurada. Apresentei as provas e o caso, na Conferência Texas Tech.

A tal “claque” de funcionários de Washington não estava simplesmente conspirando para enviar um telegrama de instruções: estava respondendo a específica demanda de generais vietnamitas, que pediam resposta no mesmo dia. Foi coincidência que, naquele dia, os principais decisores estivessem ausentes de Washington. Embora os funcionários do governo estivessem divididos em facções baseadas nas respectivas preferências políticas, o “telegrama Hilsman” foi redigido pelas vias normais e liberado pelos procedimentos habituais.

Michael Forrestal, secretário do Conselho de Segurança Nacional, deu a Kennedy duas oportunidades [itálicos no orig. (NTs)] para deter a ação: uma ao comunicar que havia uma instrução em preparação; a segunda, quando entregou o rascunho da resposta ao presidente.

As gravações de áudio das reuniões do Conselho de Segurança Nacional do dia 26/8/1962 mostram claramente que os participantes só discutiram detalhes instrumentais com vistas a facilitar o apoio dos EUA a um golpe já preparado pelos generais sul-vietnamitas. Nenhum dos presentes fez qualquer objeção à política básica.

Ainda mais evidente: o tom das falas, nas fitas gravadas, não sugere qualquer ‘fúria’ contra membros de alguma “claque” de outros altos funcionários.

Robert Kennedy
Muitos dos historiadores que relatam a versão antiga da história do “telegrama Hilsman” basearam-se numa entrevista (história oral) que Robert F. Kennedy gravou em meados dos anos 60s. Pelas gravações, sabe-se que Robert Kennedy não esteve presente na reunião do dia 26/8/1962 do Conselho de Segurança Nacional [itálicos no orig. (NTs)].

Os funcionários de Washington mantiveram a mesma atitude antes e depois da reunião. A CIA, por exemplo, teria sido o centro da “oposição”. Mas as fitas gravadas mostram que o chefe de operações da CIA no Extremo Oriente, William E. Colby, reuniu-se com Roger Hilsman imediatamente depois [itálicos no orig. (NTs)] daquela reunião do Conselho de Segurança Nacional; e que Colby esteve em contato com Hilsman duas vezes mais frequentemente nos dias depois de o apoio ao golpe ter sido decidido do que na semana anterior.

Mais que isso: antes de outra reunião com o presidente, dia 28/8, Colby falou várias vezes com Hilsman e parece ter ensaiado o briefing do Conselho de Segurança Nacional para o funcionário do Departamento de Estado. Depois [itálicos no orig. (NTs)] daquela reunião presidencial, Colby enviou instruções para a base da CIA em Saigon, para que listassem figuras do Vietnã do Sul adequadas para substituir Diem, ao mesmo tempo em que Hilsman instruía o embaixador Lodge a andar devagar nos planos para o golpe.

Mas a instrução para andar mais devagar foi efeito de novo relatório da CIA, que informava que os generais estavam adiando seus planos. Mas enquanto os sul-vietnamitas adiavam, os EUA continuaram nos preparativos decididos na discussão original do Conselho de Segurança Nacional. Essa prova está exposta em detalhes no Electronic Briefing Book n. 302.

Em resumo, os EUA decidiram, sim, em agosto de 1963, apoiar um golpe em Saigon, se Diem não se livrasse de seu irmão Ngo Dinh Nhu. Tomada a decisão, como política básica, jamais se afastaram dela nem reduziram o apoio.





[*] John Prados é um analista de segurança nacional sediado em Washington, DC. Prados é Ph.D. pela Universidade de Columbia em Ciência Política (Relações Internacionais) e concentra-se em poder presidencial, relações internacionais, inteligência e assuntos militares. É um Diretor Geral do projeto com o Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington. Prados lidera projetos de documentação do Arquivo para o Vietnã e para a CIA, é co-diretor do projeto Iraque, e ajuda com projeto de Afeganistão. Seu livro mais recente é Islands of Destiny: The Solomons Campaign and the Eclipse of the Rising Sun (NAL/Caliber). Seu próximo livro é uma obra sobre as operações da CIA. Outros trabalhos recentes incluem Normandy Crucible: The Decisive Battle That Shaped World War II in Europe (NAL/Caliber), Vietnam: The History of an Unwinnable War, 1945-1975 (University Presses of Kansas), vencedor do Henry Adams Prize em  História Americana; e How the Cold War Ended: Debating and Doing History (Potomac). Prados também é autor de dezesseis outros livros, com títulos sobre a segurança nacional, a presidência norte-americana, a inteligência, a história diplomática e militar, incluindo o Iraque, o Vietnã, a União Soviética e a Segunda Guerra Mundial. Foi pioneiro em contar a história do Conselho de Segurança Nacional em Keepers of the Keys, e The Soviet Estimate: U.S. Intelligence and Soviet Strategic Forces (um recurso fundamental na compreensão de poder militar soviético).