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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

1967: a CIA cunhou a expressão “Teóricos da Conspiração”, como ferramenta para atacar quem desmentisse narrativas “oficiais”

23/2/2015, George WashingtonZero Hedge
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Antes, os Teóricos da Conspiração eram gente como a gente

A democracia e o capitalismo de livre mercado nasceram sobre a base de teorias de conspiração.

Magna Carta, a Constituição e a Declaração de Independência e outros documentos ocidentais fundacionais nasceram de teorias conspiracionais. A democracia grega e o capitalismo de livre mercado, idem.

Mas, isso, só naqueles velhos maus tempos. Depois, tudo mudou.

Em 1967, a CIA cunhou a expressão “Teóricos da Conspiração”

Nos anos 1960, tudo mudou.

Exatamente em abril de 1967, a CIA redigiu um despacho, no qual cunhou a expressão “teorias da conspiração” (...) e recomendou práticas para desacreditar tais teorias. O despacho/memorando levava um carimbo, “psico”, fórmula abreviada para “operações psicológicas” ou “ação de desinformação”; e outro carimbo, “CS”, sigla da unidade de “Clandestine Services” da CIA.

O despacho da CIA foi redigido em resposta ao requerimento de informações feito a uma corte judicial, nos termos do Freedom of Information Act [“Lei da Liberdade de Informar”], pelo jornal New York Times, em 1976.
  

A CIA, naquele documento diz que:

2. Essa tendência é motivo de preocupação para o governo dos EUA, inclusive para nossa organização.

***
O objetivo desse despacho é oferecer material que contradiga e desacredite os argumentos dos Teóricos da Conspiração, e também inibir a circulação dessas opiniões em outros países. Aqui se oferece informação de fundo, apresentada em seção sigilosa, e vários anexos não sigilosos.

3. Ação. Não recomendamos que a questão [conspirações] seja iniciada onde já não esteja implantada. Onde a discussão já esteja ativada são indispensáveis algumas medidas:
a. Discutir publicamente o problema com contatos amigáveis na elite (especialmente políticos e editores de imprensa), mostrando que [a investigação oficial do evento em discussão] foi investigação tão exaustiva quanto humanamente possível; que as acusações dos críticos não têm qualquer fundamento; e que mais discussões sobre o tema só favorecem a oposição. Deve-se também destacar as partes das conversas sobre alguma conspiração que mais pareçam deliberadamente geradas por propagandistas.

Conclamar aquelas elites para que usem a influência que têm e desencorajem qualquer especulação sem fundamento e irresponsável.

b. Usar todos os recursos de propaganda acessíveis para refutar os ataques vindos dos críticos.Colunas assinadas por especialistas amigáveis e resenhas de livros são especialmente adequadas para esse objetivo. Os anexos desse documento de orientação contêm material útil para ser passado aos agentes.

Nosso discurso deve destacar, sempre que couber, que os críticos (I) já diziam a mesma coisa antes de haver qualquer indício ou prova; que (II) têm interesses políticos; que (III) têm interesses financeiros; que (IV) dizem qualquer coisa, sem qualquer pesquisa ou investigação que o comprove; ou que (V) só dão atenção a teorias que eles mesmos inventem.

***
4. Em contatos privados com a mídia, não dirigidos diretamente a qualquer jornalista, colunista ou editor ou escritor em particular, ou para atacar publicações que ainda não estejam nas ruas, os seguintes argumentos podem ser úteis:

a. Não surgiu nenhuma nova prova, que a Comissão de investigação não tenha considerado.

***
b. Regra geral, os críticos sobrevalorizam itens específicos e ignoram outros. Tendem a dar mais ênfase às lembranças de testemunhas individuais (sempre menos confiáveis e mais divergentes – e, portanto, mais vulneráveis a críticas) (…)

***
c. Seria impossível ocultar as grandes conspirações seguidamente sugeridas nos EUA, especialmente porque os informantes poderiam ganhar muito dinheiro se denunciassem as conspirações, etc..

***
d. Os críticos sempre são tomados por alguma espécie de vaidade intelectual:falam de uma teoria e apaixonam-se por ela para sempre; e criticam os investigadores porque nem sempre respondem com prova cabal e decisão absoluta numa direção ou noutra.

***
f. Quanto a acusações de que os relatórios da comissão de investigação seria serviço apressado, sem cuidado: só foi distribuído três meses depois do prazo marcado inicialmente. Mas a Comissão muito se esforçou para apressar a divulgação do relatório; o atraso explica-se pela pressão de especulação irresponsável que já surgia antes até do relatório ser conhecido, em alguns casos vinda dos mesmos críticos que, se recusando a admitir os próprios erros, aparecem agora com novas críticas.

g. Acusações vagas como “mais de dez pessoas morreram misteriosamente” sempre podem ser explicadas por via natural(…).

5. Sempre que possível, reagir contra a especulação forçando a referência ao próprio relatório da Comissão. Leitores estrangeiros de mentalidade aberta sempre podem ser impressionados pelo cuidado, atenção, objetividade e velocidade do trabalho da Comissão de Investigação. Especialistas em resenhar livros para a imprensa, devem ser encorajados a acrescentar, ao que digam sobre [seja o que for], a ideia de que, recorrendo sucessivas vezes ao texto do relatório da comissão de investigação, perceberam que o relatório foi trabalho muito mais bem feito que o trabalho dos que o criticam.

Abaixo se vêem fotos de partes do memorando da CIA.

(clique na imagem para aumentar)

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Resumo das táticas que o despacho/memorando da CIA recomendava, contra os “Teóricos da Conspiração”:

●– Diga sempre que seria impossível que tanta gente mantivesse segredo sobre alguma grande conspiração

●– Consiga que pessoal amigável ataque as ideias de conspiração, e insistam na ideia de repetir sempre o relatório da comissão de investigação

●– Diga sempre que testemunho ocular não é confiável

●– Diga sempre que são notícias velhas [porque] “não surgiu nenhuma nova prova”.

●– Ignore completamente o que se diga sobre conspirações, exceto se a discussão já estiver ativa demais

●– Diga sempre que especular é comportamento irresponsável

●– Acuse os teóricos da conspiração de serem vaidosos de suas próprias ideias e de não serem capazes de superá-las

●– Acuse os teóricos da conspiração de terem motivação política

●– Acuse os teóricos da conspiração de terem interesses financeiros na promoção de teorias de conspirações.

Em outras palavras, a unidade de serviços clandestinos da CIA criou argumentos para atacar o que chamou de  “Teorias de conspirações” e “declará-las” não confiáveis, nos anos 1960s, como parte de suas operações de guerra psicológica.

Mas teorias da conspiração são de fato... total piração?

[...] Evidentemente não. Por exemplo, o esquema Ponzi de Bernie Madoff foi um crime de conspiração, movido por uma teoria daquela específica conspiração.

Esquema Ponzi de Bernard Madoff

Conspirar é crime muito claramente tipificado na lei norte-americana, ensinado no primeiro ano de qualquer faculdade de Direito como item do currículo básico. Dizer a um juiz que alguém está envolvido numa “Teoria de Conspiração” é como dizer em juízo que o sujeito matou, roubou, invadiu propriedade alheia, roubou um carro. É conceito legal claro e conhecido.

Madoff não é o único. Diretores da Enron foram também condenados por crime de conspiração, e também do diretor de Adelphia [há muitos e muitos casos de funcionários do estado também condenados pelo mesmo crime (thisthisthisthis e this)].

Justin Fox, colunista de finanças da Time Magazine escreve:

Algumas conspirações no mercado financeiro são reais (...) Muitos bons repórteres investigativos são teóricos de conspirações, por falar nisso.

E também são criminosos, pela prática do crime de conspiração – desde que os crimes sejam denunciados e provados e os réus sejam condenados – a Agência de Segurança Nacional e as empresas de tecnologias que ajudem na prática do crime (se algum dia forem condenadas).

Mas “nossos líderes NUNCA fariam tal coisa...”

Embora já haja quem admita que empresários e funcionários de baixo escalão possam envolver-se em conspirações – ainda há muita gente que resiste à ideia de que os mais ricos e os muito poderosos também podem ter praticado o crime de conspirar.

Cass Sunstein
Verdade é que até os mais poderosos conspiram; alguns até confessaram. Por exemplo, o administrador do Gabinete de Informações e Assuntos de Regulação do governo Obama, Cass Sunstein, escreveu:

Claro que algumas teorias conspiracionais, conforme nossa definição, comprovaram-se verdadeiras. O quarto do hotel Watergate usado pelo Comitê Nacional do Partido Democrata foi realmente invadido e teve instalados equipamentos para escuta clandestina, por funcionários do Partido Republicano a mando da Casa Branca. Nos anos 1950s, a CIA realmente administrou LSD e outros alucinógenos a participantes do Projeto MKULTRA, para investigar possibilidades de “controle da mente”. A Operação Northwoods, muito discutido plano do Departamento de Defesa para simular atos de terrorismo e culpar a Cuba, foi realmente proposto, como conspiração, por funcionários de alto escalão do governo.

Mas “alguém teria dado co’a língua nos dentes”...

Argumento sempre repetido por quem queira desviar a atenção de uma investigação, “diagnosticando” alguma “conspiração” no ar é que “alguém teria dado com a língua nos dentes”, caso houvesse ali realmente alguma conspiração.

Quem explica é o conhecido demolidor de mentiras e whistleblower Daniel Ellsberg:

Ouve-se muito que “não se consegue guardar segredos em Washington” ou que “numa democracia, não importa o quanto o segredo seja sensível, é provável que, dia seguinte, seja publicado no New York Times”. Não há tolice maior, nem truísmo mais falso. Há, sim, histórias ocultadas, meios para enganar e desviar a atenção de jornalistas e leitores, que são parte do processo para encobrir o que é realmente secreto. Claro que eventualmente muitos segredos acabam por ser revelados, que talvez não fossem jamais revelados numa sociedade absolutamente totalitária. Mas a verdade é que a vastíssima maioria dos segredos jamais chegam ao conhecimento da opinião pública norte-americana. É verdade mesmo quando a informação ocultada é bem conhecida de algum inimigo e quando é claramente essencial para a operação do poder de guerra do Congresso e para algum controle democrático sobre a política externa.

A realidade desconhecida do público e de muitos membros eleitos do Congresso e da imprensa é que segredos da mais alta importância para muitos deles podem, sim, permanecer confortavelmente ocultados por autoridades do Executivo durante décadas, mesmo que sejam bem conhedicos por milhares de insiders.


Daniel Ellsberg
A história prova que Ellsberg tem razão. Por exemplo:

●– 130 mil pessoas, de EUA, Grã-Bretanha e Canadá trabalharam no Projeto Manhattan. O segredo foi mantido durante anos.

●– Documentário da BBC mostra que:

Houve uma tentativa de golpe nos EUA em 1933, organizado por um grupo de empresários norte-americanos de extrema direita (...) O golpe pretendia derrubar o presidente Franklin D Roosevelt, com o auxílio de meio milhão de veteranos de guerra. Os golpistas, entre os quais estavam algumas das mais famosas famílias norte-americanas (proprietários de Heinz, Birds Eye, Goodtea, Maxwell Hse & George Bush [avô], Prescott) acreditavam que o país devesse adotar políticas de Hitler e Mussolini para superar a grande depressão”.

Mais que isso, os magnatas disseram ao general Butler que o povo norte-americano aceitaria o novo governo, porque aquelas famílias controlavam todos os jornais. Alguém ouvira falar, antes, dessa conspiração? Com certeza foi conspiração vastíssima. E, se os golpistas controlavam a imprensa-empresa naquele momento, muito mais controlam hoje, com as empresas-imprensas já “consolidadas”.

●– sete de oito bancos gigantes quebraram nos anos 1980, durante a “Crise latino-americana”, e a resposta do governo foi ocultar a insolvência. A ocultação-falcatrua durou várias décadas

●– bancos foram envolvidos em comportamento criminoso sistemático e manipularam todos os mercados.

●– há 50 anos governos encobrem derretimento de núcleo radiativo de usinas nucleares, para proteger a indústria nuclear. Governos sempre operaram para encobrir a gravidade de inúmeros outros eventos com comprometimento do meio ambiente. Durante muitos anos os funcionários do Texas intencionalmente informaram índices diminuídos de radiação na água potável, para evitar ter de notificar violações das normas.

●– A vigilância ilegal do governo dos EUA sobre os cidadãos começou sete meses antes do 11/9 (confirmado here e here). E vejam essa discussão gravada há mais de 30 anos. Mas o público só soube sobre isso muitos anos depois. Na verdade, o New York Times adiou a publicação, de modo que não afetasse o resultado da eleição presidencial de 2004.

●– A decisão de iniciar a guerra do Iraque foi tomada antes do 11/9. De fato, o ex-diretor da CIA George Tenet disse que a Casa Branca queria invadir o Iraque desde muito antes do 11/9, e inseriu “lixo” em suas justificativas para invadir o Iraque. O ex-secretário do Tesouro, Paul O’Neill – membro do Conselho de Segurança Nacional – também diz que Bush planejou a guerra do Iraque antes do 11/9. E altos funcionários britânicos dizem que os EUA discutiram mudança de regime no Iraque um mês antes de Bush ser empossado. Dick Cheney ao que parece até converteu os campos de petróleo iraquianos em prioridade nacional dos EUA antes do 11/9

E há muito tempo se sabe que um punhado de pessoas foi responsável por deliberadamente ignorar as muitas evidências de que não havia armas de destruição em massa no Iraque. São fatos que só recentemente foram abertos para conhecimento público. De fato, Tom Brokaw até explicou que “todas as guerras são baseadas em propaganda”.

E esforço organizado para gerar propaganda é uma conspiração – e é crime nos EUA. Tais como:



11/9/2001, o maior "False Flag Attack" de História

(...) A admissão sempre ocorre várias décadas depois dos eventos. O que mostra que, sim, é possível manter conspirações em segredo por muito tempo, sem que alguém “dê coa língua nos dentes”.

(...) Além do mais, os que supõem que conspiradores dariam com a língua nos dentes esquecem que pessoal militar ou de inteligência – e quem tenha quantias gigantescas de dinheiro investido numa “operação” secreta – tende a ser muitíssimo disciplinado. Dificilmente se embebedam num balcão de bar e põem-se a contar “vantagem” do que fazem e de quem conhecem...

Por fim, pessoas que se envolvem em operações clandestinas podem fazê-lo por profunda convicção ideológica. Jamais subestime a convicção de um ideólogo!

Conclusão

A conclusão disso tudo é que há conspirações inventadas, mas há conspirações reais. Umas e outras têm de ser avaliadas pelos fatos que lhes dão forma. (...)

Quem opera longe dos contrapesos e controles democráticos – e sem a força desinfetante da luz do sol da supervisão democrática – tende a pensar mais nos próprios interesses; e os mais fracos são os mais prejudicados. (...) Gente de poder podem não ser más pessoas. Mas podem ser sociopatas, bandidos, doidos perversos.

Na dúvida, se alguém tentar dissuadi-lo de investigar, e acusá-lo de ter sucumbido a alguma “ridícula Teoria da Conspiração” – expressão que a CIA inventou para afastar bons cidadãos de boas investigações – não pare, não veja, não ouça (a CIA) e... investigue mais e mais. 

sábado, 7 de dezembro de 2013

1963: Ngo Dinh Diem assassinado

Todos os golpes da CIA são o mesmo golpe

2/10/2013, [*] John Prados, Blog Unredacted (Arquivos da Segurança Nacional dos EUA)
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Nós da família [de João Goulart] estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance para elucidar esse caso. Eu sempre digo o seguinte: a exumação é apenas um dos meios para se chegar à verdade depois de tanto tempo. A Justiça brasileira tem que cumprir o seu papel legal, constitucional e, principalmente, soberano. Pedimos ao Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul que abrisse uma ação cautelar para nós solicitarmos a oitiva dos agentes americanos que tinham conhecimento da operação que estão sob proteção do Estado americano e moram dentro dos Estados Unidos [João Vicente Goulart, em entrevista à Deutche Welle Brasil, 5/12/2013].

Ngo Dinh Diem assassinado. Essa foto foi tirada por um funcionário dos EUA em serviço
no Vietnã, nunca identificado; está arquivada nos US National Archives (USNA)
[Arquivos Nacionais dos EUA].
Ngo Dinh Diem
Com outubro já chegando a novembro, nos aproximamos do 50º aniversário do golpe militar apoiado pelos EUA no Vietnã do Sul, que derrubou o governo e resultou no assassinato do governador de Saigon, Ngo Dinh Diem e de eu irmão e alter ego Ngo Dinh Nhu. Embora generais do Vietnã do Sul sejam os responsáveis diretos pelo golpe de Estado, o governo Kennedy apoiou-os com entusiasmo e lhes ofereceu o apoio da CIA.

Essa história foi objeto da Conferência “Vietnam, 1963”, semana passada. O golpe e muitas outras questões pertinentes foram discutidas na Conferência organizada pelo Centro Vietnã e Arquivos da Universidade Texas Tech, co-organizada pelo Projeto História Internacional da Guerra Fria do Wilson Center e pela Administração dos Arquivos e Gravações Nacionais dos EUA, nos dia 26-28/9/2013.

O papel da CIA no golpe em Saigon já está há muito tempo estabelecido, mas ainda restam controvérsias sobre quando e como o presidente John F. Kennedy passou a investir todo seu peso no apoio a generais golpistas do Vietnã do Sul.

Daniel Ellsberg
Versão muito amplamente aceita [mas que Ellsberg, nos Pentagon Papers”, põe em dúvida (NTs)] afirma que “uma claque [orig. a cabal] de altos funcionários conspiradores” de Washington, entre os quais o vice-secretário de Estado, W. Averell Harriman; o vice-secretário de Estado para o Extremo Oriente, Roger A. Hilsman; e o secretário do Conselho de Segurança Nacional, Michael Forrestal teriam conspirado para que as coisas acontecessem como aconteceram. Segundo essa versão, aquela “claque de conspiradores” esperaram que o governo estivesse fora de Washington, num fim-de-semana em agosto de 1963, e aproveitaram o momento para fazer chegar uma instrução ao embaixador dos EUA, Henry Cabot Lodge, no sentido de que desse apoio ao golpe dos generais. Segundo essa narrativa, outros altos funcionários, principalmente o diretor da CIA, John McCone, ficaram enfurecidos quando souberam da manobra e denunciaram o que ficou conhecido como “Hilsman cable” [ou Telegrama 243, datado de 24/8/1963] em reunião do Conselho de Segurança Nacional dos EUA do dia 26/8/1963, o que teria levado o presidente Kennedy a rescindir as instruções enviadas a Cabot Lodge.

John Kennedy
No final de 2009, os Arquivos Nacionais reuniram e apresentaram novas provas desse caso,[atualizadas em 1/11/2013 (NTs)] entre as quais as gravações reais de áudio das reuniões do Conselho de Segurança Nacional dos EUA sobre o Vietnã realizadas durante aquela semana crucial em 1963, provavelmente porque o presidente Kennedy tinha um sistema de gravação instalado em seu escritório na Casa Branca e no “Cabinet Room”, onde eram realizadas as reuniões do Conselho de Segurança Nacional. Essa prova, combinada com documentos relevantes da mesma época, mostram que essa versão padrão da história do telegrama de Hilsman não é acurada. Apresentei as provas e o caso, na Conferência Texas Tech.

A tal “claque” de funcionários de Washington não estava simplesmente conspirando para enviar um telegrama de instruções: estava respondendo a específica demanda de generais vietnamitas, que pediam resposta no mesmo dia. Foi coincidência que, naquele dia, os principais decisores estivessem ausentes de Washington. Embora os funcionários do governo estivessem divididos em facções baseadas nas respectivas preferências políticas, o “telegrama Hilsman” foi redigido pelas vias normais e liberado pelos procedimentos habituais.

Michael Forrestal, secretário do Conselho de Segurança Nacional, deu a Kennedy duas oportunidades [itálicos no orig. (NTs)] para deter a ação: uma ao comunicar que havia uma instrução em preparação; a segunda, quando entregou o rascunho da resposta ao presidente.

As gravações de áudio das reuniões do Conselho de Segurança Nacional do dia 26/8/1962 mostram claramente que os participantes só discutiram detalhes instrumentais com vistas a facilitar o apoio dos EUA a um golpe já preparado pelos generais sul-vietnamitas. Nenhum dos presentes fez qualquer objeção à política básica.

Ainda mais evidente: o tom das falas, nas fitas gravadas, não sugere qualquer ‘fúria’ contra membros de alguma “claque” de outros altos funcionários.

Robert Kennedy
Muitos dos historiadores que relatam a versão antiga da história do “telegrama Hilsman” basearam-se numa entrevista (história oral) que Robert F. Kennedy gravou em meados dos anos 60s. Pelas gravações, sabe-se que Robert Kennedy não esteve presente na reunião do dia 26/8/1962 do Conselho de Segurança Nacional [itálicos no orig. (NTs)].

Os funcionários de Washington mantiveram a mesma atitude antes e depois da reunião. A CIA, por exemplo, teria sido o centro da “oposição”. Mas as fitas gravadas mostram que o chefe de operações da CIA no Extremo Oriente, William E. Colby, reuniu-se com Roger Hilsman imediatamente depois [itálicos no orig. (NTs)] daquela reunião do Conselho de Segurança Nacional; e que Colby esteve em contato com Hilsman duas vezes mais frequentemente nos dias depois de o apoio ao golpe ter sido decidido do que na semana anterior.

Mais que isso: antes de outra reunião com o presidente, dia 28/8, Colby falou várias vezes com Hilsman e parece ter ensaiado o briefing do Conselho de Segurança Nacional para o funcionário do Departamento de Estado. Depois [itálicos no orig. (NTs)] daquela reunião presidencial, Colby enviou instruções para a base da CIA em Saigon, para que listassem figuras do Vietnã do Sul adequadas para substituir Diem, ao mesmo tempo em que Hilsman instruía o embaixador Lodge a andar devagar nos planos para o golpe.

Mas a instrução para andar mais devagar foi efeito de novo relatório da CIA, que informava que os generais estavam adiando seus planos. Mas enquanto os sul-vietnamitas adiavam, os EUA continuaram nos preparativos decididos na discussão original do Conselho de Segurança Nacional. Essa prova está exposta em detalhes no Electronic Briefing Book n. 302.

Em resumo, os EUA decidiram, sim, em agosto de 1963, apoiar um golpe em Saigon, se Diem não se livrasse de seu irmão Ngo Dinh Nhu. Tomada a decisão, como política básica, jamais se afastaram dela nem reduziram o apoio.





[*] John Prados é um analista de segurança nacional sediado em Washington, DC. Prados é Ph.D. pela Universidade de Columbia em Ciência Política (Relações Internacionais) e concentra-se em poder presidencial, relações internacionais, inteligência e assuntos militares. É um Diretor Geral do projeto com o Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington. Prados lidera projetos de documentação do Arquivo para o Vietnã e para a CIA, é co-diretor do projeto Iraque, e ajuda com projeto de Afeganistão. Seu livro mais recente é Islands of Destiny: The Solomons Campaign and the Eclipse of the Rising Sun (NAL/Caliber). Seu próximo livro é uma obra sobre as operações da CIA. Outros trabalhos recentes incluem Normandy Crucible: The Decisive Battle That Shaped World War II in Europe (NAL/Caliber), Vietnam: The History of an Unwinnable War, 1945-1975 (University Presses of Kansas), vencedor do Henry Adams Prize em  História Americana; e How the Cold War Ended: Debating and Doing History (Potomac). Prados também é autor de dezesseis outros livros, com títulos sobre a segurança nacional, a presidência norte-americana, a inteligência, a história diplomática e militar, incluindo o Iraque, o Vietnã, a União Soviética e a Segunda Guerra Mundial. Foi pioneiro em contar a história do Conselho de Segurança Nacional em Keepers of the Keys, e The Soviet Estimate: U.S. Intelligence and Soviet Strategic Forces (um recurso fundamental na compreensão de poder militar soviético).

sábado, 24 de agosto de 2013

Snowden: “Governo britânico está vazando segredos dele mesmo!”

24/8/2013, [*] Glenn Greenwald, The Guardian, UK
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Sede da GCHQ (a "poodle" inglesa da NSA), nos arredores de Cheltenham.
O jornal The Independent publicou matéria hoje – cujo conteúdo, como o jornal diz repetidas vezes, viria de “documentos obtidos da Agência Nacional de Segurança dos EUA por Edward Snowden” – na qual revela que:

(...) britânicos dirigem uma estação secreta de monitoramento no Oriente Médio para interceptar e processar vastas quantidades de e-mails, chamadas telefônicas e tráfego na web a serviço de agências de inteligência ocidentais.

É a primeira vez que o The Independent publica qualquer revelação supostamente extraída de documentos da ASN-EUA, e esse é o tipo de “revelação” que os jornalistas que trabalham diretamente com Edward Snowden têm cuidadosamente evitado até o momento.

A pergunta óbvia é: quem é a fonte dessa “revelação”? Hoje cedo, Snowden disse que quer deixar bem claro que a fonte do The Independent não é ele:

Edward Snowden
Jamais falei com, trabalhei com, ou forneci qualquer tipo de material jornalístico ao jornal The Independent. A meu pedido, todos os jornalistas com os quais trabalhei têm sido criteriosos e têm cuidado atentamente para que só se revelem informações que devam ser de conhecimento público e que não ponham em perigo nenhuma pessoa e nenhum local. Pessoas em todos os níveis da sociedade até e inclusive o presidente dos EUA reconheceram a contribuição desse critério e desse cuidado com as revelações, para um necessário debate público, e muito nos orgulhamos de que sempre tenha sido assim.

Tudo faz crer que o governo britânico tenta agora criar a impressão de que as revelações publicadas no The Guardian e no Washington Post seriam danosas. Para “demonstrá-lo”, vaza para o The Independent informação intencionalmente danosa, atribuindo-a a outros.

O governo britânico tem de explicar o raciocínio que o levou à decisão de vazar informação que, se fosse vazada por cidadão privado, o governo britânico processaria o vazador por prática de ato criminoso.

Em outras palavras: exatamente quando há grande escândalo contra a exploração abusiva e ilegal, pela Grã-Bretanha, de sua “Lei para o terrorismo” [orig. Terrorism Act] – com a opinião pública contra o uso dessa lei para deter David Miranda – e exatamente quando o governo britânico tenta convencer um tribunal de que haveria graves perigos à segurança pública naqueles documentos, aí, repentinamente, aparece num jornal o tipo de vazamento “perfeito” que serve ao argumento do governo britânico, mas jamais aconteceu.

Isso é o que Snowden faz questão de deixar bem claro: apesar da tentativa, pelo The Independent, de fazer crer que assim seja, ele, Snowden, não é a fonte em que se baseia a matéria hoje publicada. Assim sendo, quem é a fonte?

O governo dos EUA já várias vezes usou essa tática: atacar agressivamente os que revelem informação incriminante ou embaraçosa sobre o governo, em nome de proteger a santidade da informação sigilosa, enquanto, ao mesmo tempo, o próprio governo vaza fartamente informação secreta, sempre que o vazamento serve aos seus interesses políticos.

Outra questão a discutir, sobre o artigo do The Independent: ali se sugere fortemente que haveria algum acordo para restringir a publicação em curso, pelo The Guardian, de documentos da Agência Nacional de Segurança. Falando em meu próprio nome, quero deixar bem claro o seguinte: Não firmei, não tenho conhecimento e não estou submetido a nenhum tipo de acordo que imponha qualquer limitação ao tipo de divulgação que estou dando àqueles documentos. Jamais, em nenhum caso, aceitaria quaisquer limitações. Como já disse várias vezes, táticas de abuso e de intimidação, do tipo a que todos assistimos essa semana, não me deterão no trabalho que estou fazendo e não deterão os que estão trabalhando comigo. Estou trabalhando pesado em várias novas matérias sobre a Agência de Segurança Nacional e pretendo publicá-las no momento em que estiverem concluídas.

Questão relacionada a essa

Daniel Ellsberg
A todos, na mídia e fora dela, que argumentam que a posse e transporte de informação secreta seja crime: Estão dizendo que acreditam que não só Daniel Ellsberg cometeu crime, mas também todos os repórteres e editores do New York Times também cometeram crime sempre que receberam, possuíram, transportaram e publicaram as milhares de páginas de documentos top-secret conhecidos como “Papéis do Pentágono”?

Creem também que o Washington Post cometeu crime quando recebeu e publicou informação top-secret de que o governo Bush mantinha uma rede de “buracos negros” da CIA pelo mundo, ou quando o New York Times revelou, em 2005, o programa top-secret pelo qual a Agência de Segurança Nacional dos EUA criara um programa de escuta clandestina sem autorização judicial para espionar cidadãos norte-americanos?

Ou estamos ante alguma espécie recém inventada de padrão de criminalidade que só se aplica às nossas matérias sobre a Agência Nacional de Segurança? Será que os profissionais da mídia que pregam que possuir ou transmitir informação sigilosa seria crime realmente não compreendem o precedente que estão construindo contra o jornalismo investigativo?

ATUALIZAÇÃO

Oliver Wright, do The Independent, acaba de tuitar o seguinte:

Para conhecimento de todos: o The Independent não foi “vazado” nem “conversado” pelo governo, para publicar a matéria de capa de hoje.

Oliver Wright
Deixando de lado o fato de que a matéria do The Independent cita como fonte “um alto funcionário de Whitehall”, ninguém disse que teriam sido “conversados” para publicar coisa alguma. A questão é: a informação não partiu de Snowden nem de qualquer dos jornalistas com os quais ele trabalha e trabalhou.

O The Independent revelou informação secreta – bastante significativa – sem informação sobre a fonte. Viram os documentos? Nesse caso, dado que não lhes foram entregues por Snowden nem pelos jornalistas com quem Snowden trabalha, que lhes deu acesso a eles?

Não me interessa, evidentemente, que identifiquem suas fontes, mas é indispensável alguma indicação sobre o que daria fundamento àquelas revelações, porque, pelo próprio conteúdo, são informações que só valem pelo valor da fonte. Deve-se supor que não publicariam informação daquela gravidade sem ver os documentos ou sem alguma confirmação de alguém que os tivesse visto. O número de pessoas que poderiam ter visto documentos com aquele conteúdo é muito restrito e inclui, evidentemente, o próprio governo britânico.
_________________________


[*] Glenn Greenwald (6 de março de 1967) é um advogado constitucionalista, colunista, blogueiro, comentarista político e escritor americano; colunista do site Salon.com e mantém um blog ligado jornal inglês The Guardian como depositário do acervo do “alertador” Edward Snowden. Influente na política dos Estados Unidos. Suas análises sobre a vigilância governamental e a separação de poderes foram citados nos jornais The New York Times, The Washington Post, em debates no Senado e na Câmara de Representantes dos Estados Unidos. Escreveu dois best-sellers, How Would a Patriot Act? (2006) e A Tragic Legacy (2007), e também a obra Great American Hypocrites (2008).