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segunda-feira, 27 de abril de 2015

No mesmo dia, dois casos mostram a completa podridão dos EUA

25 de abril/2015 – [*] Ted Rall – Information Clearing House
Tradução mberublue

Obama brinda o sofrimento causado pelos drones

Por acaso você ainda pensa que os Estados Unidos é governado por gente decente? Que o sistema não é totalmente corrupto e injusto?

Pois duas histórias acontecidas em 23 de abril deste ano deveriam pelo menos servir para acordar você.

Matar crianças com drones é POLÍTICA EXTERNA dos EUA

Primeiro caso: o Presidente Obama admitiu que um de seus drones “Predator” matou dois trabalhadores em ajuda humanitária, um deles norte americano e outro, italiano, que foram feitos reféns pela Al Qaeda no Paquistão. De acordo com reportagem do jornal The Guardiana falha na especificidade (sobre os alvos) sugerem que, a despeito da altamente propagada e suposta mudança de política promovida por Obama, que restringiria os assassinatos via drones, entre outras coisas, passando a requerer a certeza antecipada de que os “alvos terroristas” estariam realmente presentes, os Estados Unidos continuam lançando suas operações de ataques assassinos sem o necessário conhecimento sobre quem se procura matar, uma prática que veio a ser conhecida como “ataque assinado” (original “signature strike” no sentido de ser baseado em dados de inteligência - padrões de comportamento obtidos por interceptações, fontes humanas e vigilância aérea analisados pela agências norte americanas - que decidiriam então, se esses padrões de comportamento significariam a "assinatura" de uma pessoa ou grupo de pessoas como terroristas. Uma loucura total – NT).

“Falha de especificidade” não passa de um eufemismo desavergonhado. Conforme reportagem do grupo Retrieve (organização inglesa em defesa de direitos humanos fundada em 1999 pelo advogado Clive Stafford Smith - NT) os Estados Unidos marcaram 41 pessoas para morrer, assinalados como “terroristas” – mas na realidade inimigos dos regimes corruptos do Iêmen e do Paquistão – através de ataques de drones durante o ano de 2014. Graças às tais “falhas de especificidade” um total de 1.150 pessoas foram mortas. O que nem por isso incluiu todos os 41 “marcados”, muitos dos quais escaparam ilesos.

A grande maioria dos mortos por drones são civis

A expressão falsa de Obama fingindo estar pesaroso foi digna de um canastrão. Apertando os lábios em uma expressão sinto/não sinto à maneira de Bill Clinton, o Presidente parecia na realidade estar fingindo tristeza por uma coisa que acontecera em janeiro. Tenha dó, cara... pensa mesmo que vamos acreditar que você passou os últimos três meses todo tristeza e lágrimas – claro, excluindo todos os discursos e aparições públicas onde estava às gargalhadas e fazendo piadas? Exatamente no mesmo dia em que fingiu tristeza, o presidente também riu por causa da comparação do caso com o campeão do Super Bowl, o time do New England Patriots. “Esta história toda já passou um pouco dos limites”, assentiu ele (relacionando o caso dos drones com o escândalo DeflateGate – “escândalo” criado pelo time de futebol americano, ao desinflar bolas de futebol durante o jogo – NT). Muito triste, ele. Mas rindo.

Bem confuso.

Juro que os racistas da extrema direita estão certos em odiar o presidente. Mas eles o odeiam por razões totalmente erradas.

De qualquer maneira, qual o motivo que levou a Casa Branca a demorar tanto tempo para finalmente admitir que matou um de nossos melhores cidadãos? “Levamos semanas para relacionar as mortes relatadas (dos reféns) com os ataques por drones”, relatou o jornal The New York Times citando funcionários da Casa Branca. Mas em suas notas preparadas acintosamente, Obama afirma que “não é possível capturar estes terroristas” – então, os ataques por drones.

Milhares de civis foram assassinados pelo drones dos EUA

A Administração Obama acha que somos assim tão estúpidos?

O fato de que se pode descobrir quem morreu em um ataque de drones (mesmo que apenas bem depois do ataque) indica que há fonte de Inteligência confiável originada das áreas marcadas como alvo, provavelmente proporcionada por aliados locais, talvez polícia ou exército. Ora, se há policiais ou tropas que são confiáveis a ponto de fornecer informações, então, obviamente, é possível solicitar a estes aliados que capturem os alvos individuais.

Resumo da ópera: o governo dos Estados Unidos está bombardeando pessoas a torto e a direito pelo mundo afora, sem a menor ideia de quem está sendo bombardeado. Além do mais, estes assassinatos de cunho político são ilegais. Mentiram, dizendo que tais fatos não mais estavam acontecendo. Agora, tem a ousadia desavergonhada de fingir tristeza pelos próprios feitos, que poderiam ser perfeitamente evitáveis. São repugnantes e brutais, e deveriam ser fechados em uma prisão pelo resto da vida.

David Petraeus e a “amante-biógrafa”, Paula Broadwell

Segundo caso: David Petraeus, antigo bam-bam-bam da mídia, queridinho das redações, general sob Bush e no início dos anos Obama, recebeu um puxão de orelhas – claro, com liberdade condicional e multa de US$ 100.000 – por passar informações e documentos confidenciais de forma ilegal para pessoas não autorizadas, e depois mentir a respeito do fato, quando inquirido por agentes federais que o questionaram.

Lá vamos nós outra vez: mais provas de que, no sistema jurídico americano, algumas pessoas voam na primeira classe, enquanto o resto de nós se aperta na classe turística, mesmo.

Neste mundo às avessas, gente como Petraeus, que deveria já estar preso, porque sua posição superior lhe fez ser incrustado na administração com imenso poder e responsabilidade, caminha livre, enquanto os patetas menos ranqueados como nós, se cometermos o mesmo crime, seremos tratados como se fôssemos Al Capone.

O cabo Chelsea Manning, que revelou os documentos oficiais dos crimes de guerra dos Estados Unidos no Iraque, através do WikiLeaks, deu com os costados na prisão por 35 anos. Edward Snowden, administrador de sistemas de 31 anos que trabalhava para uma firma terceirizada que prestava serviços para a NSA e que revelou que o governo dos Estados Unidos está lendo todos os nossos e-mails e ouvindo o que dizemos ao telefone, encara a possibilidade de passar a vida na prisão.

Dois anos de liberdade condicional. Enquanto isso, professores que ajudaram seus alunos a enganar os testes padronizados receberam pena de sete anos na prisão. Para Petraeus, que passou a trabalhar para um fundo de investimentos, US$ 100.000 é apenas uma boa gorjeta para o caddy (carregador de tacos para os jogadores de golfe – NT).

Há algo que adiciona loucura ao insulto: o fato de que o motivo pelo qual Petraeus colocou em perigo a segurança nacional é venal: ele deu os documentos para a sua amante, que escreveu sua biografia autorizada.

Edward Snowden e Chelsea Manning
De a eles o PRÊMIO NOBEL DA PAZ!

Manning e Snowden, são heróis que deveriam ser objeto de desfiles honrosos e receber medalhas presidenciais da Liberdade, mas não foram glorificados. Eles apenas queriam informar ao povo norte americano sobre as atrocidades que se cometiam em seu nome, e sobre as violações de seus direitos mais básicos, incluindo-se o direito à privacidade.

Antes de ser apanhado com a boca na botija e enquanto compartilhava informações confidenciais com sua amante, Petraeus teve o descaramento indizível de pontificar hipocritamente sobre um funcionário da CIA que disponibilizou informações sensíveis. Diferentemente de Petraeus, porém, o sujeito da CIA recebeu a justiça reservada aos patetas: 30 meses na prisão.

Fechando o assunto, Petraeus pontificou bombasticamente em 2012: na realidade, há consequências sérias para aqueles que se acreditam acima das leis que protegem nossos verdadeiros colegas e permite que as agências norte americanas possam trabalhar com o grau adequado de sigilo.

Bem. Se você é viajante de primeira classe, as consequências são mínimas.

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[*] Ted Rall – Frederick Theodore “Ted” Rall é escritor e cartunista vinculado ao jornal The Los Angeles Times. Seus cartoons são distribuídos para cerca de 100 jornais norte-americanos. Já foi correspondente de guerra e escreve artigos sobre a Ásia Central, sua especialidade.

terça-feira, 3 de março de 2015

Tariq Ali: É tempo de a Revolução avançar sobre o Palácio


1/3/2015, [*] Chris Hedges e Tariq AliThruthdig
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Chantez, compagnons, dans la nuit la liberté nous écoute.
Cantem, camaradas! Dentro da noite, a liberdade nos ouve.
(Da Chanson du Partisan, 1943, cantada por Johnny Halliday)


Ver também: 2/3/2015, Eurobancos vs. trabalho grego, redecastorphoto, Michael Hudson em entrevista à rede TRNN.


O novo livro de Tariq Ali é “The Extreme Centre: A Warning”.
[O extremo centro: um alerta]

PRINCETON, N.J. – Tariq Ali é da alta nobreza da esquerda. Seus mais de 20 livros sobre política e história, seus seis romances, suas peças e roteiros e seu jornalismo no jornal Black Dwarf, na New Left Review e outras publicações, fizeram dele um dos mais afiados críticos do capitalismo empresarial-empreendedorista. Lança raios retóricos e críticas afiadíssimas contra os especuladores do petróleo e empresários oligarcas que manipulam a finança global e os imbecis úteis na empresa-imprensa, no sistema político e na academia que os apoiam. A história da parte final do século XX e da primeira parte do século XXI provou que Tariq Ali, intelectual formado em Oxford e ativista há muito tempo incômodo, que certa vez apresentou-se como candidato trotskista ao Parlamento britânico, sempre foi muito surpreendentemente profético.

Ali, nascido no Paquistão, portador de cidadania dupla, britânica e paquistanesa, já era ícone da esquerda durante as convulsões dos anos 1960s. Reza a história que Mick Jagger escreveuStreet Fighting Man (vídeo no fim do parágrafo) depois de assistir a um comício antiguerra em Grosvenor Square dia 17/3/1968, liderado por Ali, Vanessa Redgrave e outros à frente da Embaixada dos EUA em Londres. 8.000 manifestantes atiraram lama, pedras e bombas de fumaça contra a polícia de choque. A polícia montada atacou a multidão. Mais de 200 pessoas foram presas.


Semana passada, quando nos encontramos pouco antes de ele proferir a aula-homenagem a Edward W. Said na Princeton University, Ali elogiou as lutas de rua, e manifestações de protesto e o confronto aberto e sustentado contra o estado que irromperam durante a Guerra do Vietnam. Lamentou o fim do radicalismo que foi nutrido pela contracultura dos anos 1960s, dizendo que foi evento “sem precedentes na história do império” e produziu o “período mais cheio de esperança” nos EUA, “intelectualmente, culturalmente e politicamente”.
 Edward W. Said

Não consigo pensar em exemplo de nenhuma outra guerra imperial na história, e não só na história do império norte-americano, mas também na história dos impérios britânico e francês, durante a qual dezenas de milhares de veteranos de guerra e muitos GIs que ainda estavam no serviço militar ativo, marcharam à frente do Pentágono, dizendo que desejavam que os vietnamitas vencessem a guerra. Aquele foi evento único nos anais do império. E foi o que assustou, atemorizou, fez tremer de pavor todos eles [os que estavam no poder]. Se o coração de nosso apparatus já foi contaminado[pensaram eles], o que, diabos, vamos fazer?! − disse ele.

Esse desafio encontrou expressão até dentro dos muros do Establishment. Sessões e audiências pública da Comissão de Relações Exteriores do Senado abertamente desafiavam os que insistiam em orquestrar o banho de sangue da Guerra do Vietnã.

O modo como aquelas audiências públicas foram conduzidas educaram segmento enorme da população” – disse Ali falando das audiências públicas conduzidas por liberais como J. William Fulbright.

Mas Ali logo constatou com tristeza: audiências públicas como aquelas nunca mais voltarão acontecer.

Aquele espírito foi, exatamente, o que a elite governante teve de atacar e fazer retroceder, e conseguiram que retrocedesse, com considerável sucesso, ele disse; e o retrocesso foi completado pela implosão da União Soviética.

Então a elite sentou e disse:

Ótimo. Agora podemos fazer o que bem entendermos. Nada mais existe do outro lado do mundo, e o que temos em casa – crianças protestando contra a Nicarágua e os Contras – é coisa pouca. E gradualmente a oposição democrática retrocedeu.

Os EUA bombardeiam Bagdá  - março/2003
Já no início da Guerra do Iraque, as manifestações de cidadãos, embora grandes, já não passavam de “assunto de 24 horas”.

Antes, havia sido uma tentativa para parar uma guerra. Quando não conseguiram pará-la, a manifestação acabou – disse ele sobre as marchas de oposição à Guerra do Iraque.

Foi um espasmo. As autoridades conseguiram convencer o povo na rua de que eles nada poderiam fazer; que fizesse a rua o que fizesse, os do poder sempre fariam o que bem entendessem. Foi a primeira vez em que muitos se deram conta de que a própria democracia já fora enfraquecida e estava sendo ameaçada.

A volta do sistema político, já trazendo com ele em profusão o dinheiro privado, a reformatação das leis e regulações para remover todos e quaisquer controles democráticos sobre o poder dos empresários e das empresas, a ocupação de toda a empresa-imprensa por um punhado de empresas e empresários para silenciar qualquer oposição, e a ascensão da vigilância total vendida no atacado, e o estado de vigilância “levaram à morte do sistema de partidos” e à emergência do que Ali chamou de “um extremo centro”.

Os trabalhadores estão sendo cruelmente sacrificados no altar do lucro das empresas privadas – cenário que se vê em tonalidades dramáticas, hoje, na Grécia. E não há mecanismo ou instituição restante dentro das estruturas do sistema capitalista que seja capaz de pôr fim ou de mitigar a reconfiguração da economia global que a vai convertendo em neofeudalismo impiedoso, em mundo de patrões e servos.

Esse extremo centro – não importa o partido que o constitua – efetivamente entra em colusão com as empresas privadas gigantes, incorpora os mesmos interesses e põe-se pelo mundo a fazer guerras – disse Ali. – Esse extremo centro estende-se por todo o mundo ocidental. Por isso é que cada vez mais e mais jovens afastam-se, lavando as mãos feito Pilatos, do sistema democrático como existe hoje. Tudo isso é resultado direto de se haver ensinado ao povo, depois do colapso da União Soviética, que “não há alternativa”.

Vai-se tornando cada dia mais volátil a batalha entre desejo popular e as demandas dos empresários oligarcas – que cada dia saqueiam maior número de pessoas pelo mundo, jogando-as na miséria e no desespero. Ali observou que mesmo os líderes que têm compreensão clara da força destrutiva do capitalismo sem controles – como o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, que é homem de esquerda – deixam-se intimidar pelo poder econômico e militar que há à disposição das elites empresariais e grandes empreiteiras.

Yanis Varoufakis (E) e Alexis Tsipras
Por essa razão, principalmente, é que Tsipras e seu Ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, acederam às demandas dos bancos europeus, em troca de uma prorrogação de quatro meses no atual processo de resgate da Grécia, por US$ 272 bilhões emprestados. Os líderes gregos foram forçados a se comprometer com manter reformas econômicas punitivas e a retroceder de suas promessas de campanha eleitoral, quando o partido de Tsipras, a SYRIZA, falava de cancelar grande parte da dívida da Grécia. A dívida grega chega a 175% do PIB grego. Esse negócio agora acertado, por quatro meses, como disse Ali, é uma tática de adiamento – mas ameaça enfraquecer todo o amplo apoio que a SYRIZA angariou entre os gregos. A Grécia não conseguirá pagar o serviço dessa dívida. Mais dia menos dia, as autoridades gregas e europeias terão de entrar em choque; e o choque, afinal, disparará uma quebradeira terminal e o derretimento financeiro na Grécia. Assim a Grécia se libertará da Eurozona, e disparará levantes populares na Espanha, Portugal e Itália.

O desafio aberto, declarado, disse Ali, e o custo que com certeza custará, é nossa única linha de fuga para nos salvar da tirania das empreiteiras e empresas privadas monstro. Esse custo, de início, será doloroso. Nossos patrões empresários e empreiteiros monstros privados não têm intenção alguma de afrouxar a pegada de suas garras, e a luta será brutal.

Ali relembra o que lhe ensinava o seu valente, falecido e muito querido amigo, Hugo Chávez, presidente socialista da Venezuela, que tampouco conseguiu escapar sempre das forças de intimidação do Establishment:

(...) lembro-me das muitas conversas que tive com Chávez, e que eu dizia: “Mas meu Comandante, por que parar nesse ponto?” – e ele sempre me dizia que não era realista tentar ir adiante, naquele momento. Podemos regular o capital, podemos fazer a vida mais difícil para o capitalismo, podemos usar o dinheiro do petróleo a favor dos pobres, mas não podemos derrubar o sistema.

E, Ali acrescenta:

Os gregos e os espanhóis estão dizendo a mesma coisa.

Movimento dos Indignados (15M) - Espanha

Não sei o que a SYRIZA pensou – diz Ali. – Se pensou “podemos dividir a elite europeia, podemos fazer vasta campanha de propaganda na Europa e eles serão obrigados a fazer concessões”... Isso seria loucura. A elite europeia, chefiada pelos alemães é dura na queda, não rachará assim tão facilmente. A elite europeia já esmagou os gregos. Os líderes gregos deveriam ter dito ao próprio povo que “Vamos tentar arrancar as melhores condições possíveis – se não conseguirmos, o povo será informado sobre o que aconteceu e sobre o que os gregos teremos de fazer”. Não fizeram assim. Em vez disso, caíram na armadilha dos europeus. Os europeus praticamente não fizeram concessão alguma, que interessasse aos gregos.

O embate entre os gregos e as elites empresariais e bancárias que dominam a Europa, disse Ali, “não é econômico”. [epígrafe]

A União Europeia está pronta para “fazer chover bilhões contra os russos na Ucrânia” – Tariq Ali observa. – Não é absolutamente questão de dinheiro. Eles podem jogar fora quanta merda de dinheiro queiram, como estão preparados para fazer na Ucrânia. Com os gregos, a União Europeia finge que seria questão de dinheiro, mas não é: a questão é política. Temem que se os gregos conseguirem, a febre se dissemine. Em dezembro haverá eleições na Espanha. Se o partido Podemos [o partido da esquerda da Espanha]vencer, o segundo, depois de a SYRIZA ter sido eleita na Grécia e seguindo avante, mesmo que os avanços sejam tímidos, e por via diferente, os espanhóis dirão que os gregos conseguiram. E há também os irlandeses, esperando pacientemente com seus países progressistas e dizendo “Por que não poderíamos fazer o que a SYRIZA fez? Por que não podemos todos nos unir e agir diretamente contra nosso extremo centro?”.

Ali disse que sempre se sentiu:

(...) furioso e chocado por causa das muitas esperanças que a esquerda investiu em ObamaBarack Obama, disse ele, é presidente imperial e age como tal, não importa que tenha pele de mestiço.

Ali também já há muito desacreditou da política de gêneros que já está dando combustível para uma possível candidatura de Hilária Clinton à Casa Branca, para ser a primeira presidenta mulher nos EUA.  

Hilária Clinton
DonkeyHotey

Minha resposta é “e que merda de diferença faz que seja mulher ou homem?!”– disse ele. Se ela vai bombardear o mundo e distribuir drones por todos os continentes, que diferença faz o gênero, se a política é a mesma?

Aí está a chave: toda a política foi desvalorizada e rebaixada pelos “valores” do neoliberalismo. As pessoas degradaram as lutas, recolheram-se para lutas de identidade, lutas religiosas. Penso mesmo se será possível ainda criar alguma oposição a tudo isso coisa em escala nacional nos EUA.

Penso se o melhor não será concentrar-se nas grandes cidades e tratar de desenvolver alguns movimentos onde possam fazer diferença, em Los Angeles, New York ou em estados como Vermont. Pode ser mais inteligente concentrar-se em três ou quatro coisas e mostrar o que pode ser feito.

Não consigo ver a velha sistemática, de reproduzir partidos políticos de esquerda cujo modelo é o mesmo dos partidos Republicano e Democrata, nos dar algum resultado avançado. Gente de partido só trabalha com o dinheiro. Às vezes eles já nem veem gente do povo, há anos. É a democracia de cartão de crédito. A esquerda não pode copiar e nunca deveria ter copiado esse modelo.

Os EUA são o osso mais duro de roer, mas se não roermos esse osso, estamos destruídos.

Ali disse que teme que, se os norte-americanos algum dia se tornarem politicamente conscientes e decidirem resistir, o estado das empreiteiras e empresários imporá diretamente as formas mais declaradas de repressão militarizada. A reação do governo dos EUA no caso das bombas na Maratona de Boston em 2013, o impressionou:

(...) o estado norte-americano fechou completamente uma cidade inteira, com o apoio da população.

Bomba na Maratona de Boston - Investigação
Para Tariq Ali, a declaração virtual de lei marcial em Boston foi como “um ensaio geral”.

Se conseguem fazer em Boston, conseguem fazer em outras cidades – disse.Precisavam testar e testaram em Boston para ver se funcionaria. Essa ideia muito me assustou.

Para Tariq Ali,

(...) quem fabrica ameaça fabrica medo. Criam-se cidadãos sonâmbulos. As autoridades norte-americanas nunca tentaram o que se vê hoje, nessa escala, nem quando combatiam contra a União Soviética e o inimigo comunista, pressuposto o pior, o mais ameaçador, o mais perigoso de todos os tempos. Agora fazem exatamente o que se vê, em escala gigantesca, por causa de meia dúzia de terroristas doidos. 

Para ele, grupos como Black Lives Matter, [Vida de negro faz diferença], trazem alguma esperança. Vídeo a seguir:


Assim como os tradicionais partidos de esquerda foram esvaziados por todos os cantos do mundo, assim também os segmentos radicais da população afro-norte-americana – diz Ali. – Foram fisicamente eliminados. Martin Luther King e Malcolm X, alguns dos líderes mais bem dotados, foram assassinados. Os Black Panthers [Panteras Negras] foram destruídos. Áreas nas quais os negros viviam na Costa Oeste foram inundadas com drogas. Foi ataque bem planejado. Mas os jovens que saíram às ruas no movimento Black Lives Matter parecem ter aquele velho espírito. Quando Jesse Jackson foi a Ferguson e tentou lá a sua demagogia, foi rechaçado. Aconteceu o mesmo na Costa Leste, com [Al] Sharpton. Esses líderes negros que se venderam estão sendo vistos, afinal, pelo que são.

A principal preocupação de Ali é que essas organizações, como Black Lives Matter quase sempre só reagem aos eventos e

(...) não se dão conta perfeitamente de que reagir a eventos não é suficiente para agir contra a continuada violência do estado contra os cidadãos; que, para isso, é indispensável que os cidadãos contem com movimentos políticos.

Ele se preocupa com que os norte-americanos conheçam mal a própria história; pouquíssimos algum dia tiveram contato com a literatura da teoria revolucionária, de Karl Marx a Rosa Luxemburg.

Esse analfabetismo político, diz ele, significa que movimentos de oposição raramente são competentes para analisar efetivamente as estruturas e os mecanismo do poder capitalista; sem isso, não podem formular resposta política mais sofisticada.

Por que a classe trabalhadora nos EUA não produziu um Partido Trabalhista nem um Partido Comunista efetivo? – Ali pergunta. Repressão. Se se considera o que aconteceu nos EUA nas primeiras décadas do século XX e na última década do século XIX, vê-se que muitos mercenários privados foram contratados para pôr fim a qualquer organização política democrática. É uma parte da história que raramente é focada. Esse amaldiçoado neoliberalismo degradou também os estudos de história. A história do morticínio entre os trabalhadores norte-americanos que tentavam organizar-se é item que os historiadores norte-americanos realmente odeiam. Até se dedicam a alguns estudos de política, porque nesse campo podem usar seu anticomunismo: ensiná-lo e praticá-lo pelos jornais e televisões. Mas história é problema muito amplo.

Não se consegue entender a emergência da SYRIZA sem compreender a IIª Guerra Mundial, o papel dos partisans, o papel do Partido Comunista que organizou os partisans e como, em dado ponto, 75% da Grécia era controlada por esses partisans comunistas. Então veio o “ocidente” e fez nova guerra, foi obra de Churchill, com o apoio de Truman, para derrotar aquele povo.


Fui simpático ao movimento Occupy, mas àquela conversa de nada exigir, sem demandas, é inútil – diz ele. Deveriam ter pauta de exigências. Que exigissem serviço público de assistência à saúde; fim das empresas que fabricam remédios e do controle das seguradoras sobre os planos de saúde. Que exigissem educação gratuita universal para todos os norte-americanos. A ideia promovida por anarquistas como John Holloway, de que se pode mudar o mundo sem tomar o poder é ideia inútil. Tenho grande, enorme respeito pelos anarquistas que mobilizam e lutam pelos direitos dos imigrantes. Mas critico muito os que constroem teorias de uma política sem política. É indispensável ter um programa político. Os anarquistas espanhóis, verdadeiros anarquistas, tinham verdadeiro programa político. Esse novo anarquismo que temos visto não leva a coisa alguma. E o mais provável é que metade dos grupos hoje atuantes já estejam infiltrados. Hoje já sabemos quantos havia, de gente do FBI, no Partido Comunista e no grupo dissidente trotskista. Eram muitos, muitos. Nas votações, quem votava era gente do FBI.

Ali disse que:

(...) o fracasso dos cidadãos, que não conseguem construir movimentos de massa para desmontar o estado de total vigilância sobre os cidadãos logo depois de tudo que Edward Snowden revelou foi exemplo de o quanto estamos todos mergulhados num mesmo autoengano, numa mesma autoilusão; e de nossa cumplicidade na opressão que se aplica contra nós mesmos. O culto do indivíduo e da autoimagem – que já beira o autismo – produto da propaganda das empresas e do empreendedorismo neoliberal, infecta todos os aspectos da sociedade e da cultura, e leva à paralisia.

Edward Snowden
Hollywood deu um prêmio Óscar a Citizenfour, e aí é o mais longe que vai – diz Ali. Como se fosse importante. E aí está o mais assustador: não brotou nenhum movimento por direitos civis, que unisse os cidadãos contra a vigilância em massa. O neoliberalismo realmente destruiu completamente a solidariedade e a empatia, auxiliado por novas tecnologias. É a cultura do narcisismo mais autista.

Ali previu que a atual onda de especulação global resultará em mais um crash financeiro. Esse novo crash fará nascer movimentos, as pessoas dirão “Basta!” Se esses movimentos derem origem a programas políticos radicais, com visão diferente, socialista, da sociedade, nosso “capitalismo autoritário” poderá ser enfrentado. Mas se não houver essa visão socialista, se a revolta for simplesmente reativa, as coisas ainda piorarão. O epicentro dessa luta, disse ele, será nos EUA.

Se nada acontecer nos EUA, se nada de novo for criado para desafiar o império e seus excessos sistêmicos, será situação muito ruim para todos nós – diz ele. Será a danação para todos, se nada acontecer nos EUA.
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[*] Chris Hedges, repórter laureado com Prêmio Pulitzer, mantém coluna regular em Truthdig às 2as-feiras. Formou-se na Harvard Divinity School e foi durante quase duas décadas correspondente no exterior do The New York TimesHedges é autor de 12 livros, entre os quais War Is A Force That Gives Us Meaning, What Every Person Should Know About War, e American Fascists: The Christian Right and the War on America o best-seller (New York Times), Days of Destruction, Days of Revolt (2012), do qual é coautor, com o cartunista Joe Sacco. Seu livro mais recente é Empire of Illusion: The End of Literacy and the Triumph of Spectacle.


[*] Tariq Ali (nasceu em Lahore, hoje Paquistão, em 21/10/1943) é escritor e ativista. Escreve periodicamente para o jornal The Guardian e para a New Left Review e London Review of Books. Estudou na Universidade do Punjab. Devido aos seus contatos com movimentos estudantis e temendo por sua segurança, seus pais o enviaram à Inglaterra. Estudou Ciências Políticas e Filosofia em Oxford. Foi o primeiro paquistanês a ser eleito presidente do Diretório Central dos Estudantes daquela universidade inglesa.
Sua notoriedade teve início durante a Guerra do Vietnã, quando manteve debates com personagens centrais, tais como Henry Kissinger. Tornou-se um crítico ferrenho das políticas externas dos Estados Unidos e Israel. Ali é um crítico das políticas econômicas neoliberais e esteve presente nas edições de 2003 e 2005 do Fórum Social Mundial, tendo sido um dos dezenove signatários do Manifesto de Porto Alegre.
Publicou mais de uma dezena de livros sobre História e Política Internacional, além de várias novelas ficcionais. Seu livro mais recente é Bush na Babilônia: a Recolonização do Iraque, publicado no Brasil pela Editora Record, além de Confronto de fundamentalismo, Redenção e Mulher de Pedra.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Obama e o desdém/desprezo ilimitado

O desdém para o desdenhável
O desprezo para o desprezível

6-8/6/2014, [*] Andrew Levine, Counterpunch
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Governos mentem – uns aos outros e aos próprios cidadãos. Não é novidade; sempre foi assim. Não é novidade tampouco que governos tratam com desdém/desprezo os seus próprios cidadãos.

Tampouco é novidade que as “democracias” do mundo real têm pouca semelhança com as democracias que os filósofos políticos imaginam e defendem. Esqueçam a conversa de governo do, pelo e para o demos, o povo (o que se opõe às elites); esqueçam cidadãos a deliberar coletivamente sobre o que é melhor para a entidade política que eles encarnam; esqueçam até sobre procedimentos para harmonizar preferências populares em escolhas coletivas.

Atualmente, basta um país realizar eleições competitivas, para ser dito “democrático”. Sequer se exige que o tal país garanta direitos iguais para todos os seus cidadãos.

E pode acontecer de nem eleições competitivas bastarem. Ultimamente, vem sendo necessário satisfazer mais outra exigência: além de eleições, é indispensável também, para que um país seja dito “democrático”, que o resultado das eleições seja o que o “ocidente” – mais precisamente: os EUA – deseja que seja.

Por exemplo: Israel é contada como democracia – a única no Oriente Médio, como nos dizem – embora Israel negue direitos iguais aos cidadãos israelenses árabes. É uma democracia Herrenvolk, “democracia para o povo dos senhores” [2], mas é considerada democracia de bom tamanho. Entrementes, parte da Palestina ocupada, Gaza, é condenada ao estado de pária, porque ali o Hamás venceu eleições livres, justas e competitivas.

Israel é estado sem fronteiras
Onde haja eleições competitivas, os candidatos fazem a corte aos que votam. Quando a fazem, tentam não deixar ver o desprezo que sentem pelos eleitores. Mas campanhas eleitorais não duram para sempre, elas acabam. E, então, tudo volta a ser como era, e o desprezo/desdém come solto.

Personalidades no topo, e um pouco abaixo do topo, podem mudar. Mas as políticas em geral permanecem as mesmas. O desapontamento – de fato, a lástima, o arrependimento – do eleitor é pois inevitável, produto resultante do que hoje chamamos “governança democrática”.

Em regimes “autoritários”, não democráticos, os líderes mudam menos frequentemente. Paradoxalmente porém, é mais fácil para eles que para seus contrapartes “democráticos” modificar fundamentalmente suas políticas. Não acontece muito frequentemente, mas acontece. E vez ou outra acontece muito dramaticamente.

Claro que nada é congelado no tempo; inevitavelmente, as circunstâncias mudam, e as políticas acomodam-se. Políticos morrem ou perdem votos ou a simpatia popular e o poder; e, eventualmente, há derivas generacionais.

Hoje, quando o capitalismo atormenta todo o planeta, o ritmo das mudanças está mais rápido. Marx disse, em frase que ganhou fama, que “tudo que é sólido desmancha-se no ar”. Na sequência, e por gerações de ideólogos pró-capitalismo, tornou-se obsessão refutar Marx; essa obsessão, aliás, é um dos vários modos pelos quais aqueles ideólogos sempre fazem papel de bobos. Pois nem esses ideólogos são suficientemente bobos a ponto de declarar que Marx estivesse errado.

Mas é fato que cada item do tudo que é sólido e desmancha no ar desmancha-se em ritmo próprio: tudo que é sólido não se desmancha à mesma taxa. O reino da política, sobretudo nas modernas democracias, é caso a analisar. Não é imóvel e indesmanchável. Mas às vezes, parece.

É sempre o mesmo imperialismo

É especialmente verdade nos EUA; observem as vastíssimas continuidades, obscurecidas só por diferenças estilísticas, entre o governo de George W. Bush e o governo do presidente da “esperança” e da “mudança” que o substituiu na Casa Branca.

Seria muito diferente se o povo, realmente, mandasse. Mas a democracia real está enfraquecida por toda parte. O neoliberalismo é grave inimigo da democracia – efeito, mas também causa, do declínio da democracia.

O presidente Obama declarou recentemente em West Point que acredita no “excepcionalismo dos EUA” com “cada fibra” do ser dele. Sabe-se lá em que Obama estaria pensando, se é que pensava em alguma coisa, ao dizer tal frase. Só uma coisa é certa: no que tenha a ver com o declínio da democracia, a “Terra dos Livres” não é exceção e nada tem de excepcional e/ou de excepcionalismo.

Exceto talvez, em matéria de excepcionalismo, só o desprezo/desdém, extremo, extremista, que o governo dos EUA – o governo Obama – manifesta pelos cidadãos norte-americanos. Esse, sim, é excepcionalíssimo!

O peso maior desse desprezo/desdém recai sobre eleitores que os Democratas têm como votos garantidos, porque supõem que esses eleitores não teriam, mesmo, para onde fugir.

O trabalho organizado aparece no topo da lista dos desprezados/desdenhados pelo governo Obama. Para manter os Republicanos longe dos eleitores, eles dão aos Democratas serviço de servo da gleba. Dão dinheiro e meios só aos próprios servos e desperdiçam completamente os próprios recursos em campanhas eleitorais partidárias. Nada pedem em troca e, claro, nada recebem em troca. A política de Obama para o trabalho foi completamente esquecida, desprezada, desdenhada.

O desdém/desprezo que afro-norte-americanos e pessoas de outras cores de pele sofreram aparece quase sempre sob a variedade benigna celebrada pelo falecido senador Daniel Patrick Moynihan. A principal exceção é a paixão que o governo Obama tem manifestado pela deportação de trabalhadores “sem documentos”, ponto que voltarei a comentar.

EUA- Estado de Indiana - 1930
Só eleitores cujos votos não possam ser considerados completamente garantidos são alvo de desdém-desprezo um pouco menor. E se têm dinheiro e o dinheiro deles está em jogo, nesse caso, tanto melhor – para eles mesmos.

Assim se explica o fim, afinal, do comportamento de “não pergunte, não conte” e o apoio, do jeito que se viu, que o governo Obama deu ao casamento entre pessoas de mesmo sexo.

Nesses dois casos, também foi importante que as pesquisas mostrassem grande apoio àquelas duas medidas. Quando uma maioria razoavelmente grande quer que Obama faça a coisa certa, às vezes acontece de ele fazer.

Obama não é o primeiro presidente Democrata a tratar os eleitores Democratas com desdém-desprezo. O desdém-desprezo também foi norma na era Clinton. Mas é sem precedentes o muito que o governo Obama insulta a inteligência do povo dos EUA.

Bom exemplo é o post mortem das negociações entre Israel e a Autoridade Palestina, que Obama e seu secretário de estado, John Kerry lançaram e supervisionaram. A palavra de fontes oficiais e também de fontes “não identificadas” que sabem das coisas – Martin Indyk é um dos primeiros suspeitos – é que todos estão chocados, chocados, chocados, de ver o quanto os israelenses sabotaram o negócio todo.

Claro que nada é dito nesses termos – não seria diplomático, além de não ser boa “política”. E exigiria coragem moral e política, item que falta, falta, falta muito, na Casa Branca de Obama. Mas a mensagem é clara. Claro que se não estiverem mentindo e estiverem realmente chocados, seriam os únicos chocados no planeta.

Kerry não é estúpido, nem é excepcionalmente mal informado; Obama tampouco. Fossem quais fossem as razões dos dois para reiniciar negociações entre um lado que tem todas as cartas e apoio irrestrito dos EUA, e outro lado que não tem carta alguma e que o ocidente trata como se fosse o lixo do mundo, a possibilidade de as negociações serem bem-sucedidas não estava entre aquelas razões.

Não, principalmente, se o lado que tem todas as cartas não tem qualquer interesse em paz nem, caso se chegue a falar disso, em assinar qualquer tipo de acordo.

Para que as negociações fossem bem-sucedidas, Obama e Kerry teriam de apresentar a Israel alguma vantagem irrecusável. Mas isso nunca, em tempo algum, chegou sequer a ser considerado como possibilidade!

Nesse caso, por que o embuste daquelas “conversações”? A resposta mais provável é que iniciar mais um “processo de paz” pareceu ser bom meio para manter a bordo os liberais “bondosos”. A equipe-Obama queria que aqueles eleitores “bons” e “éticos” acreditassem que o governo-Obama realmente está(ria) do lado do bem!

Mas por que insultar a inteligência dos próprios eleitores, montando uma situação feita para fracassar, e depois tratar logo de se autoabsolver de qualquer responsabilidade, fingindo surpresa, “porque” Benyamin Netanyahu, o “amigo-de-infância de todos os políticos norte-americanos”, deixou Obama-Kerry na mão?!

A eugenia de Israel é igual a dos nazismo da Alemanha
A menos que sejam ainda mais idiotas do que se suspeita ou a menos que sejam absurdamente incompetentes e obcecados por ostentar a própria incompetência, só há uma explicação: é que Obama-Kerry desprezam/desdenham tanto, a tal ponto, os próprios apoiadores neoliberais deles, que nem ligam para o que dizem a eles ou para a espécie de imbecilidade que vomitam sobre eles.

E há também o Deportador-em-Chefe, a clamar que ninguém deseja mais do que ele a reforma da imigração, mas que “não vai dar”, porque os malditos Republicanos não fazem a parte deles. E assim, diz-nos Obama, ele tem de acalmá-los (assim como tem de acalmar anti-imigrantes de seu próprio partido) e não tornar vigentes as novas leis, como seus apoiadores acreditaram que ele fosse fazer, de modo a obter o apoio dos dois partidos para a grande lei de reforma que ele sonha com assinar.

Tal argumento não merece sequer um “mas... como assim?!”, que fosse. Qualquer pessoa suporia que, com as eleições de aproximando, os Democratas estariam fazendo horas extras de trabalho para conquistar os votos dos hispânicos. Mas Obama, claro, despreza/desdenha demais os hispânicos, para considerá-los votos a conquistar.

E há também a perigosa manobra geopolítica que o governo Obama parece decidido a manter, agora que as guerras Bush-Obama e as quase-secretas guerras no Iêmen, Paquistão e leste da África que Obama expandiu e reembalou, já não estão bastando para manter próspera a máquina de guerra perpétua dos EUA.

A nova estratégia é pôr-se a provocar a Rússia e a China, fomentando a instabilidade em torno desses países – exacerbando tensões linguísticas, étnicas e religiosas, onde os EUA ainda possam exacerbá-las. Grande parte desse serviço sujo é executado por Organizações Não Governamentais (ONGs); o pretexto, claro, é sempre promover a “democracia”. Aí está serviço sujo no qual os EUA são muito bons (além de terem longa prática acumulada em todo o mundo).

ONGs que corroem as democracias são sustentadas pelo imperialismo anglo-sionista
(clique na imagem para aumentar)
É claro que Obama está brincando com fogo; e dado que os grandes estrategistas norte-americanos são absolutamente sem-noção, o perigo é multiplicado por mil, várias vezes.

O que eles nos dizem, e que a imprensa-empresa deles só faz repetir, é que é tudo culpa ou de Putin ou da China – quando, é claro, a verdade é o exato contrário disso.

Eles nem dão bola. Que seja! Dirão qualquer coisa, em qualquer caso, desde que seja o que desejam que fosse, considerado só e sempre o objetivo deles, plenamente confiantes de que a imprensa-empresa nada investigará, nada desmentirá, nada desmascarará e tudo confirmará da mensagem DELES. Quanto a isso, verdade seja dita, eles não erram: no que tenha a ver com insultar a inteligência dos cidadãos e dos eleitores, Obama e sua imprensa-empresa obram sempre juntos!

E depois há também a conversa-enrolêixon de Obama sobre como os direitos de privacidade dos norte-americanos estariam protegidos sete dias por semana, 24 horas/dia, no seu governo de vigilância-total que ele – Ele, ELE, professor-ás de Direito Constitucional! – supervisiona. O mais impressionante é que Obama diz essas coisas sem beber ou cheirar NADA.

Mas, cúmulo dos cúmulos do escândalo, pièce de résistance, só a resposta que o governo Obama deu ao que disse Edward Snowden (que tentou divulgar pela imprensa-empresa as informações que tinha sobre a vigilância-total; e que a Agência de Segurança Nacional dos EUA tem registro de todas as suas tentativas).

Dado que Snowden disse o que disse em entrevista a Brian Williams da NBC, as penas dos agentes do governo Obama arrepiaram-se de medo. John Kerry, como se sabe, reagiu como brucutu: disse que Snowden que voltasse para os EUA, como macho, para encarar as consequências.

Claro. Kerry entende que macho-que-é-macho rende-se à injustiça e aos próprios bandidos aos quais criou problemas ao revelar a verdade. É o mesmo John Kerry que entende que muito-macho é ser viver mandado por aí, de um lado e para outro, feito perfeito idiota, objeto das piadinhas de outro doido, o de apelido Bibi.

Na sequência, a Agência de Segurança Nacional dos EUA declarou que efetuara busca exaustiva e só encontrara um e-mail de Snowden, o qual, nessa mensagem, só comentava algumas preocupações vagas... Que aquilo absolutamente não configurava nenhum sinal de alerta ou aviso; que Snowden, se alertava, alertava para nada.

Edward Snowden
Será que Obama mandou-os fazer o que fizeram, ou será que fizeram por sua própria conta e risco? De fato, nem faz diferença, exceto para que se determine quem, aí, despreza/desdenha mais o povo dos EUA. Como podem supor seriamente que alguém no pleno gozo das próprias faculdades mentais acreditaria neles?!

Claro: sempre souberam, todos eles, que sempre poderiam contar com a imprensa-empresa para repetir tantas vezes a história deles, tantas, tantas, que a converteriam em saber convencional. Mas no final, a verdade sobreviverá. A verdade sempre sobrevive. Mas na maioria dos casos, a verdade aparece, sim, só que tarde demais. Essa vez, com Snowden, parece ser exceção.

Apesar do muito que Obama e Kerry e Hillary Clinton e o resto desejem que as pessoas pensem que Snowden seria alma desencaminhada pedindo para ser apanhada numa mentira, não conseguirão. Está acontecendo, isso sim, bem o contrário do que esse pessoal aí deseja.

Por mais que consigam enganar tanta gente quase todo o tempo sobre a Ucrânia, enganar todos sobre Snowden está além do poder, até, da NPR (National Public Radio) e das redes de televisão a cabo (da rede Fox nem se fala, porque ninguém leva a sério aquele pessoal-lá) e dos três ou quatro jornais “de qualidade” que ainda sobrevivem, embora capengas.

Ou Obama não compreende isso ou, então, o seu desprezo/desdém por essa “gente!” [orig. folks (palavra preferida de Obama)] que ele governa é tão profundo, que ele simplesmente não dá bola alguma. Obama, à gangue dele: “insultem a inteligência dessa gente – insultem sem parar, o mais que puderem. Acááááábem com essa gente!”.

Talvez tenha assumido muito profundamente, profundamente demais, a frase de H.L. Mencken – “ninguém jamais foi à falência, por subestimar a inteligência do povo dos EUA”...

Ou então, vai-se ver, o desprezo/desdém que Obama sente por todos que não sejam ricos & canalhas é tão poderoso, tão enraizado nele, que ele simplesmente não consegue controlar-se.

Mas desprezo/desdém é faca de dois gumes.

Num dos versos dos “Provérbios do Inferno” de William Blake, lê-se que o desprezo/desdém é ambiente invisível, imperceptível, para o desprezível/desdenhável, como o mar para o peixe, e o ar para a ave. Obama acha que se aplica(ria) ao povo que ele governa – sobretudo aos bobalhões, idiotas, tolos, bons & éticos bem-intencionados que votaram nele e o elegeram.

Mais cedo ou mais tarde, Obama aprenderá, para seu desconsolo e desilusão, que se aplica também a ele mesmo.

Notas dos tradutores

[1] Orig. “Contempt to the Contempible”. É fragmento de verso de William Blake (1757-1827) em The Marriage of Heaven and Hell (c. 1790), “Provérbios do Inferno”: “Como o ar para o pássaro, ou o mar para o peixe, assim o desprezo para o desprezível” (tradução de José Antônio Arantes. São Paulo: Iluminuras, 1987. Há edição bilíngue recente disponível: William Blake. Poesia e prosa selecionadas. S.P., Nova Alexandria, 1993).

[2] Sobre o conceito, ver LOSURDO, Domenico, A “democracia para o povo dos senhores”, no passado e no presente.
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[*] Andrew Levine é professor sênior do Institute for Policy Studies, e autor de THE AMERICAN IDEOLOGY (Routledge) e POLITICAL KEY WORDS (Blackwell), bem como de muitos outros livros e artigos em filosofia política. Seu livro mais recente é In Bad Faith: What’s Wrong With the Opium of the People. Foi professor de Filosofia) na University of Wisconsin-Madison e professor pesquisador (filosofia) na University of Maryland-College Park. Foi também co-autor de Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press).