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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Não, não dá para voltar para URSS!


19/5/2015, [*] Dmitri Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Vladimir Putin joga com o ocidente
Uma das fantasias inventadas e mantidas vivas por certos políticos norte-americanos, com a ajuda da empresa-mídia ocidental, é que Vladimir Putin (que os mesmos insistem tolamente em apresentar como ditador e tirano) quereria reconstituir a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, e até já teria começado, pela “anexação” da Crimeia.
Em vez de discutir bobagens, vamos determinar e expor alguns fatos.
A URSS foi oficialmente autodesconstitiuída dia 26 de dezembro de 1991, pela declaração n. 142-H do Soviete Supremo. Ali se reconheceu a independência das 15 repúblicas soviéticas, e em lugar da URSS criou-se uma Comunidade de Estados Independentes, que nunca foi grande coisa.
No “ocidente” houve grande júbilo, e todos assumiram que no “oriente” também haveria festa. Francamente, é até engraçado, porque um referendo organizado em toda a União, poucos meses depois, dia 17/3/1991, mostrou impressionante resultado: com comparecimento de mais de 80% dos cidadãos às urnas, das 185.647.355 pessoas que votaram, 113.512.812 votaram a favor de se preservar a URSS. Dá 77,85%, o que ninguém pode dizer que seja maioria magra. Ninguém deu bola alguma para esse desejo, manifesto por tantos milhões de pessoas.
Teria sido um sentimento público temporário, nascido do medo ante futuro incerto? E se devesse persistir, com certeza persistiria como coisa puramente russa, porque as populações desses Estados Independentes, tendo saboreado a liberdade, com certeza jamais considerariam a ideia de se re-unir à Rússia. Aí está, mais uma coisa engraçada: em setembro de 2011, duas décadas inteiras depois do referendo, sociólogos ucranianos descobriram que 30% da população queria a volta da economia planejada de estilo soviético (espantosamente, 17% desses eram jovens que evidentemente não conheceram a vida na URSS); e só 22% preferiam viver em alguma espécie de democracia de estilo europeu.
A vontade de voltar ao planejamento central de estilo soviético é eloquente: mostra a extensão do fracasso em que se tornara a experiência ucraniana, de instituir ali uma economia de mercado à moda ocidental. Mais uma vez, ninguém deu bola alguma para esse desejo, manifesto por tantos milhões de pessoas.
Até aí, as coisas parecem indicar que, se Putin introduzisse um projeto de reconstituir a URSS teria muito apoio popular, não é? Mas o que Putin disse, quando diretamente perguntado (em dezembro de 2010) foi:
Quem não lamenta o colapso da URSS não tem coração; quem quer vê-lo renascido não tem cérebro.
Da última vez que examinei, Putin ainda tinha cérebro; ergo, não há à vista nenhuma URSS 2.0.
Interessante, Putin estendeu-se e disse mais algumas palavras sobre o tema. Disse que a URSS tivera uma vantagem competitiva como mercado unificado e zona de livre comércio. Esse elemento que houve na URSS está hoje incorporado na União Aduaneira, da qual são membros Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão e vários outros países menores, e que parece ser um sucesso.
União Econômica Eurasiana
A Ucrânia – com mais de 40 milhões de habitantes, grande fatia – recusou a unir-se, embora tenha continuado a comerciar principalmente com países membros da União Aduaneira. Essa estratégia revelou-se, para dizê-lo com gentileza, desvantajosa, e a economia ucraniana, que está hoje em rápido colapso, declinou mais de 17% só no primeiro trimestre desse ano. Assim, se a teoria da vantagem competitiva pode ser ou não ser válida, a desvantagem de NÃO se unir à União Aduaneira aí está, clara, para todos verem.
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Na verdade, vários aspectos da velha URSS foram esquecidos, uns para o bem, outros, nem tanto. Por exemplo:
●– A ideologia comunista: o Partido Comunista já não é partido único no poder.
●– A mentalidade de bloco: o Pacto de Varsóvia evaporou-se, deixando para trás a OTAN, feito sua única mão que tenta bater palmas. O novo sistema é multipolar.
●– O planejamento central: substituído por economia de mercado
●– O isolacionismo econômico: substituído por uma economia orientada para a exportação baseada em acordos comerciais com muitas nações pelo mundo.
●– A governança autoritária: substituída por governança autorizada, na qual a autoridade dos governantes deriva da popularidade de que gozem, a qual é baseada no desempenho que tenham na vida pública ou no governo [o que até poderia ser verdade, se não existisse a empresa-mídia-comercial-privada (NTs)], enquanto, antes, o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) era mais ou menos como o Papa – infalível por definição [Dmitri Orlov é anticomunista, o que é uma pena (NTs).]
São mudanças que há quem considere positivas e há quem lamente ou sonhe com voltar ao status quo ante.
Mas há vários outros aspectos da velha URSS que não há dúvida de que foram degradados, alguns muito severamente degradados, mas ainda assim permanecem vivos. Dentre eles, a saúde pública e a educação pública.
A URSS tinha um sistema de medicina socializada, magnífico em alguns aspectos, noutros nem tanto. A mudança para a medicina privatizada só é considerada um sucesso por poucos, e é muito violentamente fracassada para todos os que não podem pagar pelo atendimento médico ou pelos remédios. O sistema educacional ainda é excelente em vários níveis, mas também já se vê degradação considerável, muito lastimada por muitos observadores.
A URSS investiu pesadamente em ciência e cultura, e muito disso se perdeu nos difíceis anos da década dos 1990s – o que muitos lastimam muito. A URSS foi líder mundial em pesquisa científica básica, com pesquisa em campos sem qualquer aplicação comercial, simplesmente porque eram cientificamente interessantes e geravam resultados publicáveis. Os EUA lideravam o mundo em desenho de produto, coisa que os engenheiros soviéticos podiam facilmente copiar, com o que economizam tempo e trabalho. Dado que não estavam interessados em exportar para o mercado consumidor ocidental, pequeno atraso na oferta ao mercado nada significava para os soviéticos.

O FUTURO ADIADO
Porque o Declínio dos Investimentos em Pesquisa Básica Provoca um Déficit de Inovação
Por outro lado, os EUA sempre deram muitos tratos à bola em torno da ideia de como financiar pesquisa científica que não tivesse qualquer aplicação comercial imaginável. Além disso, o anti-intelectualismo que prevalecia na cultura norte-americana levava à proliferação de outros tipos de “cientistas”: cientistas sociais, cientistas políticos, cientistas de alimentos... faltava pouco para oferecerem diploma em “ciência de pequenos consertos domésticos” [orig. “janitorial science”].
A ciência básica é a primeira missão intelectual transnacional da espécie humana nos tempos modernos, e o dano causado à ciência soviética causou dano significativo à busca por conhecimento científico em todo o mundo, e um rebaixamento na estatura da missão da ciência. Hoje, até na Rússia os cientistas são obrigados a caçar bolsas e financiamentos, seguindo vias já demarcadas de pesquisa, que levem a engenhocas e “equipamentos” patenteáveis.
Uma das coisas que não mudou é o modo de vida. Durante os 70 anos de existência da URSS, aconteceu transformação total, de uma população agrária dispersa pelo interior do país, para uma população industrializada concentrada nas grandes cidades. As pessoas passaram, de residentes em cabanas de toras de madeira, a residentes em apartamentos. Depois da dissolução da URSS, o estoque de moradias foi privatizado, e hoje muitas famílias são donas das próprias casas, sem nada dever a ninguém. A capacidade para viver sem renda garante àquelas famílias uma vasta vantagem competitiva, se comparadas às famílias em países de alta renda, sufocados por dívidas, como os EUA.
Ao mesmo tempo em que se construíram prédios de apartamentos em pontos densos e transitáveis, construiu-se também um sistema de transporte público. Esse, também, lá está, praticamente intacto, e em muitas cidades foi expandido e modernizado. Isso, mais uma vez, garante muitos benefícios à população, e da a eles/elas importante vantagem competitiva, em relação aos habitantes de países dependentes do automóvel, onde todos consomem a maior parte do tempo de vida presos em engarrafamentos, e onde os idosos, sem condições para dirigir com segurança, são forçados a escolher entre viver fechados dentro de casa (sua ou alheia) ou pôr em risco a vida (sua ou alheia), sempre que se sentam ao volante.
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Quando se fala em “colapso” de alguma coisa, as pessoas quase sempre assumem que aquilo simplesmente deixou de existir. Mas os efeitos do colapso dependem da natureza da coisa que colapsa. Quando uma barragem hidrelétrica colapsa, deixa de produzir eletricidade, mais destrói tudo que haja ladeira abaixo, mas pode interromper o fornecimento e o acesso à água. Quando uma escola colapsa, pode matar alunos e também professores, mas nem por isso o colapso destrói o conhecimento que se disseminava a partir daquela escola. E quando um mausoléu colapsa, só muda o nome: passa a chamar-se “ruína”.
Colapso do World Trade Center
Alguns colapsos são comuns, outros não. Economias, principalmente economias de bolha, estão sempre colapsando, sem mais nem menos. Impérios colapsam com alta regularidade. Há quem diga que civilizações também colapsam, mas... será que colapsam mesmo?
Uma civilização pode ser vista como aparelho em funcionamento, mas nesse caso confundem-se
(I) vários princípios e
(II) a entidade que lhes dá corpo.
Os princípios civilizacionais são muito duradouros: o Império Romano já se fora há mil anos, quando a Europa tornou-se outra vez capaz de organização em larga escala, mas, não há dúvidas, os europeus logo tiraram a poeira que se acumulara sobre os velhos códigos legais romanos e recomeçaram a aplicá-los.
Entrementes, nas escolas e universidades, o latim permaneceu como idioma dos discursos eruditos, na ausência de latinos sobreviventes para dar aulas em Linden Second Life (LSL). O que parece é que civilizações não colapsam; apenas se tornam quiescentes. Novos desenvolvimentos as trazem de volta à vida, ou pode acontecer de elas serem eventualmente suplantadas – por outra civilização.
A URSS deixou de existir como entidade política, mas parece que se mantém como entidade civilizacional, embora ainda sem nome. O nome, de duas palavras Soyuz [“União”] Soviet [“Soviética”] quebrou ao meio. O adjetivo “Soviético” [relativo aos sovietes] só se aplica ao passado. Como substantivo [soviete], a palavra significa “órgão consultivo”, “Conselho”, e se originou nos conselhos revolucionários de operários, e ainda é usado no sentido de “dar conselho” e com a cautela necessária (“Se conselho fosse bom, seria vendido, não dado, mas EU acho que...”). E o substantivo Soyuz sobrevive, por exemplo, na nova União Aduaneira, que é uma Soyuz Aduaneira, além de ser o nome do veículo que conduz passageiros para visitarem a cápsula espacial Soyuz . E as crianças russas ainda crescem assistindo a filmes do estúdio Soyuzmultfilm, estúdio da era soviética que produziu excelentes filmes infantis de animação, que são até hoje muito populares e hoje estão disponíveis em Youtube.
Consideremos a Soyuz – como dado de civilização, mais do que como a URSS que foi um império político. Fez-se esforço gigantesco para superá-la com a civilização ocidental, mediante a introdução de economia de mercado e uma inundação de importações do ocidente, tanto materiais como culturais.
Satélite geoestacionário Soyuz
Os princípios civilizacionais ocidentais dominaram por algum tempo, dentre os quais novidades ocidentais, como garantir status de igualdade a práticas homossexuais, sem considerar o papel da etnicidade na organização política; e a rendição total da soberania econômica e política da Rússia ao centro imperial, em Washington, DC. São coisas que, por algum tempo foram mastigadas. Até que afinal foram cuspidas longe em praticamente todo o território da URSS, que então já se havia autodissolvido, exceto em alguns poucos bolsões, dentre os quais se destaca a Ucrânia.
Mas em todo o território restante, tão logo o fiasco dos valores ocidentais tornou-se claro para todos, os valores civilizacionais da civilização que ali prevalecera antes voltaram com estardalhaço à vida.
Talvez o primeiro, à frente de todos os demais, o conservadorismo social. Há duas grandes religiões na Federação Russa: a Cristã Ortodoxa e o Islã, e muito esforço se empenha para mantê-las em mútua compatibilidade, para que a religião não se converta em fator de divisão. Querer introduzir nesse mundo construtos cerebrinos alheios àquelas duas religiões, como o casamento gay, é empreitada com baixas chances de sucesso. Mas os russos se interessariam pela poligamia. Recentemente um velho funcionário checheno tomou uma jovem como sua segunda esposa. Houve algum tumulto, mas nada impediu que o casamento se realizasse, na Chechênia muçulmana.
Em segundo lugar vem o princípio que reza que as etnias são relevantes para a organização social e política. A Rússia não é um país: é uma federação multinacional. Há mais de 190 diferentes nações que a constituem, sendo que os russos étnicos são pouco mais de ¾ da população. Essa percentagem tende a decrescer com o tempo: a Rússia só perde para os EUA no número de imigrantes que absorve, vindos dos seguintes países, pela ordem numérica de imigrantes: Ucrânia, Uzbequistão, Tadjiquistão, Azerbaijão, Moldávia, Cazaquistão, Quirguistão, Armênia, Bielorrússia, China, Alemanha e EUA.
Durante a existência da URSS, a composição multiétnica do país for tratada com muita atenção. Numerosas pequenas nações tiveram seus idiomas registrados pela primeira vez, escritos com o alfabeto cirílico sempre em expansão, e, com isso, ganharam sua literatura nacional. Os idiomas nacionais foram incluídos nos currículos escolares e várias nações os mantiveram nos governos locais, para ampliar sua autonomia e facilitar a coesão social.
Na essência a Federação Russa assegurou a todas as etnias soberania étnica – cada nação federada pode exigir para si quantidade considerável de soberania; pode se autogovernar; e pode criar suas próprias leis, desde que não conflitem com leis da federação. Exemplo disso é a moderna Chechênia: Moscou deixa-a livre para pôr em prática sua própria campanha local de antiterrorismo, para dar cabo ali mesmo dos jihadistas financiados com dinheiro que vem de fora da Rússia.
Imaginem esse princípio de soberania étnica aplicado aos EUA, onde a etnia de cada um não faz diferença alguma, desde que o sujeito tenha pele, cabelo, linguajar e modos à mesa que o façam parecer suficientemente branco-europeu. Nos EUA a etnicidade foi reduzida a questões musicais e gastronômicas, com um festival aqui, outro acolá, mas sempre sob o entendimento tácito de que “étnico” significa “outro diferente de mim”: não há nos EUA a expressão “anglo étnico”.

Incidência de racismo nos EUA
(clique na legenda para aumentar)
Dado que a etnicidade é essencialmente tabu, em vez dele é usado o construto completamente artificial de “raça”, com rótulos discriminatórios atachados a todos os indivíduos de algumas categorias. O rótulo “latino” é especialmente estranho, porque há bem pouca coisa comum entre, digamos, um cubano e um boliviano, exceto que ambos são igualmente discriminados, porque são igualmente vistos como insuficientemente “brancos”, quer dizer, “anglos”. Mas e se mexicanos e afro-americanos tivessem dentro dos EUA esse mesmo status “misto” de autonomia?! O país explodiria em milhões de cacos!
País condenado a proteger o “privilégio branco” dificilmente sobreviveria à corrupção desses seus princípios fundadores. Os EUA fizeram uma revolução, para manter legal a escravidão (que os ingleses estavam prontos para abolir); depois, fizeram uma guerra civil para transferir a escravidão, de uma metade do país, para a outra (há mais afro-americanos nas prisões dos EUA hoje, do que escravos no Sul Confederado antes da Guerra Civil).
Não se sabe que guerras o futuro nos guarda, ou o que as provocará, mas essa específica linha fraturada intercivilizacional sempre será muito importante. Para que serve uma nação? É a sua tribo? Ou é um bando de mercenários fingindo que são anglos, para que os deixem entrar no Country Club? Só o tempo dirá qual dessas duas civilizações em confronto se comprovará a mais resistente.
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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela”. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net.

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quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Calcanhar de Aquiles dos EUA

12/5/2015, [*] Dmitri OrlovClub Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

  
Baltimore

Sábado passado, houve em Moscou um vastíssimo Desfile da Vitória, comemorativo dos 70 anos da rendição dos nazistas alemães ao Exército Vermelho, e da implantação da bandeira soviética no alto do prédio do Reichstag em Berlim. Houve alguns aspectos raros nesse desfile, que gostaria de destacar, porque conflitam com a narrativa da propaganda ocidental oficial.

Primeiro, não desfilaram só soldados russos, naquele dia: soldados de dez outras nações também tomaram parte, inclusive a Guarda de Honra chinesa (vídeo no fim do parágrafo) e um contingente de Granadeiros da Índia. Dignitários dessas nações lá estavam presentes, e o Presidente chinês Xi Jinping e a esposa estavam sentados ao lado do Presidente Vladimir Putin, o qual, no discurso de abertura do desfile, alertou contra as tentativas para criar um mundo unipolar – palavras fortes, destinadas declaradamente aos EUA e aos aliados ocidentais dos EUA.


Segundo, exame rápido do equipamento militar que atravessou pelo chão a Praça Vermelha, ou que a sobrevoou, indica que, exceto a mútua autoaniquilação nuclear, não há muito que os EUA possam lançar contra a Rússia, que a Rússia não consiga neutralizar.

Tudo sugere que as tentativas dos EUA para isolar a Rússia resultaram no exato oposto: se 10 nações, entre as quais a maior economia do mundo, somando 3 bilhões de pessoas, querem deixar de lado as diferenças e se pôr ombro a ombro com os russos para enfrentar as tentativas dos EUA de implantar alguma dominação global, nesse caso é bem claro que o plano dos EUA não tem possibilidade de funcionar.

A mídia-empresa ocidental só fez repetir que “líderes ocidentais” não compareceram à celebração, em surto de vaidade ferida ou porque obedecem ordens do governo Obama. Mas seja pelo motivo que for, a ausência só chama a atenção para a irrelevância daqueles “líderes”, seja para derrotar Hitler, seja para comemorar a derrota sobre Hitler 70 anos depois.

Putin, em seu discurso, contudo, agradeceu especificamente aos franceses, britânicos e norte-americanos pela ajuda para o esforço de guerra. Lamento que não tenha agradecido também aos belgas, que tanto ajudaram em Dunquerque.

Um pequeno detalhe do desfile chamou especialmente a atenção: o Ministro da Defesa Sergei Shoigu, budista, nascido na República de Tuva, e um dos mais respeitados líderes russos, que comandou o Ministério de Emergências, antes de assumir o Ministério da Defesa, fez algo que nenhum de seus antecessores jamais fez: no instante de iniciar a cerimônia, antes de pôr o quepe, o Ministro fez o sinal da Cruzà maneira dos russos ortodoxos. Esse simples gesto converteu o desfile, de simples exibição de pompa militar, num ritual sagrado.

Na sequência, veio a marcha, em passos lentos, com duas bandeiras lado a lado [não começaram lado a lado: a bandeira soviética veio à frente [1]] da bandeira russa, a bandeira que foi desfraldada no topo do Reichstag em Berlim no Dia da Vitória, há 70 anos [a bandeira que foi posta no topo do Reichstag em Berlim é outra, diferente da que desfilou sábado [2]]. A marcha foi acompanhada por uma canção popular durante a IIª Guerra Mundial. O título? “A Guerra Sagrada” – vídeo no fim do parágrafo] . A mensagem é clara: o povo russo e os militares russos outra vez se põem nas mãos de Deus, a serviço de Deus, para sacrificar-se mais uma vez para salvar o mundo das violências de (mais) um império do mal.


Para os que tentem desmentir qualquer dessas ideias, porque seriam propaganda do estado russo, há mais uma coisa que todos têm de saber. Ouviram falar da procissão que se organizou espontaneamente, na qual, depois do desfile oficial, meio milhão de pessoas marcharam por Moscou com retratos de parentes mortos na IIª Guerra Mundial? O evento recebeu o nome de O Regimento Imortal (Бессмертный полк). [3] Vídeo a seguir: 


Procissões semelhantes aconteceram em muitas cidades em toda a Rússia, com número estimado de participantes em torno de 4 milhões. A imprensa ocidental ou não noticiou ou apresentou o Regimento Imortal como tentativa de Putin, para provocar sentimentos antiocidentais. Ora! Pura propaganda, isso sim, meus companheiros de viagem espacial, é esse tipo de “cobertura jornalística”!

Não, não foi propaganda. Foi manifestação entusiasmada, espontânea, de sentimento público genuíno. Quem se dedicar a refletir sobre isso, um instante que seja, logo perceberá que não se pode “montar” artificialmente cenas desse tipo. E a ideia de que milhões de pessoas prostituiriam a própria morte para finalidades de propaganda é, sinceramente, cínica e insultante.

Em vez de entrar em colapso silencioso, os EUA resolveram comprar briga com a Rússia. Parece que já perderam a briga, mas permanece uma questão: quantos países a mais os EUA ainda conseguirão destruir, antes de os EUA aprenderem a suportar a ideia de que sua derrota e desintegração são inevitáveis?

Como Putin disse no verão passado, no fórum da juventude Seliger,

Tenho a impressão de que basta os EUA tocarem, que qualquer coisa vira Líbia e Iraque.

Vladimir Putin no Fórum da Juventude em Seliger
(29/8/2014)
É verdade. Os EUA têm vivido em frenesi de destruição, um país depois do outro. O Iraque foi esquartejado, a Líbia é terra de ninguém, a Síria está convertida em área de desastre humanitário, o Egito, em ditadura militar que executa programa de prisões em massa.

O mais recente fiasco dos EUA é o Iêmen, onde o governo pró-EUA foi recentemente derrubado, e os cidadãos norte-americanos que não conseguiram escapar a tempo tiveram de esperar que russos e chineses os resgatassem e os despachassem para os EUA.

Mas foi o fiasco norte-americano anterior ao Iêmen, o fiasco na Ucrânia, que mobilizou os russos, bem como os chineses, que afinal decidiram que os EUA foram longe demais, e que novos passos na mesma direção resultarão em escalada automática.

O plano dos russos, com chineses, indianos e grande parte do resto do mundo, é preparar-se para guerra com os EUA, ao mesmo tempo em que fazem o possível para evitar qualquer guerra. O tempo está do lado dos pacifistas, porque a cada dia que passa eles se fortalecem, enquanto os EUA só enfraquecem. Mas enquanto esse processo prossegue, os EUA podem “tocar” mais alguns países, convertendo tudo em Líbia ou Iraque.

A Grécia será a próxima da lista? Ou, quem sabe, jogam sob o trem os estados bálticos (Estônia, Letônia, Lituânia), que são hoje membros da OTAN (quer dizer, cordeiros a serem sacrificados)? A Estônia está apenas a algumas horas de carro da segunda maior cidade russa, São Petersburgo; tem grande população russa; tem capital habitada por maioria russa; e tem governo furiosamente antirrusso. Dos quatro itens, só um não faz sentido algum. Será o próximo, em fase de preparação para a autodestruição?

Algumas repúblicas da Ásia Central, no sensível “baixo ventre” da Rússia, também podem já estar maduras para serem também “tocadas” pela vara de condão de desgraças dos EUA.

Não há dúvida possível de que os norte-americanos continuarão a espalhar desgraças pelo mundo, sempre “tocando” países vulneráveis, exploráveis, pelo maior tempo que consigam. Mas há outra pergunta que se tem de perguntar: os norte-americanos nunca usam a própria vara de condão de desgraças para se autodesgraçarem? Porque, se se pensa bem, o próximo candidato a desgraça extrema com conversão em terra arrasada a bombas, pode ser o próprio país, os EUA eles mesmos. Consideremos essa opção.

Como os eventos em Ferguson, e mais recentemente também em Baltimore, já indicaram, as tensões entre afro-norte-americanos e a Polícia só fazem escalar, a tal ponto que explosões começam a acontecer por todos os lados, cada vez mais prováveis.

Protestos em Baltimore (maio/2015)
A “guerra às drogas”, nos EUA, foi guerra essencialmente contra homens negros latinos; cerca de 1/3 da população de negros jovens está encarcerada. Os mesmos homens jovens negros norte-americanos estão também expostos a alto risco de serem baleados pela Polícia. A bem da verdade deve-se dizer que a Polícia também está exposta a alto risco de ser baleada por homens jovens negros, o que leva os policiais a viverem com medo e a reagir sem qualquer ponderação ou equilíbrio.

Com a economia andando a passos firmes rumo ao colapso – perto de 100 milhões de norte-americanos em idade laboral estão desempregados (“fora da força de trabalho”, como dizem os técnicos, como se os pobres lá estivessem por vontade própria) – já pode estar bem claro, para parcela sempre crescente da população, que continuar a cooperar com as autoridades deixou de ser estratégia útil: de um modo ou de outro, você sempre acaba ou preso ou morto; mas você nunca alcança qualquer dos benefícios temporários que advêm de ignorar a lei.

Há uma interessante assimetria na habilidade da mídia-empresa nos EUA para bloquear informações sobre agitação e insurgência civis: se a coisa acontece do outro lado do mundo, então as notícias são, ou cuidadosamente calibradas, ou totalmente suprimidas. (Alguma rede norte-americana de notícias informou sobre o recente reinício dos bombardeiros contra áreas civis, pelos militares ucranianos? Claro que não). Isso é possível, porque os norte-americanos são notoriamente narcísicos e muitíssimo indiferentes ao resto do planeta, do qual os norte-americanos pouco sabem (e o que pensam que sabem frequentemente está errado).

Mas se a agitação acontece dentro dos EUA, então os mais variados veículos da mídia-empresa disputam entre eles a coroa do “noticiário” mais sensacionalizado, para obter maior “visibilidade” e atrair mais dinheiro de anunciantes. 

A mídia-empresa dominante nos EUA é controlada com mão de ferro por um pequeno grupo de grandes empresas e conglomerados, o que faz da informação nos EUA um só enorme monopólio, mas no que tenha a ver com vender tempo a anunciantes, ainda predominam os princípios do mercado de publicidade.

Assim sendo, há potencial para um ciclo positivo de retroalimentação: mais agitação civil corresponde a “noticiário” mais sensacionalizado, o qual, por sua vez amplifica a agitação civil, o que permite noticiário ainda mais sensacionalizado. E há um segundo ciclo positivo de retroalimentação: quanto mais agitação civil há (ou é noticiada, mesmo que nem haja), mais a política responde com mais violência mais desequilibrada, o que gera mais indignação e fúria nas ruas, o que amplifica a agitação social.

Esses dois ciclos de retroalimentação podem continuar a desenvolver-se sem qualquer controle por algum tempo, mas o final, como se viu em todos os incidentes recentes desse tipo, é sempre igual: aparecem os soldados da Guarda Nacional, toque de recolher, lei marcial.

A rápida intromissão dos militares pode parecer meio estranha, considerando que a maioria dos departamentos de Polícia, até nas menores cidades, já foram nos anos recente pesadamente militarizados, e até o pessoal da segurança em algumas áreas de escolas já andam em veículos militares e armados com metralhadoras. Mas a progressão é natural.

Por um lado, quando as pessoas que habitualmente recorrem à força bruta descobrem que a força bruta não está funcionando, elas naturalmente assumem que não esteja funcionando porque estão usando pouca força bruta, força bruta de menos. Por outro lado, se o sistema de justiça criminal já não passa de travesti e se converteu em matadouro, por que não encurtar a tramitação burocrática e impor logo a lei marcial?

Protestos em Baltimore (maio/2015)
Já há quantidade escandalosamente gigantesca de armas de todos os tipo nos EUA, e mais armas virão, sobretudo agora, quando os EUA estão sendo forçados a fechar bases militares no exterior por falta de dinheiro para mantê-las. E todas essas armas serão usadas, pela mesma razão e do mesmo modo como se passou a usar tantos tijolos vermelhos em Boston. Vocês sabem: começaram a chegar a Boston muitos, muitos tijolos vermelhos, descarregados aqui por navios britânicos, que os traziam como lastro.

Daí surgiu o ímpeto de fazer alguma coisa com tantos tijolos vermelhos. Mas construir prédios de tijolos é processo difícil, trabalhoso, sobretudo se os construtores vivem bêbados. Então a solução encontrada foi usar os tijolos vermelhos para pavimentar calçadas – coisa que qualquer um faz, mesmo caído de quatro pelo chão. O mesmo vai acontecer com o equipamento militar que está sendo repatriado para os EUA. Será usado, porque aí estará, à mão; e será usado do modo mais estúpido possível: um mesmo povo, uns atirando contra os outros.

Mas coisas ruins sempre acontecem a militares que recebam ordens para matar o seu próprio povo. Uma coisa é andar matando aqueles “cabeças de toalha” [orig. “towel-heads”] em terra distante; outra coisa, bem diferente, é receber ordens para atirar em alguém que pode ser seu próprio irmão que vem pela rua na qual você nasceu e foi criado. Esse tipo de ordens resulta em fragging (soldados que assassinam os próprios superiores), em desobediência e em movimentos de deserção ou de defesa do lado oposto.

E é aí que as coisas ficam interessantes. Porque, você sabe, se você atira contra, prende, detém ou por qualquer modo abusa de uma população civil desarmada por tempo suficiente, a resposta que fatalmente surge é uma insurgência armada. Não há como as prisões, para organizar insurgências.

Por exemplo: o ISIS, ou o Califato Islâmico, foi ideado por gente que, antes, trabalhara para Saddam Hussein, durante o tempo em que os norte-americanos os mantiveram presos. Colheram aquela oportunidade para planejar e construir uma estrutura organizacional eficiente; na sequência, quando foram soltos, voltaram a encontrar-se e puseram-se a trabalhar. Manter presos 1/3 dos norte-americanos negros jovens é a melhor maneira de favorecer que eles se organizem e organizem uma insurgência efetiva.

Para ser efetiva, uma insurgência carece de muitas, muitas armas. Aqui, mais uma vez, há um procedimento para adquirir tecnologia militar que já se tornou quase rotina.

Terroristas do ISIS usam armas e veículos cedidos pelos EUA
Que armas estão sendo usadas pelo ISIS? Ora, armas norte-americanas, é claro, que os EUA forneceram ao regime, em Bagdá, e que o ISIS capturou como troféus quando o exército iraquiano recusou-se a lutar e se escafedeu. E que armas estão sendo usadas pelos rebeldes houthis no Iêmen? Ora, armas norte-americanas, é claro, que os EUA forneceram ao governo que lá havia e que já foi derrubado, e que era pró-EUA. E que armas estão sendo usadas contra o regime de Bashar al-Assad na Síria? Ora, armas norte-americanas, é claro, vendidas aos terroristas pelo governo ucraniano, que as obteve dos EUA.

Há um padrão aqui: seja onde for que os EUA armem, treinem e equipem um exército, esse exército tem fortes chances de simplesmente derreter, com as suas armas caindo imediatamente nas mãos dos que precisam delas para usá-las contra os interesses norte-americanos.

E por que, afinal, esse mesmo padrão não se aplicaria também nas muitas áreas nas quais os EUA já puseram o próprio país sob ocupação militar?

Mais uma vez, é onde as coisas ficam realmente interessantes: uma insurgência bem armada, bem organizada, constituída por e composta de pessoas realmente radicais, gente furiosamente indignada, pessoas que absolutamente nada têm a perder e estão lutando pelo próprio palmo de terra e pelas próprias famílias, e que encontrarão pela frente militares norte-americanos derrotados, desmoralizados, que sempre falharam espetacularmente em absolutamente todos os países que eles “tocaram”.

Há quem diga que “a burocracia do establishment é invencível”. Mas e se você tiver uma divisão de tanques para controlar as quatro esquinas em torno do palácio do governo, canhões apontados em todas as direções, atirando contra tudo que se mova? E se você tiver infantaria suficiente para tocar a campainha de todas as casas de todos os burocratas-chefes da cidade? Não se alterariam as probabilidades de vitória contra pelo menos uma burocracia de um establishment?

Os EUA talvez tenham de “tocar” mais alguns países, antes de se verem diante desse cenário, mas é provável que (exceto no caso de guerra total) mais dia menos dia o “feitiço” que os EUA espalham pelo mundo como destruição completa e garantida volte-se contra o “feiticeiro” (vídeo no fim do parágrafo). Quando acontecer, todos aqueles países cujos soldados desfilaram pela Praça Vermelha no sábado passado já não precisarão se preocupar com os EUA.


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Notas dos tradutores

[1] A bandeira soviética (da 79ª Divisão de Infantaria do Exército Vermelho, que lutou em Stalingrado) pode ser vista, desfraldada aos 7’54 do vídeo a seguir; e novamente, melhor, logo depois, sempre à frente da bandeira da Federação Russa.



Ver também, sobre isso, o postado em: 11/5/2015, redecastorphoto, Hoje aconteceu algo verdadeiramente extraordinário


[2] A bandeira abaixo, desfraldada no topo do Reichstag, é outra bandeira, também soviética; mas não é a bandeira que desfilou.



[3] ATENÇÃO: Esse tipo de precisão é indispensável, não porque altere o espírito do argumento de Orlov (e não altera), mas porque estamos trabalhando aqui com vários sinais significativos, que não podem ser alterados, sem que se altere a mensagem dos russos. E nada mais importante, hoje, que a mensagem dos russos (que são BRICS, como o Brasil, a Índia, a China e a África do Sul), se se sabe que, do outro lado, há as Nulands, as Clintons, os Bushes & canalha “midiática” adjunta.

Digam o que disserem cronistas anticomunistas (o Saker, de The Vineyard of the Saker, por exemplo, que acompanhamos, sim, mas que, sim, é militantemente anticomunista), os russos não descartam o próprio passado comunista, com a facilidade com que os cronistas anticomunistas fazem crer que teriam descartado. O passado comunista dos russos apareceu bem marcado, também, por exemplo, na bela cerimônia de abertura dos jogos de Socchi. Só o “jornalismo” ocidental não viu e ensinou a não ver.

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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak OilEm 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net