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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Não, não dá para voltar para URSS!


19/5/2015, [*] Dmitri Orlov, Club Orlov
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
Vladimir Putin joga com o ocidente
Uma das fantasias inventadas e mantidas vivas por certos políticos norte-americanos, com a ajuda da empresa-mídia ocidental, é que Vladimir Putin (que os mesmos insistem tolamente em apresentar como ditador e tirano) quereria reconstituir a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, URSS, e até já teria começado, pela “anexação” da Crimeia.
Em vez de discutir bobagens, vamos determinar e expor alguns fatos.
A URSS foi oficialmente autodesconstitiuída dia 26 de dezembro de 1991, pela declaração n. 142-H do Soviete Supremo. Ali se reconheceu a independência das 15 repúblicas soviéticas, e em lugar da URSS criou-se uma Comunidade de Estados Independentes, que nunca foi grande coisa.
No “ocidente” houve grande júbilo, e todos assumiram que no “oriente” também haveria festa. Francamente, é até engraçado, porque um referendo organizado em toda a União, poucos meses depois, dia 17/3/1991, mostrou impressionante resultado: com comparecimento de mais de 80% dos cidadãos às urnas, das 185.647.355 pessoas que votaram, 113.512.812 votaram a favor de se preservar a URSS. Dá 77,85%, o que ninguém pode dizer que seja maioria magra. Ninguém deu bola alguma para esse desejo, manifesto por tantos milhões de pessoas.
Teria sido um sentimento público temporário, nascido do medo ante futuro incerto? E se devesse persistir, com certeza persistiria como coisa puramente russa, porque as populações desses Estados Independentes, tendo saboreado a liberdade, com certeza jamais considerariam a ideia de se re-unir à Rússia. Aí está, mais uma coisa engraçada: em setembro de 2011, duas décadas inteiras depois do referendo, sociólogos ucranianos descobriram que 30% da população queria a volta da economia planejada de estilo soviético (espantosamente, 17% desses eram jovens que evidentemente não conheceram a vida na URSS); e só 22% preferiam viver em alguma espécie de democracia de estilo europeu.
A vontade de voltar ao planejamento central de estilo soviético é eloquente: mostra a extensão do fracasso em que se tornara a experiência ucraniana, de instituir ali uma economia de mercado à moda ocidental. Mais uma vez, ninguém deu bola alguma para esse desejo, manifesto por tantos milhões de pessoas.
Até aí, as coisas parecem indicar que, se Putin introduzisse um projeto de reconstituir a URSS teria muito apoio popular, não é? Mas o que Putin disse, quando diretamente perguntado (em dezembro de 2010) foi:
Quem não lamenta o colapso da URSS não tem coração; quem quer vê-lo renascido não tem cérebro.
Da última vez que examinei, Putin ainda tinha cérebro; ergo, não há à vista nenhuma URSS 2.0.
Interessante, Putin estendeu-se e disse mais algumas palavras sobre o tema. Disse que a URSS tivera uma vantagem competitiva como mercado unificado e zona de livre comércio. Esse elemento que houve na URSS está hoje incorporado na União Aduaneira, da qual são membros Rússia, Bielorrússia, Cazaquistão e vários outros países menores, e que parece ser um sucesso.
União Econômica Eurasiana
A Ucrânia – com mais de 40 milhões de habitantes, grande fatia – recusou a unir-se, embora tenha continuado a comerciar principalmente com países membros da União Aduaneira. Essa estratégia revelou-se, para dizê-lo com gentileza, desvantajosa, e a economia ucraniana, que está hoje em rápido colapso, declinou mais de 17% só no primeiro trimestre desse ano. Assim, se a teoria da vantagem competitiva pode ser ou não ser válida, a desvantagem de NÃO se unir à União Aduaneira aí está, clara, para todos verem.
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Na verdade, vários aspectos da velha URSS foram esquecidos, uns para o bem, outros, nem tanto. Por exemplo:
●– A ideologia comunista: o Partido Comunista já não é partido único no poder.
●– A mentalidade de bloco: o Pacto de Varsóvia evaporou-se, deixando para trás a OTAN, feito sua única mão que tenta bater palmas. O novo sistema é multipolar.
●– O planejamento central: substituído por economia de mercado
●– O isolacionismo econômico: substituído por uma economia orientada para a exportação baseada em acordos comerciais com muitas nações pelo mundo.
●– A governança autoritária: substituída por governança autorizada, na qual a autoridade dos governantes deriva da popularidade de que gozem, a qual é baseada no desempenho que tenham na vida pública ou no governo [o que até poderia ser verdade, se não existisse a empresa-mídia-comercial-privada (NTs)], enquanto, antes, o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) era mais ou menos como o Papa – infalível por definição [Dmitri Orlov é anticomunista, o que é uma pena (NTs).]
São mudanças que há quem considere positivas e há quem lamente ou sonhe com voltar ao status quo ante.
Mas há vários outros aspectos da velha URSS que não há dúvida de que foram degradados, alguns muito severamente degradados, mas ainda assim permanecem vivos. Dentre eles, a saúde pública e a educação pública.
A URSS tinha um sistema de medicina socializada, magnífico em alguns aspectos, noutros nem tanto. A mudança para a medicina privatizada só é considerada um sucesso por poucos, e é muito violentamente fracassada para todos os que não podem pagar pelo atendimento médico ou pelos remédios. O sistema educacional ainda é excelente em vários níveis, mas também já se vê degradação considerável, muito lastimada por muitos observadores.
A URSS investiu pesadamente em ciência e cultura, e muito disso se perdeu nos difíceis anos da década dos 1990s – o que muitos lastimam muito. A URSS foi líder mundial em pesquisa científica básica, com pesquisa em campos sem qualquer aplicação comercial, simplesmente porque eram cientificamente interessantes e geravam resultados publicáveis. Os EUA lideravam o mundo em desenho de produto, coisa que os engenheiros soviéticos podiam facilmente copiar, com o que economizam tempo e trabalho. Dado que não estavam interessados em exportar para o mercado consumidor ocidental, pequeno atraso na oferta ao mercado nada significava para os soviéticos.

O FUTURO ADIADO
Porque o Declínio dos Investimentos em Pesquisa Básica Provoca um Déficit de Inovação
Por outro lado, os EUA sempre deram muitos tratos à bola em torno da ideia de como financiar pesquisa científica que não tivesse qualquer aplicação comercial imaginável. Além disso, o anti-intelectualismo que prevalecia na cultura norte-americana levava à proliferação de outros tipos de “cientistas”: cientistas sociais, cientistas políticos, cientistas de alimentos... faltava pouco para oferecerem diploma em “ciência de pequenos consertos domésticos” [orig. “janitorial science”].
A ciência básica é a primeira missão intelectual transnacional da espécie humana nos tempos modernos, e o dano causado à ciência soviética causou dano significativo à busca por conhecimento científico em todo o mundo, e um rebaixamento na estatura da missão da ciência. Hoje, até na Rússia os cientistas são obrigados a caçar bolsas e financiamentos, seguindo vias já demarcadas de pesquisa, que levem a engenhocas e “equipamentos” patenteáveis.
Uma das coisas que não mudou é o modo de vida. Durante os 70 anos de existência da URSS, aconteceu transformação total, de uma população agrária dispersa pelo interior do país, para uma população industrializada concentrada nas grandes cidades. As pessoas passaram, de residentes em cabanas de toras de madeira, a residentes em apartamentos. Depois da dissolução da URSS, o estoque de moradias foi privatizado, e hoje muitas famílias são donas das próprias casas, sem nada dever a ninguém. A capacidade para viver sem renda garante àquelas famílias uma vasta vantagem competitiva, se comparadas às famílias em países de alta renda, sufocados por dívidas, como os EUA.
Ao mesmo tempo em que se construíram prédios de apartamentos em pontos densos e transitáveis, construiu-se também um sistema de transporte público. Esse, também, lá está, praticamente intacto, e em muitas cidades foi expandido e modernizado. Isso, mais uma vez, garante muitos benefícios à população, e da a eles/elas importante vantagem competitiva, em relação aos habitantes de países dependentes do automóvel, onde todos consomem a maior parte do tempo de vida presos em engarrafamentos, e onde os idosos, sem condições para dirigir com segurança, são forçados a escolher entre viver fechados dentro de casa (sua ou alheia) ou pôr em risco a vida (sua ou alheia), sempre que se sentam ao volante.
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Quando se fala em “colapso” de alguma coisa, as pessoas quase sempre assumem que aquilo simplesmente deixou de existir. Mas os efeitos do colapso dependem da natureza da coisa que colapsa. Quando uma barragem hidrelétrica colapsa, deixa de produzir eletricidade, mais destrói tudo que haja ladeira abaixo, mas pode interromper o fornecimento e o acesso à água. Quando uma escola colapsa, pode matar alunos e também professores, mas nem por isso o colapso destrói o conhecimento que se disseminava a partir daquela escola. E quando um mausoléu colapsa, só muda o nome: passa a chamar-se “ruína”.
Colapso do World Trade Center
Alguns colapsos são comuns, outros não. Economias, principalmente economias de bolha, estão sempre colapsando, sem mais nem menos. Impérios colapsam com alta regularidade. Há quem diga que civilizações também colapsam, mas... será que colapsam mesmo?
Uma civilização pode ser vista como aparelho em funcionamento, mas nesse caso confundem-se
(I) vários princípios e
(II) a entidade que lhes dá corpo.
Os princípios civilizacionais são muito duradouros: o Império Romano já se fora há mil anos, quando a Europa tornou-se outra vez capaz de organização em larga escala, mas, não há dúvidas, os europeus logo tiraram a poeira que se acumulara sobre os velhos códigos legais romanos e recomeçaram a aplicá-los.
Entrementes, nas escolas e universidades, o latim permaneceu como idioma dos discursos eruditos, na ausência de latinos sobreviventes para dar aulas em Linden Second Life (LSL). O que parece é que civilizações não colapsam; apenas se tornam quiescentes. Novos desenvolvimentos as trazem de volta à vida, ou pode acontecer de elas serem eventualmente suplantadas – por outra civilização.
A URSS deixou de existir como entidade política, mas parece que se mantém como entidade civilizacional, embora ainda sem nome. O nome, de duas palavras Soyuz [“União”] Soviet [“Soviética”] quebrou ao meio. O adjetivo “Soviético” [relativo aos sovietes] só se aplica ao passado. Como substantivo [soviete], a palavra significa “órgão consultivo”, “Conselho”, e se originou nos conselhos revolucionários de operários, e ainda é usado no sentido de “dar conselho” e com a cautela necessária (“Se conselho fosse bom, seria vendido, não dado, mas EU acho que...”). E o substantivo Soyuz sobrevive, por exemplo, na nova União Aduaneira, que é uma Soyuz Aduaneira, além de ser o nome do veículo que conduz passageiros para visitarem a cápsula espacial Soyuz . E as crianças russas ainda crescem assistindo a filmes do estúdio Soyuzmultfilm, estúdio da era soviética que produziu excelentes filmes infantis de animação, que são até hoje muito populares e hoje estão disponíveis em Youtube.
Consideremos a Soyuz – como dado de civilização, mais do que como a URSS que foi um império político. Fez-se esforço gigantesco para superá-la com a civilização ocidental, mediante a introdução de economia de mercado e uma inundação de importações do ocidente, tanto materiais como culturais.
Satélite geoestacionário Soyuz
Os princípios civilizacionais ocidentais dominaram por algum tempo, dentre os quais novidades ocidentais, como garantir status de igualdade a práticas homossexuais, sem considerar o papel da etnicidade na organização política; e a rendição total da soberania econômica e política da Rússia ao centro imperial, em Washington, DC. São coisas que, por algum tempo foram mastigadas. Até que afinal foram cuspidas longe em praticamente todo o território da URSS, que então já se havia autodissolvido, exceto em alguns poucos bolsões, dentre os quais se destaca a Ucrânia.
Mas em todo o território restante, tão logo o fiasco dos valores ocidentais tornou-se claro para todos, os valores civilizacionais da civilização que ali prevalecera antes voltaram com estardalhaço à vida.
Talvez o primeiro, à frente de todos os demais, o conservadorismo social. Há duas grandes religiões na Federação Russa: a Cristã Ortodoxa e o Islã, e muito esforço se empenha para mantê-las em mútua compatibilidade, para que a religião não se converta em fator de divisão. Querer introduzir nesse mundo construtos cerebrinos alheios àquelas duas religiões, como o casamento gay, é empreitada com baixas chances de sucesso. Mas os russos se interessariam pela poligamia. Recentemente um velho funcionário checheno tomou uma jovem como sua segunda esposa. Houve algum tumulto, mas nada impediu que o casamento se realizasse, na Chechênia muçulmana.
Em segundo lugar vem o princípio que reza que as etnias são relevantes para a organização social e política. A Rússia não é um país: é uma federação multinacional. Há mais de 190 diferentes nações que a constituem, sendo que os russos étnicos são pouco mais de ¾ da população. Essa percentagem tende a decrescer com o tempo: a Rússia só perde para os EUA no número de imigrantes que absorve, vindos dos seguintes países, pela ordem numérica de imigrantes: Ucrânia, Uzbequistão, Tadjiquistão, Azerbaijão, Moldávia, Cazaquistão, Quirguistão, Armênia, Bielorrússia, China, Alemanha e EUA.
Durante a existência da URSS, a composição multiétnica do país for tratada com muita atenção. Numerosas pequenas nações tiveram seus idiomas registrados pela primeira vez, escritos com o alfabeto cirílico sempre em expansão, e, com isso, ganharam sua literatura nacional. Os idiomas nacionais foram incluídos nos currículos escolares e várias nações os mantiveram nos governos locais, para ampliar sua autonomia e facilitar a coesão social.
Na essência a Federação Russa assegurou a todas as etnias soberania étnica – cada nação federada pode exigir para si quantidade considerável de soberania; pode se autogovernar; e pode criar suas próprias leis, desde que não conflitem com leis da federação. Exemplo disso é a moderna Chechênia: Moscou deixa-a livre para pôr em prática sua própria campanha local de antiterrorismo, para dar cabo ali mesmo dos jihadistas financiados com dinheiro que vem de fora da Rússia.
Imaginem esse princípio de soberania étnica aplicado aos EUA, onde a etnia de cada um não faz diferença alguma, desde que o sujeito tenha pele, cabelo, linguajar e modos à mesa que o façam parecer suficientemente branco-europeu. Nos EUA a etnicidade foi reduzida a questões musicais e gastronômicas, com um festival aqui, outro acolá, mas sempre sob o entendimento tácito de que “étnico” significa “outro diferente de mim”: não há nos EUA a expressão “anglo étnico”.

Incidência de racismo nos EUA
(clique na legenda para aumentar)
Dado que a etnicidade é essencialmente tabu, em vez dele é usado o construto completamente artificial de “raça”, com rótulos discriminatórios atachados a todos os indivíduos de algumas categorias. O rótulo “latino” é especialmente estranho, porque há bem pouca coisa comum entre, digamos, um cubano e um boliviano, exceto que ambos são igualmente discriminados, porque são igualmente vistos como insuficientemente “brancos”, quer dizer, “anglos”. Mas e se mexicanos e afro-americanos tivessem dentro dos EUA esse mesmo status “misto” de autonomia?! O país explodiria em milhões de cacos!
País condenado a proteger o “privilégio branco” dificilmente sobreviveria à corrupção desses seus princípios fundadores. Os EUA fizeram uma revolução, para manter legal a escravidão (que os ingleses estavam prontos para abolir); depois, fizeram uma guerra civil para transferir a escravidão, de uma metade do país, para a outra (há mais afro-americanos nas prisões dos EUA hoje, do que escravos no Sul Confederado antes da Guerra Civil).
Não se sabe que guerras o futuro nos guarda, ou o que as provocará, mas essa específica linha fraturada intercivilizacional sempre será muito importante. Para que serve uma nação? É a sua tribo? Ou é um bando de mercenários fingindo que são anglos, para que os deixem entrar no Country Club? Só o tempo dirá qual dessas duas civilizações em confronto se comprovará a mais resistente.
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[*] Dmitry Orlov é um engenheiro russo-americano e escritor sobre temas relacionados ao declínio econômico, ecológico e político dos Estados Unidos. Orlov acredita que o colapso será o resultado dos orçamentos militares, enormes déficits do governo e um sistema político que não responde e declínio da produção de petróleo. Orlov nasceu em Leningrado (agora São Petersburgo) e se mudou para os Estados Unidos com 12 anos. Tem bacharelado em Engenharia de Computação e Mestrado em Lingüística Aplicada. Foi testemunha ocular do colapso da União Soviética durante os ano 1980-90. Entre 2005 e 2006 escreveu uma série de artigos sobre o colapso da União Soviética publicada em Peak Oil. Em 2006 publicou o Manifesto Orlov on-line, A Nova Era da Vela”. Em 2007, ele e sua esposa venderam seu apartamento em Boston e compraram um veleiro, equipado com painéis solares e seis meses de fornecimento de gás propano e capaz de armazenar grande quantidade de produtos alimentícios. Chamou “cápsula de sobrevivência”. Continua a escrever regularmente no seu blog “Clube Orlov” e no EnergyBulletin.Net.

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sábado, 26 de outubro de 2013

O que a China pode aprender da “queda” da URSS

25/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mikhail Gorbachev - 2013
Os que viveram e trabalharam como diplomatas ou correspondentes estrangeiros na Moscou dos anos finais da era de Mikhail Gorbachev nos últimos anos da década dos 80s estão condenados a carregar, para sempre, na vida, uma curiosidade intelectual sobre a dialética da reforma e da transição democrática em sistemas políticos autoritários. No meu caso, pelo menos, isso explica a curiosidade que tenho sobre como a China operará nessa via.

Na própria China, a comparação que se ouve com mais frequência é, mesmo, com essa era Gorbachev da história soviética e a dissolução da União Soviética. Disse deliberadamente “dissolução”, porque se tratou de ato consciente, unilateral e pessoal de Boris Yeltsin, sem qualquer traço de inevitabilidade. A “dissolução” interessava a Yeltsin. Ponto. Parágrafo. Não consultou, seriamente, ninguém, nem seu grupo de seguidores nas repúblicas da então União Soviética concordaria.

Assim, para começar, a comparação com a experiência soviética é viciosa, se se fala em comparação de base empírica. Nunca houve qualquer “queda soviética”, como os discursos chineses insistem em imaginar que tenha havido.

No mais recente Congresso do Partido, a nova liderança chinesa falou abertamente sobre esse tema. O debate continua, sobretudo agora que o crucial 3º Pleno do Partido Comunista da China se aproxima, marcado para novembro, com foco na agenda de reformas do Partido.

Em agosto, Xinhua publicou um comentário sobre isso, [5/8/2013, “Soviet fiasco a lesson for China”] assinado por um Wang Xiaoshi (presumivelmente, pseudônimo), que provocou muita excitação na China e noutros pontos. O principal argumento é que Gorbachev oferecia liderança “fraca” e, assim, a reforma escapou a qualquer controle. Para o autor, o tumulto que se viu na Rússia pós-soviética no início dos anos 1990s deve servir como “sinal alarmante”, para a China, das coisas terríveis que pode acontecer, se a China entrar em tumultos ou cair em anarquia.

Interessante, pinta negativamente o legado de Yeltsin, que teria democratizado a Rússia pela primeira vez na história; e muito elogia as realizações de Vladimir Putin, que levou o país na direção da “prosperidade” sem perder muito sono com a “democratização”, embora como potência diminuída no cenário mundial.

Roy Medvedev
Também o jornal do Partido Comunista Chinês, Global Times, publicou hoje uma entrevista com o famoso dissidente soviético, historiador Roy Medvedev, a extrair “lições” da experiência soviética. Mais ou menos endossa o pensamento que parece ser o mais bem-sucedido na China hoje, a saber, que a China deve pisar com muita cautela no pedal da reforma política, e deve confinar-se às reformas econômicas.

Sim, sim, com certeza, foquem-se nas reformas econômicas, no próximo “Plenum”, mas, em nome de Deus, não se metam a “democratizar” coisa alguma! Deixem que o tempo e as marés operem nessa direção – isso é o resumo da entrevista de Medvedev. Disse o que a China quer ouvir.

Para mim, foi surpresa. Medvedev poderia e deveria ter destacado que a comparação entre União Soviética e China – exceto a comparação nocional, de os dois países serem nominalmente “socialistas” – absolutamente não cabe. Ainda se Gorbachev quisesse praticar o exemplo chinês de reforma econômica e deixasse a “glasnost” [ru. “transparência”] no forno, não teria funcionado. Essa é a simples, honesta verdade.

O ponto é que o crescimento econômico da China pode ser tão dinâmico porque pôde explorar a “globalização”; e a União Soviética existiu em mundo absolutamente diferente, desprezada pelo ocidente e desonrada em boa parte do oriente. Foi deixada em ostracismo.

Abertura do Jogos Olímpicos de Moscou em 1980
Não esqueçam que o ocidente boicotou os Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. Os remanescentes da Emenda Jackson-Vanik ainda assombram as relações russo-norte-americanas. Assim sendo, a latitude que a “comunidade internacional” permitiu à China nos anos 1970s, 80s e 90s e já entrada a era pós guerra fria, para exploração ótima de sua economia, foi um luxo não acessível para Gorbachev.

Em segundo lugar, não havia meio pelo qual o estagnado sistema soviético pudesse energizar outras economias, além de agitar a fossa, que foi o objetivo da “glasnost” de Gorbachev. Como ele próprio disse, em tom de lamento, o gerente soviético era como um pássaro com medo de voar e empreender aos céus, mesmo depois de aberta a gaiola.

Medvedev, além disso, também foi parcial, ao dizer que a alienação do cidadão soviético, em relação ao sistema, começou com Gorbachev. No meu modo de ver, Gorbachev herdou a crise de credibilidade do partido comunista soviético.

Bem claramente, uma década inteira antes da era Gorbachev, em 1975, quando pela primeira vez cheguei à União Soviética para trabalhar na embaixada [da Índia] como diplomata, o que mais me chamou a atenção foi a profunda desconexão entre o sistema soviético e o cidadão soviético, e o modo como o cidadão se autoconfinava num mundo surreal, carregado de cinismo.

Para mim, francamente, foi um choque, porque não era o que esperava ver. (Não estou convencido de que o fenômeno do cinismo soviético tenha acabado, sequer depois de dissolvido o sistema soviético. Quem eram os “oligarcas”?).

Quando a URSS afundou salvaram-se todos
Uma terceira grande diferença é a natureza da economia chinesa, muitíssimo diferente da economia soviética (e russa) que depende criticamente da renda das exportações de petróleo. É útil lembrar que Gorbachev, provavelmente, jamais teria tido de ajoelhar-se e suplicar que o ocidente o “resgatasse”, se o petróleo estivesse sendo vendido, digamos, a $15 o barril, em vez dos $8 daquele momento crítico.

Além disso, a União Soviética não tinha indústria de manufaturas fazendo jorrar produtos exportados para o mercado mundial. Para piorar, a União Soviética carregava o peso do “internacionalismo proletário” – farinha de trigo e petróleo para o governo socialista de Najibullah no Afeganistão, por exemplo.

A China, por sua vez, preferiu chamar-se ela própria de “país emergente”, o que a absolve da necessidade de operar como rede de providência para toda a humanidade. A China tampouco está promovendo o socialismo pelo mundo. De fato, a China cuida clinicamente de garantir que praticamente todo o seu dinheiro excedente seja posto só onde se vejam feitos e efeitos que a China deseja obter do que a China faz [1]... Seja na África ou no Sri Lanka.

Mais uma vez, é preciso falar sobre a “formação social”. A URSS esteve muito à frente da China em termos de desenvolvimento social, e mesmo hoje a Rússia tem padrão de vida muitíssimo superior ao do povo chinês, em termos per capita. A questão é que a mente humana precisa ser motivada.

Os cidadãos soviéticos bem letrados, bem educados e intelectualmente lúcidos jamais teriam aceitado o que hoje passa por “reforma econômica”. Esse é o ponto no qual a China tem uma vantagem. Mas o que acontece quando o desenvolvimento social chinês avançar, fizer crescer as expectativas e, claro, no caso de o mercado ser real e genuinamente desamarrado?

Massacre de Gwangiu - milhares de manifestantes foram mortos e feridos pela repressão na Coreia do Sul em maio de 1980
Por acaso, eu morava e trabalhava em Seul no final dos anos 1970s e início dos anos 1980s. Com a sociedade ganhando melhor educação, tornando-se mais próspera, mais dona de suas opiniões, o velho paradigma deixou de funcionar – em outras palavras, enquanto o regime saiu-se bem no front econômico, e enquanto funcionou bem a estratégia de crescimento orientado para a exportação, a política foi irrelevante.

Eu estava lá quando do assassinato do presidente Park Chung-hee em outubro de 1979 (pai do atual presidente democraticamente eleito Park Geun-hye) e do sangrento caso Gwangju em maio de 1980. Vistos em retrospecto, foram as dores do parto da democracia na Coreia do Sul.

A China não tem muito a ganhar com estudar a “queda” da União Soviética – exceto, talvez, sobre os perigos de uma nova Guerra Fria. A União Soviética foi parte da tradição intelectual ocidental; e, a consciência histórica da China e os pontos de atracação cultural são vastamente diferentes. Pode-se dizer que esse é o motivo pelo qual o ocidente põe a barra democrática num ponto muito mais alto para a Rússia, hoje, do que parece interessado em demarcar para a China. 

Considerando que é historiador, a entrevista de Medvedev desaponta.



Nota dos tradutores
[1] Orig. put your money where your mouth is: “mostrar, por ações e não só por palavras, que você apoia ou defende alguma coisa”.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.