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domingo, 13 de julho de 2014

Ucrânia: Relatório de Situação (SITREP), 11/7/2014

Importante desenvolvimento para a Resistência

11/7/2014, The Saker, The Vineyard of the Saker
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

The Saker
Além do que parece ter sido ataque devastador contra uma coluna de blindados Ukies, há vários importantes desenvolvimentos que aconteceram recentemente e que acho que têm de ser reportados aqui:



79ª Brigada Ukie quase destruída

1) Com o retorno de Strelkov a Donetsk, a ordem e a unidade de comando nas forças da Resistência parecem tem sido restauradas, e resolvidos os desacordos entre Strelkov e Alexander Khodakovskii (ex-comandante da unidade “Alpha” de Donetsk).

2) Em conferência conjunta de imprensa, Igor Strelkov , Alexander Borodai e Vladimir Antiufeev (encarregados respectivamente de assuntos militares, políticos e segurança do estado) anunciaram a formação de um conselho de comandantes militares que será encarregado de todos as unidades militares na Novorrússia. Na mesma conferência de imprensa, anunciaram também ampla evacuação (voluntária) de civis dos subúrbios de Donetsk. A cidade, claramente, está preparando-se para um grande ataque, seguido de sítio.

Strelkov, Borodai, Antiufeev

3) Houve disputa feroz entre Igor Strelkov e Sergei Kurginian, que acusou Strelkov de ter abandonado Slaviansk e que disse que os novorrussos estão agora recebendo mais e melhor ajuda da Rússia, que antes. Embora Borodai tenha acusado Kurginian de espalhar propaganda pró Ukie ou EUA, eu pessoalmente acredito que o papel de Kurginian é tranquilizar o público russo, de que a sociedade civil russa, sim, está fazendo todo o possível para ajudar a Resistência (ninguém jamais fala de qualquer ajuda oferecida pelo governo russo).

Sergei Kurginian
Seja qual for o caso, Alexander Borodai acertou tudo quando relatou que suas consultas e encontros em Moscou foram

(...) muito bem-sucedidas e conto muito com o amparo da Federação Russa em futuro o mais próximo possível. No momento, o povo russo já nós está dando ajuda colossal, seja em termos de voluntários seja em termos de ajuda humanitária. Espero que essa assistência continue a crescer.

 Não há dúvidas de que alguma espécie de “acordo” foi firmado entre os líderes de Novorrússia e o Kremlin, embora, claro, os detalhes vão permanecer secretos e a assistência será apresentada como vinda do “povo russo”, o que é muito diferente de vir do governo russo, apesar de haver aí a interessante questão de entender por que Borodai teria de ter longas reuniões em Moscou, para obter ajuda do povo russo [riso].

4) Aparentemente, os Ukies estiveram reforçando sua artilharia na fronteira com a Crimeia, mas o consenso é que, embora aqueles sistemas tenham alcance para atingir cidades crimeanas, a resposta russa seria de tal ordem, que qualquer ataque dos Ukies ali sempre será movimento suicida. Os russos já reforçaram rapidamente e firmemente suas capacidades na Crimeia, as quais hoje incluem total cobertura do espaço aéreo (usaram ali a versão atualizada do sistema de defesa S-300 - vídeo no fim do parágrafo - com um redeslocamento dos bombardeiros russos de combate). Até o ministro Sergei Lavrov, sempre suave e contido, disse com todas as letras, sem nenhuma suavidade, que não aconselha ninguém a atacar a Crimeia, porque a Rússia retaliará.


5) A Força Aérea Ucraniana continua a perder aeronaves regularmente. Hoje, outro Su-25 Ukie foi derrubado perto de Lugansk.

Su-25 da Ucrânia
6) Em outro interessante desenvolvimento recente, Igor Strelkov anunciou que os soldados que lutam com os militares novorrussos passarão a receber salário, em valor mais que adequado, pelas normas ucranianas. Claramente, mais um sinal de que “alguém” está agora financiando a Resistência.

Meu palpite é que Poroshenko dirá que o Grad MLRS que hoje destruiu quase toda a 79ª Brigada Ukie teria sido disparado da Rússia. A primeira razão pela qual acho que dirá isso é que, assim, terão meios, ele, mas, sobretudo, seus patrões nos EUA, para reacender a histeria russofóbica. A segunda razão é que se esses Grads tiverem saído Rússia, nesse caso as unidades Ukies que estejam em pontos distantes da fronteira russa estariam em relativa segurança; mas, se os Grads foram disparados pela Resistência, de dentro da Novorrússia, nesse caso todas as unidades Ukies na Novorrússia são agora alvos potenciais desses ataques.

Grad MLRS  com alcance de 200 km
Seja como for, temos aqui duas opções: ou os russos finalmente decidiram fazer os Ukies experimentarem um pouco do próprio remédio, nesse caso, fazendo-os pagar pelos inúmeros ataques contra postos de fronteira russos, ou a Resistência realmente pôs as mãos em Grads suficientes para um ataque desse tipo. Nesse caso é bem óbvia a origem desses Grads, embora, claro, ninguém admita coisa alguma.

A fronteira russa com a Ucrânia é porosa? Sim, claro. Mas não a ponto de comboios de MLRS andarem de um lado para o outro sem serem vistos e sem o acordo do governo russo. Strelkov e suas forças poderiam ter “nacionalizado” algum dinheiro confiscado dos bancos de Kolomoiskii. Claro que sim. Mas não o suficiente para bancar uma guerra. É possível que voluntários russos (inclusive oligarcas russos) tenham mandado dinheiro para ajudar os novorrussos? Claro que sim, mas não sem que o serviço secreto russo (FSB) soubesse e permitisse.

Portanto, o que estamos vendo é claramente o seguinte: o *governo* russo não está mandando nenhuma ajuda militar “oficial” à Novorrússia; mas a *sociedade* russa, com pleno conhecimento e as bênçãos do governo russo, está fazendo exatamente isso. Daí o sorriso de felicidade no rosto de Borodai quando falou sobre suas “consultas” em Moscou.

Fronteira Ucrânia-Rússia
 (Análise da OTAN de imagens via satélite)
Está o Kremlin expondo-se a grande risco, com essa estratégia? Não me parece que esteja. A ajuda é suficientemente pequena para ter o que a CIA chama de “negabilidade plausível”; mas, uma vez que seja contínua, pode, sim, fazer diferença crucial. Além disso, tudo que o Kremlin está *realmente* fazendo não é propriamente ajuda; apenas se pôs numa posição passiva que pode ser facilmente explicada com “tentamos”, “não é fácil”, “vocês conhecem os nossos problemas de corrupção”, etc..

Para finalizar, arrisco uma ideia. Estou sentindo que os Integracionistas Atlanticistas no Kremlin e à volta dele não estão absolutamente contentes com a ajuda que a Rússia está dando, e há boa chance de que Putin esteja usando seus antigos contatos com o serviço secreto para fazer acontecerem as coisas. Examinando as recentes ações de Strelkov, Borodai e Antiufeev, tenho a forte sensação de que essa recente “consolidação do poder” traz consigo um típico “toque KGB”. E não atrapalha, é claro, nas atuais circunstâncias.

Há uma palavra em russo, difícil de traduzir, que significa, mais ou menos, “perto/em torno dos círculos do Kremlin” (околокремлевские круги). Refere-se, basicamente, à base “silenciosa” de poder pró-Putin, que tem grande influência política, mas não é parte formal da estrutura do governo.

Esses círculos – que são o suplício dos liberais russos – têm acesso ao Kremlin e apoiam o presidente, mas não integram formalmente a administração, nem o governo nem o gabinete do presidente nem qualquer outra entidade do estado e, por isso, não podem ser controlados por ninguém, exceto, claro, o serviço secreto federal, FSB. Estou sentindo que esses círculos, que são furiosamente antinazistas e antinorte-americanos, já se organizaram informalmente para criar uma rede de assistência à Novorrússia. Que ninguém jamais subestime o poder e as capacidades desses círculos.

Por exemplo, durante o regime pró-EUA de Yeltsin, aqueles círculos não apenas organizaram assistência secreta à Transdniestria; tiveram até meios para conseguir que seus próprios aviões militares voassem para lá, sem que ninguém a bordo precisasse se identificar a nenhuma autoridade, em nenhuma escala da viagem. Sei disso, porque me ofereceram lugar num desses voos e me disseram: Damos um uniforme a você, você veste e ninguém fará perguntas. Foi em 1993. Ninguém nem imagina o que esses sujeitos podem fazer hoje, com acesso ao Kremlin...

Que tipo de gente reúne-se nesses ‘círculos’? Militares, claro, sobretudo aposentados dos serviços especiais, oficiais do FSB que não se incomodam de negar sempre, oficiais das unidades especiais GRU que negam sempre, sempre; mas também empresários, jornalistas e alguns “inovadores”, muitos deles conectados às máfias russas. É uma mistura eclética de gente, de idealistas a gente que apenas sabe que o “poder-na-sombra” [orig. “shadow power”] desses círculos também pode ser muito útil para promover seus próprios interesses.

Vladimir Putin
Para concluir, digo que enquanto tudo aqui dito, até aqui, são, sem dúvida alguma, excelentes notícias, a coisa toda está longe de estar resolvida. Os Integracionistas Atlanticistas continuam muito poderosos. Putin falou abertamente sobre uma “5ª coluna”, e eles resistirão com todas as suas forças. Quanto a Putin, está engajado num ato de equilibrismo difícil e perigoso, no qual qualquer coisa que saia errado lhe será atribuído, como culpa exclusiva e pessoal dele. Putin sabe disso e faz o que pode para mostrar-se o mais distante possível do dia-a-dia dos combates na Novorrússia. Seus adversários também veem claramente que, com essa guerra na Novorrússia, têm oportunidade perfeita para enfraquecê-lo e até desacreditá-lo, mas, dessa vez, de uma posição aparentemente “patriótica” (porque a posição pró-EUA, agora, basicamente, é fracasso garantido).

Supersimplificando muito, eu diria que essa luta envolveu “big Money x serviços secretos” e que, até aqui, os serviços secretos parecem estar no controle da situação, o que é bom para a Novorrússia. Mas tudo pode mudar muito, dependendo de como a situação evolua.


The Saker

sábado, 26 de outubro de 2013

O que a China pode aprender da “queda” da URSS

25/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mikhail Gorbachev - 2013
Os que viveram e trabalharam como diplomatas ou correspondentes estrangeiros na Moscou dos anos finais da era de Mikhail Gorbachev nos últimos anos da década dos 80s estão condenados a carregar, para sempre, na vida, uma curiosidade intelectual sobre a dialética da reforma e da transição democrática em sistemas políticos autoritários. No meu caso, pelo menos, isso explica a curiosidade que tenho sobre como a China operará nessa via.

Na própria China, a comparação que se ouve com mais frequência é, mesmo, com essa era Gorbachev da história soviética e a dissolução da União Soviética. Disse deliberadamente “dissolução”, porque se tratou de ato consciente, unilateral e pessoal de Boris Yeltsin, sem qualquer traço de inevitabilidade. A “dissolução” interessava a Yeltsin. Ponto. Parágrafo. Não consultou, seriamente, ninguém, nem seu grupo de seguidores nas repúblicas da então União Soviética concordaria.

Assim, para começar, a comparação com a experiência soviética é viciosa, se se fala em comparação de base empírica. Nunca houve qualquer “queda soviética”, como os discursos chineses insistem em imaginar que tenha havido.

No mais recente Congresso do Partido, a nova liderança chinesa falou abertamente sobre esse tema. O debate continua, sobretudo agora que o crucial 3º Pleno do Partido Comunista da China se aproxima, marcado para novembro, com foco na agenda de reformas do Partido.

Em agosto, Xinhua publicou um comentário sobre isso, [5/8/2013, “Soviet fiasco a lesson for China”] assinado por um Wang Xiaoshi (presumivelmente, pseudônimo), que provocou muita excitação na China e noutros pontos. O principal argumento é que Gorbachev oferecia liderança “fraca” e, assim, a reforma escapou a qualquer controle. Para o autor, o tumulto que se viu na Rússia pós-soviética no início dos anos 1990s deve servir como “sinal alarmante”, para a China, das coisas terríveis que pode acontecer, se a China entrar em tumultos ou cair em anarquia.

Interessante, pinta negativamente o legado de Yeltsin, que teria democratizado a Rússia pela primeira vez na história; e muito elogia as realizações de Vladimir Putin, que levou o país na direção da “prosperidade” sem perder muito sono com a “democratização”, embora como potência diminuída no cenário mundial.

Roy Medvedev
Também o jornal do Partido Comunista Chinês, Global Times, publicou hoje uma entrevista com o famoso dissidente soviético, historiador Roy Medvedev, a extrair “lições” da experiência soviética. Mais ou menos endossa o pensamento que parece ser o mais bem-sucedido na China hoje, a saber, que a China deve pisar com muita cautela no pedal da reforma política, e deve confinar-se às reformas econômicas.

Sim, sim, com certeza, foquem-se nas reformas econômicas, no próximo “Plenum”, mas, em nome de Deus, não se metam a “democratizar” coisa alguma! Deixem que o tempo e as marés operem nessa direção – isso é o resumo da entrevista de Medvedev. Disse o que a China quer ouvir.

Para mim, foi surpresa. Medvedev poderia e deveria ter destacado que a comparação entre União Soviética e China – exceto a comparação nocional, de os dois países serem nominalmente “socialistas” – absolutamente não cabe. Ainda se Gorbachev quisesse praticar o exemplo chinês de reforma econômica e deixasse a “glasnost” [ru. “transparência”] no forno, não teria funcionado. Essa é a simples, honesta verdade.

O ponto é que o crescimento econômico da China pode ser tão dinâmico porque pôde explorar a “globalização”; e a União Soviética existiu em mundo absolutamente diferente, desprezada pelo ocidente e desonrada em boa parte do oriente. Foi deixada em ostracismo.

Abertura do Jogos Olímpicos de Moscou em 1980
Não esqueçam que o ocidente boicotou os Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. Os remanescentes da Emenda Jackson-Vanik ainda assombram as relações russo-norte-americanas. Assim sendo, a latitude que a “comunidade internacional” permitiu à China nos anos 1970s, 80s e 90s e já entrada a era pós guerra fria, para exploração ótima de sua economia, foi um luxo não acessível para Gorbachev.

Em segundo lugar, não havia meio pelo qual o estagnado sistema soviético pudesse energizar outras economias, além de agitar a fossa, que foi o objetivo da “glasnost” de Gorbachev. Como ele próprio disse, em tom de lamento, o gerente soviético era como um pássaro com medo de voar e empreender aos céus, mesmo depois de aberta a gaiola.

Medvedev, além disso, também foi parcial, ao dizer que a alienação do cidadão soviético, em relação ao sistema, começou com Gorbachev. No meu modo de ver, Gorbachev herdou a crise de credibilidade do partido comunista soviético.

Bem claramente, uma década inteira antes da era Gorbachev, em 1975, quando pela primeira vez cheguei à União Soviética para trabalhar na embaixada [da Índia] como diplomata, o que mais me chamou a atenção foi a profunda desconexão entre o sistema soviético e o cidadão soviético, e o modo como o cidadão se autoconfinava num mundo surreal, carregado de cinismo.

Para mim, francamente, foi um choque, porque não era o que esperava ver. (Não estou convencido de que o fenômeno do cinismo soviético tenha acabado, sequer depois de dissolvido o sistema soviético. Quem eram os “oligarcas”?).

Quando a URSS afundou salvaram-se todos
Uma terceira grande diferença é a natureza da economia chinesa, muitíssimo diferente da economia soviética (e russa) que depende criticamente da renda das exportações de petróleo. É útil lembrar que Gorbachev, provavelmente, jamais teria tido de ajoelhar-se e suplicar que o ocidente o “resgatasse”, se o petróleo estivesse sendo vendido, digamos, a $15 o barril, em vez dos $8 daquele momento crítico.

Além disso, a União Soviética não tinha indústria de manufaturas fazendo jorrar produtos exportados para o mercado mundial. Para piorar, a União Soviética carregava o peso do “internacionalismo proletário” – farinha de trigo e petróleo para o governo socialista de Najibullah no Afeganistão, por exemplo.

A China, por sua vez, preferiu chamar-se ela própria de “país emergente”, o que a absolve da necessidade de operar como rede de providência para toda a humanidade. A China tampouco está promovendo o socialismo pelo mundo. De fato, a China cuida clinicamente de garantir que praticamente todo o seu dinheiro excedente seja posto só onde se vejam feitos e efeitos que a China deseja obter do que a China faz [1]... Seja na África ou no Sri Lanka.

Mais uma vez, é preciso falar sobre a “formação social”. A URSS esteve muito à frente da China em termos de desenvolvimento social, e mesmo hoje a Rússia tem padrão de vida muitíssimo superior ao do povo chinês, em termos per capita. A questão é que a mente humana precisa ser motivada.

Os cidadãos soviéticos bem letrados, bem educados e intelectualmente lúcidos jamais teriam aceitado o que hoje passa por “reforma econômica”. Esse é o ponto no qual a China tem uma vantagem. Mas o que acontece quando o desenvolvimento social chinês avançar, fizer crescer as expectativas e, claro, no caso de o mercado ser real e genuinamente desamarrado?

Massacre de Gwangiu - milhares de manifestantes foram mortos e feridos pela repressão na Coreia do Sul em maio de 1980
Por acaso, eu morava e trabalhava em Seul no final dos anos 1970s e início dos anos 1980s. Com a sociedade ganhando melhor educação, tornando-se mais próspera, mais dona de suas opiniões, o velho paradigma deixou de funcionar – em outras palavras, enquanto o regime saiu-se bem no front econômico, e enquanto funcionou bem a estratégia de crescimento orientado para a exportação, a política foi irrelevante.

Eu estava lá quando do assassinato do presidente Park Chung-hee em outubro de 1979 (pai do atual presidente democraticamente eleito Park Geun-hye) e do sangrento caso Gwangju em maio de 1980. Vistos em retrospecto, foram as dores do parto da democracia na Coreia do Sul.

A China não tem muito a ganhar com estudar a “queda” da União Soviética – exceto, talvez, sobre os perigos de uma nova Guerra Fria. A União Soviética foi parte da tradição intelectual ocidental; e, a consciência histórica da China e os pontos de atracação cultural são vastamente diferentes. Pode-se dizer que esse é o motivo pelo qual o ocidente põe a barra democrática num ponto muito mais alto para a Rússia, hoje, do que parece interessado em demarcar para a China. 

Considerando que é historiador, a entrevista de Medvedev desaponta.



Nota dos tradutores
[1] Orig. put your money where your mouth is: “mostrar, por ações e não só por palavras, que você apoia ou defende alguma coisa”.
__________________________


[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O longo (20 anos!) “pas de deux” de Rússia e EUA está chegando ao fim? (2/2)

12/10/2013, The Saker [falcão peregrino], Blog “The Vineyard of the Saker”
Traduzido pelo pessoal da  Vila Vudu



A URSS e os EUA – de volta para o futuro?

É curioso, para os que se lembram da União Soviética do final dos anos 1980s, ver o quanto os EUA sob Obama tornaram-se parecidos à URSS sob Brezhnev: internamente, é caracterizado por um senso geral de desgosto e de alienação das pessoas, acionado pela inegável estagnação de um sistema apodrecido até o âmago. Um estado militar e policial extensivo, com uniformes por todos os cantos, enquanto a cada dia mais e mais pessoas são empurradas para um estado de pobreza abjeta. Uma máquina governamental de propaganda que, como no 1984 de Orwell, existe para propagandear sucessos, quando todos sabem que só fazem publicar e divulgar mentiras.

Externamente, os EUA espalharam-se por todo o mundo, e em toda parte são ou odiados ou ridicularizados. Exatamente como nos dias dos sovietes, os líderes dos EUA vivem em visível estado de medo, com medo do próprio povo, a ponto de se sentirem forçados a se autoprotegerem atrás de caríssima rede global de espiões e propagandistas, todos eles também em estado de terror permanente ante qualquer opinião divergente e para os quais o pior inimigo é o seu próprio povo.

George Orwell
Acrescentem a isso um sistema político que, longe de cooptar os melhores cidadãos, aliena-os cada vez mais profundamente, ao mesmo tempo em que promove, para as posições de poder, os mais profundamente corruptos e imorais. Um complexo industrial-prisional e outro complexo industrial-militar, ambos em pleno crescimento, mas que o país não tem, simplesmente, dinheiro para continuar a sustentar. Uma infraestrutura pública em ruínas, combinada a um sistema completamente disfuncional de assistência à saúde, no qual só os ricos e bem relacionados conseguem bom tratamento médico. E, sobretudo, um discurso público terminalmente esclerosado, entupido de clichês ideológicos e absolutamente desconectado da realidade.

Jamais esquecerei as palavras de um embaixador paquistanês na Conferência da ONU Para o Desarmamento, em Genebra, em 1992, o qual, falando a uma assembleia de arrogantes diplomatas ocidentais, disse o seguinte:

Os senhores parecem acreditar que venceram a Guerra Fria. Mas nem consideraram a possibilidade de que o que realmente aconteceu tenha sido, apenas, que as contradições internas do comunismo detonaram aquele comunismo antes de que as contradições internas do capitalismo deem cabo desse capitalismo de vocês?!

Desnecessário dizer que essas palavras proféticas foram saudadas pelo silêncio mais pétreo e foram logo esquecidas.

Pois entendo que o homem acertou em cheio: agora o capitalismo  chegou a uma crise tão profunda como a que afetava a União Soviética no final dos anos 1980s. E há chance-zero de que saiba reformar-se ou, seja como for, modificar o capitalismo que há. A única saída possível é a mudança de regime.

Raízes históricas da russofobia das elites norte-americanas

Tudo isso – dito acima – posto, torna-se de fato muito simples entender por que a Rússia em geral, e Putin em especial, provocam ódio tão amplo, geral e irrestrito aos plutocratas ocidentais: depois de terem-se autoconvencido de que teriam vencido a Guerra Fria, hoje aqueles mesmos plutocratas têm de enfrentar um duplo desapontamento; de um lado veem crescer a Rússia, em plena recuperação; de outro lado veem o declínio econômico e político do ocidente, que parece estar-se convertendo agora em agonia dolorosa e lenta.

Em sua ira amarga e ressentida, os líderes ocidentais sequer percebem que a Rússia nada tem a ver com os atuais problemas do ocidente. De fato, aconteceu exatamente o oposto: o colapso da URSS criou nova demanda por dólares norte-americanos na Europa Oriental e na Rússia, o que deu alguma sobrevida ao sistema econômico internacional puxado pelos EUA (alguns economistas, como Nikolai Starikov, estimam que o colapso da URSS deu cerca de dez anos de vida, a mais, ao dólar norte-americano).

No passado, a Rússia sempre foi arqui-inimiga histórica do Império Britânico. Quanto aos judeus – a Revolução de 1917 trouxe grande esperanças para muitos judeus do leste da Europa, mas tiveram vida curta, a partir do momento em que Stálin derrotou Trotsky e o Partido Comunista foi expurgado de praticamente todos os membros judeus. Mais uma vez, a Rússia teve papel trágico na história dos judeus azquenazes e isso, é claro, deixou marca profunda na visão de mundo dos neoconservadores, os quais são, até hoje, furiosamente russofóbicos.

Stalin (E) e Trotsky (D)
Alguém poderia contra-argumentar que muitos judeus são profundamente gratos ao Exército Soviético, que libertou judeus dos campos de concentração dos nazistas; e pelo fato de a União Soviética ter sido o primeiro país a reconhecer Israel. Mas nesses dois casos a gratidão recai sobre a UNIÃO SOVIÉTICA, não sobre a Rússia, que muitos judeus azquenazes ainda associam a políticas e valores anti-judeus.

Não surpreende, pois que ambos, os “Anglos” e as elites judaicas nos EUA alimentem horror quase instintivo, e muito medo, da Rússia, sobretudo se vista como ressurgente ou antiamericana. De fato, não erram, nessa percepção: a Rússia, sim, está definitivamente, sim, ressurgindo; e a vasta maioria da opinião pública russa é, sim, veementemente antiamericana, pelo menos no sentido em que “EUA” signifique o modelo civilizacional ou o sistema econômico dos EUA.

O sentimento antiamericano na Rússia

O sentimento sobre os EUA passou por mudança dramática, depois da queda da União Soviética. Nos anos 1980s, os EUA não eram apenas “populares”: estavam absolutamente “na moda”. A juventude russa criou vários grupos de rock (alguns dos quais imensamente populares, e populares até hoje, como o grupo DDT de São Petersburgo), roupas e fast food à moda dos EUA eram os sonhos de todos os adolescentes russos, e muitos intelectuais pensavam sinceramente os EUA como “líder do mundo livre”. Evidentemente, a propaganda de estado da URSS sempre desejou apresentar os EUA como país imperialista agressivo, mas o esforço deu em nada: naquele momento a maioria dos russos gostava muito dos EUA. Um dos grupos pop mais populares dos anos 1990s (o Nautilus Pompilius) tinha uma canção (Goodbye America) que dizia (vídeo –som- e letra traduzida a seguir[NTs]):


Adeus EUA, oh
Onde jamais estive,
Adeus para sempre!
Pegue seu banjo
E toque na minha despedida
la-la-la-la-la-la, la-la-la-la-la-la
Seus jeans gastos
Ficaram apertados demais para mim
Nos ensinaram por tempo demais
A amar seus frutos proibidos.

Apesar de algumas exceções a essa regra, acho que, no início dos anos 1990s quase todo o povo russo, especialmente os mais jovens, haviam engolido toda a propaganda norte-americana, isca, anzol e vara. A Rússia, naquele momento era desanimadoramente pró-EUA.

O colapso catastrófico da URSS em 1991 e o apoio total, incondicional que o ocidente deu a Yeltsin e aos seus oligarcas mudou tudo isso. Em vez de tentar ajudar a Rússia, os EUA e o ocidente usaram toda e qualquer ocasião que encontraram para enfraquecer a Rússia no plano externo (envolvendo toda a Europa Oriental na OTAN, apesar de terem prometido que não o fariam). E, internamente, o ocidente apoiou os oligarcas judeus que estavam, literalmente, saqueando para fora da Rússia toda a riqueza russa, como vampiros sugando uma jugular; e o ocidente, simultaneamente, estimulou todas as formas imagináveis de separatismo.

Ao final dos anos 1990s, as palavras “democrata” e “liberal” já eram palavrões. Uma piada do final dos anos 1990 é bom exemplo desse sentimento generalizado:

Um novo professor chega à classe:
– Meu nome é Abram Davidovich, e sou liberal. Agora, cada um de vocês levante-se e se apresente, como eu fiz.
– Meu nome é Masha, e sou liberal.
– Meu nome é Petia, e sou liberal.
– Meu nome é Joãozinho, e sou stalinista.
– Joãozinho! Por que você é stalinista?!
– Minha mamãe é stalinista, meu papai é stalinista, meus amiguinhos são stalinistas e eu também sou stalinista.
– Mas, Joãozinho, se sua mãe fosse puta, seu pai viciado em cocaína, e seus amigos, homossexuais... Você seria o quê?!
– Aí, sim, eu seria liberal.

Observem que, na piada, “liberalismo” e “judeus” já aparecem associados: o nome Abram Davidovich é nome tipicamente judeu. Observem também a inclusão de “homossexuais” entre a puta e o viciado em cocaína, e lembrem dessa piada sempre que avaliarem a típica reação dos russos à campanha anti-Rússia orquestrada por organizações ocidentais de homossexuais.

O efeito político desses sentimentos é bem evidente: nas últimas eleições, nenhum partido político pró-ocidente obteve votos suficientes para eleger sequer um representante ao Parlamento. E, não! Não foi porque Putin tivesse proibido os partidos pró-Ocidente (como vários propagandistas gostam de crer). Há atualmente 57 partidos políticos na Rússia, e alguns poucos são pró-ocidentes. O fato real e inegável é que a porcentagem de russos que manifestam simpatia pelos EUA e pela OTAN/União Europeia não chega a 5%. Pode-se também dizê-lo de outro modo: todos, absolutamente todos os partidos políticos representados no Parlamento russo são profundamente antiamericanos, até o muito moderado “Just Russia”.

Sentimentos anti-Rússia nos EUA?

Se se considera o ininterrupto fogo de artilharia de propaganda anti-Rússia nos veículos da imprensa-empresa ocidental, vale a pena examinar para saber se há ou não sentimentos anti-Rússia no ocidente. É difícil avaliar objetivamente, mas, como nascido na Europa Ocidental e residente por um total de 15 anos nos EUA, posso dizer que sentimentos anti-Rússia no ocidente são raros, praticamente inexistentes. Nos EUA, sempre houve forte sentimento de anticomunismo – que persiste até hoje –, mas, seja lá como for, a maioria dos norte-americanos consegue estabelecer a diferença entre uma ideologia política que eles absolutamente não compreendem (mas detestam, mesmo assim) e o povo que, no passado, esteve associado àquela ideologia.

Os “políticos” norte-americanos, é claro, na expressiva maioria, odeiam a Rússia, mas entre os norte-americanos poucos são os que nutrem sentimentos de oposição ou de temor contra a Rússia ou o povo russo. Para mim, isso se explica por uma combinação de vários fatores.

Em primeiro lugar, dado que cada vez mais pessoas no ocidente vão-se dando conta de que não vivem em democracia, mas numa plutocracia dos 1% mais ricos, todos tendem a ver com olhos mais céticos a propaganda oficial (foi exatamente o que também aconteceu entre os russos, nos anos 1980s). Além disso, cada vez mais e mais pessoas no ocidente opõem-se à ordem imperial plutocrática que as empobrece e desempodera e as converte em servos das corporações; essas pessoas tendem a ser simpáticas à Rússia e a Putin, que “enfrentam os bastardos em Washington”. Mas, num plano mais fundamental, há o fato de que, numa bizarra virada histórica, a Rússia de hoje defende os valores ocidentais de ontem: a lei internacional, o pluralismo, a liberdade de expressão, os direitos sociais, o anti-imperialismo, oposição à intervenção militar contra estados soberanos, rejeição da guerra como meio para resolver disputas, etc..

No caso da guerra na Síria, a posição da Rússia foi absolutamente consistente e coerente, sempre na defesa da lei internacional; essa firmeza impressionou muita gente nos EUA e na Europa, e já se ouvem cada vez mais elogios a Putin, vindos de gente que, antes, nutria contra ele as mais terríveis suspeitas e profundas desconfianças.

A Rússia, é claro, não é uma utopia, nem alguma espécie de sociedade perfeita, longe disso; mas o país tomou a decisão fundamental de tornar-se país *normal*, exatamente o antônimo de ser império global, e qualquer país normal aceita defender os princípios do “ocidente de ontem”, não só a Rússia. De fato, a Rússia é muito não-excepcional, na compreensão pragmática de que defender esses princípios não é questão de algum idealismo simplório, mas um objetivo político firmemente realista. No ocidente, os governantes e sua imprensa-empresa adestrada dizem aos povos que Putin é o perfeito mal, ex-ditador da KGB, grande ameaça para os EUA e seus aliados. Mas desde que as pessoas possam ouvir o que Putin realmente diz, poucos são os que não se percebem em perfeito acordo de opiniões com ele.

Numa outra engraçada virada histórica, assim como a população soviética procurava a BBC, a Voice of America ou a Radio Liberty para obter notícias e informação, hoje, cada dia mais gente no ocidente assiste aos programas de Russia Today, Press TV ou Telesur para obter informação mais confiável. Daí a reação de pânico de Walter Isaacson, Presidente do Comitê de Presidentes de Redes de Comunicação [orig. Chairman of the Broadcasting Board of Governors] comissão que supervisiona a mídia norte-americana dirigida para audiências estrangeiras:

Walter Isaacson
Não podemos nos deixar ultrapassar e descartar por nossos inimigos, na luta pela comunicação. Já há Russia Today, a Press TV do Irã, a TeleSUR da Venezuela e, claro, a China também está lançando seu canal internacional de notícias, 24 horas no ar, com correspondentes em todo o mundo.

Gente como Isaacson sabem que estão lenta e inexoravelmente perdendo a batalha informacional pelo controle da cabeça e dos pensamentos do grande público.

E agora, com todo esse affair Snowden, a Rússia vai-se convertendo em porto seguro para tantos ativistas políticos que precisam salvar-se da ira do Tio Sam. Rápido exame pela Internet, ajuda a ver que a cada dia mais pessoas falam de Putin como “líder do mundo livre”, e há, até, quem já esteja recolhendo assinaturas pelo planeta, para exigir que Obama transfira a Putin o prêmio Nobel que recebeu. Fato é que muitos que, como eu, realmente combatemos contra o sistema soviético, estamos gostando muito de ver esse giro de 180 graus, em relação à posição mundial nos anos 1980s.

Elites ocidentais – ainda paralisadas, catatônicas, na Guerra Fria

O mundo mudou radicalmente nos últimos 20 anos, mas as elites ocidentais nunca mudaram e não mudam. Obrigadas a encarar uma realidade que as frustra, essas elites buscam desesperadamente re-combater a Guerra Fria, na esperança de re-vencer.

Assim, afinal, se explica o ciclo infinito de repetição de campanhas de propaganda para denegrir a Rússia, de que falei no início desse postado. Tentam apresentar a Rússia como alguma espécie de nova União Soviética, com minorias oprimidas, encarceradas ou dissidentes assassinados, com pouca ou nenhuma liberdade de expressão, mídia monolítica controlada pelo governo, e aparelho sempre presente de vigilância contra os cidadãos.

O problema é que essa leitura aparece com 20 anos de atraso, as acusações não convencem a opinião pública ocidental e têm tração zero dentro da Rússia. Na verdade, as tentativas para interferir em assuntos internos da Rússia têm sido sempre tão mal feitas, tão ridículas, que têm tido efeito de tiro saído pela culatra. Primeiro, as tentativas patéticas em que o ocidente se empenhou para criar uma revolução “colorida” nas ruas de Moscou, até as tentativas contraproducentes para criar algum (qualquer) tipo de crise em torno dos direitos humanos na Rússia – e cada passo empreendido pela máquina de propaganda ocidental só fez reforçar a posição de Vladimir Putin e de seus “Soberanistas Eurasianos”, contra a facção dos “Integracionistas Atlanticistas” que há dentro do Kremlin.

Houve um simbolismo pungente, profundo, na mais recente reunião dos 21 países reunidos na Cooperação Econômica do Pacífico Asiático [orig. Asia-Pacific Economic Cooperation, APEC], em Bali. Obama teve de cancelar sua viagem por causa da crise do orçamento nos EUA; e Putin recebeu a homenagem musicalmente horrível, mas politicamente muito significativa, de um “Parabéns a você”, de aniversário, cantado em coro por todos os presidentes dos países do Pacífico na região. Pode-se imaginar a fúria, na Casa Branca, ao verem os “aliados” do Pacífico, a cantar serenatas de aniversário para Putin!

Conclusão: “Estamos em todos os lugares”

Em uma de suas mais belas canções, David Rovics [1] canta os seguintes versos (We Are Everywhere), que quero registrar na íntegra (vídeo a seguir) porque se aplicam direta e completamente à situação atual:


When I say the hungry should have food
I speak for many
When I say no one should have seven homes
While some don't have any
Though I may find myself stranded in some strange place
With naught but a vapid stare
I remember the world and I know
We are everywhere

When I say the time for the rich, it will come
Let me count the ways
Victories or hints of the future
Havana, Caracas, Chiapas, Buenos Aires
How many people are wanting and waiting
And fighting for their share
They hide in their ivory towers
But we are everywhere

Religions and prisons and races
Borders and nations
FBI agents and congressmen
And corporate radio stations
They try to keep us apart, but we find each other
And the rulers are always aware
That they're a tiny minority
And we are everywhere

With every bomb that they drop, every home they destroy
Every land they invade
Comes a new generation from under the rubble
Saying “we are not afraid”
They will pretend we are few
But with each child that a billion mothers bear
Comes the next demonstration
That we are everywhere.

Esses versos são bela expressão da esperança que deve inspirar todos os que nos opomos ao Império EUA-sionista: estamos em todos os lugares, literalmente.

De um lado, estão o 1%, os imperialistas Anglos e os sionistas-neoconservadores; do outro lado, estamos o resto do planeta e, potencialmente também 99% do povo dos EUA. Se é verdade que nesse ponto do tempo Putin e seus Soberanistas Eurasianos são o grupo mais forte e mais bem organizado dessa resistência planetária contra o Império, também é verdade que não estão no centro da luta e nem são cruciais na luta. Sim, sim, a Rússia pode desempenhar e desempenhará esse papel, mas como PAÍS NORMAL dentre outros PAÍSES NORMAIS, alguns pequenos e economicamente fracos, como o Equador; outros gigantescos e muito poderosos, como a China. Mas até o pequeno Equador foi enorme, gigante, quando garantiu refúgio a Julian Assange (e a China apequenou-se, ao pedir que Snowden, por favor, se escafedesse). Quer dizer: o Equador não é pequeno.

Seria ingênuo esperar que esse processo de “desimperialização” dos EUA possa acontecer sem violência. Os impérios francês e britânico só vieram abaixo depois do morticínio da 2ª Guerra Mundial; e os impérios nazista e japonês foram arrasados sob montanhas de bombas. O colapso do império soviético gerou comparativamente menos mortes, e a violência não aconteceu dentro, mas na periferia dos sovietes. Na Rússia, o número de mortos na miniguerra civil de 1993 contava-se aos milhares, não aos milhões. E, graças à grande bondade de Deus, nenhuma bomba atômica foi jamais detonada por agente da Rússia, em lugar algum.

Assim sendo, o que acontecerá quando o Império EUA-sionista-neoconservador afinal desabar, em colapso, sob o próprio peso? Ninguém sabe com certeza, mas pode-se pelo menos esperar que, assim como não apareceu qualquer grande força para salvar o Império Soviético em 1991-1993, tampouco há de aparecer alguma grande força interessada em salvar o Império Norte-americano. Como David Rovic diz tão bem, a grande fraqueza dos 1% que comandam o império EUA-sionista é que “eles são pequena minoria, e nós estamos em todos os lugares”.

Nos últimos 20 anos, os EUA e a Rússia seguiram rotas diametralmente opostas, e, ao que parece, trocaram os papéis. Esse pas-de-deux está agora chegando a alguma espécie de fim. Circunstâncias objetivas puseram os dois países em oposição, mas, isso, só por causa da natureza do regime em Washington DC.

Os líderes russos podem bem repetir as palavras do rapper britânico Lowkey e declarar “I’m not anti-America, America is anti-me!” [Não sou antiAmérica, a América é que é anti-eu (vídeo a seguir)] e podem facilmente ser acolhidos pelos 99% dos norte-americanos que, saibam disso ou não, são também vítimas do Império EUA-sionista-neoconservador.


Enquanto isso, a gigantesca barreira de propaganda anti-Rússia continuará sem refresco, simplesmente porque parece ter-se convertido numa forma de psicoterapia para uma plutocracia ocidental que não vê saída e consome-se em pânico. E, como em todos os casos precedentes, essa propaganda não terá efeito algum.

Espero que, na próxima vez que começar o falatório sobre seja lá o que inventem depois da atual campanha “ecológica” da ONG Greenpeace, todos vocês relembrem o que leram aqui.

[assina] The Saker

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Nota dos tradutores

[1] Tradução de We Are Everywhere

Quando digo que os famintos devem poder comer
Falo pelos muitos
Quando digo que ninguém deve ter sete casas
se outros não têm nenhuma
Ainda que eu esteja preso numa cidade estranha
sem nada e ninguém além de um olhar sem vida
Ainda assim lembro do mundo e sei
Que nós estamos em todos os lugares

Quando digo que a hora dos ricos não demora a chegar
São muitas as vias, as vitórias, as pistas do futuro
Havana, Caracas, Chiapas, Buenos Aires
Quantas e quantas pessoas querem e esperam
e lutam pelo seu quinhão
Eles se escondem em suas torres de marfim
Mas nós estamos em todos os lugares

Religiões e prisões e raças
fronteiras e nações
Agentes do FBI e deputados e senadores
e rádios e televisões-empresas
Só querem nos segregar, nos separar
Mas sempre nos reencontramos uns os outros
E os que mandam sempre sabem bem
que eles são poucos, poucos, uma ínfima minoria
E que nós estamos em todos os lugares

Com cada bomba lançada
cada lar que põem abaixo
cada terra que ocupam
Uma nova geração nasce debaixo das ruínas
e diz “Não temos medo”
Vão mentir que somos poucos
Mas cada um filho que um bilhão de mães amamentam
dirão na próxima manifestação de rua
Que estamos em todos os lugares.


[Tradução de trabalho, sem valor literário, só para ajudar a ler]