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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Nos EUA: síndrome anti-China


 
O Partido Comunista da República Popular da China (PC-RPC) não se deixará arrastar para guerra sem objetivo, contra os EUA.


23/6/2015, [*] Mike Whitney, Counterpunch [O título foi corrigido]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
A China cuida de chegar cada vez mais fundo no interior da Ilha-Mundo, em esforço para remodelar completamente os fundamentos geopolíticos do poder global (...).

Ao construir a infraestrutura para bases militares nos mares do Sul da China e da Arábia, Pequim vai gerando e acumulando capacidade para abalar, estratégica e cirurgicamente, a campanha dos EUA, de contenção (...).

Se a China conseguir conectar suas indústrias em crescimento, aos vastos recursos naturais da Terra Central Eurasiana, nesse caso muito possivelmente (...), o império do mundo ali estará para ela, à vista.

7/6/2015, Alfred McCoy, redecastorphoto em: Geopolítica do Declínio Norte-Americano Global traduzido [orig. The Geopolitics of American Global Decline, The Unz Review].



O futuro da política será decidido na Ásia, não no Afeganistão ou Iraque, e os EUA estarão bem no centro da ação.

(11/10/2011, Foreign Policy, ex-secretária de Estado Hillary Clinton em America’s Pacific Century).

Nova Rota da Seda - Projeto Completo (clique na legenda para aumentar)

A ascensão metórica da China preocupa Washington, não porque a China seja ameaça aos seus vizinhos ou à segurança nacional dos EUA, mas porque a influência da China está em expansão na região.
A China está criando as instituições de que precisa para financiar o próprio desenvolvimento (BAII e Novo Banco dos BRICS), está construindo a infraestrutura de que precisa para conectar os continentes mediante moderníssimas ferrovias de alta velocidade (Nova Rota da Seda) e está atraindo aliados e parceiros de comércio que querem participar no plano chinês para crescimento e prosperidade.
Por isso Washington está preocupada: porque a China converteu-se numa usina de energia econômica que não corresponde ao modelo neoliberal de arrocho punitivo, privatização perniciosa e inflação ensandecida.
A China escapou da órbita do império e mapeou o próprio curso, motivo pelo qual Washington só faz provocar Pequim em torno de uma ações insignificantes de reivindicação de umas poucas terras no Mar do Sul da China. Washington crê que possa ter sucesso militar onde fracassou economicamente e politicamente. Sobre a provocação, vejam o que diz Bloomberg News:
EUA e Japão estão fazendo exercícios militares separados com os filipinos, próximos ao disputado Mar do Sul da China (...). Essas manobras anuais CARAT Philippines de exercícios conjuntos começaram na 2ª-feira (22/6/2015), ao largo da costa leste da ilha Palawan e se estenderão até dia 26/6/2015, segundo o porta-voz da Marinha dos EUA Arlo Abrahamson. Navios filipinos e japoneses estão em manobras também na mesma região, até 27/6/2015, disse o ministro da Força Marinha de Autodefesa do Japão, semana passada.
Os EUA têm apoiado as nações do sudeste asiático, inclusive as Filipinas, enquanto aumentam as tensões com a China, por demandas territoriais no Mar do Sul da China; e o Japão fornece navios de patrulha para a guarda costeira filipina (...). O exercício inclui uma fase no mar, com o submarino USS Fort Worth de combate em águas litorâneas, o USNS Safeguard de mergulho e socorro e um avião P-3 Orion de vigilância, além de, pelo menos, uma fragata filipina, segundo a Marinha dos EUA (...).
Os exercícios japoneses com os filipinos realizam-se em áreas próximas das vizinhas ilhas Spratly, onde a China criou mais de 2 mil acres de terrenos artificiais sobre águas que as Filipinas, Vietnã, Brunei, Taiwan e a Malásia reivindicam como suas. O Japão enviará uma aeronave P-3C anti-submarinos e de vigilância marítima, e 20 soldados. (“U.S., Japan Join Philippines in Navy Drills Near South China Sea”, 21/6/2015, Bloomberg).
Os exercícios “show de força” são concebidos para provocar e intimidar a China. Não têm nenhum outro objetivo.

Protestos nas Filipinas contra manobras militares
EUA-Japão no Mar da China em 24/6/2015

Os EUA quer forçar a China a render-se aos diktats da única potência indispensável, a abandonar todos os seus compromissos com novas instituições que estão sendo criadas, a escancarar seus mercados a empresas norte-americanas & Wall Street, e a deixar que os EUA façam como bem entenderem na redação das regras do comércio mundial. Eis o que Washington realmente quer e motivo pelo qual o moderado Chuck Hagel foi trocado pelo truculento Ashton Carter, como secretário da Defesa.
Os donos do poder nos EUA preferiram um leão-de-chácara, que esmurraria o nariz da China e lhe ensinaria quem manda. Carter é perfeito para a tarefa, burocrata quebra-pernas, que se acha “o mais esperto da rua”. Peter Lee oferece interessante percepção sobre Carter, em postado recente no seu blog China Matters. Diz ele:
(...) o assertivo Ash Carter não faz o policial durão, na parceria com o policial bonzinho Obama/Kerry: Ash é, só ele, todo o show, o que deliciará os fãs do controle militar sobre a política exterior por todos os cantos.
É bom perceber que outros já começam a ver que o Pentágono assumiu completamente a política externa dos EUA. Não há dúvidas de que Carter manda e desmanda na Ásia e Europa.
Lee parece convencido de que Carter permanecerá no posto mesmo depois de Obama já ter sido substituído, se Madame Clinton for eleita. O que não é surpresa, pois foi Clinton quem introduziu o termo “pivô” no léxico estratégico, em discurso que fez em 2010 intitulado “O Século do Pacífico Norte-Americano” [orig. “America’s Pacific Century”]. Naquela apresentação (“America’s Pacific Century”, Secretária de Estado Hillary Clinton, Foreign Policy Magazine, 2011), Clinton expôs os temas básicos que, adiante, seriam convertidos em “alta prioridade” dos EUA, a reorientação do poder dos EUA para o Pacífico Asiático. (...) Disse ela que:
(...) aproveitar o crescimento e o dinamismo da Ásia é central para os interesses econômicos e estratégicos dos EUA. Abrir mercados na Ásia garante aos EUA oportunidades sem precedentes para investimento, comércio e acesso a tecnologia de ponta (...). As empresas norte-americanas precisam pôr a mão na vasta e crescente base de consumidores asiáticos.
Não poderia haver melhor resumo. Tendo reduzido a antiga grande classe média norte-americana a gigantesco cadáver putrefato, incapaz de sustentar sequer uma demanda magra ou algum crescimento, as elites norte-americana estão carregando os barcos e partindo para a China, o Valhalla que brilha prateado sobre a colina. Clinton dá a impressão de supor que deva ser facílimo entrar naqueles potentes mercados asiáticos, desde que os EUA empurremos nossas ambições mais alucinadas com dose forte de diplomacia de canhão – que é onde o capataz Carter entra em cena.
Ash Carter em ação!


Mas Clinton não inventou, ela mesma, o tal pivô: a coisa foi-lhe ensinada em rápidas lições pelo cérebro do pivô, Kurt M. Campbell. Campbell é co-fundador e ex-presidente do Center for a New American Security. Segundo o website desse Center for a New American Security:
De 2009 a 2013 [Campbell] serviu como Secretário de Estado Assistente para Assuntos do Leste da Ásia e Pacífico, onde [sic] lhe são atribuídos os créditos por ter arquitetado o “pivô para a Ásia”. Naquela função, o Dr. Campbell elaborou ampla estratégia norte-americana que o levou aos mais distantes pontos da região do Pacífico Asiático, onde advogou incansavelmente a favor de interesses norte-americanos, particularmente na promoção do comércio e investimentos.
Numa recente entrevista em vídeo com o neoconservador Robert Kagan, Campbell regurgita a mesma retórica que já se ouviu no discurso da Clinton. Para ele,
A maior parte da história do século 21 [sic] estará na região do Pacífico Asiático (...). É do mais alto interesse nacional dos EUA mostrar que desempenharemos papel central naquele drama, assim como já o fizemos no século 20 (...). [Os dois partidos] reconhecem que nossa presença militar é nosso tíquete de entrada para o grande jogo no Pacífico Asiático. (Foreign Policy, vídeo a seguir [em inglês]).
Parece haver consenso crescente de que os militares norte-americanos seriam a perfeita ferramenta para persuadir a China a desistir. Mas... será que é?
A última coisa que o governo Obama deseja é guerra a tiros com a China, principalmente porque a China tem meios para retaliar, e não só militarmente. Explico-me:
Segundo o cientista político Pang Zhongying, a relação atual entre China e os EUA é relação como nunca antes houve na história das relações internacionais (...). O nível de interdependência entre China e EUA é sem precedentes. Antes dos anos 1970s, ninguém poderia sequer imaginar que esses dois países seriam interdependentes na escala em que hoje são. Naquele momento, só existia interdependência entre EUA e Europa, ou dentro do G7, no máximo. O atual nível de interdependência jamais antes existiu entre EUA e China.
Em outras palavras, os dois países precisam um do outro e estão interligados por uma rede complexa de laços financeiros e econômicos, inclusive o 1,3 trilhão de papéis da dívida norte-americana, guardado em cofres chineses. Essa interdependência implica que os EUA não podem abusar no caso da China, como abusaram no caso da Rússia, sem que os próprios EUA se ponham em grave risco.
Assim sendo, apesar de os EUA ainda manterem posição economicamente e militarmente dominante, não podem simplesmente jogar o bom-senso e a cautela pela janela, e impor sanções, ou escalar nas hostilidades e provocações, além de um certo ponto, sem que os EUA ponham em risco a própria segurança. A China sabe disso, razão pela qual continuará a fazer avançar agressivamente a própria agenda, ao mesmo tempo em que vai evitando do melhor modo possível a beligerância e a hostilidade dos EUA.
(Dica de Pepe Escobar) (clique na legenda para aumentar)

A República Popular da China (RPC) continua comprometida com o “desenvolvimento pacífico”. O antagonismo dos EUA é apenas mais um dos muitos obstáculos que a China terá de superar para dar realidade aos seus planos para integrar toda a massa de terra eurasiana num grande (o maior) e próspero bloco comercial. Basta conferir mais um trecho do artigo seminal de Alfred McCoy (Geopolítica do Declínio Global dos EUA, traduzido em redecastorphoto):
Simultaneamente, a liderança chinesa começou a colaborar com estados vizinhos, num programa massivo para integrar a rede nacional de ferrovias numa grade transcontinental. A partir de 2008, alemães e russos uniram-se aos chineses para lançar a “Ponte Terrestre Eurasiana” (também chamada “Nova Rota da Seda”). Duas vias leste-oeste, a antiga Trans-Siberiana no norte e uma nova rota que acompanha o traçado da antiga Rota da Seda, pelo Cazaquistão, devem conectar toda a Eurásia. (...)
Em abril, o presidente Xi Jinping assinou acordo com o Paquistão para gastar US$ 46 bilhões num Corredor Econômico China-Paquistão. Rodovias, conexão com ferrovias e oleogasodutos estender-se-ão por 3.218 km, de Kashgar em Xinjiang, no extremo oeste da China, até o porto de Gwadar, no Paquistão, inaugurado em 2007. A China investiu mais de US$ 200 bilhões na construção desse porto estratégico em Gwadar, no Mar da Arábia, a apenas 600 km do Golfo Pérsico. (...)
Ao construir a infraestrutura para bases militares nos mares do Sul da China e da Arábia, Pequim vai gerando e acumulando capacidade para abalar, estratégica e cirurgicamente, a campanha dos EUA, de contenção.
Aí está, hein?! O fim de um império e o começo de outro.
O Partido Comunista da China de modo algum permitirá que sua grande oportunidade escape, deixando-se sugar para dentro de uma guerra dispendiosa e sem sentido, contra os EUA. Seria ridículo. Os chineses continuarão a conectar ferrovias com ferrovias, rodovias com rodovias, estradas cibernéticas com estradas cibernéticas, até que a Nova Rota da Seda se torne realidade.
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[*] Mike Whitney é escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, uma massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O Partido Comunista Chinês se reunirá em “Pleno” de 9 a 12/11/2013

29/10/2013, [*] Zhu Ningzhu (Editorial) Xinhuanet, Pequim
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vista frontal do Grande Salão do Povo em Pequim onde se realizará o "Pleno"
Pequim (Xinhua) – A 3ª Reunião Plenária do 18º Comitê Central do Partido Comunista Chinês (PCC) acontecerá de 9 a 12 de novembro próximo em Pequim, segundo informe do Gabinete Político do Comitê Central do PCC distribuído hoje.

O anúncio foi feito depois de reunião dos membros do Gabinete Político com Xi Jinping, secretário-geral do Comitê Central do PCC, para estudar como “aprofundar amplamente as reformas”.

Durante a reunião desta 3ª-feira, todos ouviram um relatório das opiniões recolhidas dentro e fora do Partido, para uma primeira versão das decisões do Comitê Central do PCC sobre as principais questões relacionadas ao amplo aprofundamento das reformas.

Essa primeira versão será apresentada à 3ª reunião plenária, para revisão.

Reforma e abertura são uma “grande revolução” para o povo chinês sobre a liderança do PCC na nova era. Aprofundar as reformas exige melhorar e desenvolver o socialismo com características chinesas, como diz o informe.

Desde a 3ª sessão plenária do 11º Comitê Central do PCC, há 35 anos, o Partido promoveu reformas nos sistemas econômico, político, cultural e social, além das relacionadas ao progresso ecológico e à construção institucional do PCC. Desde então, diz o informe, a abertura foi continuamente ampliada.

A realização do sonho chinês de rejuvenescimento nacional exige aprofundamento amplo das reformas e reforço da confiança, teoria e sistema do socialismo com características chinesas; e “várias erros em sistemas e mecanismos têm de ser corrigidos” – nos termos do informe.

Plenário do Grande Salão do Povo
A sessão plenária verá o PCC trabalhar para apressar o desenvolvimento da economia socialista de mercado, da democracia socialista, do desenvolvimento cultural socialista, da harmonia social e da proteção ao meio ambiente.

Devemos deixar que o trabalho, o conhecimento, a tecnologia, a administração e o capital desenlacem o próprio dinamismo, que se soltem e espalhem-se todas as fontes de riqueza, e que o povo usufrua em justo equilíbrio mais frutos do desenvolvimento – diz o informe.

O documento acrescenta que a liderança do PCC deve ser reforçada e aprimorada, dando pleno desempenho à função central do Partido, que exerce liderança plena e coordena todos os esforços para assegurar o sucesso das reformas.

Todos os órgãos do Partido, em todos os níveis, são convocados para cumprir seu dever na liderança das reformas, aprimorar os mecanismos de tomada de decisões e aumentar a capacidade dos funcionários encarregados de impulsionar as reformas. Todos estão sendo convocados, também, a encorajar todos os membros do PCC a contribuir para as reformas.

Na mesma reunião, o comando do PCC aprovou regulação para combater o desperdício e a extravagância nos departamentos do Partido e do governo, conclamando a que se reforce a supervisão e imponham-se punições mais duras aos violadores.

Em anos recentes, departamentos do Partido e do governo puseram-se ocasionalmente a competir por ostentação e extravagância, o que levou a enormes gastos e desperdício, além de fortes reações do povo – diz o informe.

O Gabinete político aprovou e autorizou a divulgação da Regulação para Implantar a Frugalidade e Combater o Desperdício nos Departamentos do Governo e do Partido.

Membros do Comitê Central do PCC -Partido Comunista Chinês
Linha superior: Xi Jinping, Li Keqiang, Zhang Dejiang, Yu Zhengsheng;
Linha inferior: Liu Yunshan, Wang Qishan, Zhang Gaoli

Segundo o documento, a Regulação visa a limitar estritamente, supervisionar e punir várias violações relacionadas ao gasto de dinheiro público.

A Regulação oferece normas de amplo alcance, que cobrem a gestão de dinheiro público, viagens domésticas e ao exterior, recepções de negócios, encontros e outras atividades oficiais, o uso de veículos e de escritórios não privados, além da poupança de recursos.

O informe conclama o Partido e o governo a seguir resolutamente o que a Regulação determina, com os principais funcionários a liderar e supervisionar a campanha.

Conclama também os departamentos de todos os níveis a mapear medidas detalhadas, nos termos da Regulação, adequados à realidade do próprio trabalho, assegurando estrita supervisão e punições mais duras aos que violem as normas implantadas, considerados os eventos caso a caso.

A Regulação é parte da campanha “em linha de massa” que está em curso e visa a estreitar os laços entre os funcionários e membros do PCC e o público, ao mesmo tempo em que se erradicam estilos não desejáveis de trabalho, como o formalismo, a burocracia, o hedonismo e a extravagância.
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[*] Zhu Ningzhu é Editor-chefe do jornal Xinhua e da versão eletrônica Xinhua.net.


sábado, 26 de outubro de 2013

O que a China pode aprender da “queda” da URSS

25/10/2013, [*] MK Bhadrakumar, Indian Punchline
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Mikhail Gorbachev - 2013
Os que viveram e trabalharam como diplomatas ou correspondentes estrangeiros na Moscou dos anos finais da era de Mikhail Gorbachev nos últimos anos da década dos 80s estão condenados a carregar, para sempre, na vida, uma curiosidade intelectual sobre a dialética da reforma e da transição democrática em sistemas políticos autoritários. No meu caso, pelo menos, isso explica a curiosidade que tenho sobre como a China operará nessa via.

Na própria China, a comparação que se ouve com mais frequência é, mesmo, com essa era Gorbachev da história soviética e a dissolução da União Soviética. Disse deliberadamente “dissolução”, porque se tratou de ato consciente, unilateral e pessoal de Boris Yeltsin, sem qualquer traço de inevitabilidade. A “dissolução” interessava a Yeltsin. Ponto. Parágrafo. Não consultou, seriamente, ninguém, nem seu grupo de seguidores nas repúblicas da então União Soviética concordaria.

Assim, para começar, a comparação com a experiência soviética é viciosa, se se fala em comparação de base empírica. Nunca houve qualquer “queda soviética”, como os discursos chineses insistem em imaginar que tenha havido.

No mais recente Congresso do Partido, a nova liderança chinesa falou abertamente sobre esse tema. O debate continua, sobretudo agora que o crucial 3º Pleno do Partido Comunista da China se aproxima, marcado para novembro, com foco na agenda de reformas do Partido.

Em agosto, Xinhua publicou um comentário sobre isso, [5/8/2013, “Soviet fiasco a lesson for China”] assinado por um Wang Xiaoshi (presumivelmente, pseudônimo), que provocou muita excitação na China e noutros pontos. O principal argumento é que Gorbachev oferecia liderança “fraca” e, assim, a reforma escapou a qualquer controle. Para o autor, o tumulto que se viu na Rússia pós-soviética no início dos anos 1990s deve servir como “sinal alarmante”, para a China, das coisas terríveis que pode acontecer, se a China entrar em tumultos ou cair em anarquia.

Interessante, pinta negativamente o legado de Yeltsin, que teria democratizado a Rússia pela primeira vez na história; e muito elogia as realizações de Vladimir Putin, que levou o país na direção da “prosperidade” sem perder muito sono com a “democratização”, embora como potência diminuída no cenário mundial.

Roy Medvedev
Também o jornal do Partido Comunista Chinês, Global Times, publicou hoje uma entrevista com o famoso dissidente soviético, historiador Roy Medvedev, a extrair “lições” da experiência soviética. Mais ou menos endossa o pensamento que parece ser o mais bem-sucedido na China hoje, a saber, que a China deve pisar com muita cautela no pedal da reforma política, e deve confinar-se às reformas econômicas.

Sim, sim, com certeza, foquem-se nas reformas econômicas, no próximo “Plenum”, mas, em nome de Deus, não se metam a “democratizar” coisa alguma! Deixem que o tempo e as marés operem nessa direção – isso é o resumo da entrevista de Medvedev. Disse o que a China quer ouvir.

Para mim, foi surpresa. Medvedev poderia e deveria ter destacado que a comparação entre União Soviética e China – exceto a comparação nocional, de os dois países serem nominalmente “socialistas” – absolutamente não cabe. Ainda se Gorbachev quisesse praticar o exemplo chinês de reforma econômica e deixasse a “glasnost” [ru. “transparência”] no forno, não teria funcionado. Essa é a simples, honesta verdade.

O ponto é que o crescimento econômico da China pode ser tão dinâmico porque pôde explorar a “globalização”; e a União Soviética existiu em mundo absolutamente diferente, desprezada pelo ocidente e desonrada em boa parte do oriente. Foi deixada em ostracismo.

Abertura do Jogos Olímpicos de Moscou em 1980
Não esqueçam que o ocidente boicotou os Jogos Olímpicos de Moscou em 1980. Os remanescentes da Emenda Jackson-Vanik ainda assombram as relações russo-norte-americanas. Assim sendo, a latitude que a “comunidade internacional” permitiu à China nos anos 1970s, 80s e 90s e já entrada a era pós guerra fria, para exploração ótima de sua economia, foi um luxo não acessível para Gorbachev.

Em segundo lugar, não havia meio pelo qual o estagnado sistema soviético pudesse energizar outras economias, além de agitar a fossa, que foi o objetivo da “glasnost” de Gorbachev. Como ele próprio disse, em tom de lamento, o gerente soviético era como um pássaro com medo de voar e empreender aos céus, mesmo depois de aberta a gaiola.

Medvedev, além disso, também foi parcial, ao dizer que a alienação do cidadão soviético, em relação ao sistema, começou com Gorbachev. No meu modo de ver, Gorbachev herdou a crise de credibilidade do partido comunista soviético.

Bem claramente, uma década inteira antes da era Gorbachev, em 1975, quando pela primeira vez cheguei à União Soviética para trabalhar na embaixada [da Índia] como diplomata, o que mais me chamou a atenção foi a profunda desconexão entre o sistema soviético e o cidadão soviético, e o modo como o cidadão se autoconfinava num mundo surreal, carregado de cinismo.

Para mim, francamente, foi um choque, porque não era o que esperava ver. (Não estou convencido de que o fenômeno do cinismo soviético tenha acabado, sequer depois de dissolvido o sistema soviético. Quem eram os “oligarcas”?).

Quando a URSS afundou salvaram-se todos
Uma terceira grande diferença é a natureza da economia chinesa, muitíssimo diferente da economia soviética (e russa) que depende criticamente da renda das exportações de petróleo. É útil lembrar que Gorbachev, provavelmente, jamais teria tido de ajoelhar-se e suplicar que o ocidente o “resgatasse”, se o petróleo estivesse sendo vendido, digamos, a $15 o barril, em vez dos $8 daquele momento crítico.

Além disso, a União Soviética não tinha indústria de manufaturas fazendo jorrar produtos exportados para o mercado mundial. Para piorar, a União Soviética carregava o peso do “internacionalismo proletário” – farinha de trigo e petróleo para o governo socialista de Najibullah no Afeganistão, por exemplo.

A China, por sua vez, preferiu chamar-se ela própria de “país emergente”, o que a absolve da necessidade de operar como rede de providência para toda a humanidade. A China tampouco está promovendo o socialismo pelo mundo. De fato, a China cuida clinicamente de garantir que praticamente todo o seu dinheiro excedente seja posto só onde se vejam feitos e efeitos que a China deseja obter do que a China faz [1]... Seja na África ou no Sri Lanka.

Mais uma vez, é preciso falar sobre a “formação social”. A URSS esteve muito à frente da China em termos de desenvolvimento social, e mesmo hoje a Rússia tem padrão de vida muitíssimo superior ao do povo chinês, em termos per capita. A questão é que a mente humana precisa ser motivada.

Os cidadãos soviéticos bem letrados, bem educados e intelectualmente lúcidos jamais teriam aceitado o que hoje passa por “reforma econômica”. Esse é o ponto no qual a China tem uma vantagem. Mas o que acontece quando o desenvolvimento social chinês avançar, fizer crescer as expectativas e, claro, no caso de o mercado ser real e genuinamente desamarrado?

Massacre de Gwangiu - milhares de manifestantes foram mortos e feridos pela repressão na Coreia do Sul em maio de 1980
Por acaso, eu morava e trabalhava em Seul no final dos anos 1970s e início dos anos 1980s. Com a sociedade ganhando melhor educação, tornando-se mais próspera, mais dona de suas opiniões, o velho paradigma deixou de funcionar – em outras palavras, enquanto o regime saiu-se bem no front econômico, e enquanto funcionou bem a estratégia de crescimento orientado para a exportação, a política foi irrelevante.

Eu estava lá quando do assassinato do presidente Park Chung-hee em outubro de 1979 (pai do atual presidente democraticamente eleito Park Geun-hye) e do sangrento caso Gwangju em maio de 1980. Vistos em retrospecto, foram as dores do parto da democracia na Coreia do Sul.

A China não tem muito a ganhar com estudar a “queda” da União Soviética – exceto, talvez, sobre os perigos de uma nova Guerra Fria. A União Soviética foi parte da tradição intelectual ocidental; e, a consciência histórica da China e os pontos de atracação cultural são vastamente diferentes. Pode-se dizer que esse é o motivo pelo qual o ocidente põe a barra democrática num ponto muito mais alto para a Rússia, hoje, do que parece interessado em demarcar para a China. 

Considerando que é historiador, a entrevista de Medvedev desaponta.



Nota dos tradutores
[1] Orig. put your money where your mouth is: “mostrar, por ações e não só por palavras, que você apoia ou defende alguma coisa”.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The Hindu, Asia Times Online, Strategic Culture, Global Research e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.