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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Nos EUA: síndrome anti-China


 
O Partido Comunista da República Popular da China (PC-RPC) não se deixará arrastar para guerra sem objetivo, contra os EUA.


23/6/2015, [*] Mike Whitney, Counterpunch [O título foi corrigido]
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 
A China cuida de chegar cada vez mais fundo no interior da Ilha-Mundo, em esforço para remodelar completamente os fundamentos geopolíticos do poder global (...).

Ao construir a infraestrutura para bases militares nos mares do Sul da China e da Arábia, Pequim vai gerando e acumulando capacidade para abalar, estratégica e cirurgicamente, a campanha dos EUA, de contenção (...).

Se a China conseguir conectar suas indústrias em crescimento, aos vastos recursos naturais da Terra Central Eurasiana, nesse caso muito possivelmente (...), o império do mundo ali estará para ela, à vista.

7/6/2015, Alfred McCoy, redecastorphoto em: Geopolítica do Declínio Norte-Americano Global traduzido [orig. The Geopolitics of American Global Decline, The Unz Review].



O futuro da política será decidido na Ásia, não no Afeganistão ou Iraque, e os EUA estarão bem no centro da ação.

(11/10/2011, Foreign Policy, ex-secretária de Estado Hillary Clinton em America’s Pacific Century).

Nova Rota da Seda - Projeto Completo (clique na legenda para aumentar)

A ascensão metórica da China preocupa Washington, não porque a China seja ameaça aos seus vizinhos ou à segurança nacional dos EUA, mas porque a influência da China está em expansão na região.
A China está criando as instituições de que precisa para financiar o próprio desenvolvimento (BAII e Novo Banco dos BRICS), está construindo a infraestrutura de que precisa para conectar os continentes mediante moderníssimas ferrovias de alta velocidade (Nova Rota da Seda) e está atraindo aliados e parceiros de comércio que querem participar no plano chinês para crescimento e prosperidade.
Por isso Washington está preocupada: porque a China converteu-se numa usina de energia econômica que não corresponde ao modelo neoliberal de arrocho punitivo, privatização perniciosa e inflação ensandecida.
A China escapou da órbita do império e mapeou o próprio curso, motivo pelo qual Washington só faz provocar Pequim em torno de uma ações insignificantes de reivindicação de umas poucas terras no Mar do Sul da China. Washington crê que possa ter sucesso militar onde fracassou economicamente e politicamente. Sobre a provocação, vejam o que diz Bloomberg News:
EUA e Japão estão fazendo exercícios militares separados com os filipinos, próximos ao disputado Mar do Sul da China (...). Essas manobras anuais CARAT Philippines de exercícios conjuntos começaram na 2ª-feira (22/6/2015), ao largo da costa leste da ilha Palawan e se estenderão até dia 26/6/2015, segundo o porta-voz da Marinha dos EUA Arlo Abrahamson. Navios filipinos e japoneses estão em manobras também na mesma região, até 27/6/2015, disse o ministro da Força Marinha de Autodefesa do Japão, semana passada.
Os EUA têm apoiado as nações do sudeste asiático, inclusive as Filipinas, enquanto aumentam as tensões com a China, por demandas territoriais no Mar do Sul da China; e o Japão fornece navios de patrulha para a guarda costeira filipina (...). O exercício inclui uma fase no mar, com o submarino USS Fort Worth de combate em águas litorâneas, o USNS Safeguard de mergulho e socorro e um avião P-3 Orion de vigilância, além de, pelo menos, uma fragata filipina, segundo a Marinha dos EUA (...).
Os exercícios japoneses com os filipinos realizam-se em áreas próximas das vizinhas ilhas Spratly, onde a China criou mais de 2 mil acres de terrenos artificiais sobre águas que as Filipinas, Vietnã, Brunei, Taiwan e a Malásia reivindicam como suas. O Japão enviará uma aeronave P-3C anti-submarinos e de vigilância marítima, e 20 soldados. (“U.S., Japan Join Philippines in Navy Drills Near South China Sea”, 21/6/2015, Bloomberg).
Os exercícios “show de força” são concebidos para provocar e intimidar a China. Não têm nenhum outro objetivo.

Protestos nas Filipinas contra manobras militares
EUA-Japão no Mar da China em 24/6/2015

Os EUA quer forçar a China a render-se aos diktats da única potência indispensável, a abandonar todos os seus compromissos com novas instituições que estão sendo criadas, a escancarar seus mercados a empresas norte-americanas & Wall Street, e a deixar que os EUA façam como bem entenderem na redação das regras do comércio mundial. Eis o que Washington realmente quer e motivo pelo qual o moderado Chuck Hagel foi trocado pelo truculento Ashton Carter, como secretário da Defesa.
Os donos do poder nos EUA preferiram um leão-de-chácara, que esmurraria o nariz da China e lhe ensinaria quem manda. Carter é perfeito para a tarefa, burocrata quebra-pernas, que se acha “o mais esperto da rua”. Peter Lee oferece interessante percepção sobre Carter, em postado recente no seu blog China Matters. Diz ele:
(...) o assertivo Ash Carter não faz o policial durão, na parceria com o policial bonzinho Obama/Kerry: Ash é, só ele, todo o show, o que deliciará os fãs do controle militar sobre a política exterior por todos os cantos.
É bom perceber que outros já começam a ver que o Pentágono assumiu completamente a política externa dos EUA. Não há dúvidas de que Carter manda e desmanda na Ásia e Europa.
Lee parece convencido de que Carter permanecerá no posto mesmo depois de Obama já ter sido substituído, se Madame Clinton for eleita. O que não é surpresa, pois foi Clinton quem introduziu o termo “pivô” no léxico estratégico, em discurso que fez em 2010 intitulado “O Século do Pacífico Norte-Americano” [orig. “America’s Pacific Century”]. Naquela apresentação (“America’s Pacific Century”, Secretária de Estado Hillary Clinton, Foreign Policy Magazine, 2011), Clinton expôs os temas básicos que, adiante, seriam convertidos em “alta prioridade” dos EUA, a reorientação do poder dos EUA para o Pacífico Asiático. (...) Disse ela que:
(...) aproveitar o crescimento e o dinamismo da Ásia é central para os interesses econômicos e estratégicos dos EUA. Abrir mercados na Ásia garante aos EUA oportunidades sem precedentes para investimento, comércio e acesso a tecnologia de ponta (...). As empresas norte-americanas precisam pôr a mão na vasta e crescente base de consumidores asiáticos.
Não poderia haver melhor resumo. Tendo reduzido a antiga grande classe média norte-americana a gigantesco cadáver putrefato, incapaz de sustentar sequer uma demanda magra ou algum crescimento, as elites norte-americana estão carregando os barcos e partindo para a China, o Valhalla que brilha prateado sobre a colina. Clinton dá a impressão de supor que deva ser facílimo entrar naqueles potentes mercados asiáticos, desde que os EUA empurremos nossas ambições mais alucinadas com dose forte de diplomacia de canhão – que é onde o capataz Carter entra em cena.
Ash Carter em ação!


Mas Clinton não inventou, ela mesma, o tal pivô: a coisa foi-lhe ensinada em rápidas lições pelo cérebro do pivô, Kurt M. Campbell. Campbell é co-fundador e ex-presidente do Center for a New American Security. Segundo o website desse Center for a New American Security:
De 2009 a 2013 [Campbell] serviu como Secretário de Estado Assistente para Assuntos do Leste da Ásia e Pacífico, onde [sic] lhe são atribuídos os créditos por ter arquitetado o “pivô para a Ásia”. Naquela função, o Dr. Campbell elaborou ampla estratégia norte-americana que o levou aos mais distantes pontos da região do Pacífico Asiático, onde advogou incansavelmente a favor de interesses norte-americanos, particularmente na promoção do comércio e investimentos.
Numa recente entrevista em vídeo com o neoconservador Robert Kagan, Campbell regurgita a mesma retórica que já se ouviu no discurso da Clinton. Para ele,
A maior parte da história do século 21 [sic] estará na região do Pacífico Asiático (...). É do mais alto interesse nacional dos EUA mostrar que desempenharemos papel central naquele drama, assim como já o fizemos no século 20 (...). [Os dois partidos] reconhecem que nossa presença militar é nosso tíquete de entrada para o grande jogo no Pacífico Asiático. (Foreign Policy, vídeo a seguir [em inglês]).
Parece haver consenso crescente de que os militares norte-americanos seriam a perfeita ferramenta para persuadir a China a desistir. Mas... será que é?
A última coisa que o governo Obama deseja é guerra a tiros com a China, principalmente porque a China tem meios para retaliar, e não só militarmente. Explico-me:
Segundo o cientista político Pang Zhongying, a relação atual entre China e os EUA é relação como nunca antes houve na história das relações internacionais (...). O nível de interdependência entre China e EUA é sem precedentes. Antes dos anos 1970s, ninguém poderia sequer imaginar que esses dois países seriam interdependentes na escala em que hoje são. Naquele momento, só existia interdependência entre EUA e Europa, ou dentro do G7, no máximo. O atual nível de interdependência jamais antes existiu entre EUA e China.
Em outras palavras, os dois países precisam um do outro e estão interligados por uma rede complexa de laços financeiros e econômicos, inclusive o 1,3 trilhão de papéis da dívida norte-americana, guardado em cofres chineses. Essa interdependência implica que os EUA não podem abusar no caso da China, como abusaram no caso da Rússia, sem que os próprios EUA se ponham em grave risco.
Assim sendo, apesar de os EUA ainda manterem posição economicamente e militarmente dominante, não podem simplesmente jogar o bom-senso e a cautela pela janela, e impor sanções, ou escalar nas hostilidades e provocações, além de um certo ponto, sem que os EUA ponham em risco a própria segurança. A China sabe disso, razão pela qual continuará a fazer avançar agressivamente a própria agenda, ao mesmo tempo em que vai evitando do melhor modo possível a beligerância e a hostilidade dos EUA.
(Dica de Pepe Escobar) (clique na legenda para aumentar)

A República Popular da China (RPC) continua comprometida com o “desenvolvimento pacífico”. O antagonismo dos EUA é apenas mais um dos muitos obstáculos que a China terá de superar para dar realidade aos seus planos para integrar toda a massa de terra eurasiana num grande (o maior) e próspero bloco comercial. Basta conferir mais um trecho do artigo seminal de Alfred McCoy (Geopolítica do Declínio Global dos EUA, traduzido em redecastorphoto):
Simultaneamente, a liderança chinesa começou a colaborar com estados vizinhos, num programa massivo para integrar a rede nacional de ferrovias numa grade transcontinental. A partir de 2008, alemães e russos uniram-se aos chineses para lançar a “Ponte Terrestre Eurasiana” (também chamada “Nova Rota da Seda”). Duas vias leste-oeste, a antiga Trans-Siberiana no norte e uma nova rota que acompanha o traçado da antiga Rota da Seda, pelo Cazaquistão, devem conectar toda a Eurásia. (...)
Em abril, o presidente Xi Jinping assinou acordo com o Paquistão para gastar US$ 46 bilhões num Corredor Econômico China-Paquistão. Rodovias, conexão com ferrovias e oleogasodutos estender-se-ão por 3.218 km, de Kashgar em Xinjiang, no extremo oeste da China, até o porto de Gwadar, no Paquistão, inaugurado em 2007. A China investiu mais de US$ 200 bilhões na construção desse porto estratégico em Gwadar, no Mar da Arábia, a apenas 600 km do Golfo Pérsico. (...)
Ao construir a infraestrutura para bases militares nos mares do Sul da China e da Arábia, Pequim vai gerando e acumulando capacidade para abalar, estratégica e cirurgicamente, a campanha dos EUA, de contenção.
Aí está, hein?! O fim de um império e o começo de outro.
O Partido Comunista da China de modo algum permitirá que sua grande oportunidade escape, deixando-se sugar para dentro de uma guerra dispendiosa e sem sentido, contra os EUA. Seria ridículo. Os chineses continuarão a conectar ferrovias com ferrovias, rodovias com rodovias, estradas cibernéticas com estradas cibernéticas, até que a Nova Rota da Seda se torne realidade.
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[*] Mike Whitney é escritor e jornalista norte-americano que dirige sua própria empresa de paisagismo em Snohomish (área de Seattle), WA, EUA. Trabalha regulamente como articulista freelance nos últimos 7 anos. Em 2006 recebeu o premio Project Censored por uma reportagem investigativa sobre a Operation FALCON, uma massiva, silenciosa e criminosa operação articulada pela administração Bush (filho) que visava concentrar mais poder na presidência dos EUA. Escreve regularmente em Counterpunch e vários outros sites. É co-autor do livro Hopeless: Barack Obama and the Politics of Illusion (AK Press) o qual também está disponível em Kindle edition.
Recebe e-mails por: fergiewhitney@msn.com

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O novo confronto militar Oeste-Leste

13/8/2013, [*] Manlio Dinucci, Il Manifesto, Itália
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Vladimir Putin
Depois que Putin voltou à presidência, a Rússia reforçou sua “retórica antiamericana”, servindo-se de “velhos estereótipos da guerra fria”: foi o que declarou o presidente Obama, depois de cancelar encontro entre os dois previsto para setembro. A gota d’água que fez transbordar o jarro foi o asilo concedido pela Rússia a Edward Snowden, culpado por ter tornado públicas as provas de que os serviços secretos dos EUA espionam todo o mundo e todos. Mas há outra coisa.

Moscou opõe-se ao “escudo antimísseis”, que permitiria aos EUA lançar um primeiro ataque nuclear sabendo que poderiam neutralizar a resposta. Moscou opôs-se à ulterior expansão da OTAN para o leste e ao plano de EUA-OTAN de demolir a Síria e o Irã, no quadro de uma estratégia que tem por alvo a região do Pacífico Asiático. Moscou percebe tudo isso como uma tentativa de obter ampla vantagem estratégica sobre a Rússia (e, depois da Rússia, sobre a China).

Frank Gorenc
Não seriam mesmo “velhos estereótipos da guerra fria”? Parece que não, se se considera o plano anunciado pela OTAN dia 8 de agosto. O plano prevê “manobras militares mais ambiciosas e mais frequentes”, sobretudo nas regiões próximas da Rússia. De 25 de agosto a 5 de setembro, caças-bombardeiros da OTAN [inclusive italianos e franceses (notas do autor italiano e do tradutor francês)], com dupla capacidade, nuclear e convencional, participarão na Noruega das manobras “Brilliant Arrow” [Flecha brilhante] do Comando Aéreo aliado, no comando das quais estará o recém-nomeado general Frank Gorenc, que também comanda as forças aéreas dos EUA na Europa.

Depois, em novembro, haverá manobras aéreas, “Steadfast Jazz” [Jazz invencível], com deslocamento de caças-bombardeiros da OTAN na Polônia, Lituânia e Letônia, para a fronteira russa. Em setembro-outubro, navios de guerra da OTAN participarão da grande manobra “Brilliant Mariner” [Marinheiro brilhante] no Mar do Norte e no Mar Báltico. Está também previsto o envio de outros navios da OTAN para o Mar Negro, onde em julho aconteceram as manobras “Sea Breeze 2013” [Brisa do mar 2013], das quais participaram marinheiros de dez países [1] [inclusive Itália e, como observadora, a França, ao lado de Qatar, Emirados Árabes Unidos e Líbia] sob as ordens do Comandante das Forças Navais dos EUA na Europa, que também comanda a força conjunta aliada em Nápoles.

Veículos anfíbios participam da  operação Sea Breeze 2013 na Ucrânia

Os EUA e os aliados da OTAN estão pois em operação para aumentar a pressão militar sobre a Rússia, a qual, evidentemente, não se limita ao que Obama chama de uma “retórica antiamericana”. Depois que os EUA decidiram instalar um “escudo” de mísseis na ilha de Guam, no Pacífico ocidental, o comando das forças estratégicas russas anunciou que está construindo um novo míssil de 100 toneladas, “capaz de ultrapassar não importa qual seja o sistema de defesa antimísseis”. Daqui ao fim do ano, haverá 16 lançamento experimentais de mísseis balísticos intercontinentais de vários tipos. E o primeiro submarino nuclear da nova classe Borey já está navegando: tem 170 metros de comprimento, capaz de submergir a 450 metros de profundidade, armado com 16 mísseis Bulava. Com raio de 9 mil km e dez ogivas nucleares múltiplas independentes, pode manobrar para evitar mísseis de interceptação. O novo submarino é um dos oito que a Marinha russa receberá de agora até 2020 (para substituir modelos antigos), com 19 submarinos multitarefa e 54 unidades de superfície.

Submarino estratégico russo Classe Borey
(clique na imagem para ler e visualizar os dados técnicos)
Sobre tudo isso, os jornais e televisões europeus, sobretudo os italianos, campeões de desinformação [em disputa cerrada pelo título com os veículos franceses (e sobre os brasileiros, então, melhor nem começar a falar!) (Nota dos vários tradutores)], guardam silêncio quase total. Por isso, a maioria das pessoas tem a impressão de que a guerra só ameaça regiões “turbulentas”, como o Oriente Médio e a África do Norte, sem se darem conta de que a “pacífica” Europa está em vias, outra vez, de ser empurrada para a frente de uma estratégia dos EUA, na primeira linha de uma confrontação militar em nada menos perigosa que a da guerra fria.



[*] Manlio Dinucci é geógrafo e geopolíticólogo italiano. Últimas publicações : Geocommunity Ed. Zanichelli 2013 ; Geografia del ventunesimo secolo, Zanichelli 2010 ; Escalation. Anatomia della guerra infinita, Ed. DeriveApprodi 2005.

Nota dos tradutores franceses
[1] Azerbaijão, Bulgária, Canadá, Geórgia, Alemanha, Itália, Romênia, Turquia, Ucrânia e EUA.

domingo, 21 de julho de 2013

Snowden: Hora da verdade para Rússia e EUA

19/7/2013, [*] M K Bhadrakumar, Asia Times Online
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Durante a reunião do Grupo dos Oito na Irlanda do Norte, mês passado, o presidente Vladimir Putin da Rússia, segundo o diz-que-disse dos bastidores diplomáticos, quis usar o ginásio para exercitar-se, no resort Enniskillen. Não conseguiu, porque Barack Obama já o havia requisitado.

Putin nadando no Lough Erne (Irlanda do Norte) numa folga da última reunião do G8
Nenhum dos dois gostaria de partilhar os aparelhos, e Putin optou por um mergulho e braçadas no gelado Lough Erne, aventura excessiva para os músculos e histamina de Obama. É possível que sejam só bobagens, mas a historieta captura a situação incômoda em que estão, hoje, as relações Rússia-EUA.

Se a ninguém ocorrera que a clara linguagem corporal na reunião em Enniskillen revelava que as relações EUA-Rússia atingiam ali o ponto mais baixo em muitos anos, o caso de Edward Snowden, ex-funcionário e “vazador” de segredos da CIA, mostra que elas provavelmente piorarão ainda mais, antes de darem qualquer sinal de melhora.

Na Irlanda do Norte, Putin e Obama coabitaram numa mesma pequena cidade de veraneio. Segundo recentes indicações, Obama, irritado com a decisão do Kremlin de dar abrigo a Snowden, talvez cancele a visita bilateral a Moscou, em setembro, antes da reunião do Grupo dos 20 em São Petersburgo, que ele mesmo propôs.

As coisas estão mais frias que as águas do Lough Erne...
Por que as coisas chegaram a esse ponto? Em parte, pelo menos, a situação atual foi provocada por Pequim, querendo ou sem querer, quando meteu Snowden num voo da Aeroflot para Moscou, já sabendo que, porque Washington revogara seu passaporte, ele não teria documentos válidos para prosseguir viagem depois que o avião pousasse no aeroporto em Sheremetyevo.

Fyodor Lukyanov
Como Fyodor Lukyanov, figura importante no establishment da comunidade estratégica russa, observou em artigo no jornal oficial Rossiyskaya Gazeta na 3ª-feira,

Os serviços de inteligência da República Popular da China que meteram o americano num avião para Moscou e o convenceram de que estaria melhor lá merecem todos os elogios de seus chefes, porque pouparam a Pequim uma grande dor de cabeça. O resto foi menos bem feito.

Não há dúvida alguma de que Pequim agiu movida por diferentes motivos, para impedir que Snowden sequestrasse o nascente Novo Tipo de Relacionamento [orig. NTR - New Type of Relationship] entre China e governo Barack Obama. 

A China não extraiu bons efeitos de propaganda do caso Snowden, mas conseguiu livrar-se de ter de tomar decisões difíceis sobre o destino final do americano. Continua a criticar a Washington a “hipocrisia” de admitir ciberespiongem massiva, em escala gigante, contra países soberanos, e, ao mesmo tempo, forçou Moscou a responder a padrões de respeito a direitos humanos muito mais exigentes que os antes vigentes.

Desnecessária e mal feita

Mas a culpa, de fato, foi de Moscou, que errou ao não exercer a opção de deportar Snowden de volta a Hong Kong quando transpirou que o viajante em trânsito não portava documentos válidos para prosseguir viagem – que é prática usual e frequente. Não. Moscou optou por adotar uma saída formal legalista, segundo a qual Snowden não pisou território russo; e meteu-o sob uma redoma de segurança desnecessária e mal feita.

A invisível presença de Edward Snowden em Moscou
Mas, diferente do total e eficaz voto de silêncio em Pequim, começaram a surgir todos os tipos de comentários sobre a invisível presença de Snowden em Moscou, de fontes que iam de funcionários do governo russo a especialistas midiáticos em geral e políticos conhecidos, o que só conseguiu dar a impressão de que Moscou estaria num jogo de preliminares íntimas com Washington; e fez subir as expectativas de que fosse possível acertar algum acordo, talvez, com os EUA.

Por tudo isso, Moscou não pode agora começar lamentar-se de que Snowden tornou-se filho não desejado.

Washington, por sua vez, manteve sempre, consistentemente, a mesma linha, a partir do presidente Obama – que disse que, de modo algum haveria “manobras e conversas” com Moscou sobre Snowden; e que a Rússia tinha obrigação de expulsar Snowden que cometera crime grave conforme as leis dos EUA e teria de ser julgado por tribunais norte-americanos nos EUA.

William Burns
Os EUA também fizeram saber que nenhuma falta de cooperação de Moscou deveria contaminar negativamente as relações bilaterais.

O fato de um vice-secretário de Estado de alto nível, William Burns, velho e experiente operador dos EUA em Moscou, ter sido designado para administrar o caso Snowden mostra a importância que o governo Obama atribui à missão de tentar convencer os russos de que o Kremlin tem base legal suficiente e razões práticas para expulsar para os EUA um fugitivo sem documentos legais para viajar. É o mesmo que dizer a visita de Burns foi visita política.

Mas a posição que Moscou adotou é também absolutamente correta e legal. E, além disso, foi erigida sobre princípios morais “melhores”: a noção de que potência realmente grande e forte não pode deixar de lado ou desconsiderar as sempre importantes “considerações humanitárias”.

Acabaram-se as manobras e conversas

Mas a Rússia também espera que as relações Rússia-EUA continuem como se nada tivesse acontecido, tão logo mudem os ventos do interesse midiático, como tantas vezes aconteceu durante a Guerra Fria, apenas mais um caso a ser resolvido entre os dois governos. Eis como Lukyanov concluiu seu artigo:

Edward Snowden muito provavelmente logo obterá asilo temporário na Rússia, como ele mesmo disse; mas talvez permaneça por muito tempo na Rússia. Porque as circunstâncias que impedem que volte para casa ou mude-se para algum país da América Latina não desaparecerão tão cedo. Moscou e Washington têm interesse em que o caso seja esquecido o mais rapidamente possível e desapareça das manchetes. Só então será possível discutir tudo sem publicidade indesejada, para arrancar esse espinho cravado na carne das relações entre os dois países.

Kurmanbek Bakiyev
Lukyanov lembrou uma “solução elegante” construída em 2010 entre EUA e Rússia, quando o presidente Kurmanbek Bakiyev do Quirguistão foi derrubado e interessava simultaneamente a Moscou e Washington alocar o deposto chefe de Estado centro-asiático. Bakiyev, naquela ocasião, foi despachado para Minsk.

O governo Obama aceitaria alguma espécie de “fórmula Minsk” no caso Snowden? Eis a grande questão – e parece pouco provável que aceite, porque implicaria Washington fazer, essencialmente, o que Obama disse que não faria, a saber, “manobrar e conversar” com Pequim ou Moscou sobre o destino de Snowden.

Portanto, tudo considerado, aproxima-se uma difícil hora da verdade para Moscou e Washington no relacionamento pós-Guerra Fria. Para Moscou, nada menos que uma crise de identidade; para Washington, o que falta é uma sessão de terapia catártica no divã, que ajude os EUA a se entender melhor.

Para a Rússia, o caso Snowden exige um reboot na doutrina do Kremlin para a política exterior. Até aqui, tem sido política exterior carregada de “interesses nacionais”. Agora, a ideologia volta à cena. Talvez não a ideologia marxista, mas, ainda assim, uma ideologia humanista que dá primazia a “considerações humanitárias” na política exterior.

Até que ponto a Rússia pode praticar um política exterior carregada de ideologia, em mundo dividido por desigualdades, violência e autoritarismo? Isso é uma coisa.

A segunda pergunta é se influentes setores das elites russas aceitarão realmente a situação de serem confinadas a um ostracismo social pelo ocidente, que veem como seus parceiros naturais no norte?

O coração da matéria é que a aliança trans-Atlântica está sendo afinal montada, apesar de um ou outro eventual solavanco, e é questão que fere o orgulho norte-americano e faz os EUA aparecerem aos olhos do mundo como superpotência impotente, se os aliados dos EUA não puderem continuar a negociar normalmente com a Rússia.

Por outro lado, dada a formação social da Rússia no período pós-soviéticos, é improvável que a nata das elites moscovitas considere Bolívia ou Equador como destinos admissíveis para elas mesmas, sendo necessário, em substituição a Londres ou Zurich.

Isso nos leva a uma terceira pergunta, que concerne à ordem mundial na qual a Rússia precisa operar. Que ninguém se engane e suponha que os EUA reagirão positivamente a qualquer decisão que envolva “asilo” para Snowden – temporário ou outro. Se acontecer, o que virá?

BRICS
Até aqui, toda a trajetória das relações russo-americanas pós-soviéticos tem sido não confrontacional. Isso pode mudar. E é reflexo da ordem mundial na qual a Rússia tem de viver que, afinal, três (ou mesmo quatro, se se inclui a África do Sul) dos parceiros BRICS da Rússia (Brasil, Índia e China) sequer teriam considerado o curso de ação que Moscou parece estar escolhendo; a saber, dar abrigo a fugitivo da lei dos EUA, movidos por “considerações humanitárias”.

Reescrever a história do “velho Boris”

Em resumo, o caso Snowden exige que a Rússia defina o tipo de relacionamento que busca com o ocidente. Sim, é verdade, a Rússia está habituada a viver sob sanções ocidentais; mas naquele tempo era vida difícil não por escolha, mas por ausência de alternativa. Há limitações inerentes para a renovação e a globalização da economia russa sem a tecnologia e os investimentos ocidentais – por mais que se fale da “opção China”, do projeto da União Eurasiana ou da participação na Organização Mundial do Comércio.

Dito em palavras mais simples, Washington espera que a Rússia coopere – exatamente como Espanha, Itália, França e Portugal cooperaram e bloquearam a passagem do avião do presidente Evo Morales quando houve suspeitas de que Snowden estivesse a bordo – por mais furiosos que esses países estivessem em relação à ciberespionagem norte-americana. No mínimo, Washington esperaria da Rússia o mesmo grau de “pragmatismo”, que Pequim mostrou no caso Snowden.

Pode-se dizer que a armadilha que o governo Obama pôs no caminho da Rússia parece ser de a Rússia estar forçada a fazer uma escolha existencial sobre sua própria identidade e seu próprio papel como grande potência, de alcance e influência globais.

Bill Clinton e Strobe Talbott
Não é justo, porque os EUA até hoje só exigiram e exigiram, no relacionamento com a Rússia, sem atender nenhum dos pedidos dos russos. Como Bill Clinton disse certa vez ao ex-vice-secretário de Estado Strobe Talbott, num súbito surto de honestidade, quando Clinton era presidente e Boris Yeltsin estava no Kremlin:

Nós [EUA] nem sempre jogamos muito bem com aquela gente [russos]; nunca pensamos em um modo de dizer sim a eles, pensando em o quanto, quantas vezes, o quão frequentemente, quisemos que eles dissessem sim a nós. Só fazemos repetir ao Velho Boris, “OK, aqui está o que vocês têm de fazer – é mais merda na sua cara”.

Hoje, o governo Obama tem de considerar, nesse caso, que a equipe russa de Bill Clinton ainda continua quase totalmente intacta no circuito de Washington, apesar de o Velho Boris já ter deixado o Kremlin há 12 anos e seis meses. Dito em outras palavras, a Rússia não aceitará, dessa vez, “mais merda na cara”.

Se o governo Obama ainda tem alguma dúvida, as manobras militares das Forças Armadas russas, sem precedentes, que acontecem essa semana no Extremo Oriente devem fazer desaparecer qualquer vício de interpretação.

A Rússia não tem inimigos no Extremo Oriente. Nem a Rússia precisa preparar-se para qualquer provável guerra contra Japão, China ou Coreia do Norte. Nem seus famosos bombardeiros estratégicos Tu-95MS estão em prontidão para tarefas em tempo real.

A verdadeira mensagem daqueles exercícios militares que terminarão no sábado, que envolvem 160 mil soldados, cinco mil tanques e veículos blindados de combate, 160 aeronaves e helicópteros de longo alcance, transporte militar, aviação de combate, de bombardeio e do exército, além de 70 navios e barcos de combate armados – é que foram ordenados pelo Kremlin em apenas 48 horas, sem qualquer preparação prévia não rotineira. E aconteceram e foram executados com precisão de relógio.

Manobras em Tsugol - rápidas e precisas...
A presença do presidente Vladimir Putin em Tsugol, no 247º Distrito Militar do Leste, na 4ª-feira, mostra bem claramente que o Velho Boris já é história. E que também já é história o triunfalismo dos EUA no período pós-soviético.

Em resumo, a jogada do “reset” EUA-Rússia, que Obama inventou para seu primeiro mandato, já esgotou o prazo de validade e já não serve para nada. Nenhum engajamento seletivo da Rússia será doravante possível ou suficiente. A Rússia exige parceria compreensiva, entre iguais, baseada em respeito mútuo.

O caso Snowden é prova de que Washington precisa voltar com urgência à lousa e aos mapas, e reescrever novo rascunho de suas relações com a Rússia – semelhante ao Novo Tipo de Relacionamento [orig. NTR - New Type of Relationship], que a China está exigindo.
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[*] MK Bhadrakumar foi diplomata de carreira do Serviço Exterior da Índia. Prestou serviços na União Soviética, Coreia do Sul, Sri Lanka, Alemanha, Afeganistão, Paquistão, Uzbequistão e Turquia. É especialista em questões do Afeganistão e Paquistão e escreve sobre temas de energia e segurança para várias publicações, dentre as quais The HinduAsia Times Online e Indian Punchline. É o filho mais velho de MK Kumaran (1915–1994), famoso escritor, jornalista, tradutor e militante de Kerala.