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domingo, 12 de abril de 2015

Conflicts Forum: Conservadores no “ocidente”: a guerra interna

10/4/2015, Conflicts Forum’s Weekly Comment, 6-13 March 2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


O que se conhece como neoconservadores não são realmente conservadores, assim como os neoliberais não são liberais, no sentido clássico das palavras. São de algum modo assemelhados, mas não são exatamente a mesma coisa. 
O neoliberalismo norte-americano cresceu em íntima parceria com o neoconservadorismo, como um ramo da “Escola de Chicago” nos anos 1970s e 1980s  e partilham uma certa visão de época; mas, enquanto os neoliberais enfatizam a restruturação da economia global, a desregulação e a privatização, os neoconservadores são mais focados em acumular poder executivo e na necessidade de manter centralizado esse poder.


Philip Breedllove
Em artigo que marca diferença significativa do discurso habitual, a principal revista política alemã, Der Spiegel, fustiga furiosamente dois generais da OTAN por terem mentido (como realmente mentiram) ao acusar a Rússia de estar escalando numa inexistente intervenção militar na Ucrânia (quando, na verdade, vivia-se um breve período de cessação de hostilidades entre Kiev e o Donbass, depois de Minsk-2).

O governo alemão está alarmado – o artigo alerta – Estarão os norte-americanos tentando fazer gorar os esforços de mediação na Europa liderados pela chanceler Angela Merkel? Fontes na chancelaria referiram-se às palavras de [general norte-americano] Breedlove como “perigosa propaganda”.

A ira de Berlin é dirigida conta a “5ª coluna” em Washington

Conforme se avança na leitura do artigo, contudo, vê-se claramente que o alvo da irritação de Berlim nem é tanto o governo norte-americano per se, mas, mais os “falcões” (os chamados neoconservadores) em termos gerais:

No que tenha a ver com o serviço de entregar armas à Ucrânia, [Victoria] Nuland e [o general] Breedlove trabalham de mãos dadas. No primeiro dia da Conferência de Segurança de Munique, os dois reuniram toda a delegação norte-americana, a portas fechadas, para expor a estratégia dos EUA para quebrar a resistência europeia contra armar Kiev (...) Quem primeiro falou foi Nuland (...) “Vocês têm de repetir sem parar que a Rússia está levando mais e mais “coisa” [orig. offensive stuff] ofensiva para lá, enquanto nós queremos ajudar os ucranianos a defender-se contra esses sistemas”, disse Nuland.

Mas não é só sobre a Ucrânia, ou no que tenha a ver com demonizar o presidente Putin, que os neoconservadores estão trabalhando organizadamente para promover seus objetivos ideológicos: está acontecendo o mesmo no que tenha a ver com o empenho total dos mesmos neoconservadores para fazer naufragar as negociações com o Irã e para repor na pauta o objetivo de derrubar o presidente Assad.

O que de fato há por trás desses confrontos políticos é uma furiosa campanha ideológica, que está sendo construída pelos neoconservadores, contra outro ramo de conservadorismo, pode-se dizer, com “c” minúsculo.

Esse conservadorismo com “c” minúsculo é mais enraizado no “conservadorismo” de Edmund Burke (filósofo político irlandês do século XVIII), mais cauteloso, às vezes com toques de pessimismo, no que concerne às misérias da natureza humana; mais cético sobre a eficácia dos governos; e que, por tudo isso, prefere limitar a intrusão dos governos na vida dos cidadãos; e que, sobretudo, desconfia profundamente de todos e quaisquer projetos grandiloquentes e ideológicos. O conservadorismo de Burke tem raízes na mesma filosofia do século XVIII que originou o conservadorismo mais radical.

Na verdade, o que se conhece como neoconservadores não são realmente conservadores, assim como os neoliberais não são liberais, no sentido clássico das palavras. São de algum modo assemelhados, mas não são exatamente a mesma coisa. O neoliberalismo norte-americano cresceu em íntima parceria com o neoconservadorismo, como um ramo da “Escola de Chicago” nos anos 1970s e 1980s – e partilham uma certa visão de época; mas, enquanto os neoliberais enfatizam a restruturação da economia global, a desregulação e a privatização, os neoconservadores são mais focados em acumular poder executivo e na necessidade de manter centralizado esse poder.

Essas duas orientações do conservadorismo (o neoconservador e o conservadorismo burkeano) estão hoje engalfinhados em luta de vida ou morte. É luta amarga, com os dois lados ameaçados pelos revides gerados pelo impacto gravemente reacionário e regressivo de suas políticas. Como Stephen Walt notou, os neoconservadores jamais admitem os erros de suas políticas (as guerras, os golpes, as tentativas de “mudança de regime”, etc.), nem pedem desculpas; simplesmente insistem e prosseguem, sem tomar conhecimento do mundo.

Vemos essa divergência ideológica mais evidente nas ambiguidades inerentes ao modo como os anglo-saxões abordam o presidente Putin e a Rússia: o conservador burkeano compreendia, originalmente, os movimentos do presidente Putin na Crimeia e no leste da Ucrânia, mas, porque absolutamente não alimenta nenhuma fé na honestidade humana, já começou agora a suspeitar de que Putin talvez tenha ambições mais amplas; além disso, seja como for e em todos os casos, o conservador burkeano é inerentemente hostil a qualquer tipo de “homem forte nacional”, que Putin parece encarnar (porque implica ameaça de intrusão na esfera privada do cidadão – precisamente o que os conservadores burkeanos mais abominam).

Os neoconservadores, por sua vez, simplesmente demonizaram o presidente Putin sem parar e desde o primeiro momento, e deixam claro que querem vê-lo pelas costas – querem “mudança de regime” na Rússia, e já. Os conservadores burkeanos, com sua desconfiança inerente contra qualquer tipo de poder, foram, com o tempo, tornando-se mais permeáveis à demonização do presidente Putin e da Rússia obrada pelos neoconservadores – e com a maré de opinião acompanhando os neocons.

MUDANÇA DE REGIME?
Sequência similar de eventos aconteceu com respeito à Síria e ao Presidente  Assad (embora, nesse caso, a maré esteja agora crescendo na direção do ponto de vista dos burkeanos).

A orientação burkeana do conservadorismo não quer guerra com a Rússia (acreditando que, em todos os casos, o ocidente sempre poderá retroceder, antes que se chegue à guerra), e aceitaria a ideia da chanceler alemã, para quem a agressividade da OTAN e de Victoria Nuland é, simplesmente, a “voz” do projeto ideológico neoconservador – no esforço para arrastar a Europa para seus delírios de derrubarem Putin. Na visão burkeana, é importante alertar Putin para que respeite “os limites”, mas não, evidentemente, em nenhum caso, deixar que o confronto chegue à guerra (os burkeanos tradicionalmente desconfiam da guerra como instrumento de política por meios militares – e chamariam a atenção para todas as recentes guerras em que os EUA envolveram-se, das quais nenhuma alcançou qualquer articulação política bem-sucedida em termos políticos).

Há talvez aqui, evidente na expressão burkeana, uma certa paixão, baseada no pressuposto de que Obama partilharia suas opiniões (para eles, Obama seria instintivamente burkeano), de que o presidente dos EUA apenas deixará passar a fúria neoconservadora e confiará nas sanções e nas manobras com o preço do petróleo para fixar os limites para Putin (ou para o Irã). Pode até ser verdade no que tenha a ver com instintos burkeanos em Obama, mas, ao mesmo tempo, os neoconservadores estão criando fatos consumados: estão “metendo as massas pela ponte” (em termos trotskistas [1]), com as repetidas “visões” de Breedlove, que vê soldados russos por todos os lados.

Der Spiegel  mais uma vez:

Os líderes alemães em Berlin estão pasmos. Não compreendem o que Breedlove anda dizendo. E não é a primeira vez. Mais uma vez, o governo alemão, apoiado em inteligência coletada pela Bundesnachrichtendienst (BND), agência alemã de inteligência estrangeira, absolutamente não partilha a visão do Comandante do Supremo Comando Aliado na Europa da OTAN [orig. Supreme Allied Commander Europa (SACEUR)].

O padrão parece estar-se repetindo. Durante meses, Breedlove foi ouvido em comentários sobre atividades russas no leste da Ucrânia, sempre falando de avanços de tropas na fronteira, acumulação de munição e supostas colunas de tanques russos. Sempre os números de Breedlove eram significativamente mais altos que os números com que trabalham os aliados europeus dos EUA na OTAN. O que se vê, é que o general está completamente controlado pelos linhas-duras no Congresso dos EUA e na OTAN.

A dificuldade para ler corretamente os sinais norte-americanos

É claro pois que não se trata de debate acadêmico sobre o conservadorismo “ocidental”: trata-se de amarga e furiosa luta ideológica, em curso em Washington e em algumas partes da Europa. E essa “guerra” na esfera anglo-europeia está progressivamente projetando a sua própria desintegração interna e o próprio caos, para o mundo exterior – o que já estava muito claramente evidente na carta aberta ao Irã enviada pelos 47 senadores norte-americanos do Partido Republicano, carta na qual dizem, essencialmente, que os iranianos não devem acreditar no que o presidente Obama lhes diga, sobre algum acordo nuclear; ou no movimento ensandecido de Breedlove, que inventou, literalmente, uma invasão militar russa na Ucrânia, para convencer os europeus a fornecer armamento letal aos neonazistas de Kiev. Essa amarga luta ideológica está gerando incoerência estratégica em muitas esferas, inclusive na “guerra contra o ISIS”, caso em que os “falcões” têm uma agenda (derrubar o presidente Assad e enfraquecer o Irã) e os burkeanos têm outra (enfraquecer e degradar o ISIS).

Essa projeção da desintegração interna do “ocidente” implica consequências bem claras: uma das características dos sistemas caóticos é que qualquer mínimo erro, por pequeno que seja, no que entra no sistema, pode gerar resultados gigantes e completamente inesperados, no que sai do sistema. Os sistemas caóticos, além disso, podem passar por vários diferentes estágios ou fases, mas, no final, essas fases misturam-se e vão-se tornando também cada vez mais caóticas. Em resumo, sistemas caóticos são imprevisíveis e incontroláveis. E o problema, no caso que estamos comentando, está, precisamente, nos “mínimos” sinais de entrada.

Embora os conservadores burkeanos talvez esperem que os russos lerão corretamente o movimento ocidental, e que o presidente Putin saberá distinguir acertadamente entre o que fazem os neoconservadores ensandecidos e os instintos burkeanos de mais moderação do presidente Obama, pode acontecer de não ser bem assim. Uma das razões (de porque é possível que os observadores externos não consigam entender coisa alguma) é a decisão de Obama, desde o início de seu governo, de construir uma administração de inimigos ideológicos – neoconservadores, neoliberais, liberais clássicos e burkeanos – todos apertados uns contra os outros no mesmo governo (e brigando sem parar, feito cão e gato). O atual governo dos EUA é nada, nem é uma coisa, nem é outra.

Mais que isso, ainda que o próprio Obama seja (talvez com razão) considerado como instintivamente burkeano, a ênfase que dá à “excepcionalidade” e à “indispensabilidade” dos EUA é puro neoconservadorismo à Carl Schmitt, cortesia da Escola de Chicago. Assim sendo, como se pode esperar que os russos consigam distinguir entre os dois movimentos e ver qual a real “intenção” dos EUA em relação à Rússia? Eles não conseguem – porque os sinais são incoerentes demais. Nessa situação, os russos têm, evidentemente, de se preparar para o pior.

Mas, tão acertadamente quanto no diagnóstico sobre a dificuldade de saber se se levam a sério ou não os instintos de Obama, Der Spiegel também observa que:  

Barack Obama parece quase isolado. Por um lado, até agora está dando todo apoio aos esforços diplomáticos de Merkel, mas, ao mesmo tempo, nada faz para calar os que tanto trabalham para aumentar as tensões com a Rússia e entregar armas a Kiev. Fontes em Washington dizem que “Breedlove nada diz que não passe, antes, pelo crivo da Casa Branca e do Pentágono”. O general, dizem as fontes, tem o papel do “super falcão”, cuja tarefa é aumentar a pressão sobre parceiros transatlânticos mais reservados, dos EUA. 

Mas, se Breedlove ainda terá de atuar mais pesadamente sobre seus parceiros europeus, a retórica belicosa do general e de outros já resultou num output diferente e inesperado, do sistema em geral, que dificilmente poderia ter sido planejado: pelo menos entre o povo russo, os EUA já aparecem sob luz muito mais negativa, até, que durante a Guerra Fria. 81% dos russos declararam que agora têm opinião desfavorável sobre os EUA – porcentagem que dobrou ao longo do ano passado (e 71% dos russos têm hoje opinião desfavorável sobre a União Europeia). Fracasso retumbante do plano que previa que, quanto maior a pressão norte-americana, mais rapidamente Putin seria rejeitado pelo povo russo.


Por tudo isso, será que o verdadeiro Obama poderia “levantar-se”, por favor, para que todos o vejam? A OTAN está sendo mobilizada e a Rússia e os russos também já se preparam para a guerra. Os aspectos técnicos da mobilização, mesmo cem anos depois da Grande Guerra, são automáticos (embora, hoje, mais tecnologicamente automatizados), mas nem por isso se deve esquecer o momento em que, dia 1º de agosto de 1914, o Kaiser Wilhelm tentou deter a mobilização dos exércitos alemães, e recebeu dos seus generais a informação de que já não era possível deter coisa alguma: 11 mil trens já rodavam nos trilhos, e ninguém mais conseguiria parar a guerra. Agora o que roda nos trilhos são mísseis e ogivas nucleares – com os EUA já enviando equipamento militar para a Letônia, um funcionário do Ministério de Relações Exteriores da Rússia cogita de instalar mísseis e ogivas nucleares na Crimeia.

Qual a natureza dessa guerra ideológica ; porque seus efeitos irradiam tanta instabilidade?

Acima, delineamos a tradição burkeana. É tradição que tem raízes profundas no conservadorismo norte-americano, mas, como na Grã-Bretanha, sua força está acabando: o movimento não tem nenhum advogado contemporâneo articulado e está na defensiva.

O principal antagonista dos conservadores burkeanos nessa “guerra” intestina, a orientação neoconservadora, deve muito de sua doutrina a Carl Schmitt – filósofo alemão próximo do Partido Fascista – que delineou precisamente esse projeto ideológico muito amplo (que os burkeanos e os liberais clássicos detestam). Schmitt assistiu ao desmonte da República de Weimar, que ele via como incapaz de se autodefender contra o liberalismo clássico, e a qual, na avaliação de Schmitt, fizera o serviço de sapa contra as defesas do Estado, por sua incapacidade para compreender a natureza do poder e por causa do desprezo inato que o liberalismo sente pelo trabalho de empunhar e acionar sem piedade o poder (amoral). Feitas as contas, argumentava Schmitt, a sobrevivência de um estado depende de sua vontade e de sua habilidade para usar o poder e eliminar quaisquer competidores potenciais ou inimigos, sem comiseração.

Essa convicção ajuda a explicar por que os neoconservadores – como o professor Walt observou – nunca admitem algum fracasso, nunca perdem desculpas e só seguem atropelando. A capacidade dos EUA não apenas para projetar, mas também a disposição para usar, o poderio militar praticamente corresponde, ponto a ponto, em termos mais gerais, aopoder; se os EUA não fizerem assim, darão prova de fraqueza, estarão em declínio (como a República de Weimar) – segundo a visão neoconservadora Schmittiana.

Para ser efetivamente exercido, o poder tinha de ser concentrado num executivo tomador de decisões, e assim surge a muito repetida frase de Schmitt:

(...) a verdadeira soberania (poder) está com quem decide sobre as exceções.

Schmitt elaborou sobre a importância da excepcionalidade incorporada em lei, e a favor de o verdadeiro poder executivo exigir o enfraquecimento do Parlamento e do Judiciário (nos dois casos como objetivo em si mesmo, mas também para que nada ofusque a excepcionalidade do poder executivo perante a lei – lei a qual só se aplica aos outros). Esse legado (associado aoethos norte-americano de quem se sente fundador de uma Nova Jerusalém) ajuda a explicar a insistência dos EUA a favor do excepcionalismo legal. É puro Carl Schmitt.


O poder também exige um polo oposto em torno do qual possa ser constituído e em torno do qual seja possível reunir as massas e mobilizá-las: o poder sempre exige um inimigo. Exige inimigo inequivocamente mau, a ponto de os liberais nunca se atreverem a sugerir que fosse possível entabular qualquer tipo de negociação com ele (por exemplo, o Islamismo), ou tão mau que jamais pudesse ser autorizado a tentar atrair para si sequer um mínimo de simpatia popular.

A influência básica exercida por Schmitt sempre foi escondida sob o tapete (por motivos óbvios). Mas mediante seus seguidores e seguidores schmittianos de Leo Strauss (embora o próprio Strauss não fosse integralmente schmittiano), o pensamento de Carl Schmitt teve enorme influência (por exemplo, nos governos de Reagan e de Bush Filho).

A Escola de Chicago, principal fonte de transmissão daquele pensamento, acrescentou a ele a “grande ideia” paralela: a noção neoliberal de governança econômica global, a ser obtida graças ao controle que os EUA exercem sobre a moeda mundial de reserva, a influência dos EUA no FMI e no Banco Mundial e o compromisso da Ordem Internacional com a restruturação, a desregulação e a privatização neoliberais.

Mas isso também, à sua maneira, tinha a ver com poder (o elemento comum com o neoconservadorismo). Embora disfarçado sob uma linguagem de mercados livres, o neoliberalismo é efetivamente uma estratégia de acumulação (mediante práticas como a privatização e a financeirização) para trazer o controle econômico e financeiro global de volta para o controle soberano dos EUA. Dessa maneira, a proclamada “liberdade” dos livres mercados operou “primariamente como um sistema de justificação e legitimação para qualquer coisa que tenha de ser feita para alcançar esse objetivo”. Mais recentemente, o Tesouro dos EUA armou o sistema financeiro global para acionar mais firmemente as alavancas políticas dos EUA, para controle e coerção. 

Por alguma estranha alquimia, o neoconservadorismo schmittiano atraiu especialmente e foi promovido por gente que inicialmente fora influenciada por ideais de Trotsky tanto nos EUA como na Europa (incluindo Tony Blair, que disse que o livro que mais o influenciara e o levara para a política teria sido a biografia de Leon Trotsky, escrita por Isaac Deutscher, de 1958). O fundador da conhecida revista neoconservadora Public Interest, Irving Kristol, e os coeditores Nathan Glazer, Sidney Hook e Albert Wohlstetter, também foram ou membros ou muito próximos da esquerda trotskista no final dos anos 1930s e início dos 1940s.

O que os conservadores mais velhos e mais jovens absorveram do seu passado socialista foi um conceito idealista de internacionalismo – explica  John Judis em Foreign Affairs – Os neoconservadores que passaram pelos movimentos trotskista e socialista passaram a ver a política externa como uma cruzada, cujo objetivo seria primeiro o socialismo global, depois a democracia e, por fim, o capitalismo democrático. Jamais viram a política externa em termos de interesse nacional ou equilíbrio do poder. O neoconservadorismo foi uma espécie de trotskismo invertido, que buscava "exportar democracia", nas palavras de [Joshua] Muravchik, assim como Trotsky originalmente visava a exportar socialismo. 

Aí se vê o alcance da “grande ideia” de Schmitt: não surpreende que os russos (e grande parte do Oriente Médio) desconfiem tão profundamente (e não se sintam absolutamente confortados) pelas vozes burkeanas reminiscentes, embora enfraquecidas.

É absolutamente claro que essa “guerra interna”, dentro da esfera conservadora anglo-europeia toca a própria essência da civilização ocidental. Essa guerra redesperta paixões profundas: a luta pelas liberdades civis; a luta dos partisans contra o fascismo. Toca também nos movimentos políticos no sul da Europa que lutam contra a “austeridade” e o “sistema”. Essa “guerra interna” tem tudo para se revelar disputa feia e amarga, que pode fazer rachar profundamente o ocidente e semeará muito mais amplamente o caos.
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Nota dos tradutores

[1] O autor faz aí uma espécie de citação “por perversão” do pensamento trotskista original. Os “termos trotskistas” a que ele faz referência são:

É necessário ajudar as massas, no processo de suas lutas cotidianas, a encontrar a ponte entre suas reivindicações atuais e o programa da revolução socialista. Esta ponte deve consistir em um sistema de REIVINDICAÇÕES TRANSITÓRIAS que parta das atuais condições e consciência de largas camadas da classe operária e conduza, invariavelmente, a uma só e mesma conclusão: a conquista do poder pelo proletariado(Leon TROTSKY, Programa de Transição, 1938).

Evidentemente, as pontes conservadoras e neoconservadoras são pontes de natureza essencialmente diferentes, que partem de pontos diferentes, vão para pontos diferentes e visam a objetivos diferentes. Vale aí o que Trotsky também ensina no mesmo Programa:

A social-democracia não tem necessidade desta ponte, porque, de socialismo, ela só fala nos dias de festa.

No trecho final do artigo explica-se o incômodo que essa citação “por perversão” causou aos tradutores, como causará a muitos, no início da leitura.

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[*] Alastair Crookeàs vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio.

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[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

O que o “The Colbert Report” ensinou-nos sobre a psicologia dos conservadores

18/12/2014, Leslie SavanThe Nation,
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Entreouvido na quitanda da Chica Véia, na Vila VuduSe fascistas sinceros toscos como, dentre outros, William Waack, Jô Soares e Renata Loprete e akelas “véias do Jô” fossem mais inteligentes, menos arrogantes, melhores profissionais e menos sinceros fascistas, saberiam que nem “noticiários” nem “programas de entrevistas” nem “jornalistas” enganam todos, todo o tempo. Os que mais e melhor enganam, contudo, são e sempre serão os que consigam manter-se a salvo da armadilha do fascismo sincero, profundo, denso, negro, viscoso, nojento, grudado como carne podre na alma deles e que se vê na cara, na voz – indisfarçável, que quanto mais eles tentam disfarçar, mais aparece, e que faz deles jornalistas & jornalismo nos quais nem a mãe deles confia(ria).

Colbert sabe fazer. E quando se vê um que sabe fazer (como farsa), vê-se com mais clareza o que os williamswaacks pensam que fazem (como tragédia) :-D)))))))

A cambada “jornalística” do mundo das ideias fora do lugar está decifrada.

Resta saber que utilidade terá o tal “jornalismo” no mundo das ideias cada uma no seu lugar, depois de passado o swell da ideologia [pano rápido].


Stephen Colbert
Ninguém supôs que Stephen Colbert, o personagemduraria tanto. Aquele tom moralista, direitista, autocomplacente, autoelogiativo, grandiloquente, metido a “ético” [cróóóóóóóóózes! O tom do Colbert, em programa cômico, é exatamente igual ao tom dos “jornalistas” do Grupo GAFE (Globo-Abril-FSP-Estadão), querendo falar sério! :-D)))))) (NTs.)] um maneirismo que se aguentaria, no máximo, por um, dois anos.

Como o próprio Colbert disse na 2ª-feira (15/12/2014), a Michele Bachmann, que está saindo, aposentada: “O tempo voa, Michele, como voa! Não posso acreditar que você mantém essa empáfia de conservadora racista, já, por oito anos... Oito anos!”.

Mas já lá vão oito anos, e Colbert nunca parou de nos fazer lembrar que a política – sobretudo a política conservadora (para conservar) é puro espetáculo, não passa de um tipo de desempenho cênico.

Para esse último show, o Grim Reaper vai tirá-lo da bancada. É o que se sabe. Mas se deve agradecer pela longevidade do programa, pelo menos em parte, aos reinados muito mais longos de suas fontes de inspiração [“Papa Bear” Bill O’Reilly, claro, mas também Sean Hannity, Rush Limbaugh, Steve Doocy e a própria forma mentisda Fox News].

Também se pode agradecer por esses últimos nove anos à própria “coisa” que os tornava tão improváveis: como personagem, não só como mero crítico, da direita, Colbert guardava com ele uma raríssima chave que lhe permitia decifrar o enigma do conservadorismo moderno:Como é possível que essa gente continue a safar-se, fazendo sempre o que sempre fez? Por que tantos conservadores converteram-se em perfeitas cavalgaduras, racistas, militantes do ódio, negadores da ciência e da realidade? Os eleitores nem sempre concordam com aquelas políticas deles, mas... continuam a elegê-los. Por quê?

Nós progressistas batemos cabeça na parede contra a ausência total de lógica no que eles dizem e fazem, e frustrados, só fazemos berrar a única explicação que encontramos “São doidos... Esses caras são malucos... São LOUCOS!”.

Em vez de tentar usar a chave de fora para dentro da muralha – como mais críticos da direita deveriam também aprender a fazer, Colbert mete e gira a chave de dentro para fora da muralha, por falsa que seja a chave que ele encontrou e domina. Porque aprendeu a habitar o interior da cabeça dos conservadores servindo-se do seu personagem, Colbert conseguiu mostrar, quatro noites por semana, como funciona a psicologia da direita reacionária.

E foi assim que em seu último segmento “Inimigo Formidável” [Formidable Opponent, o Stephen direitista iradíssimo, furioso, indignado com tantas ‘calúnias’ disse que os EUA jamais torturaram. O Stephen mais moderado contra-argumentou que já não havia como desmentir. Que o Relatório do Senado comprova que sim, torturaram. Ao que o primeiro Stephen respondeu:

“Ah, mas eu não estou falando do país real! Estou falando da idéia de EUA. Aidéia de EUA nunca torturou ninguém. Por isso, meu amigo, é que escolhi viver aqui, na idéia de EUA”.

É impossível assistir a esse tipo de personagem, que se ancora nessa franqueza sem véus, sem sentir alguma simpatia por ele e, claro, também pelo próprio conservadorismo.

Colbert expressou essa simpatia mostrando que, por baixo da afirmação de onipotência e certeza-sem-fim do personagem, há uma fraqueza, um fundo falso instável, enterrado em praticamente todos os bolsonaros e seus porta-vozes televisionais.

Enquanto não para o aplauso, Sininho continua. Se os acenos de concordância param, a força acaba. Se você para de correr na mesma direção em que vai a manada, você está morto, esmagado.

Todas as noites, o personagem Colbert blinda-se completamente para andar pelo fio reto e estreito onde o medo não existe. Quanto mais se faz de valentão, menos se vê que não passa de bebezão covarde. (Nisso o personagem mais próximo de Colbert seria Lawton Smalls, velho personagem direitista de Marc Maron que caía em lágrimas quando não conseguia salvar suas fantasias políticas); vídeo a seguir:


Vez ou outra, Colbert escondia-se sob a mesa, ou punha-se aos berros (porque temos de extinguir da face da Terra todos os ursos!) “Ursos”, como se sabe, significa “Rússia”, mas também o comercial de Reagan “Bear in the Woods, ou mesmo, “Papai Urso” [Bill O’Reilly]; vídeo a seguir:


Mas o mais provável é que o medo de ursos, em Colbert, fosse medo do medo em si, um terror irracional de algo que jamais vimos, com o que jamais cruzamos, como painéis da morte do Obamacare ou bandidos que saem do mato para receber armas que os EUA lhes enviamos. Será que levam para entregar lá a “Doçura”, a pistola que Stephen acaricia e que, tanto quanto se conhece é o único interesse amoroso sério da vida dele [como na de tantos bolsonaros, né-não?]. 

Mais frequentemente, porém, Colbert cavalga destemido sempre avante, sem retroceder, enunciando os maiores absurdos, sem tomar conhecimento de problemas e consequências. Era o traço “Inspetor Clouseau” de Colbert. É a impenetrável inocência do personagem e o coração do ator que combinam, me parece, para gerar tanta afeição, amor, de fato, por Colbert.

Sempre disse que aprecio Jon Stewart (e, sim, aprecio muito, muito, John Oliver), mas AMO Stephen. Rio tanto, tanto, que choro. Ao chorar, saio do plano “crítico” e me redimo.

Pensa-se em geral que Stewart faz a sátira política que bate mais forte. Mas Colbert, sob um fino véu de ficção, pode, sim, morder muito mais fundo. Colbert de fato é uma ameaça a O’Reilly – que dá sinais ativos de que não gosta dele –, e O’Reilly e Stewart apoiam-se mutuamente.

Colbert também faz coisas mais próximas do ativismo conservador que Stewart tanto despreza. Como quando Colbert depôs numa subcomissão de Justiça da Câmara de Representantes a favor de garantias para empregos de norte-americanos, em vez de proteção à mão de obra de imigrantes. Ou quando, num dos momentos mais brilhantes da comédia em todos os tempos, foi mestre de cerimônias do Jantar dos Correspondentes da Casa Branca em 2006; vídeo a seguir:


Ali, a um passo do presidente George W. Bush, Colbert, o personagem, disse:

Não somos assim tão diferentes, ele [o presidente] e eu. Chegamos lá. Não somos cérebros, a patrulhar nerds. Não somos da gangue do facticídio. [Apontando para o dono da Fox, presente: “Direitos autorais são meus! Se fizerem isso, processo a Fox!”]. Nós dois falamos com as tripas, certo, senhor presidente? A maior coisa sobre esse homem é que ele é firme. Você sabe o que ele defende. Acredita sempre na mesma coisa, na 4ª-feira, que acreditava na 2ª-feira, não importa o que aconteceu na 3ª-feira. Eventos mudam. Esse homem, nunca!

Mas Colbert mordeu ainda mais profundamente nos jornalistas presentes, os quais, como se soube depois, não acharam graça nenhuma:

Ao longo dos últimos cinco anos, vocês foram ótimos – a favor de cortar impostos que só ricos pagam, aquela inteligência toda sobre armas de destruição em massa, a favor do aquecimento global. Nós norte-americanos não queríamos saber, e vocês nos fizeram a gentileza de nada investigar e nada descobrir. Bons tempos aqueles... pelo menos foi o que vocês disseram.

Mas, escutem... Vamos acertar essas regras. As coisas funcionam do seguinte modo: o presidente decide. Eis o Decididor-em-chefe. O secretário de imprensa só anuncia aquelas decisões, e vocês, turma ‘da mídia’, só digitam aquelas decisões. Decidir, anunciar, digitar. É passar lá o corretor ortográfico e ir p’rá casa. Localizem a família de vocês. Façam sexo com a mulher de vocês. Escrevam aquele romance que vive chutando dentro da cabeça de vocês. Lembram? Aquele, sobre o intrépido jornalista em Washington que tem coragem de investigar. Sacomé... E vão ganhar a vida vendendo FICÇÃO.

Não se sabe se o Stephen Colbert de ficção diria alguma coisa desse tipo a convidados do The Late Show.Mas nunca se sabe. Já nos surpreendeu antes.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

EUA: neoconservadores não foram eleitos... mas governam

17/11/2014, [*] Robert ParryConsortium News.com
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu


Essas políticas “antiguerra” de Putin [na Síria e no Irã] implicam oposição ativa, contra a agenda dos neoconservadores – que nunca desistem de tentar golpes para “mudança de regime” em todos os países que eles considerem hostis a Israel.


Obama e seus "neocons" na Sala Oval da Casa Branca
Num sistema político racional, os neoconservadores norte-americanos seriam o grupo mais desacreditado e desmoralizado de toda a moderna história dos EUA. Se já não estivessem condenados por cumplicidade em crimes de guerra – da América Central nos anos 1980s ao Iraque, na década passada – no mínimo não seriam, num sistema político racional, repetidamente elogiados por intelectuais de renome em think tanks importantes, nem seriam ativamente promovidos como sumidades e nomes dignos de respeito e reverência, aos quais os grandes veículos da imprensa-empresa norte-americana entregariam a palavra, como colunistas sempre convidados e reconvidados.

Mas os EUA não vivem hoje sob sistema político racional. Em vez de denunciados, processados e condenados, ou de serem postos no ostracismo, os neoconservadores continuam a dominar a política externa da Washington Oficial. Os neoconservadores e seus assessores “intervencionistas liberais” continuam a demonizar líderes “inimigos” – exatamente como fizeram no caso da América Central e do Iraque – e a atacar quem manifeste qualquer dúvida, declarados “fracos” se não embarcam na canoa deles.

E a imprensa-empresa dominante nos EUA, liderada por The New York Times, Washington Post e assemelhados alinha-se com eles sem qualquer resistência ou já é realmente dirigida por neoconservadoresNa sequência, os políticos eleitos, mesmo os que já deveriam saber como opera essa máquina, como o presidente Barack Obama, não se atrevem a afastar jornalistas influentes ou “formadores de opinião” prestigiados pela própria empresa-imprensa. Assim, para se fazerem de “durões”, acabam, também os políticos eleitos, por reforçar os temas dos neoconservadores.

Na altura em que estamos dos acontecimentos, seria terrivelmente simplório e ingênuo esperar que o presidente Obama venha ainda a demonstrar alguma real liderança e repudie o “pensamento” neoconservador em ampla gama de questões, dentre as quais as gravíssimas situações que os EUA criaram no Irã, Síria, Iraque, Rússia e Ucrânia.

Mas paremos por um minuto, só para imaginar o que teria acontecido se o presidente Obama tivesse seguido o aconselhamento dos neoconservadores, ano passado, para atacar massivamente a Síria, deixando-se convencer por acusações sem qualquer fundamentosegundo as quais o governo sírio teria sido responsável por ataque com gás sarín.
Síria - falsas acusações de uso de armas químicas pelo governo de Bashar al-Assad

Por mais que o “pensamento” da Washington oficial insista que de algum modo, por efeito de mágica, a oposição “moderada” síria (que, de fato, não existe) teria assumido o poder e tudo teria saído magnificamente bem, o resultado mais provável daquele ataque, se tivesse acontecido, teria sido que islamistas radicais, fosse o Estado Islâmico ou a Frente al-Nusra da al-Qaeda, teriam tomado o poder. A bandeira negra dos jihadistas poderia ter sido vista a tremular sobre Damasco.

Nesse caso, aconteceria o quê? O ocidente admitiria que a Síria, no coração do Oriente Médio, permanecesse governada pela al-Qaeda, ou pelo Estado Islâmico, ainda mais extremista? E mais: sem o governo secular de Bashar al-Assad, seria de esperar e temer que acontecessem massacres horríveis de cristãos, xiitas, alawitas e outras minorias que apoiam o governo de Assad.

Europa e EUA fariam o quê, nesse caso? Deixar-se-iam ficar de lado, só observando? Cresceriam os clamores para que Obama fizesse “alguma coisa”. E então, naquelas circunstâncias, a única “alguma coisa” a fazer seria intervenção militar pelos EUA, em grande escala, o que significaria mobilizar centenas de milhares de soldados e centenas de bilhões de dólares, sem qualquer possibilidade realista de sucesso.

Como chegamos a esse ponto

É preciso não esquecer como os EUA chegamos a esse ponto. Não havia qualquer Al-Qaeda no Iraque ou na Síria, antes de o presidente George W. Bush embraçar o esquema alucinado dos neoconservadores para invadir e ocupar o Iraque em 2003. O brutal Estado Islâmico cresceu no Iraque, como a Al-Qaeda-no-Iraque, como movimento de resistência contra a ocupação militar norte-americana.

Sob a liderança do extremista jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, a Al-Qaeda-no-Iraque desenvolveu estratégia ultraviolenta, operando sempre com extrema brutalidade, inclusive com massacres de xiitas e ocidentais, como meio para expulsar de terras dos muçulmanos todas aquelas forças pressupostas heréticas.

Zarqawi foi assassinado num atentado terrorista levado a efeito pelos EUA, em 2006, mas sua estratégia sobreviveu, inspirando a crueldade sem limites que se vê ativada hoje no Estado Islâmico, e ao qual até a Al-Qaeda já renunciara, a favor de sua afiliada síria preferida, a Frente al-Nusra.

Abu Musab al-Zarqawi
Assim sendo, se os neoconservadores não tivessem conseguido impor, há uma década, seu “projeto” de invadir e ocupar o Iraque – com o apoio entusiástico de jornalistas e políticos carreiristas profissionais da imprensa-empresa “liberal” norte-americana – é bastante provável que não houvesse hoje as crises do Iraque e da Síria. Pois mesmo assim, a Washington oficial continua a obedecer cegamente a um consenso comandado pelos neoconservadores, sobre tudo que deva ser feito no Oriente Médio e em outras partes do mundo.

Claro: a situação hoje é de tal gravidade e de tal modo confusa que é difícil decidir qual o melhor curso de ação a adotar. Mas qualquer política racional ou sistema racional de fazer política obrigariam a descartar o aconselhamento e todas as opiniões dos “pensadores” que criaram toda essa desgraça.

Pois em vez de serer mandados ajoelhar no milho no canto da sala, com orelhas de burro, os neoconservadores ganharam ainda mais espaço, para ampliar o campo de suas operações! Agora já estão intrometidos no conflito na Ucrânia e na decisão de converter o presidente Vladimir Putin em absoluto Satã, para tentar justificar uma nova Guerra Fria.

Os neoconservadores iniciaram sua estratégia geopolítica soprando as brasas da guerra na Ucrânia, sabendo da sensibilidade dos russos às questões de segurança. Os neoconservadores decidiram que a Ucrânia e Putin seriam seus alvos diretos em setembro de 2013, quando Putin ajudou Obama a evitar um bombardeio aéreo contra o governo sírio.
Carl Gershman, presidente da NED
O plano chegou a ser anunciado por neoconservadores norte-americanos como o presidente do National Endowment for Democracy [lit. Dotação Nacional para a Democracia], Carl Gershman, que se serviu da página de colunistas convidados do Washington Post, jornal que é a nave-madrinha dos neoconservadores, para declarar que a Ucrânia seria “o grande prêmio” e degrau importante para, no futuro, derrubar Putin da presidência da Rússia.

Gershman, cuja Dotação Nacional para a Democracia é mantida e paga pelo Congresso dos EUA, escreveu:

A decisão da Ucrânia de unir-se à Europa acelerará o fim da ideologia do imperialismo russo que Putin representa. (...) Os russos também terão de fazer escolhas, e Putin pode acabar se vendo na ponta mais fraca, não só em relação aos vizinhos próximos, mas também dentro da Rússia.

Em outras palavras, desde o início Putin foi o alvo do ataque norte-americano, na crise ucraniana, não o instigador de qualquer crise. Mas ainda que se ignore que Gershman obra na direção de promover um golpe contra Putin, ainda assim seria preciso construir e acreditar numa rocambolesca conspiração, antes de engolir a ideia de que Putin estaria tramando terrível “agressão” contra a Ucrânia, como primeiro passo no projeto de reconstruir o Império Russo.

Sochi distraiu a atenção de Putin

Verdade é que, quando eclodiu a crise ucraniana, em fevereiro de 2014, Putin estava distraído, ocupado com os Jogos de Inverno em Sochi – e apoiava o status quo na Ucrânia, vale dizer, o governo eleito do presidente Viktor Yanukovych, sem qualquer “projeto” de ampliar o território russo para dentro da Ucrânia.

Vladimir Putin em Sochi (24/2/2014)
Quem apoiava declaradamente a derrubada do governo constitucionalmente eleito na Ucrânia eram EUA e União Europeia, não Putin! Os promotores do golpe na Ucrânia eram neoconservadores norte-americanos conhecidos, como Gershman; a secretária-assistente de Estado dos EUA para a Europa, Victoria Nuland; o senador John McCain.

Esses são fatos conhecidos, sobre os quais já não há qualquer dúvida. Foram plenamente reconhecidos até por Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, que disse em entrevista à revista alemã Der Spiegel:

Putin gastou bilhões de dólares nos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi. Otema daqueles jogos foi a Rússia como estado progressista ligado ao Ocidente pela cultura, e estado o qual, presumivelmente, deseja permanecer como parte do ocidente. Não faz sentido algum que, uma semana depois de encerrados os Jogos Olímpicos, Putin inventasse de tomar a Crimeia e iniciar uma guerra pela Ucrânia.

Em outras palavras, Putin realmente quer cooperar com os EUA e com o ocidente, o que demonstrou em dois casos cruciais: ao conseguir que a Síria entregasse seu arsenal químico e ao encorajar o Irã a aceitar um acordo temporário sobre a limitação de seu programa nuclear.

Essas políticas “antiguerra” de Putin [na Síria e no Irã] implicam oposição ativa, contra a agenda dos neoconservadores – que nunca desistem de tentar golpes para “mudança de regime” em todos os países que eles considerem hostis a Israel. Assim, Putin, com sua colaboração por trás dos bastidores com Obama, para encontrarem soluções políticas nas questões de Síria e Irã tornaram-se ameaças contra o objetivo máximo dos neoconservadores, ou seja, mais e mais guerrasPor isso Putin tornou-se o alvo de todos os neoconservadores.

Victoria Nuland, agente provocadora do Golpe de Estado na Ucrânia
Na sequência, a imprensa-empresa ocidental de notícias e virtualmente todos os líderes políticos do ocidente abraçaram a narrativa neoconservadora segundo a qual a crise na Ucrânia teria sido culpa integral de Putin e da Rússia, seja no grande contexto como em cada incidente, inclusive no massacre, promovido pelo governo de Kiev, de milhares de russos étnicos. Nos termos do duplipensar do “ocidente”, se Putin não tivesse provocado a crise, aquelas pessoas não teriam morrido.

E assim o golpe apoiado pelos EUA contra o governo de Kiev obteve uma espécie de “indulgência plena” para toda sua brutal operação contra russos étnicos no leste e no sul da Ucrânia, que resistiram contra o golpe que derrubou o presidente Yanukovych que eles haviam elegido, e contra a imposição de uma “nova ordem” que visa, mais uma vez, a impor as duras medidas de “austeridade” e “reformas” ordenadas pelo FMI.

Quando russos étnicos na Crimeia votaram em plebiscito a favor de se separarem da Ucrânia e de serem reintegrados à Rússia – reintegração que Moscou aceitou, depois do resultado do plebiscito – a imprensa-empresa ocidental pôs-se a desqualificar o referendo e a acusar a Rússia de ter “invadido” a Crimeia. A verdade é que sempre houve tropas russas na Crimeia, nos termos do contrato que autorizava a manutenção, em Sebastopol, de uma base naval russa.

Quando a “operação antiterrorista” do novo governo de Kiev matou milhares de russos étnicos no leste – e para esse fim recrutou até milícias neonazistas para fazerem o pior do serviço imundo – a imprensa-empresa neoconservadora nos EUA ou ignorou a brutalidade da ação, ou deu jeito para culpar Putin e a Rússia.

E o avião derrubado? Procurem o criminoso

Dia 17 de julho/2014, quando o avião da Malaysia Airlines que fazia o voo 17 foi derrubado sobre o leste da Ucrânia, o governo de Kiev, a Washington oficial e as redes de televisão correram a “noticiar” que os rebeldes teriam assassinado 298 passageiros do tal avião – o que só teria sido possível, porque a Rússia teria fornecido aos terroristas mísseis antiaéreos suficientes para derrubar um avião de passageiros que voava a 33 mil pés de altitude.

MH-17, antes e depois de derrubado pela Força Aérea da Ucrânia
Pouco depois de o avião ter sido derrubado, comecei a ouvir comentários indiretos, de analistas de inteligência dos EUA, que a investigação já sugeria fortemente outra direção, que não havia prova alguma de que os russos tivessem fornecido a alguém aquele armamento sofisticado; e que as suspeitas aproximavam-se de elementos extremistas dentro do governo ucraniano. Depois, ouvi a informação de que o presidente Obama já sabia disso tudo.

Mas Obama não se deu o trabalho de corrigir nem, sequer, de atualizar os informes para a opinião pública. Por que desperdiçar peça tão útil de propaganda? Além disso, pode ter tido medo de ser taxado de “mole”, contra Putin, por não repetir a sabedoria pressuposta dos “durões” de Washington, para os quais Putin é culpado de todos os males, sempre. Obama continuou, até, a deixar implícita a ideia de que a Rússia teria, sim, algo a ver com a atrocidade.

Falando na Austrália, dia 15 de novembro de 2014, Obama deixou a impressão de que os russos seriam culpados, e insistiu no mote autoelogiativo e autocongratulatório de “EUA acima de todos”, que os neoconservadores tanto prezam. Ainda há poucos dias, Obama disse que:

(...) trabalhamos na oposição à agressão russa contra a Ucrânia – que é ameaça ao mundo, como se viu na ação aterrorizante que derrubou o voo MH17, tragédia que roubou a vida de muitos inocentes, dentre os quais, cidadãos australianos. Como aliados e amigos, os EUA partilham o luto dessas famílias australianas e partilham a determinação de sua nação em busca de justiça e transparência.

Se se examinam com atenção as palavras de Obama, vê-se que ele não culpa a Rússia, declaradamente, pela derrubada do MH-17... mas deixa aberta a porta para uma inferência nessa direção. É mais que claro que a esperança vai-se esvaindo – se ainda houvesse alguma esperança – de que Obama aproveitasse a oportunidade pós-eleições, para delinear abordagem mais honesta e mais realista para a política externa dos EUA.

Obama parece conformado com seguir ordens dos neoconservadores, embora vez ou outra relutantemente e possivelmente se desviando alguns passos das políticas mais extremas, sempre no último momento – como quando decidiu não bombardear a Síria, no verão de 2013.

Mas há perigos graves em Obama não informar aos norte-americanos, com honestidade, sobre o que sabe de todas essas crises. Ah, sim, com certeza seria criticado pelos insiders da Washington oficial e ouviria mais acusações, pelos Republicanos, de “fraqueza” e de que teria “capitulado”.

Mesmo assim daria, pelo menos à parte que pensa da população dos EUA, uma chance de resistir ao próximo desastre, que já se avizinha, pelo script dos neoconservadores.
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[*] Robert Parry (nascido em 24/6/1949) é um jornalista investigativo norte-americano muito conhecido por seu papel na cobertura do Caso Irã-Contras para a Associated Press (AP) e Newsweek, inclusive quebrando o sigilo do Psychological Operations in Guerrilla Warfare ( Manual da CIA fornecido aos Contras da Nicarágua) e por ter descoberto o escândalo do Tráfico de cocaína CIA e Contras nos EUA em 1985. Foi agraciado com o Prêmio George Polk como o melhor Repórter Nacional em 1984. Edita o sítio Consortium News desde 1995.